Capítulo 3: Retorno

Notas iniciais do capítulo

Mais um pouco de como foi o desenrolar do relacionamento dos dois ;)
boa leitura

Enquanto eu esperava para ver se Alexei Yukida encontraria o número para me ligar, toquei a vida pra frente.

Procurei sair mais com Afrodite, eu não tinha muitos amigos na empresa, e o Afrodite sem dúvidas era uma flor naquele escritório enfurnado de gente estressada e mais velha, Shiryu é o único filiado sênior jovem dali, apesar de jovem ele parece ter a mente de um coroa, é um cara extremamente responsável, é casado e já está planejando ter filhos, ele é amigo do meu irmão, e foi graças a ele que consegui esse emprego, e é claro que uma das funções dele aqui é ficar de olho em mim, meu irmão nega até a morte que pediu isso a ele, mas eu sei.

Afrodite não, ele é mais velho que Shiryu, embora não aparente, mas é a irresponsabilidade em pessoa, vive pulando de galho em galho, nunca acha alguém bom o suficiente, sem dúvidas é o cara mais seletivo que eu conheço. Mas se tem uma coisa que ele possui é bom gosto, se ele gosta de alguém é porque a pessoa vale a pena.

É claro que eu tinha alguns encontros relâmpagos as vezes, nada sério, afinal segundo Afrodite nenhum deles valia a pena. E tenho que concordar com ele, alguns beiravam o desespero, saí com os tipos mais variados, o último foi com (imaginem só) um padeiro. Conheci ele em um daqueles encontros de casais onde há rodizio de cadeiras, as pessoas têm apenas cinco minutos pra poderem conquistar outra, e quem sabe se alguém se interessar você passa seu telefone, sim, eu também estava desesperado.

Eu conheci aquele 'padeiro', seu nome era Uchida, num desses encontros. Na ocasião ele parecia interessante, mas depois de marcar o primeiro encontro e vê-lo pela segunda vez eu mudei de ideia. Ele sugeriu um piquenique no parque. Tenho que reconhecer que esses caras elevam o jogo de sedução a um novo patamar.

Combinamos de nos encontrar depois do trabalho, porque ele tinha que acordar cedo para fazer pão. Enquanto marchava decidido pelo parque, tentei me convencer de que ainda havia esperança pra mim. Tudo bem que aquilo era um pouco incomum, mas e daí? Onde estava meu espirito de aventura?

No meio do parque, eu avistei Uchida à minha espera. Estava com uma toalha dobrada sobre o braço e uma cesta de piquenique no outro, ele usava um chapéu ridículo, que o fazia parecer mais idiota. E tem mais uma coisa terrível de se dizer, ele era muito mais gordo do que eu me lembrava. Pronto, falei! Naquela primeira noite estávamos sentados com uma mesa entre nós. Eu só consegui ver seu rosto e a parte de cima do tronco, que me pareceu volumoso, mas não rechonchudo. Ali, de corpo inteiro, dava para ver que ele tinha... ele tinha... formato de pera. Seus ombros eram normais, mas ele tipo explodia ao chegar na região da cintura. Curiosamente, suas pernas eram de um todo descartáveis e acabavam em tornozelos pequenos e delicados.

Ele estendeu a toalha na grama, deu uma batidinha na cesta e disse:

−Shun, eu lhe prometo um banquete para os sentidos.

Pronto, fiquei com medo.

Ele abriu a cesta e pegou um pão.

−Este é meu pão de centeio. – informou ele. –Uma receita secreta minha.

Ele partiu o pão e se aproximou de mim. Percebi onde ele queria chegar: ele planejava me seduzir com pão. Depois que eu provasse suas criações maravilhosas, ficaria com a cabeça na lua e me apaixonaria perdidamente.

−Abra a boca e feche os olhos!

Caramba, ele ia me dar de comer na boquinha! Céus, que constrangedor. Isso era demais pra minha cabeça.

−Sinta a aspereza da casca sobre a língua. – sim eu estava começando a sentir a aspereza.

−Não tenha pressa, saboreie com cuidado. – insistiu ele.

