Escutando o barulho do vento assoviar entre as frestas da janela aberta, Flug abriu os olhos assustado.

Quando foi que caiu no sono?

Olhando a sua volta, coçou os olhos cansados e bocejou. Olhou para sua mesa e viu que havia elaborado cerca de 7 bombas disfarçadas de ornamentos para cabelo, e, aproveitando o embalo, o cientista havia feito também 14 acessórios diferentes, como presilhas e grampos, envenenados.

Que horas eram?

Flug tateou a mesa procurando seu celular, quando o encontrou viu que estava sem bateria. Suspirou. Sempre esquecia de pôr para carregar. Uma preocupação ocupou sua mente quando pensou que seu irmão poderia ter lhe ligado para dar notícias mas não conseguiu o chamar. Chacoalhou a cabeça, não, confie em seu irmão, ele vai voltar são e salvo, disse para si mesmo.

Levantando-se da cadeira, andou até a mesa de trabalho de Slug e viu o relógio acoplado, que seu irmão gostava de ter por perto, marcar quatro da manhã.

Flug passou a mão pelo rosto, não era a toa que ele havia desmaiado. Analisando a situação do laboratório e de si mesmo, percebeu que ambos precisavam de uma faxina. A sede possuía literalmente um apartamento embutido no segundo andar, mas Slug não o permitia morar por lá dizendo que não era saudável viver no ambiente de trabalho. Então ambos possuíam uma casa conjugada alguns quarteirões acima.

Para segurança dos dois, eles possuíam apenas um carro, que, por algum motivo, havia estragado e nenhum deles se incomodou para consertá-lo. É como dizem, casa de ferreiro

Preparou sua mochila, contendo um pouco mais do que o necessário, como a carteira, desodorante, o videogame portátil, seu headphone e algumas outras coisas. Optou por incluir também um taser, um spray de pimenta e um mini-lança dardos sonífero banhados em clorofórmio.

Necessidades.

Retirando o jaleco, Flug subiu as escadas e pendurou-o em seu gancho, botando sua jaqueta de piloto costumeira por cima da camiseta estampada, e então a mochila. O vento indicava uma frente fria e uma provável chuva indesejada. Chacoalhando um arrepio que apareceu no nada, o cientista se dirigiu ao portão de entrada, trancando todas as portas por qual passava. Quando fechou a passagem do laboratório com o portão de aço de enrolar, trancou-a com cadeado. E acionou a parede holográfica por cima.

Recuando alguns passos olhou e nada mais via que uma parede com o mesmo tecido dos outros cômodos, sem nenhum indício de passagem secreta.

Perfeito.

À sua direita estava a porta de entrada para o apartamento reserva. Flug franziu. Queria muito poder ficar, não estava nem um pouco a fim de voltar apé para casa sozinho, mas ele não tinha roupa reserva para tomar o tão necessário banho, e na geladeira não estava abastecido com nada de instantâneo. Trancou a porta.

Bipando o alarme dos robôs, Flug olhou para os dois lados antes de sair pela porta de trás e bipou novamente quando trancou a mesma. Notando que as câmeras de segurança estavam acionadas e funcionando, se sentiu seguro o suficiente para ir embora.

Estava mesmo ventando gelado. Flug fechou o zíper de sua jaqueta e ajustou os óculos, levantando a gola de lã interna para cobrir seu pescoço sardento.

Apesar de sua cidade estar no canto mais superior do México, quase fora do próprio país - sendo separado somente por um muro construído pelo governante do país vizinho - a vegetação estilo cerrado ainda era bastante predominante.

O centro, mais específico na Avenida República, era onde se concentravam todos os tipos de bares, restaurantes, hotéis e centros de lazer que a cidade podia oferecer - sendo que a Zona norte da mesma era onde havia todos os tipos de prostitutas possíveis e zebras. Muitas e muitas zebras, por toda a parte.

Era madrugada de domingo, então o centro estava super iluminado com todos os tipos de cores possíveis. Amarelo, Verde, Laranja, Vermelho, Azul e Roxo. Tudo em neon. Piscando, contornando, animando e ofuscando os olhos de quem passava.

