CAPÍTULO 3

Ele não voltou a chorar, mas a raiva estava lá. Tanto por não conseguir dormir, como por não cumprir a promessa que fez a si mesmo e parar de pensar em Harry. Potter, ele gritou consigo mesmo. Os nomes se misturavam constantemente agora.

Porque ele não conseguia dormir? A maldição já foi quebrada, ele já havia dormido uma vez. Claro que não foi o suficiente para recuperar todas aquelas noites acordado. Ele não queria, mas estava a ponto de falar com Blaise sobre o que aconteceu.

Três horas depois de ter conseguido dormir encostado em uma árvore ao lado de Harry Potter, Draco se levantou da cama para tomar banho e se livrar daquela raiva.

Surpreendentemente ele se acalmou depois do banho demorado. Penteou os cabelos o melhor que pôde, escolheu roupas quentes e confortáveis, usou seu melhor perfume e desceu para encontrar os amigos na sala comunal.

Não que ele estivesse se sentindo completamente bem, mas estava extremamente melhor que ontem quando não havia dormido.

- Você está tão diferente, Draquinho! – Pansy percebeu a melhora do estado dele.

- Eu não sei o que quer dizer, mas obrigado.

- Ah, por favor, é claro que você sabe. Está vendo, parar de falar do Potter está te fazendo super bem. Nós precisamos comemorar, todos nós. – Ela subiu em uma das cadeiras mais próxima. – Escuta pessoal! Quem for a Hogsmeade hoje já está convidada para nossa pequena grande comemoração... – Ela olhou com piedade para Draco. – Uma comemoração sem nenhum motivo aparente. Então apareçam no nosso local de encontro de sempre. – Desceu da cadeira, olhou em volta e deu uma pequena exclamação. – Ah, é claro, não apareçam se forem do terceiro ano ou menos, isso seria... Estranho.

- Festa hoje? – Blaise se juntou ao alvoroço. – Por causa do Draco, estou certo?

- Claro que está! – Pansy estava mais feliz que o comum. – Você já viu como ele está ótimo? Olhe só pra ele.

- Verdade.

- Já chega, né? Parem de me encher o saco, eu nem queria essa porcaria de comemoração sem sentido. – Draco jogou o casaco por cima dos ombros na intensão de sair da sala.

- Ah, qual é! Não fica assim, Draquinho. Só... Aparece na festa, ok? Vai ser muito divertido.

- Certo! – Ele disse antes de fechar a porta ruidosamente atrás de si.

A última coisa que precisava era uma festa para comemorar a sua "separação" de Potter, festa essa que só serviria para lhe fazer lembrar ainda mais do garoto.

Mas que seja. Ele não iria ficar pensando nele, afinal era uma festa, certo? Ele faria o que pessoas normais fazem em festas.

Quando ele deixou as masmorras, percebeu que várias pessoas já se locomoviam para a entrada da escola para em seguida ir a Hogsmeade. Ele se infiltrou entre os alunos que estavam na frente, para conseguir a permissão primeiro. Ninguém deu importância para ele, por isso foi um dos primeiros a entrar na segunda carruagem que partia em direção á cidade.

A viagem passou praticamente despercebida, ele estava sonhando acordado, já que nunca mais tinha tido um sonho propriamente dito.

Nem se deu conta de que chegaram, assim como não conseguiu lembrar sobre o que o sonho era. Só acordou para o mundo quando um dos garotos que dividia a carruagem com ele o cutucou.

- Nós chegamos! – O garoto gritou quase ao ouvido dele, o que o fez se remexer rapidamente no assento e pular para fora do carro sem olhar pra trás.

O que ele faria aqui sem ninguém? Talvez bater a cabeça na parede repetidamente para conseguir perder os sentidos e dormir um pouco.

Cale a boca! – Ele gritou internamente para si mesmo.

Acabou indo para o local de encontro dos Sonserinos, para esperar pela festa. Não estava nem um pouco confortável naquele lugar, mas pelo menos era mais quente que o lado de fora.

Ali nem ao menos tinha nome. Ficava atrás da Zonko's. Era um lugar apertado se comparado aos outros bares de Hogsmeade. Tinha cinco mesas com poucas cadeiras cada, mas o que era melhor daquele lugar era a pequena caixa de som e a pista de dança.

