CAPÍTULO II

PROMETHEE


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O homem em sua armadura de platina e ouro que se encontrava num ponto alto de uma das ruínas saltara em direção à rua, ficando uns 10m de Klahan que ainda se mantinha como escudo do garoto – encolhido por baixo de suas vestimentas temeroso e sem entender o que acontecia. Os dois homens ficaram se encarando por alguns instantes, com o vento sendo o único som a ecoar naquela rua levantando um pouco da poeira guardada naqueles prédios caídos, assim como os cabelos bailavam com a barulho da corrente foi ouvido quando o cavaleiro de platina moveu a lança entre suas mãos, com Klahan ainda se mantendo imóvel e com sua face inexpressiva. Apenas a mão mantinha-se sobre o garoto que piscava aturdido meio a tudo aquilo.

Kiet... – disse ele quebrando seu silêncio. – Quero que saia daqui. Busque por um abrigo e fique por lá. O tom de voz de Klahan fora forte e incisivo para o garoto que o fitou assustado, hesitando em sair. O homem à frente de ambos moveu-se dando alguns passos à frente e movendo sua lança, intimidando o garoto que se encolheu mais atrás de Klahan que o insistia para que fosse embora. O garoto acatou e correu, no instante em que aquele homem sorriu e fizera um movimento ameaçando um ataque, mas impedido por algum bloqueio da qual não compreendeu de onde vir até ouvi algo – Ohm!– permitindo que o garoto desaparecesse entre as ruínas. – Não pense que deixarei fazer algo contra o garoto. – disse em emoção na voz. – Ainda me disse quem é você.

O homem sorriu, fechando os olhos. Seu cosmo emanou fortemente, e num rápido e violento movimento com sua lança era como se 'cortasse' a barreira que o impedia de se mover. Ele abriu os olhos com um largo sorriso no rosto e rindo daquilo. – Que patético! Achava mesmo que essa sua barreira poderia me impedir de fazer algo com aquele moleque? Não tenho interesse em crianças. As minhas ordens são para com você, Klahan. – disse ele rindo daquela cena - Eu sou Kalian de Promethee, Entidade Suprema do Julgamento.

– Promethee…? – há certa hesitação nas palavras de Klahan ao ouvir aquele nome. A sua expressão não se alterara, mas foi perceptível em sua voz. – Veste uma das lendárias armaduras titânicas? Hunf! Sempre pensei que Prometeu tivesse sido aquele que enfrentou os deuses roubando o fogo do Olimpo para os homens. Mas acaso também tenho conhecimento que essa sua proeza fez com que se julgasse no direito de subjugá-los por sua ambição mesquinha e egoísta.

O sorriso que antes havia na face do cavaleiro, tornou-se séria, e seus olhos faiscaram descontentes por aquelas últimas palavras, levando a apertar fortemente a lança que trazia com ele. Dá dois passos a mais pra frente e levantando sua lança, continuando a fitar Klahan com seus intensos olhos azulados e brilhantes. Torceu a boca para o lado em desagrado, mas logo sorriu, ainda que de maneira contida.

Hunf! Os homens são uns ingratos. – disse de maneira fria e arrogante, fechando momentaneamente os olhos e virando o rosto para o lado como se menosprezasse àqueles a quem se referia – Criaturas fracas e infames que ousam renegar aqueles que o criaram. – abre os olhos lentamente, abrindo um meio sorriso - Deveriam dedicar suas vidas a venerar e adorar os deuses para todo o sempre, mas não... – volta a fitar Klahan que se mantinha 'inexpressivo', mas que verdadeiramente estava passível a tudo quer ouvia - Eles precisam se rebelar contra seus criadores. Quem eles pensam que são? Prometheus era um titã, não ouse a compará-lo a esses vermes! – diz com os dentes trincados e incrível desprezo – É uma heresia, uma comparação esdrúxula! Deveria saber disso, Klahan. VOCÊ... – ele aponta sua lança em direção de Klahan não em ameaça, mas como o indicasse somente, enquanto ele se mantinha parado, apenas ouvindo – Foi agraciado pelos deuses e os renegou quando convocado por eles, e por esta negação foi punido severamente por isso... – baixou sua lança e não somente sorria com aquilo como também ria daquela situação. – Porém, ao que parece te concederam uma segunda chance. Parecem que padeceram sua penitência nesse tempo apesar de seu silêncio junto a eles desde então. Quanto a mim, fui escolhido para ser aquele a absolvê-lo da punição que lhe foi dado, mas isso vai depender unicamente de sua resposta. Diferente da primeira vez... – ele levanta sua lança em direção da luz do sol que reflete bem o fio da lâmina, faiscando juntamente com seus olhos – Não serei assim tão piedoso.

