Capítulo III: Traição
Sakura olhava para a janela do seu quarto, observava a bela lua cheia que iluminava aquela noite, aquela triste noite. Ainda podia ouvir a voz alterada de Touya que ficara discutindo com Yukito e seu pai sobre as ações que Li havia passado para o nome dela. Ela não queria dinheiro, ela só queria esquecer tudo aquilo e voltar para os braços do marido e lhe contar que estavam esperando um filho. Sakura acariciou a própria barriga sentindo lágrimas nos olhos.
"Como fui estúpida", pensou para si mesma. Levada pelo ciúme e pela intriga de Meilyn havia largado o marido numa atitude precipitada. Mas ela se sentia tão só lá, tão desamparada que aquilo tinha sido apenas a gota d'água.
"Ela está no direito dela. Se aquele desgraçado fez isso que se dane. O dinheiro é dela!!!", Touya começava a se alterar com o pai que defendia a filha na atitude de devolver as ações para Li. Sakura foi até a porta e a fechou na tentativa de não ouvir mais os gritos do seu irmão. Touya, no fundo, queria prejudicar Li de alguma forma para se sentir melhor pela tristeza da irmã. O rapaz sabia que agora Syaoran não era mais um moleque e sim um poderoso empresário e principalmente campeão em inúmeras modalidades de lutas. Com certeza ele não conseguiria dar uma surra nele.
Sakura olhou para sua mão esquerda com a aliança e teve vontade de jogá-la longe e fingir que Li nunca havia passado pela sua vida. Com certeza a esta hora estava com a doutora Ykegame.
"Dormindo com ela!", disse colocando em prática seu pensamento, tirou a aliança e a jogou longe. O belo anel bateu na parede com força e caiu no chão, rolando até debaixo do armário. Lágrimas não paravam de sair de seus olhos pensando em quantas vezes Li havia lhe traído, talvez Meilyn não era assim tão louca. Sakura sabia como Li era um amante feroz na cama, seguro de si e das suas atitudes, sempre era ele quem conduzia tudo, ela apenas se deixava levar pelas carícias do marido. "Claro, deve ter treinado muito, com muitas...", soltou revoltada, "Mas... mas... mesmo assim eu o amo... eu o amo, meu Deus..." Ela tampou o rosto com as mãos soluçando. Encostou-se à parede e dolorosamente escorregou apoiada a ela até atingir o chão.
Ela levantou o rosto e olhou para o armário, não conseguia ver a aliança, foi agachada até ele e se abaixou para tentar pegá-la. Esticou o braço até conseguir sentir o objeto entre os dedos, pegou-o e olhou para ele com dor, acabou recolocando no dedo. A porta se abriu de supetão, assustando a menina.
"Sakura o que faz aí no chão?"
Sakura se levantou apoiada no armário, secou as lágrimas do rosto com a manga do casaco e encarou o irmão. "Nada".
"Então por que está chorando? Está sentindo alguma coisa?"
"Não Touya, eu estou bem, não se preocupe. Vou tomar um banho agora".
"Precisamos continuar com a nossa conversa".
"Não agora, estou cansada".
Touya fitou a irmã com carinho. Sakura era o seu maior tesouro, cuidara dela desde que se entendia por gente, tentava protegê-la de tudo e de todos, mas falhou ao permitir aquele namoro entre ela e o moleque chinês. Ele sempre soube, desde o primeiro dia que colocou os olhos nele, que Syaoran lhe roubaria Sakura, mas pelo menos, pensou que ele a faria feliz e olha só no que deu, sua irmã estava novamente com os olhos inchados e vermelhos, mostrando que havia mais uma vez chorado e chorado por ele. "Vou preparar um lanche para você".
"Não estou com fome, Touya".
"Coma então pelo seu filho, Sakura".
Sakura colocou as duas mãos na barriga e a admirou. "Está bem, quero que este menininho venha ao mundo com muita saúde".
"Como sabe que é um menino?" Ele perguntou sorrindo.
Sakura levantou os olhos e sorriu para o irmão. "Eu sou a mãe, sei que é um lindo menino".
"Só espero que não seja parecido com o pai", disse saindo e fechando a porta.
A moça ficou um tempo observando a porta fechada pelo irmão e abriu um lindo sorriso. "Ele será muito parecido com o Syaoran, Touya, eu sei que será".
