Capítulo 2

Eu estava sentada no banco da praça que ficava perto do tribunal, lendo um livro. Esperava por ele, ansiosa para lhe contar como eu tinha ido na única prova com cuja nota Greg realmente se preocupava. E porque, desde aquela quinta-feira, quatro dias antes, eu não o tinha visto outra vez.

- Jen? - ouvi a voz dele e ergui os olhos do livro. Ele sentou do meu lado. - O que você faz aqui?

- Eu estudo ali do lado. Pensei em dar uma parada aqui pra saber como foi o julgamento e te contar que tirei A em Química.

- Parabéns, querida!

- O mérito é todo seu - sorri.

- Como foi seu aniversário?

- Foi... Normal. Você podia ter passado lá.

- Passar na sua casa pra ver você e seus amigos menores de idade encherem a cara? Desculpa, eu sou tira demais. Você sabe disso.

- Tudo bem - respondi, meio amuada. - Eu senti falta de você, só isso.

Ele mexeu no nó da gravata, parecendo meio incomodado.

- O que você está lendo? - fechei o livro, para ele ler o título. - Lolita. Excelente escolha. Pena que não tem nada a ver com a gente.

- É a melhor parte. Me sentir normal.

- Se você tivesse 12 anos e eu 40, esse livro serviria de parâmetro. Mas você não é mais um bebê, graças ao bom Deus.

- Só que eles têm uma vida sexual mais ativa do que a nossa. Em conjunto ou separadamente.

- O que você sabe sobre a minha vida? Além do mais, há dois dias, você também era um bebê. O que me lembra... A escola acabou?

- Amanhã tem um jogo. Final da liga de lacrosse. E o baile de formatura é daqui a duas semanas. Mas, a partir de quarta, eu só vou ouvir falar de estudar ou treinar daqui a dois meses. Ah, cara, eu vou engordar absurdamente nessas férias.

- Ou não - ele sorriu, meio malicioso. - Você veio de carro?

- Não. Minha amiga me deu uma carona até a escola e eu vim pra cá a pé. Sabia que ia te encontrar aqui.

- Como?

- Eu te liguei pra te pedir uma carona e ninguém atendeu, nem na sua casa nem no celular. Aí eu liguei pra delegacia e a Cath me disse que você tava depondo aqui.

- Uau. Te contaram também a cor do meu pijama?

- Eu não perguntei. Mas descobriria, se quisesse.

- A gente precisa de gente como você no laboratório. Vamos pra casa?

- Tudo bem.

Fomos andando até o carro. Durante todo o trajeto para casa, conversamos sobre os meus planos para a festa de formatura: com quem eu ia (um atacante do time de lacrosse que sempre tinha me pedido uma chance), qual ia ser a minha roupa (um vestido frente-única vinho), que horas a festa acabava (lá pelas seis da manhã), onde eu ia dormir (em casa, talvez. Dependia dos acontecimentos da noite)... Ele parecia realmente interessado nesses detalhes, de uma forma quase ciumenta. E eu gostei muito disso.

Ele estacionou o carro e nós entramos no elevador vazio, cada um num canto. Mas, quando as portas se fecharam e nós nos entreolhamos, se tornou impossível resistir à tentação de começarmos, na pequena trajetória até o 5o andar, o que sabíamos que íamos terminar em um dos dois apartamentos.

A porta do elevador se abriu e ele tirou a chave de casa do bolso. Me olhou, daquele jeito meio "será que eu já posso pedir isso sem apanhar?" e perguntou:

- Quer entrar?

Fiz que sim. Entramos no apartamento e, logo depois de fechar a porta, ele voltou a me beijar, me carregando para o quarto. Sorri, quando ele fechou a porta - possivelmente por hábito - e acendeu a luz, dizendo exatamente o que passava pela minha mente:

- Acho que é hora de revogar aquela proibição, não é mesmo?

Assenti lentamente, sentando na cama alta, sobre o lençol azul-escuro. Ele sentou ao meu lado, me olhando de um jeito meio cheio de culpa, mas me beijou mais uma vez, me deitando na cama.

Tiramos as roupas um do outro, com uma lentidão que só servia para aumentar nossa vontade de pular aquela parte e ir direto para o que nos interessava. Mas ele parecia estar preocupado em me fazer achar que os dois anos de espera tinham valido a pena.

A língua dele corria meu corpo de um jeito enlouquecedor, enquanto suas mãos me acariciavam com firmeza e determinação. Ele parecia saber exatamente onde e como me tocar em cada momento, fazendo o desejo percorrer meu corpo em doses cada vez maiores e mais alucinantes.

Ele riu ao me sentir tremer sob seu corpo, afastando-se de mim, seus olhos me pedindo desculpas, justificando aquela atitude com as palavras mais sarcásticas que eu já vi seus lábios articularem:

- Não é que você não mereça. É só que está cedo demais.

Ele sentou na cama ao meu lado e abriu a gaveta da mesa de cabeceira. Pegou o pacotinho de camisinha e o jogou na minha barriga, com ar displicente.

- Você sabe o que fazer, não sabe?

Fiz que sim, pegando o pequeno pacote e sentando também. Beijei-o e sentei sobre suas coxas. Com um pouco de dificuldade, porque eu não tinha o hábito de ser quem fazia isso, abri o lacre e puxei a camisinha. Sem parar de beijá-lo, fiz o que ele me pediu, até ouvi-lo gemer baixinho. A relativa dificuldade que eu tinha com aquelas coisas que ele achava tão simples, que apenas servia para evidenciar a minha inexperiência, tinha para ele o mesmo efeito que, para mim, tinham aqueles toques perfeitos dele. E isso fazia tudo parecer ainda mais maravilhoso.

Sem tirar os meus olhos dos dele, desci, lentamente, meu corpo sobre o seu, sentindo-o dentro de mim, da forma que tinha passado dois anos fantasiando. Gemi baixinho, fazendo-o sorrir. Subi de novo, ainda devagar, e hesitei um segundo antes de repetir o movimento.

