Aliança
Livro I: Sinais
"Harry se equivocava ao pensar que tudo ia bem. E o primeiro sinal foram os desaparecimentos."
Fanfiction de Helena Dax. Tradução autorizada pela autora.
Nota da Autora
Importante!
Este é o primeiro de uma saga de sete Fics Post-DH, que começa quando Albus e Scorpius vão à Hogwarts. Decidi publicar o primeiro capítulo da primeira Fic porque quero dar "Sinais" a Hijarde de presente de aniversário, mas não sei se me atreverei a continuar postando o resto, ainda que seja um capítulo por semana. Há algumas coisas que ainda não me convencem e não sei se já é hora de publicar. Se eu fizer, o mais seguro é que poste os capítulos às segundas.
A saga respeita não só o epílogo, senão muitos dos dados que Rowling deu em entrevistas posteriores, ente eles, um comentário acera de que "Harry nunca deixou que Draco esquecesse que lhe devia a vida". Esta frase e alguns detalhes do epílogo me fizeram dar a Harry uma atitude um pouco injusta quanto aos Malfoy no princípio da história, a pesar de que, ao longo de DH, às vezes davam a impressão de que realmente poderiam fazer as pazes.
Creio que a princípio há personagens que podem dar a impressão de que decidi simplesmente repetir o branco/preto de Rowling, mas à medida que a história avança muitos deles evoluirão para bem ou para o mau, irão modificando suas ideias... Aspiro escrever personagens com certa profundidade psicológica e essas coisas. Por outro lado, todos são bastante subjetivos, assim como fiz com Draco, por exemplo, que acusa Harry de algo, não quer dizer exatamente que seja certo, só que ele crê que é assim.
A história conterá Slash nos personagens principais, que são Harry/Draco por um lado e Albus/Scorpius por outro. Ainda assim, devo dizer que nessa primeira Fic não há nada de Slash: os garotos são pequenos e eles estão casados com suas respectivas esposas. A história, pouco a pouco, irá mostrando como se vão formando os dois pares, mas é basicamente, e antes de tudo, uma saga de aventuras, não um romance.
Ao longo das sete Fics pode haver algumas advertências sobre sangue, detalhes um pouco repugnantes e coisas assim – bem, é uma guerra -, mas não é uma história Dark nem nada disso. Creio que em alguns capítulos pode haver detalhes não recomendados para estômagos sensíveis, avisarei sobre eles antes. Não haverá morte entre os personagens principais, ainda que seja possível que de vez em quando haja um tipo de carnificina com os outros, logo veremos.
O Potterverso e a maioria dos personagens pertencem à J.K. Rowling, à Warner e a pessoas que não conheço. Fora os comentários, muito entretenimento e algo de estresse ocasional, não recebo nada em troca desta história, muito menos dinheiro.
Espero que gostem!
Nota da Tradutora
Nada. Absolutamente nada nesta Fanfiction me pertence, fora a Tradução. Todos os créditos do enredo vão para Helena Dax, que desenvolveu uma saga maravilhosa em Sete Fics-livros, dentro do Universo de Harry Potter.
Foi um prazer acompanhar esta história e está sendo um prazer dobrado traduzi-la.
Assim como Helena Dax gostou de escrever, eu gostei de ler/traduzir, esperamos que vocês também curtam este excelente trabalho!
Pretendo postar um capítulo por semana.
Sugestões, críticas e afins serão aceitos.
Abraços!
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Capítulo III
Inimigos
Scorpius entrou na sala de Poções, ligeiramente mal humorado. Durante o caminho haviam topado com alguns Grifinórios do sétimo e a monitora, uma garota alta de cabelo prateado, lhe havia tirado dois pontos por "olhar com arrogância a um monitor". Alguns Grifinórios haviam rido, e quando Morrigan lhes havia encarado, a monitora – que tudo indicava ser uma Weasley, ainda que não fosse ruiva – lhes havia tirado mais dois pontos.
Slughorn estava ali, mas os Grifinórios ainda não haviam chegado. Scorpius ocupou uma mesa dupla com Damon e as garotas também fizeram dois pares; Watson foi sentar-se longe deles, deixando Hector sozinho.
- Senhor Watson, não prefere sentar-se com o senhor Kellerman? – perguntou Slughorn.
- Não, senhor. Prefiro ficar sozinho.
Scorpius bufou. Watson deu aos três a noite com seus protestos e no café da manhã havia voltado a agir como se lhe desse nojo sentar-se com eles.
- Na verdade, professor Slughorn, é injusto que Watson tenha que estar conosco se prefere mudar para outra Casa.
Todos seus companheiros estavam de acordo e o corroboraram com uma veemência que provocou um olhar desconfiado em Watson, quem não sabia se se sentia agradecido ou ofendido, mas o professor Slughorn meneou negativamente a cabeça.
- A razão para que o senhor Watson pense assim são as idéias equivocadas que tem sobre a Sonserina, mas se o Chapéu Seletor lhe mandou conosco é que porque este é seu lugar.
- Não é – declarou Watson, cruzando os braços e fazendo beicinho.
Os Grifinórios chegaram e nesse momento os Sonserinos se calaram. Scorpius viu como Potter se sentava junto de sua prima. O garoto que se via obrigado a sentar-se com Watson observou o lugar vazio junto a Hector, como se perguntasse qual dos Sonserinos era melhor companhia; o olhar hostil de Hector lhe fez decidir por Watson, que o recebeu com um de seus sorrisos abertos.
