Capítulo 3 - Second Chances
O homem saiu tão enfurecido daquele hospital, que nem notou que sua perna latejava de dor na medida em que ele jogava o peso de seu corpo sobre ela. Não tinha tempo pra pensar nisso, na verdade, ele nem mesmo a sentia, pois o ódio em seu peito o consumia de tal forma que só existia algo em seus pensamentos: possuir Belle novamente.
Entrou em seu carro, jogando sua bengala no banco do passageiro e saiu rapidamente dali. Ignorou todas as buzinas dos carros que ele cortara e todas as pessoas que ele quase atropelara, só queria chegar em casa, só queria botar seu plano em prática. Só não sabia bem como faria isso. Não foi muito longe, foi obrigado a parar, havia entrado sem querer na rua do acidente, que estava completamente interditada.
Botou a cabeça para fora da janela do carro, se amaldiçoando por ter esquecido esse pequeno detalhe, e então desceu do carro, só havia uma via livre e pelo jeito iria demorar mais do que ele gostaria para ser liberada. Andou até a faixa de proteção que impedia as pessoas de se aproximar e ficou a observar os anões trabalhando na reconstrução da rua, até que algo o chamou atenção.
A cratera que havia sido formada na rua estava completamente vazia, havia apenas um buraco enorme e mais nada. Ele não sabia muito sobre meteoros, mas isso o chamou atenção, imaginou que deveria haver algo ali, uma pedra gigante ou algo do tipo. Chamou um dos anões que parou o que estava fazendo e se aproximou dele.
"Onde está a pedra?" – Perguntou Rumple.
"Pedra?" – O anão parecia confuso, mas depois de poucos segundos ele entendeu a pergunta. - "Não havia nenhuma pedra, acredita? O senhor não é o primeiro a questionar isso. Mas vou repetir o que eu já disse a Prefeita: Não havia nenhuma pedra, na verdade nunca houve. Os primeiros moradores que chegaram aqui disseram que havia uma bola de fogo no local, mas só isso, quando ela se apagou não havia mais nada."
"E o que você acha que causou esse estrago todo?" – Questionou irritado. – "Um nada?!"
"Não mesmo!" – Respondeu o anão. – "Algo caiu aqui, não um meteoro, como estão dizendo. Mas..." – O anão parou um instante, olhou ao redor e se aproximou mais de Rumple, fazendo com que o Senhor das Trevas se aproximasse mais também.
"Mas o que?" – Perguntou Rumple impaciente. – "O que caiu aqui?"
"Uma estrela!"
"Uma estrela?"
"É! Quer dizer, uma estrela cadente cruzou nosso céu ontem, muita gente pôde vê-la. Pode ser que ela tenha se perdido e caído em Storybrooke. É claro que é só uma teoria, mas acontece, sabe? Acontecia muito na Floresta Encantada. Eu nunca vi uma estrela antes, mas é o que dizem nas historias, não é mesmo?
"É... É o que dizem nas historias."
"Bem, eu tenho que voltar ao meu trabalho." – Disse o anão bocejando. – "Tenha um ótimo dia!"
"Ah, eu terei sim um ótimo dia." – Respondeu Rumple enquanto olhava para a cratera, agradecendo aos céus por ter dado uma solução ao seu problema.
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Entrou rapidamente no porão de sua casa, vasculhando os livros da pequena biblioteca que possuía. Não tinha muitos livros ali, de modo que não foi difícil achar o que procurava. Era um antigo livro de magia, roubado de uma velha bruxa há muitos anos atrás, as folhas já se encontravam desgastadas e amareladas. Porém a costura era forte e a capa de couro dava mais firmeza às páginas, levou o livro consigo para fora dali.
Estava tão cansado, o corpo ainda tenso devido ao ataque de ódio que havia passado algumas horas atrás, ainda não havia dormido desde então e nem queria. Estava muito focado no que iria fazer.
