Todos os personagens pertencem a Masashi Kishimoto. A história é de autoria de Carina Rissi do seu livro Mentira Perfeita.

Essa fanfic é uma adaptação.

Capitulo 03

Sasuke

Desejei, e não pela primeira vez, estar em qualquer lugar do mundo que não fosse ali, na sala de estar do apartamento do meu irmão mais velho. Na fila do correio com um office boy armado com duas gordas pastas bem na minha frente; aguardando uma consulta num hospital do SUS; acompanhando minha mãe em uma loja de departamentos. Qualquer uma dessas alternativas seria melhor que ficar ali ouvindo a gritaria sem sentido da minha família.

— Não posso aceitar, Fugaku! Ele é só um bebê! — Minha mãe soluçava.

Mikoto Uchiha era uma das mulheres mais duronas que eu conhecia. A menos, é claro, que o assunto fosse um dos seus filhos.

— Mikoto, calma, por favor. — Meu pai tentava, em vão, fazê-la parar de andar de um lado para o outro na sala pouco espaçosa do apartamento de Kakashi e Bruna. — Ninguém vai se mudar e ponto-final.

— Vou sim, vocês queiram ou não — desafiei. — Agora, podemos cortar o drama e jantar?

— Sasuke, pelo menos ouça — demandou meu irmão. Kakashi ainda não tinha se manifestado até então. Parecia dividido entre a preocupação e o entendimento de que eu já não era um garoto.

— Pra quê, Kakashi? — retorqui. — Eu já tomei a minha decisão. Não tenho que pedir permissão, sou maior de idade. Você saiu de casa sem nenhum escândalo.

Ele revirou os olhos.

— Isso é o que você pensa.

— Por que você quer se mudar, Sasuke? — Minha mãe se ajoelhou na minha frente, pegando minha mão e a aninhando entre as suas. — Não me opus quando você saiu da chácara porque achei que ficar com o seu irmão poderia ser bom. Você está bem instalado aqui. Pra que sair? O Kakashi não tem te tratado bem?

Soltei o ar com força.

— Mãe, o Kakashi e a Bruna são ótimos. Sério. Mas eu quero um canto só pra mim. — Não era pedir muito, era?

— Mas você não pode ter um canto só pra você, meu querido. — Seu rosto se contorceu de angústia. — Porque... porque você...

— Mãe — Kakashi interferiu. — Não.

Mas eu sabia como aquela frase teria terminado se meu irmão não tivesse se intrometido. Porque você é um maldito aleijado. Era assim que ela acabaria. Não que minha mãe fosse dizer com todas as letras.

Provavelmente escolheria algo sutil, na linha do "pessoa com deficiência", ou o meu favorito: "portador de necessidades especiais". A babaquice do politicamente correto.

Eu estava farto. Estava cansado dos olhares preocupados de minha mãe, de meu pai se levantar cada vez que eu respirava para perguntar se eu precisava de alguma ajuda, de atrapalhar o relacionamento do meu irmão.

Estava de saco cheio de tudo isso. Eu entendia que toda aquela preocupação era porque eles me amavam. Mas até o amor cansa às vezes. Eu queria encontrar um canto onde pudesse ouvir meus pensamentos sem ter que me preocupar se um dos meus familiares se ofereceria para fazer isso por mim.

Além disso, eu estava apenas antecipando as coisas. A lesão em minha medula não era total, e meu quadro tinha mudado havia pouco mais de um ano. Voltei a ter sensibilidade nas pernas e nos pés e, segundo minha ortopedista, isso era indício de que ainda havia uma chance de voltar a andar. Então, no fim das contas, eu só estava me preparando para o momento em que minha vida sairia daquele limbo tenebroso.

Eu até tinha voltado a estudar — por exigência de Kakashi, mas ainda assim. Esse tinha sido o acordo para que eu pudesse sair da chácara onde meus pais moravam e vir para a cidade. Eu frequentava as aulas todos os dias, conseguira um emprego. O salário não era lá essas coisas, mas dava para sair umas seis vezes por mês sem ter que pedir dinheiro para ninguém.

