III
O barulho de cadeiras arrastando no chão preencheu a sala enquanto os alunos juntavam-se em duplas e trios. Como sempre, Harry juntou-se a Ron e Hermione. Por mais que a garota tivesse vontade de mandá-los fazerem a lição sozinhos uma vez na vida, não tinha coragem de submeter seus melhores amigos a notas baixas – ela sabia que eles iriam mal se não tivessem a ajuda dela.
- Por que você chegou atrasado, Harry? – perguntou Ron, assim que as conversas dos outros alunos abafaram a deles. – Você anda meio estranho ultimamente...
Harry passou a mão nos cabelos escuros desgrenhados. A professora McGonagall já havia dado uma bronca nele pela falta de pontualidade, antes de continuar a explicação de maneira impecável como se nada houvesse acontecido.
- Não me levem a mal, eu realmente quero contar – suspirou o amigo. – Mas não é um segredo meu...
- Aconteceu algo com o Malfoy? – questionou Hermione, perspicaz como sempre.
- Eu não posso falar, Mione...
Ron deu uma risadinha maldosa.
- O que, vai me dizer que viu ele dando pro Snape? – Harry fez uma careta estranha. Parecia... enciumado.
- Ronald, por favor – pediu Hermione, revirando os olhos. Por mais que Draco Malfoy fosse uma pessoa extremamente desagradável, maldosa e egoísta, tudo tinha um limite.
- Desculpe, Mione – disse o ruivo, com uma cara nem um pouco arrependida. – O que é então, Harry?
- Já disse que não posso falar – respondeu Harry, com mais ignorância do que o necessário. Começou a ler o exercício no livro, tentando ignorar os amigos.
- O que, vai me dizer que era você que estava dando pra ele? – Ao ver o rosto corado do moreno, Ron quase engasgou com a própria saliva. Quando se recuperou, sua voz saiu esganiçada: – HARRY!
McGonagall lançou um olhar feroz em direção a eles. Hermione cutucou o namorado para que ele falasse mais baixo.
- Você não poderia ter escolhido um dos meus irmãos? – disparou Ron, afobado, a raiva transparecendo no jeito como o rosto dele ficou corado até os fios de cabelo. – Ou o Neville, ou o Dean ou o Seamus? Até mesmo o idiota do Zacharias Smith era melhor!
- Ron, todos eles são héteros – lembrou Hermione.
- Não sei se o Charlie é tão hétero assim, viu, Mione...
- Não aconteceu nada! E não é como se eu tivesse escolhido gostar dele – pronunciou-se Harry, franzindo o cenho.
O ruivo abriu a boca em espanto.
- Então você gosta mesmo dele? – perguntou Hermione. Já sabia a resposta, apenas queria confirmá-la.
- Bom, eu... – Harry passou as mãos nervosamente pelos cabelos. – Eu acho que sim. Ainda não tenho certeza, mas acho que sim.
- Mas ele é o pior ser humano do planeta – retorquiu Ron, parecendo finalmente entender o que o amigo dizia.
- Ele está mudando... Ou então ele nunca mostrou esse lado dele antes...
O ruivo crispou os lábios.
- Você vai conseguir esquecer tudo o que o Malfoy fez contra a gente? O bullying, os xingamentos, as armações...?
- Não sei, Ron. De verdade. Eu sei que ele consegue ser uma péssima pessoa, e não virou nenhum santo do dia para a noite... Mas agora eu consigo ver outro lado dele, e esse lado novo não é tão desagradável assim.
- Acho que ele te seduziu com aquela bunda magra dele, isso sim – Harry riu, ao que Ron tentou esconder a própria risada, mantendo a cara fechada.
O clima entre eles se amenizou. Hermione ficou feliz que o namorado também estivesse progredindo para tornar-se uma pessoa melhor. Se fosse em outros tempos, provavelmente os dois teriam uma discussão terrível, e ficariam dias brigados antes de voltarem a se falar.
- Meninos, acho melhor começarmos a fazer a lição agora – Antes de pegar o lápis, porém, ela pousou sua mão na de Harry e apertou-a. – Se você quiser conversar, pode contar com a gente. Sempre, não importa o que for.
Harry fitou-a, emocionado.
- Obrigado.
