Capítulo III
Horas de angústia e silêncio para Bella se arrastaram nos aposentos do duque. Mais pareceram séculos. An dando de um canto para outro, vestida no robe verde de Edward, ainda assim, sentia os pés congelados. Vasculhou o armário do escocês e encontrou um par de meias pretas de lã grossa. Calçou-as. Eram tão compridas que a agasalhavam até os joelhos. Reparou que a maioria das roupas dele era em tom verde, vermelho e preto. As cores que repre sentavam o clã dos Cullen.
O relógio de parede, colocado no hall, podia ser ouvido badalando quatro horas da manhã.
Aonde Edward teria ido? ela se perguntava. Talvez sumir com o corpo de Mike?
Apesar de bem agasalhada, ainda tremia. Possivelmente, pela extrema tensão. Como explicariam o sumiço de sir Mike Newton? Ele não poderia simplesmente desaparecer! Alguém que fosse mais chegado a ele, com certeza o procuraria. Por um instante, sentiu-se envergonhada de nunca haver lhe perguntado sobre uma sua família.
Será que essa seria mais uma lição a ser aprendida? Tal vez Edward tivesse razão ao lhe dizer que precisava de algu mas aulas. E, quem sabe, nesse exato momento, alguém estivesse falando com Barrigan e aguardando os policiais para prendê-la.
O som da maçaneta da porta girando atraiu-lhe a atenção.
O coração deu pulos ao ver Edward entrar acompanhado de Barrigan e quatro seguranças, além do visconde de Beckon. Porém, quem lhe chamou mais a atenção foi um senhor alto e robusto, trajando um agasalho de lã acinzentado, co mum aos inspetores de polícia.
— Desculpe, querida. Não pude preveni-la antes. Estes homens querem falar com você.
Ela sentiu o chão sumir a seus pés.
Edward adiantou-se e, com um dos braços longos e fortes, enlaçou a cintura delgada de Bella, colando-lhe o corpo ao seu. Ela ergueu o rosto para encará-lo, sem nada entender. Viu apenas as reluzentes faíscas caramelo nos olhos dourados, que apesar da gravidade da situação pareciam sorrir.
— Foi como eu lhes disse, cavalheiros. Não era necessário perturbar minha esposa.
Esposa? O que significava aquilo, Bella surpreendeu-se.
Edward intensificou tanto o abraço que ela foi obrigada a ficar na ponta dos pés, apoiar uma das mãos nas costas do escocês e depois lhe agarrar o cinto para poder equilibrar-se.
— Sinto muito, Alteza. Mas tenho algumas perguntas a fazer — pronunciou-se o inspetor.
Bella ouvia a voz grossa e imponente do oficial, que parecia vir de muito longe. Sentia como se estivesse vivendo um pesadelo, do qual poderia acordar a qualquer momento. Com grande esforço, dirigiu-se ao duque:
— Contou... a eles...
Antes que terminasse a frase, ele a interrompeu:
— Sim. Mas estão relutantes em aceitar o óbvio. Querem ouvir dos seus lábios.
— O quê? — perguntou ela, de forma automática.
— Que esteve aqui durante a noite toda — respondeu Edward com um sorriso e ao mesmo tempo inclinando a cabeça e afagando as faces delicadas com a ponta do nariz.
Um dos homens tossiu fazendo um ruído insinuante, trazendo-a de volta à realidade. Estava nos braços de Edward, nos aposentos dele e sendo abordada por um policial sobre o assassinato de Mike Newton.
Bella entendeu, por fim, o plano de Edward. Ele era, sem dúvida, um excelente ator. Estava arriscando-se para pro tegê-la! O que era uma grande tolice. Tomara que ele saiba o que está fazendo, pensou a duquesa, com um suspiro.
— Bella? — A voz de Edward a tirou dos devaneios. — Eles estão aguardando sua confirmação.
— Bem, eu... — titubeou ela, sem saber o que dizer.
— Isso é mesmo necessário? Eu estava aguardando para anunciar nosso casamento depois que os papéis chegassem a Londres.