Tequila, embriagando todos os moradores e turistas que decidiram virar a noite de sábado cantando Karaokê. Muitos, muitos cantores de Karaokê.

Flug sentia as olheiras pesarem e a dor de cabeça bater. Ele não gostava de locais assim, preferindo locais mais calmos e pacatos. Decidiu pegar um desvio, sem precisar passar pelo centro. Acabando por pegar um caminho um pouco maior já que teria de dar a volta pela outra quadra.

Baforou sobre as mãos geladas enquanto descia a estrada de chão que levava até o laboratório escondido, pensando em como era idiota de não ter pego uma luva. Botou as mãos no bolso para conversar a temperatura das mesmas, e quando chegou na rua asfaltada desceu a esquerda pelo caminho alternativo.

Demoraria cerca de alguns minutos até chegar a sua casa, e sentia que ficaria com fome logo. Vendo a loja de conveniência 24 horas a alguns metros mais adiante, resolveu comprar algo para comer enquanto voltasse a pé.

Ao entrar na Av. Constitución, atravessou a rua e entrou na loja de Conveniência acoplada a um Hotel malacabado com uma simbologia de Caveira La Catrina na porta principal - um Hotel licenciado para vilões de todas as classes, chamado La Cordura Umbral.

Entrando na loja, notou que a mesma estava vazia, até mesmo de funcionários no caixa. Suspeito.

Retirando dois pacotes de Chips sabor Bacon e um pacote de bolacha da prateleira, foi até a geladeira e pegou uma lata de refrigerante. Antes que fechar a porta da geladeira, escutou um barulho alto como se a porta dos fundos da loja tivesse batido com muita força. Assustado, acabou deixando um pacote de chips cair no chão. Agachou-se para pegar e ouviu passos de alguém correndo atrás de si e sair rapidamente pela porta de entrada, soando o sino de movimento. Quando Flug levantou e olhou novamente, não havia ninguém ou sinal de que realmente tivesse acontecido o que ouvira.

Olhando suspeito para o restante da loja, apertou o passo para a bancada de pagamento e tocou a campainha de atendimento.

Nada.

Flug retirou uma nota de 5 dólares do bolso e colocou embaixo da campainha. Jogando tudo dentro de uma sacola que pegou perto do caixa, o cientista saiu do estabelecimento em rumo a sua casa.

Quanto já estava no final da quadra, Flug tropeçou em uma pedra solta e cambaleou tentando tomar equilíbrio de novo. Olhou para a pedra que o havia atrapalhado e notou que tinha algo estranho e levemente reluzente nela.

Quando se aproximou para estudar o que era aquilo, o cientista viu que era alguma coisa líquida, semi-pastosa e de cor esverdeada. Como… um muco. Sentiu vontade de tirar uma amostra, mas algumas pessoas que caminhavam na rua pareciam estar olhando para ele. Envergonhado, e sem coragem de chamar ainda mais atenção, ignorou o que havia visto e continuou o seu caminho.

Abrindo um dos pacotes de Chips que comprara, virou a esquerda e continuou a subir a rua enquanto comia. Olhou para o céu e viu que ele estava estranhamente nublado, incapacitando de ver a lua e as estrelas.

Ótimo, além de frio estava nublado. Flug só podia torcer para que não chovesse.

Algumas quadras andadas, o cientista já havia terminado o pacote de Chips e estava tomando o refrigerante de canudinho. Fazia cálculos mentais de alguns projetos que não terminara, e pensava em métodos mais práticos de passar as fases de seu jogo sem gastar mais balas do que deveria - entre outros pensamentos aleatórios que percorriam sua mente, o deixando ausente do que acontecia ao seu redor.

Por isso, quando escutou um gato arisco miar de raiva ao sair das sobras de um beco por qual passava, não segurou o grito alto e o pulo de susto. Agarrando seu coração fraco que batia feito motor de carro em disparada. Cambaleando um pouco e agarrando os joelhos para que se mantivesse em pé. Tateou a lateral da mochila onde seu taser estava e se sentiu um pouco mais seguro.

