CAPÍTULO III
O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar.
(Clarice Lispector)
Gina saiu do salão principal pouco depois de ver Draco recebendo o bilhete, e vagou pelos corredores sem rumo e pelo que lhe pareceram horas, até ir para a sala comunal da Grifinória. Chegando lá, a garota se deparou com alguns alunos do segundo ano, e num canto mais isolado da sala, ela avistou Harry. Ele estava sentado numa poltrona, parecendo absorto em pensamentos, mas ao notar a presença de Gina, levantou e caminhou na direção dela.
- Será que nós podemos conversar? – Ele perguntou, de maneira gentil.
- Não acredito que temos assunto, mas se você quer... – Ela respondeu friamente.
- Eu soube da sua briga com o Rony – Harry comentou, enquanto os dois caminhavam em direção ao lugar onde ele estivera sentado.
- Você e a escola inteira – ela disse, impaciente, sentando-se em uma cadeira em frente a poltrona de Harry.
- O que houve, Gina?
- Nada demais, ele só veio encher meu saco por que soube que nós dois tínhamos transado.
Harry perdeu um pouco da cor que tinha no rosto e fitou Gina, chocado.
- Como assim soube?
- Sabendo! Escutando nossa conversa, ele e a Hermione estavam naquela sala, esqueceu?
- É verdade... – Harry parecia aflito.
- O que foi, Harry? Você tem medo do que o Rony pode fazer? – Ela provocou. – Não se preocupe, eu já deixei claro que ele não deve se meter na minha vida. E isso inclui tirar satisfações com os caras com quem eu já transei.
- Os?
- É – Ela respondeu, simplesmente. – Ah, espera um minuto, você não achava que tinha sido meu primeiro, achava? Merlin, Harry, nunca imaginei que você fosse tão tapado.
- Foram muitos? – Ele perguntou timidamente.
- Isso não é da sua conta.
- Bom, você... é que... sabe, você... – Harry não parecia capaz de formular uma frase inteira.
- Eu o quê, Harry? Você e o Rony tem essa mania ridícula de me tratar como se eu fosse uma criancinha. Faz tempo que eu cresci e é uma pena você ter sido estúpido demais pra notar isso – ela disse, levantando-se.
- Desculpe – Ele murmurou, quase inaudível.
- Pelo quê?
- Por não ter notado antes – e com isso, ele saiu da sala comunal, parecendo confuso.
Gina permaneceu em pé por alguns instantes, observando Harry ir embora. Por breves segundos, ela sentiu pena dele e quase se arrependeu de ter feito o acordo com Draco. Draco. Hoje ele saberia quem era a garota misteriosa. "Ou não", pensou Gina, sorrindo maliciosamente. Com esse pensamento, ela foi decidida até o dormitório masculino, para logo em seguida rumar para a sala de Defesa contra as Artes das Trevas.
Draco estava sentado, em frente à lareira apagada da sala comunal Sonserina. Não era à toa que lá era sempre tão frio. Onze horas. Ainda faltava uma hora para seu encontro com a garota misteriosa e ele não conseguia mais suportar a espera. Blaise parecia ocupado demais tentando seduzir uma quartanista sorridente, Pansy e Emilia ainda comentavam sobre a briga entre os Weasley e Crabbe e Goyle estavam distraídos jogando snap explosivo. Sem maiores avisos, Draco rumou para fora da sala, alheio ao fato de que chegaria uma hora antes do combinado. Isso era o de menos naquele momento, pois a única coisa que o loiro queria era estar lá.
Gina sentou em uma cadeira um pouco escondida, perto de um armário. Ainda eram onze horas e quinze minutos. Por ter saído apressada, ela esquecera a varinha e então teve de posicionar-se em um lugar estratégico. Para sua surpresa, a porta se abriu revelando Draco, que vasculhou rapidamente a sala com os olhos.
- Não feche a porta – ela disse, calmamente.
O loiro se assustou, mas logo recuperou a pose habitual.
- E por que não? – Ele perguntou, maliciosamente. – Tem medo do que eu possa fazer?
- Como eu já lhe disse no nosso primeiro encontro, vai sonhando – ela respondeu, com desdém. - A porta está quebrada, só abre por fora.
- É, eu sei disso. E onde você está? – Ele perguntou, segurando a maçaneta da porta e balançando-a. - Eu ouço a sua voz e sei de onde ela vem, mas não consigo te ver.
