The Page XXIII
(A página vinte e três)

ERA UM FATO QUE ROBIN NÃO ESTAVA BEM.
Na verdade "bem" o definia em uma frase, ou várias delas em conjugações distintas...

Bem irritado.
Bem nervoso.
Bem... Bravo.

-Bem é o meu—

-Robin!

Ele girou nos calcanhares encarando Pequeno John. Sua sobrancelha erguida e sua expressão nada feliz. Suspirou passando a mão pelos cabelos pela enésima vez. Tinham se passado malditas duas semanas... Além de ele descobrir quem Regina era...
Tinha agora o fato de que não conseguia encontrar e falar com ela.
Outro suspiro.

-Tudo bem, vamos manter... A calma, sim? – Frei Tuck sugeriu. Talvez pela terceira ou quarta vez, enfim...

Ele não estava contando.

-O que sabe sobre ela?

-Irmã da Rainha... Filha bastarda do Rei Henry.

-Bastarda? – ele franziu o cenho.

-Aparentemente o Rei Henry a adotou como filha, sendo a primogênita de sua esposa... Dizem que teria sido um escândalo...

-E o que aconteceu a essa... Suposta Rainha? – Tuck deu de ombros como resposta e ele assentiu. Olhou de novo para John. – Então repita o que me falou para ele. – pediu e franziu o cenho incentivando-o.

-Aparentemente ela está com problemas... Não se sabe ao certo.

-Apenas desembucha, John!

-Ouvi rumores que depois da morte do Rei Leopoldo, Regina e sua "sobrinha" Branca de Neve estão fugindo... E há especulações que a Rainha Zelena planejou o assassinato de seu marido.

-Especulações? – perguntou Tuck.

-Continue. – pediu Robin ainda impaciente.

-Bom... Infelizmente, houveram alguns problemas e parece que Branca conseguiu alguma ajuda... Só que—

-Não sabem onde Regina está. – Robin terminou exasperado. Tuck o analisou fazendo-o ficar ainda mais irritado.

-Acalme-se...

-Me...? – ele bufou uma terceira vez. Uma contagem mental agora era realmente estúpido. – Só quero saber onde ela está!

Antes que algo mais fosse dito, duas leves batidas atraíram a atenção dos homens.
Robin foi o primeiro a se levantar quando Tuck alcançou a maçaneta revelando um dos aldeões.

-Ei, garotos... Venham aqui.

Eles se olharam brevemente e ele saiu pela porta seguindo o homem. Era início da noite, então haviam várias tochas acesas pelas ruas e algumas pessoas andando por ali preocupadas consigo mesmas, Robin estava usando uma camisa branca, um cachecol no pescoço, calças largas e botas. Ele puxou sua capa e a jogou sob si seguindo o homem que parou diante de uma árvore afastada do acampamento. Estava prestes a perguntar qual o problema quando avistou o cartaz.

Arrancou-o.

-Elas estão sendo procuradas... – Tuck constatou o óbvio. – Aqui diz que a Rainha oferece uma recompensa pela cabeça de Branca de Neve e sua irmã...

-Ela as quer vivas... Para matá-las. Isso não está certo... – ele suspirou pesadamente e franziu o cenho para um pequeno brilho na floresta. Grande demais para um vagalume. De novo. Como um piscar. – Voltem para a cabana, avisem os outros que procuraremos por mais pistas pela manhã... Se conseguirmos achar uma das duas...

-Robin...

-Eu sei. – disse ele. – Vão. Avisem os outros...

-Você está...

-Estou bem. Vão.

Ele esperou que saíssem de seu campo de visão e adentrou na floresta, ainda conseguindo ver a fumaça do acampamento, as luzes e ouvir o barulho das pessoas. Levou a mão na bolsa do seu lado esquerdo e cogitou pegar o laço que carregava, entretanto, o mesmo não estava ali. Quando sua mão se fechou na pequena flecha que mais parecia uma lança na palma de sua mão, feita de metal e aço e a ponta fina e afiada e de novo, ele viu o brilho, imediatamente a lançou há dois centímetros do "vagalume".

... Que finalmente ganhou forma de uma pequena mulher e se transformou diante dele, ainda olhando para o objeto fincado na árvore...
E que quase arrancou sua cabeça.

-Isso era realmente necessário? – irritou-se ela. Uma fada loira, baixinha e usando um vestido esverdeado curto. Seus olhos azuis se estreitaram e ela parou diante dele muito brava.

-Achei que precisava atrair sua atenção... – ele admitiu dando de ombros levemente.