E então, antes que pudesse continuar subindo a rua, já estando próximo a sua casa, escutou uma mistura de sons como grunhido grosso como um crocodilo seguido de um gemido de dor, vindo do beco. Como se um animal de porte grande estivesse preso em uma armadilha de urso ou algo parecido.

Flug engoliu a seco e sentiu um arrepio percorrer sua espinha, inclinou-se para a escuridão do beco e viu cerca de 5 pares de olhos vermelhos horrendos o fitando.

Flug fugiu.

E então parou.

Olhou para trás e coçou a cabeça.

Aquilo era certamente um gemido de dor, e ele não tinha certeza se conseguiria conviver com a ideia de ter negligenciado ajuda a algum bicho inocente. Seja lá que tipo de bicho que fosse. Apertando os olhos e os pulsos com força, ligou a lanterna de seu chaveiro e voltou correndo para o beco.

Quando Flug chegou não havia mais nenhum par de olhos vermelhos e apenas um som fino de respiração doída. Entrando na escuridão do beco, o cientista se aproximou apontando a lanterna para onde ele acreditava estar vindo o som.

Não era um animal, era um homem.

Um homem negro, vestindo uma camiseta social cor de vinho com manchas de queimaduras, calça social igualmente escura e suja, com sapato social ilustrado e aparentemente novos. Sentado no chão do recinto, o homem usava um chapéu coco e um monóculo.

Flug inclinou a cabeça e se perguntou se já não havia visto aquela figura em algum lugar.

"Vá. Embora." o cientista escutou o homem dizer em voz baixa.

"Vou te ajudar." disse o cientista já se aproximando mais.

"VÁ." ordenou o homem novamente, aumento o tom de voz "EMBORA."

Flug analisou a situação e viu que a sujeira em sua camiseta e calça era esverdeada e líquida. Muito parecido com o muco anteriormente visto na pedra em que tropeçara.

"Isso é… seu sangue?" perguntou o cientista, prendendo a respiração e aproximando-se mais um passo.

"Você quer morrer, garoto?" Viu o homem franzir e encará-lo por debaixo da sombra de seu chapéu côco, Flug conseguiu ver que os olhos que lhe encaravam era vermelhos vibrantes.

A sombra embaixo de seu pé tremia como se fosse sólida e tentáculos da mesma cor, saíram dela enrolando-o o tornozelo. Assustado, Flug pulou para trás e se desvinculou dos membros. Apontou a lanterna novamente para o homem e o viu retorcer-se em dor com os braços sobre seu peito.

"Grrrrh" Rosnou o ser.

Ofegante, Flug olhava sem saber como ajudar o homem que se recusava a ser ajudado. Não podia ligar para a ambulância pois seu celular ainda estava sem bateria, mas o pegou mesmo assim torcendo para que ainda restasse um pingo de bateria para ligá-lo. Sorrindo ao ver que ele havia mesmo ligado, assustou-se sentindo algo golpear-lhe a mão e seu celular sair voando - batendo com tudo na parede, separando a carcaça da bateria.

"Meu celular!" reclamou o cientista indignado.

"Nada de ambulância," Franziu o vilão ainda encarando mal humorado, o cientista. "Sou um vilão." respondeu estufando o peito com honra, e, logo em seguida, encolhendo-se de dor novamente, cuspindo mais muco esverdeado que pingava dentre seus dentes afiados.

Flug arregalou os olhos e apontou a lanterna novamente, foi então que lembrou. Aquele era Black Hat.

Abriu a boca para falar algo, mas não conseguia. Era muitas coisas passando pela sua cabeça ao mesmo tempo.

Queria ajudá-lo, mas ainda estava envergonhado pelo que acontecera a meses atrás no baile de Lorde Lúdico Vil. Seu rosto esquentou inconscientemente.

Chacoalhou a cabeça, a culpa não era dele. Flug que entendeu completamente errado as indiretas. O demônio só queria contratar um cientista, ou tirar sarro dele - como todo vilão costuma fazer com cientistas.