- Agora comecem a ler o texto logo para que possamos responder as perguntas!
A escola estava vazia, exceto por um ou outro clube que se reunia. Depois de pesquisarem no computador da escola sobre como proceder em casos de violência doméstica, Harry e Malfoy haviam rumado para uma sala de aula desocupada a fim de conversarem melhor, longe das orelhas curiosas de alguns alunos que terminavam trabalhos ou usavam a Internet no laboratório de computação.
Harry acomodou-se melhor no pufe roxo. Aquela sala tinha um ambiente confortável, apesar de beirar o cafona. Enfeites coloridos pendiam do teto, tapetes e pufes de cores berrantes espalhavam-se pelo chão no lugar das convencionais carteiras, e pairavam no ar resquícios de incenso queimado. A professora Trelawney, que ensinava Educação Sexual, era conhecida por seus métodos de ensino não ortodoxos. Ela tinha boas intenções, apesar de volta e meia se atrapalhar com as perguntas cabeludas que recebia dos alunos.
- Malfoy – começou Harry, incerto. –, você tem que contar para os seus pais.
O loiro, esparramado em um pufe azul ao seu lado, lançou um olhar frio para ele.
- Fora de cogitação.
- Como você espera resolver isso, então? Ou você pretende continuar fingindo que está tudo bem, e esperar até o dia em que seu tio exagere e acabe te matando? Você viu, todos os sites falam a mesma coisa. Se você não denunciar ele, isso vai piorar até ser tarde demais para fazer algo...
- Eu sempre posso me casar com uma pretendente escolhida a dedo pelos meus pais e ter filhos lindos e maravilhosos – disse Malfoy, amargurado.
- E viver uma vida infeliz por ter medo de ser você mesmo?
O loiro colocou um braço sobre o rosto, tapando a luz e a visão que tinha do garoto ao seu lado.
- Você não entende, Potter.
- Me ajude a entender, então.
Depois de alguns minutos de hesitação, Malfoy começou a falar com a voz arrastada:
- Meus pais são a coisa mais importante neste mundo para mim. Eu sempre me esforcei ao máximo para ser o melhor filho, ter as melhores notas, ser alguém de quem eles pudessem se orgulhar. Eu sei que eles vão me deserdar se souberem o que eu sou, e, sem eles, não tenho mais ninguém...
O coração de Harry pareceu quebrar. Chegava a ser desesperador ver o arrogante Draco Malfoy daquele jeito, parecendo uma criança perdida. O moreno aproximou-se do outro garoto, retirou o braço da frente do rosto pálido e segurou o queixo pontudo, fazendo Malfoy encará-lo.
- Você não está sozinho, Draco. Você tem amigos e um professor que te adoram. E você sempre pode fazer mais amigos, se não estiver satisfeito com os atuais. Você tem que viver a sua própria vida, e não a que os seus pais planejaram para você. Como vai ser quando eles morrerem? Você vai se ver casado com uma mulher que não ama, em um emprego que detesta, e vai ter desperdiçado boa parte da sua vida.
Os olhos cinzas ficaram brilhantes, lágrimas ameaçando brotar deles. Ainda assim, Harry não afrouxou a mão no queixo do loiro.
- Só temos esta vida, que só pode ser vivida uma vez. Perdi meus pais e o meu padrinho antes que eu soubesse falar, e fui criado por tios preconceituosos que condenavam minha mãe por ela ser bissexual. Eles diziam que eu sou cria do capeta, que iria ser tão "depravado" quanto ela.
Harrry respirou fundo, memórias dolorosas ressurgindo em sua mente.
- Meu quarto era o armário debaixo da escada, eu não tinha brinquedos e todas as minhas roupas eram as que não cabiam mais no meu primo. Se eu desobedecesse meus tios, respondesse grosso ou fizesse algo que eles achassem errado, meu castigo era ficar trancado no meu "quarto" sem comer. Eu tinha tudo para ser preconceituoso, para descontar minha raiva nos outros, ou até mesmo acabar sendo um desses adolescentes problemáticos que promovem uma chacina na escola.
- Como você acabou virando o herói altruísta que salva cachorrinhos da rua? – Apesar das palavras carregadas de sarcasmo, o loiro tinha uma expressão preocupada no rosto.