Antigamente Draco o via como um lugar aconchegante em que dividia momentos com seus amigos, mas agora nem sabia mais.

Ele pediu uma cerveja amanteigada só para não ficar sem fazer nada, sentou-se em uma das mesas e esperou. Os outros demoraram a chegar. Pansy foi a primeira a entrar pela porta.

- Draco! Que tristeza é essa? – Bateu na mesa em que ele estava sentado. – Uma rodada pra todo mundo e vamos começar essa festa!

Uma música agitada começou a tocar, Draco nunca soube quem a colocou. Os Sonserinos começaram a se aglomerar por todos os lados. Draco estranhou toda aquela bebedeira ainda tão cedo no dia, geralmente eles só faziam aquilo durante a noite.

Algumas músicas depois, Draco foi retirado de seus pensamentos.

- Vamos lá, Draco. – Blaise o puxou da cadeira. – Nós estamos aqui pra comemorar, não é?

- Eu suponho. – Draco se deixou ser levado e dançou o resto da música ao lado de Blaise.

Draco se balançou aproveitando o ritmo da música, mas alguma coisa não parecia certa. Blaise não parecia ser ele mesmo.

Quando Draco olhava diretamente para ele, não havia nada de estranho. Mas se ele focasse em outra pessoa e o observasse pelo canto do olho Blaise não tinha mais a pele negra, nem cabelos controlados ou olhos escuros. Ele tinha uma pele bronzeada e cabelos espetados, o mais impressionante era o brilho verde que vinha de seus olhos.

Na primeira vez que Draco percebeu isso, ele pulou pra longe assustado. Mas decidiu que foi apenas um truque da sua mente cansada. Quando aconteceu novamente, ele ignorou. Mas uma terceira vez foi demais e ele teve que parar.

Blaise correu atrás dele para saber se estava bem, ao que ele respondeu com um aceno de cabeça.

- Só preciso de um ar puro, sabe. – E saiu do bar.

Isso não está acontecendo, eu estou sonhando, certo?

Mas por dentro ele sabia que não era um sonho. Harry Potter agora literalmente assombrava seus pensamentos.

Tentando se acalmar ele caminhou até o local mais tranquilo que pôde pensar. A livraria era uma boa opção, o cheiro dos livros o faria relaxar.

A Floreios e Borrões estava cheia como sempre, mas alguma coisa naquela multidão serviu para o que ele pretendia. A histeria diminuiu.

Ele olhou alguns dos livros que pensava em comprar. Tirou um das prateleiras e se dirigiu para o vendedor mais próximo, mas foi impedido por um caos de cabelos em seu rosto.

- Desculpe. – Ele disse a pessoa em que havia se esbarrado.

- Sem problema. – Respondeu Harry Potter, erguendo as sobrancelhas quando se virou e percebeu que era Draco. – Ei! Eu estava te procurando. Nós precisamos conversar.

- Por Merlin! De novo? - Mas jogou o livro em uma prateleira qualquer e seguiu Harry mesmo assim.

- O que foi dessa vez, Potter? E espero que seja rápido. – Draco começou no momento em que ficaram sozinhos do lado de fora da loja. – Não pretendo ser visto falando com você.

- Certo, sei. Eu vou ser rápido. – Harry revirou os olhos. – Você disse que a maldição tinha sido quebrada, já que nós conseguimos dormir, certo?

- Na verdade foi você quem disse isso, mas sim, continue.

- Bem, é que eu não acho que foi mesmo quebrada. Quando saí de baixo daquela árvore eu só pensava em dormir o dia todo. Eu ainda estou caindo de sono, mas quando voltei pra minha cama eu não consegui dormir de jeito nenhum. Pelo menos eu acho que não foi quebrada. Quer dizer, você conseguiu dormir?

- Não.

- Droga, então eu tô certo. Nós precisamos falar com o Zabini sobre isso, ele lançou a maldição, então deve saber o que fazer para desfazer.