Sem contar que ele estava de máscara e ainda disfarçado de Dr. Premisto, o demônio provavelmente nem o reconhecia mais.

Tomando fôlego novamente para falar algo, parou, escutando passos correrem na direção de ambos, vindo pelo outro lado do beco.

Black Hat também escutou já que rapidamente ergueu a cabeça e apoiou-se na parede tentando se levantar, cuspindo mais líquido viscoso.

"¡Tiene rastros de sangre aquí!" escutaram ambos uma voz latina dizer.

"Malditos…" disse o demônio, franzindo em direção da voz. "Preciso sair daqui." reunindo toda a energia que conseguiu, escorou-se na parede e caminhou em direção do cientista, passando por ele em direção a avenida.

Flug viu Black Hat descer em direção contrária de onde vinha, e segurou-lhe o braço.

"Espera," pediu.

O demônio o encarou sem paciência e rosnou.

Flug apontou para o final da subida. "Vem comigo, eu posso te ajudar. Minha casa fica a 2 quadras para cima."

Black Hat puxou braço e continuou o caminho descendo a rua.

"Me esquece, garoto."

Flug bufou de raiva e puxou o braço do ser demoníaco de novo, mas antes que conseguisse falar algo, ambos escutaram uma voz vir diretamente do outro lado para eles.

"¡Allí! ¡Lo encontré!" gritou o latino de antes "¡Es hoy que usted muere, su peste!"

Black Hat apressou o passo mas cambaleou de dor e jogou o corpo contra a parede, tentando recuperar o fôlego enquanto suas feridas tentavam, em vão, se curar mais rápido.

Malditos heróis e suas armas científicas - o impedindo de se auto regenerar como normalmente fazia.

Escutando passos correrem em direção de ambos, Flug abriu a mochila, e sem pensar duas vezes, sacou a pistola de dardos soníferos. Apontou para o latino que se aproximava.

Mirou e atirou.

"Agh!" Escutou o outro gritar assustado por ter sido acertado com algo e parou de correr. "¿Pero, qué mierd-?" E caiu ao chão, desmaiado.

Flug pôs a pistola na lateral da mochila, e a colocou de novo sobre o ombro. Puxou Black Hat da parede e jogou o braço do maior sobre suas omoplatas, servindo de apoio para que o mesmo pudesse andar.

"Não teima, são só duas quadras." retrucou respirando fundo, e auxiliou o demônio em direção ao fim da subida.

Black Hat, ainda que indignado e surpreso com o ato que havia presenciado, e a ousadia que recém escutou, se deixou ser levado.

"Eu poderia te matar, sabia?" não querendo perder a oportunidade de retrucar, retrucou. Desviando os olhos do humano.

"Eu sei muito bem disso." respondeu Flug ofegante por servir de suporte para tanto peso.

"... Hm" terminou dizendo, Black Hat, o egocêntrico "... Bom mesmo."

O portão da casa era branco e relativamente baixo. Sem cercas, ou arame, ou qualquer coisa que protegesse de invasão domiciliar. Enquanto o cientista abria os cadeados, Black Hat julgava o local com palavras formais e desnecessárias - Flug se perguntou porque achava tão engraçada a conversa que tiveram naquela noite do baile, o demônio não parecia ser nenhum pouco cômico.

"Esse lugar cheira a mofo, como pode viver em um local desses?" Revirando os olhos, Flug decidiu ignorar.

"Senta aí." Flug jogou o demônio no sofá, assim que chegou perto o bastante para fazê-lo, retirou sua jaqueta de piloto e se dirigiu a cozinha.

Pegou um pano, álcool etílico, gaze e esparadrapo. Ao passar pela porta da cozinha novamente, fez o sinal da cruz em respeito a figura bíblica que pendurou na mesma, pedindo em voz baixa que nenhum santo deixasse o demônio morrer sangrado em seu sofá.

"Sua prece é inútil," escutou a criatura retrucar quando voltou ao encontro do mesmo, "nenhum santo atende em minha presença, garoto."

