ÀS
SUAS ORDENS
Capítulo
3: Tempo de Caça, Tempo de Caçador
PV: KEITARO
Ai, ai, ai... Como dói a minha cabeça. Não consigo identificar onde estou, já que minha visão está nublada. Tento me mover, mas sinto que é impossível me mexer... Peraí, posso estar equivocado devido à visão, mas o negócio branco em volta do corpo parece cordas... Estou amarrado! O que está... Essa não, agora eu me lembro, estava indo embora da pensão, quando aquelas doidas me capturaram...
Recupero um pouco da visão, e percebo que estou dentro de um pequeno espaço fechado. Estou deitado sobre um chão que parece metálico. Não acredito, deixaram-me todo atado no espaço de carga do Seta-móvel. O que elas vão fazer comigo? Não posso crer, elas estão se vingando de mim, só porque disse umas verdades... Pelo menos, eram palavras que estavam entaladas na garganta já havia um bom tempo. Eu estava tão sereno, tinha desabafado tudo o que me atormentava, e finalmente estava crendo que estava livre da influência daquelas... Daquelas pestes. Por que certas coisas só acontecem comigo?
Só um pouco, escuto vozes no lado de fora do Seta-móvel... Acho que são elas discutindo algo... Parece que estão definindo o meu futuro. E eu só queria um pouco de paz, mas que droga. Fico me debatendo, na tentativa de afrouxar o laço, mas este foi bem feito. Tento relaxar, agora a minha vida está nas mãos das minhas algozes. Que droga de vida...
PV: KITSUNE
Hum... Analisando melhor, não foi difícil convencer as meninas a trazer o Keitaro de volta ao Hinata-sou. Parece que todas estavam chateadas em perder uma das melhores coisas que aconteceram na nossa vida (afinal, com ele, a pensão ficou muito mais divertida, he he he!) e toparam qualquer coisa para trazê-lo. Só precisavam que alguém apertasse o gatilho, e eu adoro ver o circo pegar fogo...
Convoquei todas à entrada principal, e que estivessem devidamente paramentadas para o ato; afinal, não é sempre que fazemos uma caçada, mas quando fizemos uma, sempre procuramos dar um toque de dramaticidade – embora alguns possam dizer que levamos a sério demais. Ora, só porque estamos vestidas com aquelas antigas roupas inglesas de caça à raposa... O que tem demais? Pelo menos, o meu traje me caía bem e estava lindo – embora o apelido "Kitsune" sugira que eu seja a caça, neste caso a "raposa" é outra, e chama-se Keitaro... Bem, voltando ao enredo, quando estavam todas no salão, anunciei o plano.
"Camaradas, esta é uma reunião de emergência! Dou por inaugurada a temporada de caça do Keitaro!", eu disse em tom de comando.
"Legal, vamos trazer o Keitaro de volta!", exclamou Kaolla.
"Mas, Kitsune-san, você tem algum plano em mente?", perguntou Shinobu.
"Claro que sim! Basta pegarmos o Seta-móvel e fazermos a manobra de captura!", afirmei, com um grande sorriso.
"Não sei porque estamos perdendo tempo com aquele inútil...", reclamou Naru, cabisbaixa. Pode ser impressão minha, mas a reação de Naru tem um pouco de desilusão...
"Concordo com a Naru-senpai! Se ele quer ir embora, que vá. Não podemos obrigá-lo a ficar.", assentiu Motoko.
"Bem, pelo jeito, acho que as outras vão gostar de disputar o coração de Keitaro...", alfinetei, só para ver a reação da Naru.
"O QUÊ?", perguntaram Naru e Motoko, com os rostos parecendo pimentão. Hum, isto está mais divertido, parece que a Motoko admitiu também estar no páreo.
"A Motoko também gosta do Keitaro! Legal, vai ficar mais divertido!", gritou Kaolla, euforicamente.
"Hum, está certo! Su-chan, use o teu radar para achar o Keitaro! Haruka, assuma o volante do Seta-móvel! Espero que todas estejam equipadas para a caça!", disse em tom de ordem. Não sei como consegui convencer Haruka a dirigir aquela coisa infernal, mas o importante é que vamos ao ataque.
Observei que Naru parecia um pouco chateada, e fui tentar deixá-la empolgada. Cheguei perto dela e perguntei: "Não esconda de mim, você quer ir atrás do Keitaro...".