* * *
Haviam se passado duas semanas desde que Li havia visitado Sakura. Ele não entrara mais em contado com a esposa, mas Sakura sentira inúmeras vezes a sua presença mágica por perto. A moça tinha saído aquele dia mais cedo da faculdade para ir junto com Tomoyo fazer o pré-natal, ela daqui a pouco completaria 4 meses de gestação e queria ver o seu filhote na ultra-sonografia.
Tomoyo, munida com sua câmera, estava radiante. Pegou a moça na faculdade e as duas conversavam animadamente até chegar no hospital de Tomoeda. Sakura estava muito feliz apesar da constante ameaça de Li descobrir que estava grávida. Na verdade isso gerara eternas discussões na família Kinomoto nos últimos dias. Syaoran descobriria mais cedo ou mais tarde que ela estava grávida e ontem a noite Touya tinha dado uma solução muito drástica para o problema.
Todos estavam na sala, inclusive Yukito que tinha jantado com Touya na casa dos Kinomotos.
"Ele tirará o seu filho de você, sem dó nem piedade", repetia Touya o tempo todo.
"Não julgue, meu filho".
"Por que ninguém consegue raciocinar aqui?"
"Touya, está com a cabeça quente novamente. Sua irmã está grávida, não é bom ela ficar discutindo estes assuntos".
"Ouça o Yukito", Fujitaka tentava colocar alguma coisa na cabeça do filho.
Touya caminhou até a irmã que estava observando todos, apoiada ao parapeito da janela e a encarou nos olhos.
"Vai precisar deste dinheiro para pagar um bom advogado caso isso aconteça".
"Temos que encontrar outra solução, eu não quero aquele dinheiro".
"Por que é tão cabeça dura?"
"Porque sou sua irmã", rebateu sorrindo.
O rapaz respirou fundo e sentenciou. "Podemos dizer que o filho não é dele".
Sakura arregalou os olhos fechando o belo sorriso. "Não, isso não".
"Enlouqueceu de vez, Touya?"
O rapaz virou-se para o pai e amigo. "Só vejo esta solução. O moleque é tão orgulhoso que se descobrir isso, nunca mais vai procurá-la".
"Mas... mas isso é dizer que eu o traí", falou a moça assustada.
Touya virou-se para a irmã, "E daí?"
"Daí que eu o amo Touya, não vou dizer para o meu marido que eu dormi com outro!"
"Mas ele não fez isso com você, Sakura?"
Sakura balançou a cabeça desesperada, cruzou a sala e subiu rapidamente as escadas até o quarto. Touya acompanhou a irmã que fugia da situação, encarou o pai que olhava para ele com reprovação. "Ele vai tirar o filho dela e não vamos poder fazer nada para impedir".
"Como pode ter tanta certeza disso?"
"Simples Yuki, ela se casou sob a tradição da família dele".
"E o que tem isso?"
"Os filhos ficam sobre a tutela do pai".
Fujitaka arregalou os olhos para o filho. "Tem certeza disso?"
"Absoluta".
"Não podemos permitir isso".
"É isso que eu estou tentando dizer e ninguém entende".
* * *
"Ai que lindinho!" Gritou Tomoyo vendo a imagem do bebê no aparelho de ultra-sonografia.
Sakura olhava para a imagem destorcida com lágrimas nos olhos. Ali estava o seu filho, o seu filho com Syaoran. A prova viva do amor que ela sentia pelo marido.
"Gostaria de saber o sexo?", perguntou a doutora sorrindo.
"É um menino", respondeu Sakura.
"Como sabe?", falou Tomoyo.
"Eu só sei".
"É verdade, é um menino. Seu marido com certeza ficará muito feliz. Os homens adoram quando as esposas esperam meninos".
Tomoyo e Sakura ficaram em silêncio, um silêncio pesado. A doutora percebeu isso e tentou mudar de assunto. "Ele está bem formado. Olha...", disse apontando para a tela, "Aqui é o coraçãozinho e aqui os dois bracinhos..."
Tomoyo dava gritinhos de felicidade a cada fala da doutora. Sakura sorria contagiada pela alegria da amiga e é claro pela imagem do filho.
As duas saíram do hospital e resolveram passar no shopping para comprar roupinhas e acessórios de bebê, gastaram a tarde inteira andando pelas lojas e cansadas voltaram para casa.