- Conheci pessoas ótimas, que fugiam dos padrões da sociedade, e me trataram mil vezes melhor do que os meus tios, que são brancos, héteros, religiosos e classe média. Aí eu percebi que a vida é muito mais do que odiar os outros, e que eu nunca chegaria a lugar algum se tentasse agradar meus tios, ou qualquer outra pessoa. Não adianta viver se você não está contente com sua própria vida, então eu vivo para agradar só a mim mesmo, e sou grato por ter amigos tão incríveis que me apoiam, não importa o que eu faça.
- E você chegou a sair do armário? – perguntou Draco, um pequeno sorriso brincando em seus lábios finos.
- Engraçadinho – Harry tirou a mão do queixo do outro e deu um tapinha leve em sua cabeça. – O que eu quero dizer é que não importa o seu passado, você tem que se focar no seu presente e no seu futuro. Se esforçar ao máximo para ter aquilo que quer, cuidar de quem gosta de você e ser feliz. Porque isso é tudo o que importa, no final.
Harry voltou a recostar-se no próprio pufe. Draco parecia perdido em pensamentos, então achou melhor esperar enquanto o outro digeria o discurso dele.
Após alguns minutos, o loiro soltou um suspiro.
- Tudo bem – murmurou, a contragosto. – Mas só vamos contar para a minha mãe. Se ela reagir bem, aí penso se conto para o meu pai ou não.
Harry sorriu, satisfeito. Se soubesse que conseguiria exercer sua influência no loiro – mesmo que a algum custo –, teria concordado em ser amigo dele desde o primeiro ano da escola secundária, quando se conheceram. Teria poupado muitas brigas, e quem sabe seus colegas de classe não tivessem sofrido tanto nas mãos de Draco.
As paredes nuas e os móveis desparelhados deixavam claro que os moradores daquele pequeno apartamento não se importavam muito com decoração. O sofá macio, transbordando travesseiros fofos, mostrava que a prioridade ali era o conforto – mesmo que fosse a custo da estética. Draco correu os olhos pela pequena varanda que dava para a sala. Estava repleta de plantas, e, se não estava enganado, havia até uma mini horta ali.
Aquilo tudo era muito diferente de sua casa, cujo interior era uma mistura de estilo vitoriano com tecnologia de última geração. Potter – ou deveria chamá-lo de Harry, visto que o garoto passara a usar seu primeiro nome? – explicara no caminho que morava ali desde os dez anos de idade. Após receber uma denúncia de uma vizinha dos tios de Harry, o assistente social Rubeus Hagrid fora o responsável pelo caso do garoto. Não fora surpresa quando os tios perderam a guarda dele; e, tendo se afeiçoado a Harry, Hagrid decidira adotá-lo. Desde então, os dois moravam naquele pequeno apartamento em um bairro humilde de Londres.
Os únicos enfeites no apartamento eram os porta-retratos que dividiam espaço no móvel com a televisão velha. Havia várias fotos do moreno mais novo: no parque com o grandalhão Hagrid, que chegava quase aos dois metros de altura; apagando as velas de um bolo de aniversário ao lado de Weasel e Granger; fazendo carinho em um cachorro ao lado de Hagrid. Também havia uma foto de um casal abraçado a um bebê, provavelmente os pais de Harry.
O moreno acomodou duas xícaras de chá e um prato de biscoitos caseiros sob o balcão estilo americano que separava a cozinha da sala e sentou-se em um banco.
- Não se preocupe, fui eu que fiz os biscoitos – comentou Harry, enquanto misturava leite em seu chá. – Não deixo o Rubeus chegar perto do fogão – O garoto deu risada da própria piada interna.
Draco escolheu um banco ao lado de Harry. Arqueou uma sobrancelha e, após um gole de chá, serviu-se de alguns biscoitos. Estavam surpreendentemente deliciosos.
- Se preparando para ser a esposa perfeita, é?
- Minha tia me obrigava a cozinhar – explicou Harry, dando em ombros. – Pelo menos eu tinha uma base antes de vir morar aqui, do contrário teria morrido de fome. Uma vez, Rubeus fez bolinhos tão duros que eu quase quebrei meus dentes comendo. Sem exagero!
