Olá. Segunda parte. Como eu disse, se essa fic sobreviver a esse capítulo ela ainda tem alguma chance. Preparem-se para visitarem a Terra Média renovada.

Como Legolas não fala a língua dos homens eu optei por colocar todas as falas que não são na língua comum em itálico (a net não nos dá muitas opções). As rememorações continuam em itálico também (espero que não haja confusão).

Dizem que agradeço demais... pois é... tenho muitos defeitos. Mas acho de verdade uma grande sorte que tantas pessoas tenham paciência suficiente para lerem minha fic, por isso só me resta agradecer a elas mesmo...

Essa fic é um projeto que realmente me fascina. Gostaria imensamente de fazer dele algo melhor, mas o tempo não é meu aliado. Mesmo assim espero que gostem.

Queria postar aqui um texto que mandei para algumas amigas, fala sobre o fazer literário e o quanto é difícil agradar a todos. Ele é contundente e desperta muitas interpretações, mas para mim sempre refletiu os diferentes valores que um mesmo texto pode ter para cada um que lê, mas principalmente para aquele que escreve. Espero que gostem:

"Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão porque uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados.

Osman Lins, Guerra sem Testemunhas

In: Morangos Mofados 9ª edição, 1ª reimpressão, Abreu, Caio Fernando – Cia das Letras, 1996, SP.

Escritoras e amigas- não só agradecimentos, mas também recomendações, pois sei que nem todas elas dispõem de tempo para ler o que escrevo. Mas isso não tira o brilho do trabalho que fazem, nem o desejo que tenho de dizer o quanto eu aprecio o que escrevem.

Lady-Liebe – Short fics de qualidade. Beijos, amiga.

Misao-dono – "COMO UM PÁSSARO" Texto maravilhoso.

Myriara – "A PAIXÃO DOS EDAIN" / "DAROR E MÍRIEL". Obrigada pela review, Myri. Depois do que disse sobre o Legolas eu só posso desejar que encontre um novo personagem que a anime de ler a fic, pelo menos até o seu elfo injustiçado aparecer. Fico feliz pelo capítulo de DAROR E MÍRIEL ter sido como foi, para mim não faltou nada a ele. Essa fic é mesmo muito bonita.

Nimrodel Lorellin – "CRÔNICAS ARAGORNIANAS". Minha irmãzinha dotada de um indiscutível talento não só para escrever fics como para escrever grandes verdades. Tem minha admiração incondicional e meu afeto eterno. Obrigada por tudo Nim.

Vicky Weasley: "BITTERSWEET" Minha mais agradável surpresa. Que falta eu sentia do contado com essa grande escritora. Obrigada por me presentear com sua review.

Elfa Ju Bloom: "ROSAS, ARMAS, AMOR E SANGUE" Grande texto. Não deixem de ler.

Dark Lali: "NARN VENDENIEL". Lali! Saudades.

Kika-Sama: "APRENDENDO" Obra de valor. Não deixem de conferir o texto da Dra. Kika.

Chell1: "MEMORIAS DE UM PASSADO DISTANTE" Chell. Meus mais sinceros agradecimentos, amiga. Espero sua fic.

Erualmarë Elessar(Perséphone Pendragon) – "NA ETERNIDADE DOS SEUS OLHOS. Obrigada pela review. Quando sai o próximo capítulo?

Kiannah – "A ESTRELA SILENCIOSA". Obrigada pelo voto de confiança e pela review. Sei que não é um tema fácil para qualquer fã de Tolkien. Espero que no final você não se arrependa de ter lido. Continuo aguardando o capítulo novo da ESTRELA.

Soi – "IDRIL NÚMENESS". Obrigada pela review, Soi. IDRIL é comovente, longos ou curtos as mensagens que seus capítulos passam me tocam profundamente.

Nanda's Menelin – "UMA HISTORIA MUITO ESPERADA" Nanda finalmente mostrou ao público o que eu já tinha visto. Grande talento. Grande amiga. Obrigada pelo apoio.

Regina – "ELDAR E EDAIN". Um capítulo que sempre diz muito. Obrigada pela review e pela amizade.

Kwannon – "HALDIR E HALETH" Li finalmente a fic portanto não poderia deixar de colocá-la nessa lista, ao lado das grandes escritoras. Em português ou inglês essa escritora impressiona de fato.

Às amigas que estão me acompanhando ainda.

Syn, the time keeper : espero que resolve seus problemas. Que bom que está acompanhando.

Botori: Obrigada. Estou feliz que tenha gostado.

Leka: Obrigada também. Espero você, Ellahir e a Elladan na lista, hein?

Lali-chan: Minha primeira review. Super bom!

Veleth Não sei se está acompanhando, mas queria agradecer pela review em Vidas.

Naru-sami Fiquei feliz por ter encontrado sua review. Obrigada.

Pitybe Review na hora do grito! Pensei que tinha esquecido de mim. Obrigada.

Phoenix Eldar Obrigada pela review. Estou feliz que tenha gostado da fic. Não sei o que Star Wars tem de relação com essa fic... Quanto a idade de Legolas... poxa.. também não sei... Fui reprovada agora, né?

Lele Estou sentindo sua falta. Cadê você?

Pinkna Não lê regularmente, mas gostaria de deixar um beijo mesmo assim.

Karina Obrigada pela review. Que bom que aprovou a idéia. Obrigada mesmo. Beijos.

Denise Obrigada por aparecer, tanto aqui quanto na lista. Super bom encontrar você. Beijos

Galadriel Obrigada por aparecer e se juntar a nós. Beijos.

O IMPACTO DO NOVO

& O futuro tem outra face &

Um anoitecer estranhamente frio roubava a luz e o calor daquele dia que parecia nunca ter fim. Eleazar caminhava a passos largos pelo velho cais, seus olhos azuis percorriam atentamente cada canto escuro acompanhando todo movimento suspeito. Ele buscava um som qualquer, algo que tornasse real seus temores. De todos os lugares estranhos ao qual fora chamado para tratar de política aquele era de fato o campeão. Passou em frente a um velho navio ancorado e parou para acender um cigarro. Queria ganhar tempo, encontrar um pretexto para parar por alguns instantes, atender aos avisos que seu coração lhe gritava. Algo estava errado e essa certeza corria-lhe a espinha como um arrepio frio de inverno, uma sensação que ganha corpo e alma. Ele sempre soubera quando o perigo estava próximo, nunca se enganara, por esse motivo era o líder, por esse motivo fora o escolhido, por sua imensa habilidade em prever o futuro, em antecipar reações, em salvar vidas. E ele sabia que quando aquela sensação vinha envolvê-lo, quando aquele gélido ar penetrava-lhe os músculos das costas, como se quisesse estagná-lo endurecido onde quer que estivesse, aquilo era um sinal, era o destino lhe avisando que a cautela precisava caminhar a seu lado.

