Capítulo 2

As Palavras

Bella estava enterrada em uma pilha de papéis. Existia uma variedade enorme, das mais diferentes cores, tamanhos e formas. Palavras cobriam cada centímetro deles. Letras pequenas, desenhadas, de forma, desleixadas, grandes e espaçadas. Eram tantas que Bella não conseguia distinguir o que diziam.

De repente, elas foram ficando maiores. As palavras foram criando forma como se estivessem vivas. Aos poucos, elas saiam dos papéis e caminhavam em direção ao corpo pequeno que se encolhia diante delas. Uma por uma, as palavras tiravam não somente o espaço de Bella, mas também o seu oxigênio.

Seus olhos se abriram assustados.

Passando as mãos pelo cabelo, Bella riu da ironia daquele pesadelo. Ela sempre foi a pessoa que dominava e moldava as palavras. Parecia agora que elas se sentiam oprimidas e resolveram se rebelar contra ela.

Mal sabiam elas que estavam prestes a vencer.

[...]

O cheiro de café despertou Bella de seus devaneios. Devidamente higienizada e vestida, ela se encontrava na cozinha de seu apartamento, preparando algo para comer antes de enfrentar o dia. Com passos lentos, a cara amassada e um smartphone nas mãos, James, seu noivo, apareceu no aposento.

— Bom dia, anjo. — Ele a cumprimentou com um beijo na bochecha, com os olhos ainda no celular. — Você sabia que seu último livro desceu uma posição nos mais vendidos do New York Times? Isso não pode acontecer, Bella.

Bella não ouvia outra coisa a semana toda a não ser isso. Sua agente, Victoria, encheu cada segundo em que estavam juntas dizendo o quão importante era a posição de venda de seus livros, pois assim seu filme conseguiria mais investidores e seria um sucesso.

E, claro, Bella teria que pensar em estender a trilogia para algo mais, caso os filmes fizessem sucesso. Ou, porque não lançar contos que se passassem posteriormente a história? Ou quem sabe ainda, ela poderia escrever uma trilogia nova, com algum elemento sobrenatural que os adolescentes adoram?

E ela mentia. Dizia que talvez pudesse pensar em algo. Que estava em planejamento. Que logo traria uma novidade.

Mas em sua mente a única coisa que surgia era um grande e sonoro grilo.

— Por que você não me deixa cuidar das suas finanças, Bella? Você sabe, somos mais íntimos, seria mais fácil para você.

James vinha com esse argumento já há algum tempo. Na realidade, ele começou a fazer isso logo depois que Bella recebeu uma proposta para que seus livros virassem uma franquia cinematográfica.

Seu noivo foi um homem que apareceu para ela no momento certo. Ela se sentia solitária ao ter que lidar com toda a nova pressão de ser uma renomada autora no mundo literário, e James foi a única pessoa que a fez sorrir em meio àquelas infindáveis turnês de autógrafos. Ele lhe ofereceu uma bebida, e de bom grado Bella aceitou. Então, de repente, ele a acompanhou durante os cinco países que ela passou pelo final de sua turnê.

James era doce, atencioso, bonito. Era fácil se encantar por ele, e ainda mais por sua habilidade como amante. O relacionamento fluiu, e logo que se deu conta, Bella já estava noiva. Isso era bom pra sua imagem, dizia Victoria. Uma autora de romances nunca pode estar solteira, querida! Vamos fazê-los pensar de onde vem sua inspiração para suas cenas de amor!

Porém, depois de alguns meses, James começou a ficar preocupado demais com a carreira de Bella. Ele preferia falar dos números de venda da trilogia do que sobre qualquer outro assunto sobre o relacionamento deles. Tudo se resumia a lucros e vendas e ainda mais lucro.

Isso estava cansando Bella. Ela tinha uma ideia em mente, mas se recusava a pensar que era tão estúpida. Ela não queria pensar na possibilidade de que James apenas estava com ela pelo seu dinheiro e fama. Bella via verdade quando ele dizia que a amava.

Ou poderiam ser apenas palavras bem articuladas?

— Jas cuida muito bem das minhas finanças James, e você sabe disso. Por favor, não vamos discutir?

James parou de olhar um segundo para o celular e caminhou até Bella, enlaçando um dos braços em sua cintura. Seus lábios buscaram o pescoço de sua noiva e ele deixou ali um molhado beijo.

— Me desculpe anjo, não queria te estressar. Falaremos sobre essas coisas depois, ok?

Bella apenas balançou a cabeça positivamente. Ela iria fugir dessa conversa pelo máximo de tempo que conseguisse.

