CAPÍTULO
3
Um tremor de magia e uma luz violeta tocaram a porta guardada por sentinelas. Era um de seus Comensais da Morte procurando ter acesso a Ele. Ele suspirou, pensando em seus basiliscos de pedra que lhe diriam exatamente quem estava na porta e quais eram suas intenções. Basiliscos sentinelas que costumavam guardar a Mansão da Sonserina antes que esta fosse destruída, os únicos que estavam na Câmara agora e ele não tinha mais magia para criar pedras conscientes. Malditos trouxas e sua interferência! Talvez quando todos eles tivessem desaparecido da Terra a magia se regenerasse. Podia-se esperar isso. Com um pensamento e um aceno de mão, liberou as proteções da porta.
Bellatrix Lestrange estava na soleira.
— Mestre. — Ela caiu de joelhos, seus cabelos negros com pequenas listras prata perto da testa caíam em seu rosto conforme ela inclinava a cabeça. Azkaban a tinha envelhecido, pensou ele. A carne dela, nunca particularmente radiante como a de suas irmãs, era agora de um cinza doentio, e seu corpo, uma vez forte e tentador, era agora ângulos e cantos, mas a magia era a mesma. A magia nunca tinha mudado dentro dela. Ele se lembrava de quando ela nascera, a última das crianças de Carman; a última e a melhor, pensou, a trazendo para dentro da sala com ele e passando Nagini de seus ombros para o sofá próximo. Bellatrix adentrou lentamente a sala para encará-lo e ajoelhou-se para beijar suas roupas. Ele pôs a mão na cabeça dela como numa bênção, lembrando-se dela como uma criança preciosa.
Andrômeda tinha sido a primeira criança de Carman, deixada muito freqüentemente com os elfos e lufa-lufas enquanto Ele e Carman planejavam a dominação do mundo. Grandes planos freqüentemente deixavam pequenos detalhes interminados. Andrômeda era um deles. Quando Carman e seu marido, Braen, se deram conta do que estava acontecendo, Andrômeda estava enamorada de um nascido trouxa. Ele e Carman tinham querido eliminar o pequeno verme, mas Braen discordou.
— É só uma fase — Braen tinha insistido. — Andrômeda vai esquecê-lo.
Mas Andrômeda não o esqueceu. Ela se casou com ele, e então era tarde demais para eliminá-lo. Andrômeda estava grávida de uma criança dele. Talvez fosse um aborto, eles tinham tido a esperança, e ai não haveria problema em matá-lo. Infelizmente, era uma pequena bruxa. Chamaram-na Nymphadora. Carman teve mais sorte com suas duas próximas filhas. Com nem um ano de diferença havia as duas que eram tão mais parecidas com a sua Carman, os cérebros e a beleza, Laurel e Narcissa. Bem, ele tinha dito a Carman, que recebera o nome da deusa do caos:
— Você não conseguiu seus três filhos, mas tem três filhas.
— Sim — ela rira conforme a pequena Andrômeda escapara de seu elfo-doméstico e tropeçara perto de sua mãe, tentando evitar os esforços combinados das duas irmãs mais novas para fazê-la brincar com elas. — Escuridão, Maldade e Violência.
— Vá e brinque — exclamara Carman empurrando Andrômeda de detrás dela.
— Elas são muito brutas — Andrômeda reclamara.
— Elas são sonserinas — dissera Carman. — Como você.
— Não quero machucá-las — Andrômeda retornara. Narcissa e Laurel, entretanto, não tinham tanta compulsão e uniam forças contra a irmã mais velha.
— Você é a mais velha — dissera Carman. — Aja como tal.
Mas Andrômeda nunca fora uma líder. A líder nasceu na mais nova, Bellatrix. A Bellatrix que se ajoelhava diante dele agora; a Bellatrix que tinha suportado todas as brincadeiras que suas irmãs mais velhas sabiam, melhorado-as e feito-nas suas; a Bellatrix que fora fiel a ele por treze anos em Azkaban.
Os olhos escuros dela dardejavam pela sala, procurando como se esperassem que algum inimigo estivesse se escondendo. Ele se perguntou, não pela primeira vez, se Azkaban tinha-na deixado perturbada.
