DIA 02
- PICOLÉ DE SAL-MARINHO -
As missões eram dadas uma de cada vez, por Asïx, todos os dias.
No nono dia, a missão de Lexci era com Luxarmia, na Cidade Crepuscular, assim como no dia anterior. Não havia o menor sinal de pessoas. Apenas o pôr-do-sol, que brilhava sobre a cidade. Parecia que as missões — ou melhor dizendo, os treinos — continuariam sendo naquela cidade por algum tempo.
Luxarmia: Lexci, não é mesmo? Nunca cheguei a me apresentar adequadamente. Eu sou o Luxarmia, Número XI.
num tom gentil, Luxarmia encarou Lexci. Esta era a primeira vez que ele se encontrava com um portador da Chave-Espada, mesmo em memórias. Mas já havia ouvido sobre eles, entretanto. Como Incorpóreo, ele não via absolutamente nada de especial naquele garoto parado diante de si. Lexci brevemente deixou de olhar para Luxarmia.
Lexci: E então. O que devo fazer hoje?
Luxarmia: Hoje, seu trabalho é coletar corações.
Lexci: Uhm... e como eu faço isso?
Luxarmia: Lexci. Pode invocar sua Chave-Espada para mim?
Lexci: — Bem... sim, é claro.
Consentido, Lexci ergueu a mão, fazendo com que a Chave-Espada surgisse nela. A espada, que tinha a forma de uma chave gigante, emitia um forte brilho. Era a primeira vez que Luxarmia via uma Chave-Espada.
Luxarmia: Número XIII sortudo — enfim, um portador da Chave-Espada entre nós.
Luxarmia havia murmurado consigo mesmo, sem sequer perceber, mas Lexci não demonstrou nenhuma reação em especial.
Foi quando, como se houvesse sido chamado pela Chave-Espada, um Sem-Coração surgiu. A pequena criatura de corpo negro, que chamavam de Sombra, era um Sem-Coração de nível baixo.
Lexci: Whoa, o que é isso?
Luxarmia: Hmph. Não é nada o que temer — muito bem, Lexci, podemos testar um pouco esse seu poder? Use a sua Chave-Espada... e derrote esse Sem-Coração.
Quer estivesse ouvindo ou não, Lexci correu até o Sem-Coração, sua Chave-Espada em mãos. Não havia nem o menor sinal de hesitação em seus movimentos. Lexci atacou a Sombra com a Chave-Espada — e ela se desfez em apenas alguns golpes. Luxarmia esperava por uma força que fosse acabar com uma Sombra num único golpe, mas como Lexci era um Incorpóreo que despertara recentemente, isso já era de se esperar.
Luxarmia: Muito bem. Esse Sem-Coração é chamado de Sombra.
Lexci: — Mas o que é um Sem-Coração...?
Luxarmia: Criaturas das trevas que vagam por toda parte, buscando por corações. Existem duas grandes variedades — esse que você acabou de derrotar se classifica como um Sangue-Puro. Esses Sem-Corações não liberam corações quando você os derrota. Em outras palavras, não precisa se preocupar com eles. Afinal, sua missão é coletar corações. A outra variedade —
Interrompendo as explicações, pequenos Sem-Corações surgiram em meio ao ar, bem na frente deles.
Luxarmia: Hmph... a outra variedade está logo ali. Esqueça das Sombras. Acabe com esses, Lexci. Eles são os seus verdadeiros alvos.
Lexci: Entendido.
Uma vez mais, Lexci correu na direção dos Sem-Corações. Sua agilidade não era muito boa, como esperado. E então, deixando um Sem-Coração que acabara de ser derrotado, um coração foi flutuando e desapareceu no ar. Era a primeira vez que Luxarmia via um "coração" sendo coletado com de seus próprios olhos.
Antes que possamos coletar todos os
corações necessários, há algo mais importante
que precisa ser feito. Mas ainda assim — a
Chave-Espada tem, de fato, um poder fenomenal.
Se esse poder estivesse em minhas mãos...