O professor Slughorn começou a aula passando uma lista. Depois fez algumas perguntas para ter uma ideia do nível da sala e dividiu alguns pontos entre uns e outros por responderem bem. Scorpius comprovou com satisfação que ele e Hector sabiam bastante de Poções, comparados com os demais, ainda que Potter e Weasley também se destacassem entre os Grifinórios.
Por último, Slughorn mandou-os copias algumas coisas da lousa e começou a passear pela sala até colocar-se junto de Potter e Weasley,
- Senhor Potter, diga-me, como estão seus pais?
- Bem, obrigado.
- E os seus, senhorita Weasley?
- Bem também, obrigada.
- Tive a honra de dar aula aos seus pais quando eram alunos. E aos seus avós. Pessoas excelentes, todos eles – assegurou, com um sorriso orgulhoso. Scorpius, contudo, franziu os lábios com desdém. Não achava certo que o chefe da Sonserina tivesse esse comportamento com uns Grifinórios -. Sei que o professor Longbottom é um excelente chefe da Grifinória, mas se algum dia precisarem de algo, não duvidem em me pedir.
Scorpius teve que reconhecer que os dois não pareciam precisamente cômodos com as atenções de Slughorn, Potter em especial; na verdade, não sabia se estava mais zangado com eles ou com o professor. Então, Damon se inclinou à ele.
- Oooh, posso chupar sua bunda, senhor Potter? – remedou em um cochicho, imitando a voz de Slughorn.
Scorpius soltou um sopro de risada e Slughorn se virou para eles com o cenho franzido.
- Senhor Malfoy, senhor Pucey, comportem-se ou lhes tirarei pontos.
Os dois murmuraram um "sim, senhor" e voltaram a seus afazeres enquanto Slughorn continuava conversando amistosamente com seus Grifinórios.
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O professor de Transfiguração, Roger Davies, tinha fama, como Daskalova, de não ser generoso com pontos aos Sonserinos, mas Scorpius o achou bastante imparcial. A matéria, além disso, prometia ser interessante. Nunca antes havia pensado realmente no que se supunha os feitiços de Transfiguração, mas era uma disciplina complicada e com infinitas possibilidades.
Mas, depois do almoço, tinha aula de Herbologia com o professor Neville Longbottom, o chefe da Grifinória. Gabriel lhes havia contado um monte de coisas sobre ele, sobre o modo como tratava os Sonserinos, como favorecia seus alunos, e desde que estavam em Hogwarts haviam ouvido também um par de comentários que iam na mesma direção. Scorpius o havia visto no Salão Principal, durante os almoços, e não lhe havia parecido tão temível; inclusive parecia um homem bastante agradável, ao estilo do professor Davies. Mas também era certo que quase todas as coisas que Gabriel lhe havia dito sobre o colégio haviam se provado certas, assim que Scorpius entrou na estufa com certa desconfiança e ocupou um assem com sua prima, quase na última fila.
O professor Longbottom entrou quase no mesmo instante, muito sorridente e depois de saudá-los, passou a lista. Scorpius se deu conta de que quando disse o nome de Diana Goyle a olhou com uma expressão estranha. Quando chegou sua vez ergueu a mão também e recebeu o mesmo olhar.
- Bem... Espero que você seja melhor em Herbologia que seu pai. Creio me lembrar que todas suas plantas morriam.
Scorpius não gostou nada do comentário, mas apertou os lábios e não disse nada. Herbologia... Como se fosse uma matéria importante.
O professor Longbottom seguiu passando a lista e depois, como todos os professores, lhes fez copiar um esquema da lousa. Mas quando terminaram de copiar, lhes disse para segui-lo e os levou por toda estufa Um, ensinando-lhes sobre as plantas e explicando-lhes, por cima, suas propriedades. A Scorpius lhe remetia um pouco os passeios que ele e Cassandra davam com sua avó Narcissa, pelos jardins da Mansão Malfoy, na realidade sempre havia gostado mais da vista do que da conversa. O professor Longbottom ia salpicando suas explicações de perguntas; Scorpius conhecia a resposta de várias delas, mas não levantou a mão, entretanto. Logo se deu conta, além disso, de que efetivamente, Longbottom não escondia sua imparcialidade; à metade da aula, os Grifinórios já haviam ganhado dez pontos, e eles, nenhum.
Scorpius olhou de lado ao professor de Herbologia, que nesse momento conversava com Potter e Weasley. Potter se deu conta de que estava sendo observado e o olhou também com uma expressão mais curiosa que hostil. Scorpius franziu um pouco o cenho e terminou com o contato. Talvez Potter não houvesse feito nada ainda, mas começava a sentir uma grande antipatia por ele; estava claro que todos os professores iam continuar a fazer-lhe agrados e dando-lhe pontos por ser filho de quem era, assim como iam ser injustos com ele pela mesma razão, por ser filho de quem era. Bem, não importava. Preferia sem um Malfoy e ter os pais que tinha do que ser um Potter, com suas dezenas de primos estúpidos e seus pontos ganhos.
A aula continuou e o professor Longbottom os colocou em pares, frente a um vaso com um gerânio e outro vaso maior, vazio, e lhes explicou como deveriam transportar a planta de um vaso a outro. Os gerânios não tinham nada de mágico, mas era melhor não deixar plantas mágicas ao alcance de mãos tão inexperientes. Scorpius, que havia feito par com Diana, conseguiu transportar o gerânio se que sofresse muitos danos, mas quando o professor Longbottom se aproximou deles para avaliar seu trabalho, não parecia nada impressionado.
