Naruto e seus personagens não me pertencem.
~*S2*~
Betado pela MissPumpkin
~*S2*~
O desejo de Fugaku
Sasuke passara horas andando pela mansão. Recordando em cada canto algo que o fazia sorrir ou entristecer. As conversas descontraídas, as brigas e birras com o irmão pareciam alojadas em seu quarto e no dele. As broncas carinhosas de sua mãe refletiam em cada objeto frágil, no corrimão de madeira e na janela com grades ao fim do corredor dos dormitórios. Sorriu ao tocar uma barra de ferro. Lembrando a época que não existia nada para impedir que pulasse através dela, e talvez até quebrar o braço na queda.
Em alguns momentos amargurou o que podia ter sido e não fora. Os planos de Itachi para o futuro da fábrica, gravados nas paredes do escritório principal. Os seus planos parados em frente à porta de entrada...
Em frente ao quarto de seu pai: Sorrisos; carinhos; beijos; gritos; súplicas; acusações. O fantasma de uma união que parecera indissolúvel.
Mergulhado em lembranças, moveu a cabeça devagar em direção as escadas ao ouvir o som de passos apressados. Foi quando o viu. Um menino de cabelo curto e negro que corria em sua direção. O garoto parou a poucos passos de distância, os olhos escuros e curiosos se detendo em seu rosto.
Por um segundo, até mais que isso, ficou estático, apenas encarando o menino. Ele era tão parecido consigo quando criança que podia se passar por seu filho.
Logo o motivo da semelhança apareceu atrás do menino. Ou nem tanto, visto que Sakura não era a mãe do menino e sim a irmã. Não tinha dúvida de que se tratava de seu meio-irmão.
O ódio se projetou em seu peito e, ignorando os Haruno, bateu com força na porta do quarto de seu pai. Ao inferno que ele necessitava de descanso. Se dependesse dele, seu pai nunca teria descanso enquanto abrigasse a desgraça da família.
- O vovô não gosta que batam assim. – Informou o menino o encarando com censura. – Tem que bater com firmeza uma vez, dizer que que deseja; e aguardar a permissão para entrar. – Explicou com altivez.
A arrogância nas palavras do garoto não o surpreendeu tanto quanto o que dissera ao repreendê-lo.
- Vovô?
O menino assentiu aumentando sua confusão.
- Shisui... – Sakura o agarrou a mão do garoto. – O senhor Fugaku tem que descansar. Venha comigo! – Pediu aflita, puxando-o.
No entanto, Shisui não a acompanhou.
- O vovô gosta que eu lhe conte sobre a aula e mostre meu caderno.
Sasuke quase sorriu ao ver a típica teimosia dos Uchiha no pequeno. Sakura não o levaria a lugar algum contra a vontade dele.
- Hoje não. – Ela disse, a voz aguda e alta por culpa do desespero. Necessitava levar Shisui para longe. Não queria ele perto de Sasuke.
Antes que pudessem se afastar, Fugaku abriu a porta, o corpo debilitado apoiado em uma bengala.
- Que barulheira é essa?
Sasuke não se impressionou pelo olhar rápido que recebeu do pai. Como se não tivessem passado os últimos seis anos sem se verem, falando ocasionalmente por telefone, é só sobre trabalho. Mas surpreendeu-se com o sorriso que ele abriu para Shisui. Nunca, nem mesmo em sua infância, vira o pai sorrir assim. Nem mesmo para Itachi, que tinha sido o filho predileto.
- Entrem!
- Fugaku... Senhor Uchiha... Acho melhor o Shisui tomar banho antes de encontra-lo...
- Deixe de tolice! – Cortou o homem em seu costumeiro tom bruto e feições severas. – Entrem!
Os três obedeceram.
Fugaku sentou na cama. Shisui sentou ao seu lado, retirando da mochila um caderno com o desenho de um carro vermelho.
