O ESCORPIÃO ESCARLATE – 2ª TEMPORADA
Capítulo Anterior – Milo fica aborrecido por Kamus não procurá-lo. Na véspera de Natal o francês passa minutos terríveis ao lado de sua tia e seu sistema nervoso fica tão abalado, que chega a pensar em suicídio. No mesmo dia Shaka convida-o para a ceia de Natal e consegue aliviar um pouco o pesado fardo do chefe. O Escorpiniano tem um pesadelo com o investigador e acaba perdoando a atitude do policial.
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- ... Podia até fingir que não gostava mais do Aquariano e que o odiava, mas dentro de seu coração, sabia que tudo isso era mentira. COMO podia sentir ódio pela pessoa por quem pensava e suspirava vinte e quatro horas por dia ?
"Perdão, Kâ. Perdão meu francesinho" - pediu em pensamento – "Eu estava enganado. Você não é um monstro-desprezível-sem-coração" – pegou imediatamente o bilhete que o investigador havia mandado e começou a acariciá-lo - "Eu acredito que você gosta de mim e está fazendo tudo isso para me poupar. Sei que você é racional demais para dizer que me ama se eu ainda tenho dois anos para cumprir"
Suspirou novamente. Dois anos. Conseguira cumprir quatro meses. Agora só faltava um ano e oito meses. – "Kâ, falta tão pouco." – refletiu para tentar animar-se – "Me espera. Por favor, me espera".
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O Escorpião Escarlate - Capítulo III – O novo agente
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IPF. Terça-feira. Primeira semana de janeiro.
Enquanto escrevia um e-mail o notebook emitiu um aviso sonoro. Faltavam apenas cinco minutos para seu compromisso.
O Aquariano era uma pessoa que gostava de honrar os horários. E ai de quem falasse que o mesmo possuía pontualidade britânica (1). Ao menos ali na França poderia ficar tranqüilo pois de certo a gracinha seria evitada.
Kamus levantou-se, ajeitou a gravata e pegou seu palm top.
Revisou sua mesa rapidamente com os olhos. Os poucos papéis estavam organizados e as três pastas, devidamente fechadas, foram deixada na frente da policial Marin.
- Devolva aos arquivos. – pediu-lhe antes de sair da sala.
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Enquanto dirigia-se à sala do Superintendente, tentava imaginar o motivo de ser chamado. Não suportava ir a uma reunião sem conhecer-lhe a pauta. Dohko avisara cerca de uma hora atrás que queria vê-lo para um assunto mais longo. Ainda bem que era organizado e conseguiu repassar rapidamente os três maiores casos nos quais trabalhava.
Qual seria o assunto ? Seriam mesmo os casos críticos para a equipe do investigador Cartelié ? Avaliando mentalmente escolheu o caso dos Traficantes Argelinos. Contrabandistas de armas pesadas, tratavam-se de um grupo forte e quase impenetrável. Quase. Felizmente, com seu apoio, Aioria fazia bons progressos.
Era óbvio. ESTE seria o caso escolhido. Mesmo porque o roubo do Stradivarius (2) pertencente ao acervo um músico muito famoso, e o caso do incêndio na joalheria pareciam-lhe crimes simples e passionais. Já detectara os suspeitos mais críticos e assim que os tivesse frente a frente os faria falar pelos cotovelos. Afinal, não havia quem resistisse aos apelos do jovem investigador francês. Kamus sabia usar como ninguém a pressão psicológica.
"Milo que o diga". – sorriu ao pensar no belo presidiário e permitiu a si próprio alguns segundos de reflexão.
- Um euro por seus pensamentos. – Hilda brincou com o policial no corredor.
- Achei que eu valesse muito mais.
- Tudo bem. Como você está sorrindo deve ser um pensamento bem valioso mesmo. Cinco euros.
- Não caia, Kamus. – Saga falou aproximando-se – Perdi dez euros na semana passada.