Fiz isso mais umas duas ou três vezes antes dele me segurar pela cintura, me impedindo de me mover.

- Podemos começar de verdade agora? – ele perguntou, me deitando na cama. Arqueei uma sobrancelha, rindo, e respondi:

- Por favor.

Ele desceu o corpo sobre o meu com violência, se forçando para dentro de mim, arrancando de meus lábios um gemido de dor, que pareceu provocar-lhe uma relativa sensação de prazer, daquele prazer sádico que fazia tempo que ele vinha dizendo que adorava sentir. E que eu estava realmente disposta a lhe proporcionar.

- Eu adoro quando vocês pedem "por favor".

Deixei que ele se divertisse um pouco com aquilo, com aquela situação. Eu sempre preferi fazer as coisas daquela forma, porque gostava da situação de submissão. Mas, durante aquele um ano de namoro com o James, eu tinha aprendido a fazer as coisas ao contrário, e, instintivamente, o virei, tentando inverter as posições. E foi aí que ele caiu com um baque pesado no chão e gritou o meu nome.

Deitei na cama, vendo a cena da maquete de DNA passar diante dos meus olhos. A expressão dele era exatamente a mesma, e eu tive que me controlar muito para não começar a rir.

- Vem aqui agora, Jennifer – ele mandou, ainda sem se mover. Com calma, fui até ele e me deitei sobre seu corpo. – Não mesmo, Jenny – ele me virou, batendo meu braço no armário.

O corpo dele voltou a se encaixar no meu, com perfeição. Nunca em minha vida eu tinha experimentado ser realmente completada por alguém como eu me sentia com ele: parecia que Greg sabia exatamente tudo o que eu queria, mesmo sem jamais ter feito aquilo comigo. E não importava o quanto cada um daqueles movimentos bruscos me machucasse – fosse pela força com que ele os fazia, fosse pelo tapete grosso contra o qual eu era empurrada. Era simplesmente bom. E não seria tão bom se não fosse daquele jeito.

Minhas unhas escorregavam pelas suas costas úmidas de suor, sempre que eu tentava arranhá-lo, para tentar lhe infligir parte da dor que eu sentia. Não que eu me incomodasse de verdade com ela. Sabia que, se eu pedisse, ele pararia, não importava o momento. Mas eu não queria que ele parasse.

Ele gemeu e seu corpo se retesou. Nos entreolhamos por um instante, antes de eu abraçá-lo. Ele continuou os vaivens, determinado, abusando de seu controle. Estremeci, de leve, sentindo aquele prazer absurdo e sobrenatural me invadir. Mordi seu ombro para não gritar de dor quando, com mais força ainda, ele se empurrou para dentro de mim pela última vez, deixando meu nome escapar, baixinho, por seus lábios.

Me pegou no colo e me deitou na cama, me observando enquanto eu sentia os efeitos do orgasmo esvaírem do meu corpo.

Fiquei contemplando os orbes castanho-claros dele, percebendo que ele parecia tentar decidir se dizia ou não o que pensava em dizer. Mordia o lábio inferior, inseguro, fixava os olhos em mim e, em seguida, parecia desistir, perder a coragem.

- Greg?

Ele me olhou, sorrindo.

- Eu?

- O que foi? Eu sei que você quer falar alguma coisa.

- Você é linda - ele sussurrou. Sentindo-me corar, virei o rosto para o outro lado. - Desculpa, Jen, eu sempre fico meio romântico depois disso - ele revirou os olhos quando eu o fitei novamente. - É por isso que eu costumo não dizer nada.

Ri, me virando para ele.

- Ainda tá doendo? - perguntei, meio receosa.

- Um pouco. Acho que se eu tomar uma aspirina passa - pegou o vidrinho na gaveta e tomou um comprimido. - Da próxima vez, me empurra pro outro lado, esperta.

- Foi sem querer! Depois de te ver no chão é que eu pensei nisso.

- Você é mesmo um gênio - ele debochou. - Mas tudo bem. Eu também não tava exatamente pensando muito bem àquela altura - ele me olhou, sorrindo, e perguntou: - De novo?

- De novo - respondi, sem hesitar. Sentindo o peso dele sobre mim mais uma vez, pensei que aquela seria uma noite muito longa. Mas potencialmente maravilhosa.

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A primeira coisa que fiz ao acordar no dia seguinte foi procurar o despertador no lugar onde ele costumava ficar na minha casa. Mas eu não estava em casa, e cada um daqueles móveis de madeira escura deixava isso muito claro.

A última vez que eu tinha entrado no quarto dele tinha sido treze anos antes. Naquele tempo todo, muita coisa tinha mudado, e o quarto dele agora era mais parecido com o de um cara normal do que quando ele era mais novo: papéis se empilhavam no chão, junto com revistas (a grande maioria delas relacionada a Ciências) e os manuais de todos os equipamentos eletrônicos da casa; uma pilha de roupas, provavelmente recém-trazidas da lavanderia, cobria uma cadeira; o armário tinha as portas quase inteiramente cobertas por fotos dele e dos amigos, além de post-its com os compromissos anotados; sapatos se espalhavam pelo chão, junto com nossas roupas e o telefone sem fio. Mas em nenhum lugar havia um relógio no qual eu pudesse ver que horas eram.

Ele estava deitado de costas para mim, ainda dormindo. Seus cabelos estavam mais bagunçados que o normal e havia alguns arranhões em sua pele. Eu tinha me empolgado bastante na noite anterior.

Saí da cama para me vestir e tomar o café, enquanto o esperava acordar para poder ir embora. Coloquei a minha lingerie e a camisa social dele - afinal era mais fácil fechar uns botões do que achar as minhas roupas, que estavam espalhadas, reviradas e amarrotadas pelo quarto.

