Doçuras, mais um capítulo pra vocês. *-*

Quero agradecer muito, muito, e muito a quem está acompanhando e deixando reviews.

Não só babo pelos coments que vocês deixam, mas também consigo ter uma idéia se a fanfic está sendo bem aceita aqui no site ou não. E isso é fundamental.

E agora, enjoy. :*


03 – O Convite

"Aquilo ainda estava certo, não estava?"


Durante a maior parte daquela noite, eu me dediquei laboriosamente ao trabalho de encaixotar todas as minhas bugigangas. Surpreendi-me com a quantidade de coisas inúteis que encontrei nos cantos mais escuros daquela casa, principalmente em meu quarto. Desejei descobrir o motivo pelo qual eu havia guardado caixas de sapatos, pacotes de presente, jornais velhos, e uma quantidade absurda de cadernos do tempo de escola. Coisas que certamente não serviriam para mais nada, além de ocupar espaço em gavetas.

A nostalgia era uma sensação que eu realmente adorava, tingindo de preto e branco um passado que subitamente avançava do fundo de um poço, ignorando a noção do tempo. E eu fui lentamente me deixando levar pelas águas calmas, saltando de lembrança em lembrança como se fossem pequenas embarcações, deliciando-me com o conteúdo de cada uma delas.

Em plena e alta madrugada, eu me encontrava rodeada por pedaços de meu passado, rindo amavelmente de cada um deles.

"Ah, nossa primeira festa do pijama." — lembrei comovida.

Sobre minhas pernas, adormecia uma velha caixa de fotografias. Dentre todas elas, minhas mãos buscaram por uma em especial. Na fotografia, eu, Ino e Hinata com nossos sete anos de idade. Uma lágrima de saudade rolou por meu rosto, e eu sorri praticamente engasgada pelo pranto. Vestíamos nossos lindos pijamas com estampas de bichinhos, e em nossos rostos ficaram congelados os mais felizes sorrisos. Nossas mãos estavam juntas, desde aquele tempo.

Quis separar a fotografia para mostrá-la mais tarde para minhas, agora adultas, amigas, mas meu corpo simplesmente não obedeceu ao comando. Fiquei ali, abraçada aos pequenos fragmentos de minha vida, como se desejasse viver novamente cada um deles. Mais lágrimas rolaram por meu rosto, lágrimas de felicidade, até que o sono me alcançou e eu adormeci naquele passado distante.


Pela metade da manhã seguinte, tudo estava pronto.

Eu havia pensado em tudo, cuidado de uma mudança da noite para o dia, literalmente, como imaginei que poucas pessoas seriam capazes de fazer. Era sábado e eu estava de folga, de modo que nada poderia se encaixar melhor ao cronograma. Um amigo que casualmente havia se formado em direito ficara comprometido de entregar-me o contrato para o aluguel da casa em meia hora, e eu estava ansiosa para ver Sasuke outra vez.

Estava tudo certo, até demais, quando lembrei de algo crucial: Para onde eu iria ao sair de casa? Novamente, meu outdoor luminoso piscou: Ino, a solução de meus problemas.

Desejei não estar sendo insuportável e pegajosa, mas àquela altura, o sentimento de culpa era irrelevante. Disquei seu número e aguardei, rezando para que ela estivesse de bom humor.

— Você não deveria estar aproveitando sua folga? — atendeu ela, curiosa.

— Eu estou. — menti, olhando para minhas roupas empoeiradas.

Era claro que Ino sabia exatamente quando eu estava mentindo ou não, até mesmo por telefone. Ela parecia ter um dom raro e muito inconveniente.

— Certo, o que você quer? — eu pude ouvir o ruído do Caixa da loja.

— Eu preciso ficar na sua casa. — despejei, impaciente pela reação dela.

— O quê? — quase um gritinho cético. — Por que isso tão de repente?

— Err, estou alugando minha casa pela temporada de inverno.

— Quando você decidiu isso? — perguntou ela, incrédula.

— Ontem ao chegar em casa. — sorri, sentindo-me uma criança estúpida.

— Você tem certeza disso? Quem vai ficar aí?

— Você vai querer me bater. — estremeci ao tentar conter o riso.

— Ei, calma. — Ino suspirou. — Você não fez nenhuma besteira, fez? — pude imaginar a sobrancelha fina de Ino erguendo-se num arco acusador.

Ele vai alugar a casa.

— Ele quem?

— Sasuke Uchiha. — pronunciei lenta e elegantemente, sentindo meus lábios umedecerem apenas com aquele nome. — O homem que eu encontrei na rua, aquele de que falei pra você.

