RAZÕES OCULTAS
"Tem que tomar todos os remédios, mon ange, ou não vai ficar bom."
"Eu sei, mestre... mas são tantos..."- suspirou o jovem- "Sinceramente não vejo o por que de tudo isso... os médicos disseram que eu estou bem..."
"Bem? Quando não é dor de cabeça, é febre, ou taquicardia, enjôo e até vômito... esqueci de alguma coisa, mon cher?"
"Ah, mestre... eu não sei... às vezes tenho impressão de que os remédios é que fazem isso... e, ao invés de diminuírem, sempre mandam tomar mais..."
"Seu corpo deve estar perdendo sensibilidade. Agora seja um bom garoto e tome. A própria deusa me encarregou de toda medicação. Acredita que ela lhe faria mal?"
"Athena... ela tem tantos cavaleiros... eu não entendo..."
"Ela acredita em você, ange. Quantas vezes tenho que te dizer?"
O discípulo respirou fundo e pegou as cápsulas e comprimidos que lhe eram oferecidos, metendo-as na boca, conformado. Pegou seu copo d´água e estendeu o outro braço ao mais velho, conhecendo a rotina. O cavaleiro de ouro primeiro pegou uma amostra de sangue, depois aplicou uma injeção. Ao menos deixaram que o francês cuidasse do jovem, poupando-o do constrangimento de ter mãos estranhas naquele corpo ainda em recuperação.
Ouviram batidas na porta. Era Fênix.
"Quanto drama pra tomar injeção, Pato!"-riu.
"Hnf! Meu braço vai virar uma peneira, isso sim! E se depender dessas vitaminas e calmantes, vou ser o vegetal mais nutritivo do mundo!"
"Ih, que mau-humor! Imagina se não tomasse calmantes!"
"...o chato é ter que fazer isso a cada quatro horas..."- resmungou.
"Ah, o Pato tá dopado! Ó, se cuida, Pato, senão ficar bom, vai pra panela!"
"Então é melhor começar logo, ou só descongelo depois do natal"- desafiou com um sorriso maroto.
O japonês gargalhou. O mestre sorriu discretamente. Aquela troca cordial de farpas fazia um bem irônico ao seu garoto.
"Levarei suas amostras para a enfermaria, mas volto logo. Ficará bem, Hyoga?"
"Claro, mestre."
"Ô Kamus! Vê se o caldinho do Pato ta bem temperado! Pela cara ta sem sal!"
"Pelo menos Pato é carne nobre, não é barata como frango."
"Primeiro, Frango é popular. Segundo, Frango é a mãe."
Cisne tentou esconder sua insegurança e receio inicial. Era a primeira vez que ficava a sós com outra pessoa que não o mestre. Imaginava que o cavaleiro de ouro estava testando-o. Afinal, não podia, nem queria se esconder sob o manto de Kamus o resto da vida.
Ikki percebeu, e por sorte tinha uma carta na manga aquele dia.
"Tó, nenê chorão." - disse estendendo um pequeno embrulho ao amigo.
"Ué... sorvete?"
"Da outra vez ouvi o velho reclamando que você não tava comendo. E, que me lembre você gostava desse aí."
"É... mas o que é isso? Pirulito de dentista? Bem que aqueles trecos têm gosto ruim mesmo."- disse, fazendo uma careta.
"Que foi, tá com medo que tenha veneno?"
"Se essa overdose não me matou, acho que nada mata."-declarou, abrindo o pacote – "Ah, nem lembrava do gosto disso aqui! Não agüento mais comida à la hospital!"
Sorriu satisfeito ao sentir aquela cremosidade adocicada derretendo em sua boca.
"Come logo, Pato! Se o Kamus vê que tô te dando porcaria pra comer, eu é que viro picolé!"- brincou Fênix.
"Ikki...posso te fazer uma pergunta?"- disse em um tom sério.
"Fala, Hyoga."
"Por que está fazendo tudo isso? Digo... não éramos muito amigos nem nada, e agora... está com pena de mim ou algo assim?"
Houve uma pausa pensativa, antes do cavaleiro de fogo responder.
"Pena... não... acho que ta mais pra... admiração..."
"Admiração?!"
"É, Cisne... cara, pra ser sincero, antes eu achava que você era só uma russinha sentimentalóide... mas eu não tinha percebido que você tinha tanta fibra!"
"Ein?... está se sentindo bem?"
"Não, sério... cara, se fosse comigo, tinha... ah, não sei o que eu tinha feito, mas a última coisa que ia ter coragem era continuar sendo cavaleiro e encarar todo mundo! Não é pra qualquer um, não, Hyoga. Tenho orgulho de ter lutado ao seu lado."
"Ah, isso..."- disse o loiro, em um tom que o moreno não conseguiu definir.
"...o sorvete vai derreter, Pato."
O russo voltou a tomar o sorvete, pensativo. De repente aquele creme o enojava e sua doçura parecia tão artificial...
Que tal um casal de exluídos de Asgard? Em andamento: Páreas
O guerreiro não compreendia a situação... pelos olhares que a sacerdotisa às vezes deixava escapar na direção do humano escondido, sabia que ela estava consciente do intruso, porém nada fazia em relação a ele... não era aceito, era apenas tolerado.