Casamento? Bella interrogou-se em pensamento. Do que aquele homem estava falando afinal?
— Receio que não será possível, depois do terrível acidente no quarto da duquesa — respondeu o inspetor.
Bella sentiu as pernas bambearem, mas como estava se gura nos braços de Edward, não dava para ninguém perceber.
— Como lorde Barrigan e eu estávamos comentando, deve ter sido um ladrão — falou o duque, olhando para o anfitrião.
— Parece que sir Newton ouviu algum barulho e foi inves tigar — acrescentou Barrigan.
— Ele está... — arriscou Bella, sem coragem para termi nar a frase.
— Inconsciente. Ainda não sabemos a gravidade do seu estado. — Foi lorde Barrigan que respondeu.
Bella deu graças a Deus que Edward ainda a estivesse abra çando. Caso contrário, poderia desfalecer e cair ao chão.
— É lastimável que tudo isso tenha ocorrido nos seus apo sentos, milady — prosseguiu Barrigan, falando tão alto que poderia acordar qualquer um que ainda estivesse dormindo. — Por outro lado, estou surpreso com a novidade do seu casamento com Cullen. Como conseguiram disfarçar tão bem, Bella?
O inspetor tossiu intencionalmente e interveio na conversa:
— Milady, confirma que esteve a noite inteira neste quar to com o duque de Cullen?
— Eu já lhe disse isso! — exclamou Edward, em tom de contrariedade.
Bella tocou no queixo do duque, forçando-o a mover o rosto na direção dela. Depois falou coma voz melosa:
— Acalme-se, querido.
Não havia outra escolha, a não ser colaborar com a atua ção. Era uma questão de sobrevivência. E, sinceramente, esperava que estivesse fazendo a escolha certa.
— Confirma que estão casados? — insistiu o chefe de po lícia.
Bella olhou para Edward antes de responder, que continuava imóvel e tenso. Mas com o olhar, respondeu que sim com um sinal de cabeça.
— Por que duvida da palavra do duque? Acha correto, inspetor? — questionou ela com uma entonação arrogante.
O oficial corou.
— Perdoe-me, milady. É que existem alguns fatos que estão me atordoando. — Ele respirou fundo, antes de pros seguir: — Os lençóis da cama estavam revoltos, evidenciando que alguém os tinha usado. Como a senhora confirma ter dormido aqui, isso me deixa intrigado. Além do mais, havia um robe feminino na cadeira, ao lado da cama. A menos que tenha emprestado o quarto a uma outra dama, não sei como esclarecer o ocorrido.
Bella estreitou o olhar. O homem era obstinado, pensou. Tinha que improvisar algo, e rápido.
— Já que não poderemos mais guardar segredo sobre nosso casamento, é melhor dizermos logo a verdade, não é, querido?
Edward limitou-se a assentir.
Ela encarou o inspetor e procurou falar com segurança:
— Remexi os lençóis para dar a impressão de que tinha dormido ali. E, pela mesma razão, deixei o robe na cadeira. Preparei a cena toda para que, quando minha aia chegasse, não suspeitasse de nada. Assim evitaria comentários mal dosos. — Com um suspiro provocado, acrescentou: — Nunca imaginaria o que iria acontecer com sir Mike. Acredito que tive muita sorte por não estar lá, quando o ladrão entrou.
— Bem, acho que está tudo explicado — concordou o chefe de polícia. Depois, direcionou a atenção para Edward: — Sem querer ser impertinente, poderia me informar a data do ca samento e a igreja? Apenas para registro.
Bella empalideceu. E, sem querer, fechou os olhos. O ho mem não desistia!
Edward tomou fôlego e, com uma postura de indiferença e um sotaque escocês acentuado, respondeu:
— Não vejo no que isso possa interessar. Porém, segundo as leis da Escócia, se um homem e uma mulher se declaram casados, perante testemunhas e na frente de uma autorida de, isso é tido como verdadeiro. — Com um gesto dramático, finalizou: — Todos os presentes aqui ouviram nossa decla ração. E o senhor, inspetor, é um representante da lei.
Os homens se entreolharam sem entender.