- Olha, eu não quero falar com o Blaise sobre isso. Além do mais, quem pode confirmar que você não está conseguindo dormir por causa daquela maldição? Eu provavelmente só não consegui dormir porque estava muito traumatizado por ter pegado no sono ao seu lado. E quanto a você, talvez Voldemort tenha voltado mesmo e você está começando a se apavorar novamente. Agora me deixa em paz, Potter.

Draco se arrependeu imediatamente de ter dito aquelas palavras, principalmente depois de saber de tudo pelo que Harry tinha passado por culpa de Voldemort. Apesar disso, não viu nenhuma maneira de concertar o erro. Ele se virou com um nó na garganta, começou a caminhar novamente para o bar, assustado demais para olhar pra trás e ver como Harry estava. Dessa vez nem se deu ao trabalho de corrigir a si mesmo, sabendo que não importava se o chamasse de Potter ou Harry, contanto que fosse somente para si mesmo.

Quando entrou no bar, parecia que estava entrando em outra festa. Olhou para o relógio e incríveis duas horas tinham passado desde que saiu, as pessoas já estavam pra lá de bêbadas.

- Você está de volta! – Pansy exclamou assim que o viu, esbarrando em pessoas e derramando a bebida que segurava pra todo lado. – Venha, dance comigo.

Draco dançou por dez segundos. Ele estava mesmo interessado era nas bebidas, talvez se bebesse o bastante não só esqueceria Harry, mas também capotaria ali mesmo e enfim dormiria.

A primeira dose de uísque de fogo não surtiu efeito, por isso pedia ajuda de Pansy sobre como ficar embriagado mais rápido. Ela sorriu, bateu na mesa novamente, passou o braço sobre os ombros de Draco e pediu vários copos que Draco nem conseguiu quantificar. Era vinho, ela disse, mas para Draco estava muito mais escuro que vinho. Ele bebeu de qualquer jeito.

A primeira bebida foi engolida com dificuldade, desceu na garganta queimando mais que o uísque de fogo. Mas lá pela quarta (ou seria a quinta?) ele já quase não se sentia mal.

De repente a música estava muito mais atraente que antes, a sala maior, mais colorida.

- O que é isso mesmo? – Ele gritou desnecessariamente para Pansy.

- Eu não sei. É algum vinho que os vampiros podem beber.

- Vampiros?! Porra.

Mas ele não se arrependeu, pelo menos não ainda.

A música percorreu seu corpo e ele pediu mais um copo do vinho do vampiro mesmo, quem se importava? Bebeu sem deixar sobrar uma gota e voltou a dançar. Dessa vez Blaise não passava por nenhuma metamorfose.

- Que bom que está de volta! – Blaise falou ao ouvido dele.

- Estou feliz por estar de volta.

Depois disso Draco percebeu que estava com fome, mas em vez de comer pediu mais bebidas para encher seu estômago, dessa vez não só vinho, mas uma variação do que ele via pela frente.

Logo a fome foi esquecida e a sala girava. O vinho de vampiro ainda se sobressaindo em seu organismo. Ele já não sabia quem era quem, que horas era ou o que estava fazendo ali. Lembrou-se brevemente de estar quebrando uma promessa, mas ninguém saberia.

Por um segundo reconheceu Blaise e se agarrou a ele, logo esquecendo novamente quem o garoto era.

- Quem? – Draco perguntou.

- É o Blaise. Cara, acho melhor você parar. – Blaise agarrou o copo de Draco e tentou tomar a bebida da mão dele, mas Draco se afastou.

- Olha só o que você me deu! Obrigado, adorei o presente! – E bebeu tudo de uma vez.

- Draco, qual é.

Draco se agarrou ao pescoço dele e voltou a dançar desajeitadamente. Blaise riu da situação e acabou se rendendo e dançando junto.

- Ei! – Draco exclamou ao olhar Blaise de perto, como se tivesse acabado de perceber que ele estava ali. – Eu gosto de você, sabia?

- O que? Eu sei, fica tranquilo. – Blaise riu, era um grande amigo por aturar o Draco Bêbado.

- Você sabe? Como? Nem eu sabia.

- Ah, por favor. Você descobriu agora? – Ele revirou os olhos.

- É claro, não seja convencido. Mas shhhhh, não diz pra ninguém, ainda é segredo.

