Capítulo 3: Perguntas e Castigos
Cinco anos é uma fase difícil para qualquer pai ou mãe. Devem ter sempre cuidado com tudo o que dizem, pois nunca se sabe quando as crianças poderão estar a prestar atenção à conversa. Há aqueles mais espertinhos, que fingem estar muito entretidos a brincar, quando na realidade não lhes escapa nadinha de nada do que se passa à sua volta.
Infelizmente, os leões não pareciam ter conhecimento disso, pois não demonstravam moderação alguma enquanto comparavam a sua experiência no âmbito sexual ou a falta dela, em dados casos, na Sala Comum de Gryffindor.
― A melhor é definitivamente a Lindsay. Aquela modelo tem as curvas todas no sítio ― constatou Dean.
― Sim, já viram o tamanho das melancias dela. Aposto que correria o risco de me asfixiar nelas se tivessemos sexo. Imaginem só… Quando ela atingisse o orgasmo e me abraçasse fortemente prensaria o meu rosto contra as mamas dela ― concordou Ron com um sorriso tonto e um fio de sangue a escorrer pelo nariz.
"Hmm… Interessante. É melhor tomar nota e ver quando é que dá para puxar o assunto…", pensou o loirito com uma expressão de profunda meditação, enquanto planeava a melhor forma de colocar o ex-ruivo em problemas. Sim, ex-ruivo…
A Madame Pomfrey ainda não tinha tido o tempo muito menos a paciência para resolver o assunto, demasiado ocupada com casos mais graves, pelo que Ron tivera que se habituar ao seu novo visual até que a enfermeira se dignasse a atendê-lo. Era isso ou engolir o orgulho e pedir ajuda ao Professor Snape e isso era algo que este não estava preparado para fazer. Preferia perder o último resquício da sua dignidade do que ficar a dever algo a uma serpente.
Após algum tempo, as pessoas foram-se acostumando àquele moderno e maravilhoso look que já nem se riam (tanto) quando o viam (ou conseguiam esconder muito bem).
A discussão "académica" do grupinho estendeu-se pela noite dentro sem que ninguém se desse conta da presença do intruso que ia tomando nota mentalmente de todas as palavras que poderia utilizar para atormentar o varão mais jovem da família Weasley.
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Dumbledore ainda nem havia terminado de falar, quando as chamas da lareira aumentaram exponencialmente, quase parecendo que estavam prontas para engolir o seu rosto, uma vez que não tinha tido tempo para se afastar do fogo esverdeado após terminar a chamada via flu, indicando que a pessoa do outro lado da linha pretendia usar a lareira para chegar ao seu escritório.
O Diretor retrocedeu um par de passos, cedendo passagem à imponente figura platinada de expressão severa à qual se seguiu uma figura mais pequena e delicada que contorcia as mãos de pura preocupação.
― Onde é que ele está? ― exigiu o homem, dirigindo-se à porta do gabinete sendo seguido de perto pela esposa.
― Calma, Lucius. Conversemos primeiro, sim? O jovem Draco está perfeitamente bem e de ótima saúde ― disse o velho, tentando acalmar os ânimos do casal ― Poppy já o examinou e concluiu que está tudo bem. Para idade que tem e dadas as circunstâncias, a criança está em muito boas condições, nota-se que é bem cuidada e muito amada. Não há nada errado a apontar.
Narcisa deixou escapar um suspiro de alívio e tomou assento frente à secretária, arrastando o esposo com ela, decidida a averiguar exatamente o que havia de facto acontecido.
― Foi um mero acidente e estará resolvido em três ou quatro semanas ― concluiu o velho após terminar de explicar as circunstâncias. ― O Professor Snape já começou a elaborar a poção e tudo o que nos resta é esperar e assegurar que o jovem Draco é bem cuidado durante esse período.
― Ainda assim não me sinto descansada em deixá-lo aqui. Hogwarts era suposto ser uma boa escola ― criticou a mulher, olhando pelo canto do olho para o marido em busca de apoio.
― Narcisa tem razão. Este é um incidente sem precedente, nunca tal havia acontecido durante toda a história de Hogwarts datando até à época da fundação.
