Parte 3

Honey Why Can't You Tell? Leave Me Out.

David está com tudo empacotado e pronto para partir.

Ele está no aeroporto de algum estado dos Estados Unidos, cujo nome ele não se importou em registrar.

Mas a turnê havia finalmente terminado e ele não tinha falando com seus colegas de banda mais do que duas vezes no mês todo.

E ele está além de qualquer dor que já tenha sentindo antes. Isso está matando-o. Seu coração, que ele pensou que estava mais do que quebrado, estava para se quebrar ainda mais.

Ele está desistindo de seus amigos, sua vida, seu amor e isso machuca; machuca tanto, mas ele não pode ficar e sabe disso, mas ele queria já poder estar entorpecido.

Mas ele sabe que não pode conseguir isso, ele não pode conseguir esse alívio até que esteja longe, bem longe de qualquer coisa que possa ligá-lo a quem ele era. Por que ele não é David mais, ele é a carapaça que uma vez o conteve, mas nada mais.

Tudo o que ele havia sido estava morto, ele nem mesmo se sente vivo mais, tudo o que ele sente é dor, uma interminável e enfraquecedora dor, e essa é a única coisa que o permite saber que ele está vivo.

E é por isso que ele precisa se afastar, porque ele quer se sentir entorpecido, ele quer esquecer toda a dor e apenas existir sem ela, e ele sabe, ele malditamente sabe que estando entorpecido é onde ele vai ficar.

Ele vai ficar lá, preso entre a vida e a morte e isso é o que ele quer. Ele apenas quer a porra de uma pausa em toda essa agitação, destruição e lágrimas.

Ele tem estado despedaçado, quebrado, rasgado e, lenta e dolorosamente costurado junto novamente, mas essas costuras estão se abrindo e ele pode apenas senti-las se partindo, o partindo.

Mas ele está quase livre e praticamente tremendo com o fato de que ele logo vai estar em um avião, longe de tudo e desaparecendo de todos, porque assim como ninguém tinha nenhuma maldita idéia do que estava errado, eles também não tinham idéia de para onde ele estava indo.

E isso é o que ele quer, ser deixado sozinho, ficar longe de todos que nunca notaram todas as vezes que ele estivera tão machucado; ele só tremia e chorava e ninguém sequer sabia.

E se ele não estivesse tão quebrado, se ele não estivesse tão machucado, então ele provavelmente ficaria bravo com eles, mas ele está chateado demais, porque como pôde ninguém ter notado que ele estava chorando?

Como ninguém havia notado que ele estava chateado até que ele dissesse que estava indo?

E ele só quer perguntar a eles, mas nem pode mais falar. Sua garganta está tão comprimida, que foi preciso toda a sua força para cantar suas partes no palco e parecer feliz e okay em todas aquelas entrevistas, quando ele apenas queria se curvar numa bola e fazer isso tudo parar.

Mas ninguém entende isso e a banda vem tentando fazê-lo ficar, mas ele não consegue falar com eles. Porque falar com eles faz doer tão mais e ele não pode agüentar isso.

E, então, há Pierre, que parece tão machucado toda vez que vai falar e não pode, porque não quer que ele parta ainda e isso está matando David.

Porque ainda que ele não possa ficar, ele quer agarrar Pierre e nunca soltá-lo, mas ele não pode, porque isso pode machucá-lo agora, e ele tem que sair disso antes que perca qualquer possibilidade de reparo.

Porque ele sabe, ele sabe que não pode falar com Pierre, não pode tocá-lo ou até mesmo ficar sozinho com ele, porque ele ama Pierre demais e se o maior pedisse que ele ficasse, ele sabe que o faria.

E demorou tanto tempo, tanta dor e noites sem dormir para conseguir chegar onde ele está agora, mas ele finalmente está aqui e está apenas contando o tempo até que ele possa partir, possa se afastar e nunca ser encontrado.

Então ele está apenas tentando ignorar toda a culpa, a angústia e outras emoções que queimam por todo seu corpo, enquanto olha fixamente para os horários dos vôos, porque ele só quer se sentir entorpecido, mas não está e não pode; então ele tem que ignorar isso o melhor que pode e não desmoronar numa dessas cadeiras de plástico.

Mas é difícil e ele está tentando não chorar. Ele até mesmo tem seu estúpido óculos de Sol no rosto, assim, se ele chorar, ninguém irá ver, mas vão escutar, porque ele sabe que se ele começar a chorar, ele vai chorar.