O banheiro era o contrário do quarto: todo arrumado e cheio de produtos para o cabelo. Mais até do que o meu. Me arrumei com cuidado, sabendo que nada estraga mais as chances de ter uma segunda noite do que estar mal-cuidada no dia seguinte. Peguei a bolsa no chão da sala. Oito da manhã. A que horas tínhamos ido dormir mesmo? A última noção de tempo de que eu me lembrava era o pôr-do-sol, que tinha acontecido antes da primeira. Mas quantas tinham vindo depois disso? Várias, disso eu tinha certeza.

Abri os armários da cozinha, procurando comida. A primeira coisa que notei foi que as Playboys tinham sumido. Imaginei que elas talvez tivessem só mudado de lugar, ido se juntar às outras.

Fiz café, porque estava morrendo de sono, e peguei a lata de cookies que, desde que eu me lembrava, ele mantinha cheia por minha causa. Sentei no sofá da sala e liguei a televisão para ver alguma coisa enquanto ele dormia.

- Bom dia, Jen - ele sussurrou, como se não tivesse mais voz. - Como foi a noite?

Ele encheu uma caneca com o café e sentou ao meu lado.

- Maravilhosa, na verdade. E a sua?

- Eu estou morto. E ainda não sei se consigo mexer as costas. Preciso de um remédio. Mas nunca fiquei tão feliz por isso na vida.

- Você vai trabalhar hoje?

- É exatamente por isso que eu preciso resolver o problema das costas - ele parecia animado com a perspectiva de trabalhar, apesar do certo pesar que a idéia de voltar aos horários incompatíveis com o meu lhe proporcionava. - Mas eu só trabalho depois das dez. Algum plano pra hoje?

- Não pra agora. Eu tenho jogo, mas é depois das três.

Ele tomou um gole de café e me olhou, parecendo pensar seriamente no que ia me propor. Eu já estava pronta para dizer que não quando ele finalmente perguntou:

- Já atirou alguma vez na vida?

- Essa é a sua idéia de romantismo?

- Não. Essa é a minha idéia de diversão. Vamos? - ele me olhou com aquele jeito de cachorro pidão que caiu da mudança. Eu não podia dizer não.

- Tá legal. Quer dizer... eu nunca fiz isso na vida. E nem sei se posso entrar num lugar desses.

- Relaxa, Jenny. Não é como se fosse a coisa mais difícil do mundo. Você só vai lá na sua casa e coloca alguma roupa que não tenha decote. Eu cuido do resto. A gente se encontra aqui em casa daqui a uma hora. Depois eu te levo pra comer e te devolvo antes do jogo. Acordo?

- Parece uma boa idéia - terminei de tomar o café e fechei a lata de biscoitos. - Eu vou me arrumar - o beijei. - Até daqui a pouco.

- Até, querida.

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- Olha só, tem que se concentrar no alvo - ele havia encarnado de vez o espírito de instrutor, e parecia impaciente por causa da minha incapacidade de acertar a maldita folha de papel. - Você não pode ficar nervosa assim. Eu sou o tira, tudo bem se você errar o centro. Mas pelo menos acerta a folha! - ele recolocou os fones, me fazendo sinal para fazer o mesmo. - Vou só corrigir a mira - ele gritou, para que eu pudesse ouvir. Acertou minha postura e se afastou. Tremendo, puxei o gatilho. A bala voou e acertou bem no meio da cabeça da sombra desenhada na folha. Coloquei a arma na bancada e tirei os fones. - Eu tinha mirado mais pra baixo... Mas muito bem. Você pelo menos matou o cara... - sorriu. - Com um pouco de tempo, você vai poder ser uma psicopata.

- Isso é bom?

- Assassinas são sexy, pra falar a verdade. Quer trocar comigo? A minha é mais fácil de atirar.

Ele tirou a .38 do coldre e a estendeu para mim. Entreguei-lhe a 9 mm.

- É uma semi como essa - ele recarregou o tambor da 9 mm. - Só que eu prefiro a minha. A gente se fala daqui a seis tiros, ok?

Recolocamos os fones. Seis tiros, um atrás do outro. Todos eles acertaram a tal sombra. Um, o último, exatamente no centro do alvo, onde - de acordo com as minhas péssimas noções de anatomia - provavelmente era o coração.

Ele se aproximou de mim e apertou um botãozinho, fazendo o alvo se aproximar.

- Nada como acertar um dos tiros - ele brincou. - Parabéns, querida. Eu não queria te contar isso, mas você acertou na distância de profissional. Quer continuar?

- É legal. Eu posso?

- Se você tá gostando... Eu sempre achei que você ia gostar disso. Vou pegar mais munição.

Quando ele voltou, eu estava usando a tal 9 mm, que ainda tinha munição. Pude notar um certo brilho de orgulho em seus olhos ao me ver tentando. Tudo o que ele sempre quis foi alguém com quem compartilhar uma paixão. E tudo o que tinha a ver com investigação criminal era uma parte dessa obsessão em comum.

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- Você foi ótima, sabia?

Ele me abraçou, aquele orgulho ainda mais intenso em seus olhos.

- Ah, fui?

- Depois que você desistiu de me impressionar... No dia em que saber atirar for um pré-requisito pra eu gostar de alguém, eu caso com você numa capelinha daquelas. Porque, além de tudo, você agora sabe - ele fez uma pausa, antes de sussurrar: - E é boa de cama. Boa demais pra alguém tão nova.

- Nova nunca foi sinônimo de inexperiente.

- Bom ponto - ele sorriu. - Vamos comer?

Entramos no carro. Ele ligou o rádio e pôs para tocar mais um daqueles CDs de rock do início dos anos 90.

- Eu era o melhor nas aulas de tiro da Academia - ele comentou, batucando no volante como se tocasse a bateria. - O que compensou, na minha avaliação final, a total incapacidade de ser disciplinado que caracteriza a minha pessoa desde quando eu era nerd.

- Isso quer dizer que você quase não foi aprovado?

- O conceito que eles têm de disciplina é absurdamente distorcido. Só que eu não podia me rebelar, ou perdia o trabalho dos meus sonhos. Não existem CSIs que são civis. Hoje, o indisciplinado trabalha no departamento que mais requer disciplina e organização. E, afinal, se o Grissom pode ser o supervisor, eu posso tudo.