Minha nossa, aqui é um lugar público. Torci pra que ninguém estivesse olhando pra nós. Abri os olhos e tornei a fecha-los rapidinho: uma mulher passeando com o cachorro ria descontroladamente. Suas mãos estavam apoiadas nos joelhos, de tanto rir.

Ele foi me fazendo provar os mais variados tipos de pães ao longo de noventa frios e intermináveis minutos, Uchida me fez lamber pães, cheirar pães, observar pães atentamente e acariciá-los. A única coisa que ele não me obrigou a fazer foi ouvir os pães.

O pior é que não havia mais nada para comer, só pão.

Sangrando depois de mais essa batalha e, a essa altura da guerra, bem desanimado, não estava no clima certo quando, no dia seguinte, um barman que conheci nesses encontros relâmpagos me ligou:

−Tive uma grande ideia para o nosso primeiro encontro.

Fiquei calado, só ouvindo.

−Faço parte de um projeto no qual construímos casas para uma comunidade carente. Eles fornecem o material e nós entramos com a força de trabalho.

Uma pausa para eu ter a chance de elogia-lo. Continuei mudo. Então meio confuso ele foi em frente.

−Vamos lá nesse fim de semana. Seria o máximo se você fosse com a gente. Quem sabe até poderíamos nos conhecer melhor e... sabe como é... fazer algo de bom pelo próximo ao mesmo tempo.

Altruísmo: a última moda nesse jogo. Eu sacava bem o lance desses projetos. Em resumo, dezenas de pessoas sem noção despencam sobre uma pobre comunidade rural e insistem em construir uma casa para os pobres infelizes. Os garotos da cidade grande divertem-se como nunca, correm de um lado para outro, brincam com ferramentas de ultima geração, passam a noite acordados bebendo cerveja em volta de uma fogueira e depois voltam aos seus gigantescos apartamentos do tipo um por andar, deixando a pobre comunidade rural com uma casa meio capenga e cheia de goteiras e torta.

'É preciso dar algo de si' é o mantra desses caras, mas o que eles realmente querem dizer é: 'Olhem, vejam que ser maravilhoso eu sou'. O mais triste é que muitos caem direitinho no truque e vão para a cama com os safados só de olhar para sua furadeira.

Senti cansaço em todo o corpo.

−Obrigado por me convidar... é melhor não. De qualquer modo, foi um prazer conhecer você, Nash...

−...Nush.

−Desculpe. Nush. Acho que esse lance não combina comigo.

−Tudo bem. Tem um monte de gente a fim disso por aí.

−Claro que tem. Tudo de bom pra você, viu?

Coloquei o fone no gancho e me virei pra Afrodite.

−Sabe de uma coisa? Tô de saco cheio desses caras de Tóquio. Onde é que já se viu marcar um encontro e construir uma casa? Uma porra de uma casa que...

O telefone tocou, interrompendo meu ataque de pelanca; respirei fundo, pigarreei e atendi:

−Jones Day, departamento de advocacia, Shun Amamiya falando.

−Olá, Shun Amamiya, aqui fala Alexei Yukida.

−Ah, sei!

−Que foi que eu fiz?

−Você tá pensando em me convidar pra sair?

−Isso!

−Momento errado. Estou furético com os homens de Tóquio.

−Ah, então tudo bem, eu sou de Moscou. E então, o que está rolando?

−Tive a semana mais estranha da minha vida em encontros com um monte de caras esquisitos. Acho que não dá pra aturar mais um não!

−Mais um encontro ou mais um cara?

Pensei antes de responder:

−Mais um cara esquisito.

−Então tá! Que tal saímos para tomar um drinque? Isso é não esquisito o bastante pra você?

−Depende. Onde vai rolar esse drinque? Em um salão de beleza? Em um parque? Construindo uma casa?

−Estava pensando em fazer isso em um bar.

−Certo. Um drinque.

−Se ao final do drinque você achar que algo não está legal, simplesmente diga que precisa voltar para casa porque tem um vazamento no seu apartamento e o bombeiro vai chegar a qualquer momento. Que tal?

