Um conto sobre homens e seus pedestais - Capitulo 3
-Mú de Aries?
-Aldebaran de Touro. Desceu à minha casa para me saudar?
Se ele não se atirou aos braços do amigo, o esmagando naquele mesmo lugar em um abraço, foi porque ele usava a armadura, além de ser envergonhado de seu tamanho fenomenal. Mas não o impediu de esteitar Mu num abraço comedido, rodeando sua cintura e ombros até onde o respeito permitia.
Mu concordou com o abraço devolvendo desajeitado. A capa tinha caido mas a armadura nas costas ainda atrapalhava. E dizer a verdade, fora a cintura de Aldebaran, ele não era capaz de enlaçar nenhuma outra parte. E a armadura de Aldebaran prendia sua mão na parte da cintura.
Mu se afastou depois para desprender a armadura das costas, e tirar as sandálias para se povoar no próprio templo. Encontrou algum chá e frutas na cozinha, provavelmente era o lanche da manhã dos criados. Eles o dispuseram numa mesa baixa nos aposentos sociais do templo de Áries, entre almofadas e um incenso, e se sentaram ambos para lancharem cordialmente enquanto conversavam.
Um tempo depois, os guardas surgiram na entrada.
-Me perdoe Santo de Áries, mas esse homem diz ser seu criado.-Eles traziam entre si Anagnosi, que parecia animado como uma criança no dia de natal.
Aldebaran surgiu atrás de Mu curioso, crusando seus enormes braços em posição de defesa, confuzo.
-Esse homem não é um criado, é um amigo. Permita que eu cuide disso de agora em diante, eu lhes agradeço o cuidado.-Mu declarou com uma pequena nota de descrença na vóz.
Os guardas desconcertados pelo obrigado de Áries, reverenciaram e partiram, deixando o intruso para que esse caminhasse até Aries, olhando tudo em volta muito curioso.
Anagnosi, Como uma justificativa por sua intromisão e a pequena mentira sobre ser criado, apresentou uma fita vermelha com uma peça de ouro do tamanho e formato de uma pulseira pendurado nisso.
-Você deixou cair isso.
Mu encarou o objeto por uns instantes antes de reconheçe-lo. Mas foi Aldebaran que perguntou:
-Não é o bracelete de aprendiz que Kiki sempre usa, Mu? É, é ele mesmo, eu me lembro que eu vi ele na sua cabeceira quando você vivia aqui.
-Tem razão. Era meu antes de Kiki usar, é o sinal de sua posição como aprendiz de ferreiro. Shion me deu ele quando eu ainda usava fraldas, é feito do mesmo ouro da armadura. Foi criado milenios atrás pela casa de Áries para diferenciar seus aprendizes. Mas o que faz aqui? Ele não podia ter tirado...só se tira quando se torna um santo ou...
-Estava amarrado com essa fita vermelha...devia estar na sua caixa, preso. Mas o laço de fita se desfez...-Anagnosi explicou.
-Boa sorte.-Mu falou com ar aéreo, olhando para além do bracelete pendurado pelo laço de fita. -Era um costume de Kiki deixar um laço de fita amarrado a alguma coisa importante, como um sinal de boa sorte.
-Então ele não desistiu da posição dele como aprendiz, mandando o braçelete. Apenas emprestou pra ajudar, menino teimoso. Aposto que o proibiu de vir, Mu. -Aldebaran concluiu pegando o braclete estudando com um sorriso divertido consigo mesmo. - E depois, se você não voltar ele não vai precisar mais dele, pois será o próximo santo de Áries e não aprendiz. Provavel vá exegi-lo de seu assassino, se é que conheço a criança, ele não deixa barato se algo te aconteçer.
Mu encarou Aldebaran sériamente, ambos esquecidos do pobre homem parado a entrada até que o infeliz, irriquieto, caminhou uns dois passos para a direita sob o pretexto de admirar a arquitetura, e do nada, voltou a falar para quebrar a tensão:
-Mas o que é a vida, afinal? Eu que jurava conheçer a Grécia como a palma da minha mão, e me vem uma surpresa dessas. É como uma miniatura do Pathernon, e está tão bem conservada como se tivesse sido construida há dez anos atrás.
