Capitulo 2

O melhor amigo dele


O quarto era iluminado por apenas uma fresta de luz, que adentrava, sem licença, pela cortina escura. As roupas de cama pelo chão, assim como todos os objetos que deveriam estar sobre algum móvel. No centro, a sofá predileto do amigo, abrigava a figura desleixada em que Albus Severus se transformara naqueles sete dias.

Barba por fazer, vestindo roupas que Scorpius não duvidava serem ainda do dia do velório, pelo estado deplorável em que se encontravam. A cabeça pendendo por sobre o encosto, uma garrafa de uma bebida trouxa que ele não reconhecera na mão esquerda, enquanto a mão direita rodava a varinha.

-Eu não quero comer nada, mãe. – disse em voz baixa, ao ouvir a porta se fechando com um "clec"

-Não vim trazer-lhe comida.

Albus levantou a cabeça de repente, encarando o amigo, ou aquele que costumara chamar de amigo, surpreso. Mas a expressão não se perpetuou por muito tempo. Mais alguns segundos e os olhos verdes se estreitaram, antes dele voltar a pender a cabeça para trás.

-Ah, é você.

-Sim, sou eu... – Scorpius entendeu aquilo como uma permissão para ficar, sendo assim se pois a andar pelo quarto, tentando não pisar em nada – Esse lugar está um lixo.

Um riso frouxo saiu da boca de Albus.

-Minha vida está um lixo... – resmungou, tropeçando um pouco nas palavras. Além de dilacerado ele estava, também, alcoolizado.

Levou a garrafa à boca, mas Scorpius não lhe permitiu saborear o liquido, arrancou-a de sua mão antes que encostasse o gargalo nos lábios.

Albus voltou a levantar a cabeça para encará-lo.

-Me de isso. – não houve resposta – Me de isso, seu cretino! – berrou insinuando um levantar do sofá que foi interrompido quando o outro abriu a mão que segurava a garrafa, deixando-a cair e se espatifar em mil pedaços – Não! – o olhar saiu dos cacos no chão para a expressão fria a sua frente – Desgraçado! – partiu para cima dele, varinha em punho.

Mas naquele estado Scorpius o detera com apenas uma mão, o desarmando e o jogando de volta no sofá.

-O que diabos você veio fazer aqui, seu maldito. – gritou, levando as mãos à cabeça. Os olhos fechados, para não encará-lo.

-Lhe infernizar, talvez... – respondeu, na sua forma fria, tão habitual – O que seu pai diria se lhe visse nesse estado?

-Meu pai está morto.

Albus mantinha a cabeça pendente para trás, não abria os olhos, agora não mais porque não queria encará-lo, mas porque via dificuldade em não permitir que os mesmos marejassem.

-Então... – ele cruzou os três últimos passos que o separavam do sofá onde o amigo estava – Por que se importa?

-Porque eu não sou você! – berrou em resposta – Por que eu o amava... – completou, encarando o outro mais uma vez, a raiva borbulhando junto com as lágrimas já prontas para caírem – Porque eu tinha um pai que eu podia amar, ao contrário de você. – rosnou em tom baixo, sabendo que aquilo magoaria Scorpius mais do que qualquer coisa.

Em outros tempos ele virar-lhe-ia as costas e bateria a porta deixando Albus, mais uma vez, sozinho.

Em outros tempos...

Hoje Scorpius se agachou a sua frente, apoiando um dos joelhos no chão para deixar o rosto mais próximo da altura em que seus olhos se encontravam.

-Então, por que, ao contrário de mim, que sou um cretino incessível de pai e mãe... você não se deixa chorar por ele? - apoiou as mãos sobre as do amigo – Não há vergonha nisso, Sev. O seu pai merecia...

As lágrimas não mais lhe obedeciam ao comando mental de parar. Os soluços vieram sem aviso, numa necessidade galopante de puxar ar para os pulmões. Ele se deixou despencar nos braços do amigo, que o acolheu em silencio. E assim ficaram, até que Albus colocasse para fora toda a dor que suprimira. O que ele não soube dizer quanto tempo durou.

x

A porta do quarto se fechou com um estrondo desnecessário, a fazendo assustar-se de fronte ao espelho do banheiro.

Saiu para o quarto, já prevendo o que causara o barulho e, como esperava, encontrou o marido, andando de um lado para o outro, enfurecido. Algo no seu olhar a alertava que não somente uma pequena irritação cotidiana que o movia naquele momento.

-Draco? Está tudo bem? – perguntou com cautela.

Ele balançou a cabeça negativamente, sem parar de andar.