- Acho que você não entendeu bem. Ela disse que pagará para saber o que estou pensando.
- Humpf ! E dá para confiar na Hilda ? Assim que você falar ela IMEDIATAMENTE arrumará uma outra aposta para você perder o dobro. E de quebra ainda ficará sabendo o que se passa em sua cabeça.
- Saga, não estrague a brincadeira !
- As mulheres são terríveis. – o grego comentou com um sorriso – Se aproximam, nos enganam, arrancam nosso dinheiro e ainda ficam com nossos pensamentos.
- Oito euros, Kamus ? – a policial investiu mais uma vez – Posso chegar a dez se você aceitar moedas miúdas.
- Obrigado, Hilda. Boa tentativa. – sorriu.
- E você ? O que vai fazer hoje à noite, Saga ? – a investigadora perguntou com um olhar sedutor.
- Não venha me meter nas roubadas em que você coloca o seu marido. Desta vez estou fora. Fiquem os dois sozinhos. – e dando risada começou a se afastar.
- Ora, vamos lá. – sorriu maliciosa – Qual o problema de um ménage à trois (3) ? Estamos na França !
- Ei, espere um pouco. – o Aquariano interrompeu – Na França não tem apenas pervertidos sexuais.
- Kamus, meu anjo, - Hilda replicou - estatisticamente falando, os franceses são o povo que mais faz sexo no mundo todo. (4)
- Povinho safadinho, hein ? – o grego pontuou.
O investigador ficou levemente rubro, mas disfarçou aproximando-se da porta do Superintendente, onde bateu duas vezes.
- Parem de brincadeiras. Preciso falar um assunto importante com o Dohko.
- Tudo bem, Kamye, mas se você quiser aumentar a sua estatística, sabe onde me encontrar. – a policial falou e deu risada. Adorava tirar o francês de sua pose de Homem de Gelo.
- Dessa até eu participo. – Saga aproveitou para zombar do policial também.
- Sumam daqui ! - o Aquariano ordenou sorrindo. Aqueles dois eram mesmo umas figuras.
A porta foi aberta e o investigador entrou.
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- Bom dia, Dohko.
- Bom dia Kamus. Sente-se.
O investigador acomodou-se na confortável cadeira de braços largos e deixou seu palm top à mão.
- Lembro-me que você possuía um contato na Clairvaux e se dava muito bem com ele. – foi direto ao assunto.
O Aquariano continuou impassível, mas gelou por dentro. Era óbvio que o chinês se referia ao Escorpiniano. Será que ele queria saber se o investigador estava visitando o ladrão ?
- Tem falado com o preso ultimamente ? – inquiriu.
- Não senhor. A última vez que nos falamos foi em agosto, no dia em que me chamou em sua sala.
O Superintendente deu um leve sorriso. O policial entendeu a mensagem. O chefe estava satisfeito por saber que o francês o obedecera e não voltara a procurar o presidiário.
- Bem, Kamus, creio que saiba que desde o início de novembro o diretor da Clairvaux não é o mesmo, bem como vários agentes de segurança foram trocados.
- Sim senhor. – era ÓBVIO. O investigador acompanhava TUDO o que acontecia dentro daquela cadeia.
- Bom, isso nos trouxe vários problemas. – deu uma pequena pausa - Alguns criminosos estão trocando informações com outros presídios. Infelizmente não conseguimos detectar se isso vem de algum dos novos agentes, se dos agentes antigos ou até do próprio diretor.
O Aquariano continuava calado, ouvindo atentamente.
- Precisamos que o seu homem faça uma investigação para nós. Eu até poderia colocar algum dos nossos lá dentro, mas seria muito arriscado. Para esta situação é melhor alguém que os presos conheçam e confiem, e creio que este presidiário... – olhou no computador antes de falar - ...Milo Nekalaos, poderia nos ajudar.