Aquelas palavras soaram nitidamente ameaçadoras, fazendo com que Klahan torcesse discretamente os lábios como se enojado por aquelas palavras. Os seus punhos se fecharam ainda mais fortes escondidos nas longas mangas de suas vestimentas que esvoaçavam, assim como de seu oponente, com o forte vento que cruzava a rua – o vento que trazia os lamentos daquele fatídico vilarejo.

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O garoto corria entre as ruínas como havia sido ordenado, encontrando-se longe suficiente de onde estava quando acompanhado de Klahan. Estava ofegante e transpirava muito, além de estar muito assustado com aquilo que assistira: a imagem daquela lança em sua direção e bloqueado por algum escudo invisível o impressionara. Ficara tão aturdido com aquilo que somente foi desperto quando Klahan que o mandou correr dali. Foi como lembrar seu pai mandando-o fugir do caos na cidade naquela noite e empurrado antes que uma das paredes o atingisse. Ele se escondera próximo a um poço, onde ficara por toda aquela noite chorando de medo e desespero. Mais que isso, tudo aquilo lhe parecia muito familiar e o medo veio á tona. Enquanto limpava o rosto das lágrimas, acabou por tropeçar numa pedra, caindo no chão lamacento por conta da neve que derretera pelo calor da manhã.

E-eu... Eu não posso ficar aqui! S Senhor... senhor Klahan... E p-precisa de ajuda...! – lamentou abraçando o joelho ferido e com a voz embargada, olhando para trás como se pudesse avistar a rua da qual fugira e para os lados em busca de uma ajuda impossível. Ninguém arriscava a cruzar aquele vilarejo, sem contar que muitos se assustavam quando ele dizia morar naquela vila e chamando-o de mentiroso. Por mais frio e indiferente que era tratado, Klahan era o único a quem tinha 'companhia' naquele lugar. Olhou mais uma vez aos arredores e viu uma fumaça não muito distante, abrindo um sorriso esperançoso. – O velho Mestre...! – disse ele se levantando com certa dificuldade e correndo até o velho casebre.

Harish há muito vivia naquelas terras, naquele velho casebre, destacado de tudo e de todos. Eram raras às vezes que descia até os vilarejos, mas Kiet o conhecia por algumas vezes vê-lo junto ao templo – diferente de Klahan que conheceu somente após a 'noite da tormenta' que arrasara aquele lugar. O garoto subiu o monte com certa dificuldade e encontrando o casebre, chamando por Harish apenas como 'velho mestre' e entrando abruptamente no casebre que parecia vazio. Apenas uma lenha estalava queimando na lareira próxima. O garoto lamentava que, justamente naquele momento, ele pudesse ter descido a uma das vilas, caindo sentado ao chão. Percebeu um brilho de um canto daquele lugar auxiliado pelas chamas e se aproximou, afastando um pouco o tecido e contemplando uma urna dourada.

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– Por que hesita em responder, Klahan? – indagou Kalian fitando-o com seu olhar arrogante e jogando a lança para apoiar nos ombros e a outra mão sendo levada à cintura.

Diga-me, Kalian... – respondia Klahan quebrando seu silêncio – O que fez você escolher ficar ao lado dos deuses quando foi um dia um 'verme' quanto estes que menospreza? Havia calma nas palavras de Klahan, acompanhado de sua indiferença e frieza enquanto mantinha a cabeça erguida como se olhasse na direção do cavaleiro. Era como se ele assistisse o piscar aturdido e reação de surpresa de Kalian quanto àquela pergunta. – Assim como eu era apenas um homem. Não compreendo essa sua arrogância e menosprezo pelos homens.