A esposa, Astoria, achou por bem seguir para a cama e se acomodar, esperando até que o marido resolvesse lhe dizer algo. O que levou mais alguns minutos.

-Você acha que eu fiz errado? – perguntou ao mesmo tempo em que a encarava, parando o caminhar.

-Errado?

-Com Scorpius? – girou a mão no ar enquanto prosseguia – Com Scorpius e aquela menina... A... – não queria falar o nome, não foram poucas as brigas conjugais que desencadeara por causa dele.

-...A Potter. – completou Astoria, a expressão carrancuda tomando conta da face. Ela nunca conseguira esconder o que sentia nas feições, como sua mãe por exemplo – Está um pouco tarde para ter remorsos. – resmungou, se levantando da cama – Por que voltar nesse assunto?

-Porque ele está lá! Agora! Dentro da casa dela! – gritou ele, em resposta, apontando para a porta como se a tal habitação ficasse logo ao lado.

Astoria girou o corpo por sobre os calcanhares. E o olhar que lhe deu fez Draco repensar sobre a atitude que tivera ao contar-lhe. Estava tão, ou mais irritada que ele.

-O que ele foi fazer lá?

-Consolar o amigo... – foi a vez dele resmungar e se deixar cair na cama, sentado – Ele vai reencontrá-la, Astoria... Eles vão se entender e nosso inferno vai recomeçar.

-Só por cima do meu cadáver! – gritou a esposa – Eu não vou permitir que aquela mulher entre aqui, entendeu!

-Astoria, por favor... Eu preciso que me ajude a pensar! Não vai adiantar ter uma crise agora!

Mas ela não lhe escutava mais. A única coisa que queria era falar e falar e falar... Ele conhecia bem o texto.

-Se você quer ter relações com aquela gente o problema é seu Draco!

-Astoria...

-Dane-se se o falecido ajudou a sua família! Dane-se que ele depois a seu favor no naquele julgamento! Dane-se!

-Astoria, por favor...

-A filha daquela vagabunda não vai entrar aqui dentro, Draco! Muito menos ela, entendeu? – rosnou, como se a culpa de tudo aquilo fosse dele... ou "dela".

-Diga isso ao seu filho, não a mim. – a forma como se referira a mãe de Lily não o agradou, por isso ele voltou a levantar-se e seguiu em direção a porta.

-Aonde você vai?

-Não interessa... – e bateu a porta, com a mesma força que batera quando entrara.

Seguiu para a biblioteca pensando em como, numa casa tão grande, ele não conseguia um lugar para refletir tranqüilamente.

Sabia muito bem que Astoria nunca permitiria o namoro entre o filho e a Potter, ela não precisava repetir tudo. Para ela, não importava em nada o que Harry Potter já houvesse feito por sua família... O que não fora pouco.

Mas não podia reclamar. Ele mesmo nunca lhe dera o crédito devido porque... Por que estava ocupado demais sentindo inveja de tudo que ele tinha... De tudo que ele era... De tudo que "ela" amava nele.

Suspirou cansado ao chegar no recinto. Scorpius estava certo, ele se importava. E talvez... talvez também estivesse certo quando afirmou que o melhor seria demonstrar isso.

Começou a ponderar as possibilidades: O que haveria demais? Não o encontraria de braços dados com ela, nem a envolvendo pela cintura enquanto seria obrigado a conversar polidamente com os dois. Seu incomodo com aquela casa havia se acabado com a morte dele. Então, por que não ir até lá e mostrar que se importava? Como seu filho fizera?

Ele não era mais um covarde... Ou era?

A resposta se concretizou conforme ele se desmaterializava da biblioteca, aparecendo em seguida, no mesmo ponto onde Scorpius aparatara, horas antes.

Levou bem mais tempo que o mais jovem, porém, para se aproximar da porta e tocar a campainha dourada.

Não demorou muito para que um dos habitantes viesse abri-la.

-O que é isso? Uma invasão? – chiou o rapaz de aparência suada que o recepcionara.

-James... – advertiu alguém ao fundo. Alguém que ele reconheceria somente pelo respirar – Quem você está destratando agora?

Com um resmungo ele abriu a porta toda e chegou para o lado para que a mulher tivesse uma visão completa do homem que tocara a campainha.

-O senhor Malfoy em pessoa, mãe. – respondeu – Vai deixá-lo entrar também?

Os olhos se encontraram como há muito tempo não faziam. A surpresa era visível, mas Draco não soube dizer se ela ficara feliz em vê-lo. Antes ele saberia sem se quer precisar mirar os olhos castanhos.

