Nota da Autora: "Scars From Long Ago (Tooi Hi no Kizuato)" é parte integrante do soundtrack do anime 'Suzuka'. E, apesar disto, a música que é posta ao longo do texto não é esta, e sim, "Shinjitsu no Uta", do anime Inuyasha.
Disclaimers: "Saint Seiya" não pertence à mim, porque se me pertencesse, eu certamente não estaria aqui, e sim, estaria indo receber meu Prêmio Nobel. De qualquer forma, ele pertence à Masami Kurumada, (in)felizmente, e aos devidos licenciados, onde, (in)felizmente novamente, não estou incluída.
Scars
From Long Ago
Petit
Ange
Akaku nijimu taiyou wa subete
o
(O sol manchado de carmesim)
Terashite
kita ima mo mukashi mo
(Iluminou o passado e o presente
onde)
Hatashite kono te ni oenai mono nano ka
(Eu
me pergunto se posso realizar algo com minhas mãos)
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Parte II.
Inglaterra – Outubro de 1957.
Havia um lago perto da mansão, e até uma pracinha onde crianças brincavam e as mães ficavam falando de seus filhos ou de suas vidas e problemas, rindo ou sérias. Mas aquela pracinha não tinha alguma coisa. Essa 'alguma coisa' ela encontrava no parque, um pouco distante de seu lar. Ela nunca soube explicar com precisão, só dizia que definitivamente aquele parque era seu lugar.
Pode não ter sido lá onde leu seu primeiro livro, onde andou pela primeira vez de balanço, ou até mesmo onde sujou seu rico vestido pela primeira vez. Essas coisas eram o de menos. Talvez, o que aquela praça tivesse de diferente da outra era a enorme quantidade de flores e o som da paz.
Os piqueniques realizados na pracinha perto de sua casa, à beira do lago, com queijo caro e vinhos, nada tinham de encantador. Prisioneira numa gaiola dourada, ela já experimentara diversos luxos da vida, mas pegava-se em seu eterno pensamento de 'eu gostaria de um local mais calmo'. Era um desejo simplório e idiota, como diria seu pai, mas era também inevitável.
E agora, sentada num banco do parque, bem na frente das rosas que tanto gostava, ela estava em paz. Não tinha nada em especial para fazer, nem trouxera nada além de suas roupas. Apenas queria escapar de casa e ficar ali.
Sentada daquele jeito tão delicado e típico de uma dama, ela parecia até uma mulher num quadro ou num sonho. Aquela brisa que carregava frio e calor, prenunciando a chuva em breve, parecia querer desfazer a todo custo o coque onde os fios negros de seus cabelos estavam presos. E aqueles olhos... Aqueles olhos profundos fixos em um ponto qualquer, onde ninguém podia dizer onde estavam de verdade... Eles definitivamente o atraíram desde o primeiro momento e muito mais agora, o fizeram cogitar, por um ínfimo momento, em largar a vida de escritor e dedicar-se à pintura apenas para poder, um dia, encontrar imagem com semelhante beleza.
Rhadamantys deixou-se olhá-la por um longo tempo, no qual sua fã-nada-misteriosa senhorita Heinstein não percebeu sua presença. Continuava imersa num mundo de sonhos, pensamentos só seus. Oh, por Deus... Por quê ele é tão influenciável? Agora já estava até narrando pensamentos como um escritor.
Caminhando com a tranqüilidade britânica que lhe era característica, ele aproximou-se dela, perscrutando, desta vez, detalhes que não pôde ver de longe. Só vira o brilho de jóias, mas agora conseguia distinguir um rico anel verde (esmeralda, provavelmente?) e um colar digno de sonhos. Ah... Ele não vira antes aqueles brincos discretos. Mas aquelas jóias não lhe interessavam muito, para ser sincero.
-"De novo aqui, senhorita Heinstein?"
Aquela voz despertou-a momentaneamente de seus pensamentos, e Pandora virou graciosamente a cabeça na direção dela. Ela reconhecia aquele timbre, mas não acreditava sinceramente na coincidência.