Ainda com o livro embaixo do braço, Rumple entrou em seu carro e dirigiu-se até sua loja, já havia passado da hora do almoço e todas as lojas que não haviam sido atingidas pelo meteoro estavam abertas. Mas ele não ligava para isso, não estava indo na loja atrás de clientes, mas sim para procurar algumas poções. Abriu a loja e entrou em seguida, certificando-se antes de conferir se a placa de 'Fechado' ainda estava fixada na porta.
Dirigiu-se até o balcão, mas parou antes, assim que passou pela xícara lascada, olhou fixamente para ela e toda a memória da noite passada voltou à tona em sua mente. E novamente o ataque de raiva. Ele não conseguiu se controlar, não como havia se controlado antes no hospital, pois ali em sua loja ele podia colocar todo o ódio para fora. E foi o que ele fez, se apoiou em sua perna ruim, e colocando o livro que ainda carregava consigo em uma prateleira qualquer, ele simplesmente saiu destruindo toda a loja com a sua bengala.
E a cada objeto quebrado, e a cada golpe dado ás cegas com a sua bengala, ele se lembrava das palavras que Belle disse a ele sobre Ruby. E como ele sentiu ódio de Ruby e do mundo inteiro naquele momento. Como ele sentia vontade de destruir todos da cidade, pois ele não podia aceitar que Belle não fosse sua. Ou pior, que não quisesse ser sua. E ainda pior que isso, que o coração de Belle já pertencesse à outra.
E quanto mais ele pensava nisso, mais ele dava golpes em todas as prateleiras, objetos e vidros que encontrava pela frente, enquanto urrava de ódio. Parou apenas quando restou apenas a xícara lascada, olhou para ela fixamente, sentindo enfim a dor na perna ruim, devido a todo esforço que havia colocado nela.
Pegou então a xícara, deixando que sua bengala caísse no chão. Ele estava exausto, tomado por uma fúria nunca antes vista, seu peito se encheu de ar, tentou se recompor aos poucos, seus olhos haviam se tornado de um vermelho intenso e suas mãos tremiam de raiva, pensou que deixaria a xícara cair, mas a segurou com toda a firmeza que pôde. Olhou para ela por alguns instantes, observando cada detalhe dela e então prometeu a si mesmo que teria Belle de volta. Ela seria novamente dele, nem que isso custasse à vida de alguém, portanto que essa vida não fosse à dele.
Uma vez recuperado e com o fôlego retomado, ele colocou novamente a xícara em sua redoma de vidro. Passou a mão que não mais tremia pelos cabelos suados e pegou novamente o livro, pegando antes sua bengala no chão.
Seguiu então para o balcão do caixa, abriu o livro ali mesmo ignorando o fato de sua perna e seu corpo suplicarem por descanso e começou a folheá-lo. Procurava por algo, que nem tinha a certeza de que existia, ou pior, de que funcionaria. Parou em uma página, conferiu as poções que estavam ali anotadas e dirigiu-se ao fundo loja, foi até a prateleira onde guardava as poções e em seguida esmurrou a mesa de madeira a sua frente.
Não tinha todas as poções que precisava e fazê-las requeria algumas horas. E ele tinha pressa. O mal sempre tem pressa.
Então ignorou o fato de não possuir as poções e se conformou com o fato de que teria que fazê-las, se quisesse botar o feitiço em prática. Então pegou tudo que precisava e foi prepará-las. Talvez essas horas de concentração fossem tudo que ele precisava, talvez quando tudo estivesse finalizado, ele não mais sentiria todo o ódio que tinha antes. Nessa parte ele sabia que estava certo, pois se tudo desse certo, ele teria Belle de volta.
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A noite já havia caído quando ela entrou naquela loja, andou com cuidado desviando dos vidros no chão. Dirigiu-se até o caixa, enquanto se perguntava o que diabos havia acontecido ali. Embora ela pudesse suspeitar o motivo. Olhou para o livro que estava no balcão, virando-o para si, encarando a página aberta e passando o dedo por entre as palavras ali escritas.