Paramos na frente de um pequeno restaurante numa rua a algumas quadras de onde morávamos. O manobrista o cumprimentou pelo nome.

- Cuidado com o meu carro, Timothy - ele trancou a .38 no porta-luvas e guardou a chave no bolso. Entregou a chave do carro ao manobrista. - Eu não quero ele muito longe dessa vez, ok?

- Pode deixar, Greg. Ele está em boas mãos.

Entramos no restaurante e a garçonete nos levou até uma mesa próxima à janela. Ela nos entregou os cardápios.

- Alguma coisa pra beber, Greg?

- Duas Cocas - ele respondeu prontamente. - Por enquanto é só.

A garçonete se afastou.

- Você sempre recebe tratamento VIP?

- O segredo é se tornar um freqüentador do restaurante e dar boas gorjetas. Se isso não funcionar, o distintivo resolve o seu problema. O que você vai comer?

- Uma salada - não hesitei em responder. - Não posso comer nada com mais calorias do que isso em dia de jogo. Sinto muito.

- Você não vai contar calorias depois de ontem, vai?

- Metabolismo - sorri, como se isso dissesse tudo. - Mas você tem potencial pra ser uma excelente dieta.

- Isso é um elogio e tanto.

As Cocas chegaram. A garçonete anotou os pedidos: uma salada para mim e o bife com batatas fritas mais tentador que eu já vi na vida para ele. Ah, como o mundo é injusto...

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- Meu Deus, torce pro meu time... - ele me olhou de cima a baixo, me comendo com os olhos. Eu ri.

- Por que todos os caras me dizem isso? - joguei os pompons na cara dele, que os deixou cair no chão da garagem.

- Porque você fica realmente tudo nesse uniforme de cheerleader - ele me beijou. - Só chegou agora?

- Estávamos comemorando a vitória no Estadual. E, sabe como é, boa parte da equipe tá pendurando os pompons, pelo menos por enquanto - comecei a pular no mesmo lugar para me esquentar. A noite estava bem fria para a saia mínima que eu estava usando. - E os resultados da faculdade chegaram, o que nos deu ainda mais motivos pra comemorar. Você está olhando pra mais nova caloura da UNLV. Também admitida na Brown, Harvard e Yale... E mais três da Ivy League. Sem contar várias outras espalhadas pelo país. E não, não foi porque eu sou cheerleader. Os meus pompons vão se aposentar pra sempre.

- E como foi que você entrou em todas essas faculdades?

- Eu nunca disse que não tinha notas boas. Eu só não queria que lembrassem de mim como a melhor da classe. Fora em Química, eu era a melhor. Consegui mais cartas de recomendação que você. Além do mais, eu fiz as extracurriculares certas e arrasei nas entrevistas com esse meu jeito de santa.

- Isso porque você não teve que dormir com os caras.

- Porque, se eu tivesse, eu não tinha sido recusada em algumas delas.

- Ou matava os velhos do coração - eu ri. - Você vai mesmo ficar em Vegas? - eu fiz que sim. - Por quê?

- Porque a UNLV tem uma matéria que me interessa muito com o melhor professor do mundo. Porque eu amo Las Vegas. Porque eu não quero morar sozinha tão cedo. E porque eu não me vejo morando em Providence, Rhode Island.

- Que matéria?

- O nome formal é "Serial Killers e Crimes Sexuais". Duas coisas pelas quais eu sempre fui obcecada. Uma análise detalhada da psicologia e do MO dos caras.

- E isso é matéria de outono pro primeiro ano?

- Claro! Eu preciso entrar nessa turma.

- Boa sorte - ele sorriu. - Se você quiser entrar na Academia agora, me avisa. Eu te ponho lá em dois segundos. E você ainda corta caminho nas aulas de tiro.

- Eu prefiro esperar o diploma - suspirei. - Você tem que ir trabalhar, não tem? - ele fez que sim. - Eu preciso ir pra casa. Estou com frio. Amanhã eu devo dormir até umas duas horas. Me liga quando chegar, tá legal?

- Pode deixar. Boa noite, Jenny.

- Boa noite, Greg - fui para o elevador, enquanto ele ligava o carro e saía da garagem.

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- Você jura que não tava só me esperando te ligar?

- Não. Eu tava vendo filme, seu convencido.

- Quer ir lá pra dentro? Aqui fora tá uma zona.

Eu o abracei e beijei sua boca. Adorava aquela espontaneidade e aquela ausência da necessidade de explicações. Tudo com ele apenas acontecia, naquele ritmo acelerado e desconexo tão típico de começo de relacionamento, mas com uma naturalidade que eu nunca tinha experimentado antes.

E foi exatamente assim que eu me senti quando, tentando ao máximo não parar de me beijar, ele me carregou para o quarto e me jogou na cama, me fazendo quicar no colchão.

- Eu não consegui trabalhar pensando em você - ele sussurrou. - Pensando que eu podia ter perdido a graça agora que você já conseguiu o que queria - ele beijou delicadamente o meu pescoço. - Mas eu estava errado... E nunca na vida gostei tanto disso.

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Continuei encolhida na cama, coberta pelo lençol verde-escuro, depois que ele foi tomar banho para se arrumar. O som da água caindo no chuveiro atravessava a porta, junto com a fumaça que deixava claro que a água estava muito quente, me dando um pouco de vontade de estar lá com ele. Mas eu não podia. Já estava tarde demais, e ele não podia chegar atrasado.

- Olha, se você quiser pode ficar depois que eu sair. Só tranca a porta, ok? - ele voltou para o quarto e jogou a toalha sobre a cama. - Sim, eu tenho hábitos irritantes - brincou, vendo meu olhar de reprovação. Pegou uma jeans no armário da parede ao lado da cama e a vestiu. - Pode levar a chave. Eu tenho uma cópia.