Semi-cerrando os olhos e franzindo, Flug, parado em frente ao demônio sentado no sofá, apontou o dedo bem rente ao seu rosto e inclinou-se.

"Escuta aqui. Primeiro, santos só não atendem quando não há fé suficiente." disse sério, vendo Black Hat revirar os olhos e sussurrar maldita fé mexicana para ninguém em específico "E segundo, isso vai doer pra caramba então não destrua meu sofá." abriu o álcool etílico e encharcou o pano.

Passando o pano banhado em álcool pelas feridas no rosto e no pescoço do demônio a sua frente, viu o mesmo enrijecer, tentando conter a dor e a ardência que dominava aquela região com os punhos fechados.

"Ótimo," agradeceu Flug, "agora tira a camisa, preciso limpar as outras feridas também."

Black Hat, sentou o mais reto que conseguia no sofá e retirou a camisa social cor de vinho, manchada de verde, jogando-a no chão. Seu peito, Flug notou, era bem mais definido do que imaginava e curiosamente ausente de mamilos. Seus braços tinham os desenhos certos de músculos e sua clavícula era fina e simétrica.

O cientista nem notou que estava o encarando.

"Gosta do que vê, Doutor?" viu o demônio sorrir com aqueles dentes afiados e ameaçadores.

"Já vi melhores," retrucou, ignorando o próprio rosto avermelhado, notando que o sorriso desapareceu - aparentemente, atingiu um ponto sensível do egocêntrico sentado à sua frente.

Voltando a analisar as feridas do demônio, notou que bem no centro do peito estava um buraco.

Um buraco, literalmente.

Flug conseguia quase ver seu sofá do outro lado. Retirando um par de luvas de sua mochila, vestiu, passou álcool nas mãos de látex e aproximou-se para analisar a ferida. Antes que pudesse tocar, uma mão negra cheia de garras o parou.

"Você é médico, por acaso?" o cientista viu Black Hat o encarar com aqueles olhos vermelhos, pela sombra de seu chapéu coco. O analisando com cautela.

Flug engoliu a seco.

"Eu... tenho certificado de cirurgião." Respondeu sem saber ao certo se deveria abrir tanto o jogo para o demônio, julgando o passado entre os dois "Eu sei o que eu estou fazendo."

Sentindo a mão do mais velho soltar seu pulso, Flug curvou-se para que pudesse analisar a situação na ferida aberta em seu peito. Enquanto tocava e sentia a situação localizada, Black Hat gemia de dor.

Passando um dedo pela borda da ferida, viu resquícios de pele morte na ponta da luva.

Tinha algo errado com aquela ferida, ela parecia estar em carne-viva mas ao mesmo tempo, se deteriorando minimamente, como se… cada célula estivesse passando um tipo de veneno umas para as outras que adoeciam e continuavam a infestação.

Lentamente.

E dolorosamente.

Até consumir toda a matéria orgânica.

"Como era a arma que te atingiu?" Perguntou o cientista apreensivo, não querendo estar certo, mas, ao mesmo tempo, tendo dúvidas quanto ao palpite válido.

Black Hat olhou para o nada por um segundo e franziu, provavelmente tentando lembrar como a arma era.

"Grande, como um canhão de plasma." Respondeu, "Mas era mais fina e menos…" chacoalhou os dedos da mão tentando exemplificar o que passava pela sua mente "... cheio de parafusos e placas metálicas, que normalmente essas armas tem." e continuou "Era toda pintada de uma cor arroxeada, exceto pela logomarca da MadSlysTM estampada na lateral."

Flug prendeu a respiração.

Era o canhão de dissociação celular de seu irmão.

Uma das diversas armas que zarparam no barco roubado. Então… a pessoa que atacou Black Hat deveria ter alguma conexão com o roubo de sua embarcação, deduziu.

Mordendo os lábios e pensando em uma estratégia rápida, Flug olhou para Black Hat que o encarava como se esperasse algum tipo de notícia, com uma das sobrancelhas levantadas.

O cientista tirou as luvas e correu para o quarto de seu irmão.

"Eu tive um plano, você fica aí!" O demônio escutou o cientista gritar do outro lado do corredor.