−Combinado. Só um drinque. E sua desculpa para cair fora, qual vai ser? – perguntei.

−Não preciso de nenhuma.

−Você poderia dizer que teve uma emergência no hospital e tem que correr para salvar seus pobres pacientes.

−Puxa, é muita gentileza sua me oferecer uma desculpa tão boa – disse ele. −, mas não vai ser preciso.

...

Ikki veio abrindo caminho entre os sofás até chegar ao lado da cama.

−Acabei de falar com Shiryu. Ele vai chegar na manhã de sábado. – faltavam dois dias. –Os dois podem embarcar para Tóquio na segunda-feira. Se você ainda tiver certeza de que é isso o que quer.

−Tenho certeza. Shunrei vai estar com ele?

−Infelizmente não.

−E Afrodite?

−Só vai recepcionar você lá.

Comecei a pensar melhor na situação que me encontro. Nas últimas semanas, que eu passara sentado no jardim, observando as flores e deixando que as lagrimas curassem meus ferimentos, pensei muito em minha vida com Hyoga, o quanto aquilo era um risco, eu tinha tantas dúvidas quanto ao nosso relacionamento, até mesmo o Ikki era terminantemente contra no início, mas no fim nós acabamos nos casando. Ao longo daquelas semanas pensei muito a respeito se Ikki realmente tinha razão. Puxa, vejam como eu estava, olhem bem para o estado em que eu me encontrava!

Vivia me perguntando se era melhor ter amado e perdido, mas isso era uma pergunta idiota e sem sentido, porque eu não tive escolha.

−Que horas o trem saí na segunda? – perguntei.

Ikki me direcionou um olhar fugaz, percebendo novamente o quanto eu estava impaciente para voltar pra casa.

−À tarde.

...

Para nosso encontro de apenas um drinque, Hyoga e eu fomos a uma boate calma, de classe alta, com iluminação indireta e tons sofisticados.

−Aqui está bom? – perguntou Hyoga, quando nos sentamos. –Não é esquisito demais?

−Até agora está ótimo – respondi. –A não ser que aqui seja um daqueles lugares em que os atendentes do bar apresentam um número de sapateado quando bate nove da noite.

−Caraca! – ele colocou as mãos na cabeça. –Nem pensei em verificar isso.

Quando a garçonete veio anotar os pedidos, perguntou:

−Vocês querem uma comanda?

−Não – respondi. –Talvez eu tenha de ir embora de repente... se descobrir que você é um cara esquisito – acrescentei, depois que a atendente saiu.

−Não vai descobrir isso, porque eu não sou esquisito.

Eu não achava que fosse. Ele era muito diferente dos caras com que eu já tinha saído. Mas era sempre bom desconfiar.

−Agora me conte quem você é quando não está sendo filho de um czar tirano. – pedi a ele.

−Você quer conhecer meu verdadeiro eu? – ele disse surpreso.

−Se estiver tudo bem pra você. E se conseguir contar bem depressa, eu agradeceria. Só para o caso de eu decidir ir embora correndo, de repente.

Então ele me contou tudo sobre si. Que se formou em medicina no ano retrasado e atualmente já tinha dois meses que acabou sua residência. Morava sozinho em um apartamento em Nagacho. Tinha mais um irmão que morava com a mãe em Moscou, e que embora fosse muito apegado à mãe decidiu vir para o Japão com o irmão advogado pra poder ter mais liberdade.

Em seguida eu lhe contei sobre as pessoas que trabalhavam comigo, o quanto sou apegado ao meu irmão, e até mesmo do meu chefe mala.

−Já estou começando a detestar esse seu chefe. –disse ele, solidário. –Seu vinho está bom?

−Ótimo.

−É que você está bebendo devagar demais.

−Você está bebendo seu uísque mais devagar ainda.

Por três vezes a garçonete perguntou se não iriamos querer mais alguma coisa, e nas três recusamos, deixando-a com a pulga atrás da orelha.