- Você já vai me dar uma chave? Daqui a um mês eu já vou estar morando aqui.

- Uma coisa de cada vez - ele sentou na cama e me olhou, fazendo carinho nos meus cabelos. -O que você tem?

- Nada. Só estou... Pensando.

- Pensando em quê?

- Que você vai trabalhar e eu vou ficar aqui e que só vamos nos ver daqui a 16 horas e... E eu nunca achei que eu fosse ver você se arrumando pra sair. Não deitada na sua cama.

- É diferente, não é? - ele sorriu. - Eu estava pensando exatamente a mesma coisa enquanto tomava banho - me deu um selinho e levantou da cama outra vez. Voltou para o banheiro, deixando a porta aberta.

Eu podia vê-lo, pelo reflexo do espelho, arrumando os cabelos, usando, para isso, a maior parte dos cremes que ficavam na frente do de um longo tempo, voltou para o quarto e pegou o telefone sem fio. Sentou do meu lado e perguntou:

- Fome? - eu fiz que não. - Certeza?

- Absoluta.

Ele levantou, dizendo que voltaria logo. Enquanto ele estava lá fora, eu saí da cama, me vesti e prendi os cabelos num rabo-de-cavalo, só para não ter que penteá-los. De certa forma, eu invejava a paciência que ele tinha para se arrumar tanto e acabar revirando latas de lixo.

- Essa semana vai ser meio cheia, querida - ele desligou o telefone e o jogou na cama. Pegou uma camisa no armário e a vestiu. - Tenho um julgamento depois de amanhã. E só voltei pra casa hoje porque eu queria ver você.

- Tudo bem - eu sorri. - Me dá notícias, ok?

- Pode deixar - ele deitou na cama e me abraçou. - Que bom que você é compreensiva.

- Não é ser compreensiva. É ter bom senso. Eu sei que sou só um passatempo.

- Você não é um passatempo, Jenny. Um caso, se você quiser chamar assim. Mas não um passatempo.

- E qual é a diferença?

- Eu não vou cansar de você daqui a uma semana - ele sorriu, me beijando, puxando o meu corpo para cima do dele. - Nem daqui a um mês.

Me ajeitei em cima dele, aproveitando a oportunidade de vê-lo de cima, já que ele preferia ter "tudo sob controle". Não que eu me importasse. Fora da cama, ele costumava me obedecer. E ser a dominatrix nunca foi uma coisa de que eu gostasse.

Ele sorriu. Se quisesse mesmo, teria me jogado na cama. Mas ele estava gostando disso. Tanto quanto eu.

- Você fica bonita vista desse jeito. Mesmo - beijou com delicadeza o braço em que eu me apoiava. - O que foi? Você está vermelha.

- Elogios fazem isso comigo.

- Sei.

O interfone tocou. Nos entreolhamos.

- Eu atendo. Você tem que se arrumar pra trabalhar.

- Deve ser o delivery. A carteira tá em cima da mesa.

Com uma estranha sensação de importância, corri para atender o interfone e pegar aquilo que ele chamava de almoço: comida chinesa delivery, às seis horas da tarde. Paguei o entregador e fechei a porta, voltando para dentro.

- Você jura que não quer comer comigo? - ele perguntou, sentando no sofá da sala e pegando dois hashis. - Eu estou morrendo de fome. Você me deixa exausto.

- É bom saber disso - sentei do lado dele. - Eu posso fazer um esforço e te acompanhar - peguei os outros dois hashis. - Mas não sou muito fã.

- Quem te ensinou? - ele me entregou uma caixinha, enquanto comia o conteúdo da outra. Era perceptível que ele tinha pedido em dobro, na esperança de conseguir me fazer comer.

- O Jay. Ele gostava.

- E você não?

- Não é minha comida preferida. Prefiro bife com batata frita. Com muito sal e muita gordura. O tipo de comida que estraga qualquer dieta e qualquer saúde.

- Fumar é pior - ele respondeu, com ironia. - Quando eu parar em casa, eu prometo que te levo pra almoçar bife com batata frita e mais nenhum legume. Acordo?

- Acordo.

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- Aonde vamos, Greg? - perguntei, meio apreensiva, depois de termos rodado por pelo menos meia hora, passando por ruas escuras e vazias.

- Relaxa, Jenny! Não é como se eu fosse parar num desses becos e... - ele fez uma pausa, mas eu o mandei continuar. - E te estuprar e te matar - ele corou. - Desculpa. Eu vejo isso todo dia. Acaba mudando o senso de humor das pessoas.

- Tudo bem - mordi o lábio. - Eu sei que não vai. Mas, se algum dia você quiser me matar... Se for de um jeito sexy, a gente pode negociar.

- Jennifer! - ele gritou meu nome, com ar de censura.

- Aonde vamos, Gregory?

- Jantar no Bellagio - respondeu, simplesmente. - Eu estou me tornando um cara importante por causa do meu livro. Consegui um quarto pra nós. O que você me diz?

- Nós vamos jantar no Bellagio às seis da tarde?

- Jantar num quarto do Bellagio. Estão fazendo o seu bife com batata frita nesse momento.

- Podia ser mais romântico?

- Podia ser em New York, à luz de velas... Talvez na cobertura de um hotel chiquérrimo. E, principalmente, podia ser numa noite que nós pudéssemos passar juntos de verdade até o sol nascer.

- Nada é perfeito, Sanders.

- Eu sei - ele sorriu. - Olha... Eu vou ter que ir trabalhar, mas... Me garantiram que todas as despesas, minhas e da minha acompanhante, estariam por conta deles. Então... Se você quiser usar e abusar do spa e do salão e tudo... E depois você me espera no quarto.

- E você volta pra lá? - ele virou uma esquina, e estávamos na Flamingo.

- Eu sei que é um saco - ele revirou os olhos. - Mas eu gosto mesmo do que faço.

- Eu sei disso... Só... Queria passar a noite com você.

