FairyLand
02. Despedidas
Shoran[18] acordou novamente atordoado. Dessa vez, despertado de um sonho confuso com um pássaro de fogo que o fizera ficar sem fôlego e com uma sensação de derrota enorme. Faltava pouco para amanhecer e os outros ainda dormiam. Levantou-se em silêncio e deixou a caverna sem incomodar nenhum dos outros jovens.
Fitou, talvez pela última vez, o platô árido e escurecido. No horizonte recortado por baixas montanhas, o clarão avermelhado começava surgir, prenúncio de um dia quente e sufocante como eram todos. Poderia, para outros, parecer uma paisagem desoladora, mas para ele... representava seu lar. Sempre fora. O lugar de seu treinamento, o lugar que o moldara para ser um verdadeiro guerreiro. Suspirou sentindo-se frustrado por ter sido feito de tolo por seu tão almejado destino. Procurou encontrar algum consolo nas palavras de Eriol, mas não foi capaz.
- Shoran... – escutou a voz atrás de si. Virou-se para encontrar a figura austera de sua mãe. Curvou-se em uma sutil reverência, se havia alguém que o jovem respeitava mais que todos, era ela.
- Mãe, me perdoe se desonrei o nome de nosso clã.
- Meu filho, desonra? Não sei do que está falando. Você recebeu a mais alta honra que um guerreiro pode receber.
- Não é exatamente o que eu esperava... eu...
Ela se aproximou lentamente, e segurou-o pelo queixo, os olhos escuros mirando-o diretamente com intensidade, seu rosto pálido com olhos puxados, que pouco lembrava o do único filho, estava muito sério: – É o seu destino... – um suave sorriso brotou na beira de seus lábios vermelhos – Acredite nele e poderá se surpreender. Decerto que você é um dos mais poderosos guerreiros, mas não creia que suas habilidades serão desperdiçadas. Existe um balanço sutil entre as forças duais que regem os Nove Mundos, tão sutil que é muito esquecido pelos seres inferiores como nós. Cada um dos mundos tem um papel no Universo, nem maior, nem menor que o outro. E todos são necessários para compor a Árvore da Vida, se um deles sucumbir todo esse equilíbrio será perdido. Não pense tão pouco de outros seres. E o Oráculo, ah meu filho, elas jamais agem sem significado.
Ele suspirou profundamente, querendo, como quisera com Eriol, absorver cada uma daquelas palavras e se entregar àquele pensamento.
- Aqui – ela estendeu para ele um embrulho – Eu fiz pessoalmente para você, empreguei minha confiança, minhas esperanças, minha proteção. – Ele desfez o embrulho vendo vestes cerimoniais tecidas em verde escuro e preto, na frente da túnica estava bordado em dourado e vermelho o lobo com chifre em chamas[19], o símbolo de seu clã – Coloquei em cada ponto a magia do nosso guia para sua proteção. Seja fiel a si mesmo meu filho, não deixe que as aparências o ceguem, seja fiel a seu coração. Sei que honrará nossa família, e principalmente honrará a si mesmo.
Ela o abraçou apertado, despedindo-se, do seu mais novo e único filho homem. Herdeiro de todo legado do clã dos Lobos Selvagens.
(...)
Mais tarde, naquele dia, utilizando suas vestes cerimoniais apresentou-se no portal[20] da ponte arco-íris. A primeira vez que deixava seu planeta e viajava entre mundos. Era necessária uma enorme quantidade de energia para realizar a viagem, mas não durante a janela espacial, onde o alinhamento das estrelas era perfeito para a comunicação entre os mundos.
Segundos depois do acionamento do núcleo central ele encontrava-se em outra sala de transporte; a qual, ainda que fosse idêntica, não era a de seu mundo. Havia nela apenas o guardião da porta. Um dos nove deles, um habitante do mundo dos sobre-humanos[21] enviado para guardar o portal. Como todos, era cego e silencioso, não precisava da visão física para enxergar. Ele nada disse ou sequer fez algum gesto.
Shoran saiu do salão dourado, para o que fora um dia uma densa floresta, mas dela, nada restava. As árvores estavam secas e mortas, não havia cor ou grama no chão, apenas uma espessa e suja camada de neve. O céu estava nebuloso com nuvens pesadas e escuras, o vento era cortante e frio. O cenário todo o surpreendeu. Morte. Era isso que aquele lugar lembrava, longe de qualquer ideia verde, florida e alegre que houvesse tido do mundo das fadas.
Estava sozinho, ninguém viera recepcioná-lo, o que também lhe pareceu estranho. Tampouco havia uma trilha, ou sequer um rastro, ou algo que indicasse uma direção, para todos os lados que olhava parecia o mesmo.