[...]

Uma pilha de cartas e e-mails foi colocada sobre a mesa de Bella. Ela viu seu sonho se tornando realidade e respirou fundo para não surtar.

— É apenas um pouco de cartas que você deve ler para o concurso. Eu li a maioria delas, e devo dizer que a única que merece destaque é a primeira da pilha.

Jasper olhava para Bella com uma sobrancelha levantada. Ela pegou a carta e abriu.

A primeira coisa que tirou do envelope foi a foto de uma garota, que era exigência dos produtores do concurso. Eles que diziam que não se poderia escolher uma menina que não tivesse o estilo que eles queriam promover, mas para as concorrentes só foi dito que isso servia para conhecê-las melhor.

A menina da foto era muito bonita. Com um rosto angelical, longas madeixas loiras, levemente ruivas, e um sorriso incrivelmente doce nos lábios. Mas, o que mais chamou a atenção de Bella foram seus olhos. Eles eram de um verde tão intenso que transmitiam toda a emoção do momento em que a foto foi tirada.

Bella podia dizer que aquela era uma menina feliz.

Na carta, as concorrentes deveriam dizer por que mereciam ganhar a festa de debutante idêntica a de Amy, a protagonista dos livros de Bella.

A letra da garota era doce, assim como sua foto. Esse era um incentivo para que Bella desse uma maior atenção a ela.

"Querida Bella,

Meu nome é Elizabeth Cullen, e estou prestes a completar meus dezesseis anos. Eu sou uma grande fã de seus livros, mas provavelmente toda garota que já lhe escreveu alguma coisa deve ter dito isso.

Bem, eu não sou mais digna de receber esse prêmio, sou igual a todas as outras. Porém, eu gostaria muito que você prestasse atenção no que escreverei, não apenas por mim, mas também pela minha família.

Meu pai, Edward, é um homem muito esforçado. Ele passa noites em claro trabalhando para que tenhamos uma vida confortável e estável. Minha mãe não está mais entre nós, então, todo o esforço dele é em dobro, pois ele tem que, além de me sustentar, me criar e me educar como pai e mãe.

Seu sonho é me dar essa festa, porque tudo o que ele faz é para me ver feliz. E ele sabe que eu ficaria imensamente alegre com uma comemoração. Eu disse para ele não se esforçar tanto, que eu ficaria satisfeita com algo íntimo, entre nossos parentes e amigos mais próximos, apenas. Mas ele insiste em dizer que vai se esforçar mais e mais para que eu tenha uma grande festa.

Bella, eu não quero isso. Eu quero a festa, sim, mas não quero ver meu pai definhando porque trabalha demais apenas para me dar um dia de felicidade. Eu gostaria muito de uma comemoração, mas eu ficaria ainda mais feliz se meu pai também ficasse feliz, e não cansado como ele está.

Por isso eu peço a você que me escolha. Não tanto por mim, mas pelo meu pai. Eu sei que o sorriso que eu veria no rosto dele ao adentrar em um salão, vestida como uma princesa, valeria mais do que qualquer glamour que eu receberia nessa festa.

Obrigada pela atenção.

De sua fã que te ama,

Elizabeth Cullen."

Os olhos de Bella brilharam ao terminar a carta.

Ela olhou para cima, onde Jasper tinha um belo sorriso em seus lábios.

— Essa é minha vencedora. — Ela disse a ele, segurando a carta com apreço.

— Eu tinha certeza que essas seriam suas palavras. Então, descartamos todas as outras meninas mimadas da lista?

Bella sabia que não seria justa ao fazer isso, mas logo que colocou os dedos naquela carta, ela sabia que havia algo de especial naqueles belos olhos verdes. Aquela era uma garota que merecia não somente a festa, mas também uma vida abençoada e feliz.

Das tantas cartas e e-mails que Bella havia lido durante essas semanas, nenhuma foi tão sincera e altruísta. Todas as meninas queriam festas para se sentir uma princesa; algumas diziam que não teriam condições (assim como Elizabeth), mas não eram tão intensas e não se importavam com quem estavam ao seu redor, apenas com o seu benefício; algumas achavam que deveriam ganhar porque eram perfeitas e parecidas com Amy,a protagonista de seu livro.

Nenhuma delas disse que queria ganhar não por elas, mas sim por alguém.

— Eu vou ler as outras. Mas essa é minha primeira opção, com certeza.

Jasper se sentou ao lado de Bella e começou a olhar a pilha de cartas que ainda não havia visto. Durante um bom tempo, ambos ficaram em silêncio, apenas passando por milhares de palavras de adolescentes que sonhavam, seja com a festa, seja com a fama.