Tudo havia sido escrito á mão, o que dava uma certa magia a mais para aquele feitiço, leu o título e voltou a ler o que estava escrito na página, dando um pequeno riso assim que terminou. Sabia muito bem quais eram as intenções de Rumple e sabia que ele falharia miseravelmente em sua busca.
Ele não tinha o que era necessário para que o feitiço desse certo. "Bem, nem eu tenho.", ela pensou, virando novamente o livro pra sua posição original, assim que ouviu um barulho vindo da porta que levava ao cômodo dos fundos. Era Rumple, ele carregava consigo uma pequena maleta, andava com dificuldade, pois não estava com a sua bengala e parecia exausto.
"O que faz aqui?" – Perguntou ele, depositando a pequena maleta no chão, olhou para o livro e depois para Regina, que o encarava com certo interesse. Ele fechou o livro logo em seguida e o guardou na maleta.
"Vim lhe pedir um favor." – Respondeu ela. – "Mas parece que quem precisa de um favor é você." – Continuou, se referindo à bagunça da loja. – "Na verdade antes quero lhe contar algo que me acaba de acontecer."
"E o que foi?" – Perguntou ele, não parecendo nada interessado na conversa.
"Acabei de voltar do hospital-"
"Aconteceu algo com Belle?" Ela está bem?"
"Não, Rumple. Não aconteceu nada com a sua adorável Belle, ela está ótima. Muito preocupada com o estado de saúde de Ruby, mas ainda assim está bem."
"Ótimo. Então o que te traz aqui? E por que sinto que o que você está prestes a dizer não vai me agradar ou me interessar de alguma forma?"
Regina apenas revirou os olhos antes de responder: - "Bem, eu acabo de voltar do hospital, como eu disse. E eu tentei curar Ruby. Acontece que não funcionou."
"Não funcionou?" – Perguntou ele, arqueando a sobrancelha mostrando um real interesse agora. – "Conte-me mais. Está perdendo seus poderes?"
"Não." – Respondeu ela. - "Não é isso. Há algo naquela garota. Algo que impediu que magia fosse usada nela. Algo que repele a magia nela, ou sei lá, a protege."
"Entendo. Mas permita-me perguntar: por que você queria curá-la?"
"Bem, ela é muito amiga de Henry. Ele me pediu aos prantos para que fizesse isso. E como eu não tenho nada contra aquela loba e eu jamais poderia negar um pedido dele..." – E dizendo isso ela se virou para a porta de saída da loja e pelo vidro da janela era possível ver o carro dela estacionado e dentro dele Henry sendo consolado por Emma.
"Você está amolecendo seu coração." – Disse Rumple com um tom um pouco provocador na voz. Regina ignorou tal comentário.
"Você não pode então?" – Ela voltou a falar. – "Não pode tentar despertá-la? Porque se até você não conseguir, então eu estou realmente certa. Existe algo naquela garota que está repelindo mágica."
"Não acho que eu deva fazer isso"- Respondeu ele. - "E se puder me dar licença, já está tarde e eu tenho coisas a fazer." – Disse ele pegando novamente a maleta e caminhando em direção à saída, fazendo um gesto com a mão para que Regina saísse.
"Eu sei o que você pretende fazer, Rumple." – Continuou Regina. – "Mas desculpa quebrar suas expectativas-"
"Ah, sabe?" – cortou ele, começando a ficar realmente irritado.
"Sei sim. Você vai caçar a estrela. A que caiu ontem à noite." – Disse ela e esperou a reação dele. Que não foi a que ela esperava. Ele apenas arqueou as sobrancelhas e então ela continuou: - "Você vai caçá-la, ai então eu te pergunto: O que vai fazer em seguida? Porque eu espero que você saiba que poucos conseguiram pegar uma estrela usando esse feitiço e os que conseguiram ganharam nada com isso. Muito pelo contrário, apenas perderam tempo."