Tentando decidir sobre qual direção tomar, antes de congelar naquele lugar, escutou muito baixos e longínquos cânticos, era um som triste em uma língua que não entendia. Decidiu que seguir os sons através da floresta seria sua melhor opção, não era do seu feitio ficar parado esperando.
Andou por mais de uma hora, seguindo aqueles sons que foram lentamente se intensificando pelo caminho, até que, finalmente, o levaram onde havia alguma civilização. Uma espécie de cidade se mostrava a sua frente, onde as árvores tinham troncos enormemente largos. Casas, ou o do que quer que se chamasse aqueles abrigos haviam sido construídos encravados nos troncos por toda a extensão deles, havia platôs construídos e caminhos decorados, espiralando para dar acesso aos níveis mais altos. Os galhos mais massivos haviam sido esculpidos e amarrados, servindo de pontes que interligavam as árvores umas nas outras. Não era tudo simples e natural, porém belamente esculpido e detalhado.
Mais adiante e bem no meio de uma enorme clareira, estava a maior de todas as árvores e mais ricamente entalhada. Era a única que não se ligava com as outras, sendo totalmente isolada. Mais alto que todas as outras construções estava o que lhe parecia ser uma espécie de palácio; tinha aparência mais fina e delicada que o jovem guerreiro já vira em todos seus anos de estudo. Admirado, continuou caminhando naquela direção, observando atentamente as figuras delicadas das fadas no seu caminho. Todos pareciam tristes, ainda que olhares de estranhamento, talvez até de medo fossem lançados em sua direção. Uma quebra intensa para a imagem alegre e quente que vinha a sua mente sempre que pensava no país das fadas.
Um olhar castanho claro, intenso sobre si chamou-lhe a atenção. Pertencia a uma fada parada no início da subida espiral para o palácio, ele tinha cabelos acinzentados e curtos, aquela mesma face delicada e uma expressão amigável; utilizava um traje pesado que lembrava-lhe um sacerdote.
– Sou Tsukishiro Yukito, sacerdote supremo do espírito da Lua[22]. Seja bem vindo ao nosso humilde lar, Guardião… - O sacerdote disse, assim que Shoran se aproximou, examinando com um longo olhar a figura forte do guerreiro.
- Li Shoran, do clã dos Lobos Selvagens. – apresentou-se.
- Desculpe por não ter tido uma recepção adequada. – O sacerdote deu um ligeiro sorriso fazendo sinal para que ele o acompanhasse e virou-se iniciando a subida em espiral ao redor da massiva árvore. Seu sorriso desapareceu quando ele continuou, - Nossa soberana está perecendo... Não sabemos quanto tempo ela irá aguentar...
- Então o Guardião…?
O sacerdote parou por um momento soltando um largo suspiro. - Ele deu a vida por ela… mas, infelizmente, nem isso foi o suficiente.
Shoran quis perguntar mais detalhes, curioso imaginando qual seria a doença que acometia a soberana, porém achou melhor esperar por uma ocasião mais propícia. Em algum momento ele seria oficialmente apresentado a nova soberana e provavelmente a situação lhe seria explicada. - E a sucessora...? – perguntou, por fim, depois de uma longa pausa.
- A princesa é muito jovem, ainda se encontra em suspensão[23]. Precisaremos despertá-la tão logo a rainha passe para o Mundo Superior.
Shoran não entendeu bem o motivo da urgência. Se ela ainda estava em suspensão significava que sua alma estava no Mundo Superior ainda tendo o treinamento espiritual que um soberano precisava, seria muito melhor se ela o terminasse apropriadamente antes de ser despertada. Aliás, nem sabia que era possível interromper uma suspensão uma vez que alma e corpo estavam separados, nunca vira nada disso em seus estudos.
Conforme subiam o vento tornava-se ainda mais frio e cortante, o ar era gélido deixando sua respiração seca e dolorosa. Ele procurou de onde vinha aquela música triste e estranhamente tocante, que agora estava muito mais nítida e forte, embora não fosse capaz de ver ninguém cantando. Os silêncios daqueles sons pareciam penetrar profundamente em suas entranhas, deixando-o perturbado com uma dor que não era sua, que ele não conseguia entender.
- É a floresta… é um hino para acalentar a alma da rainha em sua passagem... – explicou o sacerdote.