Sakura sentou em uma das cadeiras acolchoadas que rodeavam a mesa de café próxima da cama. Seu corpo imediatamente tenso, pois, ao invés de sentar na outra cadeira, que estava na outra ponta da mesa, Sasuke ficou em pé ao seu lado, uma mão segurando o encosto, a outra no bolso. Podia sentir o calor que emanava do corpo dele.
Respirou fundo. A menos que quisesse sentar na cama ou levantar para ocupar a outra cadeira - o que seria patético -, tinha que manter a tranquilidade e ignorar a presença dele até Fugaku dispensa-los.
O observou de canto de olho. Ele não parecia se importar com a proximidade. Os olhos e ouvidos de Sasuke estavam atentos à conversa de Fugaku com Shisui. E não parecia satisfeito com o que acontecia a sua frente.
Compreendia o que levara aos olhos negros o brilho flamejante de ódio. Ao lado de Shisui, Fugaku parecia outra pessoa. A sombra da doença desaparecia de suas feições, dando lugar a um homem que não ocultava seu amor e carinho pela criança ao lado.
Fugaku era autoritário, mas com Shisui sua intransigência diminuía. Até era capaz de sorrir. Era assim desde o momento que Sakura apresentara Shisui ao patriarca Uchiha, que o deixara pegar o pequeno embrulho de um ano no colo.
Eram as demonstrações de afetos de Fugaku para Shisui que diminuíram seu ressentimento. Duvidava que tivessem o mesmo efeito em Sasuke.
E não tinham. O queixo de Sasuke doía tamanha a força que exercia para manter os lábios cerrados. Apertava os punhos, as unhas da mão que segurava o encosto afundando na maciez do estofado. A raiva o corroía ao evocar o preço que a família pagara para o pai ter aquele... Bastardo. Fugaku abandonara seu moralismo por completo? Apagou da memória seu amado filho Itachi? Esquecera-se como Mikoto quebrara devido à existência daquela criança?
Desviou o olhar, e se arrependeu ao visualizar a cabeleira rósea. Ela os cortara na altura dos ombros. Sempre considerara cabelo longo atraente, porém o curto combinava com Sakura... Remexeu o corpo, retirando a mão do encosto para cruzar os braços. Incomodado, deu um passo para o lado.
Aquela era a sua casa, não precisava de nenhum Haruno ali, destruindo com suas presenças as recordações de sua família. Eles eram a escória, a sujeira que seu pai resolvera impor aos familiares. Se pudesse os expulsaria naquele exato momento. Não demoraria muito a fazê-lo, supôs ao observar o estado decadente do pai.
Sua atenção recaiu sobre Shisui. Os olhos negros se encontraram. Os frios de Sasuke colidindo com os curiosos do menino.
O garoto ergueu o corpo, aproximando-se de Fugaku e cochichando algo que fez seu pai olhar em sua direção.
- Vocês não se apresentaram?
Sasuke conteve a vontade de gargalhar. Não tinha vontade de cumprimentar o motivo da queda de sua família. Não era necessário. Mas seu pai não parecia compartilhar de sua opinião, pois tomou à dianteira.
- Shisui, esse é o meu filho, Sasuke. – O garoto sorriu para Sasuke que não correspondeu. – Sasuke, esse é o irmão da Sakura, Shisui Haruno.
- Prazer em conhecê-lo, Sasuke!
O menino estendeu a mão. O sorriso morrendo aos poucos diante da expressão fechada do Uchiha.
- Sasuke.
O aviso na voz e o olhar imperioso de Fugaku forçaram Sasuke a apertar a mão infantil. No entanto não respondeu o cumprimento. Fazia muito não revelando que o homem que Shisui chamava de vovô, na verdade era pai de ambos.
- Senhor Uchiha, Shisui precisa tomar banho e jantar. – Informou Sakura levantando. Não suportava quando alguém destratava Shisui na sua frente. Era preferível retirar o irmão daquele quarto ao invés de socar o herdeiro Uchiha.
