Capítulo também de romance.
Divirtam-se.
- Uma coisa é certa, teremos que ser convincentes, senão o tempo todo, ao menos quase isso.
- Em casa? – ela perguntou, uma nota trêmula escapando de sua garganta.
Ele apenas assentiu sem tirar os olhos do lago.
Ela acordou no meio da noite, o silêncio de sempre a rodeá-la. Os únicos indícios da noite anterior eram as roupas do jantar que ainda vestia e as botas deixadas organizadamente ao lado da cama. Sua cabeça girava.
Colocou um pijama aceitável e caminhou pé-ante-pé na direção do quarto com a luz ligada.
Ele estava sentado na poltrona forrada de jeans olhando pela vidraça a noite fria lá fora. Tinha uma expressão concentrada no rosto e os olhos distantes. Impossível supor no que estaria pensando. Hermione manteve-se junto à porta, esfregando um pé descalço no outro. Ele havia ido embora. Sem sexo.
- Ainda deveria estar em sua cama, Hermione.
- Eu... eu precisava agradecer antes que fosse embora.
- Agradecer?
- É... por não ter...
- Você agradeceria um escorpião por não voar?
Ela o amava ainda mais quando ele falava assim.
- Depois de ser mordida por um morcego? Claro!
Ele finalmente olhou para ela e a pegou sorrindo. Pareceu reprová-la de alguma maneira antes de voltar-se novamente para a janela.
- O escorpião não fica menos venenoso com a sua gratidão.
- Permita-me discordar, Severus. – disse andando lentamente para a cama intocada e continuando a sorrir. Sentou-se na cama com igual lentidão, cuidando para que, apesar de próximos, os seus joelhos não tocassem os dele. – Eu só queria dizer que, apesar de eu saber que nos casaremos para repovoar o mundo mágico, por determinação do Ministério da Magia, etc... eu o faria de boa vontade se não fosse obrigada.
- Não...
- É só a verdade, Severus. Não me dói que não sinta o mesmo, não importa. – o sorriso tranquilo de Hermione era perturbador.
Ela recostou na cabeceira da cama, voltada para a porta de onde viera, Snape a observava à sua esquerda.
Ela sabia que seria difícil, só não imaginava o quanto. Ergueu os joelhos até o peito e abraçou as pernas, deixando que sua testa tocasse os joelhos e achou a posição estranhamente confortável, se permitindo ficar assim alguns minutos. Sua cabeça pesava, e ela se sentia levemente entorpecida. Não tinha sono, exatamente, mas uma incontrolável vontade de descansar. Do que, ela apenas suspeitava. Com uma respiração profunda, ela ergueu o rosto, voltando a encarar a luminosidade que entrava pela porta do corredor.
- Ele tinha acabado de receber a carta do Mantícoras, pedindo que ele se apresentasse em uma semana para começar o treinamento para goleiro. Ele estava muito mais que feliz. - ela sorriu um sorriso triste - Todos nós estávamos; ele, Harry, Ginna e eu. Então fomos para o Largo Grimmauld levando algumas bebidas. Logo Gina chamou a Parvati, o Neville e a Lavender pelo Floo, cada um deles levou mais bebidas... - Ela foi interrompida por um toque seguro e firme em seu joelho, e um dedo longo a deslizar pela sua mandíbula.
- Tem certeza que quer continuar, Hermione?
Ela assentiu sem dizer nada, cobriu a mão longa com a sua e continuou.