-"Rha... Senhor Wyvern?" – corrigiu-se num ínfimo segundo.
-"Oh, por favor... Pode chamar-me de Rhadamantys, não esqueci-me do que disse-lhe naquela ocasião do baile, senhorita."
Instintivamente, a garota dá lugar para ele sentar-se. O escritor ficou olhando, por um momento, para a sacola onde guardavam-se as folhas para seu chá da tarde e para o lugar livre no banco, e o sorriso de espera dela. Bem... Um chá pode esperar alguns minutinhos, ninguém ia morrer por isso.
-"Muito obrigado, senhorita. Acho que irei aceitar." – ele senta-se ao seu lado.
-"Fiquei surpresa, Rhadamantys... O que o senhor faz aqui a esta hora?"
-"Na verdade, fiquei igualmente surpreso e pensando na mesma pergunta, mas a verdade é que fui comprar folhas para meu chá. Elas acabaram de repente, e esqueci deste detalhe."
-"Mesmo? O senhor, pessoalmente...?" – Pandora pareceu até bem surpresa.
-"Para ser sincero, isto era só uma desculpa. Eu queria sair também. Estou com um novo projeto, mas... Ele parou por alguma razão, e queria ver se, saindo, conseguiria alguma inspiração." – o rapaz olhava o céu, distraído.
-"Oh... Um novo livro..." – o olhar da garota pareceu, estranhamente, mais animado agora. –"Posso confessar-lhe um segredo, senhor Rhadamantys?"
-"Sou todo ouvidos para minha estimada fã, senhorita Pandora."
A jovem via as folhas das árvores sendo carregadas, ou pelo menos as mais frágeis e efêmeras, pelo vento fresco. De repente, um silêncio sepulcral caiu sobre seus ombros. Apesar dela ter dito aquilo, hesitou por um breve instante. Haviam coisas que ela jamais contara para ninguém, e que jamais iria contar. A medida que crescia, o mundo ficava óbvio para ela, mesmo com toda a proteção que os Heinstein insistiam em dar-lhe.
A presença do escritor ao seu lado era encorajadora, e até parecia um sonho, porque ela jamais imaginou que, um dia, aquela pessoa estaria ao seu lado e ouviria seus lamentos de criança. Ainda sim, sendo lamentos, não importava de quem fosse... Lamentos sempre doíam. Ele mesmo disse isso.
-"Eu leio os seus livros porque eles me libertam..." – confessou, depois de um longo tempo buscando coragem no silêncio.
-"Como?" – realmente, a confissão dela não foi amplamente compreendida por Rhadamantys, que permaneceu com o olhar curioso.
-"Quero dizer... Antigamente, sequer sabia quem era você. O senhor era um nome estranho em minha vida. Um dia, estava escondendo-me pela casa, e entrei no corredor de minha mãe. Estava escondendo-me de minha ama e a governanta, a senhora Morgana, e acabei por entrar no quarto dela." – as mãos dela apertavam-se de nervosismo enquanto falava. –"Então... Eu vi uma pilha de livros em cima da cama. Não sei se minha mãe fazia alguma limpeza, de lembrava dos velhos tempos... Mas fiquei maravilhada. E peguei um deles. A Morgana encontrou-me depois e pôs-me de castigo (eu ainda fico, na verdade), mas continuei com o livro escondido. E o li durante o mesmo."
Estranhamente, aquele relato despertou no escritor a mesma sensação da primeira vez que a conheceu, mas sem o vento forte e a chuva. Foi apenas a sensação de um calor estranho... 'Empatia', ele a chamava.
-"Naquele livro, você havia dito que 'a dor de alguém, independentemente de que idade ele tenha, de qual seja sua posição social ou de qualquer outra coisa, sempre continua sendo uma dor. E, portanto, sempre doerá do mesmo jeito'. Sabe... Eu me senti inspirada. Aquele é meu livro de cabeceira..."