Levemente contrariado, Fugaku concordou.
- Faça o que sua irmã disse, mais tarde estudaremos juntos.
- Sim, vovô!
Sasuke observou Shisui beijar a face de Fugaku. O que aquele garoto tinha que fazia o severo patriarca Uchiha sorrir feito bobo, enquanto o observava correr porta a fora? Quando era criança sempre era criticado quando corria dentro da mansão.
Sakura rumou em direção à porta, mas foi impedida pelo chamado de Fugaku.
- Diga a Shisui que não deve correr ao sair de um recinto.
- Sim. – Consentiu irritada por ter a missão de repreender Shisui. Ela era transformada na irmã má enquanto ele bancava o vovô legal.
- Depois volte. – Ele exigiu. - Preciso conversar com você e Sasuke.
- Senhor, tenho um... – Mordeu o lábio antes de soltar: Encontro. Estranhamente parecia errado dizer isso na frente de Sasuke. – Marquei de sair com as minhas amigas. – Disse por fim. Era uma meia verdade.
- Nessas circunstâncias, quero vê-los aqui amanhã nas primeiras horas do dia.
- De manhã levo Shisui à esc...
- Deixe que o motorista o faça. – Cortou com irritação. - Quero falar com vocês dois.
Assentiu e saiu, resistindo a vontade de olhar na direção em que Sasuke estava.
~*S2*~
Sakura se arrumara com esmero para a exposição do namorado. O corpo delgado coberto por um vestido preto que chegava pouco abaixo dos joelhos; o cabelo preso em um coque frouxo com alguns fios soltos ao lado da face perfeitamente maquiada. Só não conseguira arrumar o conflito interno.
Pegou uma taça de champanhe e caminhou distraída, desviando de algumas pessoas e observando, sem prestar atenção, os quadros dispostos nas paredes brancas da elegante galeria de Suna. As pinturas de Sai. O homem que deveria ocupar sua mente no lugar dos Uchiha.
Tinha que procurar o namorado e suas amigas, mas as palavras de Fugaku, e a conversa que tivera com Sasuke, rodopiavam em sua mente como um filme sem fim.
Sorveu um pequeno gole de sua bebida, o pensamento fixo no que poderia acontecer de manhã. Temia o que Fugaku planejava tanto quanto não queria ficar no mesmo ambiente que Sasuke novamente. Seja lá o que planejasse, só esperava que Fugaku cumprisse com a palavra e a deixasse partir com Shisui. Desejava escapar da mansão Uchiha, se livrar do passado e formar um lar com seu pequeno.
Parou em frente a um perfil de um homem. A expressão fechada e as variações de branco e preto tornavam o semblante frio. Tinha a impressão que a qualquer momento ele viraria com uma ordem ou comentário sarcástico. Um Uchiha colocando-a em seu "devido lugar".
Por isso não conseguia parar de fitá-lo? Porque lhe lembrava Sasuke?
Suspirou. Não era a imagem que a perturbava ou o tratamento que recebera horas antes. Era o contraste entre esse Sasuke e o que a conquistara.
~*S2*~
Após o susto na boate, as três juraram nunca mais pisar os pés no Dod´s, estendendo o juramento para Suna e a fábrica Uchiha & Uzumaki. Arquitetaram mentalmente modos de fugas para o caso de topar com Sasuke em Konoha.
Não se preocuparam com os Uzumaki. Naruto não as reconheceria, pois parecia embriagado quando as encontrara. Prova disso era que Hinata fora arrastada para atendê-lo no dia seguinte e ele sequer a notara.
As primas deles também não eram um problema. Através de Kushina, mãe de Naruto, Hinata conseguira a informação de que moravam em Suna.
