A primeira coisa que sentiu foi pânico, medo, e só pensava em fugir. Logo após de fitar aqueles olhos, ela se virou para direção contrária e fugiu. Não sabia se deveria ficar feliz ou triste por tal acontecimento, pois sim, ela estava tendo sentimentos, mas temer a morte? Não, a morte era sua obsessão.
Ela corria e nem ao menos olhava para trás, sabia que ele a estava caçando, sentia ele se aproximando. Não muito tempo de corrida, ela sentiu uma aguda dor no rosto, 'Ele está tentando me fazer parar, é melhor eu apertar o passo...' foi o que ela pensou e o que fez.
'Gr... ela está me irritando, está correndo mais rápido' Hiei pensou, sua paciência não estava muito boa naquele dia. Estava entediado e procurava alguma diversão, ficou curioso com os barulhos que ouvia na floresta e foi checar. Aqueles olhos, aquele cheiro... lhe traziam algo familiar. Porém, antes de descobrir o que era, ela havia fugido e ele foi atrás.
Hiei se adiantou e pulou numa árvore, agora estava correndo sério. Rapidamente a alcançou e deu o bote, ele a pegou pela a lateral, a jogando no chão e ficando em cima dela, prendendo ela pelos braços.
O cheiro que exalava era igual de sua mãe. O brilho dos olhos lembrava o brilho de sua hiruiseki que antigamente tinha, mas havia perdido nesses longos anos de separação.
Aya estava tremendo, suas mãos estavam firmemente encostadas na terra fria da floresta. O arranhão que tinha na bochecha ardia, conseguia sentir o gosto do próprio sangue escorrendo até sua boca e seu rosto não se atrevia a encarar seu caçador, ela olhava fixamente para uma das raízes da árvore mais próxima.
'Estou temendo a morte' ela pensou, não queria acreditar, ela que sempre fora obcecada pela morte, pelo modo como iria morrer e agora estava com medo de que seu desejo se realizasse.
Ele sentia que ela estava apavorada, mas algo nela ainda o desafiava, era como se ela estivesse com medo de outra coisa.
- Você não tem medo de morrer?
- Não – surpreendentemente, ela parou de tremer, Aya havia solucionado sua dúvida.
- Você parou de tremer – Hiei ficou surpreso com a resposta e da reação dela.
- Não tenho medo de morrer, mas de não poder escolher o modo de morrer é o que eu realmente temo – ela falou, mesmo sabendo que ele não havia perguntado, Aya estava falando para si mesmo.
- Você está sangrando.
Hiei pousou o olhar no sangue dela, também observou o trajeto dele, e uma certa sensação estava incomodando o seu corpo e seus pensamentos já não pareciam muito claros. Ele a desejava.
Os olhos dela se arregalaram, sentia o calor do corpo dele se aproximando do dela, a língua de Hiei estava limpando a ferida do rosto dela e lentamente seguia o traço do sangue até os lábios.
Aya voltou a tremer, um medo maior que o anterior crescia dentro dela. Porém, ela ainda não se atrevia a se mexer, sua boca estava entreaberta e não a fechou mesmo quando ele a invadia. Ela fechou os olhos.
Sem perceber, ela já estava se envolvendo com o seu caçador. Sentia que as mãos dele não a prendiam mais e estavam em sua cintura, sentia que havia sido levantada e estava com o seu corpo entrelaçado com o dele. As mãos dela sentiam o pescoço dele e desciam para o tórax dele, sentia que as dele também haviam saído da cintura dela e ido para outro lugar.
Entretanto, Aya abriu os olhos.
'Se você tiver relações com homem qualquer, você irá engravidar e quando o fruto maldito nascer, você morrerá' essa era a lembrança que teve quando abriu os olhos ao sentir a mão dele avançando entre suas pernas.
Hiei sentiu que estava paralisado, até mesmo sua expressão. Ele havia sido congelado. 'Ela é uma Koori-me', ele pensou, surpreso. Olhava para frente (só poderia olhar para lá), onde ela estava de pé, ainda tremendo.
- Não é como eu quero morrer – ela disse.
E partiu.
- Os bebês estão começando a ficar agitados.
- Grite um pouco com eles que eles param – comentou Hiei, entediado.
Aya estava numa cadeira confortável, costurando alguns panos, queria fazê-la para os bebês.
- Você parece entediado – ela disse ao parar de costurar e olhou para ele.
Hiei estava sentado na beira da varanda e apoiado de costas na parede.
- Eu estou um pouco – seus olhos nem abertos estavam.
