Título: Pouco a Pouco
Resumo: Eles são totalmente diferentes e pouco a pouco se tornaram amigos. Mas personalidades conflitantes e passados obscuros podem acabar com um bom relacionamento... Ou tornar o mesmo mais forte e profundo.
Anime: Saint Seiya
Casal: Milo e Kamus.
Classificação: UA, YAOI, Romance, Drama, Comédia, Variação Mental...
Disclaimer: Todos os personagens de Saint Seiya pertencem a Masami Kurumada, Toei Animation e Bandai. Só estou escrevendo esse treco por que, num belo dia, uma idéia esquisita caiu do nada na minha cabeça contendo alguns personagens desta série. Doeu muito! Então resolvi escreve-la para ver se me livro do trauma... O.o'
Uma breve explicação:...
Coloquei no meio da Fic personagens que não aparecem na série de TV ou no Mangá. Pode ser que eu invente mais alguns pais, mães, irmãos, tios, sogras, papagaios, patos, cachorros ou qualquer outra coisa viva que vá aparecer nesse treco. .
Orientação Psicológica (Não diga, "Eu não mereço" por que você merece!!! XD):
ISSAKI É FIC YAOI!!! OU SEJA, CONTÉM RELACIONAMENTO AMOROSO (ou de qualquer outro tipo mais caliente) ENTRE HOMENS.
Por tanto, se não gosta do assunto ou tem menos de 18 anos, não leia, por favor. Não vai ser bom pra você... T.T'
Vai na fé, filhote!!!
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Pouco a Pouco
Capítulo 3: Ficaremos sem Sábado?
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– Mu...
– Hm?...
– Já disse pra você parar com isso... – Avisou mais uma vez.
– Ah, Shaka... – Desviou o olhar – Você sabe que eu não resisto...
– Vai ter de resistir. – Impacientou-se. – Ainda não está pronto.
– Mas é que você demora demais...
– A pressa é inimiga da perfeição...
–... Mesmo assim eu não agüento! – Avançou.
– Ah!! Não se atreva!!! – Ameaçou fazendo com que o outro recuasse receoso.
– Por Favor!... – Suplicou. – Só um pouquinho...
– Não me olhe deste jeito... – Amoleceu ao receber aquele olhar de desespero, mas continuou firme. – Seja paciente! Agüente firme como um homem!
– Exatamente por eu ser um homem que não tenho mais paciência pra esperar...
–... – Ignorou...
– Aaaaah, Shaka... – Puxou-lhe uma das mexas loiras manhosamente. – Por favor...
– Não adianta. – Firmou o pé. – Pode ir parando. Não vai me convencer.
–... – Encarou-lhe ainda sentido.
–... – Fechou os olhos, irritado.
–...
–...
–... – Movimentou-se rapidamente cheio de destreza.
– AH! MU! – Exaltou-se. – SOLTA ISSO!!!
–... – Olhou-o com um sorriso desafiador para, logo em seguida, enfiar tudo na boca de uma vez só.
– Des... graçado!... – Exclamou com alguma dificuldade. Choque, talvez pela desobediência.
– HMMF!!! Behhm guevifffioh! (1) – Exclamou alguma coisa estranha, deliciado.
– Seu... Seu... – Bufou com aquela visão e apressou-se para pegar um pedaço de pano qualquer. – Não fale de boca cheia! Está escorrendo pelo seu queixo e... – Não queria acreditar no que estava acontecendo. – VAI PINGAR NO CHÃO DA COZINHA!!
– An?!... – Liberou o interior de sua boca engolindo o que restara dentro dela. – Dá esse pano aqui!! Minha camisa é nova!
Não adiantou muito a correria, pois no meio do desespero de Shaka e o mau jeito de Mu, acabaram por sujar o chão de onde estavam e também lambuzando a blusa alva do ariano.
– Ah, droga! – Reclamou o belo moço de cabelos cor lavanda e com um brilho esverdeadamente desapontado nos olhos. – Vai deixar uma mancha horrível! AAI!!
– Pra você aprender a não mexer nas coisas da minha cozinha enquanto eu estiver preparando um bolo! – Explicou-se logo após ter batido no outro com uma enorme colher de madeira que estava em cima da mesa.
– E isso vai deixar um galo terrível... – Continuou passando a mão na cabeça, sentindo as lágrimas se formarem pela dor.
Shaka detestava que o importunassem em seus momentos de inspiração. Tinha agüentado quase que umas duas horas de tortura com aquele ariano guloso no recinto, metendo a mão em tudo que era pote ou panela. Admirou-se ao ver que o maluco quase enfiara o dedo na batedeira em funcionamento e ainda por cima reclamou do virginiano ter ligado o aparelho de propósito. Mas a gota d'água, mesmo, foi o fato de Mu ter pegado a enorme colher que se encontrava dentro da vasilha de calda de chocolate e colocar a mesma na boca sem se importar com a quantidade que havia nela. Um ultraje para o loiro! Sempre fazia seus pratos de um jeito que não sobrasse ingredientes. E se faltasse para o bolo mais tarde? Pensando nisso foi que deu outra colherada na mão do ariano para que servisse de sobreaviso, assustando-o enquanto resmungava sobre sua roupa nova manchada. Contudo arrependeu-se assim que notou o olhar dramático a sua frente.
– Mu?...
– Hm?...
– Dá aqui a sua camisa... – Suspirou. – Eu lavo pra você...
– De qualquer forma vai ficar manchado... – Quase choramingou.
– Ora, vamos... – O belo loiro sorriu amigavelmente enquanto pousava a vasilha que estava em sua mão na mesa. – Se não quiser ficar de peito nu eu lhe empresto uma de minhas blusas.
– Duvido que vá servir. – Desafiou-o lembrando de uma considerável diferença de pesos entre os dois.
– Não custa nada experimentar sem compromissos? – Mais um sorriso, só que desta vez um tanto irônico.
Sabia que este sorrisinho era típico de Shaka quando queria provocá-lo. Talvez fora por isso que o devolvera na mesma intensidade,ao mesmo tempo em que capturou suas belas mãos alvas e as levou de encontro ao próprio peito num pedido mudo e tentador para que o companheiro mesmo a retirasse.
– Esqueço a camisa se me deixar provar da mais perfeita iguaria que conheço. – Segurou o indiano pela cintura estreita, apertando-a levemente com uma das mãos enquanto, a outra, tratava de acariciar-lhe a nuca espalhando calor pelos músculos e arrepiando sua espinha.
– Mas esta é das mais especiais, você sabe... – Começou desabotoando num ritmo lento, deixando que seus dedos passassem delicadamente pelo tórax pálido e firme do tibetano, arrancando-lhe um pesado suspiro. – Vai ter de pagar muito caro...
– Claro! – Concordou e contemplou o brilho azulado da mais pura malícia nos olhos de Shaka. Um convite que qualquer um poderia ler, mas era sempre direcionado para si. – Pago do jeito que você quiser... Os doces indianos valem o sacrifício. – Roçou os lábios pela bochecha do outro indo de encontro aos dele.
– Hmm... Até que os petiscos do Tibet conseguem ser... – Sentiu o hálito de Mu esquentar-lhe a boca devido à proximidade e a respiração. – Estonteantes...
– Contemos alucinógenos... – Respondeu meio tenso, analisando aquela boca perfeita que a mais de semanas rezava para beijar. – E a falta do mesmo pode causar abstinência.
– Eu já estava pra ter uma crise... – Subia e descia suas mãos pela pele aveludada do ariano às vezes parando para apertar-lhe os músculos e pontos mais sensíveis do tórax.
– Senti sua falta...
– Não me diga...
Finalmente renderam-se àquele tão desejado contato.
...o§O§o...
O carro não demorou muito pra chegar a seu destino. O caminho parecia ser tranqüilo naquela hora da tarde e, também, Milo não morava muito longe da faculdade. Este só não ia a pé por causa de sua alma dorminhoca, além de deixar para arrumar suas coisas na última hora e nunca sabia onde colocava seu material de estudo que estava sempre perdido no meio da bagunça que era seu quarto. Ou seja, não era por preguiça. O escorpião fazia questão de exercitar-se todos os dias, podendo manter os gominhos de seu maravilhoso corpo no lugar, usando e abusando dos aparelhos que Aioria mantinha em seu quarto com a mesma finalidade.
O grego mal percebeu que haviam estacionado dado ao fato de ainda estar falando alguma coisa sobre projetos futuros de sua vida para quando terminasse a faculdade, o que começara a incomodar o silencioso motorista ansioso por ver aquele língua-solta longe de seus ouvidos. Vendo que o assunto iria longe, apenas desligou o automóvel soltando um de seus longos suspiros impacientes, talvez assim o tagarela acabasse desconfiando e descia logo de uma vez.
Demorou alguns segundos até que Milo se calou, olhou pra fora e viu que estavam bem em frente a seu prédio.
– Ué?... – Indagou um pouco surpreso. – Já chegamos?...
Nem teve tempo de soltar uma de suas típicas frases arrogantes, vendo que o passageiro catou sua mochila reclamando em voz alta algo sobre ainda ter de trabalhar naquela mesma tarde e não poder ficar pra fazer sala a algum amigo que chegaria e que, por isso, não o convidaria para subir e tomar uma cerveja com eles. O aquariano permaneceu em silêncio apenas observando Milo falar como se ele, Kamus Mondeclair, fosse aceitar assim tão facilmente. Apenas queria o grego fora de seu carro, já que a muito havia se arrependido de ter oferecido a carona. Caramba! É não é que o escorpião ainda ganhava de sua prima no que Hyoga costumava chamar de "Diarréia Vocal"?
Ouviu a porta abrir, sendo tirado de seus pensamentos infelizes, ao mesmo tempo em que, sentiu-se ser puxado para o lado. Logo em seguida, recebeu na bochecha outro estalado beijo que, por pouco, não lhe pegou nos lábios. Ainda bem que não tinha se virado completamente para encarar o rapaz no meio do susto pelo ato repentino. Sabia que aquilo era costume de alguns gregos, mas detestava.
Ainda catatônico foi capaz de escutar aquela voz perfeitamente bem gravada em seu cérebro se despedir.
– Valeu cara! – Milo bateu a porta e abaixou-se para olhar pela janela. – Te vejo amanhã na facul! – E saiu correndo, acenando e sorrindo, igual a uma criança até desaparecer na portaria.
Atrevido, folgado, impulsivo, abusado, intrometido, lesado e etc... O aquariano não conseguia pensar em mais palavras para descrever a pessoa com quem estava alguns segundos atrás. Mas, estranhamente, não sentiu aversão ao rapaz, como costumava acontecer ao encontrar certos tipos de indivíduos. Tentou arrumar alguma razão lógica para o fato e acabou ficando mais um tempo olhando para a portaria perdido em pensamentos. Poderia ser a semelhança daquela personalidade com a de Clarice, sempre alegre e faladeira. Ou a de Hyoga por ser tão energético e atrevido. Quem sabe até uma mistura dos dois... Mas, isso sim, seria um tremendo desastre ecológico. Teriam que fechar aquele prédio e atestar estado de calamidade pública.
Balançou a cabeça como se isso fosse tirar aquelas passagens de sua mente. Deu a partida no veículo e colocou-se mais uma vez no caminho de sua morada. Calma, silenciosa e vazia. O único recinto onde conseguia encontrar um pouco de paz.
...o§O§o...
Enquanto isso na cozinha dum certo apartamento...