Restava as três evitarem o filho mais novo de Fugaku. O que não parecera complicado. A propriedade Uchiha ficava próxima à fábrica, no limite da cidade em uma mansão rodeada por muros altos. Nenhum dos Uchiha fazia questão de passear entre os comuns habitantes de Konoha. Tudo o que precisavam mandavam seus empregados buscarem. Fugaku vivia do trabalho para casa. O filho mais velho, Itachi Uchiha, não era diferente, só acrescentava algumas noites de divertimento em Suna. Com certeza o mais novo trilharia o mesmo caminho.
Tudo perfeito. Probabilidade mínima de reencontrá-lo antes que fossem manchas na memoria temporária, dedicada a fatos e pessoas sem importância. Só não contavam com um detalhe: O desejo de Sasuke em rever Sakura.
Sasuke era amigo do dono da Dod`s e, de alguma forma, soubera que Shino as colocara na boate e pedira o endereço dela. O que Shino se negou com a desculpa de que não sabia. Persistente, Sasuke convencera o Aburame a colaborar com um encontro.
Não queria ir, só de imaginar que podia ser descoberta a cobria de medo. Só que Ino, choramingando em seu ouvido que o namorado corria o risco de perder o emprego, a convencera a aceitar. Sua consciência era seu ponto fraco.
No dia marcado teve que aguentar ter o rosto empapado por maquiagem, para parecer mais velha. O humor piorando a cada pincelada de sombra, blush e produtos que Ino lhe aplicava, que a deixaram com um visual gótico reforçado pelas roupas pretas. O ódio por si mesma maior que o medo. Se tivesse ficado em casa em vez de bancar a adulta jamais entraria nessa enrascada.
Foi de má vontade, sendo categórica ao combinar de encontrá-lo em uma lanchonete de Suna próxima a casa de Shino, um ponto estratégico de fuga. E também um jeito prático do Uchiha se arrepender do convite. Bairro pobre, estabelecimento decaído e uma jovem determinada a esnobar qualquer avanço.
Fácil. Pelo menos até ele aparecer lindo e sexy em uma calça jeans e camisa preta. O cabelo desgrenhado pelo vento convidando os dedos da Haruno a arrumá-los. Os olhos negros fixos nela. Novamente teve a sensação de ser capturada pelo magnetismo dele. Engoliu em seco e cruzou os braços em frente ao corpo. Ela resistiria bravamente aquele dia, mesmo que uma parte de si pulasse de vontade de se jogar nos braços da oportunidade.
- Não queria vir, mas como chantageou o Shino... – Soltou quando ele sentou a sua frente.
- Não chantageei. – Negou o Uchiha. – Usei minha influência.
- Tem diferença?
- Não. - Ele sorriu de canto. Um sorriso sedutor que a fez estremecer de leve. – Mas consegui o que queria... Ou quase.
- Isso... – Girou um dedo no ar para indicar o lugar. –... É tudo que terá.
- Nesse caso, aproveitarei cada segundo ao seu lado, Sakura.
Como é que ele fazia para que seu nome soasse como uma carícia? Suspirou, fascinada com a voz grave e segura. Não era o primeiro cara com quem saia, mas era o primeiro que fazia seu corpo arrepiar só de ouvir sua voz.
O brilho de contentamento no olhar dele a fez parar de babar e voltar à realidade. Empertigou o corpo e pegou o folheto com o menu da lanchonete.
- Você vai pagar. – Informou percorrendo com os olhos a fileira de lanches, a procura do mais caro, enquanto ressaltava: – Nem queria vir.
- Já me disse.
Ergueu o olhar encontrando com o dele. Era impressão ou ele se divertia em vez de se zangar?
Fizeram os pedidos. Sasuke só quis uma xícara de café. Sakura pediu um sanduiche duplo, batatas fritas e refrigerante. Única forma de sair caro, embora não o suficiente, pois Sasuke não demonstrou preocupação.
- Do meu bolso não sairá uma nota sequer. – Disse quando o garçom se afastou.
