Where do we go from hear

Como era de se esperar, os dias seguintes ao anuncio de que o Armistício havia sido assinado e o Eixo havia se rendido oficialmente foram tomados do mais completo caos.

Todos queriam voltar para suas casas o mais rápido possível. Todos tinham alguém para quem voltar e queriam fazê-lo o mais rápido possível. Mesmo com suas inseguranças, o capitão Loki não era diferente dos demais.

Como muitos dos homens no hospital de campanha não tinham condições de serem removidos e muitos feridos ainda chegavam diariamente, o que mantinha a enfermeira Darcy ocupada maior parte do dia.

Ela não o negligenciou de forma alguma. Continuavam a rotina de exercícios diários para que, quando voltasse para casa, o capitão estivesse andando perfeitamente. No entanto, ela se tornou mais silenciosa naqueles dias e ele não tinha coragem de perguntar o que estava acontecendo. Muito desse receio era porque ele tinha medo de estar certo.

Darcy Lewis era uma rosa de lugar nenhum. Como todas as enfermeiras, ela sempre estaria na memória dos soldados de quem tomou conta e sobreviveram. Muitos sonharam com ela, muitos se apaixonaram, mas no fim da guerra todos voltariam para suas casas e ela voltaria para o Novo México, ou iria para Paris como desejava. No fim da guerra, nenhum soldado fica com a enfermeira.

A consciência de que logo se despediriam e nunca mais voltariam a se encontrar o acertou de forma um tanto drástica. Ele se tornou um paciente difícil naqueles dias e ela precisou de uma dose extra de paciência e bons modos para não acertar "Sua Alteza Real" com um murro.

Aos poucos ele começou a nutrir a esperança de que sua remoção do hospital demorasse um pouco mais, já que a prioridade eram os soldados que não estavam feridos, ou cujos ferimentos não demandavam um cuidado maior.

Quando voltasse para casa, ele tentaria esquecer a maior parte do que havia vivido naquela guerra, mas suas conversas com a enfermeira peculiar estariam entre suas memórias mais preciosas. Todos precisavam de um pouco de bom humor e alegria, mesmo no meio da catástrofe. Se não fosse por ela, talvez ele nem mesmo tivesse forças para se levantar da cama e seguir em frente com sua vida.

Tentou imaginá-la servindo como enfermeira em algum hospital francês. Haveria milhares de veteranos de guerra para cuidar, milhares de deformados e mutilados se amontoando num corredor silencioso e assustador para receber cuidados. Muitos se apaixonariam por ela, muitos veriam nela o único sinal de bondade restante no mundo. Em seus dias de folga, a enfermeira Darcy andaria pelas ruas de uma Paris em escombros, sem champanhe, sem belas paisagens, sem a elegância de seus tempos áureos, mas ela faria isso com a ousadia de Elizabeth Bennet.

Naquela manhã ele foi chamado ao escritório improvisado do Capitão Steve Rogers. No fundo ele sabia que não devia esperar por boas notícias, mas Loki não tinha mais certeza do que poderia considerar como "boas notícias".

Ele entrou no escritório apertado e cheio de papeis. Steve Rogers estava praticamente enterrado no meio da burocracia, mas alguma coisa dizia a Loki que se pudesse o "Capitão America" ateria fogo em tudo aquilo de muito bom grado.

Rogers era uma figura intimidante e Loki não conseguia evitar a comparação óbvia com seu irmão Thor. Ambos eram loiros, de límpidos olhos azuis e um porte invejável. Em seus rostos pairava aquela coragem bruta, ingênua e passional. Rogers tinha tudo para ser considerado um bom homem, mas como a enfermeira Darcy insistia em dizer, ele fazia questão de ser irritante.

- Por favor, sente-se. – o capitão Rogers disse.

- Há algum problema, senhor? – Loki perguntou por educação.

- Muitos, na verdade. – ele disse sério – A começar por essa pilha de papeis que eu tenho que analisar e decidir quem vai ou não pra casa primeiro.

- Dias turbulentos. – Loki disse em simpatia.

- Se você não tivesse se ferido em batalha, estaria fazendo a mesma coisa. – Steve Rogers disse – Mas não está, então eu tenho que decidir o que fazer com você. Ao que parece você tem amigos bem influentes, não é mesmo? – Loki não precisou de mais pistas para entender o que estava acontecendo. O Capitão Rogers apenas apontou para a carta que estava sobre a pilha de correspondências. – Acabei de receber uma ordem dos meus superiores para colocá-lo no primeiro comboio disponível e mandá-lo para a Inglaterra. E eu não me surpreenderia se isso tivesse partido do Ministro da Guerra do seu país, Odinson.

- Entendo. – Loki disse.

- Entende? Tenho milhares de homens loucos para ter essa chance, bons homens, heróis de guerra, cidadãos comuns, mas vou ter que dar essa chance a você, pelo fato de ser o filho de alguém. – Rogers resmungou.