Revirando os olhos, Black Hat bufou pensando como se eu tivesse forças para sair.

No quarto de Slug, Flug revirou as gavetas e as estantes a procura de um cilindro específico cor alaranjada que sabia estar ali em algum lugar. Procurou embaixo da cama, e dentro de todas as caixas de tranqueira que seu irmão possuía, menos em um lugar.

Um lugar que ele nunca mais queria abrir na vida…

Corando, agachou e abriu a gaveta de cuecas e meias. Dentro da gaveta, havia um fundo falso. Retirou todas as roupas íntimas, puxou o fundo falso e corou ainda mais vendo a coleção de brinquedos sexuais de seu irmão. Era uma coleção… nada discreta. Respirando fundo e mexendo dentro do fundo falso, encontrou, aliviado, um kit de cilindros coloridos próximo a um…. err… deixa quieto.

Dentro do Kit, pegou o de cor alaranjada rotulada de "Quebra de Desassociação" escrita com a grafia de Slug.

Jogando tudo de qualquer jeito de volta no lugar, Flug correu de volta para a cozinha, pegou mais um pano, uma caixinha de algodão e uma colher de pau. Antes de sair da cozinha com os utensílios, deu meia volta e largou a colher de pau, optando pelo rolo de massa feito de madeira.

"É…" contemplou o item em mãos "isso vai ser mais útil."

Voltou correndo para a sala vendo que o demônio ainda estava sentado em seu sofá, olhando desconfiado para o cientista frenético e ofegante, levemente corado, segurando um monte de coisas sem sentido em suas mãos.

Flug ignorou o olhar e se aproximou novamente, vendo que o demônio estava suando frio. Pegou a pistola de dardos soníferos e pôs ao seu lado no sofá.

"Morde isso!" Disse o cientista segurando o rolo na frente do rosto do demônio machucado.

Black Hat arqueou uma sobrancelha.

"Não antes de você me explicar esse seu plano, e eu aceitar ele." retrucou.

O problema era que Flug não podia explicar exatamente todos os detalhes. O cilíndro alaranjado possuía o antídoto para um dos canhões mais mortíferos que seu irmão já criou. Um canhão que nem mesmo eles sabiam que poderia matar demônios.

Suspirando, Flug assentiu e pensou em uma maneira de explicar sem revelar tudo.

"Tá bem," respirou fundo e foi "V-Você foi atingido por uma arma chamada canhão de dissociação celular, que tem a capacidade de envenenar e consequentemente separar células orgânicas, ou seja," gesticulou tentando exemplificar o que queria dizer com tudo aquilo "Seu fator de regeneração não vai vencer a deterioração das suas células e você vai morrer." encarou os olhos do demônio relativamente assustado "Lenta e dolorosamente."

Pegando o frasco e mostrando para o demônio sentado à sua frente, continuou.

"Isso aqui é um…" tentou evitar palavras desnecessárias e incriminatórias "tipo de remédio que… vai…" tentava ao máximo pensar em vocabulários normais e simples "garantir que essas células não adoecam tanto, e que... permita seu fator de regeneração… curá-las. Entendeu?"

Black Hat assentiu devagar com a cabeça.

"Certo." Flug acompanhou, "OK. Então… eu vou te curar e você vai estar me devendo um favor, simples." terminou pegando o rolo e apontando ele novamente para o rosto do demônio.

Flug sentiu seu pulso ser agarrado pelas mãos escuras e cheias de garras novamente. Black Hat franziu.

"Demônios não devem favores, Doutor." Retrucou a criatura. "Você vai me dizer exatamente o que você quer e se, e somente se, eu concordar com isso, podemos dar andamento ao tratamento, capiche?"

Flug, suando frio, engoliu a seco. Pensando nas exatas palavras que deveria dizer para garantir que conseguisse seu desejo.

Ele queria se assegurar que seu irmão estivesse bem, mas sabia que não poderia pedir isso - apesar de que ouvira dizer que demônios conseguissem realizar tantos feitos impossíveis. Afinal, ele confiava em seu irmão, e sabia que voltaria logo. Mas também… ele estava preocupado com a embarcação roubada.

