Capítulo 3

Assim que amanheceu Snape acordou, comumente ele já dormia pouco, como todo homem cheio de fantasmas e preocupações. Hermione estava adormecida ao seu lado, o uniforme de Hogwarts estava desalinhado e os cabelos estavam mais volumosos do que ele achava que fosse possível, preenchendo todo o travesseiro. Ele não quis acordá-la, era sábado, ela podia se dar ao luxo de dormir até tarde; mas Snape também tinha medo de sair e deixa-la sozinha a mercê de Draco Malfoy, que certamente estaria rodeando a sala de defesa aguardando que o professor e Hermione saíssem.

Snape então foi até a sua mesa, pegou um pedaço de pergaminho e escreveu:

Srta. Granger,

A sala ainda estará trancada quando acordar, mas agora por um feitiço meu, para que ninguém a perturbasse. A única coisa que pode abri-la é esta chave. Não se preocupe, eu tenho uma chave reserva. Se certifique apenas de me devolver depois.

Severo Snape.

Snape deixou a chave e o pergaminho em cima da cama de Hermione e foi de encontro ao Lorde das Trevas, que deveria estar furioso. Saiu pelos portões da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts sem cumprimentar ninguém, mais carrancudo do que nunca, e aparatou em frente a mansão Malfoy. A manhã de sábado exibia um céu azul cintilante e sem nuvens, não combinava nem um pouco com o local no qual ele se encontrava. Respirou fundo e entrou.

- Severo Snape – a voz ofídica de Voldemort o saudou assim que ele pisou no salão principal. – A que devo a honra? Pelo que posso perceber agora você aparece quando bem entende, e não quando é chamado pelo seu Lorde.

- Peço perdão Milorde. – Ele fez uma reverência, sabia que isto agradaria Voldemort. – Foi minha culpa, um aluno resolveu me pregar uma peça e me manteve trancado em minha sala de aula a noite toda.

- Um aluno? – Voldemort disse, descrente. – Espera mesmo que eu acredite nisso Severo. Você é um bruxo talentoso, não ficaria preso por um aluno.

- Ele utilizou um produto da loja dos Gêmeos Weasley. – Snape explicou com a voz contida. – Se trata de uma bolinha que se for jogada no chão cria um impacto capaz de produzir uma barreira tão poderosa que por uma hora nenhum bruxo pode sair ou entrar de um determinado cômodo. O aluno em questão jogou oito bolinhas.

Snape torceu para que ele não perguntasse quem era o aluno. Se o Lorde das Trevas soubesse que Draco está preocupado em pregar peças em seus professores ao invés de se dedicar a tarefa que lhe fora designada no começo do ano, as consequências não seriam nada brandas. Felizmente, Voldemort – como sempre mais voltado para si mesmo do que para os outros, buscando as vantagens que as coisas poderiam lhe trazer – falou:

- Que artefato interessante. – ele já se desviara totalmente da questão relativa a Snape. – Quem sabe nós não poderíamos adquirir algumas caixas.

- Esse produto saiu de linha. – Snape comentou. – Porque com ele se pode manter um bruxo em cativeiro.

- E justamente por isso eu o queria. – Voldemort riu sua risada gélida. – Vamos esquecer tudo isso Severo. Venha, eu tenho um serviço para você.

Snape permaneceu as próximas 3 horas na mansão Malfoy. O que Voldemort lhe ordenava era para fazer os testes em um recruta para definir se ele merecia receber a marca negra. Os testes foram feitos naquela mesma manhã, não eram uma coisa muito bonita de se ver. Severo chegou em Hogwarts cansado, sentindo todo o peso do mundo sobre si. Se arrastou em direção a sua sala de aula, pretendendo se encerrar em seus aposentos durante todo o dia. Talvez tomar uma poção para o sono sem sonhos e dormir tranquilamente durante muitas horas.

Hermione não estava mais lá, mas ela não desfizera a cama no chão. Em cima do colchão havia um bilhete.

Obrigada por me deixar dormir, eu estava realmente cansada. Espero de todo coração que você-sabe-quem não tenha sido cruel quando foi até lá esta manhã. Não se preocupe com Draco, não farei nada a ele.

Hermione

(Depois da assinatura havia uma frase em letras miúdas)

Ah, sobre o que aconteceu ontem, você só precisa lembrar daquele momento e nunca mais irá doer.

Snape franziu a testa em confusão. Parece que seus planos de dormir durante a tarde toda tinham sido interrompidos. Ele precisava de respostas, e iria procura-las com o único homem em quem confiava. Saiu de sua sala de aula, trancando a porta, e se dirigiu diretamente para a sala do diretor.

- Severo! – Dumbledore sorriu para ele quando entrou.

- Precisamos conversar sobre o que aconteceu ontem, Dumbledore.

- Severo. – o bruxo mais velho revirou os olhos. – Nada de punir Draco Malfoy. Você sabe que a vida dele já anda bastante conturbada. Por Merlin, ele é só um menino.

- Eu sei, eu sei. – Snape fez um gesto como se espantasse uma mosca. – Não quero falar sobre Draco. Eu quero falar sobre a Granger.

- Ah. – Dumbledore se limitou a dizer. – Fico feliz que queira falar sobre isto, estou curiosíssimo. Como foram as oito horas trancado com a Srta. Hermione?

- Ah, logo após o jantar, a marca negra começou a arder...

O sorriso se desfez no rosto de Dumbledore. Snape viu a preocupação do amigo aparecer. Ele sabia que o velho bruxo o amava, como a um filho.

- Ela ardeu de uma maneira que achei que seria insuportável. – Snape continuou. – Foi quando a Senhorita Granger, ela se abaixou e me pediu para olhar o meu braço. Eu me recusei, mas ela me pareceu tão certa do que fazia que cedi. Ela tomou meus braços nas mãos e ...

- E? - Dumbledore incentivou que ele continuasse.

- Ela beijou a marca várias vezes. – Ele disse constrangido. – A dor cessou quase de imediato. Não entendo o que ela fez, se murmurou algum feitiço.

- Você não pensou em perguntar a ela o que ela fez?

- Perguntei. Ela disse que ainda não era a hora.

- E então você veio até aqui me perguntar se eu compreendo a magia empregada no ato de Hermione. – Dumbledore adivinhou. – Não, eu nunca ouvi falar de nada parecido. Mas é bem claro para mim que Hermione não beijou a marca negra em uma reverência à ideologia que ela carrega...

- É óbvio. – Snape interrompeu.

- Então, ela só pode ter sido movida por sentimentos pelo homem que carrega a marca.

- Não diga besteiras, Dumbledore. – Snape se irritou. – O que ela fez foi um feitiço que aprendeu em algum lugar; fez porque é uma boa menina, faria por qualquer um, para não ver a pessoa sofrer. Você não pode cogitar que uma garota jovem e bonita como Hermione tenha sentimentos por um homem como eu.

- Talvez, se você se aproximar dela, pode compreender melhor tudo isso. – Dumbledore sugeriu.

- Não posso me aproximar dela. Você sabe qual é o meu destino próximo, não posso permitir que Hermione faça parte dele. Não posso permitir que ninguém sofra desnecessariamente.

- Nisto você tem razão, meu amigo. – Dumbledore falou tristemente. – O destino já trará a ela as suas mazelas.