"Não sou nenhum desses fracassados." – Foi o que ele respondeu.
"Me desculpe, mas você é sim. Ninguém pode possuir uma estrela, não para os propósitos que você quer, pelo menos. Quer dizer, você pode até conseguir captura-la, mas como fará o pedido? Só uma pessoa de coração puro pode fazer isso. E permita-me dizer, nem um coração você possui, quanto mais um puro."
A resposta de Rumple foi uma risada, cheia de segundas intenções e parecia que duraria uma eternidade.
"Certo." – Falou, dando uma pequena pausa e outra breve risada. – "E veja só quem está me dizendo isso... A pessoa de coração mais dominado pela escuridão dessa cidade. A última coisa que você pode me dar é conselhos desse tipo, Regina. E, por favor, você já tomou muito do meu tempo." – Disse isso alterando um pouco a voz, deixando bem óbvia sua irritação, não que Regina se incomodasse com isso. Ele estendeu novamente o braço, mostrando para ela a saída, ela deu uma pequena risada e se preparou para sair, se virando antes para Rumple.
"Essa estrela não lhe dará o que você quer, Rumple. Não vim aqui para te provocar de alguma forma. Vim pra te oferecer uma chance de acertar as coisas com Belle."
Rumple não reagiu de nenhuma forma agora, apenas esperou que ela continuasse.
"Ela estava lá quando eu tentei trazer Ruby de volta." – Continuou ela. – "E eu vi a forma que ela olhava para Ruby. Não era nem de perto o tipo de olhar que uma amiga dá a outra. Vi algo ali que vi poucas vezes na vida. É claro que não sou uma expert no assunto, mas ainda assim consigo reconhecer amor verdadeiro quando vejo um." – Ela deu uma pequena pausa, viu o rosto de Rumple se contorcer um pouco e soube então que havia tocado em um assunto delicado. De modo que voltou onde estava, ficando próxima a ele novamente. Estava claro que ela queria algo dele, ele só não sabia ao certo o que era. - "É claro que o dela ainda está só começando, então ainda dá tempo de você intervir."
"Intervir?" – Perguntou ele.
"Bem, não é isso que você quer? Belle de volta? Acredite, o único jeito de conseguir isso é fazendo um acordo com ela. Ela jamais voltará pra você por conta própria. Ela já te esqueceu há algum tempo, Rumple."
"Por que está fazendo isso? Quer dizer, o que você ganha com isso? Tenho certeza que a última coisa que você quer é me ver feliz. Então me diga logo quais são suas verdadeiras intenções."
Ela olhou novamente para a porta e então Rumple entendeu do que se tratava.
"Henry." – Disse ele. – "Você quer seu filho de volta." - Soltou uma pequena risada, quando notou que o rosto de Regina agora tomava um aspecto preocupado.
"Sim."- Respondeu ela, embora já não precisasse dizer mais nada, ela já havia deixado muito claro. - "Ele me suplicou que a trouxesse de volta. E como eu disse antes, eu não fui capaz. Mas se eu conseguir, eu o terei de volta. É minha chance de mostrar a ele que eu mudei, e é por isso que eu estou aqui no meio da noite me humilhando pra você."- Concluiu, deixando seu tom de voz se sobressair mais do que realmente gostaria.
Mas era sua última chance e talvez única. Ela não sabia mais o que fazer para recuperar Henry e a cada dia longe dele, ela sentia cada vez mais seu coração se tornando mais sombrio, diminuindo dentro de seu peito. Talvez Henry não fizesse ideia do quanto ele significa para Regina, do quanto ela o amava e do que ela era capaz de fazer para fazê-lo feliz.
