Capitulo 2

Não demorou para dois pacificadores aparecerem para busca-lo, tirando-o de seus devaneios. Ele se juntou a Clove no saguão do Edifício de Justiça, a espera do carro que os levaria até a estação de trem, e percebeu que a expressão da garota era séria e dura como pedra. Ela nem se dignou a lançar um olhar a ele.

Houve apenas silêncio durante o caminho até a estação de trem, que estava lotada de câmeras e pessoas gritando seus nomes. Nem Cato nem Clove mudaram sua expressão fechada ou olharam em direção aos fotógrafos e fãs.

No trem, que parecia voar sobre os trilhos de um modo surpreendente suave, os mentores lhes foram apresentados durante o jantar, mas não houve muita conversa, a não ser pelo monólogo incessante da escolta, que insistia em listar as maravilhas que eles teriam assim que chegassem à Capital.

Cato não demonstrou, mas ficou levemente impressionado com o luxo dos vagões. Era muito mais bonito e rico do que qualquer prédio no Distrito 2, inclusive o Edifico de Justiça, a academia e o Comando Central, onde eram treinados os pacificadores que seriam mandados para os outros distritos.

A refeição estava ótima e a quantidade de comida servida fora um tanto exagerada para apenas cinco pessoas, mas ninguém pareceu se importar. Cato notou que Clove comeu muito pouco, como se só tivesse tocado na comida para não fazer desfeita.

Após o jantar, eles foram levados a um outro compartimento, com sofás confortáveis e uma enorme televisão, para assistirem ao resumo das Colheitas. Cato viu a si mesmo se oferecer quando o Distrito 2 foi mostrado, e ficou satisfeito de ver o quão grande, feroz e intimidador ele parecia. Não houvera nenhum tributo que se sobressaiu aos olhos dele, nenhum parecia ser uma ameaça genuína.

Quando chegou a vez do Distrito 11, uma garotinha de 12 anos foi sorteada. Ela parecia ser muito pequena ao subir ao palco, mas não demonstrou medo. O tributo masculino era o extremo oposto. Grande, forte e mal encarado, foi ele quem chamou a atenção de Cato como um possível obstáculo para a vitória.

No Distrito 12, outra garotinha de 12 anos foi selecionada. Mas dessa vez, ela não chegou ao palco, já que outra garota, mais velha, de cabelos escuros presos em uma trança, gritou em tom meio desesperado que ela se oferecia. Essa atitude intrigou Cato. Claro que uma menina tão jovem e pequena, de um distrito tão pobre quanto o 12, não teria nenhuma chance, mas quando a mesma começou a chorar e se agarrar na mais velha até que um garoto a puxasse para longe, parecia que tinham acabado de anunciar uma sentença de morte.

Bem, provavelmente sim, já que ele seria o vitorioso, mas não conseguia entender por que parecia tão horrível morrer na arena. Era uma honra, uma chance de brilhar e mostrar a todos em Panem do que cada um era capaz, levar glória e felicidade ao seu distrito.

Quando a garota da trança subiu ao palco e murmurou seu nome, deixando claro que acabara de tomar o lugar da irmã, a alegre escolta do Distrito 12 começou a aplaudir a primeira voluntária em anos. Mas a multidão não aplaudiu. Ao invés disso, eles permaneceram em silencio, e fizeram um gesto que, como os comentaristas explicaram, significava respeito e adeus.

Mais uma vez Cato olhou para a tela intrigado com tudo aquilo. Quando o mentor bêbado do Distrito 12 caiu do palco e os comentaristas explodiram em risadas, ele lançou um breve olhar a sua companheira tributo e viu que ela tinha a testa franzida, parecendo tão intrigada quanto ele.

O tributo masculino foi sorteado, um garoto loiro e forte que não escondeu sua surpresa ao subir ao placo. O hino de Panem fez-se ouvir encerrando o programa e a tela escureceu.

Eles ficaram em silencio até que Lavender pediu licença e se retirou. Então Brutus, que parecia extremamente incomodado com a presença da escola, se inclinou para frente.

- O que vocês acharam? – perguntou ele com sua voz grave e baixa, olhando atentamente para seus dois tributos.

Cato lançou um olhar rápido a Clove e notou que ela fez o mesmo, como eles costumavam fazer quando eram pequenos. Seus olhares se encontraram pela primeira vez em anos.

- Não impressionaram muito. – foi ela quem respondeu primeiro, desviando o olhar como se tivesse levado um choque. Sua voz era levemente rouca e o tom era baixo, de um modo que agradou Cato, principalmente por ser tão diferente das vozes estridentes das garotas que ficavam dando risadinhas atrás dele e de seus colegas pela academia. Era uma voz bem diferente da que gritara com ele naquela noite cinco anos antes – Mas acho que ainda é cedo para ter uma opinião formada.