- Eu posso tentar lutar com você – Aya disse colocando as costuras de lado.
- Não, obrigado. Você deve tá bem lerda carregando esses dois.
- Vamos lá! Vale tudo, só não pode acertar na minha barriga! – Aya disse empolgada e de pé fazendo alongamentos.
- Você já não era párea para mim sem essa barriga, imagine com ela – Hiei disse, ainda entediado.
Porém, ele teve que mudar de lugar ao sentir que ela estava falando sério e estava correndo em sua direção.
- Ah! Então você estava atento – reclamou Aya.
- Eu não vou lutar com uma grávida! – falou Hiei, irritado, do outro lado da varanda.
- Ah, vai sim! Sou o único adversário que tem!
Aya concentrou energia na sua mão e criou uma espada de gelo, logo em seguida partiu para cima de Hiei.
o
- Eu falei para você parar.
Hiei estava carregando Aya e descendo do telhado.
- Você quase que cai telhado abaixo.
Aya havia se cansado depois de algumas horas de luta e perdeu o equilíbrio no telhado, se não fosse por Hiei, ela teria se machucado.
- Mas você me pegou, não foi? – ela disse, meio sonolenta e vermelha no rosto, mas feliz.
- Não faça mais isso – disse Hiei, mais irritado.
- Tá, tá, tá! Antigamente você insistia para eu lutar e agora insiste pelo contrário... não entendo você!
- Você parece uma criança!
Ele estava esperando que sua esposa retrucasse, mas esta não o fez. Quando parou de andar, olhou para ela. Aya estava dormindo.
- Ultimamente você anda dormindo muito - Hiei disse preocupado.
O casal entrou no quarto e ele deixou ela na cama para que dormisse, mas Hiei foi impedido de se afastar, Aya segurava o seu braço.
- Deita comigo – ela disse ainda de olhos fechados.
Ele já estava acostumado em atender os pedidos dela, então sem pensar duas vezes, deitou do lado dela.
- Ei, você continuará participando dos torneios? – ela perguntou, enquanto se ajeitava do lado dele, abraçando-o.
- Eu vencerei no próximo – ele afirmou convicto.
- Você vai treinar seus filhos para o torneio também?
- Não.
- Por que não? – Aya falou indignada.
- Não sou bom para treinar outros.
- Eu sei. Você teve que pedir ajuda pro Kurama para me treinar – ela disse, rindo.
- Cala a boca – Hiei falou irritado, olhando para ela.
- Mas você terá que treiná-los, eles são seus filhos!
- Eles só irão me atrapalhar.
- Seria ótimo se nossa família inteira pudesse participar do torneio.
Hiei a olhou com uma expressão séria e mesmo Aya não estar vendo, ela falou:
- Não me olhe desse jeito. É apenas o meu sonho.
- Sonho? – ele perguntou surpreso.
- É... – ela confirmou, sonolenta novamente – um objetivo que nunca se pode alcançar.
Aya fechou os olhos e adormeceu, uma de suas mãos estava repousando no peito dele, Hiei pegou a mão dela gentilmente e a segurou.
- Meu sonho, então... seria poder realizar o seu – ele sussurrou.
Depois se ajeitou um pouco na cama e colocou a cabeça dele perto da dela e também adormeceu.
o
- Qual o seu objetivo, Hiei?
- Me tornar rei do Makai.
- E o seu sonho?
Hiei a encarou, um pouco irritado, afinal, concluiu-se que ela tinha escutado o que ele havia falado na noite passada, fingindo estar adormecida.
- Você já sabe – ele respondeu friamente.
Aya riu, mas insistiu:
- Mas quero ouvir de novo.
Hiei suspirou, incomodado, e falou:
- Meu sonho é poder te ver no próximo torneio.
- E? – Aya esperava por mais alguma coisa.
- ...junto com os nossos filhos – Hiei falou, relutante.
- A gente ia lutar?
- Vocês iam perder.
- Mas a gente ia se divertir.
Um silêncio se instalou. Aya, então, continuou o que estava fazendo, costurando roupas para os seus filhos e Hiei fechou os olhos como se fosse voltar a dormir, mas ele disse:
- Nossos sonhos nunca se tornarão nossos objetivos, não é?
- Não, Hiei. Eu temo que não.
Aya olhava para as próprias mãos, parara de costurar de novo. Hiei soltou seu habitual 'Hunf' junto com um sorriso debochado e disse:
- Não tem problema. Sonhos não foram feitos para serem realizados.
Ela sorriu tristemente e voltou a costurar.