Dizem que depois de alguns anos o relacionamento amoroso esfria radicalmente, mas isso não parecia ter acontecido com os dois amantes que, apesar de mais ou menos 6 anos juntos, continuavam com o mesmo desejo ardente de quando eram simples adolescentes. Os mimos haviam começado leves enquanto o joguinho era apenas de sedução, contudo a necessidade de sentirem um ao outro iniciara uma sofrida guerra de movimentos ligeiros, e agora a disputa parecia ser a de quem conseguiria descobrir mais caminhos ocultos pelas roupas do outro. As mãos escorriam sobre as peles alvas tocando os pontos vibrantes pela sensibilidade e anseios conservados a contragosto por pelo menos 2 semanas.
Aquela vida de morar cada um em uma cidade diferente estava conseguindo deixa-los malucos. Queriam se ver a todo tempo, trocar beijos, abraços, prazeres, gostos e tudo mais que fosse permitido dentro da intensidade de seus sentimentos. Assim pensavam... Se é que no momento conseguiam pensar em alguma outra coisa além de possuírem ou serem possuídos.
– Mu... – Suspirou Shaka enquanto seu único fio de sanidade restante tentava fazer com que o ariano o ouvisse. –... Quarto... Hei!... – Acabou sendo obrigado a puxar os cabelos da nuca do companheiro que o olhou com uma mistura de desejo e protesto por ter sido impedido de continuar descendo com as carícias. – Na minha cozinha não! – Continuou a segurar-lhe as mexas esperando algum sinal de entendimento.
– Hm...? E o bolo? – Perguntou o outro meio bobo e dominado pelo olhar lúbrico do indiano.
– Bolo?!...Que bolo?... – Ficou meio confuso depois de ouvir a voz calma de Mu a qual sempre conseguia atiçar ainda mais sua luxúria.
– Ta certo! – Ofegou o tibetano entre um beijo e outro, voltando a livrar-se daquela roupa que insistia em ficar entre ele e Shaka. – Quarto..., 5º, 6º... O que você quiser...
O cômodo privado do indiano era, estrategicamente, o mais perto de onde estavam. Um alívio a menos, já que estavam a ponto de inflamarem os corpos na entrada do corredor. Não havia obstáculos no meio caminho, apesar de não fazer muita diferença, pois tropeçavam e desequilibravam-se todos os momentos em que algum deles prestava mais atenção ao que fazia do que onde pisava. E foi numa destas distrações que Shaka quase foi ao chão, sendo pego pelos braços delicados, mas firmes de Mu, que o ajeitou melhor para poder explorar seu tórax com mais precisão.
– Esper... Mu... – Tentou dizer, mas a respiração pesada e pra lá de alterada dificultava a comunicação de ambos. – D-Desse jeito não... vamos, ahn... chegar a lugar algum...
Mas o ariano pareceu não querer ouvir. Ou talvez não ouvisse mesmo. Seria possível ele ter se descontrolado de tal forma que nem percebia que seu amante puxava-lhe os cabelos com um pouco mais de força para que voltasse a razão? Faltavam poucos passos, não seria tanto sacrifício assim. Só que, ao contrário de ser solto e empurrado porta a dentro, Shaka acabou sendo prensado com energia na parede oposta, o que colou mais ainda os corpos, dando para perceber claramente o quanto o outro estava excitado.
– Ah, Shaka... – Sussurrou roucamente pouco antes de se ocupar do lóbulo na orelha daquele a quem chamava. – Shaka...
Ouvir seu nome ser chamado como um poderoso mantra, por aquela voz embargada de desejo, foi o que jogou o resto da razão do indiano por água a baixo. Sem querer perder mais tempo, cravou as mãos nas nádegas do tibetano, ergueu uma das pernas, que foi prontamente segura pelo mesmo, oferecendo mais espaço e os quadris começaram uma dança feroz como se isso pudesse diminuir a angustia de ambos. Passava da hora de tornarem-se um pouco mais... ousados. Foi aí que Shaka, tomando a iniciativa, levou suas mãos até o cós das calças de Mu com intuito de libertar-lhe o-.
– Queridas, cheguei!! – Ouviu-se logo em seguida a porta de entrada bater escandalosamente.
Mu foi empurrado pelo amante com tudo o que restara de suas forças soltando um muxoxo nervoso por ainda não ter percebido o que estava acontecendo.
– Estranho... – Pensou alto o escorpião. – Cadê todo mundo... Ah!! – Exclamou ao entrar no corredor. E não se conteve ao perceber que um dos seus maiores amigos de infância, o qual não via há muito tempo se encontrava ali, parado a sua frente. – MU!!
Não conseguiu enxergar mais nada. E com a euforia do momento, pulou em cima do camarada, tamanha a felicidade por revê-lo.
– Cara que saudades! – Deu-lhe um daqueles abraços de quebrar costelas. – Que bom que já está aqui! – Mais dois beijos barulhentos, um em cada lado das faces afogueadas do ariano. – Assim posso contar sobre um fato muito engraçado que aconteceu comigo hoje.
Apertou Mu, mais uma vez, no próprio corpo até que... sentiu algo estranho... Uma certa rigidez lhe incomodava fazendo considerável pressão de encontro a seu quadril. E, naquela região das calças, com certeza não era um celular... Elevou seus olhos lentamente até que pode ver um Shaka meio irritado a olhar um ponto qualquer do corredor com o rosto muito corado. Percebeu também que o tibetano parecia um tanto tenso ao abraçá-lo... Então aquilo rígido só podia ser...
Ouviu-se o som de uma ficha caindo e subitamente Milo se afastava do amigo completamente sem graça por ter interrompido algo como aquilo. E pior... Já a meio caminho andado!
– Sabe... Acabo de me lembrar que estou esperando um e-mail muito importante. – Comenta baixo com um sorriso desconcertado nos lábios e olhando para qualquer local que não fosse um rosto humano. – Fiquem a vontade... Bem... Fui! – Deu meia volta e, a passos largos, entrou em seu quarto fechando a porta rapidamente.
Em certo momento, Mu teve uma séria vontade de rir segurando-a, apenas, por ter visto que o semblante do indiano parecia o mesmo de quem dizia que havia perdido o clima por causa de uma interrupção daquelas. Até parece que não estavam acostumados com a lerdeza de Milo ou as palhaçadas de Aioria e, antes mesmo que o loiro pudesse falar algo do tipo, puxou-o para dentro do cômodo sem nem dar-lhe chances para protestar.
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Ah, aquela porta!... E do outro lado, sua tranqüilidade, sua privacidade, seu mundo. Sentiu-se completamente relaxado ao ouvir o tilintar do molho de chaves enquanto destrancava o apartamento. Estava em seu espaço mais uma vez. A sensação gostosa daquele sossego fazia-o inspirar instintivamente o prazeroso ar que envolvia sua dimensão de silêncio. Era justamente este silêncio que tornava aquela morada seu verdadeiro lar. Sem limitações ou privações... Era ele quem mandava. Completamente diferente do ambiente lá de fora, onde todos viviam e dançavam conforme o que a sociedade dizia. Inclusive ele próprio.
Ao colocar os pés pra dentro sentiu-se ainda mais satisfeito indo logo acender as luzes. Primeiro a da sala de entrada, depois a da cozinha onde apanhou uma lata de suco industrializado sabor laranja. Saiu em direção a seu quarto, colocou o copo numa prateleira da estante e dali mesmo tirou alguns livros colocando-os em cima de sua escrivaninha. Preparava-se para estudar um pouco mais.
Ligou seu computador e enquanto este era inicializado, aproveitou para pegar suas novas anotações do dia. Faria uma pesquisa simples sobre elas só mesmo para matar algumas curiosidades.
Olhou em volta. Mas onde diabos havia colocado sua mochila? Logo em seguida revirou os olhos, ainda estava com ela pendurada num dos ombros. De tão entretido com seus pequenos rituais não se deu conta daquele peso em seu corpo.
Sentou-se na cama colocando a bolsa a seu lado. Abriu-a e procurava seu caderno quando viu que um fino livro se encontrava ali também. E aquele definitivamente não era um dos seus. Lembrou-se, então, de quem poderia ser junto com aquele rosto moreno debochado, no exato momento em que teve aquele objeto diante do seu nariz.
Nem havia reparado direito no nome do livro diante de tal situação e agora constatava que era: "O Guia do Mochileiro das Galáxias" (2). Já ouvira falar sobre aquela leitura nos fóruns sobre livros que participava. Boas críticas. Recomendações... Mas com certeza não era o seu tipo de leitura. Ainda pensando não conseguiu desviar os olhos daquela capa, recordando de todos os acontecimentos vividos em tão curto espaço de tempo. Permitira-se até fazer piadinhas, mesmo que um tanto mal humoradas, quando seu natural seria ter permanecido quieto.
O telefone tocou, tirando-o de seus pensamentos. Fechou os olhos e respirou fundo. Talvez a pessoa desistisse. Não estava a fim de escutar nem mesmo a própria voz, quanto mais a voz de outra pessoa. Esperou alguns segundos mais, contudo os toques do aparelho continuavam persistentes. Fazer o que? Suspirou e atendeu. Talvez fosse alguma coisa realmente importante...
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Na cozinha do apartamento algum tempinho depois, Shaka, já um tanto nervoso, tentava vigiar o bolo no forno para que não passasse do ponto, mas tendo de aturar a curiosidade de um certo grego safado a lhe aporrinhar com perguntas nada discretas sobre sua intimidade com o amante de poucos minutos antes. Mu encontrava-se no quarto do indiano vestindo algumas roupas depois de ter tomado um bom banho. Os esforços de algum tempo atrás haviam deixado-o completamente grudento de suor e algo mais.
– Ah, Shaka! – Implorou Milo debochado como sempre. – Mata minha curiosidade, vai...
– Já disse que se continuar tentando me irritar desse jeito vou arremessá-lo pra fora da minha cozinha pelo basculante. – Respondeu impassível mesmo sentindo vontade de esganar o acompanhante pelo sorrisinho depravado que este sustentava.
– Eu juro que deixo você me degolar com a faca de pão se me disser qual de vocês dois foi o "macho man" do dia.
– Milo! – Apontou para o grego o garfo o qual acabara de usar para verificar se o bolo estava assado. – Eu vou contar até três. E se não estiver fora do meu campo de visão até lá, juro que teremos espetinho de escorpião para o jantar.
– Escorpião?! – Exclamou Mu, logo após ter entrado na cozinha ajeitando uma apertada blusa de Shaka. – Há quanto tempo não ouço este apelido?...
– Eu escuto quase todos os dias... – Replicou o grego dando de ombros. – E você vai acabar explodindo esta camisa... Er... Correção: esta camisinha!
– Pelo que me lembro Milo, Shaka só o chama assim quando você passa dos limites... – Reparou que seus mamilos estavam completamente marcados na blusa. – Pior que esta foi uma das mais largas que achei... – Suspirou fundo por estar parecendo um ridículo e sentou-se pesadamente numa das cadeiras que, diga-se de passagem, não eram muito fofas.
– Ah! – Exclama o escorpiano, como se tivesse acabado de descobrir a teoria da relatividade. – Então foi o carneiro que descobriu a Índia...
Com o último comentário Shaka avermelhou-se por inteiro, mas não sabia se era de vergonha ou de raiva. Falar daquela forma sobre seus segredinhos com o ariano foi a gota d'água. Olhou assassinamente para Milo que, sentindo um arrepio na espinha, levantou-se de impulso assustando Mu que ainda não havia entendido nada.
– Mu, querido amigo. – Começou o grego, sentindo que uma alma demoníaca preenchia todo o local. – Por que você não pega uma das minhas camisas? – Puxou o tibetano pelo braço e saiu empurrando-o corredor a fora. – Vão ficar um pouco largas, mas pelo menos confortáveis.
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Mansão dos Mondeclair.