Harry contou outros casos sobre as experiências de Hagrid na cozinha. Draco percebeu que seu joelho tocava o do outro garoto, mas, como o moreno não se afastou nem comentou algo a respeito, resolveu não tomar uma atitude também.
Ele sabia que sons saíam da boca de Harry, mas só conseguia prestar atenção no modo como os lábios carnudos se mexiam, no brilho dos olhos verdes a centímetros dos seus, nos óculos de acetato preto estilo tartaruga que acariciavam suas bochechas quando ele sorria...
Draco estava imaginando como seria a reação do moreno caso o beijasse quando foi interrompido pelo barulho do interfone. Enfim, a realidade o atingiu. Seu sangue gelou, e ele torceu as mãos nervosamente.
- Não se preocupe – disse Harry, afagando o braço de Draco antes de levantar-se para atender o interfone. – Vai dar tudo certo – Ele pareceu refletir um pouco antes de continuar: – E, se não der, você pode dormir no sofá daqui de casa.
Por mais tentadora que fosse a ideia de passar a noite sob o mesmo teto que Harry Potter, Draco não estava nem um pouco feliz com a ideia de ser deserdado pelos próprios pais.
Aproveitou aqueles minutos de espera para alisar a camisa preta, assear os cabelos e conferir se havia farelo de biscoito preso nos dentes. Estava decente, pelo menos.
Assim que sua mãe passou pelo batente da porta, o coração de Draco disparou de antecipação. Por baixo do sobretudo preto, ela usava um vestido azul simples, mas refinado, que acentuava os olhos dela. Os cabelos longos e loiros caíam-lhe pelas costas. Só não estava mais deslumbrante pois seu rosto contorcia-se em uma careta.
Sua mãe lançou um olhar questionador ao filho enquanto os cumprimentava.
- Fique à vontade – disse Harry, coçando a cabeça, sem jeito. – A senhora aceita chá?
- Por favor – respondeu Narcissa, polida como sempre. Sentou-se de modo elegante na poltrona, enquanto Draco acomodava-se no sofá ao lado.
O silêncio tomou conta do ambiente, até que Harry colocou uma xícara de chá e o prato de biscoitos na mesinha de centro gasta antes de sentar-se ao lado do loiro. Narcissa tomou um gole tímido e devolveu a xícara à mesinha, sem intenção de tocar na bebida novamente.
- A que devo esta agradável visita, filho?
Draco olhou para os próprios pés e começou a brincar com a barra da camisa. Apesar de ter chegado até ali, não queria ter que encarar a mãe. Harry entrelaçou sua mão à do loiro, como que o incentivando.
- Mãe... Eu... Preciso te mostrar uma coisa – Respirando fundo, Draco livrou-se dos óculos escuros e do lenço verde no pescoço. Com as mãos trêmulas, retirou lentamente a camisa preta. Hematomas e contusões espalhavam-se por seu tórax, suas costas e seus braços. Sentiu a mão de Harry retomar a conexão perdida, mas evitou olhar para o moreno.
Narcissa, geralmente impassível, parecia que ia vomitar. Ela se aproximou de Draco e tocou seu rosto, preocupada.
- O que aconteceu, meu amor? Foi alguém da escola?
- Não... – murmurou Draco, reunindo toda sua coragem. – Foi o tio.
Lágrimas brotaram dos olhos azuis à sua frente.
- Por que, meu amor?
Draco não conseguia dizer em voz alta nem para si mesmo, quanto mais para sua mãe. Em vez disso, optou por levantar sua mão entrelaçada à de Harry.
Narcissa retraiu a mão que acariciava a face do filho, como se tivesse levado um choque, e colocou-a sobre o próprio peito. Draco trincou o maxilar, tentando conter o choro. Aquele gesto havia doído mais do que os socos do tio.
Depois de alguns minutos que pareceram horas, sua mãe agarrou a borda da poltrona com força.
- Por que você não me contou antes sobre o seu tio?
- Eu não queria que você e o pai me odiassem – admitiu o loiro, sem conseguir mais impedir as lágrimas de rolarem por suas bochechas.
Narcissa sentou-se ao lado dele no sofá e o enlaçou em seus braços de forma protetora.
- Eu nunca vou te odiar, meu amor. Por mais que eu não concorde com isto – Ela mirou com desprezo a mão que segurava a do filho –, nunca vou te odiar. Você é o amor da minha vida, é o meu menininho.