Shoran estranhou, pois nada havia perguntado. Imaginou se as sensações que a música lhe causava eram algo comum ou se aqueles seres seriam capazes de ler pensamentos. Não sentiu-se nenhum um pouco satisfeito consigo mesmo, sabendo tão pouco sobre aquele mundo que sempre relegara em seus estudos e que agora seria onde viveria o resto de seus dias
Ao chegarem à entrada do palácio, reparou com certa satisfação, que a mesma estava guardada por um paredão de homens, com armaduras brilhantes de desenho delicado e um material que lhe parecia muito fino. Ainda sim, o fato de haverem guardas lhe trazia alguma satisfação.
- Ali fica a sala do trono. – Indicou o sacerdote apontando para a entrada frontal do lugar. Ao invés de seguirem naquela direção, enveredaram por um caminho lateral subindo mais algumas escadas, até o que parecia ser um aposento privativo. Havia um largo platô, uma entrada maior de portas de alabastro translúcido ricamente adornadas e outra entrada lateral bem menor. O lugar também estava cercado por guardas vestindo as mesmas armaduras reluzentes. – Estes são os aposentos da princesa, - explicou o sacerdote, e em seguida apontou para a entrada menor, - Aquele será seu aposento, por favor, fique à vontade nele por enquanto, eu tenho algumas coisas a fazer mas devo voltar logo ou mandar alguém procurá-lo. Peço desculpas novamente pela recepção, mas estamos em um momento delicado.
- Não se preocupe com isso. Eu compreendo. - Shoran respondeu, recebendo um suave meneio do sacerdote que se virou deixando-o ali sem mais delongas.
Por um momento ele ficou parado lá, olhando com cuidado os desenhos trabalhados na porta de alabastro, a energia mágica vinda de lá era, sem dúvida, muito forte e o pegou desprevenido. Sutilmente confuso e resignado, moveu-se para ver sua nova morada. Era uma saleta pequena, mas aconchegante, havia um catre forrado com peles macias, uma cômoda entalhada na própria árvore, uma pequena abertura por onde entrava a luz de fora e uma bica particular para os banhos. Aceitável. Era muito mais conforto do que qualquer lugar que havia habitado durante seus treinamentos. Ainda que não se comparasse a enorme mansão de seu clã.
Pegou a bolsa de couro que trouxera, retirando seus pertences. Não havia muitas coisas: roupas de treino, duas mudas de roupa para uso informal e as novas vestes cerimoniais que sua mãe lhe dera. Trouxera seus amuletos de magia e o tabuleiro de seu clã. Sua espada lacrada estava seguramente presa na lateral de sua calça. Não havia muito mais que um guerreiro precisaria.
Sem ter o que fazer ali dentro, saiu para o platô e parou a frente dos aposentos da princesa. Estava curioso com tamanha energia que sentia, embora ela fosse o próximo ser supremo daquele mundo, ainda sim, não esperava tanto poder. Não sabia dizer se o poder era advindo da suspensão ou da própria princesa. Cedendo à curiosidade, afastou as portas delicadas adentrando o aposento. Nenhum dos guardas fez algum movimento para impedi-lo, obviamente já deviam saber quem ele era.
Shoran se moveu quase com cuidado, havia uma abóbada de energia azulada brilhante no interior do aposento. Ele fora treinado em magia e não podia acreditar que uma fada tivesse um nível tão alto. Pensou que talvez fosse apenas a conexão com o mundo superior que a deixasse tão densa. A sala era ampla e possuía uma abertura lateral, por onde deveria entrar luz, mas estava cerrada por um tecido escuro. Havia também uma bica que despejava água cristalina vagarosamente em uma banheira rasa e larga, forrada de alabastro como o chão. Um armário largo também entalhado diretamente na madeira da árvore e o catre largo e espaçoso coberto por um dossel suave, onde ela repousava.
Destoando da suavidade da decoração do quarto havia um apoio de madeira sólida com duas espadas cruzadas. Uma prateada cravejada de safiras e outra dourada cravejada de rubis. Apesar da aparência fina e delicada, como tudo naquele mundo parecia ser, ele pode ver que elas eram mortalmente afiadas. O cabo era trabalhado e na junção da lâmina havia o entalhe em baixo relevo de um sol em uma e uma lua na outra. Ele lembrou-se do sacerdote ter mencionado o espírito da lua. A aura mágica era forte ali, e ele não duvidou que houvesse algo poderoso selado nelas. Arrependeu-se realmente de não ter estudado mais sobre aquele mundo para que pudesse saber o segredo daquelas armas. Pareciam poderosas demais para pertencerem a um mundo pacífico como aquele.
De repente as palavras de Eriol e sua mãe lhe voltaram à mente. Talvez ele estivesse muito enganado sobre aquele mundo?
