Capítulo Dois: O Oitavo Mês – Sonhos

A primeira coisa que sentiu foi pânico, medo, e só pensava em fugir. Logo após de fitar aqueles olhos, ela se virou para direção contrária e fugiu. Não sabia se deveria ficar feliz ou triste por tal acontecimento, pois sim, ela estava tendo sentimentos, mas temer a morte? Não, a morte era sua obsessão.

Ela corria e nem ao menos olhava para trás, sabia que ele a estava caçando, sentia ele se aproximando. Não muito tempo de corrida, ela sentiu uma aguda dor no rosto, 'Ele está tentando me fazer parar, é melhor eu apertar o passo...' foi o que ela pensou e o que fez.

'Gr... ela está me irritando, está correndo mais rápido' Hiei pensou, sua paciência não estava muito boa naquele dia. Estava entediado e procurava alguma diversão, ficou curioso com os barulhos que ouvia na floresta e foi checar. Aqueles olhos, aquele cheiro... lhe traziam algo familiar. Porém, antes de descobrir o que era, ela havia fugido e ele foi atrás.

Hiei se adiantou e pulou numa árvore, agora estava correndo sério. Rapidamente a alcançou e deu o bote, ele a pegou pela a lateral, a jogando no chão e ficando em cima dela, prendendo ela pelos braços.

O cheiro que exalava era igual de sua mãe. O brilho dos olhos lembrava o brilho de sua hiruiseki que antigamente tinha, mas havia perdido nesses longos anos de separação.

Aya estava tremendo, suas mãos estavam firmemente encostadas na terra fria da floresta. O arranhão que tinha na bochecha ardia, conseguia sentir o gosto do próprio sangue escorrendo até sua boca e seu rosto não se atrevia a encarar seu caçador, ela olhava fixamente para uma das raízes da árvore mais próxima.

'Estou temendo a morte' ela pensou, não queria acreditar, ela que sempre fora obcecada pela morte, pelo modo como iria morrer e agora estava com medo de que seu desejo se realizasse.

Ele sentia que ela estava apavorada, mas algo nela ainda o desafiava, era como se ela estivesse com medo de outra coisa.

- Você não tem medo de morrer?

- Não – surpreendentemente, ela parou de tremer, Aya havia solucionado sua dúvida.

- Você parou de tremer – Hiei ficou surpreso com a resposta e da reação dela.

- Não tenho medo de morrer, mas de não poder escolher o modo de morrer é o que eu realmente temo – ela falou, mesmo sabendo que ele não havia perguntado, Aya estava falando para si mesmo.

- Você está sangrando.

Hiei pousou o olhar no sangue dela, também observou o trajeto dele, e uma certa sensação estava incomodando o seu corpo e seus pensamentos já não pareciam muito claros. Ele a desejava.

Os olhos dela se arregalaram, sentia o calor do corpo dele se aproximando do dela, a língua de Hiei estava limpando a ferida do rosto dela e lentamente seguia o traço do sangue até os lábios.

Aya voltou a tremer, um medo maior que o anterior crescia dentro dela. Porém, ela ainda não se atrevia a se mexer, sua boca estava entreaberta e não a fechou mesmo quando ele a invadia. Ela fechou os olhos.

Sem perceber, ela já estava se envolvendo com o seu caçador. Sentia que as mãos dele não a prendiam mais e estavam em sua cintura, sentia que havia sido levantada e estava com o seu corpo entrelaçado com o dele. As mãos dela sentiam o pescoço dele e desciam para o tórax dele, sentia que as dele também haviam saído da cintura dela e ido para outro lugar.

Entretanto, Aya abriu os olhos.

'Se você tiver relações com homem qualquer, você irá engravidar e quando o fruto maldito nascer, você morrerá' essa era a lembrança que teve quando abriu os olhos ao sentir a mão dele avançando entre suas pernas.

Hiei sentiu que estava paralisado, até mesmo sua expressão. Ele havia sido congelado. 'Ela é uma Koori-me', ele pensou, surpreso. Olhava para frente (só poderia olhar para lá), onde ela estava de pé, ainda tremendo.

- Não é como eu quero morrer – ela disse.

E partiu.

- Os bebês estão começando a ficar agitados.

- Grite um pouco com eles que eles param – comentou Hiei, entediado.

Aya estava numa cadeira confortável, costurando alguns panos, queria fazê-la para os bebês.

- Você parece entediado – ela disse ao parar de costurar e olhou para ele.

Hiei estava sentado na beira da varanda e apoiado de costas na parede.

- Eu estou um pouco – seus olhos nem abertos estavam.