Ele me contou mais detalhes sobre seu trabalho e sua família, o quanto ele sentia falta, mas que era mais feliz aqui em Tóquio. E eu lhe contei absolutamente tudo sobre mim. O quanto meu irmão era superprotetor e sobre quando perdi meus pais em um acidente de carro quando eu tinha apenas doze anos.

Em algum ponto da história eu terminei meu vinho.

−Fique pelo menos até eu terminar minha bebida. – pediu ele e, demostrando admirável autocontrole, fez com que seu restinho de uísque durasse mais uma hora. Por fim, quando não deu mais para esticar o uísque, ele olhou com ar pesaroso para o copo.

−Muito bem – disse ele. –Esse foi o drinque que combinamos. Como vai o encanamento do seu apartamento?

−Perfeito.

.

−E então? – quis saber Afrodite, assim que nos encontramos no trabalho no dia seguinte. –Pirado?

−Não. Normal.

−Pintou um clima?

Pensei um pouco.

−Sim – era verdade. Certamente tinha pintado um clima.

−Chupões e beijos?

−Mais ou menos.

−De língua?

−Não. – ele tinha me beijado na boca. Uma leve sugestão de calor e firmeza, mas de repente ele parou e me deixou querendo mais.

−Gostou dele?

−Gostei.

−Sério? – ele ficou subitamente interessado. –Nesse caso, é melhor eu ir avalia-lo de perto.

Eu ergui o queixo e mantive o olhar dele.

−Você vai ter que aprova-lo.

−Eu é que vou decidir isso.

O teste do Afrodite para ver se alguém valia a pena era terrivelmente cruel e ele empregado em todos os homens. Seus critérios eram amplos, implacáveis e, o que é pior, completos e perigosamente aleatórios.

Só quando percebi o quanto estava ansioso para ouvir Afrodite decretar que Hyoga era perfeito foi que senti o quanto gostava dele. Não que as opiniões de Afrodite me afetassem, mas as coisas ficam meio esquisitas quando um amigo seu despreza seu namorado. Não que Hyoga fosse meu namorado, mas mesmo assim...

−E então, quando é que você vai ver esse possível namorado de novo?

−Fiquei de ligar pra ele quando estivesse a fim.

No entanto ele me ligou dois dias depois, falando que seus nervos não aguentavam mais a espera, e perguntou se eu toparia jantar com ele na noite seguinte. Claro que eu aceitei, depois de acusa-lo de perseguição, é claro. Embora eu seja bastante orgulho, tenho que admitir que estava receoso em estragar tudo. Mas, puxa, Hyoga era um gato, e era muito raro ter um gato desses atrás de mim.

Quatro noites depois desse jantar, fomos assistir shows, filmes, comer em lanchonetes. E assim tivemos muitas oportunidades para bater papo. Eu ainda saia com outros caras, tecnicamente ainda estava aberto a outras ofertas, mas o único que eu via regularmente era Hyoga. De forma não exclusiva, é claro.

Nossas conversas nunca passavam por nenhum território sério. Eu bem que tinha algumas perguntas pra ele – porque ele não me telefonou quando eu lhe dei meu número da primeira vez, ou porque ele disse que queria ficar comigo, mas não sabia se ia rolar. Só que eu não perguntei porque não queria saber as respostas. Ou melhor, não queria saber as respostas por enquanto.

Mais ou menos no nosso quarto ou quinto encontro, ele respirou fundo e disse:

−Não se apavore, mas Camus e Milo querem conhecer você, tipo assim, de verdade. O que acha?

Eu achei que preferia ter meus rins arrancados com uma faquinha cega, mas aguentei firme.

−Vamos ver – respondi. –O engraçado é que Afrodite também quer conhecer você.

−Tudo bem – assentiu ele, depois de pensar alguns segundos.

−Sério mesmo? Não precisa topar. Eu disse a ele que nem ia falar nada, para não assustar você.

−Não, vamos nessa. Pelo que você fala, Afrodite é muito gente fina. Será que eu vou gostar dele?

−Provavelmente não.

−Porque?