- Estou atraído por uma sovina. – Com o cotovelo na mesa, encaixou o rosto na mão. – Deixe-me adivinhar. Escolheu esse lugar para contenção de gastos?
- Não aprova a minha escolha?
- Desaprovo fast food. – Respondeu, explicando em seguida: - Comida gordurosa não me agrada.
- E mesmo assim aceitou me encontrar aqui?
- Presumi que não tinha opção. – Deu de ombros. - Dá próxima vez eu escolho.
- Não terá próxima vez.
- Veremos.
- É sempre tão confiante?
- Sempre. – Respondeu olhando-a profundamente. – Graças a minha confiança, mesmo não querendo, você está aqui.
Ele sorriu e o coração de Sakura bateu acelerado. Malditos hormônios que explodiam ao ganhar a atenção de um homem bonito. Tinha que controlá-los, tinha que se controlar. Ele podia ser lindo, charmoso e ter um sorriso que deixava suas pernas bambas, mas ela resistiria. No fim do dia estaria a salvo em sua casa e nunca mais cruzaria o caminho dele. Seria forte, o emprego de sua mãe e dos pais de suas amigas estava em jogo.
- Do que tem medo? – A pergunta de Sasuke a pegou de surpresa. Seus olhos arregalados o fazendo analisá-la por alguns segundos antes de comentar: - Desde que cheguei você me come com os olhos e me repele com palavras.
- O que?! Não estou comendo...
- Está. E eu estou em relação a você.
- Você é tão direto. - Murmurou envergonhada.
– Não tenho dificuldade em admitir quando desejo alguém.
- E me deseja? - Questionou em dúvida, sem acreditar que chamara a atenção dele.
- Desde que te vi dançando no Dod`s.
A resposta a deixou boquiaberta.
- Você me seguiu até o balcão?!
Ele negou.
- Estava no balcão o tempo todo, observando meu amigo e suas primas dançando, quando a vi. – Esticou a mão e tocou a face de Sakura. – Esperei esse momento por duas semanas. – Confidenciou com o olhar ardente fixo no dela.
A chegada do lanche tirou Sakura do encantamento dos olhos negros.
~*S2*~
Porém não por muito tempo, recordou Sakura com desgosto. Tinha sido uma jovem ingênua, cega pela beleza e galanteios de um homem. Sasuke tinha sido educado, inteligente, o oposto dos caras de sua idade. Transpirava poder e sensualidade, seu toque - até o mais sutil - a arrepiava da cabeça aos pés, e seu olhar a deixara cativa. Ao final do encontro - esquecendo seu propósito inicial - não só estivera encantada por ele como prometera encontrá-lo dias depois.
Com o passar dos dias o encantamento deu lugar ao amor. Tola achara que o desejo de Sasuke também se transformara em um sentimento mais profundo. Caindo em uma armadilha do destino, cujas consequências só lhe causaram – e causavam – sofrimento.
- Amor!
Sobressaltou-se ao ter a cintura envolvida pelo abraço de Sai. Ele não pareceu perceber a tensão que dominava seu corpo, pois a beijou rapidamente nos lábios e a conduziu em direção a dois homens e uma mulher.
– Venha! Quero lhe apresentar para uns amigos.
Sakura se deixou levar. Sorriu, conversou e ouviu tudo com a mente dispersa. Nada que os demais notassem. Como namorada do artista só lhe era exigido aparecer ao lado dele com um belo sorriso.
Sai precisou conversar em particular com um possível comprador e Sakura aproveitou para procurar as amigas. Encontrou as duas em frente à pintura de uma fênix. Hinata com um discreto conjunto de saia até os tornozelos e blusa de manga cumprida, ambos na cor branca, e Ino em um curto e apertado vestido tomara que caia azul.
- O que acham? – Perguntou ao se aproximar delas.
- Escuro... – Respondeu Hinata, observando os contornos da ave em preto e branco.