O velho navio rangeu embalado pela maré que vinha de encontro ao cais e uma neblina espessa começou a se formar. Eleazar sobressaltou-se dando um passo para trás. Ele franziu as sobrancelhas no intuito de tentar enxergar se a embarcação estava de fato vazia, mas o som se repetiu e o guerrilheiro sossegou-se ao percebeu que se tratava apenas de um dos muitos sons comuns ao cais.

Uma brisa suave e morna envolveu-o subitamente, trazendo um suspiro involuntário a seus lábios e uma calma indescritível a todo o seu ser. Parecia que uma paz estranha o tinha vindo acariciar. O receio que o incomodava se extinguiu inexplicavelmente. Eleazar permitiu que aquela sensação prazerosa o envolvesse e se encostou a um dos postes do porto, deixando-se ficar mais alguns instantes até que seu cigarro fosse reduzido a algo que tinha uma serventia ainda menor da que tinha quando fora aceso. O que quer que fosse que apenas os olhos da ventura podiam ver e contra o qual ela parecia querer precavê-lo, havia de certa forma se extinguido. O perigo se fora, pelo menos por um tempo.

Novo suspiro. O guerrilheiro voltou a andar a passos mais leves agora, chegando finalmente até o ponto de encontro que lhe fora indicado. O pequeno barco ainda estava trancado. Ele consultou o relógio, de fato estava adiantado e ainda lhe restavam quinze minutos até que os tais homens da resistência lhe dessem o ar de suas presenças. Olhou a sua volta uma vez mais, teria que aguardar a chegada deles.

"Perfeito." Irritou-se, encostando-se agora a uma pilha de caixotes e apanhando novamente o maço de cigarros. "Só porque esperar não é um de meus fortes." Ele disse para si mesmo enquanto apalpava os bolsos em busca do isqueiro que usara há pouco. "Perfeito de fato." Enervou-se mais por não conseguir encontrar o objeto do qual precisava. "Porque estou com uma estranha sensação de que essa minha vinda até aqui fora inútil?" Ele passou a indagar-se enquanto continuava sua busca.

Foi quando um estranho brilho se fez a sua frente e o guerrilheiro ergueu a cabeça, surpreso por encontrar seu isqueiro em uma mão estendida em sua direção. Afastou-se inconscientemente, arregalando os olhos e apoiando a mão por sobre a arma que carregava presa as costas por baixo da jaqueta de couro. Mas a figura que o encarava não parecia intentada a fazer-lhe mal algum, parecia apenas dois olhos azuis que o fitavam com uma certa tristeza. Eleazar olhou para eles com estranheza e desconfiança, julgando estar diante de uma espécie de visão. Era um rapaz cujo rosto possuía um brilho estranho. Seria sua palidez tão intensa a ponto de refletir a luz das estrelas, mesmo naquela noite onde até a presença delas parecia querer ser ofuscada? O guerrilheiro afastou-se um pouco mais, apertando os lábios e erguendo o queixo desafiadoramente, mas a figura não se intimidou, acompanhando seu movimento, a mão ainda estendida para ele.

"Quem é você?" Indagou finalmente tomando de forma brusca o isqueiro das mãos do estranho. "É um daqueles que me contatou?"

Não houve resposta, o rapaz apenas pressionou o maxilar ao ouvir a indagação e seus olhos ganharam um brilho diverso. Eleazar pendeu a cabeça e voltou a franzir a testa.

"Quem é você?" Repetiu o questionamento ligeiramente incomodado com o empecilho que se criara agora diante dele. Se aquele desconhecido não fazia parte do grupo a quem ele ia contatar, seria uma péssima idéia que estivesse ali quando a hora da conversação de fato chegasse.

Novo silêncio. E a impaciência dominou mais uma vez o jovem Eleazar. Ele afastou-se e voltou a vigiar seus arredores, na esperança de que se o fizesse, o estranho fosse embora. Na verdade estava preocupado novamente. Olhou com o canto dos olhos para verificar se o plano funcionara, mas teve uma decepção. A incômoda presença ainda estava no mesmo lugar, ainda parada, ainda olhando para ele.

"Vá dar uma volta, vá." Ele disse tentando parecer displicente enquanto continuava sua vigília. O estranho silêncio que imperava agora parecia dizer-lhe mais do que muitos sons e a estranha paz que sentira estava lhe dando um doloroso adeus, deixando lugar para a gélida sensação que a precedera. O que estaria se escondendo dele? Que mal estaria a espreita naquelas sombras agora? Pensou enquanto seus olhos se distraiam da companhia que tinha para voltarem a se deslizar pelos engradados, caixas e outros amontoados esquisitos que faziam parte daquele cenário complicado ao seu redor.

Um novo arrepio. Era a noite das sensações, a noite das surpresas. E o jovem Eleazar estava prestes a ser tragado por ambas com igual ferocidade.

"Estel..." o calado rapaz proferiu a mais improvável das palavras.

Eleazar voltou-se atordoado, desperto por um nome pelo qual apenas as pessoas em sua casa o chamavam. O segredo irrevelável, que fora das quatro paredes de seu lar parecia soar como uma blasfêmia, rompeu-lhe aos ouvidos como um vento forte que rompe portas, quebra janelas, transformando o mundo em seu mais completo avesso. Sua impaciência o dominou uma vez mais e em instantes ele já tinha suas mãos fixas nos ombros daquele que cruzara seu caminho.

"Quem diabos é você?" Inquiriu em um tom firme, a voz tentava conter o turbilhão que se formava em seu íntimo.

Mas se o corajoso guerrilheiro estava disposto a lutar a batalha de sua vida pela informação que agora se fazia imprescindível, a figura a sua frente não parecia compartilhar tal intenção, oferecendo-lhe apenas um par de sobrancelhas arcadas em uma mistura de dor e dúvida que o confuso Eleazar não conseguia compreender.