Num daqueles quartos luxuosos um certo adolescente parecia um tanto nervoso ao seu próprio telefone. De cada 10 palavras que dizia pelo menos umas 7 apresentavam tons irônicos e arrogantes. E foi exatamente pela tonalidade da conversa que pode ouvir os brados do jovem loiro ao passar pelo corredor em direção ao próprio quarto que ficava no mesmo andar.
A porta estava entreaberta. Significava que podia entrar a hora que bem entendesse. Aquela era uma forma de o primo mostrar se queria ou não ficar sozinho. Sendo assim, entrou encontrando-o largado em cima da própria cama, cuspindo marimbondos no celular.
– Mas será que não poderia deixar de ser chato pelo menos uma vez na vida, cara? – Calou-se um momento para escutar e sua expressão se tornou completamente macarrônica. – Você sabe que não sou tão bonzinho como a pastel da nossa prima, né? Por mim naquele dia você teria ficado do lado de fora do apartamento sem porcaria de toalha nenhuma! E mais: teria ligado pro prédio inteiro para dar uma passadinha no corredor do seu andar e ter uma surpresa! – Mais uma pausa breve e por alguns segundos até pareceu que começava a compreender alguma coisa. – Ok... ok! – Mais alguns segundos de silêncio. Movimentou-se na cama meio irritado e revirando os olhos respondeu. – Sei... Até parece que eu acredito... – E agora sim, sua expressão se tornou completamente furiosa. – Eu vou fazer 17 e não 14!... – Mais um tempinho para escutar, onde abria os lábios e tornava a fechá-los não tendo brechas do outro lado. – Aham... – Confirmou continuando. – Eu sei que não prometeu nada, ta cheio de trabalhos na faculdade e... – Odiava ser cortado daquele jeito como se quisessem que ficasse mudo, enfurecendo-se de vez. – QUER FAZER O FAVOR DE ME ESCUTAR, PxRRx!!... – Seu humor havia piorado ainda mais ao ouvir a fria repreensão. – AH É?! VEM AQUI E LAVA ENTÃO!! – Provocou. – Humph! – E desta vez ficara escutando durante um considerável espaço de tempo até que sua paciência, que era ínfima, chegou a seu limite. – AH, quer saber? VÁ SE FxDxR E PASSAR BEM!! – Desligou quase quebrando o aparelho.
–... Hyoga... – A garota, duvidosa no momento, mais indagou do que o chamou.
– Eu sei!... – Suspirou entediado. – Vi quando você entrou no quarto.
– Então me chamou de pastel propositadamente, seu pirralho? – Sentou-se na cama olhando fixamente na cara do adolescente esparramado nela.
– Ele não vai...
– Eu o mato! – Retrucou firme.
– Aí sim, ele não vai mesmo!... – Riu, mas na verdade ainda fazia um grande esforço para manter seu bom humor. – Não vai nem morto... Como sempre... – E foi aí que o sorriso morreu de vez.
– E se passássemos a nos preocupar mais com os outros convidados da festa?...
– Quase todos estão confirmados, convites assinados... A menos que você queira que eu assine mais convites para amigos seus...
Um tempo de silêncio. Hyoga não comenta mais nada. Era uma pessoa meio difícil de lidar quando estava contrariado.
– Talvez ele tenha mesmo algum trabalho urgente da faculd...
– Não precisa defendê-lo, Clarice. – Cortou-a – Conheço nosso primo muito bem, e tenho certeza de que entrega qualquer coisa na faculdade antes mesmo dos professores pedirem... – Continuou a falar vendo que sua prima tentava pronunciar-se. – Sei que, como todo ser humano normal, ele tem problemas e gosta de resolvê-los sozinho. Mas não precisa se isolar do resto do mundo. – Fez um sinal com as mãos para poder continuar falando antes de ser interrompido. – Muito menos das pessoas que gostam dele. Sendo assim um...
– Cala a boca que eu quero falar!! – Berrou a mulher sentindo-se irritada com os gestos e atitudes do garoto. – Sim! Ele tem problemas! E que, com certeza, vão muito além dos de um molequezinho de 16 anos como você.
Ficou realmente revoltada ao vislumbrar a cara jocosa de Hyoga encarando o nada parecendo resmungar as mesmas palavras que dissera. Eram as mesmas atitudes de sempre, e por mais que tentasse falar, já sabia que entraria num ouvido daquela cabecinha loiramente mimada e sairia pelo outro. Sem mais paciência e cansada para discutir, ou até mesmo dar os tapas que haviam faltado em sua criação, Clarice deixa o quarto pisando duro. Esganaria o primo se continuasse ali.
O mesmo ficou em silêncio, pois previra a reação da prima ao começar fingir que não era com ele. Mesmo assim pensou durante alguns minutos sobre as palavras dela.
– Duvido... – Suspirou concluindo o que queria, e com o semblante cheio de preocupação o adolescente voltou a se afundar no leito.
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Finalmente depois de experimentarem várias e várias blusas, que ficaram mais parecendo um balão murcho no corpo de Mu, foi que Milo achou uma meio certa no rapaz, mas que em si ficaria bem justa. Era de uma banda nova que estava começando a decolar na praça e a qual realmente gostava.
– Sei não... – Começou o ariano. – Isso não combina em nada comigo. – Olhou-se no espelho reparando as mangas rasgadas nos ombros e a ilustração psicodélica de um sistema planetário que estampava logo abaixo do nome "Solaris" (3).
– É... – Concordou. – Você ficou com cara de... Nerd Revoltado... Mas foi a única que serviu...
– Bom, não faz mal! – Piscou e riu para o próprio reflexo. – É só não sair na rua com este treco.
– Ow! – Exclamou Milo chamando-lhe a atenção. – Não chame minha linda blusa de "este treco"! Solaris merece respeito! Eles são muito bons de serviço.
– Você tem gostos estranhos... – Segurou a barra da blusa para ver melhor o desenho. – E definitivamente este é um deles...
Milo estava pronto para repreendê-lo mais uma vez quando escutaram uma gargalhada muito conhecida na porta do quarto.
– E eu que achava já ter visto de tudo neste mundo. – Debochou Aioria que havia acabado de chegar do trabalho. E este mesmo não teve tempo de dizer mais nada. Milo e Mu entreolharam-se e como que por telepatia chegaram a um entendimento.
– Montinho nele!! – Gritaram os dois ao mesmo tempo e voaram para cima do leonino que não conseguiu desviar dos dois marmanjos.
E a baderna foi geral no corredor. Aioria tentava se livrar proferindo xingamentos enquanto os amigos tentavam leva-lo ao chão com o peso dos próprios corpos. Tarefa difícil, pois o leonino era bastante forte e ágil. Mu já estava empoleirado em suas costas e Milo tentava fazer o mesmo, quando Shaka apareceu do nada esbravejando contra eles por causa daquela barulhada. Putz! O que os vizinhos não iriam pensar? Mas sabia que suas crianças não escutariam. Quando o assunto era o bom e velho "montinho" (4) ninguém parava enquanto o castigado não fosse ao chão. E pelo visto o Leão não se daria por vencido tão cedo.
Suspirou entediado ao mesmo tempo que um sorrisinho maldoso brotou em sua face. Não fazia mal algum sair de sua rotina de vez em quando. Tomou distância e foi com tudo pra cima dos três estatelando-os no chão.
– Até... tu, Shaka?! – Indagou Aioria com certa dificuldade por que estava com mais ou menos uns 330 kg sobre as costas.
O indiano, elegantemente sentado em cima de todos, deixou que uma longa e maligna gargalhada ressoasse nos quatro cantos do apartamento antes de comunicá-los.
– Senhores... – Ajeitou a franja como quem não quer nada. – O café está pronto!...
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Depois de muito bem ajeitados na sala de estar, serviram-se sem cerimônias do belo bolo e de mais algumas iguarias deliciosas, feitas pelo indiano, que estavam na mesa de centro. O leonino ainda reclamava com Mu algo sobre o trânsito estar abarrotado e um inferno por causa dos turistas que andavam feito baratas tontas pelo centro de Atenas, enquanto Milo respondia Shaka sobre o fato de não ter de comparecer ao trabalho naquela tarde, pois recebeu um e-mail de Afrodite dizendo que o ateliê havia cancelado todos os compromissos marcados para aquela semana.
E aproveitando que a conversa rolava solta não puderam deixar de falar nos tempos divertidos que tiveram na infância.
Milo, então, lembrou-se de quando ele e Aioria, meninos nada bentos, haviam pregado chiclete nos cabelos de Shaka sem saber direito que aquela coisa só saía se os cortassem. Mu, como sempre, fazia grande esforço para não rir enquanto o namorado comentava, com cara de poucos amigos, sua experiência constrangedora dos dias em que teve a cabeça raspada pelos pais, e ainda enumerava os vários apelidos recebidos na época do desastre. Depois passaram rapidamente para o assunto de como andavam suas vidas, e nessa hora Aioria sorriu animado cheio de coraçõezinhos a voarem sobre sua cabeça. Seu relacionamento com Marin estava indo de vento em poupa! Já o virginiano e o ariano enfrentavam, ainda, o problema de morarem longe um do outro, mas, fora isto, estavam perfeitamente bem. O escorpiano, no entanto, não tinha muito o que falar, pois nunca firmara compromisso sério com ninguém. Não por falta de pretendentes, principalmente por que, o fato de ser bissexual, acabava duplicando sua lista por quilômetros em questão de quantidade. Mesmo assim, reclamava da qualidade do tipo de ligação que as pessoas procuravam nos dias atuais e não escondia invejar os amigos por terem encontrado seus parceiros dentre eles próprios.
– Ah! Ficaram sabendo da novidade?! – Perguntou o leonino do nada assustando todos por sua agitação repentina.
– Novidade?... – Shaka encarou-o desconfiado.
– Alguma fofoca quente?! – Milo endireitou-se no sofá apurando os ouvidos pra saber mais sobre algo que já desconfiava.
– Como sempre, ainda não pesquei nada... – Disse Mu resignado, olhando confuso para os outros três que pareciam se entender.
– Bom... – Recostou-se ao sofá de dois lugares mais relaxado. – Recebi um telefonema de Saga pouco antes de sair do trabalho e ele pediu para comunicar aos demais que a Geminis' Dimension (5) não estará aberta ao "público comum" neste final de semana e...
– AAAAAAAAAH! – Exclamaram os outros três unissonantes, mesmo o tibetano não sabendo por que havia se juntado àquele coro.
– Que isso pessoal? – Indagou tão confuso quanto Mu.
– Puxa! – Suspira um indiano aliviado. – E eu achando que Marin estava grávida...
– Droga! – Brada um loiro grego desanimado. – E eu achando que ia ser padrinho...
Um pequeno momento de silêncio caiu sobre o local.
– Não... acredito... Acharam que... – Pasmou o leonino.
– Calma Milo! – Shaka tentou consolar o escorpiano nem ligando para a cara apatetada de Aioria. – Buda é piedoso e ter o leonino como pai seria um karma fora de série...
– Ah... Er... Shaka... – Balbuciou o ariano sem saber como amenizar o comentário.
– Vão se fxdxr!! – Aioria falou displicentemente como quem manda alguém buscar um copo com água na cozinha depois de acordar do choque.
– Num manda não que estou na seca desde a semana passada! – Retrucou Milo lambendo os dedos que estavam lambuzados da calda do bolo. – Ao contrário de uns e outros que...
– MAS o que mesmo você estava falando sobre Saga, Aioria? – O virginiano cortou o assunto querendo fulminar um certo aracnídeo com o olhar.
– Ah, sim... – Retornou. – Parece que a Geminis' Dimension não vai funcionar normalmente este sábado, estando aberta somente para um pequeno público seleto... Algum figurão deve ter alugado o local para uma festinha particular...