−Porque sim – respondi. –Sabe eu quero muito que ele goste de você, então as expectativas ficam altas demais e acabamos decepcionados. O segredo é criar uma expectativa ruim. Então, não. Acho que você não vai gostar dele nenhum pouco.

.

Escolhi um bar um pouco mais movimentado, pois se rolasse um clima ruim e ninguém soubesse o que falar, pelo menos teríamos um som de fundo pra distrair.

Eu e Afrodite chegamos e conseguimos uma mesa na varanda, Hyoga ainda não tinha aparecido.

−Ele está atrasado – comentou Afrodite com ar de desaprovação.

−Chegou! – ele nos avistou de longe e tentou abrir caminho entre o povo.

Sorri pra ele e ele pra mim com vontade e fez 'oi!' mudo.

−Uau, ele é lindo! – Afrodite pareceu atônito, mas logo se recobrou. –Mas isso não conta ponto, entendeu? Se ele não comer os amendoins de pratinho com medo de pegar germes, fim de linha para o mané.

−Pois ele vai comer os amendoins – disse eu, mas confesso que fiquei com receio de ele frescar com esse tipo de coisa por ser médico, dizem que médicos são paranoicos com tudo, principalmente germes.

Ele me beijou, se sentou ao meu lado e acenou com a cabeça para cumprimentar Afrodite.

A garçonete se aproximou e pedimos três uísques.

−Quer amendoim? – Afrodite apontou para a tigelinha.

−Quero sim, obrigado.

Esbocei um sorriso afetado para Afrodite.

Foi uma noite fantástica. Nós três nos demos tão bem que partimos logo para o segundo drinque, depois o terceiro, e Hyoga insistiu em pagar a conta. Isso me deixou preocupado com o que o Afrodite pensaria sobre machismo.

−Obrigado – agradeci. –Você não precisava fazer isso.

−Sim, obrigado. – repetiu Afrodite, e eu prendi a respiração. Se ele comentasse alguma coisa sobre ser uma honra fazer esse gesto tão nobre com certeza se condenaria diante do Afrodite.

−De nada. – ele disse. Ufa! Provavelmente isso contaria pontos a seu favor.

−Vou ao banheiro – disse Afrodite.

−Ótima ideia! – eu o segui e perguntei: −E aí? O que achou?

−Ele é um encanto, em todos os sentidos da palavra.

Achei o máximo que Hyoga tivesse passado com tantas honras na prova do Afrodite.

−Aposto que ele é um cachorrão difícil de manter na coleira. – Afrodite acrescentou.

Meu sorriso murchou e eu desanimei.

...

No sábado, de manhã, um taxi parou na calçada de casa. A porta se abriu e os mais finos sapatos de couro apareceu, seguido por seu terno mais alinhado e de óculos escuros, a forma mais elegante possível. Até mesmo esses longos cabelos negros acentuavam sua elegância. Shiryu tinha chegado.

−Ele nem vai trabalhar, porque está vestido assim? – disse Seiya que tinha chegado faz meia hora pra receber nosso também amigo de infância.

−Talvez ele tenha que fazer negócios na cidade. – Esmeralda comentou.

−A essa hora da manhã? – disse Ikki.

Sorrindo Shiryu se aproximou para abraçar a todos.

−Nunca vi você com tão boa aparência! – declarou Seiya.

−Talvez você tenha que visitar mais as cidades grandes. – Shiryu comenta.

−Osaka é uma cidade grande, e não é só porque moro aqui que eu sou um caipira. – protestou Seiya.

−Você cuida da loja de ferramentas do seu pai, por isso que você é um caipira. – posso até ouvir a brasa da rara raiva do Seiya sendo acendida.

Seiya desistiu da carreira de arquiteto em uma grande empresa de projetos da cidade para que pudesse cuidar melhor dos filhos, enquanto Saori se ocupa em trabalhar de assistente administradora na firma de advocacia que meu irmão trabalha. Enquanto cria os filhos, Seiya ajuda o pai a cuidar da loja de ferramentas da família, já que não era tão ocupado assim, o problema é que isso feria o ego de homem dele, em pensar que é sua esposa que praticamente sustenta a casa e ele que faz os trabalhos domésticos. Bom, foram eles mesmos que entraram em acordo e decidiram que as coisas seriam assim, mesmo que provisório.−

E como Seiya sempre teve uma língua que servia pra alfinetar os outros, Shiryu dá o troco e sempre o provoca quando tem oportunidade.