Além da tristeza, óbvia pela futura e aparentemente inevitável perda da rainha, havia uma certa tensão no ar. Algo que ele não sabia dizer o que era, mas que lhe deixava com os sentidos em alerta. Talvez algo relacionado com a quantidade de guardas próximos aos aposentos reais, que lhe parecera um exagero. Estrategicamente falando, seria melhor ter soldados mais espalhados em diferentes postos em diferentes alturas, considerando a disposição das árvores ao redor.
Deu a volta nas armas dirigindo-se ao leito da princesa, afastou o dossel que flutuava empurrado pela energia azulada que a circundava. Era tão forte que dava a todo o recinto uma claridade bruxuleante e era difícil olhar diretamente. Apertando os olhos para que se acostumassem com a luz, ele pode definir os contornos da princesa. Ela estava coberta com a pele de um animal de pelos grossos imaculadamente brancos. Ele podia ver o joelho e parte da perna que estava dobrada escapando da coberta, bem como o ombro e braço direito uma vez que ela estava deitada sobre seu lado esquerdo. Seus cabelos castanhos pareciam chegar à altura dos ombros e estavam espalhados cobrindo-lhe as feições. Shoran ficou enlevado com a visão. Ela era o ser mais delicado que já havia visto. Era surreal com toda aquela energia azulada ao redor, tão pequena e suave. Ele se perguntou se aquela energia toda era mesmo dela e como ela poderia ter tanto poder em um corpo tão gracioso.
Vendo o ombro descoberto e o balanço suave com a respiração ele pensou se ela estaria despida por baixo das cobertas, não conseguindo conter o pensamento inapropriado sobre aquela que já era seu dever.
- O que faz aqui dentro? – Virou-se em posição defensiva ao ser surpreendido por uma voz irritada na porta – Quem lhe deu permissão para entrar aqui?
- Eu apenas vim ver o peso do meu dever... – Respondeu desafiadoramente – E por que eu deveria dar alguma satisfação a você? – Encarou seriamente o homem alto de cabelos negros que parecia extremamente irritado.
- Esse é o príncipe Touya, irmão da princesa. – Interferiu o sacerdote que estava logo atrás do homem. – Eu o trouxe para conhecê-lo. Poderia vir aqui fora, por favor, assim poderemos falar sem incomodar a princesa.
Contrariado Shoran saiu do recinto para o platô gelado. Encarou friamente, lançando um olhar desconfiado para o irmão da princesa. Ainda que não houvesse visto o rosto dela ele sabia que eles não eram parecidos em nada. Ele tinha um porte alto e másculo, em geral diferente dos delicados seres que vira ali, cabelos negros e feições marcadas. Mesmo que sentisse algum poder nele, sua aura era diferente da do sacerdote ou da princesa. Parecia-se..., parecia-se com a sua própria raça.
O príncipe o fitou com o mesmo nível de desconfiança. Quando o viu parado segurando o dossel e olhando para sua irmã adormecida, Touya sentiu uma fisgada dolorida no peito. Havia algo naquele garoto que lhe deixava extremamente incomodado. Ele a olhava como se nunca tivesse visto algo tão especial. E sem dúvida ela era; e ainda sim... ainda sim, seu coração lhe dizia que havia algo errado. Que ele a machucaria de alguma forma, e Touya não gostava nada daquela sensação.
O sacerdote olhou a interação dos dois, ligeiramente incomodado com o clima de rivalidade. - A rainha quer conhecer o novo Guardião[24]. – comentou.
- Ela não deve gastar as energias com esse moleque. – Retrucou o príncipe em irritação.
O sacerdote lançou um olhar de repreensão e fez menção para que Shoran o acompanhasse antes que o outro pudesse replicar. O príncipe ranzinza os acompanhou em um silêncio de repleto rivalidade e irritação.
A rainha se encontrava deitada em um catre grande, forrado com peles brancas, parecidas com a que vira com a princesa. O dossel que cobria o leito era igualmente branco e transparente. Havia muitas flores muito vermelhas espalhadas ao redor que ele não soube identificar. Notou que os muito longos e cacheados cabelos dela eram tão negros quanto os do príncipe.
Shoran não pode deixar de conter a expressão de surpresa quando afastaram o dossel para que ele se aproximasse, ela era muito jovem e linda. Mesmo sabendo que as fadas podiam manter a juventude, ele havia imaginado que ela estivesse perecendo devido a alguma doença. Mas aquela mulher tinha um espírito cheio de vida, ainda que seu corpo estivesse se esvaindo, ele podia sentir seu poder e ela estava lutando. O cheiro inconfundível de sangue o fez correr os olhos pelo vestido branco e vermelho que ela usava, até encontrar uma grande mancha vermelha no abdòmen. O ferimento devia ser profundo, e era ele que fazia com que a tez dela estivesse morbidamente pálida, enfeitando os olhos com marcas escuras.