- Vou fazer o possível pra voltar cedo. E, quando eu chegar... - outra esquina. Seguimos pela superiluminada Strip por mais uns poucos metros. - Vamos fazer o que você quiser. Mesmo que seja só dormir ou ficar vendo alguma comédia romântica - ele entrou no hotel e desligou o carro. - Esse não é meu encontro dos sonhos, Jen - ele disse, em tom de quem pede desculpas. - Muito menos um primeiro encontro.

- Greg, pelo amor de Deus, cala a boca! - saímos do carro. - Olha esse lugar! Eu jamais poderia pedir mais perfeição de um cara do que me trazer aqui!

Ele entregou as chaves ao manobrista, que só esperou o carregador pegar a bagagem na mala antes de levar o carro para a garagem.

- Você tá falando sério?

- É claro que estou! Eu sempre quis passar uma noite aqui!

Ele me abraçou, prendendo o polegar no bolso de trás da minha jeans. Andamos até o balcão, no qual encostamos.

- Boa noite. Bem vindos ao Bellagio. Em que posso ajudar?

- Eu tenho uma reserva pra essa noite. Um quarto em nome de Greg Sanders - ele jogou a carteira de motorista sobre o balcão, daquele jeito displicente tão típico dele.

- Os documentos da garota? - ela pediu.

Nos entreolhamos. Tirei a carteira de motorista da bolsa e a mostrei à mulher, que a analisou atentamente, parecendo especialmente preocupada com a diferença entre 1980 e 1990. Ao devolver os documentos, junto com o cartão que servia de chave, ela fitou o Greg, como se perguntasse se ele não tinha vergonha na cara. Não, nenhuma.

- Quarto 1402. Mais alguma coisa?

- Nós vamos precisar de outra chave. O jantar deve ser entregue no quarto em precisamente meia hora. Ela - ele apontou para mim - tem que ser tratada tão bem quanto eu. E tudo o que ela pedir vai para a minha conta, que, como eu deixei combinado com o seu chefe, é confidencial e deve ser destruída assim que eu fizer o check out - ele fez uma pausa, como se quisesse ter certeza de que ela não teria dúvidas. - Ou eu faço a sua vida ser um inferno - ele abriu o terno, apenas para mostrar o distintivo. - Temos um acordo, linda? - o sorriso mais galanteador surgiu em seus lábios. Ela gaguejou um "sim" tímido e nos entregou a segunda chave.

- Aproveitem a estadia no Bellagio Hotel - disse, perdendo o ar de superioridade com que tinha falado até então.

- Isso não é tipo abuso de autoridade? - perguntei, quando estávamos longe dela o suficiente.

- Talvez. Mas funcionou. E ela não ousaria dar queixa por isso.

A porta do elevador se abriu. Entramos, junto com duas morenas usando as menores saias que eu já vi. Ele não pôde evitar um olhar de cobiça para elas.

- Greg! - chamei sua atenção. - A gente tá num encontro!

O elevador parou e as duas saíram, rindo.

- Você fica linda quando tá com ciúmes, sabia?

Não respondi. O elevador parou outra vez, agora no 14o andar. Saímos dele e paramos na porta do quarto de número 1402. Ele passou o cartão pelo leitor e abriu a porta. Entramos no foyeur, os saltos do meu sapato fazendo um barulho seco no mármore do chão. Ele me mandou entrar, dizendo que ia esperar as malas. Sem hesitar, eu o obedeci.

Fiquei, por um instante, boba com as duas imensas camas, uma ao lado da outra, cobertas por um grosso edredom marfim e lençóis rosa-antigo. Mas isso foi até eu olhar para o lado e ver as luzes da Strip através da janela. Mecanicamente, joguei a bolsa na cama e andei até o imenso vidro, no qual encostei as mãos, como se quisesse tocar aquelas fontes e holofotes e néons e as limos que passavam lá embaixo, na rua.

Ouvi Greg agradecer a alguém, antes de fechar a porta. Jogou as malas na cama com um ruído fofo e, em seguida, veio até onde eu estava.

- É lindo, não é? - me abraçou, beijando minha nuca.

- Fantástico - respondi, sem me virar. - Por que alguém iria querer sair de um lugar tão lindo?

- Pode parecer absurdo, mas pouca gente gosta de morar em Vegas. Especialmente menores de idade.

Encostei um pouco mais meu corpo no dele, deitando a cabeça em seu ombro, ainda de costas. Queria aproveitar o tempo que ainda tínhamos juntos. Aqueles horários eram estranhos. Mas, pelo Greg, valiam a pena.

- Eu ia passar a noite da formatura aqui - sussurrei. Ele se afastou de mim e me levou pela mão até a cama vazia.

- Com o Jay? - fiz que sim, deitando na cama e olhando o teto de um jeito meio sonhador. Ele sentou do meu lado, me observando. - O que realmente aconteceu, Jen? Só o tédio não justifica.

- Eu não quero falar nisso - mordi o lábio. A verdade é que lembrar doía, e muito. Porque, por mais que eu não tivesse caído de cabeça, eu pelo menos tinha sido fiel. O que é mais do que eu podia dizer dele. - Mas não tem nada a ver com você.

- Imagino que não. Você não seria boba.

- Nem um pouco - sentei na cama. - Quanto tempo até o jantar?

- Uma meia hora.

Sem dizer mais nada, eu o beijei. Era impossível não fazê-lo, na verdade, porque o Greg tinha aquele jeito de pedir só com os olhos, sem dizer nada, que só tornava a idéia ainda mais irresistível.

Ele se afastou de mim, relutantemente, e me fitou. Parecia pensar que, se não dava tempo de fazer direito, era melhor nem começar.

- Escuta... - comecei. - No fim do mês vai ter uma festa na casa de um amigo meu. Se você não tiver cansado de mim até lá... - ri. - Eu ia gostar de você fosse.

- Pra quê?

- Pra estar lá. Me fazer companhia. Você me levou ao laboratório para me exibir. Eu só quero fazer o mesmo.

