CAPÍTULO 3

Do outro lada da cidade Sawyer entrava no escritório de fianças de Dimitri Papazian, conhecido no mercado como o Grego. Papazian era um monstrengo: alto, enorme, corpulento, cabeçudo e peludo como um ogro. Era um dos melhores caçadores de recompensa do mercado e mantinha um escritório pequeno, mas confiável.
Ele e Sawyer haviam literalmente colidido um no outro, em meio a uma perseguição.

Sawyer havia parado no sinal vermelho, quando um estranho apareceu na janela, apontando uma arma e ordenando, aos gritos, que ele lhe entregasse o carro. Obviamente Sawyer não estava nem um pouco disposto a entregar nada que fosse seu de mão beijada para quem quer que fosse.
Saindo vagarosamente do carro, ele subitamente agarrou e torceu violentamente a mão do sujieto, fazendo-o derrubar a arma.
Após um soco de quebrar um nariz e uma portada no estômago, o homem caiu no chão.
Reagindo, o homem se levantou e tentou fugir novamente, mas tanto Sawyer quanto Papazian - que vinha correndo logo atrás, na perseguição do homem, e vira a rápida reação de Sawyer - voaram para cima do sujeito.
Digamos apenas que não foram os momentos mais confortáveis de sua vida os que passou embaixo do peso monstruoso do Grego e levando os murros de Sawyer.

Papazian notou no ato que aquele louro com cara zangada tinha jeito para a coisa e lhe ofereceu trabalho.
Sawyer ficou surpreso e desconfiado com aquele homem esquisito oferecer emprego a um desconhecido. Mas logo percebeu que ele era o tipo de homem que serviria ao tipo de ocupação que o cara estava lhe oferecendo.
Sawyer ficou vários dias olhando para o cartão que Papazian havia lhe dado, refletindo se valia a pena sacrificar o esqueleto por 10% de valor das fianças.
Mas em quase 20 dias de Los Angeles e de ter feito todos os passeios regulares, de todo turista comum, aquela era a primeira vez que ele voltara a sentir a sensação liberadora da adrenalina correndo em suas veias. E olhe que ele se divertira um bocado visitando a calçada da fama, com aquelas estrelas com os nomes dos artistas!

Por que não aceitar? O que ele tinha a perder?
Tinha a ficha limpa no estado da California, seria uma mudança de ares, ele poderia aprender coisas diferentes com esse trabalho e talvez até mesmo surgissem boas oportunidades para algum golpe nesse meio tempo.

Começou acompanhando o Grego nas primeiras incursões, mas pegou todas as manhas rapidamente. E embora tivesse dito ao novo patrão que planejava ficar por pouco tempo, acabou aceitando fazer o curso de formação de seis meses, exigido por lei, para obter sua licença de trabalho.

De posse da licença de caçador de recompensa ou 'reinforçador da lei', como os profissionais do ramo preferiam hoje em dia, Sawyer já estava começando a ser conhecido no mercado como um recaptador rápido e eficiente.

- Oi, Sawyer... - disse Ellie, a recepcionista do escritório, praticamente cantando seu nome, ao vê-lo chegar. - Nunca mais me ligou! A gente podia jantar qualquer dia desses, eu podia te fazer umas costeletas, do jeito que você gosta...
Fazendo as covinhas brilharem ao sorrir por trás dos oculos escuros, Sawyer se encostou na mesa, prontinho para aceitar a oferta.
- Vai cozinhar pra mim?! Quanta honra, doçura! Que horas eu chego com a garrafa de vinho?

Nesse momento, Papazian enfiou a cabeça para fora de sua sala.

- Ei, essa espelunca não parece, mas é um local de trabalho sério! E porque você nunca me convida para umas costeletas, Ellie? - acrescentou ele em tom de lamúria.
- Sua mulher não ia gostar, sr. Papazian e eu não gosto de apanhar...