Sakura saltou da limusine da amiga e olhou para a casa amarela, fechou os olhos apenas para confirmar a presença que sentia. "Syaoran..." Sussurrou confirmando a presença do marido na casa.
Tomoyo olhou assustada para ela. "E agora? Não tem como esconder por muito tempo isso".
"Eu sei disso, Tomoyo. Leve as coisas para sua casa, depois eu as pego".
"Sem problema".
"Obrigada. Só espero que Touya não esteja em casa".
"Tomara", confirmou a amiga.
Sakura mordeu o lábio inferior, ela sentia a presença de Ywe vinda de dentro da casa, provavelmente Touya também estaria. A jovem respirou fundo e começou a andar em direção da casa. Não precisou abrir a porta para ouvir a voz alterada do irmão e do marido discutindo.
"Você está louco!"
"Louco é você que teve a petulância de vir procurar a minha irmã!"
"Eu só saio daqui depois que eu ouvir da própria boca da minha mulher esta história".
"Sua mulher uma vírgula, sua ex-mulher!"
"Ela é ainda a minha mulher, queira ou não, e se ela está grávida, eu quero ouvir da boca dela que o filho não é meu!"
"Como você é teimoso moleque, todo mundo já te confirmou isso. Meu pai já disse que a Sakura está namorando o Yukito!"
Sakura sentiu o ar lhe faltar. O que está acontecendo? Pensou freneticamente. Que história era aquela de estar namorando o Yukito. Ela entrou de supetão na sala deixando os dois rapazes sem fala. "O que está acontecendo aqui?", perguntou olhando para os dois.
"Sakura?", foi a única coisa que Touya conseguiu dizer.
Li olhava para ela assustado, Sakura conhecia o marido e via no rosto dele desespero. Fujitaka caminhou até a filha. "É melhor ir descansar meu bem".
"Não, ela não vai a lugar nenhum antes de conversar comigo", gritou Li.
"Droga, moleque! Não vai prejudicar mais a minha irmã do que já fez".
"Agora chega!", gritou Fujitaka, "Sakura está numa situação delicada, não pode ficar se aborrecendo".
Li passou a mão pelos cabelos e caminhou meio desorientado até ela. "Só me diga uma coisa: Por que me escondeu que estava grávida?"
Sakura olhou para ele nos olhos e pode ver toda a tormenta que eles passavam. "Não quero que tire o meu filho de mim", foi a resposta.
"Se este filho não é meu, não tinha porque me esconder".
"Mas como pode...", revoltou-se a jovem pelo simples fato do marido ter acreditado que realmente ela tivesse o traído.
"Ela não lhe deve explicações alguma. Agora saia da casa do meu pai e a deixe em paz!", interrompeu Touya, sabendo que a irmã estragaria todo o plano.
Li respirou fundo e desviou os olhos dela, colocou uma das mãos no bolso da calça e abriu a porta com a outra. "Acho que pelo menos poderia ter se cuidado melhor. Sempre fomos cuidadosos com isso, pensei que tinha aprendido alguma coisa".
Sakura sentiu como se o chão tivesse saído de seus pés, ela não poderia estar ouvido aquilo, Li tinha acreditado na história louca do irmão de que estava esperando um filho de outro. "Não se preocupe, Kinomoto, não vou mais perturbar a sua irmã", disse antes de abrir a porta e sair por ela. Sakura acompanhou a bela figura do rapaz se afastando. Touya correu para fechar a porta evitando que Sakura numa medida impetuosa corresse atrás dele.
"O que vocês contaram para ele?"
"Que você está grávida de um filho meu, Sakura". Respondeu Yukito que até agora tinha ficado calado tentando não se meter. Ela reparou que o rapaz tinha em um dos olhos a marca de um forte soco.
Sakura olhou para o amigo do irmão em desespero. "Como?"
"Era a única saída, filha".
Até seu pai tinha compactuado com a história louca. "Enlouqueceram?! Vocês todos enlouqueceram? Nunca tive nada com o Yukito, nunca tive nada com nenhum outro homem!"
"Se ele descobrir que o filho é dele, ele terá todo o direito de tirá-lo de você".
Sakura deu uns passos com uma das mãos na cabeça atordoada.
"Você casou sob os regimes da família dele, abandonou o lar, e ainda por cima é estrangeira. Tirariam seu filho com facilidade".
"Seu irmão infelizmente tem razão, por isso aceitei esta loucura toda".