- Lamentável – disse, apertando os lábios -. Dois pontos a menos para Sonserina. E é melhor que se esforcem mais se que não quiserem ser suspensos.
Scorpius abaixou a cabeça, envergonhado e irritado. Ele sempre se esforçava nos estudos, não estava acostumado com os professores falando assim com ele. De onde estava podia ver duas plantas que haviam ficado muito pior que a sua, mas não disse nada. Por sorte, não restava muito mais tempo na sala. O professor Longbottom lhes passou os deveres e depois os deixou sair. Scorpius estava desgostoso, mas não queria deixar transparecer diante dos Grifinórios, não quando lhes estavam mandando olhares de zombaria.
Sua prima colocou a mão em suas costas enquanto saíam ao corredor.
- Não faça caso, Scorpius. Seu gerânio estava bem.
Scorpius fez um gesto com o ombro para que ela tirasse a mão: nunca havia suportado que lhe tocasse quando estava irritado.
- Que eles lhe dêem – disse, sem se dar conta de que era a primeira vez que falava assim de um adulto.
- É uma merda de professor – Damon lhe disse, oferecendo-lhe sua simpatia -. Já nos disseram que ele tinha mania de Sonserinos.
- Ainda podemos recuperar alguns pondo com Estudos Trouxas – disse Britney, otimista.
- Estudos Trouxas... – repetiram ao mesmo tempo Damon, Morrigan, Cecily e Hector, todos com o mesmo tom de desprezo.
Britney franziu o cenho em sua direção.
- Vocês têm algum problema com os trouxas? – disse, soando bastante perigosa.
Morrigan a encarou.
- Sua mãe será uma pessoa muito boa, mas os trouxas são racistas, sexistas, estão contaminando o planeta e temos que nos escondermos deles pelo que podem fazer. Não entendo porque teríamos que aprender algo de sua cultura.
- Nem todos os trouxas são assim – replicou Britney, com firmeza.
- Da no mesmo; somos magos e não temos motivos para aprender os costumes dos trouxas – replicou Damon. E logo sorriu presunçosamente -. Meus pais dizem que se eu não aprovar nessa matéria não acontecerá nada.
- Eu tampouco tenho que aprová-la – disse Diana.
Morrigan arqueou uma sobrancelha.
- Ninguém espera que você aprove em algo, cabeça de tarambola. (N/T: tarambola é um pássaro).
Scorpius lhe deu uma cotovelada.
- Não se meta com ela.
Scorpius seguiu falando da matéria com seus companheiros enquanto caminhava pelos corredores de pedra. Seus pais não estavam muito contentes com essa matéria, mas lhe haviam dito que era uma aula a mais e que esperavam que ele a levasse tão a sério quanto as outras.
A classe de Estudos Trouxas estava ao alto de uma torre. Um potente escudo mágico a recobria, lançado por Inomináveis, que permitia o funcionamento de certos aparatos eletrônicos. Na entrada a professora Blackcrow os esperava, uma mulher de uns trinta anos, loira e de aspecto um pouco sério. Scorpius sabia por Gabriel que havia sido da Grifinória.
- Por favor, alunos da Sonserina, peguem essas caixas e guardem suas varinhas dentro. Não podem entrar com elas nesta aula.
- Por que não? – perguntou Hector, desconfiado.
- Porque estragaria os aparatos que há dentro. Vamos, vamos, peguem a caixa com seu nome para que não haja confusão e guardem suas varinhas.
Os garotos se olharam, uns aos outros, e foi Watson que deu o primeiro passo.
- A mim não me importa fazê-lo, professora.
Scorpius lhe lançou um olhar ressentido e se aproximou com o restante de seus companheiros para pegar sua caixa. Quando a encontrou, guardou sua varinha com um pouco de apreensão, lembrando-se do dia que a havia comprado. Havia sido antes do verão, antes de deixar a Grécia, onde havia morado nos últimos dois anos, para instalar-se definitivamente na Inglaterra; a fabricante de varinhas, uma mulher muito anciã, lhe havia olhado alguns segundos com olhos intensos e azuis e havia acertado com ele quase ao mesmo tempo: vinte e sete centímetros, carvalho, com núcleo de pele de manticora, ideal para encantamentos e duelos. Scorpius se sentia muito orgulhoso dela; não havia nenhum outro mago na Grã-Bretanha com uma varinha como a sua. Separar-se dela, ainda que por uma hora, não era uma ideia agradável.
Mas todos obedeceram com mais ou menos relutância. A professora Blackcrow guardou todas as caixas em um armário dissimulado na parede e só então os deixou passar. Os alunos da Corvinal já estavam ali. Sentados e cochichando entre grupos. Michelle Urghart lhe havia guardado um lugar para Morrigan ao seu lado e Watson também sentou entre os Corvinais. Scorpius ocupou um lugar junto à Britney, que ainda estava um pouco ofendida pelo desprezo aos trouxas, e disse a Diana que ficaria perto deles. A professora passou a lista, dando a Scorpius e Diana um olhar parecido com que Longbottom lhe havia dedicado, e depois se colocou em frente a todos eles.
- Vejamos, quantos de vocês já haveis falado alguma vez com um trouxa?
Mais da metade da Corvinal levantou a mão; entre os Sonserinos, só Britney e Scorpius puderam fazer o mesmo. A professora ficou olhando o garoto com tanto ceticismo que ele se viu impulsionado a justificar-se.