Victoria abriu a porta do escritório de Bella em um rompante. Ela tinha seu característico sorriso espetacular e falso em seus lábios, e parecia estar radiantemente chata, mais do que o normal.

— Bom dia meus queridos! Eu já tenho nossa vencedora!

Bella lentamente retirou os olhos do e-mail que estava lendo e encarou Victoria.

— Oh, que bom, porque eu já tenho nossa vencedora também.

— Você não está entendendo, Bella, essa é a garota que vai ganhar. Nós já a escolhemos.

Jasper lançou um olhar para Bella, tão confuso quanto o que ela lançava para sua agente no momento.

— Eu pensei que eu fosse escolher a vencedora.

— Presumo que não querida. Essa menina é perfeita. Ela é bonita e tem potencial para ser uma estrela. Já está escolhido, ordens superiores.

Victoria estendeu o e-mail e a foto da menina para Bella, que a pegou e observou atentamente. A garota que estava na foto parecia ter quase 20 anos, de tanta maquiagem que usava. Seu cabelo era de um loiro platinado, que dava a impressão de não ser natural. Seus olhos eram azuis, seus lábios carnudos. Seus seios eram fartos e saltavam ligeiramente do minúsculo vestido que ela usava. Seu sorriso era tão falso quanto o de Victoria.

— Eu pensei que nós faríamos uma festa para debutante, e não para a nova coelhinha da Playboy. — Jasper anunciou ao lado de Bella.

A agente revirou os olhos. Ela não gostava da presença de Jasper ao lado de Bella. Para Victoria, o melhor amigo de sua autora best-seller era uma péssima influência para ela, pois ele tinha mau gosto para tudo.

— Ela tem o estilo certo. Ela é perfeita para a imagem, essa festa promoverá seu filme de uma forma incrível Bella!

Bella ainda olhava para a menina na foto. Era óbvio que ela não era nenhuma de suas leitoras, era provável que nem sequer soubesse seu nome. Ela sentiu raiva subindo pelas veias e infestando cada parte de seu corpo.

Quando Bella entrou nesse ramo, a única coisa que queria era fazer sua arte. Escrever para ela era algo que a deixava livre; ela se sentia completa enquanto passava para o papel suas ideias e via que o que havia pensado mudava de certa forma a vida de alguém.

Ela não esperava o sucesso. Ela não esperava toda a imprensa, todas as fãs loucas por um autógrafo seu; todo o assédio que agora recebia. Ela não esperava que a única coisa que ela realmente amava e sabia fazer fosse acabar se transformando em apenas uma máquina de gerar lucro.

— Eu não quero ela, Victoria. Quando eu concordei em fazer isso, eu seria a pessoa que escolheria a vencedora.

— Você se esquece que não é você que está pagando a festa, Bella querida. Isso não depende de você, mas sim de quem tem o capital.

— Eu não vou gravar nada, não se não for do meu jeito. — Bella insistiu, segurando com firmeza o papel em sua mão.

— Já está feito. O resultado foi ao ar ontem à noite.

De repente Bella se lembrou da gravação que fizera dias atrás. Victoria e os outros haviam alegado que era apenas um teste, para que eles pudessem verificar a luz e a forma como seria feito o anuncio. Ela nunca imaginou que aquele nome que ela citou de tão boa vontade naquela tarde, era na verdade o nome daquela mulher da foto que estava segurando.

Bella se levantou rapidamente e saiu da sala. Ela sentia o controle saindo de suas mãos, e não gostava dessa sensação. Se continuasse mais tempo ali naquele lugar, na presença de sua agente lhe dizendo o que ela deveria fazer ou não fazer, sua frustração e decepção seriam facilmente expostas e poderia haver consequências nada satisfatórias.

Havia passos atrás dela, mas Bella não parou. Ela imaginou que fosse Jasper, tentando pelo menos lhe dar um pouco de paz e tranquilidade, mas Bella preferiu ignorar também o seu melhor amigo. Ela já tinha o lugar em mente onde colocaria seus pensamentos em ordem e reveria suas propriedades.

Após um tempo não muito longo de caminhada, Bella chegou até o Pixie Caffe. Ela tinha um apreço especial por esse lugar, pois foi onde ela escreveu as primeiras linhas de seu primeiro romance. Ali, ela conseguia colocar todas as suas ideias em ordem, e a paz e delicadeza que estavam presentes não somente nos móveis e arquitetura do lugar, mas também nas pessoas que por ali passavam, eram a inspiração que Bella sempre procurou para escrever.