– Como assim?!... – Interessou-se o outro grego, lembrando da vez em que um tal de Julian Solo alugara o local com a mesma finalidade, onde conseguiu entrar de penetra por intermédio do amigo Kanon Gemini. – O que vai ter lá desta vez? Ele disse?!
– Nada de mais... – Deu de ombros. – A única coisa diferente é que haviam contratado os serviços de uma banda pra animar umas duas horinhas de festa...
– E qual banda seria? – Perguntou o tibetano que na verdade estava mais interessado em aconchegar melhor o namorado em seu abraço.
– Uma tal de... Solaris, eu acho...
–...
–...
–...
–... O QUÊ?!
...o§O§o...
Ah! Aquilo sim é que era vida... Deitado e abandonado naquele sofá confortável, de frente para uma parede que era de vidro cristalino quase por completo, numa sala qualquer do último andar. E, sendo aquele um dos prédios mais altos da região, deliciava-se com a visão de quase toda a cidade e um bom pedaço do mar ao som de suas grandes favoritas.
O belo homem não quis acompanhar seu irmão até a sala de reuniões alegando dores de cabeça, quando na realidade odiava ir a estes encontros onde teria de fingir prestar atenção, dar opiniões sobre o que pouco lhe importava e ficar o tempo inteiro sorrindo para pessoas que nunca vira na vida. Seu gêmeo sabia deste detalhe, contudo o chamou assim mesmo, afinal, era responsabilidade dos dois cuidar dos seus interesses no patrimônio. Seria mais que agradável se, por acaso, aquele geminiano participasse de uma ou duas decisões sobre os próprios negócios.
Enrolando, distraidamente, uma de suas mechas azuladas nos dedos enquanto a paisagem era sutilmente modificada pelo entardecer e pelas nuvens lentas do horizonte, Kanon pareceu não se importar de ter sido esquecido na sala ao lado, tampouco com o fato de a reunião estar se estendendo mais do que deveria. Com certeza umas duas horas a mais do que Saga havia previsto. Estaria bufando de raiva lá dentro no lugar do irmão que costumava ser mais paciente. Ou, pelo menos, ambicioso o suficiente para agüentar aquela vida de Senhor Empresário como era intitulado pela família. Agora, ele já era de fazer aquilo que lhe dava na telha, evitando estar preso à vida azucrinante de indivíduo responsável e sendo livre para curtir, a hora que bem entendesse aquilo o que mais adorava: Música.
Música era irrevogavelmente sua maior paixão. Claro que havia muitas outras coisas das quais gostava, mas as mesmas sempre estavam acompanhadas ou relacionadas, de alguma forma, a melodias das mais variadas. Jazz, rock, pop, metal, techno, blues... Escutava sempre aquilo que estivesse condizendo com seu estado de espírito. E talvez fosse exatamente por isto que havia se tornado um Sr. DJ e grande crítico musical na mídia.
Mas, sendo filho de empresários,... Era realmente a ovelha negra da família.
Sorriu com este pensamento e aconchegou-se um pouco mais ao som das mp3 no seu Ipod. Mais uma música começava e bem agitada por sinal. Mas exatamente por causa deste agito que não pode escutar o celular tocando insistentemente dentro de sua bolsa. E mesmo se pudesse ouvir não atenderia. Agora estava perdido em devaneios na sua própria dimensão. Quem quer que fosse, naquele momento, que ligasse mais tarde.
...o§O§o...
Na sala de reuniões o clima estava bem agradável. O que tinha de ser discutido há muito estava resolvido. Papéis entregues, assinados, propostas apresentadas e a serem consideradas, alguns projetos concluídos, outros apenas esperando autorizações... Sem problemas, sem estresse. E agora conversavam amigavelmente, entretanto já estava mais do que na hora de despedirem-se e voltarem à vida rotineira dos "Business Men" que realmente eram. Foi então que Saga, com cuidado para não fazer muito ruído, se levantou. E todos o seguiram lógico, parecendo até meio que hipnotizados pelo movimento do belo geminiano.
Este homem sim, era um poço de elegância, educação e dono de grande magnetismo natural às vezes imperceptível pelo próprio. Conseguia ser líder de qualquer coisa mesmo sem querer e quando percebia sua própria posição já era tarde, pois estavam todos a seus pés não importando assunto ou situação. Seu olhar era capaz de penetrar a alma de qualquer um, desvendar seus segredos mais ocultos e, com isto, parecia avaliar e separar os melhores dos piores para o bem de suas idéias e interesses...
Pelo menos, era sempre assim que Gemini Saga era visto no mundo dos negócios...
Era uma pessoa realmente responsável, cortês, sensata e etc., porém também era amável, meio hesitante e, por que não dizer, um pouco tímido. Mas este lado, apesar de muito bem escondido atrás de sua máscara altiva e sedutora, era conhecido somente por seu irmão. Não havia ninguém neste mundo que fosse tão entendedor de Saga, até mesmo que ele próprio, do que seu gêmeo Kanon. E eles sabiam perfeitamente disso.
Despediu-se de todos enquanto encaminhava-os ao elevador. Fez trocadilhos, piadinhas descontraindo ainda mais o ambiente e divertindo seus convidados e sócios que agora estavam a caminhos de suas casas, escritórios e o raio que os parta. E mais um dia de "azucrinação", como diria Kanon, estava quase no fim. Só faltava pegar seu irmão "caçula", como gostava de chamá-lo, e partir para o último encontro do dia.
Agradava-lhe muito tê-lo por perto, mesmo que ficassem em cômodos separados por algumas poucas paredes. Ele sabia que o outro, apesar de muito diferente de si em personalidade e gostos, lhe transmitia a maior segurança do mundo. Talvez tenha sido pelo fato dos dois terem sido criados afastados desde o divórcio dos pais quando ainda eram crianças. Sentiram muita falta um do outro, sofreram sozinhos durante anos como se algo em suas vidas não estivesse completo, cresceram com criações diferentes onde Saga se transformou num Senhor Responsabilidade, enquanto que Kanon era tido como o revoltado da família, para no final, depois que o gêmeo mais velho havia conquistado independência financeira completa, entrarem num acordo de morarem juntos. Longe dos pais e de qualquer lembrança de sua separação.
Finalmente adentrou a sala percebendo que seu irmão estava quase que em alfa, deitado desleixado no sofá. Ao olhar pelas janelas, soube que não precisava ter se preocupado pelo fato do gêmeo ficar lhe esperando mais tempo que o normal. Com certeza, aquela visão toda fez com que Kanon continuasse entretido o suficiente em seus devaneios, talvez nem se dando conta de quanto tempo havia passado. Deu a volta no leito improvisado, e como não havia espaço para ele, acabou sentando-se no chão mesmo, pouco se importando se sujaria sua calça social caríssima.
–... Kanon... – Chamou suavemente apesar de saber que este estava escutando seu Ipod. – Kanon. – A voz soou um pouco mais alta, mas e se este estivesse dormindo? Teria dificuldades para acordá-lo, pelo sono pesado que este sempre tivera.
Olhou bem no rosto daquele o qual chamava. Os olhos pousados, lábios entreabertos, respiração serena, a carinha inocente de quem não faz idéia dos acontecimentos a sua volta. Seu semblante era completamente diferente de quando o via conversando com os amigos, ou durante a mixagem de alguma música para suas coleções... A feição de seu xérox físico era sempre tão intrigante e desafiadora...
Começou a tirar-lhe algumas mechas bagunçadas da testa arrumando sua franja numa carícia suave. Uma a uma acabou colocando todas em seus devidos lugares. As últimas, porém, alojou atrás duma das orelhas, esquecendo-se que ali era um ponto bem sensível para ambos. Levou um susto leve quando o outro suspirou e de sua boca veio um nome junto com o ar pesado que expulsou de seus pulmões.
–... Saga...
No peito do gêmeo mais velho, algo se apertou subitamente. Oh, céus. Somente os deuses deveriam saber quantas vezes os dois clamaram pelo nome um do outro em seus sonhos de infância e adolescência sem que pudessem responder a estes chamados. Quantas vezes quebraram espelhos dentro de suas moradas indignados por enxergarem-se na ilusão dos mesmos. Castigos não davam resultados, terapias não apresentavam solução. O único remédio solicitado: A presença deles próprios. Remédio negado por anos a fio.
Mas agora, tudo era diferente... Poderia, sim, responder àquele chamado de prontidão como sempre quis.
– Sim?... – Deslizou a ponta dos dedos pelo lado descoberto do rosto do irmão. – Estou aqui. - Esculpira-lhe bochecha abaixo parando perto do queixo de onde voltava para acariciar a pele morena novamente.
Kanon, ainda sonolento e movendo-se lentamente, parou a mão do irmão com a sua própria em seguida levando-a na altura dos lábios dando-lhe um leve beijo. Alguns segundos depois, abriu os olhos encontrando os mesmos azuis dos seus a fitar-lhe naquela expressão de sorriso morno que só poderia ser de uma pessoa.
– Saga... – Repetiu, como se custasse a acreditar que não estava sonhando.
– Eu mesmo... – Respondeu ternamente dando-lhe um leve selinho nos lábios. – Hora de levantar.
– Acabou?...
– Alguns minutos atrás... – Levantou-se do chão ainda sendo seguro pela mão do irmão e dando um leve puxão na mesma para ajudá-lo a levantar. – Mas nós ainda temos que nos encontrar com os integrantes de Solaris.
– Até que enfim! – Espreguiçou-se. Olhou em volta como se pudesse achar algo parecido com uma geladeira.
– Dá tempo de jantar antes. – Diz o mais velho consultando seu relógio e adivinhando os pensamentos do outro. – Devemos ter uns 60 ou 70 minutos.
– Ok! – E nem precisava dizer mais, pois eram pessoas que se entendiam apenas com olhares.
Saga ainda observou Kanon se ajeitar, pois a roupa estava bem revolta em seu corpo. Deu um pouco mais de tempo a ele esperando-o espreguiçar-se o quanto quisesse e ainda notou que este olhava bem atento de si para a janela repetidas vezes enquanto pegava seus pertences. Sabia que o gêmeo estava para deixar ali uma esplêndida visão. A sua própria fisionomia vestida socialmente tendo como plano de fundo uma bela porção da cidade de Atenas. Ou pelo menos assim achou quando viu que Kanon tirava o celular da bolsa.
– Diga "Giz"! – Bateu a foto sem nem mesmo esperar que o outro aprontasse uma pose ou pelo menos sorrisse de verdade, como sempre. Também sorriu animado ao ver que Saga balançava a cabeça em negativa como se dissesse que esperava por aquilo mesmo sabendo que pegara o irmão desprevenido.
Notou, em seguida, algo piscando no canto da tela. Resolveu verificar assustando-se com mais de 30 chamadas não atendidas junto a várias outras mensagens. E detalhe: todas de um certo escorpiano...
– Pelos Deuses! – Exclamou. – O que o doente do Milo quer comigo pra ter lotado minha caixa de mensagens? Alguém morreu?
– Aioria... – Saga suspirou meio impaciente recebendo um olhar desconfiado do irmão. – Já esperava que ele desse com a língua nos dentes. Fiz bem em deixar meu telefone desligado.
– Então deve ser sobre o próximo sábado... – Desligou o celular exibindo um sorrisinho sarcástico ao imaginar o escorpiano desesperado para saber mais sobre o assunto. – Com certeza deve estar atrás de cortesias, ha ha!
– Provavelmente... – Aquilo que teria sido uma concordância soou mais como uma repreensão e Kanon pode vislumbrar o olhar calmo, mas firme do irmão.
–... Não precisa me olhar desta forma.
– Eu o conheço muito bem, Kanon! E sei perfeitamente que Você, Milo, Shura e Afrodite adoram me causar problemas dentro da Gemini... – Continuou a chamar-lhe a atenção. – Mas desta vez temos de obedecer a certas regras impostas pelo próprio dono da festa e você o conhece muito bem...