― Foi apenas um pequeno acidente de poções. Acontecem o tempo todo. Não é nada demais ― retorquiu o Diretor com um sorriso bonachão, querendo diminuir a seriedade da situação e evitar um processo disciplinar.
― Isso a mim não me importa. Neste momento tudo o que me importa é que o meu filho esteja seguro… em casa… comigo! E bem longe desta maldita confusão. Quem nos garante que os outros estudantes não vão utilizar esta oportunidade para o maltratar? Tenho perfeita noção de que ele não é precisamente um anjinho!
― Não há nada com o que se preocupar, Narcisa. A Senhorita Granger tem feito um ótimo trabalho a tomar conta do jovem Draco, além de que este parece bastante apegado a ela.
― Granger!? ― exclamou Lucius com indignação ― Deixou uma sangue-ruim a cargo do meu herdeiro?
― Inicialmente essa era função da Senhorita Parkinson, mas foi-me comunicado que esta não estava apta para o encargo, pelo que concluí que a melhor escolha era de facto a Senhorita Granger. É uma jovem muito educada e responsável.
― Não admito que o meu filho seja cuidado por uma nascida de muggles.
― É errado discriminar as pessoas pelas condições em que nasceram, Lucius. Draco já se queixou várias vezes de ter perdido contra ela a nível académico, pelo que ainda que não seja filha de magos já provou que tem o seu próprio mérito ― disse Narcisa, chamando o marido à atenção, ao que Dumbledore assentiu em concordância.
― Ainda assim mantenho a minha resolução. Draco regressará connosco à mansão ainda hoje.
― Mas, Lucius… esta seria uma boa oportunidade para melhorar a convivência entre Casas ― disse o Diretor, tentando dar a volta à situação para que a criança não fosse retirada da instituição. ― Draco já se adaptou ao ambiente da Sala Comum de Gryffindor.
― De forma alguma deixarei o meu filho no meio de uma toca cheia de leões. Vá-se lá saber o que é que lhe fariam ― expressou o homem não dando azo a reclamações, erguendo-se do assento e voltando a dirigir-se à porta para abandonar o recinto.
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Hermione dirigia-se ao Salão Principal para tomar o pequeno-almoço. Ao seu lado encontrava-se Draco que olhava discretamente para trás a cada certo tempo, questionando-se onde estava a estrela para a sua nova travessura.
Não demorou muito para que a pobre vítima aparecesse a correr pela esquina, portando o seu habitual look careca com umas escassas madeixas rosa fluorescente que atraíam a atenção de todo aquele com quem se cruzava independentemente de já terem passado quase três dias desde o dito cujo incidente.
Draco apertou fortemente a mão da leoa, chamando a sua atenção e entraram no Salão Principal, sentando-se tranquilamente à mesa.
― O que foi Draco? ― interrogou Hermione com curiosidade, pois o menino raramente tomava a iniciativa de iniciar a conversa.
― O que é sexo?
A multidão susteve a respiração por um breve instante, chocada com a palavra depravada que saíra da inocente boquinha da criança. À porta encontravam-se Dumbledore e o casal Malfoy com a boca aberta de incredulidade.
― Onde é que escutaste essa palavra, Draco? ― perguntou a morena com um ligeiro tique nervoso no rosto que causava a contração involuntária da sobrancelha direita.
― Pinky disse que que'ia te' sexo com uma modelo ― respondeu o menino com uma voz inocente de quem nunca partira um prato na vida, apontando com o dedo na direção de Ron, derrotando com êxito o sorriso malvado que lutava por tomar conta da sua angelical face. ― Ontem quando foste à Biblioteca busca' um liv'o, Pinky disse que que'ia se' ab'açado po' uma modelo du'rante o'gasmo e asfixia'-se nas mamas dela.
A boca antes escancarada de Lucius Malfoy, encontrava-se agora firmemente cerrada, sendo possível escutar o ranger dos seus dentes. O homem levou a mão à varinha para poder castrar a criatura imbecil que o seu filho apelidara Pinky, ainda que, tinha de admitir que eram parecidos com a careca brilhante e as madeixas rosadas.