— Pelas leis escocesas, lady Isabella Swan é agora minha esposa, a duquesa de Cullen — informou Edward com ar solene. — Agora, se os cavalheiros não se importam, gosta ríamos de desfrutar a nossa devida privacidade.
Bella esforçou-se para abrir as pálpebras pesadas pelo sono, ao sentir o calor do sol em seu rosto, no momento em que Alice abriu as cortinas da janela.
— Bem... após uma noite de aventuras, está com uma bela aparência! — exclamou a criada.
— Alice! — espantou-se Bella, enquanto percorria o am biente com o olhar, recordando-se vagamente do acontecido horas antes.
— Deixe-me tentar entender o que aconteceu... Quando me recolhi ontem à noite, deixei milady acomodada; sir Mike Newton foi encontrado naquela mesma cama, em meio aos lençóis amarfanhados e manchados de sangue.
— Alice... — Bella tornou a chamar, enquanto procurava afastar o sono, esfregando os olhos com as mãos.
A aia prosseguiu, evitando a interrupção:
— Porém, milady não estava lá. E, sim, na cama do rico escocês, com quem se declarou casada!
A criada fez uma pausa, como se quisesse produzir um efeito dramático. Bella não teve coragem de encará-la. Com o olhar baixo, pediu:
— Será que pode me trazer um pouco de água? Estou com uma terrível dor de cabeça!
— Não é para menos! Juro que, quando me contaram, considerei impossível... Sei o que pensa sobre um novo rela cionamento... — Enquanto enchia um copo com a água fresca da moringa posta sobre a mesa, num dos cantos do quarto, aproveitou para dar uma pausa. Depois prosseguiu: — Bem, pelo menos, até ontem eu achava que sabia o que passava em sua cabeça.
Bella acompanhava os movimentos da aia pelo espelho da parede, que ficava do lado direito da cama.
— De qualquer forma, é fácil entender por que milady se derreteu nos braços daquele homem fascinante! — exclamou Alice e ofereceu-lhe o copo com o líquido.
Após tomar um gole de água, Bella meneou a cabeça em protesto:
— Não é nada do que está pensando.
— Ah, é mesmo? Então me explique o que aconteceu com sua camisola.
— Foi queimada.
— Queimada?
— Sim. E, provavelmente, as cinzas foram levadas pelo vento.
— Que homem queimaria a camisola da esposa?
— Aquele que quisesse destruir as manchas de sangue no tecido.
A criada ficou pensativa e Bella desviou o olhar.
— Então... foi isso que aconteceu... eu deveria ter dormido lá! Se fosse comigo, o desaforado do poeta teria realmente se machucado. Era o que merecia! Não um simples corte na testa...
— Um simples corte? — repetiu Bella, surpresa.
— Pelo menos foi o que o médico disse a Barrigan. O sangramento foi abundante porque atingiu o supercílio. — Percebendo que Bella empalidecera, perguntou: — Está se sen tindo bem?
— Preciso falar com Edward imediatamente e parar com essa encenação toda. Traga-me um vestido, Alice.
— Eu já trouxe o azul com os botões de madrepérola. Mas, se quiser, posso escolher outro, uma vez que o duque deu ordens para que buscassem todas as suas roupas e os aces sórios e fechassem a casa de milady em Londres.
— Ele fez o quê? — Bella gritou, afastando os lençóis e erguendo-se. — Quando? E com permissão de quem?
A aia deu um risinho debochado.
— O duque não dá tempo para ninguém respirar. E exige que cumpram suas ordens no ato. Tem tantos servos que nem consegui contar. Parece que estão se preparando desde quatro horas da madrugada.
— Preparando-se para quê?
— O duque ordenou que as carruagens estivessem prontas para a viagem. Ele quer voltar para a Escócia o mais breve possível. E, quanto a mim, já que não fui participada por ninguém, prefiro ficar em Londres.
— Oh, não! Ele não pode fazer isso!
— Não só pode, como fez.
Bella socou o travesseiro e desabafou:
— Como pode? Nem mesmo tivemos tempo de conversar direito!