Os olhos se abriram pesadamente, e ele se deparou com olhos incrivelmente verdes olhando-o, enquanto dedos finos e gelados tocaram-lhe a mão, ainda que o aposento estivesse bem aquecido pela lareira ela estava fria, indício de que sua vida estava realmente no fim. Ele se inclinou um pouco percebendo que ela queria lhe falar, deixando que a outra mão delicada pousasse em seu rosto, embora mesmo aquele mínimo gesto parecesse ser demais para ela.
- Tão jovem... – sua voz era um sussurro muito fraco.
- Minha senhora eu lhe garanto que...
- É claro que eu tenho certeza de suas habilidades, posso ver a determinação nos seus olhos. – ela o interrompeu; um sorriso divertido em seus lábios e refletido nos seus olhos, dando ao guerreiro um vislumbre sutil de como ela devia ter sido espirituosa antes de estar acamada. – Você irá precisar do máximo de si mesmo e ainda mais do que isso... – sua expressão voltou a ser séria e cortada por dor. – Cuide dela... ela muito tem poder, mas é muito pura e ingênua. Minha filha precisará de um porto seguro para não se despedaçar. Por favor... – Uma tosse forte, que trouxe sangue aos lábios da rainha a impediu de continuar.
- Eu irei. – Shoran respondeu em um sussurro, enquanto era afastado dali, sem saber se a soberana havia ouvido. Observando as outras fadas que a socorriam no que parecia ser uma rotina conhecida, ele pensou que na verdade não importava se ela havia escutado, ele havia sido sincero e prometera com sua honra, isso bastaria. Independente de seus anseios anteriores, esse era seu dever, seu destino, sua honra, e ele daria seu melhor para o que quer que fosse necessário.
Shoran só percebeu que foi removido da câmara real ao sentir o ar frio de fora e a mão do sacerdote em seu ombro.
- Não falta muito agora...
Shoran voltou-se para o sacerdote com olhar inquisitivo.
– O tempo da rainha está no fim, ela deverá entregar o poder à princesa antes de terminar a transição. Então precisaremos acordar a princesa, não será fácil, não é a hora certa e ela irá resistir. Ademais não temos todos os recursos necessários. – o sacerdote encarou-o com seus olhos tentando soar compreensivo - Você já sentiu a força da magia dela. Precisaremos de sua ajuda.
Shoran assentiu, mesmo incerto de qual seria seu papel, pois ele não tinha experiência nesse tipo de ritual.
(...)
Sakura caminhava por uma estrada de tijolos amarelos longa e estreita, ladeada por um trigal que brilhava ao sol e fazia música ao balanço tranquilo do vento. Enquanto andava, fechou os olhos escutando os sons e deixando suas mãos tocarem suavemente os feixes altos do trigo. Não lembrava como fora parar ali, mas estava tomada por um sentimento de tranquilidade e por isso não se importava.
Repentinamente um súbito sentimento de urgência tomou conta dela. Estranhou, sabendo que não deveria sentir-se assim durante a suspensão. Titubeou por um instante se perguntando se seria algum tipo de teste. A pressão em seu peito aumentou, deixando-a apreensiva. Abriu os olhos parando de caminhar, para ver no horizonte um nevoeiro denso e escuro.
Com uma dor estranha tomando conta de seu coração estava entre tentar controlar as sensações ou ceder a elas. Decidiu-se por ceder e correu pela estrada, o mais rápido que pode e o quanto seus pés descalços permitiam. Uma urgência absurda pressionando seu estômago.
Pareceu-lhe que era muito longe, mas em um piscar de olhos ela já estava ao bem a frente do nevoeiro. Parou olhando a nuvem densa e cinzenta com certa desconfiança. Não precisou se moveu, nem usar seus poderes, os campos de trigo desapareceram ao seu redor e ela se viu envolta pela névoa escura. A ansiedade diminuiu quando percebeu que não havia nenhum perigo ali. Quando o nevoeiro cedeu espaço permitindo que ela enxergasse mais nitidamente viu um vulto de cabelos negros e cacheados esvoaçantes. Uma aura calmante e acolhedora lhe envolveu; uma aura que ela conhecia bem.
- Mamãe? É você mesmo?
O nevoeiro cedeu um pouco mais revelando a mulher que não parecia tão mais velha que ela mesma, os mesmo olhos verdes vivos e brilhantes não negando o laço de sangue que as unia. O cabelo negro e encaracolado esvoaçava calmamente ao redor, juntamente com as vestes diáfanas e leves que a rainha das fadas vestia, em seus lábios de rubi um sorriso muito meigo e saudoso.
