Capítulo II – Conflitos internos
O ar denso da manhã envolvia o táxi, que despedia um aroma acre, como se tratasse de um ser vivo, com um coração pulsando ao compasso do de Bella e respirando quando ela o fazia.
Sua bolsa, aonde tinha metido o livro depois de deixar a casa dotal sedutor profissional, pressionava a parte interior de suas coxas.
No exterior da suja janela do carro se moviam figuras esfumadas na neblina que começava a se dissipar como se ela não tivesse passado os trinta minutos mais longos de sua vida tratando de convencer ao sedutor mais famoso da Inglaterra para que lhe ensinasse como lhe agradar sexualmente um homem.
A voz de Edward ainda ressonava zombeteira, um sussurro de cortesia inglesa com um tom áspero.
— Sabe o que me está pedindo, senhora Black?
Sim.
Mentirosa, mentirosa, mentirosa. Uma mulher como ela desconhecia por completo o preço que um homem como ele podia exigir pelo conhecimento carnal.
A ira invadiu Bella como um fluxo ardente.
Como se atrevia a lhe dizer que a satisfação de um homem radicava na habilidade feminina de receber prazer, como se fosse culpa dela que seu marido tivesse uma amante?
Ainda sentia no nariz o aroma da fragrância dele! 0 Perfume de mulher, indubitavelmente.
Era como se ele se impregnou daquela fragrância.
Não, era como se ele se impregnou da mulher que o tinha usado.
Cheirava como se tivesse esfregado cada centímetro de seu corpo contra cada centímetro daquele corpo feminino.
Bella fechou os olhos ante aquela imagem involuntária da pele cítrica pressionando para baixo, ao redor e dentro do corpo pálido de uma mulher.
O Táxi se perdeu num buraco, fazendo-a abrir bruscamente os olhos. Cruzou os braços enquanto cravava o olhar no couro gasto do assento.
As mulheres como ela, mais velhas e com defeitos, não eram escolhidas por homens como o Edward Cullen. Mas sabia que também tinham direito a sentir prazer e ela não ia se amedrontar porque já estava precavida de cada segundo de sua idade ou de cada imperfeição de seu corpo.
Durante dezoito anos tinha sido uma filha obediente submetendo-se a vontade de seus pais. Durante outros quatorze anos tinha sido uma esposa dócil, reprimindo seus desejos para não provocar o rechaço de seu marido.
Edward havia dito que o livro com que planejava instruí-la tinha vinte e um capítulos. Podia suportar aqueles olhos verdes penetrantes, zombeteiros e cúmplices durante três semanas.
Podia suportar tudo como aprender aquilo que precisava saber.
O táxi se deteve com brutalidade.
Bella demorou alguns segundos em dar conta de que tinha chegado a seu destino e que não estava de novo detida no meio do tráfico. Empregou vários segundos mais em localizar o cabo da porta e abrir de um puxão.
As esquinas da rua pareciam estranhas, como se tivessem trocado de algum jeito escura, mas evidente nas duas últimas horas.
Uma transformação que não se podia explicar pelo simples passado da alvorada obscura a claridade do dia.
— São 20 euros madame.
Olhou fixamente ao motorista. Era um esqueleto de homem, consumido pela falta de alimento e pelas quatorze horas diárias de trabalho.
Um halo de luz rodeava sua cabeça, o sol da manhã aparecendo través das nuvens de fumaça e neblina suspensas no céu, que rodeavam Londres em novembro, dezembro e janeiro, mas que esse ano se prolongaram até o mês de fevereiro.
Bella tinha dinheiro e saúde, contava com um marido distinto e dois filhos. Por que não podia estar contente com o que tinha?
Colocou a mão dentro bolsa, agarrou duas notas e as lançou.
— Fique com o troco.
O motorista pegou as notas e guardou com destreza e olhou para ela:
—Obrigado, senhora. Necessitará o carro outra vez?
Ainda não era muito tarde, sussurrou Bella. Podia pagar ao motorista agora para devolver o livro ao Edward e não seria necessário que tivesse mais contato com ele.
Mas não era a mesma mulher da semana passada. Nem voltaria a ser nunca.
Seu marido se encarregou abertamente de sua agenda público. Enquanto satisfazia seus apetites em outro lugar, ela tinha reprimido suas necessidades físicas acreditando que a felicidade conjugal se achava na família, não na carne.
Seu matrimônio havia estado apoiado em mentiras.