- Eu posso tentar lutar com você – Aya disse colocando as costuras de lado.

- Não, obrigado. Você deve tá bem lerda carregando esses dois.

- Vamos lá! Vale tudo, só não pode acertar na minha barriga! – Aya disse empolgada e de pé fazendo alongamentos.

- Você já não era párea para mim sem essa barriga, imagine com ela – Hiei disse, ainda entediado.

Porém, ele teve que mudar de lugar ao sentir que ela estava falando sério e estava correndo em sua direção.

- Ah! Então você estava atento – reclamou Aya.

- Eu não vou lutar com uma grávida! – falou Hiei, irritado, do outro lado da varanda.

- Ah, vai sim! Sou o único adversário que tem!

Aya concentrou energia na sua mão e criou uma espada de gelo, logo em seguida partiu para cima de Hiei.

o

- Eu falei para você parar.

Hiei estava carregando Aya e descendo do telhado.

- Você quase que cai telhado abaixo.

Aya havia se cansado depois de algumas horas de luta e perdeu o equilíbrio no telhado, se não fosse por Hiei, ela teria se machucado.

- Mas você me pegou, não foi? – ela disse, meio sonolenta e vermelha no rosto, mas feliz.

- Não faça mais isso – disse Hiei, mais irritado.

- Tá, tá, tá! Antigamente você insistia para eu lutar e agora insiste pelo contrário... não entendo você!

- Você parece uma criança!

Ele estava esperando que sua esposa retrucasse, mas esta não o fez. Quando parou de andar, olhou para ela. Aya estava dormindo.

- Ultimamente você anda dormindo muito - Hiei disse preocupado.

O casal entrou no quarto e ele deixou ela na cama para que dormisse, mas Hiei foi impedido de se afastar, Aya segurava o seu braço.

- Deita comigo – ela disse ainda de olhos fechados.

Ele já estava acostumado em atender os pedidos dela, então sem pensar duas vezes, deitou do lado dela.

- Ei, você continuará participando dos torneios? – ela perguntou, enquanto se ajeitava do lado dele, abraçando-o.

- Eu vencerei no próximo – ele afirmou convicto.

- Você vai treinar seus filhos para o torneio também?

- Não.

- Por que não? – Aya falou indignada.

- Não sou bom para treinar outros.

- Eu sei. Você teve que pedir ajuda pro Kurama para me treinar – ela disse, rindo.

- Cala a boca – Hiei falou irritado, olhando para ela.

- Mas você terá que treiná-los, eles são seus filhos!

- Eles só irão me atrapalhar.

- Seria ótimo se nossa família inteira pudesse participar do torneio.

Hiei a olhou com uma expressão séria e mesmo Aya não estar vendo, ela falou:

- Não me olhe desse jeito. É apenas o meu sonho.

- Sonho? – ele perguntou surpreso.

- É... – ela confirmou, sonolenta novamente – um objetivo que nunca se pode alcançar.

Aya fechou os olhos e adormeceu, uma de suas mãos estava repousando no peito dele, Hiei pegou a mão dela gentilmente e a segurou.

- Meu sonho, então... seria poder realizar o seu – ele sussurrou.

Depois se ajeitou um pouco na cama e colocou a cabeça dele perto da dela e também adormeceu.

o

- Qual o seu objetivo, Hiei?

- Me tornar rei do Makai.

- E o seu sonho?

Hiei a encarou, um pouco irritado, afinal, concluiu-se que ela tinha escutado o que ele havia falado na noite passada, fingindo estar adormecida.

- Você já sabe – ele respondeu friamente.

Aya riu, mas insistiu:

- Mas quero ouvir de novo.

Hiei suspirou, incomodado, e falou:

- Meu sonho é poder te ver no próximo torneio.

- E? – Aya esperava por mais alguma coisa.

- ...junto com os nossos filhos – Hiei falou, relutante.

- A gente ia lutar?

- Vocês iam perder.

- Mas a gente ia se divertir.

Um silêncio se instalou. Aya, então, continuou o que estava fazendo, costurando roupas para os seus filhos e Hiei fechou os olhos como se fosse voltar a dormir, mas ele disse:

- Nossos sonhos nunca se tornarão nossos objetivos, não é?

- Não, Hiei. Eu temo que não.

Aya olhava para as próprias mãos, parara de costurar de novo. Hiei soltou seu habitual 'Hunf' junto com um sorriso debochado e disse:

- Não tem problema. Sonhos não foram feitos para serem realizados.

Ela sorriu tristemente e voltou a costurar.