- Sou eu minha criança... – abriu os braços de maneira carinhosa, enquanto a garota jogava-se neles. O nevoeiro formou um redemoinho ao redor delas como uma parede protetora, mantendo-as em um círculo que era um belo jardim úmido, com um riacho e plantas aquáticas, além de pedras cinzentas escuras e polidas.
A jovem olhou ao redor maravilhada. – É lindo mamãe... – estranhou apenas as paredes de nevoeiro, porém não comentou nada.
- Meu bem... – disse a mulher segurando-lhe carinhosamente as duas mãos – não temos muito tempo... – sempre sorridente puxou a filha para sentar-se ao seu lado em uma das pedras maiores.
- Não sabia que visitas eram permitidas durante a suspensão, mamãe...
- Não são. – seu sorriso tornou-se um pouco triste – Eu vim me despedir e lhe entregar seu legado. – segurou o queixo da jovem percebendo a mudança em suas feições. – Não, minha princesa você precisa ser forte. Veja... – Ela levantou a mão da jovem fazendo com que tocasse em seu ventre, após o toque, as vestes de cores pastéis e claras começaram a ficar manchadas de vermelho, com sangue espesso e vermelho. – ...eu estou terminando a "transição"[25]...
Todo o sangue sumiu do rosto de Sakura, ela não podia acreditar: - Não mamãe... como pode ser? Você é tão boa... como? por que? eu não entendo...
- Sinto muito meu anjo. Você precisará voltar antes do previsto. – Apertou-lhe os dedos finos. – Seja forte minha flor, sei que será difícil... mas você precisará de toda sua força... e principalmente de toda sua pureza.
- Mas mãe... – ela não pode terminar a rainha colocou um dedo em seus lábios silenciando-a e então acariciou sua face.
Segurou seu rosto com as duas mãos – Meu bem, você precisará voltar e tomar conta de tudo. Eu não tenho mais tempo... quando eu me desligar de nosso mundo eu me esquecerei de você. Após a transição no mundo supremo não podemos manter ligações. – Seu olhar agora era de dor e saudade – Eu a amo mais que tudo, e sempre estarei ao seu lado, mesmo que não me lembre. Saki... – ela piscou, a mancha de sangue aumentando sobre seu ventre – confie nele, confie no Guardião, ele a protegerá com a vida... e você precisa salvar não só nosso mundo. Não deixe que nosso tesouro seja levado, proteja-o... você possui a chave da pureza e toda a luz... – Ela parou com falta de ar... uma das mãos deixando o rosto da garota e pressionando seu próprio ventre. Havia lágrimas em seus olhos esmeraldinos – a luz estará dentro do seu coração...
A rainha engasgou, dobrando-se sobre seu ventre, quase incapaz de prosseguir.
- Mamãe... por favor, ainda não posso… não estou pronta.
- Pode, eu sei que pode... – Ela levantou o rosto, esforçando-se mesmo com muitas dores e beijou a face da filha ajoelhada a seu lado docemente. – Você tem força para vencer todos os obstáculos... tudo ficará bem se seguir seu coração...
A rainha colocou a mão sobre o coração da filha, um sorriso melancólico desenhando seus lábios perfeitos, seu poder aumentou envolvendo-a em uma aura forte e vermelha, ele se concentrou espiralando ao redor do braço dela na direção de Sakura. O choque foi forte e a jovem sentiu como se seu peito estivesse sendo esmagado. A energia mudou de cor tornando-se rosa e foi desvanecendo lentamente ao adentrar do peito da princesa.
A rainha recostou a cabeça na pedra, tendo escorregado para dentro do riacho. A água cristalina lavando o sangue de suas roupas. Uma das mãos apertava o ventre enquanto a outra segurava firmemente a da filha.
- Mãe... – Sakura soluçou, ao recobrar o fôlego e encostou a testa no ombro da rainha desacordada chorando compulsivamente. A ilusão do jardim se desfez em folhas sendo levadas pelo nevoeiro. Sakura estava então de volta a sua estrada rodeada pelos campos de trigo, sob o céu azul celeste.
- Ei, você, o que houve para chorar tanto assim? – Disse Nadeshiko endireitando-se e desvencilhando-se dos braços da jovem chorosa. Com as mãos ela limpou as lágrimas da jovem em uma carícia. – Uma garota tão bonita assim não pode estar tão triste. - Ela sorria lindamente e parecia mais radiante que nunca.