O caçula pensou um pouco e viu que o outro tinha razão. Conhecia-o muito bem e desta vez não era como acontecera na comemoração do ano passado oferecida por Julian Solo onde pode distribuir cortesias a torto e a direito para seus amigos. Seria uma catástrofe se aquela pessoa não ficasse satisfeita com o trabalho dos dois.
– Muito bem, eu me rendo!... – Finalmente concordou levantando as mãos na altura da cabeça em sinal de paz. – Por enquanto... – Sorriu maliciosamente ao gêmeo que revirou os olhos.
Kanon não dava ponto sem nó, e disso ele sabia muito bem. Só esperava que este não estivesse aprontando alguma gracinha nova para cima dele. Pelo menos não para o próximo evento na Gemini's Dimension, pois, de resto, adoraria aprontar um pouco com o irmão em casa logo mais.
...o§O§o...
Já era tarde da noite e nem assim conseguia respostas. Mas que diabos havia acontecido? Aqueles gêmeos duma figa... O celular de um tocava, tocava e ninguém atendia. No do outro só dava caixa postal. E, pelo visto, ambos não se dignavam a olhar para os próprios aparelhos e responder às muitas chamadas e recados que deixara durante horas de tentativa.
– Droga... – Reclamou. – Eu ainda mato aqueles dois!
E terminando de enviar seu último e-mail apelativo para Kanon foi que Milo, todo comichado de nervosismo, conseguiu desligar a tela de seu monitor. Recostou-se na cadeira e deixou sua cabeça pender frouxa pra trás olhando meio sonolento para o teto. Passava da hora de dormir. Pelo menos umas duas ou três horas de sono havia perdido significando que, se Shaka não conseguisse acorda-lo, com certeza o cargo de despertador ambulante voltaria a ser do leonino.
Finalmente criou coragem para levantar e preparando-se para dormir começou a retirar as peças de roupas largando-as numa trilha de panos embolados pelo chão em direção à própria cama. Desta vez, devido há um pouco de calor, até mesmo a cueca havia ficado pelo caminho. Espreguiçou, coçou algumas partes do corpo que, por mania, sempre coçava, subiu todo preguiçoso em seu colchão macio e largou-se de barriga pra cima no mesmo bocejando longamente. Assim, pôs-se a relaxar entrando naquele mundinho de torpor básico e confuso que sempre iniciava uma bela noite de sono pesado.
...o§O§o...
Vermelho...
Vermelho sangue... em sua mão delicadamente alva. Mas não era seu. Também não era de ninguém... Ou melhor, era seu, mas não era sangue. Era apenas vermelho. Da cor de sangue...
Estava quieto, paralisado, apenas vigiando como a claridade do dia tentava assombrar seu quarto, mudando tonalidades nos objetos e tocando uma mecha, dos longos cabelos, que estava pousada numa de suas mãos.
Mais um dia?... Sim... Era dia. Junto ao dissabor de acordar mais uma vez. Uma marca a mais no calendário até que o mês se completasse. Até que mais um ano se passasse. Sempre a mesma rotina de "sem quê nem por que". Pelo menos, sabia que precisava continuar respirando...
Olhou pouco mais a frente focando sua visão. No relógio constatou que ainda faltavam mais 36 minutos para que este despertasse. Suspirou. E ciente de que não conseguiria nem mesmo cochilar levantou-se para travá-lo. Sabia que não fazia o menor sentido programar o aparelho sendo que sempre acordava antes do horário previsto. Mas estava tão hipnotizado pela rotina que, se assim não o fizesse, talvez não conseguisse dormir achando que poderia perder hora no dia seguinte. "Manias inofensivas, mas que não deixavam de ser idiotas", pensou.
Como ainda era cedo, resolveu começar o dia com um bom e demorado banho. Frio de preferência, pois estava fazendo muito calor. Como era possível pessoas comuns suportarem um clima daqueles? Ou era só mesmo ele quem não conseguia se adaptar? Bom... De qualquer forma, era hora de se refrescar. Levaria até mesmo alguns cubos de gelo se ele próprio não achasse exagero.
Não fez cerimônias. Pegou logo sua toalha e foi direto para o banheiro sem enxergar mais nada pelo caminho. Não por sono, pois o rapaz já se encontrava completamente acordado. Tanto que pode confirmar melhor seu estado ao dar de cara consigo mesmo no espelho. Nenhuma linha de expressão, nenhum brilho nos olhos. "Pareço um daqueles personagens sem vida dos jogos de Playstation do Hyoga..." Pensou enquanto organizava, metodicamente, seus objetos para o banho. Tinha shampoo, creme de enxaguar, sabonete líquido, pente, esponja de banho, o chuveiro no modo verão, a toalha em seu lugar... Tudo certo. Hora de lavar-se.
E o tão adorado silêncio foi quebrado pelo som pesado da água batendo forte contra o azulejo. Abrandou-se somente quando os jatos frios iniciaram um frenético deslize da cabeça aos pés daquele corpo esguio e pálido, enfiado as pressas debaixo do jorro cristalino. Não conteve o leve arrepio. Tampouco serrar os olhos entreabrindo os lábios para que o frescor percorresse seu rosto por completo. E, para melhorar ainda mais o contato, arrastou suavemente os dedos pelo couro cabeludo a fim de jogar sua franja pra trás, desfrutando muito mais do prazer de ter a pele branca massageada pelo fluxo gelado.
Enfim, começou a relaxar, embora sua cabeça não parasse de tomar decisões das mais simples às mais complicadas, traçando-lhe um gráfico imaginário sobre todas as coisas que deveria de fazer naquele dia. Por exemplo, enquanto ensaboava-se decidiu por fazer seu desjejum a caminho da faculdade já que não estava a fim de prepará-lo. Conhecia um lugar tranqüilo perto do campus onde gostaria de parar no meio do caminho. Era cedo. Poderia fazê-lo sem pressa. Também aproveitaria para completar o combustível do carro. E, sabendo-se que perto do posto-de-gasolina-de-semprehavia uma boa livraria, pensou em compensar o desvio de trajetória com a compra de um bom livro.
–... Livro?... – Acordou pra vida com seu próprio sussurro no meio do shampoo.
Sim! Ainda precisava entregar o livro emprestado do seu "mais novo amigo postiço" agradecendo devidamente como confere a educação que lhe fora dada. Talvez chamasse o colega de classe para um café no horário do intervalo. Tentaria conversar sobre algumas amenidades e depois daria adeus à repentina pequena amizade. Além de não ter mais um porque pra continuar com aquela farsa, odiava mentir.
Com relação ao aniversário de Hyoga não estava mentindo, pois realmente havia trabalhos e estudos a serem feitos. Ainda por cima, deixara bem clara sua insatisfação pelo fato de comparecer a um lugar lotado e barulhento, quando poderia sair com o primo no dia seguinte para um almoço tranqüilo, nalgum lugar distante do centro de Atenas. Podia não parecer, mas gostava muito do garoto apesar de seu gênio difícil.
Desligou o chuveiro e, terminado o banho, enxugou-se milimetricamente sentindo o pano felpudo meio áspero. Parecia que a lavanderia escolhida não estava cumprindo com o desejado. Evitou enrolar-se na toalha porque a sensação da mesma contra sua pele macia estava dando-lhe nos nervos. Secou os cabelos com cuidado para que não arrebentasse um fio sequer e penteou as mexas ruivas a seu agrado. Voltou com o creme e o pente para seus devidos lugares e saiu do recinto em busca das suas vestes.
Mais um ponto positivo devido a se morar sozinho. Não havia ninguém para vê-lo nu atravessando o apartamento. Ao contrário do que todos deveriam pensar, ele odiava ser notado. Tinha completa noção de que era muito bonito, mas para ele aquilo não passava de mais um tipo de karma em sua vida. Não se lembrava de um só local onde as pessoas não o olhassem como um ser extraterrestre. Qualquer lugar que ele comparecesse, homens e mulheres disputavam acirradamente, desejando desfrutar de sua companhia, exibindo-lhe como se fosse um troféu. Tudo sem nem conhecê-lo ou trocarem meia dúzia de palavras que pudessem ao menos desiludir o bando de corvos a sua volta. A maioria desses abutres nem sabia seu nome e se sabiam, tinham apenas uma única referência a seu respeito... Sua beleza.
Caiu de seus pensamentos assustado. Estava tão imerso neles que nem percebeu quando foi que terminara de vestir-se. Olhou no relógio. Estava exatamente 36 minutos adiantado. De tão metódico, não conseguia fazer hora apesar de ter se esforçado no banho para isto. Agora, então, só faltava escovar os dentes o que sempre fazia por último antes de sair.
Suspirou e tentou se lembrar quando foi a última vez que deixara algo fora de lugar em sua vida. Ou de quando começou a ser tão cheio de cuidados a ponto de ficar doente com a desorganização e falta de modos das outras pessoas. Pensando bem, talvez fosse realmente doente.
Não era sempre que começava a pensar em como se comportava com relação a sua rotina, tampouco se lembrava de algum dia ter se preocupado tanto. Por fim, decidiu que era melhor parar com as preocupações por ali, terminando sua higiene bucal e pegando seus pertences, a caminho de mais um dia como todos os outros...
Pelo menos... assim pensava que seria...
...o§O§o...
Arre que aquele dia não havia começado bem...
Primeiro, porque não conseguiu acordar com o chamado do indiano.
Segundo, porque Mu e Aioria, dois anjinhos nada misericordiosos dos infernos, tiveram a bela idéia de entrarem em seu quarto batendo panelas e pulando em seu colchão, violentando seu estado de hibernação diária.
Terceiro, porque, ao persegui-los, tropeçou caindo de pernas pro ar bem no meio da sala de estar onde Shaka tentava explicar a velhinha do apartamento vizinho que o prédio não estava pegando fogo e que, provavelmente, aqueles ruídos vinham de algum apartamento no andar superior. Milo amaldiçoou a temperatura daqueles dias, o mesmo que o fizera dormir livre, leve e solto como viera ao mundo. E mais! A "pobre" senhora pode, com toda a certeza, vislumbrar aquilo que não via a pelo menos uns 20 anos, só não enfartando com o susto porque ainda não era sua hora.
Quarto, porque teve tempo apenas de tomar um banho rápido, pegar seus objetos e sair correndo para pegar o próximo ônibus.
Quinto, porque teve de esperar um tempo parado no ponto já que perdera o veículo do horário desejado.
Sexto, e mais importante: Estava com fome... Muita fome!
Se não estivesse precisando de alguns pontinhos consideráveis naquela matéria mataria o primeiro horário pra comer alguma coisa e ainda cochilar em qualquer outro canto. Só que, mais uma vez, a consciência não deixava dizendo-lhe que não estava em Atenas para brincar e sim para fazer valer os esforços de sua família que o mantinha na cidade. Pensando nisso correu pelo campus o mais rápido que pode para tentar entrar em sala antes do professor que, em sua opinião, parecia estar em constante TPM. Sempre de cara amarrada e pegando no seu pé por conta de seus atrasos.
Conseguiu chegar a tempo encontrando a classe livre de seu tutor, o qual estava meio atrasado, pois já passava da hora de começar a aula. Aquilo sim era raridade. Pelo menos uma vez naquele dia a sorte lhe sorrira no meio da maré de azar.
Rumou em direção às carteiras procurando, com o olhar desatento e marejado de sono, um certo espanhol, amigo de longa data. Não queria perder um só minuto para colocar a fofoca em dia. E quem sabe não seria premiado com mais informações sobre o assunto do ano.