Minha família entendia isso?

— Desculpe, meu amor. — Minha mãe piscou algumas vezes, então se levantou e desabou no sofá, enterrando o rosto afogueado entre as mãos. Seus ombros sacudiram de leve. — Eu me preocupo com você. Quero cuidar de você.

— Eu sei disso, mãe. — Soltei um longo suspiro. — Mas não estou fazendo nada perigoso. Só vou viver por conta própria. Todo mundo faz isso.

— E se você escorregar da cadeira na hora do banho, Sasuke? — Ela ergueu a cabeça, o horror estampado no rosto. — Quem vai te acudir?

— Eu mesmo, suponho. — Como qualquer outra pessoa que mora sozinha, pensei. Mas aparentemente fui o único.

— Isso não vai dar certo. Ele vai tentar de novo, Fugaku. — Ela voltou a chorar. — E vai fazer parecer um acidente, como da outra vez. Eu não vou suportar. Não vou suportar perder o meu menino.

— Ele não vai fazer nada estúpido, mãe. — Kakashi me olhou duro. — Não seria tão burro.

— Como podemos saber, Kakashi? — ela quis saber. — Como podemos ter certeza?

— Eu nunca tentei me matar, caramba! — Soquei a roda da cadeira.

Kakashi se aproximou e virou meu pulso para cima, exibindo a cicatriz irregular sem dizer uma única palavra.

Grunhi baixinho, fitando a marca em meu pulso direito. Aquilo me perseguiria pelo resto da vida. Eles não acreditaram quando expliquei que havia sido um acidente. Desde então ninguém me permitia chegar perto demais de comprimidos, facas, cadarços, parafusadeiras...

Ok, pareceu que eu havia tentado dar um fim a tudo, e as estatísticas também não colaboravam. O índice de suicídio entre a população cadeirante é altíssimo. Mas eu não tentei me matar. Não mesmo. O que aconteceu foi a porra de um acidente.

Meu pai estava em sua oficina — ele sempre adorou trabalhar com marcenaria — e eu estava sem nada para fazer. Fiquei ali com ele, ajudando a pregar o fundo do que seria uma jardineira. Então, bati o cotovelo sem querer na caixa de ferramentas sobre a mesa. Tentei pegá-la antes que tudo se espalhasse pelo chão, mas estava pesada, e o impacto empurrou meu braço para baixo. Meu pulso encontrou a cabeça de um prego meio solto e foi rasgado de um lado ao outro. Um ato desastrado que me rendeu dezoito pontos e um ano de terapia.

Não que eu não tivesse pensado em algo do tipo, confesso. Mas, depois de ver o estado em que meus pais ficaram, para não mencionar Kakashi, que ainda se sentia responsável pelo acidente, já que fiquei assim em um acidente de moto, e ele havia me dado a moto como presente dele, percebi que seria egoísta demais pensar apenas em mim.

Eles tentavam o melhor que podiam para fazer da minha vida o mais "fácil" possível. Aqueles últimos três anos haviam sido um inferno, mas teriam sido muito piores sem a minha família por perto.

— Foi um acidente — falei pela milionésima vez. — Você acha que eu sou burro a ponto de tentar me matar cortando os pulsos e ficar ali agonizando por sabe-se lá quantas horas? Existem meios muito mais rápidos e indolores — expliquei, esperando que com isso colocássemos uma pedra sobre esse assunto.

No entanto, meu pequeno discurso surtiu o efeito contrário.

— Ele vai fazer de novo, Fugaku! — Minha mãe chorou enquanto Kakashi me olhava feio e murmurava um "idiota".

Meu pai chegou mais perto, plantando as botas na minha frente, braços cruzados sobre o peito, o rosto fechado numa carranca que poderia muito bem pertencer a um coronel do exército.

— Me diga a verdadeira razão de querer sair da casa do seu irmão. E não minta, ou juro por Deus que vou te dar uma surra daquelas.