— Não falou sobre Masen?
— É o que estou dizendo! Não tive oportunidade.
— Passou a noite nos braços dele e não teve tempo para conversar? Que incrível! — A criada ergueu o avental e co briu o rosto para ocultar o rubor.
— Não passei a noite nos braços dele! Tudo isso é sim plesmente ridículo!
Alice baixou o avental, mas pelo olhar ficou óbvio que ela não estava totalmente convencida com as explicações. Mes mo assim, procurando afastar o embaraçoso assunto, pros seguiu informando-a das notícias que ouvira:
— Segundo Barton, a esposa de Mick, o homem de confiança do duque, parece que Sua Alteza não quer ficar aqui um minuto a mais do que o necessário. Ela também me re velou que Edward Cullen veio a Londres especialmente para escolher uma noiva. E, agora que a encontrou, precisa voltar rápido para a Escócia.
— Que loucura! Tenho que falar com ele agora mesmo! Traga o vestido,Alice.
— O azul?
— Qualquer um! Depressa!
Bella mais atrapalhava do que ajudava Alice com o ves tido. Havia tantos botões nas costas e mangas da roupa que ficava difícil abotoá-los, com a duquesa se agitando daquela maneira.
Se Mike sofrera apenas um corte sem conseqüências gra ves, por que Edward a havia feito acreditar no pior e concordar com a farsa do casamento? — pensou Bella, tentando dar algum sentido àquela história toda. Condenava-se por ter entrado em pânico. Se tivesse acendido as velas do candelabro prin cipal do quarto, nada daquilo teria acontecido. Agora era tar de para lamentar-se, porém, ainda podia fazer algo para im pedir que a notícia do casamento com o duque se espalhasse.
Alice recusou-se a deixá-la sair sem, pelo menos, prender os cabelos. Porém, com toda aquela pressa da senhora, o resultado não foi dos melhores. O penteado não tinha nada de artístico, como era de costume. Mas estava apresentável.
Em meio aos protestos da criada, Bella saiu, apressada, e desceu a escadaria. Ao passar pela sala de estar, deparou com Jessica e Beth, sentadas lado a lado no sofá central, saboreando um chá.
— Alguém viu o duque de Cullen? — perguntou Bella para Jessica, ignorando os protocolos.
Não havia tempo a perder com maneirismos. Precisava parar com aquela loucura!
— Seu vestido é deslumbrante, Bella! Quanto pagou por ele?
— Posso dá-lo de presente, Jessica, se me disser com ra pidez onde posso encontrar o duque.
Lady Beth ficou chocada, mas, por trás da mão enluvada que lhe encobria a boca, podia-se perceber um sorriso zombeteiro,
— Seu novo marido está na biblioteca, despachando or dens, como se estivesse num gabinete militar... — Jessica respondeu arqueando a sobrancelhas em sinal de surpresa.
— Meu novo... Ora, não importa! — Não era o momento para dar explicações. O importante seria evitar que a notícia chegasse aos círculos sociais londrinos. — Obrigada — res pondeu com calma e forçou um sorriso de despedida.
— Não precisa agradecer. O vestido será uma boa recom pensa! — exclamou Jessica, rindo das próprias palavras.
Bella nunca tinha visitado a biblioteca da casa de Barrigan, por isso não tinha idéia de onde ficava. A leitura não era um dos seus passatempos favoritos. Sendo assim, pediu a um serviçal que a acompanhasse.
— Alteza, a duquesa de Cullen! — anunciou o criado e depois abriu a porta dupla para que Bella entrasse.
Ela cerrou os punhos e estreitou os lábios.
— Bella, querida! Acomode-se — falou Edward, apontando para uma poltrona próxima e em seguida voltando o olhar para o que estava fazendo.
Ela preferiu ficar em pé e aguardar pela atenção dele.
Enquanto isso, observou que cortinas abertas permitiam a visão do esplendoroso jardim. Um pouco mais adiante, viu a madeira branca do coreto destacando-se por entre os dife rentes tons de verde das árvores. Ali foi palco do primeiro desentendimento entre ela e o duque, embora não tenham se encontrado, Edward a viu com Mike dando início à falsa suspeita que ela teria montado alguma estratégia.