Mal passara os olhos pelas pessoas e os mesmos caíram magneticamente sobre uma séria figura de longa cabeleira ruiva a poucos metros de seu alcance. O dono das mesmas mechas cor de sangue folheava, muito distraído, um dos antigos livros que eram encontrados somente numa das sessões da biblioteca que com certeza ninguém se atrevia a ir. Isso comprovava que o francês era CDF de marca maior. Sempre silencioso e compenetrado... Vê-lo ali tão quieto em seu canto conseguiu fazer com que Milo ficasse completamente agitado.
Sem saber por que estava reagindo daquela forma, e nem se importando de parar para pensar, tateou dentro dum dos compartimentos mais do que bagunçados de sua bolsa procurando suas... Preciosidades.
Já o francês parecia estar novamente perdido naquele mundo de papel com letrinhas o qual conhecia muito bem e costumava passar maior parte de seu tempo. E de tão compenetrado que estava, assustou-se no momento em que teve a visão bloqueada por um punho moreno de sol segurando algo que mais parecia um...
– Pirulito?! – Exclamou.
Alguns segundos se passaram mudos. Era o tipo de situação onde, por certo espaço de tempo, não se acredita no que esta acontecendo.
– Vai esperar meu braço apodrecer pra pegar? – Indagou Milo, inconscientemente se divertindo com o ar atrapalhado de Kamus que agora o olhava com a típica expressão de "heim?" no rosto. – Não me diga que está esperando que eu desembale essa coisa e coloque na sua boca?
Só podia ser algum tipo de brincadeira. Tanto que, com uma das mãos, o ruivo continuou segurando seu livro enquanto a outra repousava sobre a mochila em cima da carteira. O único movimento feito foi com os olhos, pois desviaram mais uma vez do doce oferecido ao rosto do escorpiano que lhe exibia o largo sorriso de sempre. Parecia até uma criança de primário oferecendo flores à sua professora de jardim.
– Que foi? – O loiro perguntou achando que algo estava errado naquele silêncio, logo se lembrando de que aquele ali não era muito de falar. – Se não gosta de morango era só dizer. – Tornou a examinar uma das bolsas da mochila. – Tem muito mais de onde este veio, olha! – Virou a bolsa de boca para baixo. – Tem de uva, framboesa, limão, laranja, abacaxi, maracujá... Escolhe aí!
E, derramando uma pancada de pirulitos em cima da mesa do aquariano, apressou-se para mostrá-lo todos os outros sabores que possuía dentro daquilo que chamara de "Primeiros Socorros da Glicose", não deixando também de dizer que costumava pegar dos sabores que condiziam com seu estado de espírito... Sabe-se lá como ele definia isso, mas prometeu explicar a Kamus qualquer dia como sua idéia funcionava.
– Mas o que você... – Tentou argumentar.
– Escolhe logo, cara! – Milo meio que ordenou apressando-o. – Tenho que ir logo pro meu lugar antes do professor entrar na sala! – Deu uma risadinha alta o suficiente para ninguém mais além dos dois ouvirem. – Aposto que se ele pegar vai me acusar de estar fazendo contrabando de pirulitos na aula dele.
Ao ver que Milo piscara para ele, Kamus não se sentiu muito bem. Um misto de confusão e desconforto atravessou seu rosto deixando-o levemente corado, principalmente devido ao fato de que havia congelado em seu lugar sem saber, ao certo, o que fazer. Decidiu-se por acabar com aquela situação logo de uma vez, apanhando sem nem mesmo olhar, qualquer um dos doces a sua frente e guardando-o no bolso de sua camisa pólo.
– Maracujá? – Questionou estudando o rosto pálido a uma distância pra lá de curta. Tanto que se Milo chegasse perto mais alguns centímetros seus narizes poderiam até se tocar devido à proximidade. – Bela pedida! Maracujá acalma e... você parece mesmo meio tenso... – Afastou-se começando a guardar todas as coisas que caíram de sua mochila. – Agora deixa o garoto aqui ir pro lugar dele... AH! – Exclamou como sempre fazia ao lembrar de alguma coisa e virou-se o bastante para que sua mão alcançasse a franja de Kamus, bagunçando-a como se isso fosse permitido. – E vê se não foge porque estou lhe devendo um almoço, valeu?
Antes que o aquariano pudesse reclamar ou até mesmo concordar com alguma coisa, o grego já havia se afastado ligeiramente. Ele só teve tempo mesmo de observar a imagem do outro, todo sorrisos, enquanto distribuía pirulitos para os colegas mais chegados poucas carteiras atrás da sua.
Milo ainda teve chance de captar o olhar abestalhado do francês dirigido a si, o que rendeu uma leve gargalhada seguida de um brinde quando este puxou o cabinho sustentando uma bola avermelhada e brilhante de saliva, a qual ergueu no ar como se fosse uma taça de cristal cheia de champagne.
"Um bobo alegre" pensou o ruivo virando-se de volta na carteira, ainda sem entender o porquê de estar com uma enorme vontade de rir, já que aquele tipo de atitude, em sua opinião, não era das mais agradáveis. Talvez, por pura falta de costume, a risada tenha se convertido em um meio sorriso quase que imperceptível, morrendo de vez assim que o professor entrara e dera como iniciada a aula daquela manhã.
...o§O§o...
Para tudo na vida existe uma primeira vez, pois Kamus realmente não se lembrava de algum dia, em sua existência, o qual estivesse tão avoado quanto naquele em questão. No caderno de anotações, somente a data aparecia com sua caligrafia elegante e perfeita. Há muito o professor mudara de tópico, mas o livro ainda encontrava-se aberto no capítulo anterior. Contudo, para quem o observasse, este estava completamente atento às legendas e gráficos que ilustravam o final da aula, apesar de estar, na verdade, com a cabeça em outro mundo. Nem mesmo parou para anotar as indicações de novos livros e sites passados no quadro bem a sua frente, antes de seu tutor finalmente dispensar a turma.
Queria agradecer ao grego pelo socorro prestado no dia anterior, mas estava preocupado com o que diria logo a seguir. Reparando melhor... Que raios estava para dizer mesmo? De alguma forma todos os seus pensamentos pareciam ter sido varridos de sua mente assim que o outro aparecera em sua frente munido de gestos tão infantis. Nem parecia que o loiro estava conversando com ele, Kamus Mondeclair, e sim com um sujeito qualquer...
Grande coisa! Claro que para o grego era um ser qualquer. Seu sobrenome não era tão famoso na Grécia quanto na França. E ultimamente os jovens só sabiam nomes de cantores e atores que exibiam rostos e corpos exuberantes pelas emissoras de TV. Mesmo assim... ele era diferente. Ou pelo menos as pessoas o faziam diferente. Tinha grande beleza e inteligência, portanto, consigo, todos se tornavam falsamente amáveis e cordiais, coisa que acontecia até dentro de sua própria família. Com exceção de Hyoga e Clarice, é claro. Nestes dois podia confiar.
Mas e aquele maluco? Que será que realmente queria com ele? Qual o verdadeiro motivo por ter se aproximado no dia anterior? Aí tinha! Mas o que não sabia ao certo. Só esperava que ele não fosse o tipo que corria atrás de um companheiro com belo porte para exibir aos amigos ou esquentar-lhe a cama. Destes queria quilômetros de distância. E pretendendo não arriscar decidiu: Iriam almoçar, agradeceria mais uma vez, entregaria o livro a seu dono e tudo morreria ali.
Começou a guardar seu material já pensando no que dizer e como agir, lembrando-se de não se deixar levar pelo jeito carismático do grego quando sentiu uma mão, nada educada, segurar-lhe um dos ombros apertando-o e uma voz parecendo ter vindo de outro mundo lhe dizer desesperadamente.
– Eu vou morrer de fome!...
...o§O§o...
– Pois é! – Disse o escorpiano já bem recuperado da palidez que apresentava. – Esta vida de "Internalta" ainda vai acabar comigo. – Continuou servindo-se não reparando que seu ouvinte na verdade nem se importava com o que dizia. – E ainda levantei de ovo virado porque meus amigos pularam em cima de mim esta manhã batendo panelas e fazendo a maior zona no meu colchão tudo pra que eu acordasse.
– Ao invés de pedir a seus colegas de quarto por que não programa logo um despertador? – Indagou o ruivo arrependendo-se pouco tempo depois por ter transformado o que antes era um monólogo em diálogo.
– Simples! – Respondeu o grego ainda mastigando o que fez Kamus revirar os olhos com tamanha falta de educação. – Despertador nenhum consegue fazer o serviço. Assim tenho que apelar para a boa vontade dos meus amigos que fazem questão de "sacanear" só porque eu demoro um pouco pra "ressuscitar" como eles dizem...
– Impossível! – Retrucou o outro não aceitando as afirmações de Milo. – Deve haver algum tipo de som bom o suficiente para desperta-lo.
– Estou falando sério! Meus pais costumam dizer que nem o desabamento do Pathernon na minha orelha me acordaria. – Deu mais uma garfada e nem esperou engolir para falar. – Acho que sou o tipo que tem de ser sacudido, estapeado, jogado um balde de água fria... Credo!
– O que foi? – Não estava curioso. Apenas perguntou de impulso depois de reparar a cara aterrorizadamente dramática que Milo estava fazendo.
– Lembrei do dia em que quase morri afogado na banheira por causa do Aioria...
O escorpiano ficara realmente traumatizado neste dia e quase deixou o mundo dos vivos quando Aioria, na "boa" intenção de acordá-lo acabou enfiando-o de uma só vez dentro da água fria. Por incrível que pareça, Milo não havia acordado de imediato ao ser jogado e sim na hora em que tentou roncar ainda debaixo d'água. O susto de não conseguir respirar fora tamanho que nem conseguiu sair da banheira sozinho, se debatendo como um gato escaldado e tendo de ser tirado as pressas pelo leonino que, percebendo o perigo da brincadeira, atirou-se na banheira resgatando o amigo de seu suplício.
Estava para explicar todo o ocorrido daquela manhã fatídica quando Kamus, que até então continuava com seu semblante enigmático e gelado, teve o cenho levemente modificado dando a impressão de ter se lembrado vagamente de algo.
– Aioria... – Murmurou o ruivo ainda pensativo.
– É um dos meus colegas de apartamento. – Começou o grego muito interessado no semblante distraído do rapaz a sua frente. – Ele é relativamente alto, forte, usa cabelos castanhos meio curtos e é tão moreno quanto eu. Um grego típico. – Pensou um pouquinho antes de completar com o que não precisava. – Só que sou mais bonito que ele, lógico!
Instantaneamente o olhar de Kamus mudou de vago para jocoso com a última frase do acompanhante. Mas preferiu fingir que não ouviu e voltou sua atenção àquele nome que de alguma forma o soava familiar.
– Oi! – Novamente o loiro chamou-lhe a atenção devido à curiosidade. – Por acaso conhece algum Aioria também?
–... O nome me é familiar... – Continuou tentando buscar no fundo de sua mente de onde seria.
– Será que você conhece o mesmo Aioria que eu? – Retornou Milo claramente inconveniente não deixando que o outro continuasse a pensar.
– Se já conheci pode ter certeza que não fez a menor diferença na minha vida, do contrário eu lembraria. – O francês foi visivelmente seco por pura falta de paciência com a insistência do grego que, por sinal, pareceu não ter notado o tom reforçado daquelas palavras.
– Eu entendo... – Tornou o loiro. – Aioria não é o tipo que cativa à primeira vista... Não tanto quanto eu! – Riu debochado enquanto observava a cara do francês se contorcer num semblante sarcástico de "ninguém merece". – Calma aí, meu rapaz! Era só brincadeira.
– Apesar de você acreditar piamente nisso... – Continuou encarando Milo com cara de que não queria mais conversas sem sentido. Alguns segundos depois Kamus soltou um suspiro cansado e insatisfeito enquanto voltava a seu almoço e sua pose friamente habitual. – Esqueceu seu livro ontem comigo...