Sorri de leve. Era por coisas assim que eu amava tanto o meu velho.

— O Kakashi e a Bruna vão se casar em poucas semanas. Eles precisam de privacidade.

A porta da sala se abriu. A noiva em questão apareceu meio descabelada, e logo percebeu o clima pesado. Bruna tinha os cabelos pretos cacheados que pareciam cachos de uvas bem maduros, alem de uma comissão da frente que deixava muitos marmanjos babando, mas o que destacava Bruna era seu sorriso, q contagiava a todos a sua volta.

— Saco. — Soltou um longo suspiro ao deixar a bolsa sobre a mesa, que ainda nem havia sido posta. Deus do céu, o jantar seria servido só no café da manhã? — Fiquei presa no trânsito. O que eu perdi?

— Nada de tão importante. — Kakashi foi até ela e a beijou brevemente. — Não decidimos nada ainda.

— Falem por vocês — resmunguei. — E eu já resolvi. Agora, quando é que a gente vai comer?

Bruna se desprendeu de Kakashi para se aproximar de minha mãe, beijando-a delicadamente no alto da cabeça, depois se empoleirou no braço do sofá.

— Pelo clima estranho, ninguém é a favor dessa mudança — Bruna ponderou, olhando para cada um de nós. — Tá legal, vamos encarar os fatos. O Sasuke é cadeirante e isso complica as coisas.

— Valeu, Bruna! — Olhei feio para ela.

— Ainda não terminei. — Ela voltou a encarar minha família. — Mas complicar não é o mesmo que impossibilitar. Se ele acha que está pronto para viver sozinho, então nós deveríamos acreditar. Ele é adulto, não vai ser estúpido a ponto de se colocar em risco só para provar um argumento.

— Você não sabe o que está falando — Kakashi retrucou, e eu podia apostar que ele estava se lembrando de quando éramos crianças e apostamos quem comeria mais minhocas.

É claro que eu venci. E também passei três dias no hospital, vomitando.

— Kakashi. — Ela pegou a mão de seu agora futuro marido e o encarou com aqueles enormes olhos enganosamente doces. — Ele tem se mostrado responsável. Não faltou a nenhuma aula desde que voltou para a faculdade. É sempre o primeiro a chegar ao trabalho e o último a sair. Eu acho que vocês deviam dar uma chance a ele.

Era por coisas como aquela que eu amava tanto Bruna. Kakashi tinha ganhado na loteria. Tinha mesmo. E estava prestes a ceder à súplica de sua noiva, percebi pela expressão em seu rosto.

— Mas, querida... — minha mãe se aprumou, como se percebesse que perdia terreno. — Ele nunca ficou por conta própria.

— Ele se vira bem na cozinha. Bem melhor do que eu.

Qualquer um com duas mãos esquerdas se virava melhor que Bruna. Estremeci ao lembrar a noite em que Kakashi ficou preso em uma reunião e ela disse que cuidaria do jantar. Ainda não entendo como é que ela conseguiu transformar miojo em algo intragável. E olha que eu não sou de frescura com comida.

— Sim, eu sei. Ensinei meus filhos a cozinhar. — Minha mãe deu de ombros. — Nenhum deles vai morrer de fome, mas...

— Eu sei, dona Mikoto. — Bruna pousou uma das mãos no braço dela e lançou um daqueles seus sorrisos. — Também vou ficar preocupada. Mas a gente pode dar um jeito nisso.

— Como, querida?

— É, como? — eu quis saber. Porque eu topava. Quaisquer que fossem os termos, eu topava.

— Ele podia... podia... — Bruna olhou para a sala como que em busca de inspiração. O canto de sua boca se ergueu repentinamente. — Ele podia contratar um acompanhante!

— O quê? — Não. Qualquer coisa menos isso! Era tudo de que eu não precisava. A porra de uma babá grudada em mim o dia todo.

Kakashi, aquele traidor, sorriu de leve.

— É uma boa ideia.

— Concordo — minha mãe cedeu, parecendo um pouco menos nervosa. — Eu ficaria mais tranquila se ele tivesse alguém por perto.