Edward estava trajando um vistoso casaco de tweed casta nho e branco, uma camisa branca e uma calça justa de couro marrom, com as barras introduzidas nas botas de cano longo. Permanecia atrás da escrivaninha, mas não estava sentado.
Posicionava-se de lado, com um dos pés apoiado numa ban queta, analisando e assinando um punhado de papéis sobre o próprio joelho. De vez em quando, inclinava o corpo para mergulhar a pena no tinteiro sobre a escrivaninha. Ao es tender o braço, os bordados com fios de ouro nas mangas ficavam à mostra, contrastando com a cor mais escura das calças. Os cabelos bagunçados reluziam sob os raios do sol, evidenciando os fios sedosos e bem cuidados.
Bella engoliu em seco. A imagem daquele homem irresistivelmente bonito era de tirar o fôlego de qualquer mulher.
— Está ordenando que eu me sente, ou é apenas uma gentileza?
— Apenas cumprindo uma formalidade — respondeu ele, sem tirar os olhos dos papéis. — Faça o que achar melhor.
— Está bem, Edward. Preciso falar com você.
— Estou ouvindo.
Ela deu um suspiro profundo.
— Não vou com você para a Escócia.
— Isso não está em discussão. Já decidi por nós dois.
Bella arregalou os olhos ao mesmo tempo em que relaxou o queixo, ficando boquiaberta! Ele a estava tratando como se fosse um dos seus subalternos!
— Não está entendendo? — protestou ela.
Edward parou o que estava fazendo para encará-la:
— Quem não está entendendo é você, Bella. E, a propósito, deveria despender um pouco mais de tempo com a toalete. Não está se apresentando de modo apropriado para uma duquesa.
— Como disse?
— A menos que queira aparentar que saiu da cama às pressas — finalizou o duque, sem se importar com o espanto dela.
Bella sentiu-se corar desde a raiz dos cabelos até a ponta dos pés. Nunca em sua vida sofrerá tamanha afronta. A in dignação foi tamanha que as palavras ficaram presas na garganta, porém seu semblante de total desespero foi mais loquaz do que qualquer frase.
Edward retornou a atenção para os papéis e ela limitou-se a observar-lhe o ato mecânico de molhar a ponta da caneta no tinteiro várias vezes, enquanto recuperava a calma. Sabia que ele organizava a lista do que precisariam para a viagem.
— Está desperdiçando seu tempo e o meu Edward. — Ela sentenciou, reassumindo o tom casual que pretendia. — Lembra-se que me disse que ao menos gostava de mim? E melhor pararmos com essa farsa agora, antes que vire um escândalo. — A voz não saía tão calma como desejava, mas também não demonstrava a fúria que a consumia. — Recu so-me terminantemente a viajar para a Escócia.
— Não tem escolha, Bella. Perante as leis escocesas, es tamos casados. E, como minha mulher, você tem a obrigação de me acompanhar.
— Mas, não sou sua mulher!
— É sim. Um grupo de testemunhas e um representante da lei a ouviram declarar que somos casados. Seria mais fácil se os seus sentimentos por mim fossem mais amistosos.
— Não pode me forçar a ir. Não pode!
— Não discuta com o óbvio. Você é minha esposa. E como tenho de retornar à minha casa, que agora é sua tam bém, deve me acompanhar.
Ela fechou os olhos e cerrou os punhos.
Edward abandonou a pena e os papéis sobre a escrivaninha. Tirou o pé da banqueta e abotoou o paletó. Depois, contornou a mesa, ficando frente a ela.
— Espera uma explicação melhor? Muito bem. Vou-lhe dar.
Bella abriu os olhos e encarou-o apreensiva.
— Como chefe do clã dos Cullen, preciso permanecer no castelo. E uma tradição muito antiga. Se por acaso es queceu as lições de História, esclareço que todas as questões relativas ao clã dependem da aprovação do duque. Fui obri gado a sair de lá para vir a Londres, porque não queria me casar com a mulher que estava predestinada a mim, a filha mais nova dos Volture. Agora que estou livre dessa obri gação, devo retornar o mais breve possível.