Tendo derrotado todos os Sem-Corações, Lexci se voltou para Luxarmia, sua respiração claramente ofegante. A Chave-Espada desapareceu de sua mão.
Lexci: Assim tá bom?
Luxarmia: Sim — esses aí eram o que chamamos de Sem-Corações Emblemas.
Lexci: O que há de tão especial neles?
Luxarmia: Você não notou? Diferentes das Sombras de antes, corações aparecem quando você os derrota. O seu trabalho é coletar esses corações.
Lexci: E tem algum truque para fazer isso?
Luxarmia ficou um pouco surpreso com a pergunta de Lexci.
Como pode um portador da
Chave-Espada não saber disso?
Luxarmia: Não — basta o Sem-Coração ser destruído por esta sua arma, a Chave-Espada, e os corações serão capturados.
Lexci: Compreendo — e o que acontece com os corações que eu coleto?
Suas contínuas perguntas mostravam que Lexci não sabia de absolutamente nada. Luxarmia respirou fundo, e então continuou.
Luxarmia: Eles se juntam em um só, e criam uma poderosa força conhecida como Kingdom Hearts.
Lexci: E isso... é bom, né?
Lexci inclinou a cabeça.
Eu também ainda não cheguei a vê-
lo — mas me foi permitido saber seu nome,
assim como o "resultado da pesquisa"
Luxarmia: Completar Kingdom Hearts é o principal objetivo da Organização. E para tal, precisamos de todos os corações que possamos encontrar.
Lexci: Então é isso o que a Organização faz? Coleta corações?
Luxarmia: Na verdade, você é o primeiro de nós a fazê-lo.
Lexci: Espera, então quer dizer —
A voz de Lexci se elevou — ele parecia surpreso.
Luxarmia: O resto de nós também pode derrotar os Sem-Corações, mas não temos como coletar os corações que eles liberam. Eventualmente, tais corações voltam a se tornar outros Sem-Corações. Percebe o quanto você é especial?
Lexci: Uhm...
Lexci lançou seu olhar ao chão, como se estivesse pensativo.
Parece que não informaram nada mesmo
ao Lexci. Será que não disseram nada
para ele? Será que são essas as coisas que
o Lexci vai ter que aprender de agora em
diante? Quando o Asïx me colocou para ser o
líder dessa missão, eu não recebi nenhuma
instrução em especial. Só o que ele me disse era
que eu devia ensiná-lo a coletar corações. Oh,
se eu tivesse um poder como o dele. Se essa
Chave-Espada fosse minha — tantas coisas que
poderiam ser feitas com esse tipo de poder —
Recompondo-se de seus devaneios, Luxarmia encarou Lexci nos olhos.
Luxarmia: Tenho grandes esperanças em você, Lexci — todos nós temos. Derrote os Sem-Corações e ajude a Organização a alcançar seu nobre objetivo.
Em resposta, Lexci consentiu.
{ . . . }
Lexci havia acabado de dar seu relatório à Asïx, no salão.
Asïx: Parece que você está progredindo muito bem.
Lexci: — Aham.
Asïx: Você tem descansado apropriadamente?
Lexci: Descansado?
Asïx: Sim — você tem dormindo apropriadamente? Tem tomado banho? Manter-se limpo também faz parte do descanso. É uma missão para garantir que você se saia bem em suas missões.
Lexci: Acho... que sim.
Asïx não ficou muito satisfeito com a resposta de Lexci.
Asïx: E o mesmo se refere a organização de seus equipamentos e ao entendimento sobre suas próprias habilidades. Sendo assim, a partir de hoje, você deverá fazer anotações em um diário.
Lexci: Diário?
Asïx: Sim, para que você se entenda melhor — quero que comece pelo primeiro dia sobre o qual você se lembra.
Asïx deu um bloco de notas para Lexci.
Asïx: Você não tem que apresentá-lo para mim, nem nada. Isso é tudo. Agora volte para o seu quarto e descanse.
Terminando o que tinha para lhe dizer, Asïx tomou seu caminho, deixando o salão. Naquele ambiente, os membros que haviam terminado suas missões tinham o costume de ficar conversando, relaxando, enfim, passavam seu tempo livre por lá. Naquele momento, estavam no salão — Nerlaxe, Edmyx e Doxulr. Lexci os ficou observando por um instante, sentindo algo de estranho no ar.