— Fala sério! — Ino explodiu. — Você não aceitou nada indecente em troca da casa, não é? E espero que esse cara não seja um marginal qualquer.

— Posso ser idiota, mas não burra, ok? — bufei.

— Sinto que você precisa de uns conselhos. Leve suas coisas pra minha casa, você sabe onde eu guardo a chave da porta.

— Não sei como agradecer, Ino. — e senti que ela podia ver meu sorriso de orelha à orelha.

— Agradeça limpando minha cozinha, aquilo está um inferno.

— Certo, até mais tarde.

Era por aquele e outros tantos motivos que eu absolutamente amava Ino. Minha segunda mãe na ausência da primeira, minha mais sigilosa confidente, minha salvadora.

Ino era tudo e mais um pouco.


Quando a van da mudança terminou de carregar as caixas e mochilas que eu tinha amontoado ao lado da porta, recebi a visita atrasada de meu amigo recém saído da faculdade de direito. Aburame Shino, um antigo colega de escola.

— Shino! — sorri, abraçando-o à soleira da porta. — Pensei que não viesse mais.

— O trânsito no Shinjuku estava terrível, acredite. — disse ele, tirando os óculos escuros.

— Entre. — conduzi-o até a cozinha. — Quer beber alguma coisa?

— Ah, não se preocupe. — Shino sentou-se em uma das cadeiras da mesa e abriu a maleta de couro negro. — Percebi que a van está esperando você, então... — disse ele, procurando algo dentro da pasta. — Vamos ao assunto.

— Você, muito profissional como sempre. — pisquei.

— Não pense que vou cobrar menos por esse contrato só por causa do seu elogio. — brincou ele, enfim colocando algumas folhas sobre a mesa. — Aqui está. Vou lhe mostrar onde você e a pessoa que vai alugar a casa devem assinar.

— Sou toda ouvidos. — assenti, analisando o documento.

— Nessas linhas nas duas últimas folhas. — mostrou ele com o dedo. — Depois apenas passe no cartório para pegar o carimbo.

— Certo. Podemos acertar o pagamento quando eu passar lá? — sorri.

— Não vou cobrar três folhas de papel de você. — Shino deu de ombros.

— Pelos tempos de escola?

— Pelos tempos de escola. — confirmou ele, abrindo um sorriso divertido.

— Obrigada, Shino. — e esmaguei-o num abraço de urso.

— Boa sorte nos negócios. — desejou ele, sorridente, ao sair pela porta.

Antigamente, Shino costumava ser um jovem sério e de poucas palavras. Era gratificante poder vê-lo sorrindo abertamente alguns anos depois. Afinal, ele sempre fora um bom amigo.

A van buzinou pela terceira vez, lembrando que eu precisava ir.


Sasuke's POV

Realmente, eu precisava de mais espaço, e depressa.

O som de música alta no apartamento de cima havia me acordado às sete horas da manhã, considerando que eu poderia ter dormido mais uma hora. Aquela vida compartilhada era a pior mazela da sociedade, algo que eu abominava. As pessoas haviam chegado a um ponto onde respeitar a privacidade havia se tornado um valor inútil, descartável, e era principalmente por isso que eu jamais conseguiria viver daquela maneira.

Devido ao fim de ano, a maioria dos hotéis decentes estavam cheios, o que havia me levado àquela espelunca de pouca moral. Enfim, o incômodo seria por pouco tempo, pois logo eu estaria morando na confortável casa de Haruno Sakura. Aquela delicada imagem rosada cresceu em minha memória quando meus olhos se fecharam, e seus olhos esmeraldinos brilharam em meu mais profundo escuro. Uma curva de sorriso esticou meus lábios quando lembrei do nervosismo com que ela me recebera.

Havia sido divertido.

O celular sobre a cômoda do quarto tocou, e eu levantei-me da cama para atendê-lo. Itachi, meu irmão mais velho, o exemplo que eu deveria seguir.

— Oi. — atendi secamente, caminhando até a janela do quarto.

Vestia apenas as calças jeans escuras, o que lentamente me deixou gelado.

— Como está, Sasuke? — perguntou ele, cordial e frio como sempre.

— Não tão bem como queria.

— Está precisando de alguma coisa? — sondou Itachi, parecendo preocupado.

— Não, estou me virando. E as coisas por aí? — minha voz não mostrava nada.

— Na normalidade. — uma pausa. — Encontrou o Professor Sarutobi?

— Sim, tenho minha primeira aula em quarenta minutos.

— Ótimo. Isso será bom para você. — de novo aquele discurso.

— Para a empresa, você quer dizer. — corrigi com amargura.