- Exato. – concordou Brutus – Nenhum parece ser melhor do que vocês, mas não devemos subestimá-los por enquanto. No entanto, já vimos alguns que podem ser interessantes, como o garoto do 11 e a garota do 12.

- A garota do 12? – Cato se surpreendeu – Que ameaça ela pode oferecer?

- Eu não disse nada sobre ameaça. – retrucou o mentor bruscamente, o que fez Cato pensar que ele não simpatizara muito com seu tributo masculino – Disse que pode ser interessante. Ela tomou o lugar da irmã de modo bem desesperado, não acha? E pessoas desesperadas podem ser bem difíceis de prever.

Os tributos se entreolharam mais uma vez, absorvendo as palavras do mentor, que se levantou de repente.

- Acho melhor vocês irem dormir. – anunciou ele, dando as costas e saindo da cabine.

Cato e Clove trocaram olhares de novo, com as sobrancelhas franzidas. Um olhar na silenciosa Devlyin afirmou que ela estava dormindo no sofá e não havia mais nada para eles ali.

Os dois seguiram em silêncio até suas cabines, que ficavam no mesmo vagão. Ele lançou um último olhar a Clove, pensando se sua antiga melhor amiga podia ser sua única real adversária e o quanto aquilo era perturbador, antes de fechar-se em seu quarto.

Tomou uma ducha e vestiu uma calça leve antes de se jogar na cama confortável e quante, mas não conseguiu dormir rapidamente. Sua companheira tributo inundou sua mente de tal modo que ele mal conseguia manter os olhos fechados, Tudo o que ele via era a garotinha de onze anos batendo em seu peito e dizendo que ela se importava com ele. Como faria para matá-la quando chegasse a hora? Passara a vida toda treinando, se disciplinando para nunca se apegar a ninguém, mas nunca imaginara que teria que ir para a arena com a única amiga que já teve. Sua esperança era que alguém a matasse antes que ele tivesse que fazê-lo.

Na manhã seguinte, ele acordou de um dos vários cochilos que tirou ao longo da noite quando o sol estava despontando no horizonte. Olhando pela janela, imaginou se já estavam chegando à Capital.

Foi até o banheiro e achou uma lâmina para se barbear. Sempre o incomodou como sua barba parecia crescer em uma velocidade anormal e ele detestava o aspecto de desleixo e sujeira que uma barba por fazer remetia. Quando terminou a higiene, vestiu uma das roupas novas que estavam a disposição, uma calça cinza e uma camiseta preta, e calçou suas botas, que pareciam velhas e surradas perto dos lustrosos calçados que lhe estavam sendo oferecidos.

Pensando que talvez ainda fosse cedo para seus companheiros de viajem terem acordado, foi até o vagão restaurante, na esperança de encontrá-lo vazio, mas deu de cara com Clove, já vestida e com os longos cabelos negros molhados, sentada na mesa perto da janela.

- Hey. – cumprimentou a garota suavemente ao notar a presença dele.

Cato apenas acenou com a cabeça enquanto se dirigia ao buffet e se servia. Havia uma enorme variedade de comidas e bebidas e ele não conseguiu decidir o que pegar, então pegou um pouco de cada coisa, tendo que levar dois pratos até a mesa, onde se juntou silenciosamente à Clove.

Eles comeram em silencio, sem saber o que dizer um ao outro. Clove não parecia incomodada com isso e comia tranquilamente as salsichas que ela escolhera.

- Então você finalmente se voluntariou. – comentou ela de repente, sem olhar para ele.

- Sim. – Cato apenas confirmou, de boca cheia, tirando os olhos de seu prato lotado.

- Alguns anos parecem ter feito a diferença, afinal – a garota o observava com uma certa curiosidade por cima da xícara em que tomava café preto.

Ele franziu o cenho, intrigado. Por um instante, achou ter visto uma sombra de sorriso nos lábios finos dela, mas logo sumiu.

- O que quer dizer?

- Bom, você parece bem maior e valentão agora. – Clove deu de ombros simplesmente.

Cato continuou olhando-a com o cenho franzido.

- Obrigado?

A garota só deu de ombros novamente, mas dessa vez ela o encarava com aqueles enormes olhos escuros que ele lembrava tão bem, com uma intensidade que o deixou levemente desconfortável.

- Já vi você na academia. Todos dizem que é muito bom mesmo. – disse ela, finalmente baixando os olhos para seu prato novamente, falando em tom impessoal, como se ela não soubesse o quão bom ele já era quando eram crianças.

- Sim, eu sou. – ele concordou e pensou que deveria acrescentar alguma coisa sobre ela – Você é boa com facas, não é? – ela fez que sim com a cabeça – Deve ser realmente boa se deixaram você vir.

Ela deu de ombros mais uma vez – Cato já tinha notado que esse parecia ser uma mania dela -, mas um sorriso no canto da boca se abriu.

- Sim, eu sou. – repetiu, então o sorrisinho cresceu e se espalhou pelo rosto, iluminando seu rosto salpicado por leves sardas até chegar aos olhos brilhantes.