"Responda! Vamos!" Ele gritou sacudindo os ombros que segurava, observando então os olhos vidrados da vítima de sua ira apertarem-se de surpresa e angústia. Eleazar estagnou-se como se tivesse raízes, suas mãos ainda agarradas aos ombros do estranho. Nunca se sentira mais inconformado ou mais confuso. Os olhos do rapaz voltaram a se abrir, lançando-lhe um olhar intrigante. O guerrilheiro se viu consumido pelo desejo de entender o que se passava ali, mas, além de tudo, o que se passava com ele, entender porque aquela presença o estava abalando de tal forma. Ele voltou a analisar o estranho jovem cujas roupas não diziam nada sobre quem era. Para dificultar ainda mais, um gorro negro cobria os cabelos e parte da testa dele, escondendo muita informação, mas não conseguindo evitar a sensação que assolava Eleazar. A sensação de já ter visto aquele rosto antes, e era tão forte que chegava a lhe dar vertigens.

Seria alguma espécie de lunático? Pensou então tentando diminuir a gravidade dos fatos. Sim. Aquela era uma hipótese plausível, haja vista que um frio estranho se fazia no cais e o rapaz não tinha sequer um agasalho, vestindo apenas um jeans surrado e uma fina camiseta branca. Talvez estivesse perdido, ou sozinho, ou tivesse sido abandonado.

Sozinho, abandonado, perdido... aqueles adjetivos ecoaram como um réquiem dos mais tristes na mente do guerrilheiro, que sentiu seu queixo amolecer contra a sua vontade e seus lábios se partirem, enquanto uma estranha lembrança vinha tomar forma em seus pensamentos.

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"Têm certeza que é esse o rapaz, meus senhores?" Indagou a conhecida voz da diretora do orfanato. Era uma senhora tão magra, quanto vazia de sentimentos. Eleazar não a culpava. Conviver com pessoas, cujo passado era uma incógnita menor apenas do que o futuro incerto que tinham, era de fato um grande fardo. "Eu tenho ótimas crianças ainda em idade de adoção. Este já é um rapaz, tem quinze anos eu acredito, nunca achamos seus documentos, porém em mais alguns anos estará entregue à sociedade e a sua sorte..."

Ela parou por alguns instantes antes de abrir a porta, mas o menino, sentado em um colchão de palha no chão, sabia quem estava ali, podia sentir o cheiro da colônia barata que a mulher usava, aquele era o cheiro de seus pesadelos. "Eu..." Ela continuou, sua voz parecia constrangida, talvez arrependida pelas palavras que dissera. "Quero dizer... nós arrumaremos um emprego para ele... como fazemos com todos... Nós tentamos encaixá-los em algum lugar nesse mundo difícil no qual vivemos, os senhores sabem..."

Nova pausa. O silêncio como resposta não ajudava o menino a tentar concluir quem ainda tinha coragem de acompanhar a velha senhora, cujo nome ele sequer gostava de pronunciar, àquele lugar úmido e triste que ela chamava de "o quarto das crianças".

A porta finalmente se abriu e o vulto esguio da diretora entrou, atrás dela um casal fazia o mesmo, já com os olhos fixos nele e um leve sorriso nos lábios. Eleazar franziu a testa. Estavam olhando para ele e não para todas as outras crianças que corriam e brincavam naquele cômodo sujo. Eles estavam olhando para ele. Encolheu-se no colchão perturbado. Seria um sonho? Ou o ser das trevas, daquelas terríveis estórias que lia, o estaria provocando, oferecendo-lhe uma esperança vã, para retirá-la de suas mãos com um sorriso de satisfação?

"Eleazar." Chamou a diretora em um tom forte e autoritário. "Venha aqui, rapaz. Esse casal quer conversar com você."

Conversar. Pensou o menino soltando um suspiro triste e deixando aquela sensação morrer em seu coração. Sim. Eles iriam trocar algumas palavras com ele, tal qual faziam os outros agentes sociais que vez por outra visitavam o lugar, trazendo as mesmas palavras vazias e conselhos inúteis. Eleazar franziu o rosto e cruzou os braços. Estava farto daquilo, não era mais nenhuma criança para ouvir sermões daqueles que mal conheciam a sua sina.

"Vamos, rapaz insolente!" Ordenou novamente a mulher dando alguns passos em sua direção com a já tão conhecida varinha nas mãos.

Por todos os anjos do céu. Ele pensou. Se aquela figura grotesca tocasse nele novamente com o instrumento de tortura que usava, ele se esqueceria de que se tratava de fato de uma anciã e a jogaria porta a fora, como o saco de lixo que o espírito dela parecia querer ser.

"Pode deixar conosco, madame." Uma voz doce a parou. A diretora voltou-se para a visitante com um sorriso confuso. Não estava acostumada a ser tratada com delicadeza.

"Não querem mesmo conversar com outras crianças primeiro?" Indagou procurando amansar sua voz para que se aproximasse, de alguma forma, ao tom aveludado que escutara há pouco. Mas a bela mulher aproximou-se mais e tocou o ombro da diretora com gentileza, sorrindo um riso tão belo que Eleazar acreditou estar vendo um anjo.

"Não. Mas não se preocupe." A voz doce surgiu novamente daqueles lábios. "Não vamos aborrecê-lo."

"Aborrecê-lo?" Repetiu a velha senhora com desdém, enquanto olhava com ares de ameaça para o rapaz encolhido contra o canto escuro onde sempre ficava. "Se ele fizer algo... qualquer coisa... me avisem, por favor. Já lhes comuniquei que é uma das piores criaturas que temos aqui. Não conhece o significado das palavras disciplina e respeito"

"Claro, claro." Concordou a visitante ainda sorrindo, à medida que conduzia gentilmente a senhora pela porta, fechando-a em seguida.

Eleazar sentiu uma sensação indescritível ao ser deixado a sós com aquele casal. O homem nada dissera desde que entrara, mas também não tirara os olhos de cima dele por um só minuto. O rapaz encarou enfim os visitantes, buscando em si a energia da qual precisava. Ele queria parecer forte, e não um menino abandonado e perdido do qual se deve sentir piedade, como todos aqueles malditos assistentes sociais o tratavam.

A bela moça aproximou-se do marido então e tomou-lhe o braço fazendo-o sobressaltar-se como se estivesse longe dali. O homem encarou-a e ambos trocaram sorrisos especiais que, por mais que o jovem Eleazar quisesse impedir, enterneceram seu coração. Então voltaram a olhar para ele, roubando-lhe, certamente sem intenção, todo o calor do corpo. O rapaz apertou tanto as mãos juntas por sobre as pernas cruzadas que mal sentia seus dedos. O homem veio à frente.

"Posso me sentar aqui, meu rapaz?" Ele indagou com carinho. Sua voz parecia ligeiramente embargada por uma estranha emoção.

Eleazar quis fingir indiferença, sua mais eficiente defesa, dando de ombros e virando o rosto para olhar um bando de crianças que agora brigavam por um pedaço de pau, que acreditavam ser de fato um brinquedo.