- Lógico que não. Eu estou usando uma capa da invisibilidade.
A expressão de Draco se dividiu entre o choque e a impaciência. Choque, por saber que aquelas capas eram raríssimas e impaciência por definitivamente não aguentar mais todo aquele mistério em torno da identidade da garota.
- Pois bem então – ele disse, fechando a porta. Ela gritou "não!" mas Draco não deu atenção. – Você não sai dessa sala até que eu tenha visto o seu rosto.
- Nenhum de nós vai sair dessa sala, seu imbecil! E agora? Nós deveríamos estar nas nossas salas comunais, se o Filch nos pega aqui, ele-
- Ele vai tirar alguns míseros pontos nossos e nada mais. E, caso você não saiba, eu sou monitor. Monitor-chefe, para ser mais específico.
- Ah, sua mamãe deve ter ficado orgulhosa de você. Como você acha que sairemos daqui sem ajuda? É impossível!
- Sabe, eu realmente não estou preocupado em sair daqui. – Com uma calma irritante, ele se sentou numa cadeira de frente para Gina. - O que mais me interessa é descobrir quem é a pessoa escondida embaixo dessa capa.
Gina bufou. Não conseguia acreditar como alguém podia ser tão irritante em tantos detalhes. O olhar de Draco, a maneira como ele sentava, com os pés em cima da mesa e as mãos na nuca, o riso zombeteiro, a pose prepotente. Merlin, como ela o odiava! Mas precisava dele para se vingar de Harry. Ainda não sabia como, mas o ódio que Draco sentia por Harry e a mente maligna do loiro certamente seriam úteis.
- Tudo na hora certa, Malfoy.
- Me chame de Draco.
- Acredite, você não ia querer que eu te chamasse de Draco.
- E por que não? – Ele perguntou, estranhando. Aquela situação começava a parecer muito suspeita.
- Isso não importa agora. Precisamos decidir como começaremos-
- Não, não, por que eu não ia querer que você me chamasse de Draco? – Ele perguntou, indo na direção dela.
- Não se aproxime mais, Draco. Estamos sozinhos, trancados e eu posso perfeitamente lançar um feitiço em você – ela disse, com a voz mais segura que conseguiu fingir.
Draco parou, mas continuou fitando o nada de onde vinha a voz da garota.
- E por que você não quer que eu te veja ainda? – Ele perguntou, muito desconfiado.
- Aparências enganam, Malfoy. Tenho certeza que você tem muitas opiniões a meu respeito e prefiro que você perceba que podemos fazer o plano dar certo apenas pelo que conversarmos. Não é necessário que você saiba quem eu sou para isso.
- E você pode me dizer qual o grande problema em eu saber quem você é? – Ele perguntou, aproximando-se involuntariamente dela. - Que opiniões são essas que eu tenho a seu respeito?
- Muito perto, Malfoy, para trás – Draco bufou e virou de costas. - Você provavelmente sabotaria nosso acordo pelo simples fato de ele envolver a mim.
Um momento de clareza tomou conta da mente de Draco. Não, não podia ser. Aquilo não passava de uma maldita coincidência, aquela não poderia ser quem ele estava pensando. Draco amaldiçoou-se mentalmente por não ter percebido antes e mais ainda, por ter feito um acordo com uma garota que não conhecia. Com aquela garota! "Não seja tão drástico", ele pensou, "pode não ser ela". E antes que pudesse convencer a si mesmo de que aquela não era quem ele pensava, Draco sentiu alguém passando lentamente ao seu lado. Num movimento rápido, agarrou a garota na altura do cotovelo.
O loiro acabou puxando-a com mais força do que esperava e isso fez com que ela colidisse com ele num impulso forte, o que acabou por derrubar os dois. Ela agora estava em cima dele, numa posição um tanto inapropriada, considerando a situação, e Draco segurava com força os dois braços descobertos dela. Só o capuz da capa ainda estava firme, não permitindo que ele visse o rosto dela. Talvez ele não quisesse ver, a ideia de que sua suspeita se confirmaria era quase angustiante. Antes que Draco pudesse fazer menção de retirar o capuz, ele percebeu longos fios de cabelo avermelhado caindo pelos ombros da garota.
Agora não havia mais dúvida. Aqueles cabelos absurdamente vermelhos só poderiam pertencer à uma garota em Hogwarts: Gina Weasley.