- Eu conseguiria fazer uma melhor... Pelo menos mais colorida. – Comentou Ino recebendo um olhar descrente das amigas. - É igual aquelas "obras" do Dei. – Continuou a loira torcendo com desdém os lábios pintados de vermelho, lembrando-se das esculturas do irmão mais velho. – Não entendo como aquilo pode ser considerado arte.
- E do Sasori? Nenhum comentário ferino? – Sakura questionou, observando a amiga pousar uma taça vazia na bandeja de um dos garçons e retirar outra cheia.
- Ah, querida! A obra do Sasori que me interessa está bem guardada na calça e espero vê-la hoje à noite.
Hinata engasgou com o champanhe. Vermelha até abaixo do pescoço.
- Pensando na obra do Uzumaki, Hina?
- Ino!
- O quê? – Ino bebericou seu champanhe e olhou curiosa para Sakura. – Ainda não contou como foi o reencontro com o Uchiha.
Sakura suspirou. Queria tanto evitar aquela conversa.
- Não tenho nada a dizer.
- Ainda sente algo por ele?
- Indiferença. – Respondeu dando de ombros.
- Tem certeza – Persistiu Ino não acreditando na apatia da amiga.
- Claro! Namoro o Sai agora.
- Que é muito parecido com o Sasuke. – Comentou Ino, recebendo um olhar contrariado de Hinata.
Vendo a confusão na face da amiga, Hinata segurou sua mão para transmitir solidariedade.
- Ele ficará por pouco tempo – Recordou.
Essa era a esperança de Sakura. Que ficasse livre de Sasuke em poucos dias. No entanto, com a saúde debilitada, Fugaku poderia pedir ao filho que ficasse por mais tempo. Talvez fosse sobre isso que conversaria com eles.
Sai voltou a se juntar a ela minutos depois.
- Amor, desculpe ter te deixado sozinha.
- Ah, obrigada por me transformar em ninguém. – Reclamou Ino conseguindo um olhar atravessado de Sai.
- Pelo seu tom de voz, presumo que bebeu demais.
Sem se preocupar com quem visse, Ino lhe mostrou a língua.
Contendo a vontade de rir do comportamento da amiga, Sakura garantiu ao namorado:
- Compreendo a importância dessa exposição para você.
- Não tanto quanto você amor. – Disse beijando a mão da namorada.
Caso não estivesse preocupada com o que aconteceria na manhã seguinte, Sakura apreciaria o gesto, porém naquele momento só conseguiu esbouçar um pequeno sorriso.
- E o Sasori? Onde ele se escondeu? – Quis saber Ino chamando a atenção de Sai. – Desde que chegamos, ele sumiu.
- Também não o vi. Nem o Deidara. – Recordou envolvendo a cintura de Sakura em um abraço apertado. – Devem estar discutindo sobre arte em algum canto. – Supôs dando de ombros.
Ino bufou, a massa de ar movendo a franja que deixara caída sobre o olho direito.
- Entediada Yamanaka?
Sakura observou a amiga respirar fundo, colocar o maior – e mais forçado – sorriso na face antes de virar-se para seu maior desafeto, Gaara Sabaku, primo de Sasori.
- Prazer em revê-lo também senhor Sabaku.
Ele sorriu minimamente.
- Posso ver em seus olhos que não tem tanto prazer assim.
- Ah, perdoe esses pequenos diamantes por transparecerem o que não deveriam.
- Diamantes...?! Assemelham-se mais a safiras.
- Mas não são. – Ino retrucou deixando de lado o entusiasmo fingido. – Viu o Sasori?
- Está discutindo o conceito de arte com o Deidara.
Sakura achou a resposta muito padronizada com o que Sai dissera. No entanto, era de conhecimento geral que as discussões dos amigos artistas eram frequentes, prolongadas e os fazia esquecer o que os rodeava. E no fim nunca entravam em um consenso.