O homem sentou-se mesmo assim, procurando ficar bem próximo do rapaz e despertando nele uma visível admiração. Como um homem tão bem apessoado aceitava sentar-se naquele colchão encardido?

"Seu nome é Eleazar, não é?" Indagou o estranho amavelmente. Ele tinha olhos de um tom que o menino jamais vira antes, um cinza triste porém brilhante. "Não é?" Insistiu sorrindo.

Um duro aceno de cabeça foi a única resposta que recebeu.

"Fale comigo, criança..." Insistiu então o homem aproximando-se um pouco mais e colocando uma das mãos no joelho do rapaz.

Eleazar voltou-se surpreso, era como se já houvesse ouvido aquela fala, como se aquela voz surgisse mais familiar do que de fato deveria ser. Ele soltou os dedos entrelaçados e coçou a cabeça nervosamente. Detestava se mostrar tão confuso, mas não conseguia entender o que se passava.

"O que querem?" Indagou com aspereza, buscando usar da brutalidade de suas palavras para expelir a estranha sensação que tinha, mas seu corpo continuava imóvel, parecendo ansiar pelo toque daquele estranho. "Já conheço seus discursos de cor. Por que não vão conversar com outro alguém?"

O casal não se intimidou com o rompante do menino. Eles apenas trocaram olhares indecifráveis e os olhos do homem brilharam mais como se ele fosse chorar. Eleazar sentiu-se incomodamente confuso e encolheu os joelhos para perto do peito.

"O que querem?" Repetiu.

A mulher agachou-se diante dele e tomou-lhe uma das mãos inesperadamente. Eleazar quis objetar, mas ao sentir o calor daquelas mãos suaves segurando a sua, a mesma sensação reconfortante que sentira ao ouvir a voz daquele estranho homem, tomou-o de assalto uma vez mais.

"Estávamos procurando por você, menininho rebelde." Ela sorriu fixando seus olhos de um azul claríssimo aos dele, e o jovem Eleazar voltou a pensar que estava diante de um dos mais altos seres de luz. "Por que se escondeu de nós todos esses anos, hein?" Ela riu agora, apertando levemente a mão que segurava. Parecia de fato feliz.

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E os olhos claros daquela que depois disso se fez sua mãe, transformaram-se lentamente na imagem que o futuro lhe oferecia agora, convertendo-se como em um passe de mágica em outros olhos bem mais azuis do que os dela, mas que o olhavam com igual ternura. Eleazar soltou então os ombros que segurava, ainda preso àqueles olhos e afastou-se. Ele não conseguia evitar o sentimento de compaixão que surgia dentro de si e acabou percebendo-se pensando em como ajudar àquela criatura estranha, já que o rapaz não se mostrara disposto a qualquer reação brutal, nem quando fora agarrado e sacudido por ele.

"Quem é você?" Indagou mais uma vez, tentando mudar agora o tom de sua voz.

Mas qualquer que fosse seu tom, a única resposta que recebia era aquele mesmo olhar que o desconcertava profundamente. Eleazar suspirou tentando retomar o controle da situação, tentando atribuir a ela apenas a importância de um conjunto infeliz de coincidências estranhas. Havia tanto a tratar, em breve os homens da resistência chegariam e ele teria que recebê-los, que fazer seu papel pelo seu povo. Por mais que seu espírito desejasse, ele não podia perder tempo com o rapaz.

"Você precisa ir." Ele disse gesticulando agora para o caminho que levava para fora do cais. Começava a perceber que o rapaz não compreendia bem suas palavras. "Vá embora, vá..." Ele pediu voltando a repetir o mesmo gesto.

"Estel" O nome que ele evitava voltou a surgir negando-lhe a paz. Eleazar fechou os olhos e apoiou a mão no peito, massageando a região do coração que se agitava estranhamente agora. Foi quando sentiu algo. Uma mão pousava por sobre a sua. Ele reergueu as pálpebras e sobressaltou-se, o estranho estava a um passo dele. "Estel" Repetiu.

Foram instantes estranhos durante os quais ele se viu obrigado a prender-se àqueles olhos azuis ainda mais, para finalmente começar a sentir-se tragado para a cena que queria tanto fazer despertar. A cena que lhe traria o conhecimento da verdade, a recordação de alguma experiência qualquer, que decerto ele se esquecera e mostrava-se importantíssima agora.

Porém algo desfez o encanto antes que fosse finalizado, e os olhos que o amarravam se desprenderam dos dele para se transformarem em círculos vivos de pavor. Eleazar não teve tempo para reagir, tudo o que sentiu foram duas mãos empurrando-o com força para trás de algumas caixas e o som de um tiro, seguido de um grito, transtornaram o ar. Quando se ergueu, arma já em punho, percebeu que eles corriam um grande perigo. A alguns passos dali, um atirador a quem ele conhecia bem, descarregava a munição das duas armas que empunhava sem sequer piscar os olhos.

"Drago! Diabos!" Blasfemou sem pensar duas vezes, erguendo a arma e acertando em cheio o ombro esquerdo de seu opositor, que primeiro arregalou os olhos, surpreso, depois deixou uma das armas cair e colocou-se de joelhos, agarrando o membro ferido com gritos de dor. A surpresa fora sua aliada, mas o tempo não o era, nem o número de inimigos que provavelmente não se reduzia a um só.

Eleazar voltou a agachar-se, apenas para verificar o que havia acontecido com seu salvador, enquanto o inimigo ferido tentava colocar-se de pé, enfrentando a dor de forma inacreditável. Eleazar olhou para o rapaz que jazia agora em silêncio, deitado de bruços no chão frio daquela noite úmida. A preocupação e o temor quiseram criar raízes em seu coração, quando percebeu que o estranho havia sido atingido por tê-lo empurrado.

"Anjos do céu." Ele disse arrastando o jovem ferido para trás da pilha de caixas, enquanto seus ouvidos já captavam o temeroso som de passos vindo em sua direção. "Vamos, temos que sair daqui." Ele disse erguendo o corpo cuja voz gemia enquanto as mãos trêmulas seguravam a região do abdômen. Eleazar colocou-o sentado contra seu peito e afastou-lhe a mão do ferimento para verificar sua gravidade. A bala penetrara perto das costelas e parecia ter atravessado o corpo da vítima, saindo novamente por suas costas. "Temos que sair daqui." Ele repetiu franzindo os olhos de preocupação e pedindo aos céus que o projétil não tivesse acertado algum órgão interno da vítima. "Venha." Ele disse colocando um dos braços do ferido por sobre seu ombro e ajudando-o a colocar-se de pé. Logo ambos estavam correndo como podiam pelo caís.