Se, nessa mesma cidade, havia pessoas utilizando as armas que eles tinham estocado no navio para despache, significa que parte dessa mercadoria já não chegaria ao consumidor final ou em quem encomendou eles! Seria um baita prejuízo para a empresa e quem roubou poderia ser o assaltante.

Flug, mordendo os lábios, olhou para Black Hat o encarando.

"Quero que me ajude a encontrar aqueles que te atacaram." Pediu sério.

O demônio abriu a boca para dizer algo, mas nada saiu e então fechou elas novamente, pensativo.

"O que você ganha com isso?" perguntou curioso.

Flug pegou o rolo de massa e apontou novamente para o rosto do demônio.

"Mais do que você precisa saber." respondeu com seriedade.

Black Hat, abrindo a boca e enrolando todo o contorno da madeira com sua língua comprida de serpente peçonhenta, puxou o item para que ficasse entre seus dentes. Não deixando os olhos saírem de Flug nem por um segundo.

"Olha, eu vou ser bem sincero com você" disse o cientista tirando um pedaço de algodão e banhando-o no antídoto, "isso vai doer pra caralho, ainda mais que antes, então eu vou começar pelo seu rosto de novo para você se acostumar."

Black Hat assentiu com a cabeça, sem desgrudar os olhos.

Flug inclinou-se para frente e passou levemente o algodão sobre as feridas em sua bochecha esquerda. Escutando a criatura se contorcer de dor, viu-o apertar as unhas contra a própria mão, pingando gotas de seu sangue verde sobre o estofado do sofá.

"Não suja meu sofá!" reclamou o cientista, recebendo um rosto demoníaco o encarando com raiva em resposta. "Eu estou salvando a sua vida aqui, se controle!" vendo um rosto de indignação vindo de Black Hat, continuou seu trato.

O algodão limpou-lhe a pele do rosto ferida por ferida, e a posição em que Flug se encontrava estava doendo suas costas - e Black Hat nada ajudava pois instintivamente fugia com seu rosto de um lado para o outro, esticando o mais longe que podia pela dor absurda que recebia do antídoto.

Flug, quase caindo em cima do demônio no sofá, optou por apoiar seu joelho na beirada do mesmo para que pudesse ter equilíbrio para caçar a cabeça que não parava de se mexer.

"Pare de se mexer tanto, eu não consigo te limpar desse jeito." Escutando o pedido do cientista, Black Hat analisou a situação em que o menor estava e se aproveitou. Puxou ambas as suas coxas para apoiarem-se no estofado em que sentava, com os joelhos do cientista agora bem próximos de sua cintura. "O-o que você-?" perguntou Flug sem entender o que o demônio estava planejando com aquilo.

Sem que houvesse como se preparar, sentiu todas as dez garras de Black Hat fincarem em suas coxas de uma vez.

Gritou.

Deixando o algodão cair, agarrou com força o ombro do demônio a sua frente, perdendo todo o equilíbrio e se desconcertando, deixando a cabeça cair próxima do encosto do sofá, ao lado da face da criatura.

Flug, levantando a cabeça novamente, encarou - absurdamente vermelho por diversos motivos - Black Hat que arqueava uma sobrancelha e sorria apesar de ter um pedaço cilíndrico enorme de madeira entre seus dentes. Olhou para suas pernas, analisando a situação, lá se vai meu jeans.

Consertando sua postura, pegou o pedaço de pano novo e banhou no antídoto enquanto encarava o demônio em baixo de si.

Se é dessa maneira que ele escolheu jogar, vai ser dessa maneira que o jogo vai rolar. Pensou, agradecendo pela primeira vez na vida as diversos maus-tratos que seus antigos patrões infligiram sobre seu corpo - agora não mais - sensível.

Encostou um pedaço do pano com antídoto na ferida entre sua garganta e sua clavícula, e Black Hat rosnou de dor de novo - trincando o rolo entre seus dentes -, ao mesmo tempo em que arrancou um gemido incerto de Flug, através das garras que arranhavam-lhe a pele.