- Eu vou pensar sobre isso, ok?

O espelho na outra parede refletiu o desapontamento em meus olhos. Ele correu o dedo pelo meu rosto, me fazendo sorrir.

- Jen, eu trabalho de noite. Pegar uma folga não é simples como matar um treino de cheerleader. Eu adoraria ir. Mesmo. Mas não sei se vai dar.

-Tudo bem - forcei um sorriso. Pode parecer meio fútil e interesseiro, mas é difícil ter raiva de alguém que te leva para uma noite no Bellagio. - Greg, o que acontece se você pegar um caso aqui hoje?

- Eu contaria pro Grissom que eu estou aqui a convite do gerente e ele me trocaria com alguém e eu iria revirar latas de lixo se desse sorte. Pode dizer, o meu trabalho é o mais romântico - ele fez uma cara de preocupação. Pegou o telefone e discou o número da recepção. - Boa noite, Rose - ele usou o tom mais Don Juan que conseguia, se controlando para não rir. - Aqui é o CSI Sanders. Você poderia me informar se alguém morreu aqui hoje? - ele colocou no viva-voz, para eu poder ouvi-la gaguejar um "não, senhor". - Obrigado, Rose.

Ele desligou o telefone e começou a rir, descontroladamente, deitando na cama. Seus olhos se encheram de lágrimas e seu rosto começou a ficar ligeiramente avermelhado. Por fim, ele atravessou a cama, deixando a cabeça pender para baixo. Respirou fundo e se sentou, sem fazer muito esforço pra isso.

- Eu sempre quis fazer isso - comentou, ainda ofegante.

- Se a polícia bater aqui atrás de um psicopata, eu te mato.

- Só se for de um jeito sexy - ele debochou, me dando um selinho, antes de pular da cama.

- Aonde você vai?

- Arrumar o cabelo de novo - ele sorriu, tirando uma luva de látex de dentro da mala e indo para o banheiro. Corri atrás dele, rindo. - Algum problema?

- O que você vai fazer?

Sem responder, ele esticou a luva e a colocou na cabeça, ficando com a aparência mais estranha que eu já tinha visto - superava, inclusive, a época em que ele fez um tabuleiro de xadrez no cabelo. Com uma careta, a puxou de uma vez só para cima, tirando-a, e a jogou na lata de lixo. Os cabelos ficaram espetados, especialmente no meio, dando um efeito meio moicano que até que não ficou ruim.

- Perfeito - ele arrumou os fios rebeldes e me olhou. - Que cara é essa, Jen? Parece que você tá com medo de mim.

- Não de você. Não dava pra fazer isso com um pente? - a campainha tocou. Saímos do banheiro.

- Não fica igual - ele abriu a porta. Um empregado do hotel entrou no quarto, trazendo um carrinho com o jantar. - Pode colocar na mesinha, por favor - o empregado obedeceu, colocando a bandeja sobre a mesa. Greg lhe entregou a gorjeta. - Eu cuido a partir daqui. Obrigado.

Ele fechou a porta e me carregou até a mesa. Sentamos, e ele me entregou um dos pratos de porcelana.

- Você quer que eu faça isso pra você?

Fiz que não. Nos servimos e ele foi até o frigobar, pegar duas garrafas de Coca-cola, daquelas de vidro que são difíceis de encontrar e quase não têm refrigerante, mas pelo menos são bonitinhas.

- Eu tomaria um vinho agora, se combinasse. Mas é meio estranho ver você secando a minha taça. E eu não posso beber antes de ir trabalhar.

- Isso não faz sentido - comentei, dando uma garfada numa batata frita e a analisando. Quando tinha sido o último jantar hiper-calórico como aquele? Provavelmente antes do meu namoro com o James. Ele estava preocupado demais em exibir a namorada cheerleader-mas-que-podia-ser-modelo para me deixar comer frituras. Feliz da vida, enfiei a batata na boca.

- O que não faz sentido?

- Eu ter idade pra transar com você desde os 16 e não ter idade pra beber. Quero dizer... Eu posso dirigir, votar, dormir com quem eu quiser, casar com quem eu quiser, morar do outro lado do país, ter conta num banco, entrar em um hotel sozinha... Mas não posso beber?

- Se fizerem sentido não são leis. E, infelizmente, eu sou só um humilde membro do judiciário...

- Três poderes... O inferno da minha vida...

- Aulas de resgate de refém são mais chatas. E eu nunca cuidei de um seqüestro.

Sorri. Ficamos em silêncio um tempo, comendo e pensando no que dizer.

- A comida tá boa? - ele perguntou, tomando um gole do refrigerante.

- Não podia estar melhor. Obrigada por me trazer aqui, Greg. Eu realmente não merecia tudo isso.

- Ah, claro que não merecia. Qual é, Jen, nós estamos dormindo juntos. Isso quer dizer alguma coisa.

- Quer dizer que eu não sou mesmo delicada.

- Você não tem noção de como eu fico grato por todos os caras do seu passado por isso.

- Tenho sim. Eu vejo isso nos seus olhos.

- Eu sou tão óbvio assim.

- Só nas horas certas - sorri. - Mas só porque eu aprendi a ler você. 18 anos de convivência serviram pra isso. E também pra eu saber que tem alguma coisa te incomodando. O que é?

- Ter que ir trabalhar e te deixar aqui e saber que, enquanto eu estou me matando pra fechar o caso que me passaram ontem, você vai estar sendo mimada por outros caras. É claro que você merece isso...

- É só que você tem ciúmes de mim.

- Não é ciúmes. É que eu não quero que acabe agora.

- Não vai acabar tão cedo, se depender de mim. Prometo.

Ele sorriu. Podíamos até não ter nada sério, mas o que tínhamos era bom. E não queríamos abrir mão disso.

xxxx

- Jen? - ele chamou meu nome quando entrou no quarto. - Você tá acordada? - eu disse que sim e desliguei a TV. - Pode vir aqui me ajudar?