Sakura comprimiu os lábios de tristeza sabendo que ela tinha completado a transição. Como soberana de um dos nove mundos ela iria agora para o Mundo Superior onde viveria pela eternidade, e não se lembraria de mais nada de sua vida anterior. Era tão triste não ver o reconhecimento nos olhos de sua própria mãe. Por outro lado, ela já não sangrava mais e nem havia dor em sua face, apenas uma serenidade tranquila e um sorriso nos lábios vermelhos.
- Veja esse lugar, que bonito... foi você quem o fez? – a jovem assentiu mais lágrimas descendo por seu rosto.
- Mas eu não devia estar aqui com você... estranho não? – ela perguntou olhando ao redor com o dedo no queixo, levemente confusa. A jovem não pode deixar de achar adorável. E sorriu levemente. – Oh, mas que lindo sorriso você tem... deveria sorrir sempre... – comentou a mulher também sorrindo, sem perceber que o seu era idêntico ao daquela que um dia fora sua filha.
Sakura abriu a boca para dizer algo, mas um relâmpago cruzou o céu e aquele forte azul celeste se escureceu repentinamente. O estrondo que seguiu foi alto e próximo assustando a jovem e fazendo com que as duas se levantassem do chão.
- Ah, entendi... – disse a mulher de cabelos negros... – É você que deve ir...
- O que? – outro estrondo, o céu rachou em uma fenda completamente negra. O chão tremeu e Sakura estava horrorizada sem saber o que fazer. Havia algo de muito errado.
- Uma pena... – a mulher rodopiou segurando-lhe as mãos – eu queria conversar mais, você parece uma jovem muito simpática e boa.
- Não... eu não...
Nadeshiko parou e a olhou, preocupação em seus olhos.
- Não lute... será pior. Acho que você realmente tem que ir...
A brecha no céu aumentou ainda mais e uma ventania varreu os campos arrancando todo o trigo dourado. Ele empurrou Sakura com força, forçando–a colocar os braços na frente dos olhos para cobri-los mal conseguindo permanecer em pé, mas pareceu não tocar a mulher de cabelos negros apenas esvoaçando de leve suas vestes longas e imaculadas.
- Por favor... me ajude... ainda não. – ela estendeu a mão. Mas a mulher não estendeu a sua em retorno.
'Sinto muito' foram as palavras sem som que se formaram nos lábios rubros.
- Não mamãe... – foi a última coisa que disse antes de ser arrancada do chão pelo vento e carregada em uma torrente de ar em direção ao céu fraturado.
Desesperada ela lutou usando sua magia para controlar o vento, ela se concentrou ao máximo achando que conseguiria, mas outro estrondo ainda mais forte junto com o som de um sino rachou o chão. E a ventania se tornou uma tempestade. Ela sentiu o calor da magia que sua mãe lhe concedera, tentou utilizá-la invocando asas para suas costas, mas sentiu a dor lancinante delas serem quebradas na luta contra a tormenta.
Ela soube que não poderia lutar contra tamanha força. Desfez a magia para diminuir a própria dor, e ainda usando a magia de sua mãe invocou o escudo e a espada, permitiu então que o vento a carregasse na direção do que quer que fosse aquela fissura no céu.
Foi envolvida pela escuridão e por um instante não soube o que fazer... Escutou gritos e sussurros, mas nada via. De repente sentiu uma presença mágica estranha tão próxima a si que, assustada, ela simplesmente estocou com espada.
- Cuidado... – veio o aviso tardio do seu lado, abafado por um urro de dor bem a sua frente. Então finalmente a luz alcançou e ofuscou seus olhos. Piscou forçando-os a permanecerem abertos e quando conseguiu encontrar o foco novamente, deparou-se com olhos âmbares fitando-a profundamente. O rosto masculino estava tão próximo que ela podia sentir a respiração morna sobre os lábios. Não sabia quem era o rapaz estava a sua frente, na verdade, em cima dela. Havia dor e surpresa em suas expressões. Ele estava apoiado somente com um dos braços a esquerda dela, enquanto que podia sentir a mão dele segurando firmemente o seu braço direito; só então ela notou que a espada em sua mão estava atravessando-lhe o ombro. Ficou horrorizada por tê-lo ferido, sentindo que ele não oferecia perigo, desfez a magia.
Quando a espada desapareceu, o sangue dele escorreu quente e abundante, encharcando-lhe a roupa e pingando sobre a pele clara e nua dela.
Não compreendia o que havia acontecido e o teto pareceu rodar sobre sua cabeça.
– Princesa, está tudo bem? - O rapaz de olhos âmbares perguntou em um sussurro, e quando ela assentiu mesmo sem ter certeza de que estava tudo bem, ele fechou os olhos desabando sobre ela.