-Obviamente o Senhor já tinha minha atenção. – disparou ela ainda com o cenho franzido e as orelhas vermelhas. – Eu estava esperando seus amigos nos deixarem a sós. Não havia necessidade de violência...

-Não planejava irritá-la... Uh... Senhorita fada verde, eu só queria sua atenção... Ou você queria a minha...?

-Bom, não importa. – ela respirou fundo e a cor pareceu voltar ao seu rosto e então estendeu sua mão para ele. – Tinker Bell.

Ele aceitou o aperto de mãos sorrindo de volta.

-Robin de Locksley.

Então ela sorriu.
Um sorriso puro e lindo... Que de certa forma o fez sorrir também.

REGINA OLHOU PARA SUA PRÓPRIA MÃO ENFAIXADA.
Ela ainda tinha suas memórias de Storybrooke, seus problemas nos últimos anos, Henry, Emma, Os Encantados... Robin e Roland.
Tudo estava ali. Em sua cabeça. Até mesmo sua "viagem" quando as posições entre ela e Branca foram invertidas. Simplesmente tudo.

Suspirou pela enésima vez e olhou ansiosa pela porta do esconderijo. Talvez tenha sido realmente um grande erro ter ido até ali, e por um instante pensou em estrangular Tinker Bell por sua maldita demora e para sua própria desgraça, tudo o que podia fazer era bufar, passar as mãos no rosto e cabelo e continuar esperando. Então sua mão latejou de novo, lembrando-a de quando se jogou com Branca para o lado e a flecha passou raspando a cabeça da mesma e acabou atingindo-a na mão.

Pensou que o "momento" entre ela e o caçador tinha sido diferente. Em sua realidade, daquela época, Graham poupou a vida de sua enteada deixando-a ir embora e lhe levou o coração de um Cervo. Furiosa, Regina tomou o dele para controla-lo, entretanto esse Graham era... Diferente. Todos eram, inclusive ela. Já que estava ajudando Branca, e aparentemente, em seu estúpido sonho, lhe custaria a sanidade.

-Inferno... – irritada por não estar se movendo, ela abriu a porta e saiu respirando o ar fresco e o cheiro da grama que provavelmente traria mais uma garoa. Esperava estar em casa...

Casa. Para poder ouvir Henry e Roland vendo TV, ou conversando coisas banais sobre jogos de videogame ou histórias em quadrinhos, ou começar a preparar o jantar com ajuda de Robin que fazia questão de circular sua cintura em um abraço e sussurrar confidências...
Ou então resolver algum problema com Emma, ter uma irritante conversa com Branca.

Deuses... Ela só queria voltar... Então se lembrou de novo da "explosão" que a levou ali. Sua magia roxa, a de Emma vermelha e a de Zelena esverdeada... Então aquele brilho como se vários vagalumes as circulassem. Espere... Se ela estava em seu próprio sonho, isso significava que Emma e Zelena também?! E se essa Zelena quem conversou duas noites atrás, a nova "Rainha Má" fosse sua irmã...? Então Emma também podia estar ali?!

Para seu azar, Regina não teve tempo de pensar, porque os claques do som do casco do cavalo no chão a alertaram, infelizmente não a tempo, e ela conseguiu se jogar para trás quando a espada do cavaleiro negro passou exatamente no espaço em que estava. Ele freou o animal bruscamente e girou o corpo para fitá-la. Ela não teria uma segunda chance, olhou a sua volta em busca de alguma coisa que poderia ajudar amaldiçoando a si mesma por ter sido descoberta por um milissegundo e correu na direção de um cipó.

Os cascos do cavalo bateram de novo no chão e ela saltou em tempo de puxar a corda para si e girou em reflexo lançando-a no homem. Isso o assustou derrubando-o do animal, mas não o pararia. Ela o encarou furiosa.

-Ao menos me deixe olhar para meu assassino... – pediu agora irritada. Maldito fosse esse estúpido sonho que não lhe permitia ter magia. Deu um passo para trás quando ela removeu o capacete, revelando o cabelo loiro, os olhos azuis e a expressão vazia. – O que diabos... Emma?!

Sua voz sumiu quando disse seu nome e Regina se assustou de novo dessa vez com o terceiro vulto.
Infelizmente, quem levou uma bela de uma pancada na cabeça foi Emma...
... De sua própria mãe.

-Merda. – Regina praguejou.