— Não. De jeito nenhum! — Fui para perto da janela, sentindo uma necessidade doentia de bater em alguma coisa.

O simples ato de pensar na palavra me embrulhou o estômago.

Um cuidador.

A essa altura do campeonato, ter um cuidador minguaria todos os planos de me preparar para retomar minha vida de onde havia parado, três anos antes.

— Muito bem, Sasuke. — Meu pai me seguiu e com um empurrão fez a cadeira girar até eu ficar de frente para ele. Fugaku Uchiha sorria como se tivesse acabado de ganhar uma briga. — Você pode se mudar daqui, desde que arranje um cuidador.

— Pai! Você não pode estar falando sério. Eu não vou ter a porra de uma babá!

— Olha essa boca suja, moleque! — ele vociferou. — Não foi essa a educação que sua mãe e eu lhe demos. E você vai ter um cuidador sim, a menos que tire essa ideia de morar sozinho da cabeça e continue aqui com o seu irmão e a noiva dele. Esses são os termos. É pegar ou largar.

Saco.

Só me dei conta de que a aula já havia terminado quando percebi que a sala estava quase vazia. Minha cabeça estava ainda mais cheia do que o normal.

Eu não era o melhor aluno da turma — longe disso —, mas sempre acompanhava o que estava acontecendo ao meu redor, ainda que a matéria às vezes me escapasse.

— Ei, Sasuke — chamou Suigetsu do outro lado da sala, juntando suas coisas. — Não vai para a próxima aula?

— Vou dar um tempo hoje.

— Ah, não, cara. Você pode dar um tempo outro dia. Hoje você tem que ir! O Lee perdeu a aposta. Ele não conseguiu comer oito cachorros-quentes e vai ter que beijar o professor Ibiki em plena aula. Só não sei como ele vai fazer isso sem acabar sendo expulso. Em todo o caso, vou gravar pra postar no YouTube mais tarde.

Estremeci ao imaginar o Lee beijando o cinquentão casca-grossa, que mais parecia um lutador de MMA que um professor de programação.

— Vejo na internet depois.

Ele deu de ombros e saiu às pressas. Juntei meu material e fui para o estacionamento. Depois de me acomodar no carro e jogar a cadeira no banco do carona, parti sem destino. Aquela era a primeira vez que eu matava aula desde que retomei o curso, no início do ano. Kakashi ficaria doido se soubesse. Mas minha cabeça não estava onde deveria estar, então qual era o sentido?

Um cuidador.

Se eu quisesse me preparar para retomar minha vida, teria que arranjar um cuidador, que passaria o dia me perguntando se podia limpar a minha bunda. Que espécie de liberdade era essa, porra?

Sair de casa se tornara uma questão de honra agora. E me preocupava o fato de minha família ter tão pouca fé que eu fosse voltar a andar. Porque eles não fariam todo esse estardalhaço se acreditassem nisso. Eles não faziam por mal, claro que não. Só gostavam de manter os pés no chão.

Ainda assim, isso me magoava.

Eu não havia concordado com nada imediatamente. Assim que meu pai expusera seus termos, eu me trancara no quarto e só saí de lá de manhã, para ir para a faculdade. Bruna e Kakashi tinham me esperado, mesmo que eu tivesse deixado bem claro que não queria falar com eles. Então, desci até o estacionamento de cara amarrada. É claro que, entre o processo de entrar no carro e desmontar a maldita cadeira, eles tiveram tempo de se acomodar no meu Honda Fit.

Família às vezes é um saco.

Não, nada disso. Família constantemente é um saco.

— Sasuke, vai mais devagar — Kakashi disse um tempo depois, quando já estávamos numa avenida larga.

— Estou devagar. — Acionei a alavanca do acelerador ainda mais, só de birra.

— Você está bravo, e eu entendo, mas arriscar sofrer outro acidente não vai resolver nada.

— Vai se foder, Kakashi.