Tudo que ele conseguia ver era a Rainha Má que uma vez ela foi, mas não nessa terra, nessa terra ela não passava de uma mãe solteira que era capaz de tudo para fazer seu filho feliz. Tinha sido assim durante 11 anos, até que Emma chegou. Ela trouxe consigo esperança para toda a cidade de Storybrooke, foi capaz de quebrar a maldição, levou Henry dela e fez algo pior que isso: tocou em algo dentro dela que há muito tempo não era tocado.
E toda vez que Regina pensava nisso, ela sentia-se cada vez mais confusa. Não sabia descrever o que sentia em relação à Emma, e para ela isso não passava de ódio. Mas a verdade era que ela não sabia se era realmente isso. De qualquer forma, ela tentava não pensar em Emma, mas Henry tornava isso quase impossível.
Era inevitável não se afastar de Henry e inevitável não ficar longe de Emma, como consequência. Mas as coisas não estavam indo muito bem com Henry e em parte a culpa era de Emma. Regina não conseguia lidar com o que sentia por Emma, de modo que então a afastava de si e isso afastava Henry dela.
Cada confronto dela com Emma, apenas fazia com que Henry tivesse a certeza de que Regina ainda era a Rainha Má. Mas confrontar Emma era o único modo que Regina conhecia de lidar com esse falso 'ódio'. Então ela nem percebeu quando tinha ido longe demais, fazendo com que Henry se afastasse dela de tal modo que era difícil para ele querer ficar mais de 5 minutos com a mãe.
Ela então permitiu que ele se afastasse, deu um tempo a ele, já que todas as tentativas de aproximação dela apenas piorava a relação dos dois. Ela já estava quase perdendo as esperanças de recuperar o amor e a confiança de Henry, quando então aconteceu o acidente de Ruby. E ela viu nessa tragédia a chance perfeita de tentar remediar tudo de ruim que havia feito.
Quando ela chegou ao hospital àquela tarde, Henry estava sentado no banco da sala de espera, as bochechas e os olhos vermelhos de tanto chorar. Quando ele a viu, correu até ela e não disse nada, apenas a abraçou bem forte, chorando em seu ombro as lágrimas que ainda restavam.
"Podia ser qualquer um, sabia? Podia ser você!" – Disse ele, e então chorou mais ainda. - "Eu como eu ficaria sem você, mãe?" - E dessa vez quem chorou foi Regina, porque ela percebeu então que não havia perdido o amor dele.
"Calma, querido. Eu estou aqui. E Ruby vai se recuperar." – Disse Regina, enxugando as lágrimas dele com o polegar. – "E se fosse você ali, eu evocaria toda a força desse mundo e te traria de volta." – Continuou ela, Henry a abraçou novamente e ficou nesse abraço por alguns segundos.
Havia sido muito difícil ver o estado de Ruby, ela estava em coma induzido, mas não parecia nada bem. Disseram a ele que ela iria se recuperar bem, que a coisa de loba que ela tinha faria com que ela se recuperasse rápido e que em breve ela estaria de volta, servindo o chocolate quente com canela que ele tanto adorava.
Mas isso foi o que disseram assim que ele a viu entrando no hospital e quando algumas horas se passaram, as noticias já não eram mais assim tão boas e Henry aos poucos sentia que sua melhor amiga agora estava indo embora. E tudo que ele podia fazer, era chorar em um banco numa sala de espera.
Ele estava quase perdendo a fé quando então sua mãe Regina apareceu e lhe disse aquelas coisas. Se ela podia fazer com que ele se recuperasse, então talvez ela pudesse fazer com que Ruby voltasse. Então ele pediu a ela, suplicou na verdade, enquanto mais lágrimas desciam de seu rosto.
"Posso tentar." – Disse ela logo em seguida, tentando acalmar o filho que parecia que não pararia de chorar nem tão cedo. E então ela tentou e ficou muito frustrada quando não conseguiu. Não mais frustrada que Henry que havia depositado todas as suas esperanças na mãe.