Cato sorriu de volta, sentindo-se com 12 anos de novo, como se eles nunca tivessem parado de se falar. Então se repreendeu mentalmente. Não havia motivo nenhum para ele estar sorrindo, afinal, ela seria sua adversária na arena. Ser boa com facas só significava mais difícil de matar, e isso não era nenhuma vantagem para ele. Ele tinha que se concentrar e pensar como o vitorioso que ele nascera para ser.

Mas também, pensou enquanto voltava a atenção para seu segundo prato, que mal faria dar umas risadas com Clove antes de entrarem na arena? Eles seriam aliados no começo dos Jogos. Os tributos mais fortes sempre se uniam para abater os mais fracos, então não havia nada de mal em voltar a se acostumar com a presença dessa pequena atiradora de facas. Era só arranjar um jeito de mais alguém matá-la na arena para que ele não precisasse fazer isso.

- E além das facas, no que mais você é boa? – ele surpreendeu a si mesmo por estar puxando assunto, dando-se conta de que Clove mal ingressara na academia quando eles pararam de se falar, então ele não tinha a menor ideia do que ela podia fazer – Se deixaram que você fosse um tributo, você deve ter deixado uma boa impressão neles.

- Não sei se devo revelar minhas habilidades a você. – seu rosto era sério mas havia um tom de divertimento em sua voz – Afinal, você vai ser meu inimigo muito em breve.

Cato ergue uma sobrancelha para ela e deu um sorriso debochado, mas em sua cabeça sabia que ela estava certa e quis se dar um chute por não ter pensado nisso antes, principalmente por que ela já devia saber todas as habilidades dele.

- Mesmo assim, seremos aliados no começo, então não é de todo ruim sabermos no que o outro é bom.

- Principalmente por que já sei no que você é bom. – ela deu novamente aquele sorriso de canto de boca, confirmando sua suspeita.

- Ah é? – ele não pode deixar de soltar uma risada – E como você sabe que eu não fiquei bom, de repente, em fazer nós muito firmes?

- Por que você não é do tipo que consegue ficar parado tempo o suficiente para aprender a fazer nós. Você é mais do tipo que bate nos calouros por que tem vontade e atira lanças pelos corredores e fica lutando com seus amigos pela academia. – a resposta dela fazia sentido, já que ele estava mesmo sempre correndo de um lado para o outro batendo nas pessoas.

- Bem, é para isso que estamos lá, né?

Ela riu levemente, um riso rouco como a sua voz e agradável como Cato não se lembrava.

- Sim, é mesmo. Mas respondendo sua pergunta, sou bem ágil e forte.

Cato ergueu a sobrancelha novamente, dessa vez com uma certa descrença. Forte? Como aquela garota podia ser forte? Sua cabeça nem chegava aos ombros dele. Como a força que uma garota como ela podia ser comparada à dele, por exemplo? Ele podia facilmente quebrá-la ao meio quando chegasse a hora.

Ele não verbalizou aqueles pensamentos, achando que talvez pudesse ofender a garota. Afinal, não fora ela que tentara bater nele – sem o menor efeito - na última vez que eles tinham se falado?

De qualquer maneira, ele apenas concordou com a cabeça, voltando a comer.

- Mal posso esperar para ver isso no treinamento. – foi o que disse, entre um pãozinho e outro.

Clove sorriu mais uma vez e estava abrindo a boca para dizer mais alguma coisa quando o vagão escureceu e Lavender Bling fez seu caminho até a mesa, trazendo consigo Brutus e Devlyin, que não parecem muito satisfeitos de terem sido acordados tão cedo.

- Bem, que bom que já estão acordados! – exclamou a escolta, sorrindo afetadamente e fazendo seus bigodes de gato balançarem de um jeito esquisito. Os tributos trocaram olhares, segurando o riso.

Devlyin se jogou na cadeira ao lado de Cato e fechou os olhos, pronta para voltar a dormir, enquanto Brutus e Lavender iam até o buffet e se serviam.

- Logo, logo estaremos chegando! – piou Lavender ao retornar a mesa com nada mais que um mínimo pãozinho em seu prato – Então apressem-se com a comida!

Ela estava certa de que logo chegariam à Capital, pois Cato mal tinha acabado suas torradas quando a imensa cidade apareceu pelas janelas.

As pessoas transitando pela cidade, com suas roupas, cabelos e peles coloridas, logo perceberam que se tratava de um trem levando tributos e se amontoaram e começaram a gritar e acenar, tentando dar uma boa olhada ao vivo nos tributos do Distrito 2.

Cato e Clove não se mexeram, apenas trocaram olhares e observaram a multidão de seus lugares à mesa. Quando o trem finalmente parou, entrando na estação, Brutus se manifestou.

- Vocês serão levados aos estilistas agora. – informou, despreocupadamente – Boa sorte.