- É verdade, quando estávamos no exterior. Na Grécia, um dos meus melhores amigos era trouxa. E nos Estados Unidos meus pais nos levaram ao cinema e a restaurantes.
Ao menos ela parecia acreditar. Então Damon levantou a mão.
- Professora, eu nunca falei com trouxas e não quero fazê-lo. Posso ir ao Salão Comunal?
Hector, Morrigan e Cecily começaram a rir. Scorpius sorriu; não queria se meter em problemas – e realmente não tinha nada contra os trouxas -, mas havia uma parte dele que desfrutava vê-lo portar-se de forma insolente com os mais velhos. À professora Blackcrow, entretanto, não fizera nenhuma graça.
- Por que não quer falar com trouxas, senhor Pucey. Por um acaso ouviu falarem coisas ruins deles?
Scorpius lançou um rápido olhar de advertência a Damon, para que tivesse um pouco de bom senso. Até ele sabia que era perigoso falar abertamente contra os trouxas; se dissesse algo sobre seus pais, principalmente sua mãe, que os depreciavam, poderiam metê-los em problemas.
Por sorte, Damon era um digno filho da Casa de Salazar Sonserina.
- Não, professora, todos meus amigos e os amigos de meus pais pensam que os trouxas são muito... Iguais a nós. Mas, não é obrigatório lidar com eles, não?
Michelle Urghart levantou a mão e a professora lhe fez um sinal para que falasse.
- Meus pais também não têm nenhum problema com os trouxas, mas pensam que ao invés de estudar sua cultura, deveríamos aprender a dos duendes, por exemplo. Porque falamos mais com eles e coisas assim.
Hector levantou a mão para dizer algo parecido. Scorpius deduziu que todos estavam repetindo coisas que haviam ouvido em casa, como se houvessem aprendido com seus pais o que deveriam pensar sobre essa matéria. Mas ele não podia contribuir com nada. Seu avô Lucius havia lhe dito sua opinião várias vezes, mas era a classe de coisas que não podiam ser ditas fora da família, claro. E seus pais nunca lhe haviam dito o porquê de não gostarem que Estudos Trouxas fosse obrigatória.
Mas a professora Blackcrow devia estar acostumada que questionassem sua matéria, porque interrompeu o debate com voz fria.
- O motivo para que Estudos Trouxas sejam obrigatórios é acabar com os preconceitos que conduziram três guerras no século passado, uma no continente e outras duas em nosso país. A maioria de vocês vive em um entorno inteiramente mágico, sem contato real com os trouxas, enquanto ouvem mentiras sobre eles. E é aqui onde isso termina. Durante este primeiro ano, aprenderão como é a vida cotidiana dos garotos trouxas de sua idade, do que gostam, do que estudam em seu colégio, e que esportes praticam no lugar de Quadribol e Quadpot (N/T: ao que me consta, é quase parecido com Quadribol, aceito correções). Se mantiverem uma atitude colaboradora, lhes asseguro que se divertirão. Mas, se decidirem boicotarem minha aula, passarão tanto tempo de castigo que só verão o exterior do Castelo quando tiverem aula de Vôo e Trato das Criaturas Mágicas. – Balançou ligeiramente a cabeça -. Confio haver-me explicado.
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Só havia mais duas matérias para estrear, Astronomia e Vôo. Na quarta-feira, às onze e meia da noite, todo primeiro ano subiu à Torre de Astronomia. Alguns garotos iam cochichando que iam ver o lugar onde o grande Albus Dumbledore havia morrido, mas na realidade os observatórios estavam mais acima. Scorpius não se inteirou de nada da aula porque estava meio dormindo, e não foi o único, mas, por sorte, Morrigan estava desperta como se fosse meio-dia e conseguiu bons pontos. O professor se chamava Domenicus Biggle e era um homem alto, magro e de aspecto triste; Gabriel e os demais diziam que não usava dar pontos a Sonserina. A Scorpius lhe deu a impressão de que ninguém os dava.
A aula dupla de vôo era às quinta-feira pela tarde, com a Corvinal. Scorpius, que sabia voar desde muito pequeno, tinha muita vontade de voltar a estar sobre uma vassoura; lhe parecia muito injusto que os alunos do primeiro não pudessem ter suas próprias.
Morrigan, Damon, Hector e Cecily sabiam voar também; Britney confessou que nunca havia aprendido e Scorpius sabia que Diana era totalmente incapaz de manter-se sobre uma vassoura mais de cinco segundos. Watson não havia dito nada sobre ele e ninguém havia perguntado. Morrigan havia lançado a palavra "patético" ao final do segundo dia no colégio e agora todo o grupo a estava usando com liberdade para se referir a ele.
Uns alunos mais velhos da Lufa-Lufa os ficaram olhando com sarcasmo quando passaram perto deles e cochicharam algo por baixo. Scorpius os notou e lhes lançou um olhar atravessado; aquele intercâmbio de pequenos sinais de inimizade com os alunos de outras Casas começara a ser uma coisa rotineira, mas tampouco lhe entristecia. Se as pessoas eram idiotas, ele não tinha culpa.
- Não sei do que estão rindo – murmurou Morrigan -. Todo mundo sabe que Lufa-Lufa é para onde vão os que não servem para nada.
- Nem todos – replicou Scorpius, apontando a Watson.