- Ok.

- É! Eu posso dizer. Eu gosto mesmo de você. Seria bom saber o que você acha de mim, Harry.

- Eu também gosto de vo-

Blaise não terminou a frase o que deixou Draco perplexo. Você gosta de mim ou não, Harry? Uma decisão seria boa.

- Hm, Pansy? – Blaise procurou pela garota. – Pansy!

- O que? O que foi?

- Acho que o Draco tá precisando ir embora. Tipo, agora.

- Mas a festa...

- Agora!

Draco se perguntava quando Harry ficou tão intimo de Pansy. Mas na verdade tudo o que importava era saber a resposta.

Mas a resposta de que mesmo?

- Eu não acho que quero beber mais. – Draco disse para Pansy. – Nós podemos ir embora agora?

- É claro, Draquinho. – Ela sorriu, apesar de Draco achar algo perturbador no olhar dela. – Blaise, me ajuda a carrega-lo.

E assim ele deixou a felicidade para trás quando saiu do bar para o ar frio.

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Draco ainda não conseguia dormir, então se livrar do efeito do álcool foi ainda pior para ele. Enquanto ficava deitado em sua cama do dormitório, se perguntou como e há quanto tempo tinha chegado ali.

Ele poderia ter recorrido a uma poção para ficar sóbrio, mas nem conseguia ao menos sair do quarto, então desistiu na primeira tentativa. Sua cabeça girava e havia ânsia de vômito, mas ele não se entregou a urgência. Não foi possível saber quanto tempo levou para o efeito do álcool passar, mas ele agradeceu quando a eternidade acabou.

Apesar de ter permanecido consciente durante todo o dia, havia um grande borrão na memória de Draco ao ponto de desconfiar se não havia mesmo pegado no sono.

Ele sacudiu a cabeça quando percebeu estar quase completamente sóbrio, colocou os pés para fora da cama e olhou para o relógio que pendia na parede do dormitório dos Sonserinos. Já eram quase onze horas da noite. Draco se sentiu incomodado por isso.

Quando ele chegou à sala comunal, várias pessoas estavam ali, muitas das quais pareciam mais bêbadas que ele. Pansy foi a primeira a prestar atenção na presença de Draco e trocou um olhar rápido com Blaise. Os dois se levantaram das poltronas onde estavam sentados e puxaram Draco para um canto.

- Você tá melhor? – Pansy perguntou e franziu as sobrancelhas.

- Hm, eu suponho que sim. Minha cabeça ainda tá girando, mas pelo menos eu consigo ficar de pé, então, hey progresso!

- É um grande progresso mesmo, você estava completamente acabado. – Blaise acrescentou. – Nunca pensei que te veria daquele jeito, Draco.

- Foi mesmo tão ruim? Caramba.

- Olha, ele tem o direito de encher a cara uma vez na vida, Blaise. – Pansy pareceu ofendida. – Além do mais, nós todos já fizemos isso, por que não ele?

- Ei, eu não estou reclamando!

- Que seja...

- Calem a boca. – Draco revirou os olhos. – Na verdade eu queria saber o que diabos aconteceu mesmo? Eu tenho um branco na minha mente, mas não tenho certeza se eu estava dormindo...

- Ah pelo amor de Merlin, uma pessoa que não sabe ficar bêbada... – Pansy disse e virou as costas para Draco. – Você cuida disso, Blaise. Eu não consigo.

Blaise não esperou que Pansy estivesse longe o suficiente e já começou a empurrar Draco em direção ao dormitório deles. Draco também não teve tempo de contestar.

- Nós precisamos ter uma conversa séria. Tipo, muito séria mesmo. – Jogou Draco em uma das camas e se sentou ao lado dele.

Blaise olhou para Draco e balançou a cabeça, parecendo impaciente. Depois balançou os pés e finalmente desistiu de ficar sentado, passando a encarar Draco de cima quando ficou em pé na frente dele.

- Eu nem sei como falar isso. Eu pensei bem, sabe, então eu decidi que quem deve falar alguma coisa é você e não eu. Afinal, eu sou seu amigo, certo? – Draco respondeu à pergunta com um aceno de cabeça confuso. – Ok, então você tem que dizer. Isso é uma coisa que amigos contam um para o outro.