- Milo Nekalaous. Pronuncia-se Nêkalús. – replicou com impassividade.
Dohko observou bem o policial. Tentava procurar alguma fagulha de sentimento através deste comentário, mas não conseguiu nada. Se o francês já gostara ou se ainda gostava do ladrão, ao menos não parecia. Se o Superintendente soubesse...
- Nós podemos oferecer-lhe seis meses de redução real de pena pelos serviços prestados. – deu uma pequena pausa - O que você acha ? Podemos, ou não, confiar nele ?
Forçou-se a não sorrir. Seu coração batia descompassadamente. Será que conseguiria ver seu Anjo mais uma vez ? Desde agosto não via o Escorpiniano pessoalmente. Era certo que todos os dias quando chegava do trabalho ligava o notebook e acessava a foto guardada cuidadosamente em uma pasta com senha, mas vê-lo frente a frente e ouvir sua voz seria um maravilhoso presente de natal atrasado.
- Certamente, Dohko. – continuou com sua impassividade - Se as condições forem bem claras não creio que teremos surpresas.
- Ótimo. – deu uma pausa – Haverá um outro contato na Clairvaux. Não. Não será um dos nossos. – apressou-se em esclarecer – Será um dos funcionários atuais. Trata-se de um dos cozinheiros. O homem colaborará conosco em troca de uma segunda chance para o filho. Recentemente o garoto teve alguns problemas com a lei.
- Que tipo de problemas ?
- Nenhum que interfira nesta investigação.
- Preciso saber tudo. – pontuou firmemente – Apesar do preso transformar-se em um agente temporário, se encabeço a missão não deixo meus homens desprotegidos.
- Não se preocupe, Kamus. Eu também não gostaria que o presidiário se machucasse. – deu uma pequena pausa - O filho do cozinheiro envolveu-se com drogas. - explicou - Estava com uma dívida e não conseguia pagar. Um traficante veio cobrar o menino e eles se desentenderam. O homem sacou uma arma e o garoto lutou com ele. O traficante foi morto pelo próprio revólver.
- Será alegada legítima defesa ?
- Sem contestações, SE o pai colaborar.
- Entendo.
O francês sentiu-se desconfortável. O Escorpiniano estaria SOZINHO em uma prisão LOTADA de presidiários perigosíssimos. Cercado de possíveis funcionários subornáveis e tendo como companheiro um homem que ajudaria APENAS para livrar o filho. Respirou fundo e repensou a situação. Talvez a mesma não fosse assim tão drástica. Se o homem era pai e aceitara as condições da IPF, certamente colaboraria com o grego em troca da liberdade do filho.
– Bem, Dohko, quando quer que eu vá até lá explicar o trabalho a ele ?
- Não. Não quero que você vá. Mande a Marin em seu lugar. E peça para se produzir bastante. Ela será a nova advogada do ladrão. Na Clairvaux quase não se vêem mulheres. Uma bela figura feminina será boa para desestabilizar. Prestarão mais atenção às suas pernas e menos em seu trabalho. – deu uma pequena pausa – Prepare um documento com todas as instruções que o preso deve conhecer. Nada pode ser esquecido. Absolutamente TUDO o que ele deve fazer deve estar nestes papéis. Ele e a Marin deverão encontrar-se quinzenalmente em uma sala privada, mas como você já sabe, é necessária muita discrição. Todo cuidado é pouco.
- É certo que este cozinheiro é confiável ?
- Estamos nos precavendo de tudo, Kamus. – deu outra pausa – O senhor Nekalaous saberá que o cozinheiro é um contato e que poderá contar com ele, mas o cozinheiro não saberá que o senhor Nekalaous trabalha para a IPF.
- E como o presidiário vai se identificar, se o cozinheiro não sabe quem ele é ?