Ela então se ajoelhou perto dele, tentando fazer com que ele não voltasse a chorar – "Posso conversar com Gold. A magia dele é mais forte, ou talvez ele conheça alguma poção, não sei." - Disse ela, Henry se acalmou, e então eles foram juntos a loja do Gold encontrando com Emma na saída do quarto de Ruby, que pediu para ir junto com eles. Regina concordou, embora tenha passado o caminho inteiro tentando evita-la. Era difícil ficar próximo a ela e mais difícil ainda ignora-la. E inúmeras foram as vezes que Regina se pegou olhando pra Emma enquanto dirigia para loja de Gold e ela podia jurar que Emma fazia o mesmo.
"Mesmo que Belle volte a morar comigo, ela jamais vai voltar a me amar de uma hora pra outra. Agora com a estrela, eu tenho a garantia de que eu vou ter o que quero."
Regina parecia confusa quando ele disse isso e um pouco frustrada.
"Veja bem, querida. Estrelas não são regidas pela lei da magia. Elas fazem o que querem e uma vez capturada, eu posso simplesmente pedir que Belle se apaixone por mim novamente." – Continuou ele e sua voz se encheu de orgulho quando ele concluiu.
"Mas acho que você se esqueceu, que apenas uma pessoa de coração puro pode fazer um pedido a uma estrela." – Repetiu Regina o que já havia dito antes, trazendo Rumple de volta a realidade. – "Veja só, cure Ruby, vá atrás da estrela e eu lhe garanto que você terá seu pedido realizado."
Rumple pensou a respeito, não sabia se Regina de fato poderia cumprir com o que estava dizendo, porém o tom de voz dela não era de brincadeira.
"E como vai fazer isso?"
"Simples. Conheço alguém com um coração puro e tenho certeza que com um pouquinho de enrolação ele fará o pedido para a sua estrela." – E dizendo isso se virou para ir embora, se virando antes para dizer: – "Me ligue, assim que tiver a estrela, e se apresse, o estado de Ruby não é nada bom." – Fechou a porta atrás de si e Rumple ficou a observar enquanto o carro dela desaparecia pela sua janela. Agora sozinho, ele sentia as dores do cansaço que a privação de sono lhe causara.
Mas não iria dormir, pelo menos não agora. Não conseguia parar de pensar no plano de Regina, pois ela estava certa. Ele não havia pensado em todos os 'porém' de possuir uma estrela. A única coisa que ele sabia sobre estrelas era que: fora do céu elas duravam apenas algumas centenas de anos, antes de virar pó. E pó de estrela era algo mais poderoso que pó de fada.
E qualquer um podia usá-lo, porém ele não podia se dar ao luxo de esperar centenas de anos pra isso. Belle não viveria tanto tempo. E pensando nisso, ele percebeu que ele sim viveria. Ele viveria uma eternidade e como ele ficaria depois que Belle fosse embora? Ele seria capaz de desistir de todo o seu poder e viver como um mero mortal ao lado dela?
Ele não sabia responder a essa pergunta, quer dizer, na verdade ele não queria respondê-la em voz alta, mas a verdade era que ele não desistiria, não conseguiria. A magia tomava conta de seu corpo, alma e pensamentos como uma doença sem cura. E ele não era capaz de abrir mão disso por ela. Talvez ele não a amasse de fato, ou talvez esse amor não fosse o suficiente.
E então o que séria?
Pegou a maleta e voltou para pegar sua bengala, antes de se dirigir ao seu carro, olhou para céu negro. Para as estrelas do céu brilhando para ele, e se perguntou se elas sabiam de seu plano, mas logo esqueceu tal pensamento.
Entrou no carro e abriu a maleta, certificou-se de que tinha todas as poções que precisava e tirou um vidrinho dali. Olhou para o vidrinho em suas mãos, com um líquido de cor violeta e o guardou de volta. Era uma poção de cura, a mais poderosa delas, capaz até de curar a ferida mais profunda. Capaz até de curar sua perna, mas isso ele optava por não curar.