Ah, ele lembrava disto. 'Now I Can be Honest', este era o título. Um de seus primeiros livros, escrito há algum tempo, no tempo em que ele, fascinado com as portas que aquele mundo abria, quis lamentar-se usando alter-egos. O alter-ego em questão era Anne McGreen, a garota de rica família. Do jeito que ele falava, até parecia que tinha 30 anos e era um escritor de longa data, mas... Parecia fazer tantos anos mesmo.
-"Eu compreendo. Sabe, senhorita Pandora..." – respirou fundo. –"Agora, senti-me até um pouco responsável por sua felicidade..."
-"Por favor, não é isso. Eu só... Para alguém que viveu a vida em mentiras, poder sair um pouco daquele lugar, nem que seja nas páginas de um romance, é muito bom... Mas, por favor, não comente isto com ninguém, senhor Rhadamantys."
Por mais que sua senhorita Heinstein dissesse que não era para preocupar-se, aquilo definitivamente tornou-se impossível e até impensável. Ele não era exatamente um exemplo de pessoa, seus sorrisos e polidez eram, em grande parte, um teatro, fruto de um cavalheirismo impessoal. A verdade, a que ele já sabia, é que escondia-se em sua pose gentleman. E se fosse com alguma outra pessoa, de fato, ele não iria importar-se muito. Limparia algumas lágrimas, mas não envolveria-se.
No caso de Pandora, foi diferente. Ele realmente sentiu a dor. Pode não ter sido a dor dela, que sem dúvidas era mais profunda, mas ele sentiu que aquilo que ela carregava era pesado, e passou só a admirá-la ainda mais. Ombros tão delicados, mas que podiam suportar fardos tão pesados. O peso da solidão. Ele reconhecia de longe aquela atmosfera, sabia que era ela, porque ele também sentia-se muito sozinho, mesmo cercado de fama e tietes alucinadas.
-"Senhorita Pandora..."
-"Pois não?"
Os olhos dela... Rhadamantys sentiu-se engolir uma pedra, algo pesado e seco, que não desceu direito. Quando a viu pela primeira vez neste parque, aquele olhar melancólico atraiu-o de alguma forma. E agora, aquele mesmo olhar era fixado diretamente nele. É claro, a garota estava controlando-se ao máximo, mas não podia esconder completamente aquele olhar assustadoramente frágil. O escritor chegou até a sentir uma dor quando viu.
O que dizer? O que falar? Ele murmurou aquelas palavras procurando algo para confortá-la, mas nenhuma frase concreta veio. Sentia seus 20 anos diminuírem-se para oito ou até mesmo sete, e se não fosse seu auto-controle exemplar, coraria violentamente de vergonha.
-"Eu... Bem... A senhorita não gostaria de tomar um chá... Comigo?"
-"Um chá... Com você, em sua casa?"
Ah, Deus! Detalhes infelizes que ele esqueceu completamente com o caos que virou sua mente! Como ousou convidar uma dama fina e recatada para um chá daquele jeito tão... Ele era algum tipo de cafajeste? Agora iria levar um tapa na cara dela e perder a pouca confiança que conquistara. Se arrependimento matasse, Rhadamantys teria, imediatamente, caído duro no chão.
-"Ah... B-bem..." – pigarreou bravamente para conter a gagueira. –"Não pense nada estranho, senhorita Heinstein... Foi apenas um convite, mas... Irei compreender se a senhorita tiver outros planos, e..."
-"Um chá na casa do escritor Rhadamantys Wyvern? Isto é um sonho...!" – basicamente, aquilo foi um 'é claro que aceito'.
Algumas outras palavras foram trocadas depois disto, mas foram, em sua esmagadora maioria, explicações acerca aquela frase, de que ele não iria fazer nada, só um chá e quem sabe, uma conversa até as seis horas (afinal, sabia que ela sempre fugia quando chegava este horário). O escritor, pelo caminho que gostava de traçar a pé até sua modesta residência, ainda sentia-se um pouco envergonhado pelo que deu a pensar a algum tempo atrás, mas pelo contrário, a jovem de braços dados com ele, seu típico gesto gentil, só parecia sorrir de seu embaraço.