- Não quero a vaga no comboio. Dê a um dos outros milhares de homens. – ele respondeu.

- Eu faria isso, Capitão. Faria de bom grado, mas recebi uma ordem superior, o que não me dá escolha. – Rogers se levantou da mesa – É isso o que eu admiro na América. Não somos privilegiados por nosso nascimento, somos definidos por nossas ações e a justiça é igual para todos. – agora ele entendia porque a enfermeira Darcy tinha tanto pavor do homem. Ele e seu discurso idealista eram insuportáveis. – Você parte em uma semana. Pegará um trem até Calais e de lá uma balsa para a Inglaterra. E por algum motivo, você vai no vagão da primeira classe.

- Isso é tudo? – Loki perguntou por fim.

- Sim, é tudo. – Rogers o dispensou.

A notícia não era de todo inesperada, mas ele tinha a esperança de que demorasse mais para ser mandado de volta pra casa. Isso reduzia drasticamente seu tempo ali e tornava iminente seu reencontro com seus pais e irmão.

Voltar para a mesma casa onde ele, Thor e Sif brincaram quando crianças. Sua mãe o receberia com olhos cheios de lágrimas, seu pai com palavras duras e uma série de determinações. Thor o abraçaria e tentaria embriagá-lo o quanto antes. Sif estaria morta e enterrada no frio cemitério do vilarejo, esperando pelas flores dele, como boa parte dos homens de sua idade que deixaram a região para vestir o uniforme do exército.

Falariam de responsabilidade, de dever, de sua escolha estúpida ao abrir mão de um futuro brilhante para envergar uma farda. Logo colocariam todas as moças elegíveis de baixo dos olhos dele para que escolhesse uma noiva, como seu irmão havia feito.

Ele não estava certo se queria um futuro brilhante, quando o futuro de tantos outros havia sido roubado pela guerra. E o que ele faria com todas aquelas moças determinadas a entrarem para a família dele, quando a dor da perda de Sif era tão recente e suas memórias de uma jovem enfermeira excêntrica eram tão nítidas.

Darcy era tudo o que não se encaixava no mundo dele. Independente, americana, ousada e nada convencional. Ela era estranha até para os padrões americanos.

Não era ingênuo de se apaixonar por uma enfermeira como tantos outros fizeram durante a guerra. Tinham futuros e vidas diferentes, eram de mundos totalmente distintos e incomunicáveis, mas...Mesmo assim ela o fascinava de algum modo.

Ela era bonita, mas isso era óbvio de mais para justificar tamanho fascínio. Talvez fosse justamente o fato de que ela não se encaixava em nenhum dos padrões que regia o mundo dele. Sif tocava piano, falava baixo, caçava eventualmente, fazia caridade, nunca pisou numa cozinha e não fazia idéia do que era ter que lavar uma peça de roupa. Era uma delicada rosa inglesa, enquanto Darcy trabalhava cuidando de feridos, se mantinha por meio de um salário baixo, limpava, cozinhava, lavava, fumava cigarros franceses e nunca tinha participado de um jantar em que tivesse de usar traje de gala. Ela era uma rosa de lugar nenhum.

Sentiria falta dela. Da única amiga que fazia questão de debochar do fato de que ele era o filho de um lorde e do sotaque dele. Sua única amiga no meio da guerra.

- Você parece alguém com problemas, Alteza. – a voz dela soou ao seu ouvido de forma absurdamente familiar e bem vinda.

- Não exatamente. – ele respondeu.

- Não se preocupe, Steve Rogers tem o dom de me deixar de mau humor também. – ela disse simpática.

- O Capitão me chamou pra que eu tomasse conhecimento de que serei enviado pra casa na semana que vem. – ele disse desanimado – E aparentemente ele não gosta do fato de eu ser filho de um lorde.

- Oh! – ela respondeu desanimada – Tão cedo?

- Minha família se intrometeu no assunto. – ele respondeu desanimado – Me querem de volta o mais rápido possível.

- E como você se sente com isso? – ela perguntou estendendo a ele a garrafinha dentro da qual ela contrabandeava uísque. Loki tomou um gole.

- Ainda não sei ao certo. – ele respondeu – As coisas vão ser bem diferentes. Meu irmão se casando, meu pai furioso com as minhas decisões. Sem Sif e sem você pra conversar. Eu vou ficar totalmente perdido naquela casa.

- Não pode ser tão ruim. – ela disse tentando animá-lo – Todas as garotas da região vão cair aos seus pés, logo vai seguir em frente com a sua vida. As coisas estarão diferentes, não piores. Você tomou as rédeas da sua vida, viu e fez coisas que muitos só vão ouvir falar a respeito. É um homem corajoso, e tudo o que vai fazer é encarar as mudanças e se adaptar. Você sobreviveu ao pior, tudo agora vai parecer mais fácil. – ela tinha o dom de acalmá-lo.

- Acho que tem razão. – ele disse calmo – E você, quais são seus planos?