&&&

"Não acredito que você o perdeu!" Disse uma voz rústica que parecia indiscutivelmente impaciente com o desandar dos acontecimentos.

"Havia alguém com ele." Informou o outro.

"Como assim? Dissemos que viesse só. Ele tem fama de sempre honrar aos tratos estabelecidos."

"Não sei, inferno maldito!" Indignou-se o atirador. "Só sei que o desgraçado é mais liso do que uma cobra d'água. Corremos atrás deles despejando toda a munição que tínhamos e as balas pareciam se recusarem a acertá-lo."

"Mas ele parece não compartilhar sua falta de sorte, Drago." Disse o outro apontando para o ferimento precariamente embalado no ombro do atirador.

"Ironize o quanto quiser, Kakius. Mas aquele ser repugnante tem uma sorte pouco natural."

"Não comece com isso, Drago." Irritou-se o outro. "Esse guerrilheiro miserável já carrega essa fama de protegido divino, de destinado e outras tolices. Não quero nenhum de meus homens compartilhando essas crendices tolas."

O atirador bufou enraivecido.

"Não sou nenhum crente idiota." Defendeu-se com o rosto contorcido em uma careta de indignação. "Só estou lhe relatando os fatos como os vi. E não sou um de seus homens!"

"Se serve ao general, serve a mim," lembrou Kakius. apertando os olhos e dando um passo na direção do atirador. "Eu organizo as coisas por aqui."

"Pois então as organize melhor, porque o protegido divino, o destinado, ou qualquer dessas coisas, escapou-lhe mais uma vez por entre os dedos."

Kakius enfureceu-se a agarrou o braço bom de Drago.

"Não me tire do sério, entendeu?" Ele advertiu dando um aperto provocador no membro que segurava. "Não passa de um mercenário que vai oferecer ao general a cabeça daquele filho das entranhas do inferno... e para isso há de ser muito bem pago."

Drago puxou o braço brutalmente.

"Não force sua sorte, Kakius. Não é só dinheiro que me move a mandar para o colo das trevas aquele desgraçado."

O comandante riu.

"Claro que não. Quantas vezes ele já o fez pintar o próprio rosto com os traços do mais tolo palhaço, Drago? Diga!" Provocou saboreando o ar de indignação que se fazia no rosto do atirador. "Não se cansa de ser feito de idiota? E o general insiste em afirmar que você é o melhor de todos..."

"E sou." Indignou-se o outro. "É como eu disse... as balas não o acertam... sempre há algo ou alguém para levar a sorte que é destinada a ele..."

Kakius ofereceu uma risada sarcástica agora.

"Sei sei..." Ele ironizou. "Melhore sua mira, Drago... ou pelo menos, melhore suas desculpas."

O atirador enfureceu-se outra vez, mas não respondeu. Nunca fora um homem de palavras ou justificativas e não seria aquele o momento dele vir a ser tal homem. Deu as costas bruscamente e passou pelo meio dos outros homens armados que ainda vasculhavam o porto, incrédulos com o desaparecimento de suas duas presas.

& Reencontros &

"Não acredito!" Dizia Eleazar inconformado enquanto buzinava freneticamente para que um manobrista tirasse de seu caminho o carro último tipo que tentava encaixar em uma vaga pouco apropriada. "Quer sair daí!!" Ele gritou com a cabeça para fora da janela. "Estou com uma emergência aqui."

O homem deu de ombros e Eleazar segurou o instinto que teve de estourar os miolos daquele ser arrogante, que o olhou com uma mistura de desprezo e deboche intolerável. Claro, ele não era ninguém, em um carro antigo, os cabelos agora inteiramente soltos e quase colados ao rosto suado, atribuíam-lhe um status ainda pior do que aquele com o qual convivia. Sim, ele tinha um carro velho, um carro velho com o qual podia simplesmente passar e quem sabe levar metade da traseira daquela beleza de veículo que aquele presunçoso ali conduzia. Mas Eleazar pensou duas vezes, como sempre fazia, era sua sina colocar-se cada vez mais em lugares que não lhe cabiam, e o líder guerrilheiro acabou esperando, com as mãos agarradas no volante, que aquele ser infeliz, que vivia a triste ilusão de se julgar melhor do que ele, porque guiava um carro que sequer lhe pertencia, saísse por vez de seu caminho e de seus pensamentos.

Aproveitou então a parada forçada para verificar como estava o rapaz a seu lado. Jogado no inclinado banco do passageiro, as duas mãos ainda sobre o ferimento, ele matinha seus olhos fechados enquanto o corpo todo tremia muito. Eleazar apiedou-se dele e tentou entender se era de fato o ferimento, agora embalado precariamente, que o fazia tremer daquela forma. Seus instintos diziam que era algo mais. Ergueu uma das mãos e tocou levemente o rosto frio do ferido, que se contorceu, mas continuou mantendo seus olhos fechados como se temesse abri-los por algum motivo.

"Você vai ficar bem." Disse esperando que o tom de sua voz acalmasse o jovem angustiado, já que estava mais do que claro que o estranho não compreendia palavra sequer que ele dizia.

Os olhos do rapaz se abriram então receosos e brilhantes. A dor expressa em cada parte daquele rosto. Eleazar apertou os lábios, preocupado.

"Estel..." Disse mais uma vez o desconhecido.

"Eleazar." Corrigiu o guerrilheiro, um tanto irritado com o estranho sentimento que aquela voz, proferindo aquele nome em especial, lhe despertava.

Um minuto de silêncio se fez, no qual o jovem ferido apenas apertou as sobrancelhas, parecendo tentar entender o que ouvira.

"Elessar..." Disse então, pendendo levemente a cabeça para ele e voltando a fechar os olhos por alguns instantes.

O confuso líder deixou seu queixo cair como se alguém o tivesse atingido com um golpe certeiro. Uma revelação era cabível, mas duas? O que estava acontecendo ali? Coincidência ou não, aquele estranho jogo da sorte o estava colocando em um desagradável carrossel de sensações.

"Eleazar." Ele repetiu pausadamente vendo o rapaz reabrir os olhos para ele. O jovem líder apoiou a mão por sobre o peito. "Meu nome é Eleazar."

O rapaz então fixou seus olhos nele e depois na mão que colocara sobre o peito e seu olhar entristeceu-se ainda mais, como se tivesse de repente conseguido entender o que o guerrilheiro queria lhe dizer.

"Eleazar." Ele disse erguendo a mão trêmula e apoiando a palma ainda manchada de sangue por sobre a do guerrilheiro. "Eleazar." Repetiu soltando então os braços e voltando a fechar os olhos.