Sakura olhou para o pai e viu como ele também sofria com a situação.
"Achamos sensato dizer a ele que o filho era meu, pois assim não teria como negar. Vivo praticamente na casa de vocês e além disso..."
A jovem desviou os olhos para o amigo lembrando-se de quando achava que estava apaixonada por ele, isso tinha sido há séculos, como Li pode acreditar numa mentira tão absurda?
"Eu confirmei", falou o pai como se lesse os pensamentos da filha. Li sempre teve um imenso respeito pelo senhor Kinomoto, uma confirmação dele deve ter sido um choque para o rapaz. Inúmeras vezes ela já tinha ouvido o marido comentar em como um homem sensato e bom teve um filho tão estourado como Touya. Agora ela começou a entender o olhar de desespero de Syaoran.
* * *
Li caminhava de um lado para o outro no quarto do hotel. Não podia acreditar no que estava acontecendo com ele, com seu casamento, com Sakura. Não, ela não pode estar grávida do Yukito, pensava quase beirando ao desespero. As palavras de Yukito ressoavam na sua cabeça como um eco. Um doloroso eco.
"O que você está fazendo aqui?", perguntou Touya vendo-o na sala da casa do pai.
"Estou esperando a minha mulher".
"Ela não é mais a sua esposa, não tem o direito de ficar a cercando".
"Não lhe devo explicações".
"Pois deve sim, Sakura não quer mais saber de você, ela está maravilhosamente feliz sem a sua presença na vida dela".
"Não me diga", respondeu o rapaz fazendo pouco caso.
"Filho, por favor, daqui a pouco sua irmã está chegando", repreendeu Fujitaka.
Touya começava a ficar nervoso com a presença dele, Sakura já estava com uma barriga bem visível. Ele sabia que o moleque não era burro e que provavelmente já tinha certeza ou desconfiava que a irmã estava grávida.
"Não pense que vou deixá-lo arruinar a vida da Sakura".
"Por que diz isso?", Li o observava com atenção, ele era um ótimo negociante e sabia quando alguém estava lhe escondendo algo.
"Por nada", respondeu Touya nervoso.
"Será que é porque sua irmã está esperando um filho meu?", falou calmamente.
"Como?"
"Deveria saber que um filho meu e de Sakura teria uma presença mágica muito forte. Foi fácil perceber a presença dele".
Touya, Fujitaka e Yukito ficaram sem fala observando o rapaz.
"Um filho meu e de Sakura também", sentenciou Yukito.
O semblante do rapaz mudou, ele se levantou encarando o rapaz de frente.
"O que você disse?"
"O filho é meu".
Li não pensou, desferiu um soco muito bem dado na cara do rapaz que praticamente voou antes de cair no chão com a mão no rosto. Touya foi socorrer o amigo enquanto o senhor Fujitaka pedia para se acalmarem.
"Está louco!", gritou Touya.
"Nunca mais diga isso, não tem o direito de difamar a minha esposa!"
"Mas é a verdade, moleque! Agora nos deixe em paz!"
"Nunca pensei que você chegasse tão baixo".
"Pergunte ao meu pai!"
Li olhou atordoado para o senhor e o viu apenas fazer sinal positivo com a cabeça. O rapaz sentiu como se um piano tivesse lhe atingido a cabeça. Não, não poderia ser verdade, não poderia... Pensava desesperado.
Li saiu do quarto batendo a porta com força precisava extravasar toda a raiva e só tinha um lugar que poderia fazer isso. Ainda bem que sabia onde ficavam as academias de lutas marciais de Tomoeda.
* * *
"Vá com calma rapaz, assim você vai acabar com a minha academia", pediu um homem vendo o saco de areia caído no chão. Li tinha exagerado atacando o objeto de treino.
"Eu pago os seus prejuízos, não se preocupe".
O forte homem acompanhou o rapaz arrumando as faixas nas mãos. "Você é bom... e forte. Por acaso é um lutador profissional?"
"Sim, mas parei de lutar quando... quando me casei".
Ele deu um soquinho de leve na palma da outra mão em reprovação. "É uma pena, deveria ser um ótimo lutador".
Li levantou o rosto para ele e sorriu de leve. "Era o melhor".
O homem riu em deboche. "Não está sendo muito convencido, rapaz?"
"Não".
"Que tal lutar então? Vamos ver se é tão bom quanto diz".
"Será um prazer".