— Obrigação? Uma Volture?
Edward sorriu e confirmou com um gesto de cabeça.
— Estava determinado que o próximo duque deveria se casar com lady Jane Volture. Só faltava marcar a data da cerimônia. E você... Bella... acabou se tornando a minha salvação! Serei eternamente grato por isso.
— Está dizendo que planejou tudo para escapar desse casamento?
A duquesa se agarrou ao espaldar de uma cadeira para não cair, pois suas pernas fraquejaram. Apesar de a história dele fazer sentido, era loucura demais ela ser uma das per sonagens principais da trama.
Edward aproximou-se da janela e, colocando as mãos nos quadris, observou a vista por um momento. Depois girou o corpo e tornou a enfrentá-la.
— Não fiz de tudo para protegê-la?
— Mas o ferimento de Mike foi apenas superficial!
— É verdade. Aliás, Newton já voltou para Londres. Não o queria aqui, próximo a você.
— Engano seu!
Ele deu de ombros.
— Talvez. Mas prefiro pensar que foi um arranjo mútuo.
— Mútuo? Não quero ser sua esposa.
— Não quer ser minha esposa ou não quer ser esposa de ninguém?
Como Bella poderia responder se ele acabara de tocar em sua ferida e jamais imaginara que alguém chegaria a tanto. Preferiu silenciar. Então, para ganhar tempo, começou a abotoar as madrepérolas de uma das mangas, que havia sido esquecida.
— Sem resposta? Muitas vezes o silêncio diz tudo — Edward retorquiu com ar vitorioso. — Além do mais, é muito tarde para voltar atrás.
— Não conhece as minhas razões.
Ele estufou o largo peito com um profundo suspiro:
— Quer que as enumere?
Ela o desafiou, empinando o queixo.
— Pois bem. É uma mulher muito bonita. E sabe disso. Por essa razão, brinca com os sentimentos dos homens, pouco se importando com o sofrimento alheio. Você os trata como se fossem brinquedos, que pode jogar fora quando cansa de brincar. Acho que é por essa razão que é chamada de Dama de Gelo nas caricaturas. Creio que também tem consciência disso. — Após uma pausa para respirar fundo, concluiu: — Parece querer punir todos os homens do mundo por algo que algum deles lhe fez. Só não sei qual, dentre a legião de ad miradores, foi o que a magoou tão profundamente.
Bella quase perdeu o controle dos dedos que mantinha ocupados em abotoar as madrepérolas.
— E melhor que seja mesmo uma grande atriz ou nossa união poderá ser bem desinteressante. — Ele a desafiou, segurando-lhe o queixo, desarmando-a.
— Posso ter outras razões para tornar-me insuportável, Edward.
— Tarde demais!
Bella o observou de olhos semicerrados, como se não qui sesse perder nenhum detalhe dos sinais da personalidade marcante daquele homem que agora se via no direito de lhe dar ordens.
Sem dar maiores satisfações, Edward simplesmente virou-se, deixando-a sozinha na biblioteca. Mas que pessoa mais deplorável. Fala o que quer, mas recusa-se a ouvir o que não lhe convém, ela pensou ao observar que a porta já estava quase totalmente fechada.
— Edward! — chamou, antes que ele a fechasse por completo.
Precisava falar sobre Masen. Era uma forma de desarmá-lo e aquele era o momento mais adequado, pois lhe serviria a dois propósitos.
— Tarde demais! — ele repetiu.
— Há uma coisa que preciso lhe contar.
— Haverá muito tempo durante a viagem. E espero não ter que arrastá-la.
Sem mais palavras, ele saiu, apressado.
Na manhã seguinte, a carruagem do duque de Cullen já estava parada em frente ao casarão, pronta para partir.