&&&

"ADA!!!" Gritou o guerrilheiro chutando com força a porta que abrira e insistentemente voltava a querer se fechar. "ADA!! Está em casa

Elrond saiu de dentro do quarto e aproximou-se da porta da sala. Um olhar confuso e preocupado estampava-se em sua fronte, mas quando viu que o filho trazia alguém apoiado em seus ombros ele parou onde estava.

"Estel. Por Iluvatar, o que houve?" Indagou sem se aproximar.

O guerrilheiro colocou o estranho deitado no sofá e ergueu-lhe a camiseta para verificar o curativo que fizera.

"Ele está muito ferido, ada." Disse nervoso. "Deixe o interrogatório para depois."

Elrond balançou a cabeça inconformado, sentindo um nó formar-se em sua garganta.

"Estel..." Ele disse apertando os punhos, mas ficando onde estava. "Estel, leve seu amigo daqui."

"Ada!"

"Já conversamos sobre isso, Estel!" Elrond balançava as mãos confuso, procurando desviar sua atenção do paciente no sofá. "Já disse que não vou mais cuidar de seus homens aqui em nossa casa. Sabe disso. Por que não o levou a um hospital? Sabe que não podemos levantar suspeitas. Somos clandestinos nesse país, não podemos nos arriscar que encontrem você."

"Já me encontraram, ada." Disse Eleazar com tristeza. "E eu só estou aqui porque esse infeliz levou o que me cabia."

Elrond empalideceu e deu dois passos à frente instintivamente, mas parou em seguida.

"Você..."

"Ele salvou minha vida..." Interrompeu o rapaz. "Esse tiro era para mim."

"Você não foi, foi, Estel?" Indagou Elrond surpreso. "Não foi àquele encontro sem minha aprovação, foi?"

Estel enfureceu-se, erguendo-se e apertando ambas as mãos juntas.

"Não preciso de sua aprovação para fazer o que julgo correto." Ele disse em um tom elevado. "Estamos sem tempo, meu povo está morrendo e eu não posso negar quando alguém nos oferece qualquer tipo de ajuda."

"E você pode classificar o que houve hoje como 'um tipo de ajuda', criança?" Indagou o curador vendo o rosto do filho se contorcer em uma mistura de revolta e arrependimento. "Tanto conversamos sobre isso, Estel. Você é um bom líder, mas sua sede em resolver em poucos instantes assuntos que requerem mais tempo para maduração acabará sendo sua ruína, ion-nin." Ele completou com um olhar complacente agora, a indignação dando lugar ao sentimento de compreensão. Eleazar ainda era muito jovem e Elrond sabia que o tempo não ofereceria a esse filho a mesma chance de adquirir a sabedoria que oferecera a Elessar. Eleazar, nos poucos anos que esteve com ele, já aprendera muito. "Não quer que seu povo perca seu líder e as últimas esperanças que têm, quer criança?" Ele indagou por fim. "Precisa aprender a ouvir os conselhos que te dou."

O guerrilheiro caminhava agora em círculos pela pequena sala, deslizando nervosamente as mãos pelo cabelo solto, enquanto forçava garganta abaixo cada palavra que ouvia. Sabia que o pai tinha razão, não podia prender-se ao fato de que o curador apenas quisesse seu bem, dizendo o que dizia apenas porque o amava e outros exageros de pai. Elrond era experiente, e cedo ou tarde ele, quisesse ou não, teria que se curvar à sabedoria do pai. Cedo ou tarde, mas não agora. Ele não queria se curvar antes de sentir-se capaz de conduzir os acontecimentos, de usar seu dom em algo realmente útil para seu povo. Queria que sua vitória fosse dele e não construída por outrem para ser apenas saboreada por ele.

"Estel!" Chamou o pai arrependido, aquele não era um momento propício para mais uma discussão diplomática com o filho.

"Eleazar." Ele disse voltando-se tristemente para o pai. "Meu nome é Eleazar..."

Elrond suspirou, acenando com a cabeça.

"Sempre me permitiu chamá-lo assim." Ele disse com tristeza.

Estel baixou a cabeça, confuso.

"Sempre gostei... ada... Mas às vezes..." Ele voltou a escorregar os dedos pelos cabelos rebeldes. "Só não se esqueça que eu... eu não sou ele..."

Elrond baixou os olhos e suspirou.

"Eu sei, ion nin." Respondeu. "Agora leve seu amigo daqui, criança, deixe-o a porta de um hospital, antes que seja tarde." Ele disse forçando as palavras boca a fora agora, ainda evitando olhar para o ferido. Jamais se imaginaria negando auxílio a alguém em sua existência. Mas estavam muito próximos da parte derradeira do destino de muitos, era irresponsabilidade se arriscarem por apenas um.

Estel voltou-se subitamente para o paciente, em sua discussão havia se esquecido dele.

"Ada... por favor." Ele pediu erguendo os preocupados olhos azuis.

Elrond voltou a suspirar.

"Ion-nin..." Ele disse segurando ambas as mãos e tentando fazer-se crer que se o fizesse conseguiria segurar o próprio coração. "Sabe que não devemos... não podemos mantê-lo aqui..."

"Por favor¸ ada." Implorou o guerrilheiro aflito, não teria coragem de abandonar o rapaz depois de tudo o que acontecera. "Ele salvou minha vida..."

"Estel"

"Eu senti..." Disse o filho apertando o punho fechado contra o peito agora. "senti que hoje ia ser... ia ser meu... meu fim... eu senti, ada."

Elrond apertou os lábios e seus olhos brilharam. Ele conhecia aquele olhar que o filho lhe lançava, se dizia que os braços da morte haviam passado perto da luz de sua vida, era porque o fato realmente se dera.

"Pelo menos os primeiros socorros," Insistiu o rapaz "Mal pude conter o sangramento... Depois prometo levá-lo..."

O curador convenceu-se, pois no fundo de seu coração parecia esperar ansiosamente por um motivo que o fizesse crer que seria justo arriscar tantos por apenas um. Essa era a magia das coisas, infringir regras, para depois perceber que os acontecimentos gerados por estas infrações, acabariam dando bons frutos. Ele apressou-se e ajoelhou-se em frente ao sofá, vistoriando a ferida aberta agora com ares de preocupação.

"É um ferimento muito sério." Disse então apalpando a região. "Traga-me a caixa de primeiros socorros que está na estante."

Estel correu até lá e em poucos instantes estava de pé ao lado do sofá, mantendo as mãos juntas e sofrendo a cada gemido leve dado pelo rapaz. Seu coração apegara-se a ele, sem que conseguisse entender o porquê.