Quando chegaram, Pandora pôs-se a admirar, realmente abismada, a casa de seu famoso escritor favorito.
-"Por Deus... Então é aqui onde você mora...?"
O jardim da frente era discreto, assim como a casa por fora, sem maiores atrativos. De certa forma, podia ser confundida com uma casa qualquer daquela parte da cidade. Lógico, era um pouco mais enfeitada, mas não era nada muito berrante. A garota sentiu-se, estranhamente, familiarizada com aquele local, como se, agora, sua mansão de ricos entalhes na porta fosse a estranha.
-"Sim, para o bem ou para o mal, é aqui... Mas entre, senhorita Pandora, o lado de dentro é bem melhor."
Realmente, a casa por dentro, cumpriu a promessa feita por Rhadamantys. Pandora chegou a assustar-se com a diferença entre o lado de dentro e de fora. Até os jardins de trás da casa eram mais bonitos que o da frente, repletos de rosas vermelhas, as que ela tanto amava, e hortênsias rosadas. Os tetos eram grandes e muitíssimo bem trabalhados, assemelhando-se até àquelas casas baronesas [8 que ela via em livros. Salas de estar, de jantar, cozinhas maravilhosas, vários quartos, sendo que o principal, o que ele usava, era tipicamente masculino, porém meticulosamente arrumado.
-"Mas o melhor da casa está atrás desta porta." – ele comentou, com um orgulho que não conseguia ocultar.
-"O que é?"
-"Abra, senhorita Pandora." – com uma mesura, ele cedeu-lhe espaço.
Hesitante sobre o que encontraria, a alemã toca na maçaneta com cuidado, como se temesse, de alguma forma, quebrá-la, e assim abre a porta. Quando pôde, enfim, ver todo o conteúdo da sala, prendeu a respiração, surpresa. Um escritório espaçoso, com vários bolos de papéis em todos os cantos, porém indiscutivelmente arrumados. Havia uma lareira e um lugar para pôr chá ou bebidas. Num dado lugar, descansava uma mesa ampla, com uma máquina de escrever, e ao redor dela, vários papéis.
-"Isso aqui seria...?" – ela ainda não acreditava no que via.
-"Bem, aqui é o local onde, geralmente, concebo minhas obras, apesar de desde que encontrei-a no parque, ter tido uma estranha afeição por ele também." – confessou com um sorriso ao vê-la tão emocionada.
Ela mal ouvia o que ele falava, porque estava entretida demais em suas próprias conclusões. Então, aqueles livros que a faziam sonhar, que ela lia sem parar, repetidas vezes, eram feitos ali? Com o calor daquela lareira, com aqueles papéis? Ela estava pisando no mesmo lugar de onde saíam seus sonhos? Aquilo era possível? Sentiu-se, estranhamente, emocionada. Quis até chorar, mas manteve-se forte. Achou aquilo lindo, realmente lindo.
-"Rhadamantys, isso é tão... É tão... Não sei o que dizer..." – olhava em volta, maravilhada, e seus olhos brilhavam.
-"Fico feliz que tenha gostado, senhorita Pandora." – ele sorriu.
Naquela tarde, o chá, preparado pelas mãos dela, que insistiu em fazer alguma coisa para agradecer a honra de poder pisar no santuário do escritor, foi bebido com alegria, em meio à histórias nostálgicas da infância dos dois ou sobre possíveis novos projetos dele. Pandora nunca sentiu-se mais à vontade com alguém antes, e o mesmo fenômeno repetia-se com Rhadamantys.
Era algo diferente que nascia. E ambos, mesmo não admitindo, sabiam. Aquilo tudo acabou, então, com um convite para outro chá no dia seguinte.
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Naquela tarde, quando chegou em casa, a garota parecia imensamente feliz, bem diferente de quando saiu (ou fugiu, melhor dizendo). Cumprimentou todos que encontrou pelo caminho, com um indisfarçável sorriso, até que chegou em Morgana.