– Ah! – Exclamou! – Sabia que estava me esquecendo de algo. – Bateu na própria testa num sinal claro de que a cabeça não deveria estar funcionando direito. – Obrigado por me lembrar. Se eu perder este livro uma pessoa é capaz de me matar!
– Bem como eu mataria se o livro fosse meu e soubesse que estava esquecido na mão de algum desconhecido. – Resmungou o aquariano.
– É mesmo?! – Admirou-se o escorpiano. – Interessante! Se bem que, neste ponto, você parece ser tão chato quanto meu amigo Dite! – E mal dando tempo para protestos indagou. – Já leu o livro? Digo, alguma vez leu O Guia do Mochileiro das Galáxias?
– Ainda não tive curiosidade o suficiente... – Deu de ombros.
– Haaaaaaamm... – O loiro continuou a encará-lo como se esperasse uma resposta mais convincente.
–... Apenas parece não ser o tipo de leitura que me agrada.
– Hmm... Ta certo que não é nenhum Cosmos (6), mas a leitura é muito boa!
Um misto de incredulidade e admiração passou pelo rosto do francês ao ouvir o nome de outra obra citada pelo grego, o mesmo que não pode conter um leve sorriso maroto por ter conseguido chamar a atenção de seu ouvinte.
– Você... Leu Cosmos?! – Perguntou Kamus ainda sem acreditar.
– Li sim... – Respondeu fingindo-se de desinteressado. – Qual a surpresa nisso?
– Nenhuma... – Replicou o ruivo voltando a seu ar naturalmente intelectual. – E qual foi a sua impressão sobre a leitura?
– Simplesmente o máximo! – Abriu um largo sorriso que por incrível que pareça contagiou levemente o outro rapaz ao ouvir sua aprovação. – Achei tão fascinante que acabei comprando... Fora que algumas partes não consegui entender de primeira... Mais um motivo pra ter comprado, eu acho.
– Aquela é uma verdadeira obra prima! – Encorajou-o a continuar.
– Verdade! – Empolgou-se tanto que agora gesticulava animado enquanto comentava sobre o livro. – Sagan conseguiu reunir física, química, matemática, filosofia, história, biologia numa obra que elucida até mesmo o mais alheio dos leigos em questão de Astronomia como eu!
– Não apenas astronomia! Ele queria que as pessoas pudessem conhecer melhor o lugar onde vivem apresentando publicamente uma ciência a que poucos tinham acesso como patrimônio da humanidade.
– Mesmo assim, muitas coisas das quais ele explicou, eu não tive muita cabeça para entender... Por exemplo: Não me dei muito bem com a idéia de espaço e tempo curvos...
–...
– Nem mesmo assistindo aos Dvds da série de TV, lançados há pouco tempo, com o próprio explicando nos episódios e... – Fez uma pausa repentina ao olhar no rosto do aquariano e ver um semblante que de longe o lisonjeava. – O que foi?...
– Nada... – Lançou ao escorpiano seu olhar mais divertido. – É que você não tem cara de gostar de leituras deste tipo...
– Heim? Quer dizer que eu tenho cara de que?...
Esperaram mais alguns segundos em silencio até que Kamus resolveu dar o seu parecer.
– Tem cara de quem passa horas malhando numa academia, moldando todos os músculos do corpo e atrofiando o cérebro como os jovens de hoje em dia.
– Quer dizer então que eu tenho cara de cérebro atrofiado? – Ironizou para logo em seguida alfinetar também. – A propósito, obrigado por ter reparado no meu corpo. Eu sei que sou um cara muito sarado e gostoso!
– Quem foi que disse que eu estava reparando no seu corpo? – Indagou Kamus desconcertado e indignado só não caindo da própria cadeira por ter congelado no lugar.
– Ora! Você mesmo quem disse que eu parecia um cara que ficava malhando durante horas! – Passou displicentemente uma das mãos pelo próprio abdome como se estivesse verificando o resultado de tanto exercício. – Claro que deve ter reparado!
– Só estava fazendo uma comparação...
– Não precisa disfarçar! – Fingiu não entender do que o outro estava falando. – É comum um cara procurar num colega o que ele tem de melhor para comparar a si próprio...
– Você é realmente muito narcisista, sabia? – Desta vez estava realmente perdendo a paciência com aquele grego folgado filho da mãe.
– Assim como também é comum dar uma olhadinha para os lados no banheiro e reparar qual de nós é o mais... "saudável"...
–... Eu não posso acreditar que estou ouvindo uma coisa dessas... – Olhou disfarçadamente para os lados conferindo se mais alguém estava escutando.
– Haha! Vai me dizer que nunca fez isso? – E ao final desta frase soltou uma de suas melhores gargalhadas atraindo a atenção de algumas mesas curiosas que estavam por perto.
Um ultraje! Quem aquele grego pensava que era? Ou melhor: O que ainda estava fazendo sentado ali desconsertado e sendo alvo e tantos olhares, passando aquela saia justa? Já não bastavam as varias vezes em que sua própria prima aprontava? Pelo menos desta não era obrigado. Foi então que Kamus levantou-se com cara de quem havia se dado por satisfeito tanto do almoço quanto daquela palhaçada.
– O que foi agora? – Questionou Milo numa súbita mudança de risonho para assustado.
– Melhor ir embora de uma vez. – Pegou a conta que havia sido deixada na mesa há pouco tempo e tirou sua carteira para pagar o quanto antes. – Chega de ouvir asneiras por hoje.
– Pô! Justo agora que eu mal comecei? – Sorriu satisfeito ao constatar que seu comportamento era a causa de tanta irritação. – Ora vamos! Sente-se e guarde esta carteira, já disse que estava lhe devendo um almoço lembra?
– Que eu me lembre você não está me devendo nada.
– Como não se você pagou minha conta junto com a de sua prima e a sua, ontem?
– Isso não importa. – Continuou escolhendo as notas para quitar sua dívida. – Não preciso que faça uma coisa dessas.
– Como se eu também precisasse. – Replicou o outro se fazendo de ofendido.
O aquariano silenciou, pois o grego tinha razão. No dia anterior nem questionou como seriam divididas as despesas, só lembrou de ter se levantado, fulo da vida com alguma coisa, e pagado por tudo. Nem sequer esperou pelos outros e saiu do local indo esperar no carro. Mas de qualquer forma não interessava. Iria mesmo pagar o que consumira em uma forma de afronta qualquer, entregaria o livro a seu dono antes que a raiva o deixasse esquecer e diria meia dúzia de agradecimentos secos para que nunca mais fosse preciso trocar outro tipo de palavra com aquele abusado.
O escorpiano apenas observava-o calado esperando que este desistisse e refletisse sobre sua última frase, mas pelo jeito nem todo o seu charme e carisma natural surtiria algum efeito naquele pedaço de Iceberg ambulante. O outro estava realmente decidido a fazer aquela desfeita consigo. Realmente aquele ali parecia ser muito orgulhoso e teimoso... Tanto quanto uma mula empacada na beira duma estrada com o sol escaldante do deserto fritando-lhe os miolos, mas mover de seu lugar? Se não quisesse não o faria nem que sua própria vida dependesse disso.
E já que as palavras não surtiram efeito melhor apelar para os atos.
– Por favor... – Milo colocou a mão sobre a do francês, num gesto simples e amigável para que ele não mexa mais na carteira a fim de pagar pelo próprio almoço.
Por questão de segundos Kamus sentiu-se impotente perante o rosto sincero que o rapaz apresentava, ficando paralisado diante daqueles olhos intrigantes e sérios que o fitavam intensamente pedindo-o para voltar a seu lugar. Sentou-se ainda relutante não entendendo porque obedecera ao pedido mudo do escorpiano, mas permaneceu calado esperando até que o outro fizesse o favor de dar aquela refeição por encerrada.
– Desculpe... – Disse o loiro sem desviar o olhar. – Às vezes eu passo dos limites com minhas gracinhas. Tanto que até mesmo meus amigos costumam ficar irados comigo... – Suspirou para conseguir dar algum tipo de prosseguimento. – Deveria ter me portado melhor. Afinal de contas, mal nos conhecemos... – Sorriu meio sem graça.
– Correção: NEM nos conhecemos. – O ruivo foi taxativo, mostrando com isso um pouco de seu aborrecimento.
Com essa foi a vez do escorpiano quase cair da cadeira. Achou que com jeitinho conseguiria amaciar um pouco aquela personalidade elegantemente rude do convidado, mas isso parecia trabalho quase que impossível.
– Caramba! – Disse ainda abobado. – E eu aqui me fazendo de educadinho pra...- AAH!!
Agora sim Milo quase se estatelou no chão. O Susto fora tão grande que se não segurasse as pressas na mesa teria tombado, mas nem por isso deixou de atrair toda a atenção do restaurante para si, fazendo Kamus se encolher no lugar preocupado com o que poderia ser e arrependido amargamente por não ter ido embora mais cedo.
– Mas o que foi agora, seu... – Tentava, mas estava difícil não se irritar com aquele grego pra lá de escandaloso.
– Meu celular!! – Alterou-se apesar de estar visivelmente feliz com a revelação! – Estou esperando um telefonema muito importante! – Ergueu-se o suficiente para poder tirá-lo do bolso de seu jeans e sorriu inconscientemente sensual para o aparelhinho ao reconhecer o número na tela.
– Eu não acredito nisso... – Kamus desceu as mãos pelo rosto impaciente tentando esconder um pouco de sua vermelhidão enquanto resmungava inconformado.
– Oi! – Atendeu. – Mas que dificuldade conseguir falar com você, cara. – Ficou só na escuta por alguns segundos. – Já começando com as trocas de amabilidades?... – Mais algum tempo. – Também te amo, veadinho! Agora escuta... – Outro espaço de tempo onde fora interrompido pra ouvir algo que não deixou barato. – Não põe a minha mãe no meio, imbecil! Agora me escuta, cxrxlhx! Fiquei sabendo que vai rolar a boa na boate neste sábado. Como é o esquema? – Escutou por instantes exibindo um pequeno sorriso sarcástico. – Ta aí, é? Manda ele à mxrdx por mim... – Escutou um barulho do outro lado e contorceu o rosto numa expressão de leve asco. – Eu disse pra mandar seu irmão ir à mxrdx, e não pra lhe dar um beijinho, Kanon...
A leve menção daquele nome foi o bastante para que Kamus aprumasse bem os ouvidos.
Sábado, boate e... Kanon? Aquela conversa parecia não estar muito longe de seus conhecimentos. Seria muita coincidência ou o conterrâneo com quem aquele grego a sua frente falava era o mesmo que estava pensando?
– Espera... Larga teu espelho vivo pra lá e me responde! – Havia uma confusão se desenrolando do outro lado com toda certeza. Tanto que agora era Milo quem rolava os olhos para o teto do restaurante esperando que alguém na linha lhe desse atenção. – Alô?!... – Só teve tempo de escutar um "devolve isso" rápido antes que uma voz forte e autoritária soasse em seu ouvido. – Meu Zeus! Que mudança súbita de humor é essa, cara?! O que aconteceu? ... Ah! – Deu um pequeno tapa na testa antes de continuar. – Foi mau Saga! ... Eu sei, eu sei! Desculpe, mas convenhamos, sua voz é idêntica a do seu irmão.
Se havia alguma dúvida esta foi por terra adentro com o segundo nome revelado.
Saga... Agora sim o aquariano havia esquecido do carão que estava passando para prestar atenção de verdade àquela conversa, mesmo que não quisesse dar uma de intrometido. Sabia com quem o outro estava conversando e surpreendeu-se de ver que o grego parecia ser muito intimo daqueles dois... Ou pelo menos de um deles depois de escutar uma série de desculpas vindas por parte de Milo.