Li conseguiu o que queria. Queria lutar, queria extravasar toda raiva que o corroía por dentro e não havia nada mais relaxante para ele do que lutar. Pena que não poderia fazer isso com Yukito, pensava enquanto se posicionava para começar a luta. O oponente era alto e corpulento, mas Li aprendeu que isso não era nada perto de uma ótima técnica, e isso ele tinha, anos de treinamento o fizeram o melhor lutador da sua categoria em artes marciais. A luta começou, aos poucos a academia começava a se concentrar em volta do ringue para assisti-la. O dono tinha sido o campeão no ano passado da liga japonesa e representou o país nos confrontos internacionais. O seu oponente era um desconhecido, mas aos poucos começava a se destacar pela técnica perfeita. Li tinha razão sobre si mesmo, era o melhor.
Pensamentos invadiam a mente do rapaz. 'Como Sakura pode ter feito isso? Como pode em poucos meses depois da separação aparecer grávida de Yukito? Logo de Yukito! Talvez ela nunca tenha conseguido superar a rejeição do rapaz quando ele lhe deu o fora. Ela não queria novas experiências? Não foi por isso que ela deixou a China? Em busca de novas experiências?!'
"Chega! Eu não agüento mais!", sentenciou o homem já com o corpo todo ferido e cansado, "Você tem razão, é muito bom!"
Li cessou seu ataque e deu uns passos para trás atordoada com o que pensava. Ele levou a mão no rosto e viu que tinha um pequeno corte, ele nem tinha percebido que haviam o golpeado. O forte homem a sua frente estava num estado mais deplorável. Uns alunos vieram socorrê-lo que cambaleava ainda tonto.
"Você está bem?" Perguntou um rapazinho para Li.
"Sim, acho que sim".
"É melhor cuidar deste corte na testa".
Li confirmou com a cabeça e saiu do ringue, deu uma última olhada no seu oponente e teve pena por tê-lo usado para extravasar a sua raiva, ele não tinha este direito e sabia disso. Pegou suas roupas no vestiário e seguiu em direção ao quarto do hotel. Tinha que falar com sua advogada sobre os novos rumos do divórcio, se Sakura não queria nada, ela não teria nada.
* * *
Eram dez da noite, hora imprópria para tratar de negócios pensou Li sentado numa mesa no elegante restaurante no centro de Tomoeda, mas quem disse que ele estava ali para falar unicamente de negócios? Olhou para o relógio e depois para o hall de entrada. Lá estava ela, linda, elegante e principalmente...
"Pontual", pensou em voz alta, lembrando-se das vezes que a esposa lhe deixara esperando plantado devido aos seus atrasos constantes.
"Boa noite, Sr Li", cumprimentou Ykegame com um belo sorriso.
"Boa noite", respondeu enquanto afastava a cadeira para ela se sentar. "Está linda hoje".
A bela moça sentiu as bochechas queimarem com o elogio. Há tempos insistia com o patrão, mas ele sempre se mostrava fiel à esposa, agora, depois da separação foi pega de surpresa pelo convite para jantar fora.
"O que foi isso na sua testa?", reparando no curativo acima da sobrancelha.
Li levou a mão até ele e sorriu. "Isso? Não foi nada, resolvi treinar um pouco, estava parado há muito tempo e queria desenferrujar".
"Pensei que não voltaria a lutar".
"Estava na hora de voltar aos velhos hábitos".
"Bem daqui a poucos dias voltará a ser o mais novo e cobiçado solteiro da China".
"É, talvez. O que vai querer para o jantar?"
Li chamou o garçom e fez o pedido.
"Sobre o que quer tratar neste jantar?"
"Sobre o meu divórcio, é claro, e outras pendências".
"Sua esposa aceitou a sua oferta?"
"Melhor, resolveu abrir mão de tudo. Irá passar tudo para meu nome novamente. Quero que providencie os papéis para o final desta semana".
Ela olhou assustada para o rapaz a sua frente. Ela conhecia a senhora Li e sempre teve ela como uma menininha boba, mas pensou que fosse só aparência, não que ela realmente fosse uma completa idiota, pensou para si.
"Desculpe, mas eu não entendi direito. A senhora Li vai lhe devolver tudo?"
"Isto mesmo. É próprio de Sakura".
A moça balançou a cabeça um pouco assustada. "Mas ela sabe realmente do quê está abrindo mão?"