-"Guten abend [9, Morgana." – ela saudou, ajeitando as dobras do vestido.
-"Guten abend, fräulein. O que aconteceu?"
-"Por que a pergunta?"
-"Está tão alegre... Aconteceu alguma coisa com a senhorita?" – a criada, sendo por tantos anos a ama de Pandora, sabia que algo extremamente bom aos olhos de sua pequena ocorreu. E isso a desconfiou.
-"Nada em especial. Eu estava precisando de ar fresco, sabe... Me sinto revitalizada depois deste passeio." – ela disse, ainda com aquele sorriso.
-"Entendo, fräulein. Tome cuidado para não resfriar-se, então." – definitivamente Pandora escondia alguma coisa dela, Morgana, sua ama. –"E compareça ao jantar, serviremos daqui a pouco."
-"Sim senhora, Morgana. Danke!" [10
Com uma abafada voz infantil, a garota saía a cantarolar pelos corredores em direção da sua ala particular da casa, deixando uma desconfiada mulher a encará-la.
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O fim de Outubro foi-se embora, e Novembro chegou até o seu meio. A neve já passava a ser constante, assim como a chuva. Rhadamantys, nestas horas, sempre lembrava daquela chuva torrencial onde encontrara Pandora pela primeira vez. De uma forma estranha, ela acabou tornando-se alguém muito importante na sua vida.
Os chás que compartilhavam naquelas tardes secretas, sentados em algum lugar do escritório, freqüentemente perto da lareira para aquecerem-se do frio do inverno, pareciam champanhe ou qualquer outra bebida exótica. Fora isso, havia toda uma conversa acerca possíveis histórias para suas obras ou até mesmo lembranças remotas de suas vidas ou livros de outros autores que um lia para o outro. Nestas horas, freqüentemente, algum deles fazia brincadeirinhas com alguma citação. Além de toda aquela felicidade, havia mais outra. Para a garota, havia a imensa felicidade de poder acompanhar de perto o novo livro de seu ídolo.
-"E então, Rhadamantys... Vai, um dia, escrever sobre mim?" – ela perguntou em tom de brincadeira, com um risinho no rosto, recostando-se perto dele na mesa. Aquela era uma cena habitual, ela sempre fazia isso.
-"Por quê não? A senhorita iria gostar, Pandora?" – o escritor perguntou em tom igualmente leve, já acostumado com a presença dela perto de si.
-"Não! Eu falava brincando!" – corrigiu-se imediatamente.
-"Nunca entendi essa sua aversão por isto, sabe...?"
-"Minha vida é tão sem graça. Não tenho nenhuma conquista, nenhuma ação, nasci em uma vida rica que protegeu-me de tudo e sem dúvida alguma irei morrer na mesma vida e na mesma gaiola que me prende... Por isso, seu livro ia ser um fracasso se falasse de mim."
O escritor soltou um longo suspiro e olhou, de relance, para o relógio. 16:28pm, precisamente. Voltou, então, seus olhos âmbares para os violetas dela.
-"Uma vida não precisa ser heróica todo o tempo, senhorita Pandora. Não estamos mais na época da Grécia e Roma antigas... Porém, a sua já é naturalmente heróica, mesmo sem espadas, mesmo numa mansão rica. Eu a admiro muito, sabia? A senhorita é muito forte. Suportou uma guerra quando pequena, e eu sinto em seus olhos que suporta um fardo muito maior, mas que não sei qual é." – 'e tampouco quero saber, só quero...', calou o pensamento. Não tinha o direito de pensar aquilo.
-"Isso é tudo para imortalizar-me em algum livro seu?" – ela perguntou, desviando o olhar para as xícaras vazias de chá.
-"Nem pensar. Falo isto porque é a verdade, Pandora. A senhorita não é uma existência inútil, nem desinteressante. Pelo contrário, desde aquele dia em que nos encontramos na chuva, eu venho achando-a extremamente interessante." – 'muito mais que interessante, eu venho achando-a um sonho', mas jamais iria dizer aquilo à ela. Como sempre pensava, não tinha o direito.