Edward não teve de usar a força para que Bella o acompa nhasse. Nem mesmo precisaria ter enviado Jasper para es coltá-la. Ela estava constrangida demais para se rebelar. A pele do rosto parecia estar mais clara, tornando mais escuro o chocolate dos seus olhos. O vestido de seda em tom avermelhado e detalhes dourados atraíam olhares admirados por onde passava.
O dia prometia ser claro e firme. Não havia nuvens que denunciassem a ocorrência de chuvas. Por isso, a criada en viada por lady Beth insistira num penteado menos sofisti cado. Tinha prendido apenas uma parte dos longos cabelos castanho-avermelhados, entrelaçando-os no alto da cabeça, com trancas miú das e em camadas circulares, finalizando com um arranjo delicado de miniaturas de rosas vermelhas. O restante dos fios soltos caíam-lhe como uma cascata pelas costas. O trabalho artístico levara cerca de duas horas. Dessa vez, o duque não teria do que reclamar de sua aparência, a não ser do atraso proposital. Porém ao encontrá-lo ela ficou desapontada porque Edward não deu nenhum sinal se havia gos tado ou não de seus trajes e penteado.
Antes de entrar na carruagem, Bella despediu-se dos de mais convidados de Barrigan e acenou para os criados.
Jasper ajudou-a a subir na cabine e entregou-lhe a pequena bolsa e demais pertences pessoais, que, provavelmente, pre cisaria na viagem. Ela suspirou, desanimada. Teria de acos tumar-se sem a ajuda de Alice...
Enquanto alisava as pregas do vestido, sua atenção foi desviada para o grupo de mulheres que, sorrindo, gritavam para que ela não se esquecesse da promessa feita a Jessica, de presenteá-la com o vestido azul de botões de madrepérola.
Bella assentiu com a cabeça, garantindo que não esque ceria.
Quando o anfitrião se aproximou da janela para se des pedir, a duquesa falou:
— Obrigada pela hospitalidade, lorde Barrigan. Espero poder retribuir.
— Com certeza, milady. Não se esqueça de recordar o duque do convite feito para que eu conheça o castelo. Assim que tiver oportunidade e disposição para me aventurar na Escócia, irei visitá-los. — Com um sorriso matreiro nos lá bios, concluiu: — Sabia que um dia alguém seria capaz de derreter esse coração de gelo. Só não esperava que fosse um bárbaro escocês!
Havia, pelo menos, uma dúzia de cavaleiros escoltando a carruagem onde Bella viajava. Ainda não tinha visto Edward. Imaginava que ele estivesse entre a comitiva montada. Me lhor assim, pois não estava disposta a aturar-lhe a compa nhia. Principalmente depois de ter passado a noite inteira sem dormir.
Ela reclinou a cabeça e fechou os olhos. As lembranças a atordoavam. Não tinha como escapar da situação em que se colocara, ou melhor, que Edward a havia forçado a aceitar. Era a mais pura verdade. Porém, não deveria estranhar, já que tudo em sua vida sempre lhe fora imposto.
Sentia-se como se fosse uma propriedade do duque. Ainda bem que tivera tempo de mandar Alice para Londres, a fim de apanhar Masen antes que o duque fechasse o cerco à sua volta após os acontecimentos da noite anterior.
Os pensamentos retornaram para sua tentativa frustrada de retomar a liberdade...
Deixara de comparecer ao jantar de despedida, que Barrigan oferecera, alegando uma forte dor de cabeça, e permaneceu recolhida aos novos aposentos que lhe destinaram, vizinhos aos que o duque ocupava. Entre a bagagem que fora trazida de sua casa em Londres, encontrou um traje masculino, que tinha pertencido ao falecido marido, e o vestiu. Esperou até que o relógio de parede marcasse duas horas da madrugada e saiu. Evitou a escada principal e dirigiu-se para a ala dos serviçais. Dessa vez, porém, procurou ser mais cuidadosa. Primeiro espiou o hall, para certificar-se de que não havia nenhum guarda por ali. Então utilizou a escadaria reservada aos criados, caminhando na ponta dos pés.
Tudo que precisava era alcançar sua carruagem. Não sa bia, porém, que Edward a havia despachado para a casa dos Black, com os criados. E, no lugar, dispusera de uma das carruagens dos Cullen. Mas não foi essa a razão do fra casso da façanha.