Li encostou-se à cadeira e passou uma das mãos nos cabelos rebeldes. "Não, mas avisei a ela que era coisa grande. Mas que se dane, se ela é orgulhosa, o problema é dela".
"Poxa, desculpe-me, sei que estamos falando da sua ex-esposa, mas isso já não é orgulho, é estupidez".
Li cravou os olhos nela pensando em quem era ela para falar de sua Sakura assim, Sakura nunca se apegaria a dinheiro ou a qualquer outra coisa material, quando ele se casou com ela sabia que ela o amava de verdade... Bem, talvez agora ele percebesse que tinha confundido as coisas naquela época, talvez Sakura apenas tinha ficado com ele para esquecer Yukito. Li pegou o copo com uísque e bebeu tudo de um gole só, achando que a bebida fosse fazê-lo se esquecer do que estava acontecendo na sua vida.
"Acho que não está passando por bons momentos, Sr Li. Imagino como uma separação deva ser difícil".
"É, mas não vamos falar disso agora", tentou mudar o assunto, "Diga-me, o que acha que podemos fazer sobre o contrato com os ingleses?"
"Tem certeza que está bem para tratar disso?"
"Eu sempre estou".
Os dois conversaram horas enquanto jantavam e bebiam. Li pela primeira vez começava a exagerar na bebida, ele nunca foi disso, mas começava a se sentir melhor conforme ingeria os copos, um seguido do outro.
* * *
Li abriu os olhos e encarou o teto branco do quarto. 'Onde estou?' Pensou sentindo a cabeça latejar, tinha exagerado na bebida, ele sabia que era fraco para estas coisas, procurava ter uma vida saudável, sem fumo nem álcool, mas ele precisara de algo forte na noite passada. O rapaz tentou se levantar e viu que algo o impedia, algo repousado em seu peito. Olhou para baixo e viu a cabeça da advogada repousando delicadamente sobre o seu peito nu.
"Droga! O que foi que eu fiz?", soltou. Ele fechou os olhos novamente tentando se lembrar de alguma coisa da noite passada, mas tudo era uma enorme confusão na cabeça do rapaz. Porém tudo indicava que realmente tinha voltado a cometer os velhos deslizes de adolescente. Ele observou a aliança na mão esquerda pensando que não era mais um adolescente, era um homem, e um homem casado.
"E corno", sentenciou.
Ele levantou-se não se importando em acordar a moça.
"Bom dia", ela disse beijando de leve os lábios dele.
"Bom dia", cumprimentou constrangido, "Preciso ir agora".
O rapaz levantou-se e começou a colocar as roupas que estavam jogadas no chão. Ykegame observava-o tentando entender o que se passava na cabeça dele e porque agia tão friamente depois da noite ardente que passaram.
"Arrependido?", perguntou a ele.
Li virou-se para ela abotoando a camisa. "Não, apenas com muita dor de cabeça".
"Ainda ama a sua esposa, não é?"
"Ex-esposa", consertou, "Não posso mais amá-la se quer saber a resposta".
Ela o observou procurar os sapatos pelo chão do quarto. "Você me chamou a noite inteira pelo nome dela".
Li parou de se arrumar e pela primeira vez desde que acordou encarou a bela mulher.
"Confesso que não imaginei que era realmente tão apaixonado por ela. Sempre pensei que os casamentos de clãs eram apenas contratos", continuou.
Li terminou de se arrumar e colocou a gravata num dos bolsos. "Meu casamento nunca foi um acordo. Deveria saber que inclusive ele foi contra as tradições do clã".
"Que seja assim, deveria tentar tirar sua esposa da cabeça antes de se envolver com outra pessoa. Não gosto de ser usada".
Ele abriu a porta do quarto. "Acho que você aproveitou tanto quanto eu. Espero os papéis do meu divórcio até o fim da semana, Ykegame. Até!"
Li saiu e fechou a porta do quarto se sentindo o pior dos homens. Tinha se envolvido em uma briga, abusado da bebida, usado a advogada e traído a esposa em um só dia. "O que está acontecendo comigo?", perguntava-se enquanto a cabeça latejava insistentemente. Aquele não era ele, não poderia ser ele.