"A bala parece não ter se alojado." Continuou o curador limpando o ferimento como podia.

"Não o fez." Confirmou o filho.

Elrond sorriu erguendo os olhos para o rapaz.

"Disse que seria um bom médico... poderia me ouvir pelo menos algumas vezes."

Estel sacudiu a cabeça.

"Meu destino abraça outras preocupações, meu bom ada." Retrucou ainda olhando para o ferimento do qual o pai cuidava agora com habilidosas mãos.

"O destino tem vários caminhos, ion-nin. Quando julgamos que não podemos ser úteis, muitas vezes é quando mais o podemos." Disse o curador embalando o ferimento novamente. "Ele precisa de antibióticos e outros medicamentos que não possuo aqui."

"Posso ir até o consultório." Ofereceu o rapaz.

Elrond olhou para o filho com mais atenção agora. Havia escoriações e hematomas em seu rosto e mãos.

"Está ferido!" Exclamou preocupado.

"Não." Eleazar respondeu prontamente. "Atiraram nos vidros dos barcos e nas lâmpadas do cais, fomos atingidos por alguns estilhaços, mas não é nada sério."

"Como escaparam?"

"Os despistamos entrando em um velho barco abandonado." Declarou o rapaz com os olhos perdidos nas imagens do passado. "Passaram por nós... e... simplesmente não nos viram..."

Elrond ergueu os lábios em um leve sorriso. A sorte de fato abençoava aquele seu novo filho tanto quanto abençoara seu Estel do passado. Ele assentiu, voltando a observar o curativo que acabara de preparar. Apoiou então ambas as mãos por sobre ele e buscou tentar sentir o progresso da recuperação do paciente. Mas algo inesperado lhe veio como resposta, o organismo do rapaz parecia corresponder de forma invejável ao pouco tratamento recebido. Isso era de fato uma boa notícia, embora fosse deveras surpreendente. Estel percebeu que o pai ainda não tinha olhado para o rosto do jovem de quem cuidava. Ele sempre fazia isso quando o filho trazia seus amigos feridos. E foram tantas vezes... O curador não queria apegar-se a eles, para depois saber que haviam morrido em alguma emboscada ou algo pior. O jovem líder engoliu a saliva que se formara em sua boca com dificuldades. Depois colocou a mão no ombro do pai. Elrond voltou-se para ele intrigado e incomodou-se mais ao ver o ar de inquietação no filho.

"Ele vai ficar bom." Disse com um leve sorriso, julgando que fosse preocupação a causa do conflito que sentia no filho. "Não se preocupe, não vou pedir que o leve a lugar algum."

Estel sorriu, sentindo as bênçãos da bondade do pai aquietarem seu coração. Como ele gostaria de ter paz e aceitar o afeto e proteção que sua família queria tanto lhe oferecer. Mas os tempos eram tempos de guerra, tempos de luta e dor.

"Ada..."

"Sim, ion-nin. Indagou o curador, enquanto conjeturava se poderia ou não transportar o ferido.

"Ele... ele..." Balbuciou o guerrilheiro fazendo com que Elrond voltasse a lançar-lhe o mesmo ar preocupado. "Ele... me chamou de Estel." Revelou finalmente vendo o rosto do pai contorcer-se e suas sobrancelhas curvarem-se em um v profundo.

"Chamou-o de quê?" Indagou o pai incrédulo.

"Estel, ada..." Confirmou o filho após olhar novamente para o rapaz. "me chamou de Elessar também

Elrond sentiu algo se romper em si, como se seus olhos estivessem fechados e subitamente se abrissem e encontrassem a luz do sol do meio dia. Ele se virou devagar e pousou seus olhos na figura deitada no sofá. O rapaz mantinha um braço por sobre os olhos e fechava o punho com vigor, só agora o curador percebera que seu paciente não estava desacordado, simplesmente calava sua dor de forma invejável. Elrond ergueu-se um pouco, então se arrastou inseguro para mais perto do paciente. Por fim segurou-lhe o pulso obrigando-o a mostrar o rosto, um rosto que ele conhecia muito bem e que parecia brotar-lhe na mente como uma nova flor em um jardim dominado por ervas daninhas.

"Iluvatar..." Ele disse sentindo o ar fugir-lhe dos pulmões. "Legolas..."

Estel deu dois passos para trás ao ouvir aquele nome. Legolas era o personagem das histórias que o pai lhe contava quando compartilhavam a mesa de jantar alguns anos atrás. E todas aquelas histórias voltaram a sua mente em um encadeamento de informações totalmente confusas e fora de hora. Ele afastou-se mais e um temor diferente tomou-lhe de assalto.

"Legolas?" Repetiu e sentiu o nome em seus lábios como se tivesse gosto, e era um sabor doce e agradável. "Este é... este é..."

"Legolas..." Repetiu Elrond balançando novamente a cabeça, enquanto tocava gentilmente no rosto do rapaz que começava a tremer. Era como se estivesse vivendo um sonho... na verdade ainda não sabia se poderia classificar tal acontecimento como um sonho, ou um terrível pesadelo. "Legolas?" Ele chamou uma vez mais, enquanto puxava delicadamente o gorro do rapaz, libertando-lhe os louros cabelos. "Olhe para mim, ion nin."

"Mestre."A voz do rapaz surgiu dos lábios trêmulos como resposta.

"Abra os olhos, ion nin. Sou eu... vai ficar tudo bem."

"Não... Fechado... Sem ar... Ajude-me, mestre..."

Estel franziu a testa e naquele momento ele se amaldiçoou por não seguir os conselhos do pai e aprender o bendito sindarin. O pai conversava com o rapaz nessa estranha língua a qual ele só podia ouvir e conjeturar sobre o que seria. Percebeu então Elrond voltar a olhar a seu redor, subitamente incomodado por algo que parecia ser muito sério.

"O que houve, ada? "

"Preciso que me faça alguns favores, Estel." Ele disse segurando agora a mão do rapaz. "Primeiro, abra todas as janelas da sala, ion nin."

"Abrir as janelas?" Estranhou o filho.

"Ele tem claustrofobia, criança, precisa sentir que não está acuado, entende?" Indagou e o filho mostrou imediata compreensão executando a tarefa que lhe fora pedida. "E ligue para Elladan, diga-lhe para vir para cá e trazer bandagens e analgésicos..."

"Ele está na clínica?"

"Não, foi comprar mais mantimentos com sua mãe, mas tem que vir para casa para me ajudar, esteja onde estiver, diga que largue tudo e venha."