- Quando o cozinheiro aceitou trabalhar para nós, ele recebeu uma seqüência de cinco frases. Estas serão as mesmas frases que você passará para o senhor Nekalaous. Quando o preso precisar se revelar, basta falar a primeira frase. O cozinheiro falará a segunda frase, o presidiário a terceira e assim por diante. Isso será suficiente para que o cozinheiro o reconheça.
- É bom que estas frases não sejam muito específicas, ou vão desconfiar.
- Não. Não são. Falam de assuntos da cozinha. Assuntos que qualquer um poderia tratar.
- Se são frases simples demais, o cozinheiro pode se confundir.
- Kamus, o cozinheiro apenas entrará em ação caso a primeira, a terceira e a quinta frase, todas elas faladas pelo presidiário, sejam EXATAMENTE iguais às frases que ele já espera ouvir.
- Isso já ficou bem esclarecido Dohko, apenas estou me certificando que todos os procedimentos foram seguidos.
- Não se preocupe. Eu também estou preocupado com a segurança do ladrão.
- Tenho certeza. – disse maquinalmente.
- Bem, apenas lembre-se de colocar nas instruções que o presidiário só deve se revelar caso descubra quem está passando as informações ou em caso de perigo extremo.
- Que tipo de perigo estamos falando ?
- Do perigo dele ser descoberto. Se isso ocorrer ele deverá avisar imediatamente. O cozinheiro tem livre acesso aos telefones. Somente assim podemos agir com rapidez e garantir sua proteção.
O investigador ficou calado.
- Vou te passar a seqüência de frases que ele deve trocar com o cozinheiro para que seja identificado como um agente temporário da IPF. – deu uma pequena pausa antes de prosseguir - E então, Kamus ? – questionou - Acha que consegue ?
O francês odiava quando o chefe perguntava "Acha que consegue ?" Isso era uma ofensa à sua inteligência.
- Claro Dohko. – assentiu - Vou passar as instruções à Marin.
- Ótimo. Posicione-me das novidades. Envie-me também um e-mail com todo o documento que será repassado ao presidiário. Devemos ter certeza que nenhum detalhe foi esquecido. A primeira visita é esta semana e ele não poderá ter dúvidas para a qual o seu manual não tenha a resposta. Certifique-se disso.
- Certamente. – disse e saiu.
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Fora da sala suspirou. Não. Não conseguiria ver o Seu Anjo. Entretanto...
Deu um breve sorriso. Ao menos conseguiria falar com ele. Nem que fosse através de papel.
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Assim que chegou em sua sala observou rapidamente os e-mails e começou a montar os itens que deveriam contar no documento. Perdia alguns segundos pensando no ladrão quando seus olhos caíram sobre a foto dentro do belo porta-retratos sobre sua mesa.
Ficou sério e o rumo de seus pensamentos mudou. Lembrou-se imediatamente da promessa que fizera. Seus olhos se perderam no vazio enquanto refletia.
Carregava um fardo muito pesado nos ombros porém não tinha como retroceder. Agora estava mais perto de seu objetivo.
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Dois dias depois. Clairvaux..
O guarda que lhe abriu o portão de acesso continuava a seguir seus passos com os olhos. Aspirou mais uma vez o ar. Aquele perfume era mesmo delicioso.
Apesar de frio, o casaco não escondia sua beleza, ao contrário, o tom bege claro contrastava com a calça escura e a camisa branca de botões que lhe emoldurava o colo. O sapato de salto alto e as bijuterias bem escolhidas a deixavam ainda mais bela.
Assim que o Escorpiniano entrou na sala, ficou boquiaberto. A japonesa prontamente se levantou e estendeu-lhe a mão.
- Prazer, meu nome é Marin Washi (5). Sou sua nova advogada. Você deve ser o senhor Milo Nekala... – parou, tentando pronunciar correto.
- Prazer. – respondeu devagar e piscando os olhos, ainda surpreso – Milo Nekalaous. Pronuncia-se Nêkalús, mas pode me chamar só de Milo.