— Hoje não, obrigado. Mas sim necessitarei de um, amanhã. As quatro em ponto.
Um sorriso de orelha a orelha apagou momentaneamente as linhas de cansaço cinzeladas no rosto do motorista e revelou a juventude que lhe pertencia por sua idade, embora não por sua experiência.
—Aqui estarei, senhora.
Bella contemplou como o carro se perdia rapidamente meio a confusão daquela cidade.
Não tinha calculado ter que esperar uma hora que o sedutor Edward Cullen voltasse para sua casa depois de sua farra noturna. Agora teria que procurar alguma desculpa para explicar sua volta, numa hora em que normalmente deveria estar na cama.
Um súbito estremecimento provocou que sua pele formigasse.
Alguém a estava observando.
Voltou-se enquanto sentia que o estômago lhe revolvia.
Não havia ninguém na calçada.
— FRUTAS FRESCAS, FRUTAS FRESCAS! Compre a sua para o café da manhã! FRUTAS FRESCAS!
Ao outro lado da rua, na calçada da frente, um jovem empurrava um carrinho de mão, vendendo sua mercadoria.
Perto dali, apoiado contra um edifício de tijolo, havia uma escura figura...
Um aglomerado na rua obstaculizou sua visão. Apenas via a movimentação na barraca do ambulante.
Uma mulher, sem dúvida uma empregada de alguma casa como a dela, que comprava frutas frescas para o café da manhã.
O temor se misturou com o alívio. Ninguém sabia de sua reunião com Edward.
Desta vez.
Depois de caminhar três ruas até sua casa, ficou empapada de um suor fétido, mas ainda podia cheirar o perfume.
Chegou a frente de sua belíssima casa o mais silenciosa possível, abriu com a chave a porta de entrada e, ao empurrá-la, Bella surpreendeu ao mordomo no instante que vestia a jaqueta de seu uniforme.
O coração lhe acelerou.
Quando o mordomo árabe lhe tinha negado a entrada, Bella lhe tinha dado seu cartão para intimidá-lo com o poder político de sua família.
Sem dúvida, o criado havia entregado o cartão a seu amo. E certamente seguiria estando em seu poder. Com o canto dobrado para baixo, que indicava que ela o tinha visitado pessoalmente.
Edward deixou bem claro que toda escola tem suas regras. Sua primeira regra era que não poderia usar suas roupas habituais em sua casa.
Bella tinha empregado a intimidação para obter uma audiência com ele. Por que não teria que usar ele a coação para humilhá-la?
— Ouça! Que diabos está fazendo?
Bella olhou assustada quando um par de grandes mãos sardentas a agarrou para arrojá-la à rua.
O mordomo ficou petrificado e sua jaqueta negra se inclinou.
— Senhora Black!
—Bom dia, Beadles. —Nunca tinha visto seu mordomo sem as luvas postas. A visão daquelas mãos cheias de sardas invadiu sua mente, enquanto procurava uma apressada explicação. - É um dia formoso. Pensei que uma caminhada melhoraria meu apetite. Já serviu o café da manhã ao senhor Black?
Beadles ajustou a jaqueta rapidamente. Sua expressão malévola mudou instantaneamente, a outra de deferência.
—Certamente que não, senhora. —De repente, dando conta de que não tinha as luvas, escondeu bruscamente as mãos nas costas. - Deveria ter chamado um segurança. Não é seguro para uma mulher do ministro andar sozinha pela rua nestas horas da madrugada.
— Não era necessário, Beadles. Foi um passeio curto.
Sob a volumosa capa de lã apertou com força sua bolsa enquanto avançava com calma, como se fosse o mais normal do mundo que a senhora da casa saísse a caminhar antes que seus criados se levantassem.
—Por favor, mande chamar Emma. Preciso me trocar para... — O que? A cama? — O café da manhã.
Beadles tinha muita dignidade para fazer comentários sobre o estranho comportamento de sua patroa. A parte superior de sua calva cabeça resplandecia sob o débil raio de luz que tinha seguido os passos dela.
Isabella mordeu o lábio para conter uma risada histérica.
Era tudo tão comum... Tão normal.
Quem poderia suspeitar jamais que a senhora Isabella Swan Black, filha do primeiro-ministro e esposa do ministro da Economia e Fazenda, tinha empregado a intimidação para entrar na casa do "casa nova" da atualidade a fim de convencê-lo que a ensinasse a dar prazer a um homem?