Estel já segurava o telefone digitando o número do irmão enquanto terminava de abrir a última janela do apartamento. Ele lamentava por Legolas. O lugar não parecia grande ou espaçoso nem mesmo para ele que não se sentia assim tão impressionado por lugares pequenos. "O que conto a ele?" Indagou por fim juntando o aparelho ao rosto e ouvido.

Elrond abriu a boca para responder. Aquela de fato era uma situação muito estranha.

"Conte a verdade." Disse por fim, pensando que depois de tudo o que haviam visto e vivido desde que deixaram Valinor, nada mais poderia surpreender a qualquer membro de sua família. "Sim... conte a verdade, criança."

Estel assentiu, caminhando para a cozinha em busca de um sinal melhor. "Malditos celulares!" Elrond ouviu a voz do rapaz desaparecendo no cômodo vazio. "Quer que ligue para Elrohir?" Ele indagou já do outro cômodo enquanto esperava ansiosamente que Elladan tivesse de fato carregado seu aparelho e o atendesse.

"Não. Ele já está chegando." Disse o pai com naturalidade recebendo o silêncio do filho como resposta. Estel nunca questionava esse tipo de certeza. E em poucos instantes a prova se fez com o barulho da porta se abrindo.

Elrohir entrou bufando coisas sem nexo sobre o trânsito e jogou o capacete por sobre a mesa de estar, se dirigindo até o quarto sem sequer notar a presença do pai. Elrond voltou a balançar a cabeça, se a situação não fosse tão crítica ele se permitiria sorrir. O rapaz piorava seu comportamento a cada dia.

"Elrohir!" Gritou finalmente.

"O quê? Gritou o filho de onde estava e não parecia ter intenção de sair.

"Venha cá, criança. Preciso de ajuda, lave suas mãos antes." Ele tentou brincar, buscando afastar todas as sensações que cresciam em seu peito ao perceber que Legolas agora estava desacordado. O jovem elfo parecia enfim ter encontrado algum descanso ao sentir a pequena brisa que entrava pela janela.

"Ih, nem pensar!" Veio a resposta do quarto. "Não vou mexer com medicamento algum, espere o Dan chegar ou vai descobrir o que foi que eu almocei hoje..."

Elrond suspirou enquanto deslizava seus dedos pelo rosto do antigo príncipe de Mirkwood, deixando-se levar por recordações de um tempo diferente, onde, apesar das grandes dúvidas, certas pequenas certezas eram inquestionáveis.

"Venha, Elrohir..." Ele repetiu simplesmente, colocando em sua voz um indesejável tom que indicava que nenhuma palavra do filho seria aceita como justificativa.

Em poucos instantes surgiu o contrariado Elrohir, caminhando descalço e sem camisa pela sala, as mãos úmidas sequer haviam sido enxugadas e os cabelos rebeldes estavam por sobre suas vistas. Elrohir fora a único a cortar os cabelos, mantendo-os por sobre as orelhas, mas em um desalinhado corte que fazia sempre as pessoas crerem que jamais haviam visto uma escova sequer na vida.

"Olha..." Ele disse enquanto se aproximava do sofá. "Eu juro que se me fizer mexer com qualquer medicação eu vou vomitar aqui mesmo... e o senhor não vai me convencer a consertar o estrago. Ah, não vai não..."

Mas o rapaz parou a poucos passos do sofá, vendo finalmente que o pai tinha um paciente em casa. Ele não conseguia ver seu rosto ou identificá-lo, mas a visão fora suficiente para agravar as feições do gêmeo mais novo que se aproximou cautelosamente agora.

"Ai, que fora esse meu...Ele disse passando as mãos úmidas pelos cabelos para tirá-los das vistas. "O senhor podia ter me avisado... Não sabia que estava com alguém aqui e..."

Mas o jovem Elrohir não conseguiu terminar suas justificativas, seus olhos se prenderam ao rosto da vítima e o mundo todo pareceu girar de uma vez por todas

"Pelos Valar." Ele deixou a velha expressão que há muito não usava escapar-lhe e passou a esfregar o rosto avidamente. "Eu juro que não bebi nada hoje. Vim direto da oficina para casa... Tenho tanto serviço... Acho que estou cansado... estou..." Ele enfim ajoelhou-se em frente ao sofá e voltou-se para o pai, intrigando-se ainda mais ao receber um sorriso triste dele. "Ada... por acaso seu paciente se parece com... se parece com..."

Elrond baixou os olhos voltando então a encarar o louro elfo deitado em seu sofá.

"Legolas salvou a vida de Estel hoje, ion-nin"

Elrohir empalideceu visivelmente, mostrando de forma clara o quão difícil aquelas informações todas contidas na pequena sentença que ouvira, lhe pareciam. Ele apertou os olhos ao ouvir o nome do arqueiro da Floresta Negra nos lábios do pai, depois voltou a abri-los devagar e só então sentiu que podia olhar para o velho amigo. Estendeu finalmente uma das mãos e deslizou os dedos por uma mecha dourada do cabelo dele como se ainda duvidasse que o elfo fosse real.

"Ele... ele..." tentou indagar sentindo seus olhos se inundarem de lágrimas.

"Ele vai ficar bem." Completou Elrond sentindo-se feliz em ver o rapaz voltar a agir como seu Elrohir de sempre. A sociedade brutal na qual viviam obrigara cada qual a construir suas próprias muralhas, mas Elrohir era um caso a parte, seu disfarce e comportamento foram instintivamente incorporados a sua rotina e o jovem elfo parecia realmente crer que o mundo que criara para si, era de fato real.

"Ai, ada.." Lamentou-se o gêmeo sentando-se por sobre os calcanhares. "O que posso fazer? Quer que busque algo? Que vá até a clinica? Eu volto a me vestir em instantes."

"Não, criança." Disse o pai com um suspiro. "Eu já pude estancar a hemorragia. Para dizer a verdade ainda não sei que medicamento posso usar em um caso assim. Se tivesse minhas ervas, saberia o que fazer, mas esses medicamentos para edains... Só o chamei mesmo porque queria companhia... essa espera está amarrando meu coração."

Elrohir encheu o peito de ar, mas a atitude não impediu que as lágrimas que via brotarem nos olhos do pai, evitassem que suas próprias caíssem, arrastou-se para mais perto e deixou-se envolver pelos braços dele como há muito tempo não fazia. Um sorriso surgiu no rosto úmido do curador, cujo coração instintivamente agradeceu pela aparição de alguém tão especial, que só com sua presença, parecia estar fazendo despertar neles um sentimento que ele julgava que a família tivesse perdido há muito tempo.