Pois mancar diariamente lhe fazia lembrar o porquê ele estava ali, o porquê havia feito Regina lançar a maldição, havia feito isso por Bae, por seu filho e a dor da perna era um lembrete constante disso. Então ele preferia viver com a dor, a simplesmente esquecer-se de Bae e esquecer-se dele era permitir que tudo o que restava da sua humanidade morresse. E ainda existia dentro dele algo que lutava diariamente por essa humanidade.
Porém ele não conseguia se prender a isso.
Seguiu em direção ao hospital, chegou à sala de espera próximo ao quarto de Ruby, que já não havia mais ninguém e entrou no quarto. A luz estava fraca, mas ele pôde ver claramente que vovó dormia em sofá e Belle em outro. Ele olhou para Belle, para sua aparência tão cansada e mesmo dormindo era possível ver sua expressão de preocupação.
E desejou que ela não tivesse que ter passado por isso, desejou que toda aquela preocupação e todo aquele amor fossem direcionados a ele. Resolveu não acorda-la, andou até a cama de Ruby, e a imagem dela era assustadora, quase irreconhecível e uma vez ela foi linda, ele pensou, não podia negar a beleza da garota.
Agora tudo o que ele conseguia ver era o roxo dos hematomas por toda a extensão do seu rosto e corpo, os olhos inchados que provavelmente ela não conseguiria abrir nem tão cedo, um cano que entravam pela sua boca permitindo que ela respirasse, o braço e a perna quebrados. Ela estava irreconhecível.
Ele precisava confirmar se o que Regina havia dito era verdade, e então ele tirou o vidrinho de conteúdo violeta do bolso. Com o dosador, ele pegou uma pequena gota do conteúdo e despejou no rosto da garota, esperando logo em seguida. Nada aconteceu, quando a gota entrou em contato com o rosto da morena, ele apenas fez o local onde a gota havia caído brilhar por um segundo e escorrer pelo rosto da garota. Porém não curou nenhuma ferida sequer. A garota permaneceu do jeito que estava antes.
Ele não conseguia acreditar no que havia acabado de ver, era impossível, a mais forte das poções não fora capaz de curá-la. Desesperado então, ele resolveu injetar todo o conteúdo do frasco no acesso venoso da garota. Procurou por uma agulha, encontrando por uma em um dos armários. Tirou o conteúdo do vidro e injetou na garota, vendo o liquido violeta entrar pelo manguito. E então esperou, talvez assim funcionasse. Não funcionou.
Rumple se aproximou novamente dela, se perguntando o que teria dado errado, talvez não devesse ter dado de forma injetável, não soube o que fazer. Franziu o cenho, colocou a bengala encostada na cama e fechou os olhos, colocando suas duas mãos sobre Ruby, se concentrou ao máximo que pôde no que estava fazendo.
Sentiu seu poder ser emanado de suas mãos, sentiu todo seu corpo sendo consumido por isso e então abriu os olhos, passando sua mão por toda a extensão do corpo de Ruby, viu quando o corpo dela foi tomada por uma luz branca que durou apenas alguns segundos até desaparecer por completo, Rumple então abaixou as mãos e pôde confirmar então o quanto Regina estava certa.
Havia algo em Ruby, que impedia a magia de agir sobre ela. Ele nunca esteve tão confuso nunca tinha visto ninguém sendo capaz de não ser atingindo por magia, principalmente alguém que nem era mágico. Pegou sua bengala e se afastou novamente dela, não seria capaz de curá-la. Não sabia mais o que fazer. Quando chegou a porta, ouviu uma voz conhecida chamar pelo seu nome, era Belle.
"O que faz aqui?" – Perguntou ela num sussurro, levantando-se e indo na direção dele.
"Fiquei sabendo que Ruby não estava melhorando e vim ver se você estava precisando de algo." – Respondeu ele, tentando parecer o mais sincero possível. Belle sorriu para ele sentindo-se verdadeiramente agradecida pela preocupação dele.