Nerlaxe: Tá olhando pra quê?
Nerlaxe lhe atacou com o olhar. Lexci desviou o rosto, frustrado, e dessa vez encontrou os olhos de Edmyx.
Edmyx: E aí, uh... sabe tocar algum tipo de instrumento?
Lexci: Instrumento...? O que é um instrumento?
Edmyx: Como uma dessas.
Uma arma de estranha forma surgiu nas mãos de Edmyx.
Lexci: O que é isso?
Edmyx: É a minha cítara. Quer ver? Ouve só isso aqui…
Edmyx tocou sua arma, e um estranho som foi emitido. No mesmo instante, Nerlaxe se levantou do sofá.
Nerlaxe: Para de tocar essa coisa barulhenta!
Nerlaxe gritou, desagradável como sempre, e Edmyx abaixou os ombros. Em um breve sussurro, ele desviou o olhar.
Edmyx: Quem aqui é mais barulhento, afinal...?
Nerlaxe: Uhhh? Disse alguma coisa, esquisitão?
Doxulr: — Na vida, tais prazeres também são necessários.
Doxulr se intrometeu, pondo-se na frente de Nerlaxe.
Nerlaxe: Bah, que seja. Logo, logo eu vou dar adeus pra essa algazarra toda.
Edmyx: O que quer dizer com isso?
Nerlaxe: Isso não é assunto de peões como você. Até.
Nerlaxe deixou o salão. Atrás dela, Edmyx voltou a tocar sua cítara.
Edmyx: Essa mulher é um pé no saco!
Doxulr: Uma das melhores coisas sobre o sexo frágil, não acha?
Edmyx: Não sei bem aonde quer chegar com essa, cara. Né não, Lexci?
Lexci: Eu... não sei se compreendo.
Mulheres são um pé no saco,
então? Eu nem entendo
muito bem o que é uma mulher.
Doxulr abriu um breve sorriso.
Doxulr: Ah, algum dia vocês vão entender.
{ . . . }
No dia seguinte, Lexci foi novamente para a Cidade Crepuscular, desta vez junto a Ixenzo. Sem hesitar, Ixenzo, que era o membro mais jovem da Organização até a chegada de Lexci, observava cada um de seus movimentos. Ele parecia estar pensativo — e se lembrou das pesquisas originais de seu grupo.
Se a Chave-Espada não existisse,
nosso plano não se concretizaria. É um
tanto contraditório, dizer que estamos
pesquisando para buscar por algo que nós
mesmos perdemos. Eu não acho que a
nossa escolha de pesquisar os Sem-Corações
e seu processo de criação tenha sido um
erro. Mas, como consequência de tal
processo, nós perdemos nossos corações.
Lexci: Assim tá bom?
Tendo finalizado sua missão, Lexci retornou ao ponto de partida.
Ixenzo: Excelente trabalho. Acredito que exibirá semelhante diligência nas missões que ainda estão por vir. Bom, mas agora que a missão terminou, você tem alguma pergunta a fazer?
Ouvindo suas palavras, Lexci parou de se mover. O que Ixenzo queria era que ele persistentemente lhe perguntasse coisas sobre as missões. Entretanto, as palavras que deixaram sua boca foram as mais inesperada.
Lexci: O que é — Kingdom Hearts?
Ixenzo hesitou por um momento, imaginando como poderia lhe responder tal dúvida. Mas Lexci continuou, sem notar sua postura.
Lexci: Luxarmia me disse que é um tipo de... força. E quando eu derroto os Sem-Corações, aqueles corações brotam e se tornam parte de Kingdom Hearts, né? Mas, tipo... pra quê isso?
Lexci perguntou em rápida sucessão, e Ixenzo se perdeu em pensamentos por um instante. O olhar de Lexci estava fixado nele.
Como posso responder —?
Ixenzo: — Kingdom Hearts nos completará. Esse é o objetivo da Organização.