- Eu não faço a menor ideia do que você está falando. – E era verdade.

- Certo, eu vou supor que você não sabe mesmo, mas só porque você estava realmente muito bêbado ontem. Então eu vou te dar uma dica e você vai continuar. Ok, três coisas: Gostar de alguém, alguma coisa sobre sua sexualidade e Harry Potter.

Draco gelou do começo da frase até o fim, e quando Blaise disse Harry Potter seu coração deu um salto. Ele definitivamente tinha feito alguma coisa sob o efeito do álcool.

O garoto fechou os olhos e respirou devagar para se acalmar. Afinal, qual era o problema? Blaise tinha razão, isso era uma coisa que amigos contam aos amigos e se ele se considerava um amigo de Draco, ótimo.

- Ok. – Draco continuou a respirar fundo, não conseguia encarrar Blaise nos olhos. – Ok, certo. Tudo bem. Eu não sei o que está acontecendo comigo. Eu acho que... Certo. Eu não sei mesmo, tá tudo muito estranho desde aquele maldito dia na Grifinória. Mas vou responder às suas três coisas e é bom enfatizar que só estou fazendo isso porque você é meu amigo e estou me sentindo meio que obrigado. Primeiro: Pode ser que eu, hm, "goste" de alguém. No entanto, eu não tenho certeza nenhuma. Segundo: Pode ser que eu não seja mesmo hétero ou sei lá. Talvez eu não goste apenas de garotas, porque tipo, você já viu garotos? E terceiro: Por mais que me doa no fundo da minha alma dizer isso, pode ser que essa pessoa seja certo Grifinório de cabelos bagunçados. E só para acrescentar, eu odeio a minha vida.

Draco pensou que não conseguiria falar tudo aquilo, mas teve um sentimento estranho de alívio quando disse tudo em voz alta, apesar de ter deixado de fora a parte da maldição que o perseguia desde o "acidente". Ele não só estava compartilhando aquilo com alguém, como também estava admitindo para si mesmo pela primeira vez.

Quando olhou para cima, imaginou que Blaise estaria bravo ou irritado ou qualquer coisa que não fosse um sentimento bom. Entretanto, Blaise deu um meio sorriso e suspirou, voltando a se sentar na cama.

- Eu pensei que iria dar mais trabalho pra você me contar.

- Você não está com... raiva?

- Por que eu iria ficar com raiva? – Blaise estava mesmo confuso. – Eu te contei quando descobri o que eu era, por que teria raiva de você por ser bissexual?

- Eu não estava me referindo a isso. – Draco corou sem perceber. – Estava falando por causa, bem, você sabe, Grifinória e tudo o mais.

- Oh, você quer dizer o Potter? Sinceramente prefiro que você goste dele que o odeie. Contanto que não fique falando o tempo todo sobre isso.

Draco se permitiu sorrir. Blaise era realmente um bom amigo, compreensivo.

- Eu fiz alguma coisa enquanto estava bêbado, não foi? Por isso você veio me perguntar.

- Você certamente fez. E não foi dormir, se é isso que está pensando.

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Draco caminhava e repetia para si mesmo que não estava fazendo isso como uma desculpa para ir ver Potter. Era uma necessidade, ele afirmava, apesar de não ter certeza de a qual necessidade ele se referia.

A noite de sábado para domingo havia sido turbulenta. Mesmo se pudesse dormir, ele não teria conseguido, tão barulhento estavam seus pensamentos depois da conversa com Blaise. O domingo passou rápido para alguém que não saiu do quarto por não ter energia para nada. Foi então na madrugada que, ao encarrar o teto da cama sem conseguir pregar os olhos, que Draco teve uma ideia sem precedentes, mas que fazia todo o sentido do mundo.

Era por isso que agora, em plena duas horas da manhã, ele andava rapidamente pelos corredores vestindo apenas pijamas, com os olhos inchados pela falta de sono.

Quando chegou ao destino, quase virou de costas e foi embora, mas a visão do quadro da mulher gorda que estava convenientemente dormindo o convenceu de ficar.