Ela olhou para Ruby e então respondeu: - "Infelizmente é bem complicada a situação dela." – Disse ela, secando uma pequena lágrima do rosto e continuou: - "Eles disseram que não podem dar nenhum prognóstico ainda, que vamos ter que esperar."
Rumple queria ter dito algo, mas não sabia como e o que dizer, ela nunca pareceu tão quebrada.
"Regina esteve aqui." – Continuou ela. – "Mas não foi capaz de fazer nada por ela. E com você aqui agora, eu me pergunto se você não pode fazer algo..."
"Eu não sei, Belle. Não sei se minha magia é capaz de cura-la."
"Não pode ao menos tentar?"
"Não quero ser o responsável pela sua frustação, Belle." – E dizendo isso, ele se preparou para ir embora, sendo impedido por Belle que ficou entre ele a porta.
"Por favor."- Disse ela. – "Sei que você me amou uma vez, então talvez eu ainda signifique algo pra você, caso contrario você não teria vindo aqui saber como eu estava." – Concluiu ela, tentando ser forte o bastante e não desabar em lágrimas.
"Eu não te amei, Belle. Eu ainda te amo. E você sempre vai significar o mundo pra mim." – Respondeu ele e os dois ficaram em silêncio, um esperando pela resposta do outro, Belle olhou para Ruby e depois para Rumple.
"Por favor, ela também significa o mundo pra mim e eu a amo muito. Se você fizer isso por mim, se você a trouxer de volta, eu prometo abrir mão desse amor, eu prometo te dar uma segunda chance e tentar consertar o que quer tenha restado de nós dois." – E então ela se calou, já não havia mais o que ser dito.
Afastou-se da porta, deixando de ser uma barreira entre Rumple e a saída e esperou pela resposta dele. Rumple estava em conflito, não podia trazê-la de volta, já sabia disso. Ele não sabia o que responder a ela, e como ele queria poder curar Ruby e sair dali com Belle em seus braços com a promessa de ter sua segunda chance. Quer dizer, dessa vez ele iria lutar por ela com todas as suas forças. Ele não soube como responder, pensou um pouco, fazendo o possível para que ela não notasse que havia algo errado.
"Eu vou precisar buscar algumas coisas." – Respondeu ele.
"Então temos um acordo?" – Perguntou Belle, sua voz se enchendo de esperança.
"Temos sim." - Respondeu ele, enquanto pensava como ele faria para trazê-la de volta, ela o abraçou bem forte, dizendo repetidas vezes um 'obrigada', enquanto chorava em seu ombro. Ele se sentiu a pior pessoa do mundo, ou seja, sentiu-se como ele mesmo.
Quebrou o abraço e foi embora, dizendo a ela que voltaria mais tarde. Saiu do hospital, e entrou em seu carro e esmurrou inúmeras vezes o volante, enquanto xingava a si mesmo. – "Como eu farei isso?" – Gritou ele a todos pulmões. – "Como?!" – Não havia mais nenhuma poção de cura, não havia mais nada a ser feito. Ele tinha uma chance de ouro nas mãos de ter Belle de volta e via essa chance indo embora entre seus dedos.
Não sabia como diria a Belle que ele não seria capaz de cumprir com sua parte do acordo e pior: ele não conseguia parar de pensar que Ruby podia simplesmente acordar sozinha e então o acordo entre ele e Belle estaria quebrado, esmurrou mais uma vez o volante, ligou o carro e saiu dali, freando bruscamente logo em seguida, quando se deu conta de algo.
Olhou para o céu estrelado da janela do carro, tirou o celular do bolso e discou um numero, esperou que Regina atendesse e quando ouviu um 'alô' do outro lado da linha ele disse a frase que estava martelando em sua cabeça: "Se prepare, Regina. Nós vamos caçar uma estrela essa noite."