–... Bom... Saber eu sei... – Passou alguns minutos tentando falar, mas no final sempre desistia. – Desculpa... ... Ok! Foi mal... Tem razão... Eu... Olha... Calma, Saga!... Relaxa homem! – Começava a parecer realmente intimidado. – Ta bom, eu juro nunca mais lotar sua caixa de e-mails com perguntas estúpidas e power points sem sentido, juro também não deixar mais mensagens na sua secretária nem que minha vida dependa disso e também não mando mais torpedos idiotas pra você, ouviu? – Do outro lado veio uma concordância nada amigável. – Mas claro que é só até me esquecer disso tudo. Agora passa de volta pro teu irmão que ninguém te chamou na conversa! – Sorriu ao ouvir um suspiro contrariado do outro.
"Mas será possível?" Pensava Kamus meio boquiaberto. "Falando dessa forma até mesmo com Saga? Aquele Saga Gemini?!..."
Se bem lembrava, Saga Gemini era um nome muito conhecido e respeitado no meio do mundo dos empresários. Principalmente por que, apesar de ser considerado muito jovem para o ramo, era um homem de grande responsabilidade e tato para negócios. Uma pessoa muito influente, diga-se de passagem, tanto que qualquer um pensaria no mínimo umas mil vezes antes de comprar briga com o sujeito. Aquele grego escandaloso não poderia estar falando com a mesma pessoa... Ou poderia?
– Fica assim não, Tesudo! Você sabe que é meu gêmeo favorito... – Falou com jeitinho, mas deixando os olhos do francês esbugalhados e achando que fora apenas com seu palavreado resolveu completar. – E sabe também que se dependesse do Saga eu broxava de primeira! – Sussurrou arrancando algumas risadas incrédulas do amigo na linha. – Jeito?! Quem é que precisa disso hoje em dia? E aproveitando que você está na escuta, diz aí: Que raios vai rolar este final de semana?... ... Sei... Uhum... Legal! – Continuou escutando pra ver onde é que o outro iria chegar, mas parecia que Kanon falava bastante quando queria. – Ah é?... – Disse meio desanimado – Quer dizer que não vai dar pra reunir a galera este sábado?... Bom... É um direito dele... Eu entendo... – Mais um tempo na escuta. – Calma, não vou morrer por causa disso... Mas claro que você está incumbido de pegar um autografo do pessoal da Solaris pra mim, valeu? – Ouviu mais algumas palavras que sabia serem de consolação. – Ta ok! Outro... E não esquece de mandar o Saga a mxrdx! Até!...
Foi com um certo pesar que Milo desligou o aparelho, percebendo que, naquele momento, todos os seus movimentos estavam sendo acompanhados pelo olhar gélido e meio desconfiado de seu acompanhante. Mesmo assim permitiu-se ficar em silêncio durante alguns segundos, deixando evidente que estava tentando digerir alguma noticia ruim.
Do Seu lado, Kamus esperava que o outro comentasse algo, do contrário não tinha por que se manifestar.
– Pelo visto este final de semana não vai ter boate... – Finalmente comentou, endireitando-se no seu lugar e colocando as mãos sobre a mesa onde começava a brincar com o aparelho de telefone sem muita animação. – Era bom de mais pra ser verdade.
O aquariano ficou observando. De idiota arrogante repentinamente o rapaz a sua frente havia se transformado nalguma coisa que mais lembrava uma criança a qual acabara de perder um doce. Continuou quieto como era seu normal mesmo que, estranhamente, dentro de sua cabeça alguma coisa o empurrasse para dizer algo. E estava quase, quando Milo resolveu abrir a boca novamente.
– Eu estava falando com um amigo dono de uma boate... Parece que vai haver uma festa e tanto lá, mas não vai dar pra ir... – Suspirou desanimado. – Droga, de todas as bandas que podiam ter convidado... Justo a Solaris?
Levantou os olhos para o nada dando um sorriso brincalhão para disfarçar seu descontentamento como se estivesse ironizando a situação. De certa forma esse gesto desarmou o ruivo mesmo que inconscientemente, fazendo sua expressão ficar um pouco mais serena enquanto encarava o grego sem dizer uma palavra sequer.
– Garoto de sorte este tal de... de... Como é que era mesmo? – Parou um pouco para pensar enquanto erguia uma sobrancelha. Saga havia lhe dito o nome do aniversariante, mas só conseguia lembrar duma coisa famosa a qual Shaka adorava praticar quando tinha um tempo livre fora de suas meditações. – Yoga?!...
– Hyoga (7)!... – Consertou o outro com ar desanimado. – Aquele fedelho arrogante se chama Hyoga...
– Isso mesmo!! – O loiro respondeu. – Ele mesm...
Não se dando tempo para completar a frase, Milo voltou seus olhos para o francês estranhando a maneira como havia sido corrigido na hora em que dissera o nome do fedelho de sorte. E pior, ouvira direito ou até mesmo algum adjetivo maldoso fora dado ao garoto por parte do picolé de chuchu a sua frente?
– Espera um pouco... – Disse lentamente. – Por acaso você sabe de quem está falando?...
– Acho que estou falando da única pessoa que está para dar uma festa numa boate qualquer e tem uma família que adora mimá-lo para gastar uma fortuna alugando os serviços de alguma banda do momento, a fim de animar o aniversário daquela peste mal criada nascida na Rússia.
Além de assustado o escorpiano estava escandalizado! Era a primeira vez que via Kamus abrir a boca para dizer uma frase daquele tamanho, ainda por cima com aquele tipo de conteúdo.
O aquariano, algum tempo depois, não conseguiu mais suportar aquela cara de bobo fitando-o como se fosse algum tipo de alegoria de carnaval e resolveu falar logo de uma vez.
– Conheço muito bem esse tal de Alexei Hyoga Yukida... – Continuou. – Somos primos.
–... O QUÊ?!!
-
Continua...
-
Cenas do próximo capítulo:
Milo: Hei! Volta aqui, Washu! (irado) Cadê o resto da história?!
Washu: Como assim cadê o resto? (fazendo-se de desentendida) ...¬¬
Milo: Se eu me lembro bem, no segundo capitulo você colocou, neste quadro da fic, cenas que não apareceram NESTE capítulo. Explique-se!
Washu: ... Vai à mxrdx você também... ¬¬ (Saga e Kanon aplaudem em algum lugar não muito distante)
Milo: Ora sua...
Kamus: Calma vocês dois! (suspiro impaciente)
Milo: Mas Kamus...
Kamus: Quieto! (Olhar de seca pimenteira) Washu... ¬¬
Washu: Ok! (levanta as mãos em sinal de paz para o olhar de Kamus e quase derrete) Eu confesso que fiz um pequeno erro de cálculo... Aquelas cenas não estão neste capítulo porque eu não sabia que ele ia ficar tão grande. Ou seja, são cenas do PRÓXIMO capítulo... ou do próximo depois do próximo...
Kamus: -.-'
Milo: Um GRANDE pequeno erro de cálculo, então... ¬¬
Washu: ... "."
Pra quem queria saber o que eram os numerozinhos .:
(1) – Que Delícia! (Acho que foi isso mesmo que o Mu disse...)
(2) – "O Guia do Mochileiro das Galáxias": Um livro muito doido escrito por Douglas Adams. Saiu até um filme com essa budega aê! Não sei se o filme é bom porque não assisti, mas a obra é simplesmente de mais! O Cara teve a manha para descrever as confusões da sociedade humana numa comedia bastante inteligente ainda por cima usando o universo inteiro no meio da viagem! Ui... Tem continuação com os livros: "O Restaurante no Fim do Universo", "A Vida, o Universo e Tudo Mais" e "Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!" Recomendo tudo! XD
(3) – Solaris: Eu inventei o nome da banda... Alguma sugestão para os possíveis integrantes? .'
(4) – Montinho: Quem nunca brincou disso com os amigos não teve infância. É sempre assim: a gente escolhe uma vitima e todos pulam em cima dela pegando-a de surpresa. O lance é conseguir fazer a pessoa estatelar no chão e o resto da galera deitar em cima virando um montinho.
(5) – Gemini's Dimension: É uma boate dirigida por Kanon, mas quem toma conta mesmo é o Saga... Acho que mencionei este nome no capítulo 1.
(6) – Cosmos: Eu vi a serie de TV que passou nos anos 80 e que agora está sendo vendida em DVD, mas quem leu o livro foi minha irmã. Acabei me apaixonando pelo Carl Sagan, o cara além de crânio explicava as coisas de um jeito tão doido! E pra conseguir fazer que eu entenda alguma coisa é bem... difícil (pra não dizer quase impossível com relação a astronomia).
(7) – Hyoga: Yoga, Ioga... Bah! Era assim que eu falava o nome do coitado quando assistia a série na TV a muuuuuito tempo atrás. Então assisti em japa e vi que os caras falavam Hyoga (Riôga é o jeito que se fala? pensei... eu heim 'o0)... Mesmo assim não ia perder a oportunidade de fazer um trocadilho com o Shaka no meio! XD
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Saudações meu povo sem esquecer de minha pova!
Olha que desta vez o estrago foi geral! Por isso serei breve...
Parir este capítulo foi complicado, principalmente porque eu reescrevia algumas partes o tempo todo. Larguei o caderno de vez e tou só digitando pra ver se anda mais depressa. O problema é que eu travo tanto quanto meu PC (que deu muito pití, diga-se de passagem).
Meus agradecimentos ao pessoal que leu e teve paciência pra esperar essa marmota ser atualizada. Não respondi aos outros reviews ainda porque esta porcaria de site num ta deixando direito.
SCO!! NÃO TÔ NEM CONSEGUINDO POSTAR REVIEW!! AAAAAAI!!! E tou rezando pra conseguir postar a fic... ¬¬
Por tanto, se você acabou de ler o cap. 3, ou foi porque eu finalmente consegui ou porque pedi alguém pra postar pra mim... Ou porque teve paciência mesmo... Ta grandinho... Ui .
Um muito obrigada especial para Litha (Beta querida que agüenta minha torração de saco), Bela, Blanxe, Musette, Ilia (Que também agüenta pacientemente minhas variações mentais), Sin (A quem eu devo inspirações sobre Mu e Shaka e que também agüenta meus falatórios), Jessi, Narcisa, Shakinha, Allkiedis, Patin, Anne L. Mouton, Hokuto-chan, Mii e Tanko (A muieh que fez meu coração falhar por ter colorido um desenho meu!!! ). A galerinha Duka que deixou Review!!!
E pra quem quiser conferir o fanart: img . photobucket . com / albums / v403 / Washu(coloque aqui o Underline ou traço abaixo)M / Fanartes / MiloKamusEscarlate.jpg (sem os espaços)
Explicações: Foi inspirado na Fic "O Escorpião Escarlate" da Bela-Patty
Bom... Era isso!
Caracas! E eu que disse que iria ser breve!
Você acreditou mesmo? MUAHAHAHAHA!XD
Até o capítulo 4 se eu não surtar até lá, valeu?
Bjins!
Washu M-Poemas (Quem avisa amigo é, quem cala consente, quem tagarela come mosca e quem espirra ta doente... .)
°Ao final de tudo, Litha sai correndo atrás de Wa-chan pelas piadinhas cretinas ao longo da fic pela parte do adorável escorpiano (nem comento aqui senão vira um testamento, e ela ainda é poeteira XD )°
"Nham! (Pula em cima de Litha e morde) Valeu muieh!!! Sem você várias cenas deste capítulo não teriam existido! Huahuahauhauhua! E SIM, eu poeto!!! (Washu-On-The-Run-mode-on) WAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!"
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17/02/2007