- Onde estão?
Ele demorou a responder, parecendo em dúvida, ou, o mais provável na opinião de Sakura, testando o limite da paciência de Ino. Os dois viviam duelando com palavras e gestos.
- Devia aproveitar a exposição. – Ele respondeu desviando o olhar para a tela. - Daqui a pouco eles aparecem.
- Não quero daqui a pouco. Fale logo!
- Ino! – Sakura colocou a mão no ombro da amiga. – Gaara tem razão. Sabe como aqueles dois são quando discutem.
Ino empinou o nariz e se distanciou com passos pesados.
- Ino é muito petulante. – reclamou Sai.
- Ela só está chateada por Sasori ter a abandonado. – Defendeu Sakura, ciente que o namorado queria agradar Gaara, patrocinador dos três.
- A entendo. Meu primo anda disperso com o que é prioridade desde que concordei em comprar a galeria.
Sakura achou impressionante que justamente Gaara, que sempre trocava farpas com Ino, justificasse o comportamento dela e reprovasse o do primo. Talvez ele não a odiasse como sua amiga imaginava.
O restante da noite foi exaustivo. Apesar de só ter que sorrir, cumprimentar e interagir, não conseguia prestar atenção no que lhe diziam. Ser namorada de um artista não a tornara expert no assunto, mas as pessoas achavam que era obrigada a ouvir sobre traços, texturas, luminosidade com a mesma capacidade de compreensão de Sai. Fingir admirar o conhecimento delas não estava fácil.
Quando Sasori e Deidara apareceram e Ino acabou em uma discussão acalorada com o namorado, Sakura não hesitara em largar uma senhora admiradora de Sai para ajudá-la. Gaara também fora apartar o casal, conduzindo-os para fora da galeria. Ino estava tão irritada que aceitou a carona oferecida pelo Sabaku, e Sakura aproveitou para ir junto.
- Mas amor, ainda tenho algumas coisas a resolver.
- Pode ficar.
- Queria levá-la para a minha casa depois da exposição. – Ele disse envolvendo-a em um abraço, que só piorara o humor da Haruno por atrasar sua partida. - Faz dias que não ficamos sozinhos. – Ele tocou sua face de leve e se inclinou para sussurrar: - Sinto saudade dos nossos corpos unidos.
Em outro dia acharia o convite maravilhoso, mas tinha tantos problemas rodando sua mente que se afastou delicadamente do namorado.
- Hoje não.
Ele crispou a testa, confuso pela rejeição. Porém logo seu rosto voltou a ficar sereno.
- Entendo. É por causa do Uchiha, não é? – Sakura ficou tensa e confusa quando ele disse compadecido: - Aquele safado está abusando da sua boa vontade.
- Do que está falando?!
- Do Fugaku, que te mantém presa naquela mansão.
- Ah...! Estou com dor de cabeça... – Desviou o olhar, sentindo-se mal por mentir. - Não consigo apoiá-lo como merece. Tenho que ir.
O beijou rapidamente no rosto e saiu apressada em direção ao carro de Gaara.
~*S2*~
Depois de uma noite péssima, Sakura se arrastara para o quarto do irmão, para se despedir antes que ele fosse para a escola, seguindo logo depois para o quarto de Fugaku. Entrara no dormitório preparada para tudo, imaginando mil cenários caóticos, mas nada a prepararia para o pedido que ele lhe fez enquanto aguardavam a chegada de Sasuke.
- Quero que se case com Sasuke e juntos adotem Shisui.
- Casar... Com Sasuke? – Era estupidez repetir as palavras que ouvira, mas foi à única coisa que conseguiu pronunciar após o susto inicial.
- Não tenho mais anos pela frente, pressinto que esse é o último, e preciso garantir o futuro de Shisui.