— Para todos nós. — acrescentou Itachi, e eu pude escutar seu suspiro cansado. — Sasuke, eu não preciso lhe falar tudo outra vez, você entende perfeitamente que a empresa é de nossa responsabilidade, que nosso pai a confiou à nós dois. É nossa família, e você não pode simplesmente ignorar.

— Eu sei, eu sei. — cortei ríspido. — Porque eu sou um Uchiha.

— Será apenas durante o inverno. — prometeu ele, como se aquilo ajudasse.

— Você não precisa falar o que eu já sei.

— Não quero lhe atrasar. Se precisar de algo, ligue.

— Até mais. — e desliguei.

Era incrível como não bastava eu ter vinte anos, e não bastaria se eu tivesse trinta. Itachi sempre estava ali, dizendo-me o que fazer, por onde seguir. Eu simplesmente estava naquela cidade porque ele havia me mandado até ali, indicando-me o melhor professor de ciências financeiras de Tókio para aulas particulares. Eu estava ali porque Itachi queria que eu me aprimorasse para o bem de nossa empresa, porque aqueles eram os planos dele. Como se eu fosse uma criança, ele fazia as minhas escolhas.

Porque eu era um Uchiha, e aquele era o meu destino.

Ao vestir a camisa, o celular tocou novamente. Um número desconhecido piscando no visor.

— Alô. — atendi com o celular preso entre a orelha e o ombro enquanto abotoava a camisa branca.

— Sasuke? — chamou ela, e eu soube imediatamente de quem era aquela voz.

— Haruno Sakura. — sorri, e ela ficou em silêncio por alguns segundos.

— Espero não estar atrapalhando, mas você disse que eu poderia ligar. — começou ela, meio atrapalhada, meio nervosa.

Eu sorri em silêncio.

— Não se preocupe.

— Bom, estou ligando para avisar que a casa está livre. Você pode me encontrar mais tarde para assinar o contrato e pegar as chaves? — sondou ela, receosa.

— Claro. Onde posso achar você? — perguntei enquanto procurava papel e caneta.

Era como se eu não pudesse ter certeza de nada naquele momento, tudo parecia tenro e instável demais, exceto pela sensação de que algo mudaria drasticamente.

Haruno Sakura, era agradável pensar no nome dela, porque a cada vez que eu lembrava daquele rosto, um sorriso nascia no meu.


Sakura's POV

Dois fios de ouro pendendo entre meus dedos, hipnotizando-me: as chaves da casa. Era por aquele — feliz, e estranho — motivo que eu havia penteado mais de dez vezes os cabelos, vestido minha melhor roupa que supostamente deveria ser a de ficar em casa, e incansavelmente trilhado uma rota circular no centro da sala de Ino.

Olhei pela enésima vez para o relógio no alto da parede, fuzilando-o com meu olhar mais assassino.

Voltei para a janela lateral, espiando para fora na esperança de ver um vulto sombrio e elegantemente pálido passando pela calçada da frente. Nada. Tudo aquilo pelo homem que iria alugar minha casa por alguns meses, e eu sentia-me como se estivesse aguardando a chegada de um rei.

Naquela história, imaginei que eu não passaria da plebéia iludida.

A campainha tocou, e meu corpo inteiro tremeu sob aquele som. Rapidamente, olhei ao redor verificando se estava tudo em perfeita ordem, para só então caminhar o mais calma possível até a porta. Pelo "olho mágico", eu pude ver a imagem lindamente distorcida dele, e seu rosto pálido parecia cintilar sutilmente com a claridade. Novamente, minha estrutura ameaçou desmoronar.

— Oi. — sorri tão natural quanto pude ao abrir a porta.

— Acho que estou um pouco atrasado. — sorriu ele, muito discreto, muito polido.

— Sem problemas. — assenti, cedendo-lhe passagem.

Era claro que não havia problemas. Como poderia haver algum quando se tratava dele, justamente dele?

Fechei a porta e silenciosamente o observei caminhar até o centro da sala e parar, de costas para mim. Pousei meus olhos sobre os ombros largos dele por baixo do blazer negro, descendo lentamente pelas costas rígidas, pelos braços impecáveis, até perceber o que estava fazendo e tornar à realidade.

— É a casa de uma amiga minha. — comentei só para quebrar o silêncio.

Ele virou-se para mim, fitando-me como se esperasse uma palavra mais. As que poderiam sair de minha boca sumiram naquele exato momento.

— Ficará por aqui então? — indagou ele, escondendo as mãos nos bolsos da calça.

— Segundo meus planos, sim. — sorri, apontando para o sofá, onde ele se sentou.

— Sinto por fazê-la passar por uma mudança tão repentina.