- Claro. – sorriu com docilidade.
A falsa advogada olhou para o agente penitenciário.
- Muito obrigada, senhor...
- Louis. – disse prontamente, com um belo sorriso no rosto - Pode me chamar só de Louis.
- Louis, - deu um sorriso encantador – seria muito incômodo buscar dois copos de água ? A viagem foi um pouco longa e estou sedenta. – piscou inocentemente.
- Claro que não. Busco agora ! – disse e saiu.
A japonesa sorriu para o ladrão.
- Como vai, Milo ?
- O quê você está fazendo aqui ? – perguntou baixinho.
- Explicarei em breve. Por enquanto, apenas finja que não me conhece.
- Você está uma gata.
- Obrigada. – sorriu.
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Assim que o guarda retirou-se, depois de deixar os copos com água, a policial começou a falar.
- Bem Milo, estou aqui em missão e vou direto ao assunto. A Inteligência Policial Francesa precisa de seus serviços e em troca garantirá seis meses de redução de pena.
- A IPF quer meus serviços ? Que tipo de serviços ?
- Internos.
- Então eu não vou sair da Clairvaux ?
- Infelizmente não.
O Escorpiniano ficou algum tempo mudo.
- Foi o Kamus quem te mandou aqui ?
- Foi.
Permaneceu calado por mais alguns segundos.
- Como ele está ?
- Bem.
- Ok. – disse depois de algum tempo – O que eu tenho que fazer ?
- Apenas posso repassar as informações caso você aceite o trabalho.
- Seis meses de redução de pena ? – indagou em tom maroto - Pode começar.
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IPF. Sala do francês.
O Aquariano permanecia quieto. Deu alguns cliques em seu notebook e entrou em uma pasta com senha. Digitou o código de acesso e clicou na única imagem disponível.
A bela foto o fez sorrir. Os olhos em tom azul, combinando com os cachos que emolduravam a pele levemente bronzeada o fascinavam. Milo era mesmo muito bonito.
Imediatamente o comentário do chefe, sobre um possível relacionamento com o preso, veio-lhe à mente. Dohko jamais aceitaria.
Sua visão o traiu e direcionou seu olhar para o porta-retratos sobre sua mesa. Refletiu mais uma vez sobre o segredo que guardava em seu íntimo a sete chaves. Algo tão perturbador que raras vezes ousava pensar a respeito.
Seu sorriso se desfez.
Suspirou.
Sim. Tinha feito uma promessa e ia cumprí-la. Ainda que não pudesse ficar com o Escorpiniano. Ainda que tivesse que esquecê-lo.
Fechou a foto e saiu da pasta.
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Clairvaux. Na sala particular...
- Você irá prestar um trabalho investigativo. Deverá estar atento a algumas situações, pessoas e conversas. – a policial explicou.
- Que tipo de investigação ?
- Como você deve saber, há um novo diretor na Clairvaux desde o mês de novembro e vários agentes de segurança foram trocados. Este é um procedimento absolutamente normal. O Estado costuma fazer estas movimentações periodicamente.
- Para evitar que os guardas fiquem amigos dos presos.
- Exatamente, Milo, porém nesta última mudança, a polícia Francesa detectou problemas.
- Problemas ?
- Sim. A comunicação entre os presídios foi fortalecida. Fizemos um trabalho de inteligência e, fechando o cerco, descobrimos que alguém da Clairvaux é o responsável por esta troca de informação entre grandes criminosos.
- E por que vocês simplesmente não colocam escutas ?
- Não podemos.
- Porque vocês não sabem se este cara é o Diretor. – comentou mais em tom de afirmação que de pergunta.
- Exato. Justamente por esse motivo devemos ser cautelosos e precisamos de alguém infiltrado aqui no presídio.
- O que eu preciso te dizer ?