* * *
Sakura se olhava no espelho de lado, apreciando a barriga que começava a crescer e ficar nítida aos olhos de todos. Como ela tinha orgulho daquela barriga, pena que seu filho viria na época mais difícil da sua vida. "Pelo menos eu vou ter você meu pequeno", disse passando a mão na barriga com carinho. Ela não permitiria que a família Li o tirasse dela, mas também não achava certo que Li pensasse mal dela, como ela queria contar para ele que era seu filho. Que ela nunca tinha o traído. 'Como ele pode pensar que eu faria alguma coisa logo com o Yukito! Como o Syaoran continua o mesmo cabeça-dura orgulhoso', pensava.
Já havia se passado quase duas semanas desde que aconteceu o incidente e Li não havia procurado por ela, até a sua presença mágica, ela não conseguia mais sentir.
Sakura ouviu o seu pai lhe chamar e desceu. Quando chegou na sala viu Ykegame junto com um outro homem elegantemente vestido.
"Como vai senhora Li?", cumprimentou educadamente.
"O que faz aqui?"
"Viemos lhe entregar o contrato de divórcio. O Sr Li me pediu para fazer isso".
Sakura olhou desconfiada para ela e pegou o envelope pardo. "Pensei que seu escritório era em Tókio".
"E é, mas estou passando uns dias em Tomoeda. O Sr Li pediu para adiantar ao máximo este acordo".
"Ele pediu?", perguntou Sakura tristemente.
A bela advogada olhou para a barriga da moça e sorriu. "Acho que já sei o motivo desta pressa toda", disse sorrindo, "Um escândalo seria terrível para a reputação do clã Li".
Sakura sentiu a raiva lhe subir a cabeça, a vontade que tinha era de dar um soco no rosto daquela mulher, quem era ela para insinuar que tivesse traído o seu marido. Logo ela que dava mole para ele. "Já fez o que veio fazer. Agora se me der licença...", disse tentando manter a calma.
"Assim que terminar de conferir o acordo, entre em contato com este número e marcaremos o dia da audiência com o juiz de família", estendeu um papelzinho.
Sakura o pegou a contra gosto. Ykegame se despediu educadamente e acompanhada pelo outro homem saiu da casa. Assim que fechou a porta Sakura explodiu. "Quem esta mulher pensa que é?!"
"Não pode se irritar minha filha. Lembre-se que está grávida!"
"Eu a odeio! Nunca gostei dela papai. Ela deve estar quase caindo em cima do meu marido e ainda tem a petulância de vir aqui".
"Está com ciúmes?"
A jovem virou-se para o pai. "É claro que estou papai! Eu ainda amo o meu marido".
O velho senhor consertou os óculos e sorriu. "Então não assine este divórcio".
Sakura arregalou os olhos surpresa. Seu pai tinha razão, se ela amava ainda o marido não tinha porque assinar o divórcio. "Mas agora as coisas já chegaram muito longe..."
"Se assinar este papel será o fim do seu casamento. Syaoran não pode se casar ou fazer qualquer outra coisa antes de estar definitivamente separado de você".
"Mas ele pensa que o filho não é dele".
"Esta é uma decisão sua, mas acredito que Li não teria coragem de tirar o seu filho de você".
"Mas e a família Li?"
"Isso eu realmente já não sei".
Sakura apertou o envelope nas mãos observando o rosto sereno do pai. Fujitaka tinha razão o importante era que amava o marido ainda e que não o daria de mão beijada para outra. Estava na hora dela lutar pelo que queria e ela queria Syaoran de volta.
Wherever you´ll go
The Calling
So lately, been wondering
Who will be there to take my place
When I`m gone you`ll need love
To light the shadows on your face
If a great wave shall fall
And fall upon us all
Then between the sand and stone
Could you make it on your own.
If I could, then I would
I`ll go wherever you will go
Way up high or down low
I`ll go wherever you will go
And maybe, I`ll find out
A way to make it back someday
To watch you, to guide you
Through the darkest of your
days
If a great wave shall fall
And fall upon us all
Then I hope there`s someone out there
who can bring me back to you
If I could, then I would
I`ll go wherever you will go
Way up high or down low
I`ll go wherever you will go
Run away with my heart
Run away with my hope
Run away with my love
I know now, just quite how
My life and love my still go on
In your heart, in your mind
I`ll stay with you for all of time
If I could, then I would
I`ll go wherever you will go
Way up high or down low
I`ll go wherever you will go
If I could turn back time
I`ll go wherever you will go
If I could make you mine
I`ll go wherever you will go
I`ll go wherever you will go.
Continua.