Talvez despertasse para dar conta de que tudo tinha sido um sonho e de que seu marido era exatamente o que sempre tinha pensado. Um homem que se sentia mais cômodo com a política que com as mulheres.
Talvez despertasse para encontrar que os desagradáveis rumores de que tinha uma amante eram falsos.
De repente, seu plano para ser adestrada por Edward Cullen, idéia que antes lhe tinha parecido audaz e atrevida, se convertesse num pouco simplesmente vulgar.
Tinha falado de seu próprio casamento com outro homem. Um homem que lhe havia dito coisas que um cavalheiro jamais diria ante uma dama.
Isabella tinha falado de temas, empregado palavras que nenhuma dama pronunciaria jamais. Tratou de caminhar devagar, evitando subir as escadas correndo. Precisava ver seu marido.
Necessitava que lhe assegurasse que ainda era uma mulher virtuosa e respeitável.
Seu quarto era próximo ao dele. Só daria uma olhada para ver se ele estava acordado. Então teriam a conversa que deveriam ter tido há anos se não fora pela falta de coragem dela.
Com o coração pulsando fortemente, abriu cuidadosamente a porta de Jacob. O quarto estava vazio. Os lençóis engomados de linho e a colcha verde escuro estavam dobrados perfeitamente. Era evidente que não havia dormindo em sua cama. As lágrimas ameaçavam rolar por seu rosto pálido.
Fechou a porta cuidadosamente, temendo soltar as lágrimas que ao longo da última semana ameaçavam continuamente aparecer e ao se voltar... Quase morre de um enfarte. Uma mulher singela, de rosto redondo, sorriu-lhe enigmaticamente do outro lado da cama intacta de Bella.
—Levantou cedo esta manhã, senhora Black. Trouxe-lhe uma xícara de chocolate quente. Apesar de que já passou o pior do inverno, ainda faz bastante frio.
Bella respirou fundo para reprimir o grito que lutava por sair. —Obrigado, Emma. Foi muito amável por sua parte.
—O decano chamou ao telefone. O jovem Phillip fez outra das suas.
Um sorriso iluminou os olhos de Bella ao ouvir o nome de seu filho caçula, agora em seu segundo trimestre na Eton. Aos oito anos, Phillip era atrevido e preparado e ela o adorava. Não importava que não tivesse herdado as habilidades intelectuais de seu pai ou de seu avô. Tinha o dom da risada. E tudo isso, misturado com uma travessa inclinação para a aventura, tinha dado várias oportunidades para Bella conhecer melhor o decano durante aqueles últimos meses.
Emma depositou a bandeja de prata sobre a mesinha de noite e arrumou seu conteúdo até ficar satisfeita.
—O decano falou com o secretário do senhor Black.
Com atitude indiferente, Bella cruzou o escuro tapete de lã azul tão inglesa comparada com o vistoso tapete oriental que cobria o chão da biblioteca de Edward, até sua escrivaninha.
—Está bem. Suponho que o senhor Black já saiu para alguma de suas reuniões.
Ao ruído surdo do líquido derramado na xícara lhe seguiu o aroma doce do chocolate.
—Não saberia lhe dizer, senhora.
Quantas mentiras! Pensou Bella de maneira sombria enquanto deslizava a bolsa com o livro proibido sob a escrivaninha.
Emma sabia perfeitamente que o senhor Black não tinha dormindo em sua cama. E sem dúvidas, também sabiam o resto dos empregados.
Durante quanto tempo a tinham protegido do fato de que seu marido preferia o leito de outra mulher? Tirou a capa e a jogou sobre a cadeira de respaldo alto. Seguiram-lhe as luvas negras.
Em silêncio, aceitou a delicada xícara de porcelana chinesa decorada com rosas, que Emma lhe oferecia. Incapaz de enfrentar os olhos da empregada dirigiu-se a janela para olhar para fora. A pálida e amarelada luz do sol brilhava sobre o jardim de rosas, nodoso e sem vida. Algo pouco atrativo, mas efetivo.
A voz sedutora de Edward Cullen dançava e resplandecia dentro de sua cabeça. "Já comprovará, senhora Black, que quando se trata do prazer sexual, todos os homens são de uma certa natureza". Quantas vezes havia pensado que seu marido se levantava cedo para atender seus compromissos parlamentares, quando na realidade nem sequer tinha voltado para casa?