Os demais riram e se esqueceram dos olhares dos Lufa-Lufas. Quando chegaram ao campo de Quadribol, madama Hooch já estava lá com as vassouras prontas no solo. Scorpius comprovou um pouco decepcionado, que eram de um modelos bastante antigo; a sua era dez vezes melhor. E as aulas tampouco eram grade coisa. Como havia tantos garotos que não sabiam voar, madame Hooch os manteve dando voltas praticamente arrastando no solo e ameaçou com tirar pontos a qualquer um que tentasse começar uma corrida.
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Ao longo daquela primeira semana em Hogwarts tantas coisas haviam se passado e havia tido tantos deveres que, de certa forma, Scorpius não se lembrou de quão pouco o professor Longbottom lhe agradava até que se encaminhou à aula dupla de Herbologia que tinhas as sextas de manhã.
Durante o primeiro quarto de hora, nada aconteceu. Scorpius entregou seus deveres junto com os demais alunos e esteve observando o exemplar de nêmula que lhes havia levado era uma planta exclusivamente mágica, com flores que mudavam de cor quando a chuva se acercava. Suas raízes tinham propriedades sedativas suaves e se eram usadas em algumas poções médicas. A planta não requeria muitos cuidados, só que a regassem duas vezes por semana e a mantivessem ao sol.
Scorpius cedeu um especial cuidado ao trabalhar com ela e desenhas as flores, as folhas e as raízes em um pergaminho. Não era especialmente bom desenhando, mas tampouco era difícil de copiar e ficou bastante satisfeito com o resultado, sobre tudo quando o comparou com os desenhos de seus colegas que estavam por perto.
Mas, isso não serviu de nada.
Longbottom colocou seus desenhos como exemplo de algo mal feito e esteve a aula toda buscando defeitos. Só os Grifinórios participavam, o que se traduz em uma pequena chuva de pontos para eles. Scorpius passou por tudo aquilo com a cabeça baixa para esconder toda sua vergonha e seu ressentimento.
- Bem, é definitivo – disse Morrigan, de forma lúgubre, quando saíram da aula para ir a Transfiguração -. Esse professor não gosta da gente.
- Sobre tudo de você, Scorpius – disse Britney, com simpatia -. Eu não sei o que seu pai fez quando eles estudaram juntos, mas ele tem jurado.
Scorpius franziu ainda mais o cenho.
- Pois me alegro por tudo que ele tenha feito – disse com veemência -. Ele merece por ser um imbecil.
- De todos os professores, ele é o pior – Cecily opinou -. Além do mais, se veste muito mal, ou seja, como se sua avó lhe comprasse as roupas.
- Uma avó com muito mal gosto – pontuou Scorpius, pensando em suas duas avós, que eram duas damas muito elegantes.
- E ainda por cima tem essa voz horrível... Como a de um elfo doméstico.
Watson, que havia estado bem perto deles para escutá-los, interrompeu aquela sucessão de insultos bobos.
- Percebem como, sim, vocês são maus? Penso em ir dizer ao professor Longbottom tudo o que estão dizendo dele.
- Diga algo de te acusamos, gordo de merda – Damon ameaçou.
Aquilo reduziu Watson ao silêncio pelo resto do caminho, mas Diana se colocou no caminho de Damon antes que chegasse a aula de Transfiguração, obrigando-o a parar.
- Não há problema nenhum em ser gordo – disse, com sua voz grave e inexpressiva.
Damon observou a corpulenta garota e pareceu lembrar-se do, ainda mais corpulento, senhor Goyle e concordou.
- Só chamo o Watson, porque é o pior, está bem? Não há problema em ser gordo.
Diana olhou para Scorpius e este encolheu os ombros.
- Ele não disse isso por sua causa, garanto – a tranqüilizou -.
- Claro que não, Diana – assegurou Damon. Ele não tinha tanta intimidade com ela como Scorpius, mas supôs que tampouco via necessidade de criar inimizades com alguém que podia carimbá-lo na parede com apenas um punho.
A garota o olhou um par de segundos e deu espaço para deixá-lo passar. Scorpius havia visto alguns Golens (N/T: ao que me consta, Golem é tipo um gigante de pedra) uma vez, em um verão em Israel, e desde então, sempre que via Diana se lembrava deles. Se moviam com a mesma inevitabilidade. Se Diana aprendesse a voar sobre uma vassoura, poderia se converter na melhor Artilheira, inclusive Batedora da equipe, nos últimos cinqüenta anos.
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Albus era inteligente o suficiente para saber que uma das coisas que mais lhe gostava em Amal Sharper era que, por ser filho de trouxas, não conhecia nada do mundo mágico, nem nunca havia ouvido falar de Harry Potter. Isso queria dizer que, ainda que lhe intrigasse toda aquela história sobre Voldemort, ele o via como outro garoto qualquer e não como filho de um símbolo ou algo assim. E quando todo o Salão Comunal começa a ferver de anedotas sobre os heróis de guerra, era bem fácil convencê-lo a saírem para dar uma volta, porque para Amal era igualmente fascinante ver os quadros se moverem, falar com os fantasmas o acabar vendo a Lula Gigante.
Até chegar em Hogwarts, nunca havia se dado conta realmente de quão famosos eram seus pais, especialmente seu pai. Sabia que seu pai era um grande herói e que havia derrotado Voldemort e havia ouvido dizer muitas vezes sobre o agradecimento do mundo mágico. Mas, na realidade, conhecia muito pouco desse dito mundo – sua casa, a de Teddy, a de seus primos, a Toca -, havia lidado com pouquíssimas crianças fora de sua família e havia do ao Caldeirão Furado apenas meia dúzia de vezes; nunca havia tido a oportunidade de descobrir o que todo mundo sabia quem era seu pai.