"Mas por que ele foi embora desse jeito? O que fizemos de errado?", perguntou Naru, com os olhos um pouco marejados.
"Não sei, mas acho que o Keitaro decidiu finalmente ter coragem e desabafar... Agora é a vez de você, conte-me o que realmente você sente pelo Keitaro", tentei conversar.
"Eu o odeio...", disse Naru, olhando ao chão.
"Então, diga-me em meus olhos", afirmei.
"O Keitaro... Bem, eu ode... eu ode... e-e-eu...", gaguejava Naru ao me encarar.
"Vamos lá, diga o que realmente você sente! Diga que o odeia bem forte na minha cara!", ralhei, com uma expressão mais séria.
"Eu não tenho que dizer nada... Ele é... Ele é um covarde... Fugindo de nós desse jeito, como se fosse um joão-ninguém...", desabafou Naru.
"Bom, nós vamos atrás dele, e daí veremos o que realmente você sente...", afirmei, afastando-me dela após terminar a sentença.
Preparamo-nos para a caçada. Kaolla deu o toque da trombeta e partimos no Seta-móvel. Imaginei que o Keitaro teria ido até a estação de metrô para ir embora. Cara, como ele é previsível... Bom, ele deve estar indo para Tóquio, não iria abandonar a Toudai. Isto é algo que me decepcionou um pouco... Ele desistiu até de nós, menos da maldita Toudai. Às vezes, realmente não entendo porque alguém se liga tanto a algo na vida, como se aquela coisa fosse praticamente o ar que se respira. Bem, ele não demorou muito a sentir nossa presença, e saiu correndo rua afora, com as malas na mão. Keitaro é tão desastrado que tentou fugir sem desovar as malas.
Por isso, não foi difícil capturá-lo. Naru se pendurou na porta e fez um laço bem forte, laçando a "raposa" para dentro do furgão. Cara, ele deu uma cabeçada tão forte na lataria que pensei que estivesse em coma... Mas logo Motoko avaliou e disse que os sinais vitais estavam presentes e daí respiramos mais aliviadas. Keitaro tem muita sorte em ser imortal.
PV: NARU
Não demoramos a voltar para o Hinata-sou. Afinal, precisávamos discutir o que fazer após o Keitaro recuperar a consciência. As meninas estavam divididas, algumas queriam torturá-lo, enquanto outras queriam pedir perdão. Sinceramente, não pendia nem para um lado, nem para o outro. Nem conseguia entender o que realmente sinto pelo Keitaro.
Droga, por que aquele moleque atrapalhado não consegue perceber quanto estou insegura? Afinal, ele até provou que é esforçado e determinado – e, quiçá, alguém muito romântico. Não é qualquer homem que tenta entrar na Toudai por quatro anos seguidos para cumprir uma promessa feita a uma garotinha há quase vinte anos atrás... O problema é que ele ACHA que sou eu, mas e se não for? Ele não consegue perceber que isto me deixa sem chão? Tenho medo que ele me troque caso descubra que não foi para mim que ele prometeu ficar junto caso entrasse na Toudai.
Às vezes, as pessoas não sabem se são realmente caça ou caçadores... Estamos sempre, de alguma forma, maltratando o Keitaro... Mas ele merece, não é verdade? Ele só sabe se comportar daquele jeito, uma mistura de maníaco sexual com um palhaço sem-graça de circo. Aquele trapalhão não sabe agir como homem, como eu gostaria que ele tivesse, algum dia, gana o suficiente para me encarar e... Bem... Chegar junto. Acho que ele riria de mim se soubesse que procuro o homem ideal para... Para... Um dia entregar-me.
Devo passar a imagem de "santa imaculada", a virginal que tem aversão a sexo. Não é isso, apenas quero ter a minha primeira vez com o cara certo. Algumas vezes pensei que o Keitaro seria o cara ideal. Sério, já pensei sim... Mas ele é tão burro, não consegue ler nas entrelinhas; eu é que não vou me entregar assim, sem mais nem menos. E, como isso se torna constante, fico em dúvida se ele é o cara ideal... Ainda mais que as meninas ficam o provocando e, como o tarado que é, tenho medo que venha a trair-me com uma delas. A última surpresa foi a Motoko, até ela tem uma certa atração pelo Keitaro?