−Quando você tiver filhos vai saber o quanto é difícil cuidar da carreira e da família ao mesmo tempo. – Seiya resmunga.

−E é isso mesmo que quero, filhos. – Shiryu resmunga.

−Será que vocês podem não brigar toda vez que se encontram? – Esmeralda tenta controla-los.

Shiryu ignorou Seiya por uns instantes e veio até mim com um sorriso esplendoso e me abraçou fortemente.

−Shun, como está se sentindo, garoto?

−Ansioso, pra falar a verdade, quero muito voltar pra casa.

−Você está em casa. – Ikki resmunga.

−Pra casa do meu marido Ikki.

Meu último comentário só serviu pra desencadear mais algumas horas de resmungos e ladainhas da parte do meu irmão.

..

Na estação, Ikki analisou com muita atenção o painel com os horários dos trens, eram apenas três horas de Osaka até Tóquio, mas uma perda de tempo enorme para o meu irmão que vivia ocupado. Ele tinha tirado uma licença do trabalho pra que pudesse cuidar de mim. Era um filiado sênior de uma firma de advocacia daqui de Osaka, no passado ele insistiu fortemente que eu trabalhasse aqui com ele, mas o que eu queria era Tóquio, então uma hora ele teve que ceder e me deixar ir.

Só que já estou amarrado, pois ele pretende abrir seu próprio escritório, e alguma hora eu ainda terei que voltar pra cá pra ajuda-lo.

Ele olhou pra mim, em seguida pra Shiryu, e por fim, exclamou:

−Não é uma pena que vocês dois morem em Tóquio?

−Despeçam-se logo! – reagiu Shiryu com frieza.

−Tudo bem, tudo bem.

Eles me pareceram um pouco ruborizados, respiraram fundo – especialmente Esmeralda, digamos que ela ainda está emocionalmente abalada com minha partida – e se despediram em uma profusão de gentilezas e recomendações.

"Shun, meu querido, tudo vai ficar bem"; "Querido, você vai superar"; "Dê tempo ao tempo"; "Volte pra casa à hora que quiser"; "Shiryu, tome conta dele".

O mais curioso foi que, apesar de todos os votos de boa sorte, abraços e incentivos, ninguém chegou a mencionar Hyoga.

...

Depois de Afrodite decretar que Hyoga seria um cachorro difícil de manter na coleira, comuniquei a ele:

−Você foi aprovado. Gostamos do seu jeito. Pode sair conosco quando quiser.

−Ahn... obrigado.

Maravilha. Todo mundo estava se entendendo e se gostando. Porém, como Hyoga já saíra com alguém do meu lado, eu me vi na obrigação de reencontrar Camus e Milo, mas não estava muito empolgado com a possibilidade de me julgarem e encontrarem algum defeito.

Só que ao contrário da última vez em que os vira, eles não me trataram como uma pessoa recortada em papelão, clone de dezenas outras, e acabamos curtindo um encontro inesperadamente agradável.

Alguns dias mais tarde alguns amigos nossos de escritório e outros amigos do Afrodite organizaram uma festa de Halloween. Eu dava uma circulada, me perguntando se Hyoga iria aparecer ou não quando, de repente, alguém se virou na minha frente coberto por um lençol, como um fantasma gritando: 'Uahahahahha!"

−Desejo o mesmo pra você!

Então o fantasma tirou o lençol da cabeça e falou, com voz de gente:

−Qual é, Shun? Sou eu!

Era Hyoga. Nós dois, ao mesmo tempo, demos um guincho de surpresa e alegria. Eu me lancei pra cima dele, que me agarrou com força, envolvendo minha costas com seus braços.