Draco não aguentou mais. Passou o braço livre pela cintura de sua mãe e rendeu-se aos soluços havia muito presos em seu peito.
- Desde quando o seu tio...? – murmurou Narcissa, sem forças para completar a frase.
- Desde as f-férias, quando vocês foram p-para os Estados U-unidos...
- Você devia ter me contado antes... Eu nunca devia ter permitido que seu tio se aproximasse de você. Nunca.
- V-você não t-tinha como saber, mãe.
Narcissa começou a tremer. Quando falou, sua voz saiu embargada:
- Quando você tinha cinco anos, meu amor, nós fomos passar a semana de natal na casa da sua tia Andromeda. O tio Tom também foi. Era a primeira vez que nos reuníamos depois da morte dos seus avós. No último dia antes de irmos embora, você insistiu tanto que seu pai te levou para patinar no lago que ficava nas redondezas enquanto eu terminava de arrumar as malas.
Draco franziu o cenho. Lembrava-se pouco de sua falecida tia. Por mais que tivesse os traços parecidos com os de sua mãe, a expressão de Andromeda era muito mais gentil e cativante. Andava com os cabelos castanho-claros e grossos presos em uma trança, e, apesar de bonita, não era nem um terço tão elegante quanto Narcissa. Sua tia adorava mimá-lo com comida, dando-lhe doces secretamente antes do almoço ou do jantar – o que sua mãe abominava.
- Andromeda nunca teve um namorado ou se casou. Ela se recusava a aceitar um casamento arranjado, e dizia que somente ficaria com alguém por amor. Quando éramos adolescentes, ela vivia brigando com nossos pais sobre isso. Sua tia tentou me impedir de me casar com seu pai, porque ela acreditava que eu deveria viver minha própria vida, e não a que esperavam de mim. Nós duas brigamos feio, e só voltamos a nos falar quando você nasceu... Ela percebeu que àquela altura eu amava seu pai, e não resistiu ficar longe de um bebê tão lindo e adorável que nem você.
Um sorriso emocionado surgiu nos lábios finos de Narcissa, provavelmente se lembrando da irmã e de Draco bebê.
- Sua tia vivia grudada na coleguinha dela da época da escola, mas nunca pensamos nada disso. Achávamos que era a melhor amiga dela, e nada mais... Naquele dia, enquanto você e seu pai estavam patinando, essa amiga apareceu na casa de Andromeda. Tom e eu estávamos fazendo as malas no andar de cima, mas, quando fizemos um intervalo para comer o bolo de chocolate maravilhoso que a sua tia fazia, flagramos as duas se beijando.
Draco arregalou os olhos, processando a informação. Não podia acreditar... Talvez fosse por esse motivo que seus pais evitavam mencionar Andromeda a qualquer custo.
- Fiquei enojada com aquilo, mas, antes que eu pudesse me pronunciar, seu tio começou a bater em Andromeda. Eu estava sem reação, não conseguia acreditar que a minha irmã era uma... uma... A amiga dela tentou defender Andromeda com uma das facas da cozinha, mas seu tio era mais forte... Ele era sempre tão calmo e educado, mas naquele dia parecia um animal selvagem de tão enraivecido que estava.
A mão de Harry, que segurava a sua, começou a tremer.
- Eu estava tão assustada, Draco – murmurou Narcissa, suas lágrimas molhando o ombro do filho. – Tudo o que eu consegui fazer foi me esconder debaixo da mesa da cozinha. Elas já não se moviam mais, e mesmo assim Tom não parava... Mesmo se eu tivesse conseguido me mexer e ajudasse as duas, provavelmente também estaria enterrada agora.
O estômago de Draco embrulhou só de lembrar que conhecera a brutalidade do tio. O garoto achava que da primeira vez, quando flagara o loiro com Blaise, seu tio havia sido misericordioso o suficiente para se refrear a tempo de matá-lo. Porém, ao ouvir as palavras de sua mãe, chegou à conclusão de que, como seu tio já havia passado por uma situação semelhante antes, pensara na carreira política antes de realizar o "trabalho" por completo.