Antes mesmo que o sangue-puro tivesse a oportunidade de utilizar a sua varinha, Hermione já havia resolvido a situação, bantendo no criminoso com o livro que fora buscar à Biblioteca ao final da tarde passada, levando ao evento atual.
― Ron, sua escória. Não vales o ar que respiras, seu filho da m…
― Calma, Mione ― exclamou Harry, apontando para o pequeno que observava tudo com os seus olhinhos prateados bem abertos. ― Malfoy está a ouvir tudo o que dizes. Não queres dar-lhe um mau exemplo, não é mesmo?
― Tens razão. ― Os dois terços restantes do Trio de Ouro suspiraram de alívio demasiado cedo, pois a leoa voltou a erguer o pesado e volumoso livro prontinha para lhe dar um bom uso, mas antes de partir para ação, virou-se para o menino. ― Draco, fecha os olhos durante um bocadito, sim? E não os abras até eu dizer, ok? ― E este assim o fez, adivinhando que o sofrimento do ex-ruivo apenas havia começado.
Tudo o que Draco podia escutar era o ruído de golpes e gemidos de dor, acompanhados de exclamações estupefactas por parte dos presentes que se sentiam incapazes de interferir, não fossem eles despertar também a fúria da Gryffindor.
Lucius guardou a varinha discretamente e retrocedeu um passo, concluindo que não era uma boa ideia tentar separar Hermione de Draco, pois esta estava a agir como uma autêntica leoa frente a uma ameaça contra a sua cria.
― Tens razão, Albus, são só umas poucas semanas ― murmurou Lucius quase sem voz, querendo passar despercebido. ― Vai correr tudo bem. Voltaremos este fim-de-semana para assistir ao jogo de Quidditch.
― Avisa a Senhorita Granger que gostaríamos de passar o domingo com o nosso filho, por favor ― concluiu Narcisa, seguindo o marido que já se havia colocado na alheta ao ver o deplorável estado do inconsciente Weasley. Algumas pessoas juravam ter visto a alma de Ron abandonar o seu corpo por uns breves segundos.
Tendo acabado de ensinar uma boa e merecida lição ao seu amigo, Hermione aproximou-se ao menino, agachando-se à sua frente e disse-lhe que já podia abrir os olhos.
― Fizeste muito bem, Draco. És um menino muito obediente. Agora diz-me com quem é que Ron estava a falar ontem.
Um certo grupinho de gatinhos assustadiços retrocedeu um passo inconscientemente, desejando desaparecer da face da Terra, se possível.
― Hmm… ― O menino de olhos prateados pousou o dedo no queixo num gesto pensativo. ― Dean foi quem começou a conve'sa. ― Hermione girou levemente a cabeça, fulminando o rapaz com uma mirada que poderia gelar o próprio Inferno.
― E o que é que ele disse exatamente? ― perguntou a Gryffindor com uma voz suave e um sorriso doce, fomentando confiança na criança para que esta partilhasse a informação com ela.
― Disse que Pinky nunca consegui'ia do'mi' com uma modelo ou qualque' out'a mulhe' famosa ou não e que tudo o que podia faze' e'a mastu'ba'-se antes de do'mi' a ve' se sonhava com uma boazona. Mione, o que é mastu'ba'? ― perguntou o menino, pestanejando inocentemente ― E po'quê antes de do'mi'? É uma histó'ia? Posso pedi' à Pinky pa'a me conta'? Já sei a da B'anca de Neve de co'... podemos passá-la à f'ente.
― Dean! ― rugiu a leoa, levantando-se lentamente e preparando-se para dar início a um massacre sem igual, assim que conseguisse o nome de todas as pessoas envolvidas.
A fúria da rapariga causou a expulsão de uma forte onda mágica que fez com que os seus cabelos flutuassem momentaneamente, aumentando astronomicamente o nível de terror presente no ambiente.