A alemã, entretanto, achava-se em um estado amargo. Desde algum dia que ela não soube mais dizer qual foi ela sempre dizia a si mesma que 'qualquer elogio vindo do senhor Wyvern à sua pessoa é só uma palavra de apoio, Pandora, coisa que todo amigo faz', e não podia ser mais nada do que isso. Portanto, não podia precipitar nada, não podia falar nada. Presa entre o que sentia por ele e o que devia à família, acima de tudo, aquela garota simplesmente não podia dizer que queria que as regras que seu pai criara para ela fossem ao Inferno e que, se possível, gostaria de estar naquele escritório para todo o sempre.
Foi um sonho. Desde o início, foi um sonho doce e perfeito, o qual ela não quis mais acordar. Descobrir, pouco a pouco, o humano gentil por baixo daquela fachada polida e indiferente, poder ver que, mais do que um escritor alto e bonito, ele não era intocável, era um humano. Aquele homem alto, de loiros cabelos e olhos penetrantes, na realidade, era mais gentil do que qualquer outro. Descobrir tudo aquilo e saber que, de certa forma, era tudo só dela era um sonho. Um sonho que ela não podia destruir dizendo que o queria, porque se o pai descobrisse, estaria tudo acabado.
-"Não diga isso... Não diga isso, senh... Rhadamantys..." – inutilmente, ela cobriu o rosto com as mãos.
-"O que aconteceu, senhorita Pandora...?" – ao vê-la tão débil, apoiada na mesa como se fosse cair se a deixasse, ele ergueu-se. Sentiu um aperto, uma imensa vontade de enlaçá-la em seus braços e protegê-la do mundo.
-"Não diga o que eu quero ouvir... Por favor..." – 'porque, se você disser, eu vou acreditar, e isso não é bom...', completou para si.
Ela ergueu a frágil e trêmula mão para afastá-lo, quando sentiu-o perto dela, quase que tocando em seus ombros num gesto de conforto. Mas aquilo foi pior. Ela sentiu-se desmoronar por dentro. E não foi diferente com ele. Quando aquela pálida mãozinha estendeu-se e tocou em seu peito, tão leve, tão fracamente... Toda sua silhueta, tudo nela sussurrava dor. E aquilo o matou por dentro.
Não suportou. Não quis mais saber de nada, nem da posição social deles, nem da idade, nem de absolutamente nada. Apenas puxou-a para perto de si e, sem pensar, encostou seus lábios nos gelados dela.
A princípio, Pandora tentou reagir. Tentou desvencilhar-se, obedeceu uma vozinha em sua cabeça que dizia que aquilo era nojento e deveria parar. Mas a maior parte de seu ser não queria lutar contra aquilo, pois era algo com o qual sempre sonhou. Ninguém precisava saber. Ninguém precisava um dia ficar sabendo que ela foi beijada pelo escritor Rhadamantys Wyvern, nem que, um dia, ela o amou perdidamente. Isso era o de menos. O que a matava era saber que, de um jeito ou de outro, eles necessariamente não poderiam ficar juntos.
Mas por que tudo isso? Sua maior e única vontade era a de ficar perto dele. Fugia todos os dias de sua mansão apenas para vir tomar chá com ele, ler seus devaneios, conversar sobre muitas coisas... Mas isso era mais uma desculpa para vê-lo. Poder admirar seu porte alto e atlético, o olhar terno, os cabelos loiros, o sotaque britânico impecável... Poder ouvir sua voz, ver sua silhueta, escutar seu riso... Era só por aqueles momentos que ela vivia. Esperava-os ansiosamente, os momentos do dia seguinte, quando voltava para casa.
-"Pandora... Eu..." – Rhadamantys tentou falar algo quando enfim cessou o beijo. Foi um lapso, algo impensado, ele não sabia mais como proceder agora que tinha retomado a consciência.