A mulher de Papazian era lutadora peso-médio de boxe e era quase tão grande quanto ele. Mesmo que não fosse, Ellie não tinha nem o mais leve pensamento em trocar o charme arrasador do louro esguio e musculoso a sua frente pela massa bruta do patrão.
Mas preferiu ser diplomática e achar graça do que ele dissera.

- Dá pra voltar pro trabalho, Ellie? - perguntou o Grego, resignado. - E será que o cavalheiro pode vir até minha sala, mostrar serviço?

Vagarosamente, Sawyer se levantou da mesa, piscou o olho para Ellie, à guisa de confirmação, e entrou na sala ao lado.

- Que que tá pegando, Zorba?
- Você que tem que pegar, folgado! - entregando os documentos para Sawyer, ele continuou - Um judas me deu o paradeiro do fugitivo, Glorio Swanson...
- Você tá de sacanagem comigo! Esse nome não existe! Ninguém se chama "Glorio" e muito menos "Swanson"! - interrompeu Sawyer, divertido com o nome que parecia homenagem à uma antiga atriz do cinema mudo, Gloria Swanson.
- Vai ver a mãe dele gostava de filme velho... - debochou Papazian.

- Cada uma... - murmurou Sawyer, revisando a caução da fiança e a procuração da agência.
- Fiança de 90 mil por tráfico de droga. Peixe pequeno, quase uma mula. Hipotecou o furgão com a gente. Entrega ele na delegacia e traz o furgão pra cá.
- Ok. - respondeu Sawyer.
- E o caso do contador, o Blake? Alguma novidade? - perguntou Papazian.
- Tô de olho na casa da namorada, paguei uns trocados pro porteiro me avisar assim que ele aparecer. E pus uma escuta no telefone dos pais. Esse mané é um amador, não dou uma semana pra voltar a dar as caras. Mais alguma coisa? - perguntou Sawyer, enquanto se dirigia para a saída.
- Só isso. E, Sawyer, não esquece do meu furgão novo.
Sawyer deu um sorriso convencido. Papazian também sorriu, já podia dar o trabalho como feito.

Sentada no carro enquanto Ana Lucia dirigia, Kate antecipava prazerosamente o momento de começar a batida. Aquilo sim, era trabalho!
Se armar, colocar o coleta à prova de balas, ouvir a preleção do chefe antes de sair, a expectativa de entrar em ação, o formigamento correndo da cabeça aos pés. Parecia um vício!

A casa que eles iam invadir, na periferia, era um centro médio de distribuição de drogas. Muitos traficantes menores iam até lá pegar bagulho para vender nas ruas e abastecer clientes regulares. Mas, não hoje!

A equipe já estava toda posicionada ao redor da casa de aspecto inocente, um pouco afastada das outras, na esquina da rua.

Dois agentes explodiram a fechadura da porta, arrebentando a porta. Em meio à fumaça, outros 4 agentes invadiram aos gritos de "Parados! Larguem as armas!"
Enquanto a retaguarda, composta de 7 agentes, Kate entre eles, se espalhava por toda a casa, arma em punho.

O grupo se separou em três partes, um para a direita da casa, onde ficava os quartos, outro cercando a cozinha e o terceiro grupo dando respaldo para os dois primeiros grupos.

- Parado! Solta a arma! Solta a arma! No chão, no chão! - Kate gritou asperamente para o homem que corria, tentando sair da sala. O homem se ajoelhou, sob a mira da arma de Kate, enquanto Ana Lucia o algemava e o encostava na parede, junto aos outros presos.

Um rapaz magrinho e uma moça de cabelo moicano que tentavam escapar, correndo feito baratas tontas pela sala, confusos pela fumaça e pela gritaria, acabaram sendo pegos por Kate. A jovem reagiu, meio chapada e arranhou o braço de Kate enquanto estava sendo algemada. Mas o rapaz não resistiu. Estava com um aspecto doentio e com os olhos vidrados. Kate notou que seu rosto estava coberto de pó branco.
Se dirigindo ao chefe da equipe, Kate gritou:
- Controle, precisamos de pára-médicos. Vamos ter uma overdose, aqui. Ana, me ajuda.