Lexci: Nos completará? Nos completará como?
Ixenzo: Lexci. Você, eu e todos os demais membros da Organização somos o que chamamos de "seres inexistentes". Você não é ninguém.
Lexci: Oh, isso não é lá uma coisa muito legal.
Ixenzo: Nós somos "Incorpóreos" — o nome dado àqueles que carecem de uma parte vital de quem são: seus corações.
Será que ele conseguiu entender
a explicação? Na verdade, é necessário
fazer com que Lexci entenda?
Sentindo-se um pouco estranho, Lexci continuou a perguntar.
Lexci: Então, eu não tenho um coração?
Talvez ele ainda não saiba o que realmente
é um "coração". Antes, o meu outro eu,
aquele que pesquisava e tinha um "coração",
achava que entendia um pouco sobre o
que era um "coração". Os tantos sentimentos
da época em que eu tinha um "coração",
gravados em minhas memórias, não podem
mais ser sentidos. Agora eu só posso me
lembrar, e trabalhar duro para que eu possa
tentar prová-los mais uma vez, algum dia.
Ixenzo: Correto. Como todos nós, você entrou neste mundo sem um coração. Mas você pode nos ajudar a consegui-los. Kingdom Hearts é feito exatamente daquilo o que carecemos — uma agregação de corações. Ele tem o poder necessário para nos completar. Começa a perceber o quanto você é importante? Cada um de nós tem um papel vital na Organização. O seu é coletar corações.
Mas — eu ouvi dizer que Lexci não
tem nenhuma memória. Se for verdade,
quer dizer que ele também não tem
memórias sobre a época em que tinha
um coração, diferente de nós, que
lembramos. Talvez seja difícil para ele
sentir que não tem um "coração".
Lexci ouviu a explicação de Ixenzo, olhando para baixo, como se estivesse pensando algo consigo mesmo.
Ixenzo: Mais alguma pergunta?
Lexci: — Ah, não... sinto muito.
Lexci balançou a cabeça.
Será que Lexci entendeu
sobre o "coração"?
Ixenzo pareceu pensativo por um instante, mas logo partiu por um Corredor das Trevas, junto a Lexci.
{ . . . }
Tendo terminando sua missão, Luxarmia chamou por Alex.
Luxarmia: Ouvi dizer que você também virá para o Castelo do Esquecimento —
Alex: As notícias voam.
Alex logo parou de andar, voltando seu olhar para Luxarmia.
Luxarmia: Bem, parece que você e eu teremos missões diferentes. Você abordará assuntos que se ligam ao "Mestre da Chave-Espada", não é mesmo?
Alex: Você é muito bem informado, huh?
Luxarmia: Os membros que serão enviados para lá sabem desse tipo de coisa.
Alex deu de ombros com a resposta, mas antes de voltar a andar, o outro lhe abordou novamente.
Luxarmia: Você não está interessado? Você sabe, no Mestre da Chave-Espada...
Alex: Não em especial.
E é verdade. Não tenho razões
para ter um interesse em especial nele.
Luxarmia: Você não estava mostrando interesse no Lexci?
Alex: Não posso evitar, eu meio que estou no comando dele.
E ao responder, Alex deu as costas a Luxarmia, voltando a andar. Mas suas próximas palavras o fizeram parar novamente.
Luxarmia: Então você não estaria interessando, mesmo se ouvisse que Lexci é o Incorpóreo desse Mestre da Chave-Espada —?
Voltando-se sem ao menos perceber, Alex encarou Luxarmia, os olhos bem encolhidos. Não parecia que ele estava mentindo. Vendo o estado de Alex, o outro deu uma breve risada.
Luxarmia: Quanta honestidade. Parece até um humano.
Alex: Isso é um elogio?
Luxarmia: Talvez seja um elogio — quero dizer que você tem as mesmas reações de alguém que tem um coração.
E então, Luxarmia abriu um encantador sorriso em sua boca.
Alex: E aí? Isso é tudo o que tem para tratar comigo?
Com as frias palavras, Alex tomou seu rumo. Luxarmia apenas o observou.