Alguns minutos mais tarde, Flug já havia perdido toda a sensibilidade da parte externa e interna de sua coxa, de sua cintura, e de parte das costas também. Seu jeans estava absolutamente descartável pela quantia de rasgos e furos, seu coração palpitava rápido, seu rosto estava quente como febre de 45º, seu cabelo ondulado estava levemente molhado de suor e ele tinha uma leve impressão de estar ereto.

Black Hat estava acabado.

Suava frio e de seus olhos saiam gotículas de algo que lembrava lágrimas, mas o cientista não conseguia gravar essa memória mesmo que quisesse muito, como se ele não tivesse permissão para isso.

"Só falta…" disse Flug ofegante, "Só falta o buraco em seu peito."

Black Hat parecia estar quase desacordado, suas pupilas finas como de um gato arisco, brilhando uma cor intensa avermelhada, estavam desfocadas ainda que pareciam querer o encarar. Mas não conseguissem.

"Senhor." Chamou Flug, tentando mantê-lo acordado. "Essa vai ser a pior de todas." Franziu preocupado.

Black Hat não deixava de encará-lo com aqueles olhos assustadores, incomodando Flug. Mas ele sabia que precisava continuar, se não, a deterioração das células em seu peito poderia levá-lo à morte depois de todo o trabalho até agora.

Dobrando o pano na metade duas vezes, banhou-o o máximo possível de antídoto e posicionou próximo a ferida aberta.

"Por favor, não me mata." Fechou os olhos com força e, encolhendo-se, planejou apertar o pano encharcado no exato ponto exposto de maneira rápida, mas, antes que pudesse pressionar, sentiu suas mãos pararem à centímetros de tocar a ferida.

Plumb

Flug escutou barulho de algo cair no chão. Abrindo um dos olhos e ousando ver o que era, se arrependeu.

Era o rolo de massa. Coberto em sangue verde.

Engoliu seco e sentiu um arrepio subir sua espinha.

Black Hat agarrava com apenas uma das mãos, ambas as do cientista que seguravam o pano encharcado, puxando para que não saíssem do lugar. A segunda mão subiu suas costas até sua nuca onde, com uma garra, cortou o material que usava como blusa - da gola até o final da manga curta no braço direito -, expondo praticamente metade de seu tronco superior. Terminado o trabalho, pousou sua mão no final das costas de Flug novamente, puxando-o com força. Separando seus peitos apenas pelo pano a centímetros de sua ferida aberta.

O cientista tremeu esperando pelo pior.

Black Hat passou a língua áspera e pegajosa pela extensão da pele branca, sardenta e corada do mais novo e o mordeu forte, ao mesmo tempo em que apertou o pano contra a própria ferida.

Ambos gritaram.

Os dentes, fincados na pele do cientista, abriam espaço para seu sangue quente escorrer e descer seu corpo, enquanto a outra mão continuava a lhe arranhar toda a extensão de suas costa, de cima a baixo.

Em um estado de agonia e medo do que poderia vir em seguida, Flug tentou levantar-se de sua posição e se afastar. Mas o demônio o prendia.

Jogando o corpo para o lado, conseguiu desvincular uma das mãos presas em seu peito. Pegou a pistola de dardos soníferos e apontou para a cabeça ainda presa em seu ombro.

Viu o corpo de Black Hat começando a se desfigurar, vendo o início de tentáculos saírem de suas costas ameaçando fazer algo que Flug não tinha certeza se gostaria de experimentar.

Por instinto, atirou.

Black Hat parou, os tentáculos caíram sobre o estofado do sofá e seu dentes de contraíram para fora de Flug. Suas garras desapareceram de sua pele e seu corpo despencou.

Saindo de cima da criatura inconsciente, Flug agarrou o ombro mordido e analisou a situação.

O demônio parecia dormir profundamente, sua ferida já não dava sinais de agravação. E, aparentemente, o cientista estava mesmo ereto.

Suspirando, Flug largou a pistola no sofá novamente e decidiu finalmente ter seu merecido banho.