James lhe havia dito ao voltar de seus primeiro trimestre em Hogwarts, mas ele não havia acreditado. James também havia lhe contado que ele era adotado, que o mandariam para Sonserina, que nessa casa se alimentava de carne humana, que os elfos domésticos nasciam de ovos e um milhão de coisas mais, nesse estilo. Albus havia aprendido através da experiência que não devia confiar em tudo o que seu irmão dizia e havia pensado que aquela história sobre ser super famoso tinha que ser mentira por necessidade.
Mas não, não era. E, eventualmente, se resultava esmagadora.
Às sextas, depois do almoço, os alunos do primeiro ano só tinham duas horas de estudos antes de ficarem livres para todo o fim de semana. Todos iam carregados de deveres, mas quando terminaram de estudar, Albus e Amal decidiram que poderiam ter um descanso bem merecido e foram visitar Hagrid, pois Amal ardia em desejos de saber muito mais coisas sobre os gigantes.
- É que estar em Hogwarts é como estar dentro de um vídeo-game a todo o momento, te juro... – disse, sorrindo de orelha a orelha, a caminho da cabana do guarda-caças -. Isto é o melhor que já me aconteceu. Quisera eu poder contar aos meus amigos, iam ficar alucinados.
Hagrid, enorme e com uma grande barba grisalha, os fez passar para dentro de sua cabana com um grande sorriso.
- Muito me alegra que tenham vindo me visitar, Albus. Merlin, cada dia que passa fica mais parecido com seu pai, sabia?
- Sim.
- Só lhe faltam a cicatriz e os óculos... Diga, como seu amigo se chama?
- Amal Sharper.
- Olá, Amal, eu sou o Hagrid. Preparei um pouco de chá, aceitam?
Albus havia ouvido mil advertências sobre a natureza dos pasteis de Hagrid, mas lhe parecia muito grosseiro recusar seu convite. Enquanto pegou o primeiro bocado, supôs que não haviam exagerado e voltou a deixá-los no prato esperando que Hagrid não se importasse. O gigante, que pareceu não notar, perguntou-lhes como haviam sido seus primeiros dias em Hogwarts e Amal respondeu, com seu habitual entusiasmo, explicando o quão tudo lhe parecia genial.
- Algum problema com os Sonserinos? – disse, enquanto usava sua varinha para colocar um pouco mais de lenha na lareira. Albus sabia que Hagrid havia perdido o direito de usá-la por culpa de um crime que não havia cometido, mas depois da guerra tudo havia se esclarecido.
- Até agora nada – respondeu.
- Bem, a verdade é que estão bastante tranqüilos, há alguns anos. Mas, com eles nunca se sabe, ainda mais agora que voltou a haver um Malfoy. Já sei que não é preciso lhe dizer, Albus, mas é melhor que não chegue perto dele.
- Não pensava em fazê-lo.
- Hagrid... – disse Amal, tímido, mas decidido -, é verdade que os gigantes existem? É verdade que sua mãe era uma gigante?
- Se os gigantes existem? Fico pasmo com o pouco conhecimento dos trouxas... Claro que deve ser assim, mas ainda me pasma. Claro que existem os gigantes. E minha mãe era uma delas, você está bem informado.
Amal então começou a lhe fazer todas as perguntas que tinha vontade de fazer e Hagrid respondeu quase com o mesmo entusiasmo. Albus escutava com um sorriso nos lábios, contente em ver que os dois se davam bem. A tarde passou em meio a brincadeiras e aventuras e os dois garotos se despediram dele com pesar quando chegou a hora do jantar.
Quando entraram no castelo viram Watson passear pelo saguão. O garoto sorriu e se aproximou deles.
- Olá, vocês vão jantar?
- Sim.
- Vou com vocês. De onde estão vindo?
- De uma visita ao Hagrid.
- Oh... Bom, se vocês voltarem a visitá-lo, posso acompanhá-los?
Albus trocou um olhar meio incômodo com Amal.
- Claro, eu acho...
- Meu dia foi muito chato. Ainda que eu tenha ficado bem com uns amigos da Lufa-Lufa. Não quero ficas com os Sonserinos, já sabem... A única coisa que fazem é criticar o professor Longbottom, me chatear e acharem que são superiores.
Albus franziu o cenho; não gostava de saber que chateavam as pessoas que ele queria bem.
- Estavam irritados porque Neville, quer dizer, o professor Longbottom se meteu com os desenhos de Malfoy. O que disseram dele?
William começou a contar tudo. Albus foi ficando cada vez mais irritado a medida em que ia escutando, e quando entrou no Grande Salão teve que fazer um grande esforço para não ir tirar satisfações com Malfoy e seus amigos. Ao invés disso, contou a James, que também se irritou.
- Essas pequenas serpentes vão se arrepender que terem se metido com o tio Neville. – Então pareceu prestar atenção em William pela primeira vez -. Fez bem em nos contar.
- Eu não sou como eles.
- Não, isso parece – disse James, com expressão magnânima, fazendo William sorrir -. Na verdade, é uma pena que tenha ido para Sonserina.
- Sim, sim, eu não deveria estar lá.