- Vão tentar me mandar de volta pra América e os governos europeus não estarão nada ansiosos para aceitarem imigrantes famintos. Não sei o que fazer ainda. Talvez eu acabe voltando pros Estados Unidos e ficando em Nova York. – ela disse desanimada – Acho que nosso passeio por Londres vai ficar para uma outra vida. – fizeram silêncio por um momento e a idéia chegou até ele como uma inspiração divina.

- E se eu precisar de uma enfermeira durante a viagem? – ele sugeriu – Eu ainda estou debilitado.

- O médico precisaria declarar isso. – ela disse arqueando uma sobrancelha – Mesmo que eu o acompanhasse, eventualmente você ficará totalmente curado.

- Mas estarei na Inglaterra, onde conheço pessoas que podem ajudá-la a ficar no país e trabalhar como enfermeira. – ele disse sério – Não sei os motivos pelos quais não quer voltar pra casa, mas a senhorita me ajudou muito e é apenas o certo que eu retribua de alguma forma.

- Sua Alteza sabe como convencer alguém. – ela comentou satisfeita.

- Já ouvi isso mais de uma vez. – ele retrucou – Sou conhecido pelas minhas habilidades de convencimento.

- Daria um ótimo político. – ela disse ajeitando o avental.

- Meu pai bem que gostaria. – ele comentou – Acho que é o que ele planeja pra mim.

- Se realmente quisesse isso, seria estupendo. Tenho certeza. – ela estendeu a mão para ele – Temos um acordo então. – Loki tomou a mão dela, mas ao invés de se contentar com um aperto de mãos, ele beijou as costas da mão dela.

- Eu vou ver o médico. – ele disse sorrindo confiante – Sinto-me terrivelmente indisposto esta manhã e algo me diz que corro um sério risco de vida, caso atravesse o canal da mancha sem a supervisão de uma enfermeira competente.

Ela o observou voltar para o hospital, apoiando-se sobre a bengala com a dignidade de um príncipe.

Darcy não era dada a crer em contos de fada, mas algo no Capitão a fazia reconsiderar suas crenças. Ele era um homem bom, mesmo que algo em seu rosto denunciasse uma inteligência quase perigosa. Seus argumentos podiam ser fatais, de modo que Darcy tinha certeza que ele poderia ofender qualquer pessoa e fazer o ofendido se sentir grato pela crítica construtiva.

Ele era o tipo de homem capaz de fazer promessas a ela e Darcy acreditaria em cada uma delas, por mais absurdas que elas fossem. O Capitão Loki disse que caminhariam por Londres e ele a levaria para conhecer o que havia de melhor na cidade, e ela já se pega imaginando como seria ver o Parlamento ao lado dele, ou visitar o Palácio de Buckingham.

Jamais entenderia plenamente o dom que ele tinha com as palavras, ou quais os argumentos que ele usou para conseguir aquilo, mas no fim daquela semana a mala dela estava arrumada. Não havia muita coisa para levar, de qualquer modo. Uns poucos vestidos que ela costumava usar para sair em seus dias de folga, um diário, cigarros, fotos de amigos e familiares, o colar que havia pertencido a sua mãe e seu uniforme de enfermeira.

O trem estava apinhado de soldados. Alguns iriam pra casa sãos e salvos, outros com alguns pedaços a menos. Muitos tinham grandes expectativas de reencontrarem familiares, amigos, amores, outros estavam sozinhos no mundo, como ela.

Iria para um país estranho, tentar uma vida totalmente nova e buscar por uma perspectiva de vida. Antes do Capitão aparecer, ela se perguntava para onde iria e o que faria da vida. Sua única certeza era a de que não havia nada para ela no Novo México, mas isso não a ajudaria a tomar um rumo. Loki Odinson a salvou de sua falta de rumo e agora, mesmo que aquele fosse um salto no escuro, ao menos alguém havia se dado ao trabalho de apontar a ela uma direção.

Ela recebeu a ajuda de um dos funcionários da estação para embarcar. Para sua surpresa, foi conduzida ao vagão de primeira classe, destinado aos oficiais de patente alta e aos filhos da nobreza. Loki esperava por ela na cabine, enquanto lia o jornal daquele dia. Tirando a bengala que repousava ao lado dele, o capitão era a imagem da saúde e Darcy se sentia uma grande trapaceira por estar no meio de toda trama.

Ele apenas sorriu para ela, com um pouco de Romeu, um toque de Hamlet, a genialidade de MacBeth, mas seus olhos...Seus olhos eram verdes e havia neles muito de Iago.

Nota da autora: Meu momento cultural inútil. A letra da música que coloque no último capítulo é da época da primeira guerra e era cantada pelos soldados. Foi essa música que deu origem ao título da fic. Muitos dos títulos de capítulos serão tirados de músicas dessa época, só pra dar o tom da história. E olha que bonito, estamos todos literários. Shakespeare e Jane Austen, minhas referencias literárias favoritas XD. Espero que gostem e comentém.

Bjux

Bee