III

Depois de uma noite bastante "acalorada" os primeiros raios de sol da manha trouxeram-lhe algumas insónias. A preocupação dos negócios da sua empresa ocupava-lhe todo o seu pensamento. Decidiu abandonar o quarto e sua companheira para relaxar no sofá e assistir ao matinal Jornal económico.

Nesses últimos dias a sua casa estava um pouco diferente. Tudo tinha um cheiro maravilhoso dos detergentes que sua empregada temporária tinha comprado. Habituou-se aquelas fragrâncias que o relaxavam no fim dos dias stressantes. Um dos pontos que mais o agradava era sem dúvida a maneira como ela lidava de sua casa. Tudo estava, quase milimetricamente no lugar. Sempre! Parecia que ninguém entrava ali a não ser ele. Tudo no seu devido lugar e claramente limpo. Sanosuke tinha-lhe dado uma boa referência sem dúvida. Talvez fizesse uma proposta para manter essa empregada. Não era fácil encontrar alguém competente e, até agora, sigiloso.

De todas as coisas que esperava encontrar no início do seu fim-de-semana, não era de certeza, uma jovem espreguiçando-se, como uma gata, no meio da sua sala

Olhando-a, semi nu, Kenshin estreitou os olhos, ainda de costas a moça não notou a sua presença

O ruído da tv era a única coisa que pairava naquela sala. A jovem parou e rodou repentinamente o tronco em direcção ao aparelho. Depois de o focar, os seus olhos abertos e assustados fixaram o rapaz no sofá.

O corpo da jovem paralisou. Os seus olhos procuraram instintivamente algum objecto que pudesse pegar para se defender

Sem mexer nenhum músculo do corpo, paralisada, somente os lábios pronunciaram rapidamente

- Quem é você? – Pânico

Kenshin ocupou uma posição mais observadora no sofá, sentado com os cotovelos apoiados nos joelhos arqueou as sobrancelhas

- Eu? Sou o dono desta casa – Sorriu

Com a sala escura, somente o reflexo da televisão iluminava fracamente o ambiente. Kaoru não via muito mais além de um vulto. Já Kenshin, na posição que estava, conseguia ver a jovem no corredor que era iluminado por uma janela ao fundo.

Era uma jovem, com olhos e cabelo escuro e estava obviamente assustada com a sua presença.

A moça baixou o rosto e sentiu-se envergonhada pela introdução.

- O meu nome é Kaoru e tenho sido a sua empregada por estes dias. Peço desculpa por ter batido a porta, vou rapidamente preparar-me… - Inclinou-se num cumprimento breve a saiu, correndo para trocar de roupa.

Alguma coisa estava a faltar a Kenshin… ou talvez aquela moça. Levantou-se calmamente e dirigiu-se à zona da cozinha. Agora, com a divisão iluminada os dois se encontraram devidamente. Kaoru estava passando a cara por agua, para despertar, para acordar quando sentiu a presença atras de si. Fechou os olhos em descrença, queria vestir-se apropriadamente, acabar o seu trabalho e ir para casa.

Kenshin quis esclarecer o que o perturbava e obviamente introduzir-se correctamente. A jovem na cozinha parecia cansada, as suas roupas justas e … digamos, sensuais, não denunciavam uma empregada de limpeza.

A moça rodou o seu corpo para encontrar uns olhos maravilhosos encarando-a com alguma interrogação. A sua respiração desacelerou por um momento, a figura na sua frente, não muito mais alto que ela, estava semi nu olhando-a com interrogação. Os braços cruzados eram desenhados por linhas fortes de seus músculos, músculos definidos desde a face, pescoço, ombros, barriga e… "Deuses…" os músculos da barriga e bacia, que definiam para dentro da cintura das calças moleton.

A boca da jovem abriu num misto de fascínio e receio. Kenshin acabou por quebrar os segundos embaraçosos e abriu um sorriso, desatou os braços e deu um paço em frente esticando a mão em cumprimento

- O meu nome é Kenshin Himura, prazer em conhece-la!

Kaoru por instinto encolheu-se e tentou recuar, infelizmente a banca da cozinha a impediu não havendo mais espaço para trás.

Piscou várias vezes olhando a mão na sua direcção e acabou por relaxar

- O meu nome é Kaoru Kamiya! – Os ombros relaxaram e cumprimentou-o com um aperto forte.

O sorriso acabou por aparecer, tímido.

Kenshin voltou um passo atras, deixando-a a vontade

- Eu peço desculpa pelo atraso – Kaoru justificou – E também pela minha apresentação, mas eu trabalho durante a noite e sempre que chego aqui troco para algo mais confortável…

Kenshin sorriu pela justificação. Num flash piscou os seus olhos e levantou ligeiramente os braços.