- Ele não parava de fazer planos, de pensar em viajar pelo mundo com o time, de avaliar as vassouras que conhecia, de sonhar com ser contratado para um time maior. Harry colocou os óculos na ponta do nariz e fingiu ser a Skeeter entrevistando "o goleiro de ouro" para o caderno de quadribol do jornal. Nós rimos até perder as forças. Até que eu notei que eu não estava naqueles planos. Claro, estávamos terminando o último ano em Hogwarts, eu pensava em me tornar mestre, conseguir um tutor em Beauxbatons, ou aqui... mas ainda que eu tivesse alguma liberdade para escolher o lugar, não poderia viajar todas as semanas. E na verdade não parecia que ele tinha motivos para pensar nisso; em mim. - ela piscou e as lágrimas empoçadas em seus olhos começaram a rolar, mas sua voz continuou firme, não sem uma nota de tristeza, mas não soluçou nem embargou a voz. Como se estivesse contando uma triste história que lera no jornal. - Eu parei de beber, tinha perdido a graça. Mas todos continuaram. Logo a Ginna começou a se sentir mal, claro, ela não tinha comido nada por causa daquelas dietas malucas que ela começou quando ela e Harry marcaram a data do casamento, e ele levou ela pr'A Toca. As meninas então começaram a disputar o Neville. Acho que eu poderia ter achado engraçado: a Brown e a Patil se jogando sobre ele... e ele tentando se defender como podia. O Neville é um bom garoto, sabe? - com o canto dos olhos ela pôde vê-lo assentir. - Elas começaram a misturar whisky na cerveja dele, e logo ele estava passando mal também. Então elas levaram ele pra... bem, não sei pra onde. - Hermione engoliu em seco. Ali acabava a parte fácil. - Então ficamos só nós dois. Eu não estava bêbada, só um pouco tonta, mas ele tinha caído da cadeira tantas vezes que uma hora decidiu ficar no chão de vez, do meu lado. Eu senti que ele estava colocando a mão na minha perna e levantando a minha saia. Eu o segurei e pedi para ele parar. Ele tirou a minha mão da dele e continuou. Eu empurrei ele de leve... tentei brincar que ele estava bêbado, mas acho que eu não pareci muito divertida. A ideia de que eu não fazia parte do futuro que ele queria ainda estava se assentando dentro de mim... Bom, ele ajoelhou do meu lado e começou a beijar a minha orelha, falar coisas, enquanto a mão dele chegava na minha calcinha. Eu falei pra ele parar, que eu não queria, que no dia seguinte a gente conversava melhor, mas ele me abraçou e disse que ele merecia um prêmio por ter sido chamado pro time. Sabe? Como se eu fosse um prêmio! Eu perdi o controle e empurrei ele... ele tentou se segurar na mesa, mas arrastou a toalha e tudo que tinha lá em cima pro chão, garrafas, taças, pratinhos de petiscos, tudo. Eu ia aproveitar pra ir embora, mas o Monstro apareceu bem na frente da saída da cozinha, perguntando se ele não queria que o Monstro - ela fez um sinal de aspas com os dedos - "desse alguma educação para essa sangue-ruim". "Não, Monstro, pode ir, que eu mesmo dou conta do recado", ele disse. Mas antes de sair o Monstro tomou minha varinha. E aparatou. Eu gritei para aquele elfo me devolver ela, e ouvi ele gritando. Tinha cortado a mão em um caco. Acho que eu ri, ou zombei dele, sei lá... sei que na mesma hora ele estava agarrando meu cabelo com uma mão e esfregando o sangue no meu rosto. Falou com os dentes cerrados que eu precisava ver o corte mais de perto. Só que tinha uns pedacinhos de vidro grudados na mão dele e abriu um corte na minha testa... o sangue acabou escorrendo pros meus olhos... Eu arranhei às cegas, tentei empurrar ele, gritei... Ele rasgou a parte da frente da minha blusa e me beliscou com tanta força que não sei como não arrancou um pedaço. Me empurrou contra a mesa e me segurou lá, fez alguma magia, uma azaração, acho, que eu fiquei com o peito, os braços, a barriga e o rosto colados na mesa. Eu... Eu não conseguia me mover, até respirar doía. - mais e mais lágrimas escorriam dos olhos castanhos, mas a voz dela se mantinha firme. - então ele levantou a minha saia, acima da minha cintura e puxou a minha calcinha para cima. Ela enterrou na minha pele, e eu gritei, gritei com o que restava dos meus pulmões, para ele parar, para ele me deixar ir, para ele não me machucar. Foi então que eu vi... debaixo da pia, sob os encanamentos, o Monstro estava lá. Me olhando. Girando a minha varinha com os dedos. Sorrindo. Que tipo de criatura perturbada faria isso? Ele chegou uns poucos centímetros mais perto quando percebeu que eu o tinha visto, deixou claro que estava olhando. E gostando. Ele continuou puxando a minha calcinha até ela arrebentar. Ele tirou as mãos de mim e não sei porque eu acreditei que tinha acabado, mas logo depois eu senti... não foi devagar, não acabou