Com a boca seca, Sakura declarou aflita:
- E para isso quer que cassemos? – Levantou para movimentar o corpo. – Tenho idade suficiente para requisitar a guarda de Shisui, não preciso de um Uchiha em minha vida. Shisui e eu não precisamos. – Concluiu com a garganta doendo por conter a vontade de gritar.
Odiava ser tratada como uma marionete, como se devesse obediência a cada pequena ordem do Uchiha.
- Shisui é um Uchiha. – Ele a recordou com frieza.
- Ele é um Haruno. – Retorquiu. Embora não quisesse discutir, o que deixara entalado na garganta por seis anos ameaçava sufocá-la. Precisava colocar um pouco de sua agonia para fora. – Você não quis que ele fosse reconhecido como um Uchiha.
- Agora é diferente. – Ele retrucou, explicando em seguida: - Quando eu morrer, tudo será de Sasuke e desejo que você e Shisui estejam ao lado dele quando isso acontecer. Não os deixarei a mercê da própria sorte.
Sakura engoliu a seco a resposta mal criada que coçou em sua língua. Não havia sorte quando um Uchiha se envolvia com uma Haruno.
- Sou um homem destruído, deveria ter pena de mim.
Sakura conteve a vontade de rir. Fugaku pedia pena ao mesmo tempo em que queria obediência cega.
- Dê o sobrenome ao Shisui se deseja tanto a redenção. – Disse ciente que a culpa e o orgulho duelavam no corpo fragilizado do Uchiha. – Tenho uma vida, um namorado. Não vou abrir mão do que conquistei só porque o senhor "deseja" que eu faça tudo o que ordenar. Não sou a minha mãe.
- Infelizmente. Ela era muito mais racional.
- Quer dizer medrosa. Ela tinha medo de você, do seu poder, e por isso está morta. – Soltou com lágrimas pinicando seus olhos, a garganta dolorida como se suas palavras tivessem passado como brasa por ela. – Shisui merece uma vida melhor do que o senhor oferece ou acabará como todos que atravessaram o seu caminho.
- Acha que a pobreza é o melhor para Shisui?
- Uma vida digna e sem arrependimentos é o melhor para ele. – Corrigiu sem sentir remorso ao ver o Uchiha empalidecer.
Abriu a boca para falar mais verdades ao homem que destruíra seus sonhos, porém naquele momento a porta abriu dando passagem para Sasuke. Assim que ele a viu estreitou os olhos com reprovação.
- Atrapalho o descanso? – Questionou antes de se posicionar do outro lado da cama.
- Não, ao contrário, chegou na hora certa. – Encarou o filho. – Dizia a Sakura que desejo que case com você.
Surpreso e indignado, Sasuke lançou um olhar feroz em direção a Sakura, que cruzou os braços em frente ao peito e sustentou o olhar.
Nunca mais abaixaria a cabeça sendo inocente.
~*S2*~
N/A – Oi pessoal! Entrego mais um capítulo de Desejos. Espero que ajude a entender alguns fatos, embora a maioria deles só ficaram claros nos próximos capítulos. A confusão é proposital, mas tentarei dosa-la pra não ficar chato ou cansativo. O mesmo serve para os flashbacks.
Já havia dito que tem muito de Páginas em Branco nessa fic, já que essa nasceu das sobras de Páginas, acho que já deu pra perceber algumas semelhanças, né? Só que o problema aqui é justamente as lembranças que ambos possuem. :/
Qualquer semelhança do Sasuke do passado com o de Road to Ninja é mera coincidência... Mas enquanto escrevia não conseguia imagina-lo de outra forma. xD
Bem, espero que curtam o capítulo.
Reviews que não respondi por MP
Rapha: Fico feliz que esteja gostando da fic. Espero que curta esse capítulo e os próximos que serão bem mais agitados, pelo menos pra Sakura. xD
Not sweet: É bem mais complicado, logo entenderá. Espero que goste desse capítulo e dos próximos. :*
Big beijos e até o próximo! :*