{ . . . }
Alguns dias depois, Lexci estava na Cidade Crepuscular com Alex.
Alex: É — a nossa segunda missão juntos.
Lexci: Pois é...
Alex coçou a cabeça.
Alex: Calma lá, não precisa falar tanto assim. — Enfim, tá pronto?
Lexci: O quê —? Oh, eu... tô sim.
Consentindo, Lexci empunhou sua Chave-Espada. A missão de hoje era a de coletar corações novamente. Resumia-se ao extermínio de Sem-Corações.
Alex: Então vamos nessa!
Lexci começou a correr ao som da voz de Alex.
Achei que ele já tivesse feito um monte
de missões a essa altura, mas Asïx disse que
essa é a primeira missão pra valer dele.
Lexci agora se movia com bem mais agilidade do que no primeiro dia em que esteve numa missão — e logo atrás dele, Alex lhe servia como suporte, lançando seus Chakrams contra os Sem-Corações.
Nós, os membros da Organização, fora o Lexci,
não podemos recolher corações ao derrotarmos os
Sem-Corações. Em outras palavras, quando eu
saio com Lexci em missões de "coleta de corações",
meu trabalho consiste em dar suporte para ele.
Mas Lexci corria, golpeando os Sem-Corações com sua Chave-Espada, sem nem olhar para Alex. Seus movimentos eram bastante admiráveis. Quando já havia coletado corações o suficiente, Lexci enfim se voltou para Alex.
Alex: Então é isso, né?
Lexci: — Aham...
A Chave-Espada desapareceu das mãos de Lexci. Gotas de suor caíam por sua, enquanto Lexci tentava estabilizar sua respiração ofegante. Alex parecia mais animado do que o normal.
Alex: E aí, você tem planos?
Lexci: Bem, eu só ia dar meu relatório à Asïx e ir para o meu quarto, como sempre.
Bela opção, mas ainda
podia ser melhor.
Alex encarou Lexci nos olhos por um momento, e então coçou a cabeça.
Alex: Ir pro seu quarto? Sabe, Lexci...
Foi quando, não mais do que de repente, as crianças da cidade — as três de antes — passaram correndo por Alex e Lexci.
?: Rápido, Braska! Você também, Garnet!
Braska: Ei, espera por mim!
?: O último que chegar tem que comprar um picolé pro vencedor!
Parece que Lexci e essas
crianças estão destinados a se
encontrarem ou algo assim.
Garnet: Oh, claro, e só agora você avisa!
Braska: Não é justo, Zell!
Zell: Melhor voarem, se não quiserem acabar comprando!
Lexci olhava estranhamente para as crianças que, ao longe, continuavam de costas para eles. Ele não parecia se lembrar de que os havia visto na primeira vez que estivera ali com Alex.
Lexci: Quem eram aqueles?
Alex: Uhm... devem ser umas crianças que moram por aqui.
Lexci: Ah, é...?
Lexci encolheu os olhos. Alex se surpreendeu com sua reação.
Lexci: Eles agem de um jeito estranho.
Alex: É mesmo? Por que acha isso?
Alex não entendeu muito bem o que Lexci queria dizer.
Lexci: Por que aqueles dois últimos pareciam estar gostando de serem intimidados daquele jeito? Eles estavam até fazendo uns sons de "ha, ha" —
Com a pergunta de Lexci, Alex pôde perceber que a expressão em seu rosto estava um pouco diferente do que já estivera até então.
Talvez ele esteja lembrando
algo de seu passado, de quando
ele passava o tempo assim.
Alex: Se refere às risadas? Às vezes, pessoas que tem coração fazem isso mesmo quando não faz sentido.
Lexci: Oh, então isso faz deles diferentes de nós...
Lexci inclinou a cabeça, encarando o chão. Alex coçou a cabeça, sentindo uma atmosfera terrível naquele silêncio.
Alex: Vem, vamos tomar picolé.
Lexci: Por quê?
Alex: Como assim, "por quê"?