- Ora, não tem que se justificar, eu é que peço desculpa pelos meus modos. Vou vestir qualquer coisa, dê-me um segundo para que possamos falar melhor…

Kaoru não esperou ele sair, passou por ele correndo em direcção a lavandaria

- Eu é que peço desculpa, a casa é sua, vou trocar-me rapidamente…

- Menina Kaoru?

Kaoru parou e rodou novamente na direcção de Kenshin.

O sorriso dele não tinha descurvado ainda

- Eu não vou pagar esse dia a si…

- Não vai? – O que se passava com aquele homem?

- Ora, hoje é sábado…

Kaoru estreitou os olhos – Ora hoje é… se eu fui trabalhar na sexta a noite hoje é SABADO!- "SUA BURRA!" - repreendeu-se mentalmente, começou a corar com a distracção – "eu podia estar a dormindo babando o meu travesseiro… aahhhhhh"

Kenshin voltou a cruzar os braços e soltou uma pequena gargalhada. Kaoru estava visivelmente embaraçada com a sua distracção. Tudo fruto do cansaço do teu trabalho anterior…

No mesmo minuto aparece uma bela e esbelta figura, com um robe minúsculo, branco, sobre uma pele de mel, curvando a esquina da cozinha e massajando os olhos

A boca de Kaoru abriu novamente de espanto. Aquela cara não lhe era desconhecida… A mulher abriu com dificuldade os olhos e passou Kaoru de alto a baixo

- Quem é esta? – Interrogou-se a Kenshin que piscou intervaladamente entre as duas mulheres

- Esta é Kaoru Kamiya, a moça que está tomando conta da casa por enquanto – Kenshin fez sinal com a mão na sua direcção – Menina Kaoru, esta é a Donna.

Kaoru reprimiu os seus pensamentos confiante que ela não a reconheceria – Prazer! – Curvou-se ligeiramente

Donna não fez qualquer sinal de saudação, recompôs o robe que dificilmente escondia um busto avantajado, cruzou os braços na sua frente e engelhou a expressão

- Empregada doméstica, acha que são trajes para vir trabalhar? O que pensa que isto aqui é? Uma discoteca?

Por um lado Kaoru ficou satisfeita por aparentemente não ter sido reconhecida. Por outro lado a maneira como ela a olhou e a forma como falou com ela a deixou com alguma raiva a borbulhar – " O que é que tu tens a ver com isso? O que sabes da minha vida!?"

Kenshin notou a tensão entre as duas, Donna olhava a outra moça de uma maneira nauseada e visivelmente chateada com a maneira como esta se apresentava vestida. O olhar de Kaoru, por outro lado, tinha um feixe de luz de raiva pela humilhante forma que foi tratada.

O silêncio foi quebrado por Kaoru, pegou as suas coisas e dirigiu-se para a saída de casa. Baixou-se para pegar os seus tacões e olhou para o fundo do corredor onde Donna abraçava Kenshin como uma serpente

- Peço desculpa pelo meu engano, não queria perturbar a vossa manha. Bom fim-de-semana. – A porta bateu antes de Kenshin empurrar levemente Donna para o lado e ir ao encontro da saída. Abriu a porta que dava para o corredor mas a menina já não estava lá…

- Você contratou essa menina? Ela é empregada ou…

Kenshin levantou o dedo antes de ela terminar.

- Eu não a conheço como não conheço muitas pessoas que trabalham para mim. O que me interessa é que ela faz o que tem a fazer bem feito. Foi indelicado da sua parte recusar a sua saudação e também as observações que fez! – Kenshin olhou-a com um ar de evidente reprovação

Donna posicionou as mãos na cintura, deixando o robe aberto quase até ao umbigo em provocação

- E você, vestido dessa maneira, tronco nu, não é igualmente uma falta de respeito?

Kenshin rolou os olhos, não estava com disposição para lhe explicar a rapidez com que tudo aconteceu nessa manha.

Fechou a porta atras de si e encaminhou-se para o interior de casa

- Onde você vai? – Donna perguntou na mesma posição

- Tomar um duche…

A rapariga, esbelta e atraente segui-o animada até à magnífica casa de banho…

OoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooO

O fim-de-semana rolou tão rápido que parecia mentira. A raiva de sábado acabou por se dissipar da mente de Kaoru que envolveu esses dias para treinar arduamente para a audição.

Essa semana seria provavelmente a ultima, Sano tinha-lhe falado que seria por pouco tempo. Ao início pensou em não colocar mais os pés naquela casa, não se queria encontrar novamente com Donna que pelos vistos era namorada daquele homem. Depois pensou que aquele dinheiro lhe iria dar um jeitão e que afinal aquele encontro se deu já no sábado por causa da sua falta de atenção. "Vou acabar esse trabalho como ficou acordado, assim é que é…" . Na sexta-feira provavelmente lhe deixariam um envelope com os seus honorários e a mensagem que os seus serviços já não eram necessários.