Havia uma saída no final do primeiro lance de escadas que dava na cozinha. Constatou que não tinha ninguém ali no momento, então entrou. Cruzou rapidamente o espaço até a porta dos fundos. Quando a abriu, deparou com o vulto enorme de Jasper, barrando-lhe a passagem.
A única reação que teve foi um riso forçado, daqueles que já estava acostumada.
O homem nada disse. Apenas apontou-lhe um dos enor mes dedos, num gesto claro de repreensão. Nem foi preciso que a escoltasse de volta ao quarto. Bella sabia bem o cami nho. Morta de vergonha, ouviu o barulho da fechadura sendo trancada pelo lado de fora, logo após ter entrado no aposento.
Só lhe restava tentar a janela. Foi o que fez. Porém, ao abrir a veneziana, deparou com os olhares reprovadores de dois escoceses trajados de preto. O duque ordenara a guarda de todas as saídas. Ela praguejou baixinho enquanto fechava as persianas. Era mais prisioneira agora do que o fora no primeiro casamento!
A voz de Edward atrás dela a assustou, fazendo-a girar-se em um segundo. A porta do quarto estava aberta e ele reclinado no batente, usando o mesmo robe verde que ela vestira no dia em que havia ferido Mike.
— Bella, minha, querida. Estou chocado! Não sabia que gostava de passeios no meio da madrugada!
O duque adiantou-se dois passos, depois de fechar a porta.
— O que quer?
— Essa não é uma maneira gentil de receber seu marido.
— Não pode dormir aqui! — exclamou ela, com a voz trê mula.
— Por que não? É minha esposa.
— Não sou... não quero...
Edward aproximou-se e observou-a de cima a baixo, com o olhar divertido:
— Aonde pensou que chegaria, vestida dessa maneira? Nunca vi tantas curvas no corpo de um homem! A quem pensa que enganaria?
Bella desviou o olhar.
— Será que poderia me deixar dormir sossegada?
— Isso é o que chama de dormir?
— É exatamente o que vou fazer. Pode dispensar seus homens. Não vou tentar sair.
Ele deu uma gargalhada sonora.
— Espera que eu acredite? Além do quê, não posso mais retornar para a festa de Barrigan.
— É só vestir-se apropriadamente — insinuou ela, com sarcasmo.
— Oh, acho que estou vestido de modo apropriado para o que tenho em mente.
Bella sentiu o coração disparar. Teve de esforçar-se para não demonstrar a emoção. Edward não poderia desconfiar do calor que lhe invadia o corpo nem do suor que lhe umedecia a nuca por conta da simples menção em compartilhar a cama com ele.
— E o que acontecerá se eu gritar? — ela conseguiu per guntar com a voz embargada pelo nó que se formava na garganta.
— Ninguém que ouvisse se importaria — respondeu ele, deslizando as mãos pela abertura do robe na altura do peito. — É normal os noivos não conterem a atração sexual que sentem.
Ela sentiu as pernas bambearem e precisava de um apoio. O único que encontrou foi o batente da janela. E, com as mãos para trás, escorou-se nele.
— Não sinto atração por você. — Ela conseguiu dissimu lar, apesar do incômodo na garganta.
— Gostaria de testar?
Ela não esperou que ele se movesse. E, antes que pudesse evitar, gritou o mais alto que pode.
— Devo tomar isso como um não? — Edward indagou cal mamente e depois fez uma reverência respeitosa.
Ele está desistindo? Pensou a duquesa.
— Se resolver dar um novo passeio pode me chamar que eu a acompanharei. Estarei no meu quarto que você deve lembrar o caminho muito bem.
Quando Edward saiu do quarto, Bella ficou perplexa, parada no mesmo lugar sem saber ao certo se estava aliviada ou frustrada por ele não ter ao menos lhe roubado um beijo.
Post superrr rapido... no proximo cap eu fala mais!
Espero que gostem , viu?
E nao deixem de comentar...
Beijinhos.