-"Não precisa explicar-se, Rhadamantys..." – ela murmurou, ainda de olhos fechados.
-"Mas você..."
-"O que importa? Que importa o que eu sou ou o que tenho que fazer? Ninguém, neste momento, está aqui para nos lembrar disso..." – ela não queria lembrar, não queria desfazer-se deste momento de sonho.
-"É isso que me assusta. Não há ninguém aqui para me dizer que isso é imoral. E eu quero você, senhorita Heinstein... Eu a quero muito..." – vivia por ela, tal a pura verdade. Quando ela estava junto dele, nada mais precisava fazer sentido nem sequer existir. Sua presença lhe bastava, e era isso.
A garota encarou o chão, com o rosto ainda afogueado, e respirou fundo. Voltou a encará-lo, e o escritor viu verdadeira sinceridade naquelas orbes.
-"(...) Ensine-me a amar outrem. Eu não quero mais lembrar deste mundo que só me trouxe sofrimento. Não quero mais nada que venha dele. Tudo o que eu quero dele está aqui na minha frente. Ensine-me como esquecer de tudo, menos de outrem. Você é este outrem, ensine-me a permanecer pela eternidade neste nosso sonho."
Deus do Céu! A garota acabara de recitar um pedaço de 'A Daily Instance'! Ele ainda lembrava deste trecho. Nunca soube de onde tirou-o, mas agora, mais do que em nenhum outro momento, aquela frase ficou marcada em sua mente definitivamente. Na voz de Pandora, aquelas palavras foram tão... Tentadoras... Ele iria ceder, e sabia disso. Sua resistência decaía mais a cada segundo.
-"Por favor, Rhadamantys... Depois pensaremos nos detalhes... Eu não quero sentir essas amarras nos prendendo todo o tempo..." – ela segurou a mão dele.
-"Pandora... Eu não..."
Aquele toque delicado minou todo o pouco resto de auto-controle dele. Com uma hábil ternura, ele enlaçou sua cintura e, inclinando-se sobre ela, voltou a beijar-lhe. O mundo derreteu, borrou-se como sombras fátuas. Tudo o que ele via era somente aquela garota na sua frente.
Não importava se, mais tarde, fossem ser infelizes por aquela escolha. Não importava a cara que seu pai iria fazer se descobrisse. Tudo aquilo desapareceu no instante em que ele a beijou. Aquele homem foi tudo o que ela esperou a vida inteira. E, definitivamente, corajosa o suficiente, não iria deixá-lo escapar. Não antes de poder sentir com toda a plenitude o que sempre quis sentir com alguém.
Seus corpos moveram-se como que por instinto, e todo o pensamento que ainda resistisse até ali sendo derrotado impiedosamente. Aos poucos, abandonaram a realidade e o caloroso escritório. Mas o calor do corpo de ambos era tão intenso quanto o mesmo, e logo, o quarto masculino de dimensões meticulosamente arrumadas pareceu tão acolhedor quanto o cômodo anterior.
Os lençóis gelados logo deixaram de ser problema, assim como aquelas roupas. Delicadamente, Rhadamantys livrou-se do vestido roxo que ela usava, enquanto ela fazia o mesmo com aquela camisa impecavelmente branca, e por fim, de seu coque. Os cabelos negros que ele sempre quis ver como eram naturalmente espalharam-se pela cama, indisciplinados, dando-lhe uma irresistível visão.
Pandora apenas sorriu, entregue, seus olhos e gestos permitindo que ele continuasse. E, não havia nenhuma sombra de dúvidas acerca isto, o desejo da jovem foi atendido. Por muito tempo, eles esqueceram totalmente do mundo e de suas vidas. Por muito tempo, tudo que existiu foram eles próprios e aquela sensação inebriante de abandonarem-se à total magnitude da paixão.
Continua...
[8 Era ainda comum na época pessoas ilustres terem casas de barões do século XVII ou outras residências do tipo.
[9 "Boa noite", em alemão.
[10 "Obrigada", em alemão.