-Esse lugar já existe há mais de quatro mil anos.-Falou Mu.
-Puxa, é muito tempo para um monte de pedras. Mas o monge vive num lugar bonito, não é de se estranhar que escondam.
-Não somos monges, senhor, somos Santos.-Corrigiu Aldebaran constrangido.
-E qual é a diferença?
Aldebaran o encarou. Eram diferenças óbvias. Monges serviam a um Deus... certo, eles serviam uma Deusa. E monges eram regrados e tinham espiritualidae alta, pensando bem alguns até usavam cosmos como Shaka. Os santos de Atena lutavam entretanto. Shaolins também. Cada vez que ele tentava abrir a boca pra retrucar, a resposta morria antes mesmo de ser dita. No final, foi Mu quem falou:
-Bem poucas diferenças mesmo, mas Atena nos deu armaduras que protegem nossos corpos.
-Refere-se a deusa da nossa cidade, então? -O homem iluminou-se a essa declaração agitando-se novamente e quase bofeteando a perna de satisfação. - Oras, se não são os dias modernos quando nossa deusa atrai até os monges estrangeiros. Mas quem pode culpa-lo? A Grécia é o paraiso na terra, não é mesmo? Mas porque se escondem aqui, são monges secretos?
Aldebaran o encarou com desanimo, aquilo ia longe.
-Não são permitidas as pessoas comuns conheçerem sobre esse lugar, aqui vivem apenas os que trabalham para a deusa.-Mu explicou dando espaço para a pequena exploração, mas não espaço exagerado.
-Eu poderia trabalhar aqui, então. - disse destemido, coçando a cabeça - Eu já fiz de tudo, servo da Deusa pareçe ser bem melhor. O que se exige para ter o oficio?
Aries o olhou constrangido e o convidou a se sentar, mas foi Aldebaran que salvou o amigo do embaraço de ter que explicar.
-Aqui temos de tudo, mas não se paga salário. Se trabalha pra se viver, se você trabalha será lhe dado um lugar pra morar e comida, roupas também. Mas aqui dentro não permitimos influências externas, pode trazer sua familia sim, mas não há igrejás se o senhor for Ortodoxo, nem pode ir e vir pro exterior como quiser, também terá que abdicar da sua identidade externa, documentos e posses, e amigos também. O santuário depende desse segredo.
-Sem problema, eu não tenho nada lá fora não. E se sigo alguma religião é a da terra e do céu. Quer dizer, se me dá de comer, eu digo : "Obrigado, terra", se me dá de beber é o lago que reçebe agradecimentos, e brisa fresca. O que mais um homem precisa? Além de uma boa mulher, é claro.
-O senhor é casado, ou tem filhos?
-Nem um, nem outro. Sou solto pelo mundo, folha do vento como dizem por ai. Só tem um detalhe.
-E qual é?
-Eu não aceito abandonar meu nome. Eu tenho muito orgulho dele, e tem até certa fama apesar de eu não saber se ele é verdadeiro ou não. Minha mãe, que a terra guarde bem, não era a mais honesta das mulheres. Mas ela me disse que meu pai é famoso, até livro tem dele.
-E qual é seu nome completo?
-Anagnosi Zorba.
Aldebaran ergueu uma sobrancelha descrente, e coçou o queixo, perguntando tão educado como pode.
-No livro, Zorba diz não ter tido a sorte de ter filhos.
O homem olhou vexado, abaixou a cabeça, ponderando.
-É o que diz, por isso não estou tão certo de que minha mãe fala a verdade. Mas também o livro é ficção, quem sabe. Ele mesmo não sabe se pode ter tido filhos com uma das muitas mulheres de uma noite que conheçeu, e sendo ou não sendo verdade, de mãe nunca se deve duvidar. Minha mãe me nomeou Zorba, e é zorba que vou carregar para o tumulo com muito orgulho!
A conversa ainda durou um pouco depois disso mas Mu nada confirmou, ou desconfirmou sobre poder arranjar a dita função de servo para o senhor Anagnosi. Verdade sejá dita, ele falava demais, falava pelos cotovelos, e não era bom ter um fofoqueiro no templo.