-E há algum motivo para não deixá-lo entrar? – ela perguntou, após se recuperar da visão e lançar um leve olhar questionador ao filho.

-Papai não gostava dele.

-Eu não gostava do seu pai, rapaz. – chiou, entrando de uma vez na casa, impaciente com aquela ladainha. O primogênito dos Potter tinha fama de insolente. Pelo visto ele fazia por onde merecê-la.

Encarou Ginny por um momento, ela trazia uma das sobrancelhas levantadas, parecendo aguardar a discussão infantil chegar ao fim.

-Então o que veio fazer aqui? – resmungou mais uma vez o petulantezinho de cabelos espetados.

-Certamente não vim me juntar ao muro de lamentações. – rosnou, já se esquecendo por completo qual era a sua intenção ao pisar ali.

-Então pode dar meia volta e ir para...

-James! – voltou a censurar a mãe, o fazendo calar a boca – Acho melhor você ir tomar o seu banho.

E foi o que ele fez, após avaliar Draco de cima a baixo, como que o revistando com os olhos.

-Desculpe. – disse o homem assim que o jovem se retirou – É que esse rapaz... – e apertou a mão como que dizendo, sem palavras "me da nos nervos".

-Você costumava ter o mesmo efeito sobre as pessoas.

Ele assentiu em silencio, algo que se manteve por mais alguns minutos. Ginny aguardou pacientemente que ele dissesse ao que veio. Após um leve olhar em torno, na busca de algo que o fizesse desviar a atenção dela, perguntou:

-Onde está meu filho?

Ela sorriu, provavelmente por perceber a dificuldade que ele estava tendo de entrar no assunto que o trouxera.

-Conversando com Albus... Veio buscá-lo?

-Sim... Ah... não, não exatamente. – ela pendeu a cabeça, confusa – Eu, também queria lhe dar meus pêsames. – os olhos dela brilharam com algo que lhe pareceu surpresa – Sei que eu e seu marido nunca tivemos uma boa relação, mas... – respirou fundo – Não é muito fácil para eu falar isso... – sorriu sem graça.

-Eu sei... Mas estou gostando de ouvir... Continue.

-...Ele... Foi um grande homem... – sussurrou, no tom mais baixo que conseguira usar, para que ele mesmo não pudesse ouvir o que dizia. – Um irritantemente perfeito grande homem... – incluiu, levantando os olhos para voltar a encará-la. Depois de mais alguns segundos, achou por bem completar - Eu o odiava por isso.

Ginny concordou com a cabeça, suavemente, e ele sabia, tinha certeza que ficara extremamente feliz por ouvir suas palavras.

-Ele tão pouco supria um grande amor por você, sabe...

Draco desprendeu os olhos dela para olhar além de seus ombros e contemplar a figura sisuda que acabava de descer a escada.

-Como vai, Weasley? – perguntou, mais por educação do que por se importar.

O outro estava velho, provavelmente tão velho quanto ele, mas Draco pensou que a barba ajudara a piorar o que já não era tão bom. Ele também lhe pareceu mais alto do que antes, quando se aproximou, a passos curtos. E, alguma coisa nos olhos afundados pelo cansaço lhe dava uma imagem horripilante, quase assustadora. Se fosse um garotinho de cinco anos, ele certamente fugiria correndo. Na verdade chegou a ter esse impulso, mas sua dignidade era um tanto maior... ainda.

-Indo, Malfoy.

-Pensei que fosse descansar, Ron... – disse a irmã lhe acariciando o ombro de forma zelosa – Você não dorme direito há dias.

-Eu estava descansando... Mas James achou por bem me acordar. – sorriu torto para o loiro.

Garoto insolente!

-Não havia necessidade. – respondeu a irmã. O rosto se fechando em ressentimento – O Malfoy só veio... Buscar o filho.

Felizmente ela não incluiu a segunda fala. Ronald Weasley era a última pessoa para quem confessaria o que acabara de dizer.

-Foi muito proveitosa a sua vinda, Malfoy. Eu ia mesmo lhe procurar amanhã.

Draco o encarou curioso.

-Procurar-me? E para que?

O ruivo voltou os olhos para a irmã.

- Ginny, será que eu poderia usar a sua biblioteca um instante? – ela a olhou preocupada, mas a sua inquietação estava longe de chegar aos pés daquela que incomodava Draco. E foi com grande aflição que ele a viu concordar em silêncio.

Ron indicou o caminho com a mão.

-Poderia me acompanhar, Malfoy?

Ele foi, mesmo que seus instintos estivessem gritando para não ir. Não havia como dizer não ao atual Chefe dos Aurores.


Continua...