- Tudo. Você deverá ficar atento aos comentários entre os presos, cochichos, burburinhos e tudo que leve a informações. – deu uma pausa – Como eu disse, temos dificuldades para detectar a fonte e é aqui que você entra. Você precisará me falar tudo. TUDO o que você achar estranho você deve me contar. Não confie em ninguém. Lembre-se que qualquer um é suspeito ou um perigo em potencial.
- Entendi.
- Vou te entregar esta pasta. – empurrou o volume de papéis para o preso – Quero que leia cuidadosamente todo o documento e se houver QUALQUER dúvida, pergunte. Ok ?
- Sim senhora. – brincou.
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Milo começou a ler a papelada. As palavras utilizadas eram muito claras. Pelo jeito Kamus queria ter certeza que o Escorpiniano entenderia completamente.
Enquanto lia o texto com cuidado, em sua mente desenhava o que deveria ser feito.
1 - Para sua própria segurança, e para o sucesso efetivo da missão, não deveria contar a absolutamente ninguém sobre sua ação como agente temporário da IPF
2 - Deveria suspeitar de tudo e de todos. Precisava descobrir os presos que passavam as informações, mas principalmente identificar os funcionários envolvidos.
3 – Precisava ser discreto. Os culpados estariam atentos a qualquer movimentação. Era melhor ser cuidadoso.
4 – A cada duas semanas se encontraria com a policial. Nesta data deveria estar com todas as informações importantes na mente, pois teriam pouco tempo para conversar.
5 – Somente deveria revelar-se ao cozinheiro em caso de extremo perigo. Se sua identidade fosse conhecida sem necessidade estaria arriscando a missão e sua própria segurança.
6 – A revelação ao cozinheiro, caso necessária, se daria com a utilização de cinco frases prontas a serem trocadas entre os dois. Assim que se identificasse o cozinheiro acionaria imediatamente a IPF. Milo deveria decorar a seqüência das frases pois não seria prudente escrevê-las.
7 - Deveria estar pronto para fingir, simular ou mentir caso alguma pergunta mais perigosa lhe fosse feita. A missão real jamais poderia ser revelada a ninguém.
8 - Sua colaboração efetiva, ou seja, a descoberta do criminoso render-lhe-iam seis meses de redução de pena. Ao menos eram dois meses a menos para pegar a condicional.
Continuava a ler o documento e montar uma estrutura em sua mente quando algo chamou sua atenção. A frase era curta e muito clara, mas mesmo assim leu-a novamente. E leu de novo e mais uma vez e mais outra e repetiu a leitura, deliciando-se, imaginando seu francesinho repetindo-a, com aquela voz maravilhosa.
"Não esqueci o dia 08/11. Espero que compreenda minha situação."
Era uma frase colocada no meio de tantas outras, confundindo-se com o texto, mas muito específica. Kamus estava se desculpando. Obviamente a situação do francês era complicada. O Aquariano era um policial. Não podia fazer uma visita e não ser notado. Era um investigador da IPF. Certamente todos estariam de olho nele.
O grego reconsiderou e sorriu. Já sabia que Kamus ainda não o esquecera. Isso era apenas uma confirmação.
Terminou de ler todo o documento e entregou-o à Marin.
- Diga ao Kamus que eu li e compreendo perfeitamente a situação.
- E você tem alguma dúvida ?
- Na verdade tenho sim. - e começou a questioná-la.
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Na IPF...
Fechado em sua sala, o Aquariano abriu o e-mail recebido. Era do Superintendente. Pedia para ele e Marin estarem em sua sala assim que a policial chegasse da Clairvaux.
Sentiu um frio na barriga. Todo o cuidado em chegar mais cedo e substituir uma das folhas do material que foi para o grego, agora poderia ser descoberto.
Precisaria pensar em alguma forma de se apoderar do documento e trocar novamente a página antes que fossem até a sala do chinês.