Há algum tempo, pensei que o Seta seria o homem ideal, mas – hoje em dia – descobri que ele é tão trapalhão quanto Keitaro. E que ele ainda faz a Haruka muito triste, pois garanto que ela diria "sim" a qualquer hora que o sensei a pedisse em casamento. Mas, como levar a sério quem achou, no casamento de um colega de trabalho, que as roupas dos noivos fossem para uma competição de cosplay? Que sempre acha mais importante ficar escavando vasos velhos do que ficar ao lado de uma pessoa especial?
E sinto que Keitaro está indo pelo mesmo caminho. Sem a certeza que sou a garotinha da promessa, com uma besta tarada que prefere ficar escavando que ficar comigo, e que agora vai embora assim – fugindo de todas nós. Não acredito que sejamos tão más assim... De vez em quando, ele merece um puxão de orelhas. Um dia, ele tem que deixar de ser um idiota. Agir como homem, provar que realmente me ama e dar-me segurança de que o sentimento dele é real, não baseado em antigas promessas, em coisas que se perdem na neblina de antigas memórias.
Estes pensamentos ficam martelando em minha mente, fazendo que eu não prestasse atenção na discussão. Mutsumi se aproximou de mim e ficou sorrindo na minha frente. Não entendia por que aquela garota parecia, algumas vezes, cismar comigo.
"Por que você está tão feliz?", perguntei, meio emburrada.
"Ara, ara! O Kei-kun está de volta! Agora o Hinata-sou vai ser feliz de novo!", respondeu a garota tartaruga. Não sei de onde vem tanta felicidade. Às vezes, sinto que ela é tão ingênua quanto o Keitaro... Será que ela... Não pode ser, a Mutsumi é a garotinha da promessa? Parece que um foi feito para outro, não creio que seja impossível que foi a ela que Keitaro fez a promessa. Mas o meu Liddo-kun tinha o nome dela, agora não entendo mais nada...
"Bem, acho que agora você poderá competir pelo Keitaro, não é?", respondi de cara feia.
"Eu bem que gostaria, mas sei que o coração dele pertence à outra... Ah, como eu gostaria ter sido a sortuda garotinha da promessa... Mas a menina prometida parece ser bem teimosa...", ficou sonhando Mutsumi. Retiro o que disse, ela não é tão ingênua assim... Ela sabe como dar parafusos na cabeça dos outros.
Eu ia perguntar o que Mutsumi quis insinuar, quando as meninas perceberam um barulho na van. O Keitaro deveria estar recuperando a consciência. Nossa, ele ficou dormindo por um tempão, e deve estar com a cabeça dolorida. Era a hora de decidir o que fazer com o kanrinrin; afinal, o pedido de exoneração ainda não foi aceito. Kaolla e Kitsune retiraram o jovem gerente do furgão e levaram-no até o salão principal. Conforme disse Kitsune, lá teria início o "juízo final" de Keitaro. E eu não vou perder isso por nada neste mundo...
Capítulo escrito entre 21/10/2004 e 25/10/2004. Desculpe pela demora, mas o processo criativo é complicado... Não é difícil criar situações, mas os critérios internos fazem que nem tudo aquilo que se imagina para a obra seja traduzido em palavras, ou seja, nem sempre aquilo que crio na minha cabeça acho legal ser transformado em texto. E isso piora à medida que o processo criativo se desenrola.
Outro fator é que sou acadêmico de Medicina, e isso me toma uma boa parte do tempo e do meu intelecto. Por isso, tentarei continuar a saga, conforme novas idéias que eu considere apropriadas para serem publicadas surgirem.
Finalmente recebo um review, e agradeço ao Lexas pelo feito. Gostaria de te dizer que sempre imaginei que, algum dia, Keitaro não deveria ficar suportando tudo calado, e por isso tomaria uma providência conforme o psiquismo criado pelo autor. Obviamente, ele ficou OOC, mas creio que ficou mais real sem fugir tanto assim do jeitão dele de ser – ninguém suporta por tanto tempo ficar apanhando e nada fazer. Mas esta não é a temática principal, espero que a idéia central que me inspirou a criação desta saga logo seja possível de ser introduzida, pois ainda não surgiu uma situação adequada para a mesma. Por enquanto continua em
aberto (he he he). Continuo a esperar mais reviews. Sayonara!