Nossas pernas se embaralharam e uma fisgada de tensão me espetou por dentro. Ele também sentiu algo do tipo, porque seu olhar se modificou na mesma hora e ficou sério. Mantivemos os olhos um no outro por um instante interminável, até que começaram a esbarrar em nós e o enquanto se quebrou.

A essa altura do campeonato eu já tinha saído com Hyoga umas sete ou oito vezes e nenhuma delas ele tinha avançado para cima de mim com intenções, digamos, sexuais. Em todos os encontros, tudo o que rolou foi um beijo, o qual, por sinal, havia melhorado muito, indo do rápido e firme para o lento e suave, mas um beijo era só um beijo.

Eu esperava mais? Esperava!

Estava curioso pelo motivo de ele segurar tanto.

Mesmo assim eu me mantive sob controle, e me segurei para não dar uma chave de braço em Afrodite depois de cada noite sem sexo e interroga-lo, torcendo as mãos de agonia e quase chorando: qual o problema dele, Afrodite? Será que não tem tesão por mim? Será que é um daqueles imbecis que acham que o verdadeiro amor sabe esperar?

Hyoga me ligou no dia seguinte depois da festa e comentou:

−Ontem a noite foi divertido.

−Que bom que você curtiu. Escute... no sábado Shura vai competir em um campeonato de katanas. Todo mundo vai, quer ir também?

Silencio.

−Não me entenda mal. Eu curto muito o Afrodite e o Shiryu e o Shura, e os amigos estranhos do Shura. Só que eu queria muito ver você assim, tipo... Só nós dois.

−Quando?

−O mais rápido possível? Hoje a noite?

Um sentimento feliz começou a fazer piruetas na boca do meu estomago. E quando Hyoga disse:

−Conheço um restaurante muito legal na rua 507-8 Tanakacho Gojo-Agaru.

Havia uma coisa especial além do restaurante legal naquela rua. Hyoga morava nessa rua.

−Oito horas? – ele sugeriu.

−Combinado.

Comemos tudo a jato. Como era possível?

Nossas cabeças não estavam ligadas na comida, esse era o motivo.

Eu estava muito ansioso, supernervoso. Assim que ele abriu a porta do apartamento, eu fiquei no hall com as orelhas em pé.

−É grande.

−As prestações são razoáveis.

−Você é médico, recebe bem.

−Você é advogado, deveria também.

−Ainda sou assistente.

−E eu acabei de sair da residência.

Sorrimos juntos com aquela disputa de quem tinha menos grana. Não havia como negar o inegável, ou ele recebei absurdamente melhor do que eu, ou administrava melhor do que eu, mas como não quero me culpar então optei pela primeira opção.

−Hummm. – empurrei uma das portas e entrei em um quarto. Reparei no jogo de cama, nas velas espalhadas. –Este é seu quarto?

−Esse mesmo. – ele entrou no quarto atrás de mim.

−E ele está sempre assim, tão arrumado?

Hesitação.

−Não.

Pisquei pra ele e rimos ao mesmo tempo, de nervoso. De repente a expressão dele se transformou em algo mais intenso e meu estomago quase despencou no pé. Comecei a circular pelo quarto, pegando coisas e colocando-as de volta no lugar. As velas aromáticas na mesinha de cabeceira pareciam caras.

−Puxa, Hyoga, essas velas foram caras.

−Shun... – disse ele baixinho, bem do meu lado. –Fodam-se as velas – afirmou.

Ele deslizou a mão ao longo do meu pescoço, da nuca, lançou descargas elétricas que me desceram pelas costas para em seguida aproximar o rosto do meu e me beijar. Bem devagar, a principio, mas de repente a coisa esquentou e eu me senti inundado pela proximidade dele, pela aspereza da sua barba, pelo calor do seu corpo, que se irradiava através da camisa de algodão fino. Movi o polegar ao longo do seu maxilar, desci com os dedos ao longo da coluna dele e pousei a palma das mãos na altura dos seus quadris.

Os botões da camisa se abriram e ali estava seu estomago, plano, musculoso, com a linha de pelos louros que descia até... vi a minha mão abrir o botão do seu jeans. Foi um ato reflexo.