Ele precisou bater três vezes para a mulher acordar.

- O que... Quem é você? Você tem a senha? – A mulher perguntou ainda meio perdida no sono.

Draco respondeu a mesma senha que tinha dito no dia do "acidente". Incrivelmente o quadro se abriu, os Grifinórios não a tinham mudado. Havia uma razão para serem chamados Grifinórios e não de Corvinais.

Por sorte não havia ninguém na sala comunal. Draco se sentiu tentado a fuçar nas coisas que estavam ali, mas desistiu logo. Era possível que alguém o visse e isso não seria prazeroso de explicar.

Depois de subir as escadas o mais silenciosamente que pôde, Draco olhou ao redor do dormitório tentando lembrar qual era a cama de Potter. Ele puxou as cortinas calmamente, mas não havia ninguém deitado ali.

- Que diabos você tá fazendo aqui? – Uma voz familiar se elevou atrás dele. Draco rezou para que fosse Harry e suspirou ao perceber que realmente era.

No entanto, no instante em que o encarou se arrependeu de ter tido aquela ideia. Como iria explicar tudo sem parecer incrivelmente estranho?

- Você pode me responder? – Harry puxou Draco para um canto. – Malfoy, o que você faz aqui? Tentando fazer outra de suas "pegadinhas"?

Draco percebeu que Harry estava agindo diferente do dia da visita à Hogsmeade, então lembrou como ele tinha sido um idiota ao falar aquelas coisas para Harry e que era provavelmente por isso que ele se sentia magoado.

- Eu posso falar com você? – Draco se esforçou um pouco para não parecer incomodado com o modo que Harry tinha falado com ele.

- Certo. – Harry respondeu secamente e saiu do quarto. Ele nem chamou por Draco, simplesmente desceu as escadas e sentou-se em uma das poltronas com os braços cruzados, as sobrancelhas erguidas. Draco correu atrás, parando em pé em frente a ele. – Diga o que você quer falar que é tão importante para invadir meu quarto no meio da noite.

Duas coisas que Harry e Draco compartilhavam no momento: Ambos vestiam pijamas e estavam com mais sono que dez pessoas juntas.

- Ok, eu admito que não devia ter entrado aqui sozinho na madrugada, mas é mesmo importante, eu não viria se não fosse. – Draco se remexeu pensando em como explicar o que ele veio fazer ali. – Eu deveria primeiro pedir, hm, desculpas? Pelo que eu falei em Hogsmeade? Eu fui um babaca tão grande que inclusive admito. O que eu disse foi desnecessário e definitivamente mentira. Isso não tem nada a ver com Voldemort, eu lhe asseguro. E por isso peço perdão por ter falado algo tão cruel.

Harry o olhou de cima a baixo e suavizou a expressão. Descruzou os braços e indicou a poltrona ao lado para Draco.

- Você começou bem, então... Sente-se. Eu vou permitir que continue.

- Tudo bem. – Draco sentou, dessa vez falou encorajado pelo que Harry disse. – Eu sei que eu disse que a maldição tinha sido quebrada e tudo mais, entretanto eu estava mentindo. Eu não consigo dormir de jeito nenhum. Você está acordado na madrugada, suponho que não consegue dormir também. Então eu estava pensando sobre o que poderia estar acontecendo e percebi que talvez, bem, talvez a maldição queira dizer que nós dois só podemos dormir se estivermos... Juntos. – A última palavra saiu mais baixa que um sussurro.

Harry pareceu confuso por um instante.

- Suponho que o que você disse faça algum sentido. Talvez nós devêssemos tentar, não acha? – E subiu as escadas da mesma forma que havia descido, sem olhar para Draco antes de partir.

Perplexo por não ter ido tão mal quanto esperava, Draco subiu novamente os degraus. Quando alcançou o quarto, Harry já estava descalço e deitado na cama.

- Isso vai ser estranho, não vai? – Draco falou baixo para não acordar os outros, antes de deslizar para o lado de Harry.

- Definitivamente. – Harry fechou a cortina ao redor deles.

Draco se deitou o mais afastado de Harry que o espaço da cama permitia, muito constrangido para tocar o outro de qualquer maneira que fosse. Por alguns instantes só se podia ouvir a respiração dos dois.