Seus ombros irão tremer e esse será o começo de mais um sofrimento - e ele não acha que possa desmoronar ainda mais -, e ele está tão assustado com o que vai acontecer se ele chorar, porque o que acontece quando não há nada mais para quebrar?

Ele não sabe e não quer saber, porque, se ele quebrar mais uma vez, ele acha que isso realmente vai ser o fim e ele não vai ficar bem; e isso vai significar que ele vai desistir e, se ele desistir, então, ele vai saber que realmente vai estar morto, mas ele não pode, não vai permitir que isso aconteça.

Então ele não vai chorar. Ele vai apenas se sentar aqui e fingir estar bem, porque ele os deixou e isso tem que significar que ele vai começar a sarar, porque, se isso não acontecer, ele sequer sabe o que ele vai fazer, porque, porra, ele os deixou.

E ele não pode estar tomando a decisão errada, porque ele tentou ficar com eles e está tão quebrado agora que não pode nem mais dirigir-lhes a palavra; então isso tem que ser certo e ele sabia que doeria, ele só precisa lidar com isso, porque eles se foram e ele está aqui e não pode mais mudar isso.

Ele vai se focar de volta ao quadro de horários e manter sua respiração tão estável como pode, porque até mesmo respirar machuca e faz com que ele queira expelir todas as lágrimas; ele tem que ficar calmo, porque está no meio da droga de um aeroporto e ele não vai desmoronar aqui.

Ele vai observar os quadros e não olhar para ninguém.

As pessoas estavam em volta dele o tempo todo, sentavam ao seu lado e então se levantavam, e não o reconheceram nem uma vez, então ele vai ficar bem, elas não importam, porque sequer sabem quem ele é.

Ele está tão focado no quadro, que mal nota quando alguém se senta ao seu lado e, quando ele percebe, ele nem olha porque isso não importa, eles não podem machucá-lo e ele está bem.

Mas, então, ele pode sentir alguém olhando-o, e ele quer se virar para olhar de volta, mas há algo o segurando e ele não entende o que é, mas então sente o aroma e ele sabe.

Seu corpo todo fica gelado e ele pode sentir as rachaduras se formando, porque não há como ser qualquer outra pessoa, porque ele conhece essa colônia mais do que qualquer outra fragrância no mundo, e já pode sentir que está começando a tremer.

"David."

E é quando acontece, é quando ele desmorona e não pode mais agüentar.

Ele está mais que quebrado; ele nem mesmo sabe mais o que sente, mas ele está chorando e tremendo, e ele não consegue respirar, porque seu peito parece estar se rasgando e agora ele só quer morrer, porque isso dói tão mais do que qualquer outra coisa que ele possa ter imaginado.

E, então, Pierre está abraçando-o e tentando acalmá-lo, mas ele não consegue e não vai conseguir isso, ele nunca vai conseguir isso e apenas saber disso faz David chorar ainda mais. Ele está tão machucado, que apenas deseja que alguém o mate, porque ele não quer mais ficar entorpecido. Ele quer estar morto. Ele está cansado disso tudo.

Ele nem sabe quanto tempo chorou e se agarrou a Pierre, mas é mais tempo do que ele se permitiu chorar antes. Mas mesmo quando as lágrimas acabam e sua garganta está arranhada, ele não se sente melhor - nem mais leve -; ele ainda está tão machucado quanto antes, se não mais e apenas... Ele não se importa, ele não consegue.

"David... Porra. Por favor, apenas, apenas me diga o que está havendo, por favor."

A voz de Pierre está tão desesperada quando ele pede, que David não pode fazer nada, mas erguer sua cabeça para olhar para o maior.

Ele não pode evitar responder, porque esse é Pierre e ele tem tanta preocupação em seus olhos que cada pedacinho que restara do coração de David está doendo e fazendo-o querer livrá-lo disso, assim Pierre pode ficar bem - porque se Pierre estiver bem, então David pode, apenas talvez, não chorar tão cedo novamente.

"Eu..." ele fecha os olhos e engole em seco, tentando fazer sua garganta funcionar novamente, porque ela já está seca e fechada, e ele sabe que não vai ser capaz de falar em breve; mas ele precisa deixar Pierre bem, porque se ele não pode curar a si mesmo, então ele tinha que, ao menos, ter certeza de que o maior não se ferisse.