— Pega leve, Sasuke — Bruna tentou apaziguar. — A gente só quis ajudar. Não deu pra perceber, não?

Limitei-me a olhar feio para ela pelo retrovisor. Meu irmão bufou.

— Eu sei que você ficou chateado, mas o que queria que a gente fizesse? E no fim você conseguiu o que queria. Vai morar sozinho, se quiser.

— Caso eu arranje um velhote enrugado que cheira a talco para dividir o quarto. É, isso era exatamente o que eu queria, Kakashi.

— Não precisa ser um senhor — Bruna interveio. — Existem vários perfis de cuidadores. Vamos encontrar um que seja adequado para você. Posso te ajudar a escolher.

— Valeu, Bruna, mas você já fez bastante. Pode deixar que eu mesmo escolho quem vai viver comigo.

— Talvez a Chiyo aceite — ela continuou, como se eu não tivesse dito nada. — Ela é ótima, Sasuke, e não cheira a talco. Tem cheiro de bolinho de chuva.

Estremeci ao pensar na mulher robusta com ares de sargento que cuidava da garotada na Fundação Narciso, onde eu trabalhava desde o começo do ano passado. Chiyo era ótima para pôr as crianças na linha, e eu tinha certeza de que o fato de eu ter vinte e três anos faria pouca diferença para ela.

— Nem pensar, Bruna. A Chiyo é legal, mas viver com ela seria pior que morar com os meus pais.

— Eu vivi com ela a minha vida toda e sobrevivi.

— Só queremos que você fique bem — Kakashi disse. — E é provisório. Os nossos pais logo vão se acostumar com a ideia. Depois que você provar que não pretende fazer nenhuma bobagem, pode se livrar do cuidador. Não vai ser tão ruim assim.

Eu o encarei, deliberando se deveria dar um soco nele ou bater sua cabeça no painel. Um soco aliviaria minha irritação mais depressa, mas para isso eu precisaria parar o carro, e não estava nada a fim de tirar a mão do acelerador.

Kakashi deve ter notado quanto eu estava irritado, pois bufou de novo e disse:

— Cacete, Sasuke, eu só quis ajudar! Os nossos pais não iriam permitir que você saísse lá de casa. Não consegue entender isso?

— Eles não tinham que permitir nada. Sou adulto.

— É, mas o que você acha que iria acontecer se você saísse contra a vontade deles? Nossa mãe iria ligar a cada cinco minutos, e a sua vida se tornaria um inferno. E a minha também, porque ela ia me ligar logo depois que falasse com você.

— Acho mais provável que a dona Mikoto acabasse se mudando com o Sasuke — Bruna ponderou. — Ela tá preocupada de verdade.

Inferno, Bruna estava certa. Quando se tratava de seus filhos, Mikoto Uchiha era pior que um leão de chácara diante de alguém que não tem o nome na lista VIP e está querendo entrar de penetra no evento mais importante do ano.

— Tá certo — cedi a contragosto. — Mas isso não quer dizer que eu vou agradecer vocês por me obrigarem a ter uma babá. Não serão vocês que terão que conviver por sei lá quantos meses com uma Chiyo, que provavelmente vai tentar me amarrar a uma cama para que eu me comporte.

Bruna riu, apoiando os cotovelos entre o encosto dos bancos.

— A Chiyo é bem capaz disso mesmo. Uma vez ela tentou me amarrar na mesa da cozinha. Eu tinha uns nove anos e cismei que queria montar um foguete. Até tinha um pouco de pólvora na mochila. Aí eu...

Poderia não ser tão ruim, ponderei enquanto ela seguia falando. Eu podia conversar com um dos caras da faculdade. Muitos eram de fora da cidade e viviam em repúblicas. Talvez um deles topasse dividir o apartamento comigo.

— Você vai se divertir tendo companhia — adicionou meu irmão. — Morar sozinho às vezes é muito chato.

Foi a minha vez de bufar feito um touro bravo.

— Sabia que você se tornou o maior idiota do planeta desde que conheceu a Bruna?