- Isso não está funcionando. – Draco falou, frustrado. – Talvez minha teoria esteja errada afinal.

Ele pensou em sair dali, mas antes mesmo de manifestar o pensamento, Harry encostou a mão no ombro dele, como se pedisse para ele ficar, os dedos roçando de leve na pele de Draco onde a blusa do pijama não cobria.

Sutilmente, a vontade de dormir apareceu, dessa vez não só como uma necessidade, mas como um desejo por puro prazer. Harry devia ter sentido também, já que se ajeitou de lado, se aprumando no travesseiro e soltou o ombro de Draco. E da mesma forma sutil o desejo foi embora.

- Eu não acho que isso vá dar certo.

- Vamos lá, Malfoy, dê um tempo. Provavelmente nós só estamos um pouco exaltados, por isso o sono não vem.

- Certo, mas eu só vou esperar um pouco.

A ideia havia sido dele, Draco não entendia o porquê do desconforto. É claro ficar deitado propositalmente ao lado de Harry era algo de se espantar, mas ele deveria aceitar a situação, ainda mais agora que finalmente admitia para si mesmo o que sentia. Agora ele já não se importava com a promessa que fizera, pensaria em Harry o quanto desejasse.

Com essa grande aceitação, Draco ficara apreensivo. Não por gostar de um garoto, isso não significava nada de mais, o problema era a forma que ele lidaria com a situação. Harry era seu inimigo mortal há pouco tempo, agora ele desejava algo a mais. No momento não eram inimigos (o que eles seriam?), mas para dar esse passo extra levaria um grande esforço.

- Você não está mais irritado comigo, está? – Draco cogitou a possibilidade de criar "laços" com Harry, até riu internamente pela ironia da situação em que se encontrava: Antes desejando que Harry ficasse o mais longe possível e agora só conseguindo pensar em puxá-lo para mais perto. – Quero dizer, a respeito do que eu disse sobre Voldemort?

- Não vou mentir e dizer que não fiquei com raiva, porque eu fiquei com muita. – Draco sentiu a respiração profunda de Harry enquanto ele falava. – Pensar sobre Voldemort e sua volta me deixam muito incomodado, sabe. Eu fico com ódio, na verdade. Por tudo que ele me fez passar, por tudo o que eu senti mesmo depois dele ter morrido. Em especial por todas as pessoas que morreram por causa dele. Mas eu te perdoei, entendo porque fez o que fez, estava irritado também. É só que... Isso é um peso que nunca vai deixar minha mente... Desculpe, não acho que você queria me ouvir falar sobre isso.

- Está tudo bem, pode falar sobre isso a vontade.

- Sério? Muitas pessoas se incomodam quando eu menciono o assunto, ou melhor, quando eu mencionava. Eu já não falo mais sobre isso com ninguém.

- Eu não me incomodo, suponho que entenda como é passar por isso, como é se sentir preso ás garras de um homem sem nariz.

Harry franziu as sobrancelhas e virou o rosto para abafar a risada no travesseiro. Foi a primeira vez que Draco ouvia a risada dele, pelo menos de perto e uma risada genuína. E dessa vez especial, uma risada que ele tinha causado no outro. Ele não reprimiu o sorriso e até gargalhou junto com Harry, de repente consciente da presença de todas aquelas pessoas no dormitório.

- Você não é tão ruim quanto eu pensava, Malfoy. – Harry sorriu para ele quando a crise de risos passou. – Talvez eu devesse ter sido seu amigo no primeiro ano.

- Talvez devesse mesmo. – E talvez as coisas fossem diferentes, Draco emendou para si mesmo.

A manga da camisa de Harry havia subido enquanto ele se contorceu para rir no travesseiro. A blusa do pijama de Draco era apenas uma regata, por isso ele sentiu diretamente na pele quando Harry inconscientemente encostou o braço nele. Acima do cotovelo o contato ainda tinha a barreira da camisa, mas parte do cotovelo, o antebraço e a mão estavam livres para o toque.

Foi com uma leve sensação de um calor aconchegante que Draco caiu no sono.

FIM DO CAPÍTULO 3