A voz de Slughorn os fez girar em direção a mesa dos professores.
- Senhor Watson, por favor, vá para o seu lugar. Estamos a ponto de começar o jantar.
Albus também se apressou em sentar-se em seu lugar, ainda que tivessem lhe chamado a atenção, e voltou a sentir pena por Watson ao ver a expressão tão cabisbaixa com que o garoto ia à mesa da Sonserina. Malfoy e seus amigos o receberam com olhares frios de desprezo e o ignoraram, como vinham fazendo desde o início.
James também havia ficado olhando Watson e, de repente, começou uma animada conversa sussurrada entre ele, Fred e Michael. Albus tentou inteirar-se sobre o quê eles estavam falando, mas com os alunos do segundo ano no meio, era impossível ouvir algo.
- O que aconteceu? – Rose perguntou.
- Malfoy e os outros Sonserinos têm estado insultando o tio Neville. Acho que James e os demais vão se vingar.
Rose mordeu os lábios.
- Só quero ver se eles se meterem em problemas...
Então um pequeno alvoroço se instalou na mesa da Sonserina e Albus girou o corpo a tempo de ver como William se levantava gritando e todo molhado de sopa enquanto os alunos do primeiro e do segundo ano se retorciam de tanto rir.
- Você fez de propósito! – gritou, apontando Pucey -. É um idiota.
- Senhor Watson! – exclamou o professor Flitwick, levantando de seu assento e correndo até a mesa da Sonserina.
- Ele derrubou o prato de sopa em cima de mim! Não quero voltar a sentar-me com eles! Não quero voltar para a Sonserina! Estou cansado deles! Eu odeio todos eles!
O professor Slughorn também se aproximava deles e até a professora McGonagall havia se levantado de sua cadeira.
- Quem lhe derrubou a sopa, senhor Watson? – perguntou o chefe da Sonserina.
- Pucey.
- Bem, cinco pontos a menos para a Sonserina e detenção para você, senhor Pucey. O espero amanhã às oito da manhã na porta do laboratório de Poções. Estou muito decepcionado com vocês; isto não é jeito de tratar um companheiro.
Malfoy cruzou os braços.
- Sim, companheiro – repetiu, com uma voz alta e clara. Albus o olhou, surpreendido, porque não havia imaginado que ele fosse dizer algo. Slughorn também parecia ter sido pego de surpresa -. E se é um companheiro nosso por que a única coisa que sabe fazer é dizer que não quer saber nada da gente?
- Podemos falar sobre isso na Sala Comunal, senhor Malfoy – respondeu Slughorn -. Agora comportem-se e tratem de terminar o jantar sem mais incidentes. Vamos, senhor Watson, volte ao seu lugar.
- William olhou para Slughorn com cara de piedade.
- Perdoe-me, professor Slughorn... – Na hora Albus reconheceu a voz de seu irmão e se voltou para ele, perguntando-se o que ele iria dizer. James estava de pé em seu lugar -. Se a vocês, ao professor Longbottom e a professora McGonagall não se incomodarem, nós não nos importaríamos caso William se sentasse conosco. Dá para ver que ele é um bom garoto. E bem, me parece um pouco injusto obrigá-lo a estar a todo o momento com os Sonserinos quando se nota claramente que ele não quer estar com eles, não?
- Bem, isso é extremamente irregular... – começou Slughorn.
- Oh, por favor... Por favor, professor. Continuarei indo às aulas e ao dormitório com ele, se não me resta alternativa, mas deixa ao menos que possa me sentas com os Grifinórios. Por favor, professor Longbottom...
Albus não se deu conta de que Neville estava tão surpreendido como todos. Não era para menos, aquela deveria ser a primeira vez na história de Hogwarts que um Sonserino suplicava para poder sentar-se com os Grifinórios. Não era como se de vez em quando ninguém se sentasse com amigos de outras casas, mas isso acontecia na hora do almoço ou do café, onde tudo era mais informal.
A professora McGonagall não parecia muito convencida.
- Não sei... Bem, sim, terminemos de jantar em paz e logo discutiremos isso tranquilamente.
William lhes agradeceu, estava a ponto de explodir em felicidade, e foi recolher seu prato e todo o resto. Só então Albus voltou a fixar-se nos Sonserinos e se deu conta da terrível tensão que reinava naquela mesa. Pálidos ou vermelhos de mortificação, a maioria havia parado de comer, como se tivessem perdido o apetite e dava a sensação de que todos estavam demasiadamente ocupados contendo seu desgosto para fazer qualquer outra coisa.
- Imagina – disse um garoto que estava sentado em frente a Albus, Jonah Broadmoor -. Nem os Sonserinos querem ser Sonserinos mais.
Albus soltou uma risadinha, ainda que tivesse se sentido um pouco culpado por isso. Havia algo na expressão dos Sonserinos que lhe causava um mal-estar.
- Pois eu acho que esse garoto está louco – disse Amal –. Enquanto estiver indo à sua Sala Comunal, depois do jantar, com certeza vão lhe partir a cara.
Na verdade, era mais provável que lhe lançassem um feitiço bem desagradável, mas Albus compreendeu que Amal tinha razão. Era óbvio que os Sonserinos não haviam gostado nada do que havia acontecido e as represálias poderiam se terríveis. E a medida que chegava o momento de se levantar da mesa, era óbvio também que Watson estava chegando à mesma conclusão, porque não fazia outra coisa que mandar olhares receosos em direção a mesa da Sonserina, cujos alunos haviam voltado a comer, mas fazendo-o sob um inabitual silêncio. Contudo, a própria diretora mandou chamar William e os Monitores do sétimo ano da Sonserina a mesa dos professores e lhes disse algo que soava como advertência. Eles concordaram e voltaram a sua mesa, sem nem olhar ao garoto do primeiro ano.