Apoiou sua testa sobre o frio vidro. A fumaça quente subia da xícara em embaçava a janela. Hoje era segunda-feira. Segundo sua agenda, Bella devia visitar um hospital às dez horas e as doze fazer-se de anfitriã num almoço beneficente. Precisava preparar seu traje e um breve discurso, mas só podia pensar no quarto vazio ao lado do seu.
O que aconteceria se não fosse seu desconhecimento em matéria sexual que tinha afastado Jacob? E se fosse... Ela? Seu corpo, sua personalidade e sua carência absoluta de carisma político que não tinha conseguido herdar de sua mãe ou de seu pai?
Um pardal desapareceu como uma flecha no céu. Levava em seu pico uma parte de feno para acrescentar ao seu ninho. De repente, Bella soube o que necessitava.
Precisava se rodear do amor sem complicações de um menino. Ou talvez precisasse estar segura de que seu encontro clandestino com Edward Cullen não tivesse abaciado de algum jeito a relação com seus filhos.
Bella deu as costas ao desolado jardim de rosas.
—Diga ao secretário do senhor Black que envie uma nota a Organização de Caridade das Boas Mulheres. Que escreva que não poderei assistir a inauguração do hospital nem fazer o discurso do almoço, por causa de uma emergência imprevista.
—Muito bem, senhora.
Um vigor renovado fluiu pelas veias de Bella. Ser uma esposa desejável talvez estivesse além de suas capacidades, mas ser uma boa mãe, não.
Dirigiu a Emma um sorriso enigmático.
—Diga também a cozinheira que prepare um piquenique para meus dois famintos filhos. Logo mande chamar um táxi para que me leve à estação de trem. Irei passar o dia com eles.
Um perfume suave e fugaz atormentou seu nariz.
O perfume.
—Mas primeiro quero que me prepare um banho, por favor.
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— Desejaria tomar alguma coisa, senhora Black?
O decano observou com determinação o ornamentado relógio de ouro em seu pulso. Seus bigodes, cuidadosamente recortados e prateados pela idade, se retorceram.
Não gostava de tratar assuntos com uma simples mulher, embora fosse a mãe de dois de seus alunos. Especialmente quando chegava de improviso e sem marcar uma entrevista prévia.
Bella sorriu, negando a se sentir intimidada pelos intentos evidentes daquele ancião, de fazer justamente isso. Depois de enfrentar Edward não acreditava que nenhum homem pudesse voltar a incomodá-la alguma vez.
—Não, obrigado, decano Whitaker. O que fez meu filho agora?
—O jovem Phillip atacou um estudante no café desta manhã. - O decano deslizou o olhar para o seu relógio novamente e lhe cravou um olhar sob suas povoadas sobrancelhas brancas.
—Tivemos que segura-lo, estavam se agredindo fisicamente.
— E o que fez o outro estudante para provocá-lo? — Perguntou ela bruscamente com seus instintos maternais a flor de pele.
—O jovem Phillip assegura que o jovem Bernard é de uma família de liberais, diferente de vocês, senhora e como tal é uma vergonha a sua consciência social.
Bella se sentia dividida entre a risada e o temor. Por um lado, Phillip jamais tinha demonstrado nenhum interesse pela política. E por outro, nunca antes se envolvera numa discussão. Que simultaneamente tivesse desenvolvido as duas tendências fez com que soasse um alarme dentro de sua cabeça.
— E o que tem a dizer o jovem Bernard? — Perguntou brandamente.
—Não diz nada, madame. O aberrante desdobramento de violência de seu filho o deixou feito um trêmulo feixe de nervos.
Bella se virou.
Phillip estava em pé junto à porta de entrada, com seu cabelo cor castanho escuro penteado cuidadosamente para trás.
Movia-se nervoso, trocando o peso de uma perna a outra. Tinha o olho esquerdo fechado devido à inflamação. O olho direito brilhava com lágrimas contidas.
Bella queria correr, abraçá-lo. Cobri-lo de abraços e beijos. Queria levá-lo de Eton e de todos seus perigos. Queria lhe dar a dignidade que tão corajosamente estava lutando por conservar.
—Olá, Phillip.
—Falou com o decano.
Bella não se incomodou em responder ao que era evidente.
— Irão me expulsar?
— Isso é o que quer?
—Não.
— Quer me dizer por que brigou com um jovem do quinto curso? Tinha todas as possibilidades de ganhar.
Phillip apertou os punhos.