-PERA... Deixa ver se eu entendi. – Branca pediu talvez pela segunda ou terceira vez, mas quem estava contando afinal? Bingo. Ela estava. – Você estava fugindo da Zelena, então tomou uma flechada na mão pra me salvar e encontrou o homem dos seus sonhos?!

-Eu narrei muito mais coisa pra você, como a parte em que a loira apagada ali... Veio do mesmo lugar que eu, e essa realidade atual não foi exatamente o que aconteceu com a gente sem contar essa nossa conversa porque eu era a vilã e claro, sem tirar a parte que falei um pouco sobre o Robin, e tudo o que você pega da explicação... É apenas ele?!

-Estamos fugindo. – ela enfatizou de novo. – E você encontrou o homem dos seus sonhos, então que seja...

-Não me dê ideias... – suspirou. – Espere... Só me responda uma pergunta – ela a encarou seriamente o cenho levemente franzido. A mão na cintura para enfatizar seu ponto. – Me diga que você tentou encontrar uma forma de fugir enquanto eu estava sumida...

Branca deu de ombros. Ela se lembrou daquela mesma criança petulante de dez anos que salvou de um "cavalo em fuga" e seu olhar óbvio fazendo-a também se lembrar de Henry, e Regina a encarou exatamente como fazia com o filho quando ele aprontava das suas.

-Pelo amor de Deus, só você para...

-Eu roubei uma carruagem a caminho daqui... – ela se defendeu. – Bem, pelo menos eu tentei alguma coisa...! Infelizmente não saiu como eu esperava, ok? – disparou acusadora. – E o que você está fazendo aqui afinal...?

-Isso não importa... Estou esperando Tinker Bell, de acordo com a sua história, você devia ir vender as joias que roubou.

-Minha história...? Espera, Regina como sabe que eu roubei algumas joias?

-Branca, você realmente não presta atenção no que eu falo... – ela suspirou. – Eu disse isso há você há três dias e há vinte minutos. Eu não sou dessa realidade, e estou tentando voltar. E se Zelena for metade do problema que eu fui, você tem que ir para o vilarejo mais próximo vender esse anel e encontrar seu Encan... To.

Ela a encarou por longos dez segundos.

-Você sabe como não fazer sentido às vezes...

-Apenas... – então ambas pararam de falar quando Emma começou a gemer. Ela estava acordada.

Se olharam e Regina se aproximou da loira parando ao seu lado enquanto Branca ficou nos pés da cama preparada para qualquer coisa. Emma não estava vestida exatamente como pensou que estaria desde sua Ascenção como Senhora Das Trevas, a habitual jaqueta vermelha, os jeans e botas de caubói. Admitia que sempre seria estranho para Regina vê-la usando uma armadura, o cabelo longo e loiro preso em um rabo-de-cavalo e portando uma espada.
Exatamente como os pais...

-Cacete... – ela murmurou baixo e ainda demonstrando agonia. – Quem diabos colocou sinos na minha cabeça e bateu eles um contra o outro?

-Uau, ela é boca suja... – sussurrou Branca para Regina que não evitou sorrir e dar de ombros. Finalmente ela a encarou.

-Tecnicamente você causou isso a si mesma, Swan... – foi a vez dela olhar para suas roupas e Regina não a culpava. Estava usando um longo vestido branco e sujo de terra, o cabelo também longo e preto agora preso em um coque mal feito e sem maquiagem. Então seu olhar parou na mãe, vestindo seu habitual traje de caça, inclusive a faca presa no cinto e o olhar feroz no rosto, o cabelo solto. – Digamos que ela te bateu com um pedaço de pau para evitar que causasse problemas... Ainda causará problemas, Srta. Swan?

-Srta. Swan? – ela encarou a ex-Rainha Má e então sua mãe ainda massageando a cabeça. – Ok... Onde estamos? – perguntou sem tirar os olhos da mãe.

-Me diga por que está aqui, e talvez eu responda. – Regina devolveu.

Ela tentou puxar o laço que prendia seus pulsos em vão.

-Posso não ter magia... – continuou. – Entretanto meu conhecimento sobre ela não se foi. Isso prende você. Em um feitiço para bloquear que escape... Agora responda minha pergunta... Olhe para mim e responda a pergunta, Srta. Swan.

Então ela a encarou, e em seus olhos azuis, Regina reconheceu o que estava acontecendo antes que ela dissesse.
A expressão cética era quase um reflexo de si mesma.

-Achei que você soubesse, porque há alguns minutos atrás, estávamos em um hospital, em um provável parto.

Então fez o que nenhuma das mulheres esperava que fizesse.
Ela sorriu.