- Tom teve a ideia de forjar um incêndio para acobertar as mortes, então cuidou de tudo enquanto eu estava em choque. Ele botou fogo na casa e me arrastou para o lago onde você e o seu pai estavam se divertindo, alheios ao que havia acontecido. Vocês foram o nosso álibi. Seu tio me ameaçou, dizendo que eu teria o mesmo fim de Andromeda se falasse a verdade. Ele já tinha certa influência política na época, então aliou isso a uma alta quantia em dinheiro e calou todos os que cuidaram do caso, fazendo questão de que ele fosse arquivado apenas como um acidente.
- E você permitiu que esse assassino continuasse a ver seu filho? – perguntou Harry, indignado. Parecia ter ficado calado até o momento por consideração à conversa íntima que não lhe dizia respeito, mas possivelmente aquela havia sido a gota d´água.
- Nunca deixei que ele ficasse a sós com Draco – explicou a mulher, estreitando os olhos para o moreno. Em seguida, voltou a dirigir-se ao filho: – Tanto tempo se passou desde então, seu tio nunca mais demonstrou sinais de perder o controle... Achei que não teria problema se ele viesse passar algum tempo conosco, principalmente agora que você já é quase um adulto, e parecia ser tão normal...
Draco franziu o cenho. Não sabia se ficava feliz por sua mãe amá-lo de forma incondicional, ou triste por ela ainda ser preconceituosa mesmo depois de tudo o que acontecera.
- Fui tola, admito. Nunca quis te machucar, meu amor.
- Você devia ter me contado antes, mãe.
- Eu só queria te proteger...
- Então você vai nos ajudar a denunciar seu irmão? – interrompeu Harry, retomando as rédeas da situação.
- Você não entende, sr. Potter – disse Narcissa, seca. – Se meu irmão conseguiu se livrar de qualquer acusação naquela época, hoje em dia é impossível incriminá-lo. Ele continua rico e está cada vez mais influente. Mesmo que levássemos o caso à justiça, ele daria um jeito de ganhar, seja subornando alguém ou cobrando algum favor. Tenho certeza de que Tom não deixaria barato se tentássemos qualquer coisa contra ele, porque, mesmo que ele ganhasse o caso, isso mancharia sua reputação.
Enquanto Harry parecia botar as engrenagens de seu cérebro para trabalhar, Draco desvencilhou-se de sua mãe para recolocar a camisa preta. Estava começando a sentir frio, e já não era mais necessário mostrar sua pele maculada. Narcissa aproveitou para sentar-se novamente na poltrona, mas segurava a mão do filho, como que para mostrar que nunca mais iria abandoná-lo.
- Bom, eu tive uma ideia... Mas acho melhor perguntarmos ao Rubeus antes – O moreno coçou a cabeça. Ao ver a confusão no olhar de Narcissa, emendou: – Meu pai adotivo é assistente social, então ele deve saber os procedimentos corretos. Daqui a pouco ele chega do trabalho.
- Entendi. Depois temos que voltar para casa e ter uma conversa com seu pai, Draco.
Draco afundou no sofá, sem a menor vontade de sair dali pelos próximos vinte anos.
- Vocês querem ver tevê enquanto o Rubeus não chega? – perguntou Harry, tentando amenizar o clima.
Mãe e filho entreolharam-se, compartilhando da mesma apreensão, mas nada disseram.
N/A: Neste capítulo, tivemos um insight sobre o nome da fanfic, lágrimas adoidado e grandes revelações haha. Achei natural que Hagrid fosse adotar o Harry, por isso que, depois de amor e carinho e uns biscoitos duros, nosso lindo menino tem habilidades de socialização melhores e não passou pela fase raivosa do Harry original (por isso matei o Sirius junto com o James e a Lily, desculpe!). Deixei o Ron mais maduro também, até porque, como Harry não é famoso nem faz mil peripécias grandiosas, o Ron não tem tanta inveja dele.
Já a Narcissa, acho que ela ama o filho acima de tudo (livro 7 tá aí pra provar isso, beijos), então ela aguenta o filho ser gay. E ter perdido a irmã por causa disso só abriu mais ainda os olhos da Narcissa de que ela não pode abandonar o Draco, mesmo que isso vá contra as crenças dela.
Deixe um comentário com a sua opinião! Será que você consegue adivinhar o plano do Harry?