—Bernard é um...
—Por favor, não insulte minha inteligência repetindo essa tolice. Além disso, já não os chamamos assim por pensarem diferente de nós.
Seus ombros relaxaram.
—Já não sou um menino, mãe.
—Sei que não é, Phillip. – Ela brindou-lhe com um malicioso sorriso. - Seu olho arroxeado o demonstra.
O moço se ergueu ainda mais ante aquelas palavras... E pareceu se tornar ainda mais jovem do que era. —Por favor, não me peça que te diga qual foi à causa da briga. Não quero mentir.
—Obviamente, lhe devo perguntar isso e dado que nunca antes me mentiste, não acredito que o faça agora.
Phillip olhou os sapatos e finalmente, balbuciou:
—Ele disse algo...
— A respeito de ti?
—Não.
— A respeito de Richard?
Ele elevou o queixo e olhou fixamente por cima da cabeça de sua mãe.
—Não quero lhe dizer.
Bella sentiu que a invadia um repentino pressentimento. Os meninos, apesar de sua idade, repetiam as mesmas intrigas que seus pais. Se ela tinha ouvido por acaso rumores com respeito à relação extraconjugal de Jacob era muito provável que também seus filhos o tivessem feito.
— Disse o jovem Bernard algo a respeito de seu pai, Phillip?
Ele piscou com seu olhar ainda fixo acima da cabeça dela. Era evidente que aquela piscada significava que estava certo.
Por que teria sido uma esposa tão complacente? Nada disto deveria ter ocorrido, nem a seu marido, nem a ela e nem a seus filhos.
—Phillip.
Seu filho lhe suplicou em silencio com o olhar, familiarizado com aquele tom particular de voz.
Bella sentiu que lhe rompia o coração.
Salvo pela cor de seu cabelo, Phillip era muito parecido o pai. Os mesmos olhos castanhos e o nariz nobre... E, entretanto não havia nada de Jacob nele. Bella não podia imaginar Jacob com um olho arroxeado. Nem sequer na idade de Phillip.
Deu alguns tapinhas na poltrona que havia a seu lado.
—Trouxe uma coisa para você.
O olho arroxeado a olhou com receio.
-O que?
—Uma caixa de chocolates, o seu favorito.
O suborno obtinha o que todo o amor do mundo não teria obtido jamais. Phillip saltou para o cesto e se sentou aos pés de sua mãe.
—Não deve premiar o jovem brigão, mãe.
A voz em tom de recriminação não pertencia nem a um menino nem a um homem, mas a alguém que estava entre as duas etapas da vida.
Bella se voltou para seu filho maior com um prazer manifesto.
—E você não deve permitir que seu irmão se meta com meninos que têm o dobro do seu... - Sua boca se abriu emocionada. — Richard!
Ele estava pálido. Custou-lhe reconhecer o menino que a tinha incomodado incessantemente durante as férias, lhe pedindo uma bicicleta nova. Inclusive seu cabelo negro escuro, como o de seu pai, estava murcho e sem vida.
Bella ficou em pé e lhe tocou a testa.
—Richard, você está doente?
O moço permitiu a carícia.
—Agora estou bem.
— Por que não me comunicou isso, o decano?
—Não era nada, mãe. Somente um resfriado.
— Está comendo bem?
—Mãe!
— Quer vir para casa para descansar?
Richard afastou sua mão.
—Não.
— Quer de uma caixa de doces? —Perguntou ela com aspereza.
Um sorriso ambíguo apareceu em seus lábios.
—Não me oporia a isso.
—Então, se una a nós e faremos uma festa. Ordenei a cozinheira que preparasse uma cesta de piquenique.
Phillip já tinha invadido a cesta e descoberto em seu interior os tesouros ocultos. Sem solenidade alguma, passou a caixa de doces a Richard.
Foi como se os dois moços estivessem selando um pacto.
Entre goles de cidra de maçã e mordidas de rosbife, um saboroso queijo de Stilton, vegetais em vinagre e pão-doce recheados de geléia de morango, Richard alardeava sobre seus estudos, enquanto Phillip presumia sobre seus truques para escapar deles.
A reunião chegou a seu fim muito rápido.
Bella guardou os pratos e talheres na cesta e envolveu a comida restante em dois guardanapos.
—Richard, coma. Phillip, não quero mais briga. E agora não me importa se vai ofender sua dignidade, mas quero um abraço de cada um de vocês.