Era certo que Dohko não ia querer o material da japonesa porque Kamus enviara por e-mail a versão oficial. A página com o recado para o Escorpiniano foi substituída APENAS na documentação da funcionária, e minutos antes dela ir até a Clairvaux. Com certeza nem a garota notara a mudança.
Mesmo assim não podia se descuidar. Apesar do francês ser um investigador importante à IPF e candidato à Superintendência, tinha certeza que seu comportamento pessoal não era o mais indicado. E isso, Dohko JAMAIS entenderia pois se casara com uma mulher e nunca teve relacionamento com outro homem.
O policial suspirou.
Não. Kamus não precisava ser bom. Precisava ser perfeito.
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Enquanto isso, na Clairvaux...
Depois que a policial saiu Milo voltou pensativo para a marcenaria. Havia muitos presos para ficar de olho. Sem contar todos os agentes.
Não seria um trabalho fácil.
Mas agora que estava sozinho teve outra dúvida. E se fosse descoberto antes de conseguir falar com o cozinheiro ? E se não descobrisse nada ? Qual era o prazo máximo para dar resultado ?
Encheu o peito e fortaleceu-se de coragem. Certamente o Aquariano ficaria impressionado se conseguisse descobrir algo. Precisava correr. Não podia desapontar seu francesinho. Precisava de um forte motivo para Kamus deixar o receio de lado e se comunicar com ele. Nem que fosse por um outro bilhete com bolo.
"Vou te mostrar que posso, Kâ." – pensou – "Você vai ficar orgulhoso de mim. Tenho certeza que vai me mandar um bilhete agradecendo meus serviços junto com uma bela fatia de bolo de chocolate. Me aguarde, meu francesinho. Não vou te decepcionar." – e com o jeito sorridente de sempre passou a observar melhor os guardas e seus companheiros de trabalho.
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Próximo capítulo – Kamus sente-se atormentado por um segredo escondido a sete chaves. Na cadeia, Milo tem que tomar uma importante decisão para cumprir uma promessa.
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Nota da autora – Explicações
( 1 ) A França e a Inglaterra tem uma pequena rixa, semelhante a Brasil e Argentina. Os franceses detestam quando os comparam aos ingleses e vice-versa.
( 2 ) Stradivarius é uma marca muito famosa de instrumentos de cordas. Destaque para os poucos violinos feitos pelo próprio lutier Antonius Stradivarius.
( 3 ) Ménage à trois é o relacionamento sexual entre três pessoas.
( 4 ) Em homenagem à Ilía-Verseau que comentou recentemente comigo esta importante estatística XDD.
( 5 ) Washi é águia em japonês.
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Nota da autora – Agradecimentos
Agradeço a todos que acompanham, principalmente a quem comentou : Ilía Verseau, Litha-chan, Nana Pizani, Tamyy, Hakesh-chan, Narcisa Le Fey, Haine II, Anjo Setsuna, XxLininhaxX, Shakinha, Hokuto-chan i.i (obrigada por comentar, mas não consegui responder no e-mail que vc deixou. Desculpe !)., Virgo-chan, Mi-chan.HxS, Paulili, Sah Rebelde, Kalli Cyr Charlott, Babi-deathmask, Lady Yuuko, Kagura, Pri-Chan, Persefone-San, Ophiuchus no Shaina, Hikaru, Gigi (obrigada pela review. Na próxima deixe e-mail para eu te responder. Bjos.), Guilherme, Aquarius no Camy, Lamari, TsukiTorres (obrigada pelo comentário. Pena não conseguir te responder pois estava sem seu e-mail. Se der, deixe na próxima), Makie, Arashi Kaminari, Morphine Greenfairy
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Nota da autora - contato
Podem me contatar, brigar, criticar, reclamar, dar dicas, ou só escrever para bater papo no erika(ponto)patty(arroba)gmail(ponto)com (não tem o BR) ou via review neste site. Muito, muito obrigada por lerem.
Bela Patty
- Setembro / 2006 –