Eu não sei o que devo dizer. Eu só queria
tomar um picolé e conversar com o Lexci
naquele lugar, como fizemos no dia em que
nos conhecemos, só isso. Mas começo a
sentir que seria melhor dizer isso com outras
palavras, ou algo assim. Acho que o Lexci
não entenderia se eu não fizesse isso.
Depois de respirar fundo, Alex voltou a encará-lo.
Alex: Ora — porque nós somos amigos.
Dizer isso é horrivelmente embaraçoso.
Mas, dizer isso alto assim dá alguma
significância. E eu não consegui pensar
em nenhuma outra boa desculpa.
Lexci: Então — amigos são pessoas que tomam picolé juntos?
Alex: Mais ou menos... fazem isso, ou então ficam rindo juntos de coisas estúpidas que não fazem sentido algum. Tipo as crianças que a gente acabou de ver — eles são amigos.
Lexci observou Alex, um estranho olhar em seu rosto.
Alex: Vem, vou te mostrar como funciona.
Alex começou a caminhar para a pequena loja de doces, como se estivesse escapando do olhar de Lexci.
{ . . . }
As crianças conversavam umas com as outras no espaço aberto na frente da torre do relógio.
Será que essa condição tem algum
significado mais profundo?
Lexci as observava enquanto tomava seu picolé.
Eu posso sentir agora que o Lexci tem
um senso de si mesmo bem maior
do que no dia em que nos conhecemos,
maior até do que no dia da nossa primeira
missão. Mas, de alguma forma, ainda
é vazio e gelado. Isso é algo que
todos os Incorpóreos têm em comum.
Alex: Ei, Lexci.
Lexci ergueu o rosto.
O que eu ia dizer mesmo?
Alex: Quando terminarmos nossas missões, vamos continuar vindo aqui para tomar picolé. Quero dizer, quem é que quer ficar passando os dias só pulando do castelo pro trabalho e do trabalho pro castelo, né não?
Até eu me surpreendi com o que disse.
Assim como as coisas que eu havia
dito antes, nem mesmo eu esperava por
isso. Mas as palavras pularam da
minha boca quase que automaticamente.
Lexci observou as crianças no espaço aberto novamente, um estranho olhar estampado em seu rosto.
Lexci: Ha, ha — é, eu realmente não ia querer isso! Ei, eu ri... acho que nós somos mesmo amigos.
Talvez ele tenha apenas forçado uma risada,
mas — provavelmente foi só minha
imaginação — mas, por um momento,
eu pensei ter visto o Lexci sorrir de verdade.
Alex: Eu até que vou sentir falta de tomar picolé assim, sabe?
Lexci: Huh...? Por quê?
Os olhos de Lexci se alargaram.
Alex: A partir de amanhã, eu vou me ausentar.
Lexci: Oh —
Alex: Já que você é meu parceiro, acho que posso te deixar sabendo. Eu vou ficar no Castelo do Esquecimento por um tempo.
Lexci: O que é isso?
Alex: A Organização tem um segundo castelo situado em um mundo de intermédio. Se chama Castelo do Esquecimento. Deu pra memorizar?
Lexci: Aham — eu queria que me contassem essas coisas...
Lexci olhou para baixo.
Lexci: Quando você volta?
Alex: Uhm — não sei bem quando. Mas quando eu voltar, vamos vir aqui pra tomar picolé juntos aqui de novo.
Lexci: — Tá certo.
O olhar de Lexci seguiu um trem que partia, ao longe.
Alex: Bem, tenho que voltar pra arrumar minhas coisa. Cê sabe como é, diversão e mais diversão...
Lexci: Ah, então eu também —
Alex: Nah, relaxa aí e toma o seu picolé. A gente se vê.
Alex levantou, abrindo um Corredor das Trevas do lado da torre do relógio, e em seguida, sua figura desapareceu. Lexci ficou sozinho. Dando uma mordida em seu picolé, ele murmurou.
Lexci: — Salgado...
Foi só então que Lexci viu que havia algo escrito no palito do picolé. Ele logo colocou todo o resto em sua boca, tomando tudo de uma vez só.
Lexci: O que é isso...?
O que havia escrito no palito de picolé era — "VENCEDOR".
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