Houve um momento de hesitação de ambas as partes, mergulhando-os num silêncio que somente não era total devido ao sopro do vento. Contudo, um sorriso brotou na expressão de Kalian que maneava negativamente quanto àquela questão, rindo de maneira contida e depois se tornando uma gargalhada vil.

Posso ler seu coração, Klahan, e vejo o quanto esse lugar o atormenta. Confesso que assistir a tudo isso me trouxe certa nostalgia... – disse contemplando à sua volta – Na Índia, o vilarejo onde nasci e cresci era um dos mais miseráveis. Diferente de você eu vivia nas ruas sobrevivendo a cada dia com migalhas que precisava buscar nos restos daquela sociedade que me julgava por ser um maldito órfão. Foi quando recebi a graça e me foi concebido o julgamento. – O seu olhar brilha de maneira malévola apesar do azul celeste – Que utilidade tinha aqueles vermes? Acha que me importo com isso? Eles foram apenas julgados por seus comportamentos pífios que nada tinham acrescentar ao plano dos deuses. O mesmo vale para as pessoas deste lugar... – dizia abrindo um dos braços como se apresentasse o vilarejo. Klahan fechava ainda mais us punhos e sua expressão ganhava uma expressão ainda mais dura – Elas estavam interferindo nos planos que tinham para você, e sua negação era prova disso. O seu castigo apenas uniu o útil ao agradável.

Aquelas palavras proclamadas Kalian despertavam um grande descontentamento por parte de Klahan, levando-o a ascender seu cosmo de maneira gradual e circulando seu corpo em lampejos e 'névoas' douradas. A Entidade percebia aquela emanação e que aquilo era resultado de seu discurso, fazendo-o sorrir por conseguir atingir seu propósito. – Então acha que os homens não passam de vermes e por isso pode julgá-los a seu bel-prazer? Que lamentável... – comentou Klahan quanto às palavras Kalian e levando este aguçar seus olhos em direção dele, fazendo seu sorriso desaparecer momentaneamente a sua expressão endurecer. – Não tenho porque minha resposta ser diferente ao daquele dia, e após ouvir esse seu discurso patético apenas me fez ver o quão certo estava em minha decisão naquela ocasião.

Então mais uma vez renega aos deuses, Klahan? Renega-os em pró desses vermes? Piff! – Caçoa Kalian com uma expressão nauseante e maneando negativamente – Julguei você errado. Pensei que sua penitência o fizesse compreender onde de fato é seu lugar, mas parece que eu me enganei... Num movimento ele arremessou novamente sua lança no ar, com a lâmina em direção de Klahan que pressentiu a ameaça. Assim como antes, a barreira se formou à sua volta bloqueando o golpe, mas provocando uma espécie de fissura que o surpreendeu. O choque das duas forças resultou num forte atrito, levando a lâmina emitir uma intensa luz azulada e raios cruzassem e circundassem a barreira. "Essa força... é muito maior que antes...!", pensava Klahan trincando os dentes e suportando aquela força que sobrepujava a sua. A fissura em sua barreira era cada vez maior, trincando a cada instante. Reuniu um pouco mais suas forças e buscou reverter toda aquela energia de volta a Kalian que, percebendo a estratégia, desapareceu retirando sua lança. Klahan caía ajoelhado e estafante e buscando pelo inimigo que pareceu simplesmente desaparecer.

Levantou-se buscando a presença da energia à sua volta, mas era como se tivesse desaparecido. Sabia que não havia atingido Kalian porque ele retirara sua força antes de revidar o seu ataque. Nesse momento, sentiu o chão sob seus pés queimarem, surgindo um círculo de fogo à sua volta que mais parecia uma barreira impedindo de se mover. Kalian surgiu como se rasgasse um plano e sorrindo para Klahan, percebendo o quanto ele estava surpreso e assustado.

A sua barreira se mostrou suficiente contra minha lança, sendo tão defensiva quanto ofensiva, mas será que ela é capaz de sobrepujar as minhas Chamas Divinas? Sorri de maneira maléfica e observando Klahan tentando se mover, mas parecia sentir os pés e as mãos amarradas enquanto aquele calor parecia queimar seu corpo, ainda que as chamas não o tocassem. – Vou torná-lo um exemplo de que não se deve virar às costas para os deuses, Klahan!

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Continua...