"David, por favor, porra, por favor, fale comigo."

A voz de Pierre faz David olhá-lo, porque ele já ouviu essa voz, mas nunca de ninguém que não fosse ele.

E Pierre está chorando e ele acha que seu coração teria se quebrado nesse momento - se ainda tivesse algo para ser quebrado -, mas ele não tem, então isso apenas faz a dor em seu peito aumentar e se espalhar por seu corpo.

De algum modo, entretanto, ele se força a abrir a boca e pode sentir que as palavras vão deixar sua garganta, mas ele está engasgado, porque Pierre não tinha uma maldita idéia do que estava errado e como ele vai começar a explicar isso?

Mas Pierre está chorando e ainda está segurando-o perto, e David sabe que tem que dizer algo, mas não consegue descobrir o que, e Pierre está olhando-o com tanta dor que o menor só quer se livrar disso tudo, mas ele não sabe o que dizer porque ele quer ajudar Pierre; mas como ele pode, se ele sequer consegue se ajudar?

"David." Pierre sussurra, mas não, não é apenas um sussurro, é também um pedido, como se ele estivesse implorando por algo que o fizesse entender o que estava acontecendo e David está tentando tanto pensar em alguma coisa para dizer, mas não está chegando a lugar nenhum.

E é somente quando Pierre o puxa para ainda mais perto - fazendo David se enroscar em seu colo -, que as palavras apenas vêm e David sequer consegue pensar nelas ou impedi-las, porque elas estão saindo e ele pode praticamente sentir o pequeno pedaço deixado de seu coração sair junto com essas palavras; apenas esperando que Pierre o quebre, descarte ou entregue de volta a ele.

"Eu estou tão perdido, Pierre, tão quebrado. Eu nem sei mais quem sou. Eu não tenho me sentindo feliz há tanto tempo, que eu até esqueci como é."

"Eu choro toda noite até dormir e mordo meu lábio duas vezes ao dia, tentando manter tudo aqui dentro. Eu nem sequer consigo sentir algo que não seja dor e mais dor, e isso está me matando. E... Eu tenho estado desse modo há cinco anos e isso me machuca demais, e eu não consigo mais agüentar isso."

"Eu te amo tanto e você nem sequer percebe que, toda vez que olha pra mim, está quebrando meu coração, e é justo que você faça isso e que eu te ame, mas não posso evitar."

"Eu tenho te amado antes mesmo de entrar no Simple Plan e, então, eu praticamente fiz você ficar comigo por dois anos, sabendo que você não queria, mas você ficou e foram os melhores anos da merda da minha vida."

Parando, David se esticou e beijou Pierre, lágrimas rolando por suas bochechas, enquanto ele pressionava seus lábios nos do vocalista por alguns segundos antes de se afastar, sua voz num sussurro quebrado.

"E eu sei que não é justo que você tenha que lidar com isso, mas eu te amo e quando você me disse que o que nós tínhamos estava acabado, você arrancou meu coração, Pierre. E você tem rasgado-o em pedaços desde então. Eu te amo mais que qualquer coisa no mundo todo e... E isso está me destruindo."

David deixou mais algumas lágrimas escaparem, enquanto se focava suas mãos, que estavam no peito de Pierre, enquanto terminava. "E... E eu sei que se, se eu não me afastar de você... isso vai me destruir."

Saindo do colo do maior, ele pegou sua mala, antes de virar as costas para o vocalista.

Ele hesitou por um segundo antes de tirar seus óculos escuros e colocá-lo nas mãos de Pierre. Ele não sabia porque fez isso, mas ele só precisava deixar algo com Pierre... E mesmo que Pierre acabasse jogando-os longe, ao menos ele podia fingir que Pierre os guardou.

Se virando, ele caminhou na direção do portão que teria que entrar.

Seu vôo podia estar saindo em uma hora - dez horas - ele não se importava, seu peito estava queimando, suas mãos tremendo e ele apenas... Ele não podia ficar lá com Pierre, ele não podia. E ele esperava... ele malditamente esperava que Pierre entendesse isso.

Mas considerando que Pierre nunca o seguiu, que apenas o deixou ir, ele pôde assumir que, uma vez na vida, o maior tinha entendido.

Ele estava quebrado demais para ser reparado.