Ele olhou para a noiva e o sorriso mais bobo do mundo lhe esticou a cara toda.

— É, eu sei.

Revirei os olhos. Aquela era uma das razões pelas quais eu precisava sair do apartamento do Kakashi. Ele e Bruna estavam apaixonados, e eu me sentia como um elefante branco no meio da sala dançando street dance. Se eu tivesse uma garota como ela, não iria querer ninguém por perto para me atrapalhar. Não que eles alguma vez tenham dito qualquer coisa. Ao contrário, Bruna e Kakashi pareciam mesmo contentes pelo fato de eu estar com eles. Mas sabe como é, volta e meia eu ouvia. Paredes muito finas. A vida sexual do meu irmão não era um dos assuntos que mais me atraíam.

A minha vida sexual, sim, me interessava, e muito. E morar com meu irmão andava dificultando as coisas. Não era tão simples encontrar um motel adaptado, e eu estava na pista. Tinha uma menina na faculdade com quem fiquei umas três vezes. O problema é que de repente ela decidiu que nós deveríamos namorar, e eu não estava nem um pouco a fim de compromisso. E também tinha a Ino, da academia. Garota descomplicada que, assim como eu, estava a fim de curtição e nada mais.

— Vamos sair para comer hoje à noite — Kakashi sugeriu quando paramos em frente à L&L. — Juntos nós podemos pensar em algo que te desagrade menos.

— Já marquei de sair com o Obito.

— Ok. Amanhã?

— Vou ver.

— Deixa de ser chato. — Bruna me deu um peteleco na cabeça. — Pare de se comportar como um bebê chorão, ou ninguém vai acreditar que você é realmente capaz de se virar sozinho. — Ela se esticou para beijar meu rosto. — Obrigada pela carona.

Bruna tinha toda a razão. Eu estava sendo um grande babaca. Estava na hora de começar a agir com inteligência. Se para viver sozinho eu precisava da porra de um cuidador, então que fosse. Eu só teria que escolher bem.

— Tudo bem — cedi. — Vamos sair amanhã, então.

— Divirta-se com o Obito. Até mais tarde.

Uma buzina penetrou meus ouvidos, me trazendo de volta para o presente. Eu não tinha me dado conta de que estava indo para o centro da cidade até acabar na rua em que minha vida havia mudado. Estacionei o carro a poucos metros de onde tudo acontecera. Ironicamente, havia uma moto no exato local onde eu tinha me estropiado quase quatro anos atrás.

Eu me flagrei suspirando ao admirar a moto. O que eu não daria por uma volta em uma belezinha daquelas outra vez... Kakashi não conseguia entender. Pensara que depois do acidente eu as odiaria — ele passou a odiá-las —, mas não foi assim. Merdas acontecem, certo? É simples assim.

Na época, com dezenove anos, minha opinião era diferente. Eu tinha tudo o que queria, e isso incluía pernas que funcionavam.

Olhei para a calçada em busca de alguma marca. Deveria ter uma, já que eu carregava várias por todo o corpo, mas não havia nada além do concreto áspero.

Era engraçado, já que fora ali que meu pior pesadelo tivera início. Era ali que jaziam todos os meus sonhos de um futuro brilhante. O acidente acontecera quando tudo na minha vida parecia estar dando certo.

Eu tinha terminado o sexto período do curso de design de games, havia mais garotas atrás de mim do que eu conseguia contar e o olheiro de um importante clube de regatas havia me visto nadando em uma competição não oficial. Ele me oferecera uma vaga. Até havia falado em olimpíadas. E tudo agora estava acabado. Ou pelo menos em suspenso.

Era por isso que eu me dedicara tanto às sessões de fisioterapia no último ano. Porque as dores nas pernas e nos pés, muitas vezes insuportáveis, diziam que ainda havia uma chance. E era a isso que eu me agarrava. Eu voltaria a andar, e então poderia voltar a sonhar.

Continua

Capitulo dedicado à linda Lappstift e minha Diva Obsidiana Negra. Obrigada pelos comentários!