Acordei sentindo um forte de cheiro de álcool. Quis abrir meus olhos, mas eles estavam pesados e ardiam, além de minha cabeça estar latejando demais. Mãos geladas me tocavam, o que era estranho, pois eu não lembrava de estar fazendo um dia frio em Forks.

Mesmo com os olhos fechados, tentei me situar, pelo menos lembrar do que havia acontecido para eu permanecer desacordada por sabe-se lá quanto tempo. Busquei insistentemente por algo em minha mente, mas tudo parecia extremamente vago. Lembro-me de ter acordado de bom humor, ter descido para tomar café, de falar com a minha mãe e...

– Não! – grito me levantando rapidamente, deixando que uma forte tontura me atingisse em cheio. As mesmas mãos frias que antes me tocavam, agora empurravam meu corpo levemente para que eu voltasse a me deitar.

– Tudo bem, foi apenas a anestesia. – diz uma voz masculina de forma extremamente gentil.

Abro os olhos com dificuldade, piscando várias vezes para me acostumar com a claridade do local. A primeira coisa na qual reparo são as paredes branco gelo e em mais duas macas próximas da parede, então eu com certeza não estava em casa, e sim em um hospital, mas por quê?

Por fim, olho para cima e encontro duas orbes douradas me encarando de forma preocupada.

– Eu morri? – pergunto tendo a impressão de que encarava um anjo. Aquele homem loiro vestido de branco era belo demais para ser um simples mortal.

– Não sejamos tão exagerados. – ele sorri lindamente. – Segundo sua mãe, você desmaiou de repente e acabou por bater a cabeça na pia, o que lhe rendeu alguns pontos. Isso é verdade? – doutor Carlisle, pelo menos era o que estava escrito em seu crachá, me encara como se soubesse que havia algo a mais nessa história.

– Como assim? – pergunto nervosa, me encolhendo levemente ao lembrar daqueles profundos olhos vermelhos me encarando.

– Bem, é que é estranho, considerando o fato de que sua pressão estava perfeitamente estável. Você passou por algum evento traumático, ou algo do gênero?

– Não... Só estamos passando por um momento delicado em nossa família. – era algo do gênero, mas ele não precisava saber que eu andava vendo pessoas que não existem e que minha cabeça volta e meia era invadida por imagens estranhas e confusas, com certeza eu iria parar em um hospital psiquiátrico, no mínimo.

– Quer falar sobre isso? – o doutor com cara de anjo parecia realmente interessado, mas eu não queria enchê-lo com minhas sandices.

– Acho melhor não. – encaro a parede, desviando o olhar daquelas orbes douradas questionadoras.

– Tudo bem, senhorita Brandon. Avisarei sua mãe que já está acordada. – ele fala já se levando e indo em direção a porta.

– Alice.

– O que? – ele para por um momento, olhando para mim.

– Pode me chamar de Alice. – tendo dar meu melhor sorriso, o compensando por ter sido tão gentil comigo.

Ele apenas sorri e acena com a cabeça antes de finalmente partir.

Logo em seguida minha mãe entra no quarto aos prantos, ela sempre foi um pouco exagerada.

– Meu Deus Alice! Eu fiquei tão preocupada! – ela diz enquanto me envolve em um abraço desajeitado.

– Calma mãe, eu apenas desmaiei, deve ser porque não tenho me alimentado direito, sei lá. – tento amenizar sua preocupação. Ela me olha de forma desconfiada, porém nada diz.

Não nos demoramos a ir pra casa, e quando chegamos mamãe fez questão de preparar um almoço bem reforçado, enquanto Dan não tirava os olhos de mim e Julian não parava de perguntar como eu tinha feito aquele "dodói" em minha testa, o que me fez inventar no mínimo umas três histórias diferentes e absurdamente criativas.

Comi sem muito interesse e logo subi para o meu quarto, tomando um longo banho antes de me deitar. Meus pensamentos logo voltaram para aquela figura assustadora, e o medo ainda estava presente em mim. Foi apenas uma imagem estranha que se formou em minha cabeça, sem nenhum motivo aparente, porém parecia tão real... Como se fosse algo que já havia acontecido, ou iria acontecer. Ri nervosa, o que eu estava pensando que eu era? Algum tipo de profeta? Acho que ando lendo muitos livros ultimamente...

Cansada de lutar para encontrar lógica em tudo o que estava acontecendo, acabei por adormecer. Quando abro meus olhos novamente já é noite, e alguém havia feito o favor de por um cobertor sobre mim, já que havia esfriado consideravelmente do dia para a noite.