Diana Lua
(Diana C. Figueiredo)
Escrito em: 07/06/2012 e 21/02/2014 - Publicado: 24/02/2014
Revisores: Lídia Paula (fev/2014)
Última alteração: 19/08/2018
Notas:
[18] Escolhi usar Shoran, ao invés de Shaoran ou Syaoran, simplesmente porque é como foi traduzido oficialmente o mangá brasileiro.
[19] Esse lobo é aquele kudan do Shoran de Tsubasa que aparece no primeiro mundo que eles viajam. Eu acho o desenho demais, tanto que até pintei em uma blusa minha =^_^=
[20] Continuando na linha de inspiração, igualzinho a abóbada dourada do filme do Thor, por dentro e por fora. Em cada um dos nove mundos há apenas um portal. E todos podem se interligar com qualquer um dos outros.
[21] Isso veio da minha cabeça e de nenhum outro lugar. Achei que os caras que guardam os portais podiam ser de algum lugar especifico ao invés dos habitantes locais, uma vez que eles parecem ter habilidades específicas para visualizar e utilizar os portais.
[22] Já que tem inspiração de tanto lugar porque não do Avatar também, não do filme, mas do anime/mangá japonês, que tem os espíritos que protegem cada uma das nações. A Terra das Fadas é protegida por dois espíritos. Um deles é o da Lua. E os sacerdotes seguem linhagens diferentes para cada espirito, porque se especializam em determinado tipo de magia.
[23] "Suspensão" é como é chamado o período de treinamento da alma do ser supremo de cada mundo. O corpo fica em suspensão no planeta original, envolvido por uma bolha de energia que liga a alma enviada ao Mundo Superior, para treinamento espiritual. Esse lugar é como se fosse o Paraíso, e a idéia é que lá pode-se criar o próprio mundo como preferir.
[24] Toda essa cena da Nadeshiko em seu leito de morte encontrando o Shoran, não existia no texto publicado em 2014, foi acrescentado em Abril de 2016. Bem como, o pedacinho que a Nadeshiko passa o poder para a Sakura quando elas se encontram.
[25] "Transição" é o período pré-morte quando um dos seres superiores – e apenas eles – estão morrendo, a alma se desprende do corpo e transita para o Paraíso onde permanece. No momento do desligamento, da morte efetiva, todas as memórias da vida tida são perdidas.
# A cena da Sakura nesse capitulo, devia ser uma cena, foi escrita como capítulo e depois voltou a ser cena. Simplesmente brotou fora do roteiro. Talvez tenha ficado confuso, pois foi narrado somente pela Sakura uma vez que ninguém mais tem contato com esse cenário. As referências foram do filme "Um olhar do paraíso" onde a garotinha morta cria seu próprio mundo, mas que de certa forma está tem uma ligação com o mundo dos vivos. Como o mundo superior da história é o Vanaheim, o nível mais elevado do universo nórdico, eu pensei que ele seria exatamente o paraíso e que ela poderia criar o próprio mundo durante a suspensão. Eu pretendia usar a ideia de tijolos amarelos do "Mágico de Oz", porque é um conceito importante para encontrar um objetivo, mas ai apareceu o campo de trigo (uma cena linda no filme citado acima onde a menina anda no meio do campo que se transforma em água) e eu acabei misturando os dois. Eu também queria usar a ideia do Eule, no fic "Promessas", capitulo 24, onde no outro mundo faz parte do processo esquecer quem ficou (isso foi uma sacada sensacional!). Porém a Sakura tinha que sofrer, e o encontro tinha que ser muito impactante para ela, especialmente pela forma eu queria 'arrancá-la' de lá. Por isso decidi que só na hora da morte efetiva é que a memória é perdida. Então a Nadeshiko, sendo um ser poderoso daria um jeito de conversar com a filha antes de ir.
# A Terra das Fadas é o Alfheim, o lar dos elfos. Eu usei fadas aqui, porque eu queria ressaltar o impacto da designação do Shoran. Queria que em primeira vista o pessoal risse pensando literalmente no mundo das fadinhas (tipo os desenhos da Sininho), mas na verdade todo o cenário desse mundo é bem parecido com a floresta de Lothlóriem do Senhor dos Anéis e a galera, são elfos mesmo de tamanho normal, nada de miniaturas de asinhas nas costas e essas coisas. Eu sei que fadas e elfos são totalmente diferentes, mas o impacto inicial ficou melhor assim por isso eu mantive. Para minimizar as dificuldades do pessoal que não gostar, eu peço que imaginem que nesse meu universo (onde nada é literal) os elfos são chamados de fadas.