Suspirando, ela se deixou refletir.

Era uma realização ser alguém reconhecido pelo seu trabalho. A emoção que ela sentiu quando a primeira garota com grandes olhos chorosos chegou até ela e lhe pediu um autógrafo era algo que ela nunca esqueceria. Seu coração ficava imensamente maior ao ver que o que ela havia feito era lido e adorado por tantos.

Mas ela não queria que isso saísse de seu controle. Bella estava feliz com apenas autógrafos. Ela não queria filmes, não queria dinheiro, não queria a imprensa sobre ela. Bella só queria continuar fazendo seu trabalho.

Será que era pedir muito voltar a ser uma desconhecida escritora?

Uma das garçonetes lhe perguntou o que ela queria, e Bella pediu um chá para acalmar seus nervos. Logo que a menina chegou com o pedido e ela deu o primeiro gole em sua bebida, as batidas do seu coração ficaram um pouco mais calmas.

O café estava meio vazio naquele fim de tarde. Apenas um casal conversava em um canto perto da porta, com sorrisinhos e toques de mãos que a faziam se lembrar de um amor que nunca teve. Dois senhores pareciam discutir assiduamente algo que um deles havia lido no jornal sobre a mesa deles.

E, mais perto dela, havia outro casal.

Podia se ver claramente que eles não eram um casal real, apenas amigos. Bella reconheceu a mulher que estava sentada como dona do estabelecimento. Ela já tinha frequentado o lugar vezes o suficiente para ver que ele já havia sido mais movimentado e animado, e podia ver que a preocupação de ter o café com menos clientes pesava sobre o rosto angelical da dona.

Já o homem parecia extremamente cansado. Com os ombros curvados para frente, os olhos levemente menores e as rugas de expressão claramente acentuadas.

Bella não sabia por que, mas naquele momento se lembrou de Elizabeth e sua carta.

Ela apurou seus ouvidos para tentar escutar o que ambos diziam. Eles, claramente, já haviam passado por uma discussão, e agora estavam refletindo sobre alguma solução. A mulher pequena abria a boca inúmeras vezes, mas logo desistia do que ia dizer. Provavelmente, uma ideia que não parecia mais tão boa quando formada em palavras.

— Nós vamos conseguir, ok? — Ela disse de repente, assustando o homem à sua frente. — Apenas, tire essa cara de derrotado do seu rosto, Cullen.

Bella paralisou ao ouvir o nome. Seria uma coincidência grande demais ela estar no mesmo lugar em que o pai de Elizabeth estava.

Balançando a cabeça, ela tentou afastar a ideia. Eram muitas coisas passando por sua cabeça no momento, e ela desejava tanto que aquela menina fosse a sua escolhida que agora estava imaginando e até ouvindo coisas relacionadas a ela.

Bella suspirou, novamente.

Seu movimento então atraiu a atenção da mesa à sua frente. A dona do café virou rapidamente seus olhos em sua direção e ela encarou belas orbes azuis. Elas estavam tristes e abatidas, mas ainda carregavam um brilho que ela reconheceu como esperança. Ao seu lado, o homem levantou o rosto da caneca que segurava com tanto afinco e também fixou seus olhos em Bella.

Às vezes, Bella só acreditava no que as palavras lhe diziam. Elas eram verdadeiras e expressavam muito mais do que as pessoas queriam dizer.

Porém, naquele momento, a cor daqueles olhos lhe transmitiu mais sentimentos e certezas do que qualquer par de palavras que ela já tenha lido em toda a sua vida.


Nota da autora:

Olá meninas! Obrigada pelos comentários do capítulo passado, vcs me deixaram muito feliz ao perceberem meu Ed sofrido e pobrinho e meu objetivo surpresa (Lizzie adolescente) foi perfeitamente cumprido! Gosto de coisas diferentes, e uma filha já mais velha é um tanto peculiar, sim? haha

E então, o que me dizem sobre a Bellinha? Quais foram as primeiras impressões sobre ela? Tenho apenas que adiantar que ela é uma mulher incrível, em todos os sentidos!

E o que esperam desse encontro, hein? Qual será a reação do Edward? E da própria Bella?

Me contem suas teorias! Vcs, leitoras fantasmas queridas, não tenham medo! Eu adoro ler e responder reviews, faço isso com carinho e a opinião de vcs me ajuda a ver o que estou fazendo de errado, ou não haha

Bem, espero que gostem desse capítulo, e até quarta que vem!

Beijos!