Enquanto Ana Lucia algemava o rapaz, já trêmulo, esperando a chegada dos pára-médicos, Kate percebeu, pelo canto do olho um movimento em direção de um dos quartos.
Alguém se escondera embaixo da mesa da sala e aproveitava o momento para escapar.
Seguindo a movimento, Kate entrou no quarto agora vazio e notou que atrás de um armário arrastado havia uma fresta, bem estreita, com um oleado grudado na parede. Mas, afastando o oleado, um tipo de passagem baixa aparecia. Na certa um túnel de fuga para emergências que devia sair em outra rua, já que aquela casa ficava de costas para outra fileira de casas na rua de trás.

Kate berrou para sala:
- Preciso de reforços, rota de fuga! Rota de fuga!
Impaciente, ela entrou sozinha no túnel, sem esperar a chegada dos outros, no encalço do elemento.

Sawyer acabara de chegar no endereço que o judas de Papazian dera. Uma casinha simples, de bairro classe média baixa, que devia ter sido até agradável até o lugar empobrecer demais e os traficantes tomarem conta de tudo. No momento o lugar todo era bem decadente.
Olhando bem para a casa, ele teve uma sensação de alguma coisa estar errada ali. Não sabia bem o que era, mas não estava certo. Detalhes... estava tudo nos detalhes.

A casa parecia abandonada. Tá certo que fugitivos não ficam jardinando ou pintando frente das casas onde se malocam, mas ele sabia por experiência que existia dois tipos de casas: as habitadas e as não-habitadas. E aquela, decididamente, não era habitada...

Mas de qualquer forma, o furgão dos sonhos de Papazian estava lá, praticamente socada numa mini garagem, pequena demais para o tamanho do carro, ao lado da casa.

Ele saiu do carro, carregando um saco plástico amassado em forma de bola e se aproximou cuidadosamente da cerca da casa.
Entrando rapidamente no quintal, se encostou na porta, tentando escutar algum barulho vindo de dentro da casa. Nada. Deu a volta e tentou olhar pela janela, que não tinha cortinas e sim papelões colados nas vidraças.
Sawyer voltou para a frente e se aproximou do furgão.
Se abaixando atrás do furgão ele enfiou a grossa bola feita de sacos plásticos no escapamento do veículo, entupindo o cano completamente.

Se reaproximando da casa, ele pegou um pesado chaveiro, com um número verdadeiramente incontável de chaves. Testou pacientemente várias delas, até que uma conseguiu girar a fechadura com um tranco, abrindo a porta.
Ele olhou em volta e percebeu que alguns vizinhos olhavam preocupados em direção da casa, mas disfarçaram e foram andando, fingindo ignorar a invasão.
Bairro barra-pesada para ter pessoas tão assustadas como aquelas morando ali.

Pegando a arma, ele entrou de uma só vez, dando um ponta-pé na porta. Ninguém. A sala estava vazia e empoeirada. Uma mesa sem cadeiras. Jornais espalhados no chão, como tapetes, umas caixas de papelão.
Cautelosamente ele começou a explorar a casinha. Cozinha igualmente vazia... mas a geladeira tinha uma garrafa d´água, uma caixa de leite e uns ovos. Fogão com gás funcionando.
Alguém ficava ali de vez em quando. Não tão desabitada como ele pensara a princípio, mas fosse quem fosse, não ficava ali muito tempo por dia.
Banheiro imundo, blergh!

Quando estava indo verificar o quarto, ele ouviu uma explosão por perto. Alerta, ele esperou uns segundos para ver o que acontecia.
Parecia vir da outra rua, então continuou a revista.
Um armário encostado na parede, uma cama velha, com um colchão mais velho ainda, um criado mudo e uma tv em cima de um banco era tudo que havia no quarto. No armário havia uma calça jeans e umas camisetas penduradas no varal, em vez de nos cabides.
Atrás da cama, uma janela guilhotina, tapada com papelão.