Phillip, como se tivesse esperando a permissão durante todo esse tempo, lançou-se para ela e pressionou o rosto em seu ventre.
—Amo você, MA.
Bella se sentiu invadida por uma forte onda de superproteção. MA havia sido o apelido especial que Phillip havia lhe colocado desde pequeno.
Richard era maior que Bella. Surpreendeu-a abraçando-a e afundando o rosto em seu pescoço, tal como fazia quando era pequeno. Um fôlego quente e úmido fez cócegas sobre sua pele.
—Eu também, MA.
Bella aspirou o aroma de sua pele profundamente. Ele cheirava a sabão, suor e a seu próprio aroma particular.
A maturidade estava afastando Richard de seu lado, mas ainda cheirava como quando era pequeno.
Piscou para evitar que as quentes lágrimas que lhe queimavam as pálpebras deslizassem por seu rosto.
—Seu pai e eu também os amamos. Sua declaração foi acolhida em silêncio . Como se tivessem num acordo tácito, Richard e Phillip se separaram de seus braços.
Bella jurou ali mesmo que faria tudo para voltar a unir sua família.
A viagem em trem de volta para Londres foi um calvário longo e penoso. O balanço monótono devia lhe ter provocado sonho, mas não foi assim. Pensou em Jacob e na sua cama vazia. Pensou em seus filhos e em como se afastaram quando ela tinha mencionado o pai.
Pensou Edward e no perfume que o envolvia. E não importava de que maneira tinha tentado representar-lhe, mas não podia imaginar que Jacob tivesse encontrado jamais em sua amante o prazer que ele obviamente tinha achado na dele.
O motorista estava aguardando-a na estação. Seu marido não a esperava em casa.
Rechaçando de maneira cortês, mas firme, a insistência do criado e depois de sua jovem para que fizesse um jantar leve, Bella se preparou para deitar. No instante que fechou a porta de seus aposentos, Bella procurou o livro em sua mesa.
Cheirava a couro e tinta fresca, como se o tivessem publicado a pouco tempo. Com muito cuidado, passou a página do título e leu a letra negra sobre o fino papel branco.
"O JARDIM PERFUMADO" DO SHEIK NEFZAWI".
Um manual de erotismo árabe (século XVI)
tradução, revisão e correção: Cosmopoli
MDCCCLXXXVI: Para a Sociedade Kama Shastra de Londres e Benarés e somente para distribuição privada.
(Paginação: XVI + 256). "Erotismo".
Bella jamais vira semelhante palavra. A data de publicação era de 1886, mas o livro estava recém impresso. Com impaciência, passou o índice e se deteve ao chegar à introdução. Seus olhos pareceram ir sozinhos aos parágrafos iniciais.
"Louvado seja Deus, que pôs o prazer maior do homem nas partes naturais da mulher e destinou as partes naturais do homem para dar o maior gozo à mulher. Não dotou às partes da mulher de nenhuma sensação prazerosa ou satisfatória até que tenham sido penetrados pelo instrumento do macho e de igual modo, os órgãos sexuais do homem não conhecem nem a quietude nem o descanso até não ter penetrado nos da fêmea".
Uma aguda pontada de desejo sacudiu violentamente suas entranhas. Seguiu-lhe a lembrança dos zombeteiros olhos de Edward. E não teve dúvida alguma de que ele aceitara ensiná-la com o único fim de humilhá-la.
Um homem como ele nunca perdoaria uma mulher que o tinha ameaçado para entrar a força em sua casa.
Um homem como ele jamais compreenderia que uma mulher cujo cabelo mostrava os primeiros fios prateados da idade e cujo corpo revelava as conseqüências de duas gestações ardia com o mesmo desejo que as mulheres jovens e bonitas liberadas do peso da virtude.
Com determinação, sentou-se e procurou papel e caneta na gaveta. Ele não precisava saber quanto desejava ela o gozo feminino com o qual a tinha ridicularizado.
A única coisa que aquele maldito sedutor tinha que saber era que ela desejava instrução sexual, para que seu marido ficasse satisfeito.
Gostaria muuuito de agradecer aos que comentaram e add a fic nos favoritos! É muito bom ver que estão gostando!
Ta ai mais um capitulo de O Tutor! Espero que gostem, e comentem né? x)
Uma review pra deixar eu e as autoras felizes nao custa nada, certo? Então mãos a obra!
Proximo capitulo, só com bastante reviews!
Drigo.