Mu, como não podia manda-lo embora agora depois dele ter visto o templo, nem manda-lo para Shaka apagar sua mente no meio da noite, o instalou para que dormisse ali. O homem apesar de vexado aceitou, e dormiu aquela noite como se estivesse no paraiso, na cama maciazinha do próprio Mu.
oooOOooo
-Onde você achou essa...peça?-Aldebaran perguntou depois de algum tempo, olhando o horizonte, sentado ao lado de Mu no vestibulo da casa de Áries.
-Em Atenas. Ele me tirou a tempo da frente de um desses automóveis modernos.
-Você ia ser atropelado?- Se não fosse trágico, ele ria.
-Atropelado? O que é isso?
-É quando um carro passa por cima de você.
-É, um carro ia passar mesmo. Eu não estou acostumado a eles, não reconheci a tempo.
-Eu sei disso. Você nunca anda pelas cidades grandes. Mas agora arranjou um protetor.
-Protetor? -Mu o encarrou com um aperto no coração, a lembrança da conversa de como o homem o salvou e o guiou até ali o tratando como um menino tolo ,voltou rapidamente. Aldebaran também o achava um tolo que não podia se guiar numa cidade? Respondeu com distância. - Eu tratarei de despacha-lo tão logo possa. Ele é um incomodo aqui.
-Então porque o pôs para dormir em sua cama? E nos lençóis de seda chinesa. Aqueles que você me contou que seu mestre Shion mandou forrar sua cama, na casa de Áries, quando você conquistou a armadura.
-Não havia outra. Aparentemente os criados não dormem aqui, apenas minha cama estava preparada, eu não avisei que voltaria.
Aldebaran ergueu o olhar para o céu, sóbrio. E falou duro.
-Todos nós continuamos esperando por sua volta, os criados da casa...e seus amigos. Mas isso deve surpreende-lo, não é? Voltando dessa forma, sorrateira e descuidada, a tal ponto que se entregou nas mãos de um estranho...
-Você tem ciumes!
-É o que aparento?-Aldebaran não o olhou, lá, sentado, um colosso de homem, braços cruzados, encarando o céu e não Mu.
-É o que eu vejo em seu cosmos.
-Não diga tolices Aries.-Ele isso se fechou. Agora Mu queria ler sua alma? Ele que tentasse!
-Não ajá como uma besta Touro. Está só vendo o vermelho em seus olhos. Acalme-se, não tem motivo para tamanha exaltação. -Retrucou sério.
-Se acha assim, é mais tolo até mesmo do que pensei.-Respondeu ríspido.
Mu suspirou, tentando se refazer e aos poucos reganhou sua habitual calma. Aldebaran só se preocupava por ele, não havia porque puni-lo por isso. Ao invés, decidiu abrir seu coração, e falou:
-Eu o amo afetuosamente, meu amigo. Eu confo em ti.
-Assim como eu em ti. Apesar de teus crimes.
-Sim, é verdade. E é por isso que lhe reafirmo, foi apenas o acaso. Eu pagarei minha divida com Anagnosi e o devolverei á própria vida.
Aldebaran foi se acalmando também e deu-se por satisfeito... por hora. Se levantou, e encarou Mu ao relento, sem cama.
-Os meninos estão vindo amanhã, não é?-Perguntou, mesmo já sabendo a resposta.
-Sim, chegam ao raiar do dia, provavelmente.
-Já pensou que pela mesma hora de amanhã um de nos pode estar morto? - Mu o encarava calado, tanto Aldebaran como ele, ponderavam essa resposta. Mas foi aldebaran que continuou. - Eu quero saber o quão longe iremos por nossas respostas...
-Tão longe quanto um homem pode ir para o que deseja...
A confissão matou a conversa. Ambos, como estátuas, nada diziam, nada olhavam, e nada viam, além do que se passava em seus corações - que no final das contas, mesmo juntos - encaravam um ao outro de cantos opostos.
Foi Aldebaran a dar o primeiro passo:
-Durma em minha casa. A sua está cheia.
Ele lhe estendeu a mão com um olhar firme e nenhum sorriso, só uma mão estendida, esperando, não se sabe por quanto tempo
Eventualmente Mu aceitou. Eles subiram de mãos dadas.