Levantei da cama e fui, relutante, até o foyeur, onde ele estava parado, me esperando, junto com outro empregado do hotel.

- O que é isso?

- Sobremesa. Pode levar as taças pra dentro? - ele sinalizou as duas taças de vinho tinto e pegou a garrafa. - Eu quero poder dormir o mais rápido possível.

- Cansado, Greggo?

- Bastante - colocamos as coisas na mesa, junto com os pratos que ele tinha mandado trazer. - Petit gâteau?

Olhei cobiçosa para os bolinhos, o sorvete de creme e a calda de chocolate. Ah, eu queria. Com certeza.

Sentamos à mesa e ouvimos a porta se fechar com um estalo. Ele abriu a garrafa de vinho e encheu duas taças.

- Você tava certa, sabe? Você devia poder fazer o que quiser.

Tomei um gole do meu vinho, antes de comer uma colher de sorvete.

- Você é o mais perfeito carinha rico, Greg... Não é qualquer um que simplesmente compra uma garrafa de vinho da adega de um restaurante como os daqui.

- Eu quase não tenho com que gastar dinheiro. Tenho direito a essas frescuras.

- Como foi o trabalho hoje?

- Fechei um caso com o Nick. E começamos um outro super interessante. Foi um caos, mas o Grissom me liberou quando eu pedi pra vir te ver - ele bocejou.

- Ah, foi?

- Eu prometi, não foi?

- Quando foi a última vez que você prometeu sair cedo do trabalho e eu pude confiar?

- Quando foi que eu te deixei esperando no Bellagio?

Terminamos de comer e beber. Ele fechou a garrafa e nós fomos para a cama.

- Boa noite, Jenny - ele sussurrou, me abraçando.

- Boa noite, querido.

xxxx

Acordamos com o despertador às onze horas da manhã, ambos xingando o inferno que era ter a vida controlada por horários estranhos e regras ainda piores. Ele saiu da cama e pegou uma camisa nova na mala. Se trancou no banheiro, enquanto eu trocava de roupa no quarto. Calcei os sapatos e sentei numa poltrona, para pentear os cabelos enquanto esperava a noiva terminar de se arrumar.

- Bom dia, Miss Sunshine - ele riu do meu ar mal-humorado, clássico das primeiras horas depois de ser despertada no meio da melhor parte do sono. - Dormiu bem?

Resmunguei um "sim" e fui terminar de me arrumar no banheiro. Ouvi o tilintar das taças, o que me levou a concluir que o resto da garrafa de vinho seria o nosso café da manhã. Ou, pelo menos, boa parte dele, se eu bem conhecia o cara com quem tinha dormido. E eu o conhecia muito bem.

Voltei para o quarto, onde ele me esperava com as taças na mão. Me entregou uma delas e tomou um golinho da sua. Jogou as roupas na mala e a fechou, antes de sentar na cama para me ver fazer o mesmo.

- Você ainda tá muito cansado? - perguntei, tímida, sentando de frente para ele.

- Não. Eu não preciso dormir. Por quê?

- Porque eu vou dormir no caminho até em casa. Estou exausta.

- Eu posso te dar várias razões pra ficar acordada - tomou o que restava do vinho e encheu a taça outra vez. - Mas é você que decide.

Depois de terminarmos de beber, pegamos as malas e saímos do quarto. Fizemos o check out e fomos pegar o carro.

- O que você fez ontem? - ele me perguntou, quando saímos na Strip.

- Várias coisas. Mas só o massagista era homem - o fitei, apreciando o efeito daquela informação. - Um homem maravilhoso, com as melhores mãos que eu já vi - ele engoliu em seco. Uma ruga de preocupação surgiu em sua testa.

- Você ama homens mais velhos, não ama?

- Eles são legais.

Ele mordeu o lábio, parecendo preocupado. Olhei pela janela, para ver hotéis e cassinos, cujas luzes estavam, em sua grande maioria, apagadas. Vegas não era, nem de longe, tão linda durante o dia quanto era durante a noite.

- E hoje? Planos?

- Matrícula na UNLV. O prazo começa hoje, e não quero perder a aula de Serial Killers. E o chato, porém narcisista, processo de responder todas as outras cartas, agradecendo e recusando as vagas. Pode ser útil um dia.

- Pós antes ou depois da Academia?

- Durante. Se eu for fazer pós.

- Você quer mesmo entrar pro laboratório.

- Só que eu sei que preciso me formar na faculdade.

- Então, acho melhor irmos com calma, meu bebê.

- Eu odeio quando você me chama assim.

- Daqui a dez anos, você vai se olhar no espelho e pensar que você é um bebê. A maturidade só é atingida depois de uns 15 anos como investigador criminal. Eu só tenho seis.

- Você é uma criança.

- É. Uma criança pequena que ainda é divertida.

- Vai trabalhar hoje?

- Claro! Não pretendo tirar férias de novo tão cedo. Ficar em casa me faz me sentir... Impotente. Por quê?

- Eu acho que vou sair hoje.

- Eu não posso te mandar não fazer, porque eu sei que você só faz o que quer. Mas eu posso pedir pra você ter juízo, não posso? Não quero ter que tirar você de uma cela porque te pegaram bebendo ou dirigindo bêbada.

- Eu não ser pega, papai. E também vou lembrar de usar camisinha se for transar com alguém, mesmo tendo o bom senso de tomar pílula. Mais algum conselho?

- Eu adoraria saber que você não fumou um maço inteiro essa noite - ri desse pedido.

- Eu vou tentar lembrar disso quando pedir um trago a alguém.

Um olhar de censura, mas nenhuma palavra. Ele sabia que não fazia o menor sentido discutir comigo.

Chegamos em casa e ele me mandou subir sozinha, alegando que precisava ir fazer compras. Saí do carro e fechei a porta, ouvindo o vidro se abrir.

- Só lembra de mim, ok? - ele pediu, antes de fechar o vidro e sair com o carro. Fiquei vendo o Toyota se afastar me perguntando se seria possível esquecê-lo.