Na mesinha ele encontrou trouxinhas de cocaína, saquinhos de maconha, camisinhas (uma usada, "Quem seria a coitada que passou a noite aqui?" pensou Sawyer ), pastilhas para garganta, guia da tv e, por incrível que pareça, a carteira de motorista.
"Mas que imbecil!" Estava lá, com todas as letras, Glorio Swanson. Sawyer deu uma risada. O judas tava certo, Glorio estava escondido ali e ia voltar em algum momento.
Embora esperar ele voltar naquele muquifo fosse ser um inferno.

Sawyer resolveu espiar o que tinha nas caixas de papelão na sala, quando ouviu o armário sendo arrastado. Se escondendo atrás do espaldar da cama, ele percebeu que a casa se comunicava com alguma outra por um tipo de túnel.
Por isso ela parecia tão abandonada.
Provavelmente Glorio passava a maior parte do dia, talvez vários dias, na outra casa e deixava aquela vazia por muito tempo.
Glorio parecia estar com alguém.

- Anda logo, sai logo. Tem alguém atrás da gente, porra!
- Um tira tá vindo atrás. Pega tua arma...
- Esqueci lá na outra casa, em cima da mesa.
- Que merda, Swanson! Tu não dá uma dentro.
- Tem umas na sala, na caixa de papelão, junto com as drogas. Você sabe que eu não curto arma.
- Eu curto e não vou sair daqui deixando o bagulho pra trás. Se a polícia aparecer antes da gente se mandar, vai comer bala.

Sawyer olhou devagar por cima do espaldar alto e viu os dois correndo para a sala.
Durante o milésimo de tempo em que escutara a conversa deles enquanto saíam do túnel e corriam para sala, Sawyer pesara suas opções.

Poderia ser uma boa hora de pegar Glorio - surpreender os dois caras ainda desarmados. E antes dos tiras chegarem. Fora que teria reforço quando a polícia chegasse, mas a prisão já teria sido feita por ele.

Por outro lado, não seria uma surpresa tão grande assim, por que os caras estavam esperando os tiras. Não esperavam por ele, mas esperavam alguém.
E enfrentar os dois caras já armados, desesperados para fugir não era uma idéia muito boa.
Os dois não iriam ficar ali para lutar com a policia, queriam era fugir, ele podia pegar Glorio mais tarde, mas com certeza não ali, pois esse esconderijo já tinha caído.
Preferiu fazer tudo de outro jeito, mas bem na hora que ia se levantar, ele viu que mais alguém estava saindo do túnel. E quando fixou o olhar ele, percebeu que era uma policial.
Não, não era uma policial qualquer, era, era... ela! Não era possível, era ela!

Kate seguiu os dois homens o mais rápido que podia, rezando para algum reforço estar vindo atrás dela. O túnel era mto baixo e escuro. Ela tinha que andar muito encurvada, com a cabeça tão abaixada que não podia ver para onde estava indo ou por onde estava caminhando de tão escuro. Era claustrofóbico e Kate só não voltou por onde veio por que não tinha espaço para dar a volta.

Não conseguia correr e mesmo assim sua respiração estava curta e difícil. Ela ouvia ecos do que os homens à frente diziam mas não conseguia entender o que falavam.
Os minutos pareciam passar lentamente até que a escuridão pareceu ceder e ela conseguiu ver que o túnel começava a se iluminar.
Se ajoelhando viu que o túnel acabava em um lugar interno, não numa rua.
Puxando a arma, ela começou a sair, vagarosamente, tentando olhar para os dois lados,quando alguém tapou sua boca com força e a levantou do chão, segurando-a com muita força, a ponto de tirar-lhe os movimentos dos dedos e impedi-la de puxar o gatilho.
Em pânico, ela lutou, até ouvir um "shiiiii! Calma, Doçura! Não avise eles!"
Virando a cabeça com dificuldade, ela viu uma massa de cabelos louros e, e... era ele? Não era possível! Não podia ser... ele!