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Scorpius sabia que ia acontecer algo terrível. Todos sabiam, até Diana, que normalmente não sabia de nada.
Quando os pratos desapareceram da mesa, Scorpius se colocou de pé tão depressa quanto seus companheiros e se encaminhou até a porta do Grande Salão sem vacilar, como se alguém lhe houvesse dado uma ordem. Não olhou o que Watson fazia, não era realmente importante. Aquele era um assunto da Sonserina e estava claro que Watson não era um deles. Mas, quando chegou ao Salão Comunal, se surpreendeu que o garoto estivesse ali também, mesmo que fosse o último. Tinha uma expressão ridiculamente satisfeita no rosto, tanto que Scorpius pensou que a ameaça de McGonagall tinha que ter sido realmente boa. Ainda assim, enquanto a porta se fechou atrás deles, Rebeca Warbeck o encarou e lhe apontou sua varinha, tremendo de raiva.
- Você...!
- Já sabe o que acontecerá se me fizer algo! – Watson lhe lembrou, assustado, enquanto retrocedia alguns passos.
- Acredite, agora isso não parece ser tão grave...
O outro Monitor do sétimo ano, um garoto grandalhão com cara de cavalo chamado Aquiles Flint – seu pai era Apanhador dos Falcons – lhe colocou a mão no ombro.
- Não vale a pena, Rebeca. Vá ao eu dormitório, verme. Não queremos te ver aqui.
Todos os alunos da Sonserina estavam olhando para Watson agora, que tragou saliva e saiu dali. Scorpius sentiu uma onde de incredulidade por causa de sua estupidez: o que ele queria afinal? Ele realmente queria passar sete anos sendo odiado por todos seus companheiros?
- Escutem... – Scorpius se voltou para Rebeca, que já havia se acalmado um pouco -. Ninguém pode tocar em um só fio de cabelo da cabeça desse inútil de merda, está bem? McGonagall disse que se acontecer algo cancelará nossa permissão para jogar Quadribol.
- Foda-se...
- Vá à merda...
- Sim, é assim que as coisas estão. Com um pouco de sorte, Longbottom não aceitará, mas se não, teremos que agüentar. Isso sim... a partir de agora, não quero ver ninguém falando com esse desgraçado, me entenderam? William Watson não existe.
- Isso é uma merda, Warbeck – disse McNair -. Qualquer coisa que esse imbecil ouvir aqui poderá acabar nos ouvidos daqueles Grifinórios fodidos.
- Não temos muitas opções a mais.
- Podemos ensinar os mais novos a fazerem o Abaffiato – sugeriu Aino Kaspersen.
Então, nesse momento, o professor Slughorn entrou no Salão Comunal com uma expressão séria. Os alunos da Sonserina, especialmente os mais velhos, o receberam com tanta hostilidade que o professor se acovardou um pouco e seu rosto se mostrou mais doído que furioso.
- Bem, tenho que lhes dizer que estou muito decepcionado com o espetáculo que vocês fizeram no Grande Salão.
Nós? – exclamou Rebeca -. Como você pode deixar que Watson se sentasse na mesa da Grifinória como o cachorrinho de Potter e seus amigos?
- Cachorrinho... Watson é um garoto que, provavelmente, cresceu ouvindo coisas horríveis sobre os Sonserinos. O que necessitava era ser recebido com compreensão e paciência. Mas, o ajudaram? Não. E vocês sabem mais do que ninguém – completou, olhando diretamente para os alunos do primeiro ano -. Vocês, por um acaso, fizeram algum esforço para se darem bem com ele?
- Ele não queria falar com a gente, professor – Scorpius se defendeu.
McNair bufou.
- Não coloque a culpa nos primeiroanistas. Isto não haveria acontecido se tivesse cortado desde a raiz, na Cerimônia de Sorteio.
Slughorn o olhou com ressentimento.
- Não se meta, McNair. E, bem, onde está Watson?
- Desaparecemos com ele – disse alguém, fazendo alguns alunos rirem.
- Está em seu dormitório. Não se preocupe, não queremos ficar sem Quadribol.
O professor Slughorn voltou a expressar seu desgosto, lembrou a Damon que teria castigo às oito da manhã e se foi, presumivelmente à sua reunião para falar sobre a petição de Watson. Então, Rebeca fixou-se em Damon.
- E você, maldito estúpido, em que estava pensando para atirar o prato de sopa sobre ele?
Damon não respondeu e olhou para Scorpius em busca de apoio.
- Não sei, disse que tinham de ter fechado a Sonserina depois da guerra – Scorpius então explicou -. E, além disso, é que... Não para de choramingar durante a noite, não faz os deveres para que percamos ponto e não há quem o agüente.
Rebeca apertou os lábios por um momento, mas logo suspirou resignada.
- Dez pontos... É tudo o que ganhamos em cinco dias, dez pontos...
Aquiles colocou a mão sobre seu ombro.
- Ainda temos todo o ano pela frente.
A tensão havia desaparecido subitamente do ar, como se a discussão com Slughorn a tivesse dissipado. Só ficara uma sensação amarga, ligeiramente derrotada.