― Penso que é assim que o herói grego se sentiu quando enfrentou a górgona, a terrorífica Medusa ― murmurou Dean com as extremidades inferiores a tremer como se fossem feitas de gelatina. ― Pernas para que vos quero se não me tiram daqui quando eu mais preciso? Vou morrer! ― choramingou ao ver a poderosa e mortífera arma que era um livro de capa dura nas mãos de Hermione Granger ― Se vou morrer não o farei sozinho! ― exclamou, empurrando os amigos para a frente para os acusar abertamente ― Malfoy é testemunha de que eles também lá estavam e que disseram coisas ainda piores…
Quem diria que um livro nas mãos certas poderia ser a causa dos pesadelos de vários adolescentes e porque não… talvez também de alguns professores.
A população de Hogwarts nunca voltaria a ver um livro da mesma forma.
Harry curioso aproximou-se ao menino, ajoelhando-se à sua frente.
― Porque é que não fazes perguntas mais comuns?
― Comuns? ― interrogou Draco confuso.
― Sim. Coisas como "Porque é que o céu é azul?" ou "Porque é que as nuvens são brancas?"
― Acaso não é óbvio? É po'que já sei a 'esposta. O céu é azul po'que os 'aios sola'es colidem com as moléculas de a'(e), água e poei'a e são 'esponsáveis pela dispe'são do comp'imento de onda azul da luz.
Hermione parou o massacre ao escutar as palavras da criança.
― Enquanto nas nuvens existem gotículas de tamanhos muito maio'es que o comp'imento de ondas da luz, oco''endo uma dispe'são gene'alizada em todo o espect'o visível e iguais quantidades de azul, ve'de e ve'melho unem-se fazendo com que a luz b'anca seja dispe'sada ― concluiu Draco, encarando o Menino de Ouro como se este fosse portador de alguma incapacidade mental. ― Acaso o teu nível de cultu'a ge'al é nulo? O inst'uto' p'ivado ensinou-me isso no ano passado. São ensinamentos básicos que se ap'endem antes dos cinco anos.
A multidão observava o menino de olhos prateados boquiaberta, enquanto uma certa leoa não podia deixar de transparecer o seu interesse e curiosidade.
"Nunca me tinha apercebido que Draco era tão inteligente", pensou Hermione, acercando-se a ele e pegando-o ao colo. "Se já é assim aos cinco anos, pergunto-me a que nível estarão os seus conhecimentos atualmente. Pena que não nos damos bem, seria interessante conversar com ele."
Discussões académicas eram o ponto alto do dia da leoa. Para palermas sem conhecimento já lhe bastavam os membros da sua Casa que preenchiam a sua quota diária antes mesmo de abandonar a Sala Comum para ir tomar o pequeno-almoço.
Não a mal-entendam ou condenem, Hermione adorava a sua Casa. Fora em Gryffindor onde encontrara os seus melhores amigos, mas por vezes gostaria de poder testar os seus conhecimentos mais regularmente como faziam os membros da Casa de Rowena Ravenclaw.
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Alheio aos acontecimentos sucedidos no Salão Principal, Severus Snape embrenhava-se na elaboração do antídoto que devolveria o seu afilhado à idade correta.
― É estranho o Draco ter estado tão quieto nos últimos dias. Desde que Weasley se converteu em Pinky não ocorreu mais nada digno de atenção. Talvez a ideia de trancar o armário de poções tenha funcionado. Se eu soubesse que isto ia acontecer, nunca teria permitido que Lucius lhe contasse todas aquelas histórias sobre os nossos anos em Hogwarts ― murmurou o Mestre de Poções, soltando um suspiro cansado. ― Aposto que a esta altura Draco já conhece o castelo melhor do que alguns professores.
Severus pegou numa raiz e começou a cortá-la cuidadosamente.
― Só temos que sobreviver durante mais um mês… Quão difícil pode ser isso? ― Um frio gélido instalou-se na sua espinha, causando-lhe um arrepio ao recordar um incidente que acontecera no passado por volta da idade que o seu afilhado tinha nesse preciso momento. ― É melhor pedir à Poppy para avaliar os níveis mágicos do Draco, não vá voltar a acontecer uma catástrofe como a que houve na mansão de férias que Abraxas ofereceu à Narcisa em Paris como presente de casamento.