Minha mão tremia de leve. Ergui a cabeça e olhei para ele, que me olhava com uma expressão de suplica. Lentamente eu me vi abrindo o zíper da calça dele, e os detalhes de sua ereção pareciam forçar o brim da calça. Com quadris retos, bundinha pequena e uma linha de músculos firmes na parte atrás das coxas, ele era ainda mais delicioso do que eu imaginava. Debruçando-se sobre mim e flexionando os ombros, ele me desembrulhou como se eu fosse um presente.

−Shun, você é tão lindo – repetia sem parar. –Tão lindo!

Sua ereção tinha um toque de seda. Era suave, mas firme, de encontro as minhas coxas e meu pênis, que também já estava absurdamente ereto. E ele beijou em toda parte, descendo dos cílios até a parte de trás dos meus joelhos. Ele era lento e carinhoso, o movimento do seu pênis contra mim e dentro de mim, o calor, desejo e a sensação de prazer que não parava de aumentar, inflando-me.

Uma hora já não aguentava mais e gozamos juntos gritando o nome um do outro.

Não foi só sexo. Eu senti isso como se o conhecesse. Senti como se ele me amasse. Dormimos abraçados, de conchinha, o braço dele apertando meu estomago e minha mão apoiada em seu quadril.

Acordei com o barulho de xicaras tilintando ao lado da minha orelha.

−Café? – ele anunciou.

−Você já está vestido! – exclamei, surpreso.

−Já. – ele não me olhou nos olhos e se sentou na beira da cama para enfiar as meias, com o rosto inclinado pra frente, de costas pra mim. Na mesma hora acordei de vez e fiquei ligado.

Já passei por aquilo e conhecia as regras: pegar leve, não forçar a barra, deixar que ele tomasse seu próprio tempo.

−Você não se esqueceu de amanhã a noite, né? De sair com o pessoal.

−Não vou estar aqui neste fim de semana.

Esqueci de respirar. Senti como se tivesse sido esbofeteado.

−Preciso ir a Moscou resolver umas coisas.

−Tudo bem, você que sabe.

−Tudo bem? – ele se virou, parecendo surpreso.

−Ué, Hyoga, tudo bem. Você dormiu comigo, acordou esquisito e não vai ficar aqui no fim de semana. Tudo bem.

O rosto dele ficou mais branco do que já era.

−Shun... eu sei que... escute, talvez esse não seja o melhor momento pra isso.

Merda! Logo agora que eu estava gostando mesmo dele.

−Que foi? – fui meio agressivo.

−É que... o que você acha de nós dois nos tornarmos... você sabe... exclusivos?

Esse tipo de exclusividade era quase um compromisso de noivado.

−Pois é, só você e eu. Não sei se você ainda está saindo com outros caras, mas...

Encolhi os ombros, nem eu sabia. Mas havia outra pergunta mais importante:

−Você anda saindo com outras pessoas?

−É por isso que preciso ir à Moscou.

...

Assim que chegamos a Tóquio me senti ligeiramente apavorado na hora de entrar no taxi.

Fiquei literalmente tremulo de medo, mas Shiryu relhou:

−Qual é, Shun? Estamos em Tóquio, você vai precisar pegar taxis o tempo todo.

Eu não tinha escolha: ou entrava no taxi ou pegava o avião de volta para Osaka. Com os joelhos quase se desfazendo, entrei no veículo.

Chegamos ao nosso bairro, e de repente estávamos na porta do prédio onde eu morava com Hyoga, e o choque de vê-lo ainda de pé fez meu estomago revirar tanto que tive medo de vomitar.

Embora Shiryu carregasse toda a bagagem sozinho, foi um grande desafio subir três lances de escada com meu joelho ferrado, mas assim que eu enfiei a chave na fechadura – Shiryu insistiu que eu mesmo deveria fazer isso – percebi a presença de mais alguém no apartamento. Senti uma pontada de alivio: ele ainda estava lá.

Notas finais do capítulo

Estamos quase chegando na surpresa.
Aguardem!
bjs