Eu já havia descansado o suficiente, não tinha jeito de conseguir passar o resto da noite trancada naquele quarto. Caminhei silenciosamente até a porta e espiei pela fresta, constatando que todas as luzes estavam apagadas, o que significava que todos já estavam dormindo.

Olhei para o relógio no criado mudo que indicava vinte e três horas, em números verdes e luminosos. No ato mais impensado de minha vida, troquei de roupa rapidamente, vestindo uma calça jeans e uma blusa vermelha de mangas compridas, tomando o cuidado de não fazer nenhum tipo de barulho que pudesse denunciar os meus planos. Calcei minhas sapatilhas e prendi meu cabelo em um coque frouxo, amarrando-o com a mesma fita vermelha que estava usando na noite passada.

Juntando toda a coragem que tinha, abri a janela cuidadosamente e encarei a grande árvore que ficava logo a frente dela. Se eu caísse não seria uma queda muito grande, porém eu não queria pensar nesse detalhe. Respirei fundo e me segurei no galho mais próximo, levando meu pé direito ao galho mais fino que havia logo abaixo do mesmo, repeti o processo, ficando totalmente fora do quarto.

Havia uma precária casinha de madeira sobre a árvore, nunca havia reparado nela, mas parecia espaçosa o suficiente para adultos entrarem dentro dela. Sorri imaginando meus primos gordinhos que moravam aqui anteriormente brincando dentro dela, realmente tinha uma boa explicação para a casinha ser tão espaçosa. Depois daquele ponto foi fácil, havia uma pequena escadinha que levava até o chão, então desci por ali.

Quando cheguei ao chão não olhei para trás, com medo de desistir dessa loucura. Loucura... Ultimamente essa palavra tem estado presente até demais na minha vida. Ignorei todos os pensamentos coerentes e corri em direção a praça, eu precisava daquela paz novamente, precisava comprovar que não haveria ninguém ali para me ver dançar, apenas para provar a mim mesma que ainda estava presa a realidade.

Chegando a praça, percebi que ela estava completamente vazia, assim como na noite passada. Sem pensar duas vezes, rumei até seu centro, fechando os olhos e aspirando profundamente o cheiro de terra molhada que provinha dali.

Exatamente como da primeira vez, soltei meu cabelo e deixei que a delicada fita vermelha caísse no chão, enquanto meus cabelos se espalhavam por minhas costas, então enfim comecei minha coreografia. Minha testa ardia um pouco, principalmente quando abaixava minha cabeça, porém não me importei. A mesma calma de ontem invadiu meu corpo por inteiro, mas não abri meus olhos, achando que podia prolongá-la por mais algum tempo.

Dancei por longos minutos, aproveitando aquela doce sensação de paz e liberdade que a dança me trazia, sentimentos esses que estavam sendo acentuados por algum motivo que eu era incapaz de entender por completo. Senti que havia alguém me observando, o que fez que me empenhasse ainda mais em meus passos. Não tive medo, a calma prevalecia em mim.

– Eu sei que tem alguém aí. – disse para quem quer que fosse que estava me observando.

Virei-me devagar, com medo que ele fugisse ou desaparecesse novamente, logo meus olhos se cruzaram com um alto homem loiro, encostado na árvore. Seus profundos olhos escuros mantiveram-se fixos nos meus, aquele homem era perfeito. A luz da lua iluminava sua pele extremamente branca, dando-lhe um aspecto praticamente angelical. Dei um passo a frente, queria tocá-lo, saber se alguém tão perfeito podia ser real.

– Não acho uma boa ideia. – ele disse com uma voz perfeitamente harmoniosa e sedutora, fazendo um arrepio percorrer meu corpo, ao mesmo tempo que pode notar um certo tom de agonia naquela frase.

No momento em que abrir meu lábios para perguntar o por quê, como num piscar de olhos ele se foi. Senti um vento gélido em minhas costas, o que bagunçou levemente meus cabelos, deixando um delicioso cheiro de perfume masculino. Virei-me rapidamente, porém ele não estava em lugar algum.

Estava decepcionada por tê-lo deixado fugir de novo, mas ao mesmo tempo feliz por ter ouvido sua voz pela primeira vez. Abaixei-me para pegar minha fita, sustentando um enorme sorriso, porém ela não estava no local onde a deixei, varri os arredores com os olhos, mas ela não parecia estar em lugar nenhum.

– Ele é real... – disse para mim mesma, olhando para o local onde ele estava a alguns minutos atrás. – Estranha e misteriosamente real...