rápido, e doeu tanto... quer dizer, eu já estava machucada por causa da calcinha, entende? Ele pegou o meu cabelo de novo e usou pra firmar o corpo, pra fazer com mais força. Uma hora ele arrancou o meu rosto da mesa e eu achei que meu pescoço tinha quebrado. A primeira camada de pele tinha ficado na mesa, eu podia sentir, parecia uma queimadura. Eu continuei gritando que eu não queria, pedindo pra ele parar, implorando pra ele parar. Mas ele só continuava com cada vez mais força. E batia em mim de vez em quando, onde conseguia alcançar, nas costas, nas coxas, no rosto, na nuca, na... Quando eu consegui soltar a minha mão eu agarrei o que eu consegui, e era a mão machucada dele. Eu enterrei os dedos no corte. Era quente e molhado. Ele tentou tirar a mão mas eu segurei firme. Ele passou o braço pelo meu pescoço e começou a me sufocar. Eu soltei a mão dele pra tentar tirar o braço, mas ele não soltava. Usou o braço no meu pescoço para pegar impulso e continuou. Eu sabia que estava sangrando, sangrando muito. Sentia escorrer pelas minhas pernas. Uma hora ele acabou me arrancando da mesa. E no mesmo segundo ele me jogou sobre os cacos. Eu consegui evitar os cacos maiores, mas os menores entraram nos meus joelhos e nas palmas das minhas mãos. Nem doeu na hora. Ele me chutou nas costelas mas fiz tudo pra não rolar, porque tudo em volta de mim eram cacos. Aí eu engatinhei até o Monstro. O Monstro estava se divertindo tanto que nem teve tempo de segurar a varinha. E a tomei e apontei pra ele. E ele parou. Severus... eu ia matá-lo. O Monstro me impediu, me agarrou pelo pescoço e ficou dependurado das minhas costas. Ainda bem, eu acho. Então eu levantei. Não podia perder ele de vista, senão ia começar tudo de novo, ou pior, então eu liguei o fogão sem olhar e encostei as costas nele. O Monstro gritou e me soltou... Eu contornei a cozinha até a saída apontando a varinha pra ele... fui andando assim até a porta da rua. Aí destranquei e corri. Era tarde mas tinha uma ou outra pessoa me vendo correr ensanguentada e com a blusa rasgada. Eu não sei o quanto eu corri, só sei que quando meu peito estava quase explodindo, eu estava em baixo de um viaduto. Eu me escondi pra pegar fôlego e depois aparatei pra cá. O resto foi tomar banho, tirar os cacos que tinham ficado com uma pinça, esconder os machucados com maquiagem, porque eu não conseguia segurar a minha varinha direito, comprar e carregar poções e emplastros usando luvas para esconder os cortes nas mãos... O Harry esteve aqui de manhã, eu tinha saído pra comprar as coisas, mas não tinha jogado os curativos fora. Minha pia estava cheia de gaze com sangue e tinha umas gotas de sangue no chão também. Eu só fui limpar tudo quando minhas mãos melhoraram...
Eles ficaram um longo tempo em silêncio. Ela sentada contra a cabeceira da cama, ele com a mão entre o joelho e a testa dela.
- Você o denunciou?
- Não. - ela levantou o rosto e esperou uma reação dele que nunca aconteceu - Pelo mesmo motivo que não fui ao hospital. Você pode imaginar as manchetes? "Estupro de ouro", "La Granger foi mesmo atacada pelo namorado? saiba detalhes na página quatro", "mina de ouro" ou "quando o buraco é mais embaixo"... Isso que dá não ter boas relações com a imprensa. - ela riu. Snape engoliu em seco e ficaram se olhando por um longo tempo, o sorriso e as lágrimas se alternando no rosto dela; ele apenas a olhando.
- Eu sinto muito que seja com isso que você tem de se casar - ela disse, finalmente desviando o olhar para os seus joelhos.
- Como você pode dizer isso? - ele estreitou os olhos, uma expressão de dor em todo o rosto. Sutil, mas indisfarçável.
- Você já pagou pelos erros de tantos... de todos, talvez. Você sabe que é verdade. É injusto demais que se faça exatamente isso do seu casamento.
- Eu nunca a machucaria...
- Eu sei, e isso torna tudo ainda mais cruel com você. Eu queria que você soubesse, mas agora não entendo porque contei.
- Talvez você precisasse falar.
- É,... eu achava que eu devia a você essa honestidade, mas agora não faz sentido nenhum. Não é como se essa informação sobre mim fosse te ajudar a escolher, por que você não tem escolha.
- Há sempre uma escolha, Hermione.
- Há?
Ele concordou acenando lentamente com a cabeça.
- É. Há.
Quando ele foi embora, ela foi tomada pela dúvida. Se não fosse por ela, ele com certeza teria uma opção melhor. Talvez agora nem se importasse com a lei e com os casamentos arranjados, pois estaria feliz com o seu. Ela sentiu um aperto no peito quando pensou que ele lutara uma guerra de vinte anos. E três anos depois, tinha outra pra lutar, tudo por que ela fora designada como seu fardo. Não era a rejeição dele que tanto doía. Era ter sido ela a escolhida para algoz.