E assim foi, a semana começou e Kaoru entrou de novo naquela maravilhosa casa que estava só um pouco bagunçada.

- Fim-de-semana atribulado… - Constatou Kaoru que ao fazer de novo a cama do quarto de Kenshin encontrou duas peças de roupa íntima feminina. Kaoru franziu o nariz, pegou as roupas na ponta do dedo e colocou na máquina.

O quarto estava um pouco remexido e a sala também. A cozinha estava impecavelmente limpa

- Provavelmente raramente é usada… - Kaoru pensou

A semana passou rápido. Os treinos da tarde se tornaram mais longos deixando pouco tempo para descansar no final de tarde. A audição estava chegando e o tempo escasseava entre os dedos. Tinham de aperfeiçoar todos os esquemas. Depois dos treinos Kaoru só tinha tempo para chegar a casa e se arrumar para a noite. No dia seguinte a esperavam três horas de limpeza que acabaram por se tornar monótonas. A casa de Kenshin estava sempre impecável, muitas vezes ela acabava tudo mais cedo e ficava fazendo tempo em frente da tv até sua hora de saída.

Uma das regras fundamentais que Kaoru aprendera durante quase dois anos de trabalho na noite foi : Não beber! Isto porque pode desencadear outros problemas, sérios, para uma pessoa com a sua personalidade e que está ali só com um objectivo: dinheiro. Ora então, é claro que para saber essa lição ela teve de aprender, aprendendo com esse erro. Cara bonita que tinha, simpatia e um corpo elegante lhe deram acesso ao perdão de seu empregador nocturno que, depois de esmorrar a cara de um cliente, lhe pediu para não voltar a fazer o mesmo e que queria que ela continuasse a trabalhar para ele.

Kaoru se lembrou de toda esse blá blá blá na hora errada. Alias, depois da hora. Uma de suas colegas fazia anos, noite toda cheia de rodadas de shots e cocktails e afins. Não era hábito seu beber mas nessa noite não teve como fugir.

Saiu zonza do edifício, olhou para o céu e mal conseguiu abrir os olhos, o sol estava forte logo de manha, ainda de olhos fechados procurou na bolsa seus óculos de sol e só voltou a abrir os olhos depois deles postos.

Respirou lentamente durante alguns minutos, sentindo falta de ar puro depois de 10h fechada no meio do fumo.

- Vamos Kaoru, ultimo dia, depois vais descansar…

Entrou no carro e se posicionou no volante. Se a policia mandasse parar ela ia ter problemas. Dirigiria devagar e com calma, os olhos estavam ardendo, do fumo e do cansaço.

Entrou no estacionamento e subiu no elevador. Tirou os óculos e ficou durante segundos reflectindo a sua cara no espelho do elevador. Toda a sua maquilhagem estava já borratada, o seu cabelo seco e a sua pele parecia envelhecida.

Visão angustiante, maldita divida que a perseguia à anos, não via a hora de deixar aquele trabalho que lhe roubava horas de vida.

O elevador chegou e Kaoru parou na frente da porta de casa. Fechou os olhos e passou as mãos pelas têmporas. Uma tontura abalou-a, o braço procurou apoio na ombreira da porta.

- Vamos Kaoru, só mais três horas…

Abriu a porta, e olhou directamente para o móvel de entrada.

- Nada… - Kaoru entristeceu o olhar. Esperava encontrar qualquer mensagem ou dinheiro

- Bom dia!

Kaoru ouviu do fundo do corredor. Lentamente virou a sua cabeça na direcção da voz.

Ao fundo Kenshin olhava-a, de terno executivo e com uma pasta em uma das mãos.

- Bom dia! - Kaoru fechou os olhos por um segundo imaginando o cenário do fim-de-semana anterior. Será que se iria repetir?

Kenshin foi ao seu encontro e estendeu a mão no seu ombro, a moça não parecia bem-disposta

- Você está bem? – Baixou ligeiramente a cabeça para encontrar os olhos de Kaoru

Kaoru sacudiu levemente o seu toque, descalçou os seus sapatos e endireitou-se com alguma dificuldade

Kenshin recuou dando-lhe algum espaço sem nunca deixar de a analisar

- Sim, estou, obrigada… Este é o meu último dia certo?

- Na verdade eu… Vou trabalhar mais tarde porque queria falar consigo!

Kaoru sentiu novamente uma tontura forte e lentamente encostou-se à parede mais próxima – Diga então

- Estou a pensar em …

Foram as únicas palavras que Kaoru conseguiu ouvir. Concentrada nos lábios que falavam a sua frente, os movimentos começaram a ficar lentos, a voz parecia distante e tudo de repente ficou negro.

OooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooO

E pronto, mais um capitulo. Esse estava difícil de terminar, algumas dúvidas pairavam na minha mente mas acho que achei o rumo outra vez. Me deixe saber o que você acha, é muito importante para mim! Obrigada por ler, beijo