— Não se preocupe. — assenti, e continuei antes que o silêncio se tornasse incômodo: — Quer beber algo?

— Não quero dar trabalho. — disse ele, arqueando levemente as sobrancelhas.

— Não vai. — afirmei com um sorriso. — Preparo um café em um minuto. Por favor, fique à vontade. — e tratei de refugiar-me na cozinha de Ino.

Imaginei o quão estúpida eu fora ao pedir que ele ficasse à vontade em uma casa que nem ao menos era minha, embora minha leal conselheira houvesse dito que eu era praticamente "de casa". Ela ainda demoraria um pouco para sair da loja, então decidi que não haveria problemas em um café.

— Pronto. — anunciei ao voltar à pequena sala, entregando uma xícara de café à Sasuke, que agradeceu com um simples gesto de cabeça.

Acomodei-me na poltrona preferida de Ino, bebericando o café.

— Sua amiga não está? — perguntou ele, fitando-me inexpressivo.

— Não, ela só chega mais tarde. Está trabalhando.

— E você? — Sasuke lançou-me seu olhar investigativo.

— É meu dia de folga. — dei de ombros.

— Trabalha aqui perto? — e o interrogatório parecia ter começado.

— Sim, à cinco quadras desta rua. É um loja de departamentos em frente ao shopping, se você conhece. — comentei, bebendo o café fumegante.

— Não conheço muito da cidade, mas acho que já passei por lá.

— Imaginei que estivesse há pouco tempo por aqui. — arrisquei um palpite.

— Bem pouco. — assentiu, e eu soube que não lhe arrancaria muito mais.

— Espero que goste. — "e espero que fique por muito tempo ainda".

E como nenhum de nós disse nada, o silêncio nos engoliu. Eu quase podia sentir a chegada do efeito camaleão em meu rosto, quando decidi que precisava quebrar a fina camada de gelo entre nós, e rápido.

Aqueles olhos negros me queimavam.

— Vou pegar o contrato do aluguel. — disse repentinamente.

— Acho que tenho uma caneta aqui. — avisou ele, tirando do bolso interno do blazer uma reluzente caneta prata.

Deixei minha xícara sobre a bancada da cozinha e voltei munida de contrato e chaves.

— Que chaves atraentes. — Sasuke sorriu sarcástico.

— Por serem douradas? — brinquei, balançando-as.

— Por eu ter sonhado com elas até agora. — e desta vez seu sorriso foi pra mim.

Gelei, baixando nervosamente as chaves até a mesinha de centro entre nós dois. Tentei imaginar o que ele tinha insinuado com aquilo, ou talvez não tivesse insinuado nada. Comecei a perceber que minha mente me traía com facilidade.

— Agora só falta a sua assinatura, e tudo está feito. — disse ele, entregando-me o contrato após assiná-lo.

— Elas são suas. — sorri, estendendo as chaves para ele.

Mas elas caíram sobre a mesinha de vidro quando a mão quente dele tocou a minha, e eu instintivamente puxei o braço de volta. Meu rosto ardeu ruborizado, e o camaleão atacou novamente. Pude perceber o sorriso malicioso nos lábios desbotados de Sasuke, e então seu olhar profundo. Como ele fazia aquilo?

Eu tremia como uma criança amedrontada quando ele levantou-se do sofá e fitou-me com intensidade. Aquele corpo alto erguendo-se imponente, intimidante.

— Seria ousadia demais te convidar para um jantar em sua própria casa? — ele perguntou.

— Um jantar? — repeti surpresa e ainda encolhida na poltrona.

— Um jantar de agradecimento. — acrescentou ele, focado em meu rosto.

— Eu... — "não consigo falar porque parece que seus olhos vão me devorar."

— Por favor, não me decepcione com um não. — pediu ele, doce e sombrio.

Oh Deus.

Como eu poderia negar quando ele me fazia derreter daquele jeito? Eu parecia tão pequena diante dele, tão fácil de controlar.

— Certo. — assenti, embasbacada.

— Quer que eu passe pra pegar você? — ele quis saber com um sorriso sarcástico.

— Vai me levar à minha própria casa? — ergui as sobrancelhas. Parecia estranho.

— Realmente. — ele pensou. — Então espero você às oito.

— Certo. — repeti como uma máquina estupidamente programada.

Continuei ali sentada e encolhida, sentindo-me bizarra e inútil, enquanto ele sorria com o canto dos lábios e caminhava até a porta. Pude escutar seus elegantes passos pela sala, e depois de algum silêncio, como se ele tivesse parado para me olhar, a porta se abriu e se fechou.

Eu estava perdida.


"Não, aquilo estava perdidamente errado."