Preferir ir para Azkaban a renunciar a ele? Talvez ela tenha ficado perturbada antes de ir para Azkaban. Ele certamente nunca teria feito o mesmo.
— Bellatrix — disse, e o foco dela voltou para ele.
— Milorde.
— Sente-se e me conte as novidades — ele indicou a cadeira à sua frente.
Ela se sentou na cadeira e pôs as mãos nos descansos por um momento, mas tirou-os depressa, como se esperasse que correntes fossem ser expelidas deles. Quando nada aconteceu e ele silenciosamente esperava o relatório dela, ela pareceu relaxar.
— Os Mucilber encontraram as senhas para a casa de Amélia Bones — disse ela —, mas elas são mudadas a cada quatro horas. Eles vão ter que obtê-las denovo, exatamente antes de irmos recuperar madame Bones. — Enquanto falava Bellatrix pareceu relaxar um pouco mais e seus olhos ficaram nele em vez de dardejarem pelas sombras.
Voldemort acenou satisfeito por ter substituído os Scrimgoer pelos Mucilber. As maravilhas da Polissuco ainda o estarreciam. Era tudo tão simples.
— O Ministro da Lei Mágica é amigo dos Scrimgoer, então? — perguntou ele.
— Sim, milorde. Eles visitaram madame Bones várias vezes nessas semanas. Não deveria ser um problema para eles obter as senhas a qualquer hora, mas, tendo somente quatro horas, não vão poder ficar de babás de Moody.
— Entendo. Vou ter que considerar quem será melhor para esse trabalho — disse Voldemort. Ele desejava que Laurel ainda estivesse viva. Ela, ou Barty Crouch, seria perfeita para o trabalho. — É uma grande pena que Barty Crouch esteja morto — observou ele para Bellatrix. — Ele e Moody pensavam de um jeito tão parecido que era até estranho.
— Sim, Mestre — disse Bellatrix hesitante.
— Algo mais?
— Não, Mestre.
Ela olhou para baixo, não para as sombras, não para o rosto dele. Era óbvio para ele que ela estava mentindo.
— Venha cá.
Ela foi um pouco hesitante e ele deitou as mãos em sua face, que estava começando a corar um pouco agora. Ele se perguntou o que ela, a mais leal dentre seus leais Comensais da Morte, estava escondendo dele. Conforme a tocou, ela não escondeu nada. O desejo deu um golpe certeiro no rosto dele. Era quente e insistente. Ela levantou os olhos negros esfumaçados até os dele e abriu os lábios esperando.
— Você devia ter um marido... — ele começou.
— Eu não quero um marido — Bellatrix zombou. — Eu i nunca /i quis um marido. Foi decisão dos meus pais. Não minha. — Audaciosamente ela pôs os dedos na pele do pescoço dele, deixando a magia fluir entre eles. — Me diga quando parar — soou como uma colegial vertiginosa, pressionando seus lábios contra as escamas que se misturavam com a pele humana no pescoço dele.
Ele hesitou, explorando os sentimentos que o atravessavam. A maioria era surpresa de que alguém desejaria o que ele chamava de corpo agora — surpresa e arrependimento por a magia dela, que deveria dar-lhe uma sensação maravilhosa, ter lhe dado uma sensação de insetos rastejando por sua pele. Ele trocou prazer por poder quando alcançou a imortalidade e não sentia nenhum desejo por ela. Os únicos sentimentos que o moviam era aqueles relacionados à morte e dor.
— Quero sentir... sua magia — sussurrou ela.
Ele sabia bem o que ela queria, mas não era mais capaz de retribuir, e não era magnânimo o suficiente para dar prazer a ela sem igual ganho. Sabia bem do que ela sentia falta e o arrependimento retorceu-se dentro dele conforme pegou as mãos dela e a empurrou para longe com aspereza.
— Você acha que eu me importo com o que você quer? — rosnou ele.
— Então me mate agora! — gritou ela arremessando a varinha emprestada de Laurel no chão e se distanciando dele. — Você acha que eu esperei o tempo todo em Azkaban por um sonho de superioridade bruxa? Por matanças de trouxas e reides a Dumbledore e aurores? Você acha que eu esperei por isso?
A explosão dela o surpreendeu, o excitou, o enraiveceu. Ela avançou nele como nenhum outro Comensal da Morte teria feito, seus olhos negros flamejando, seu corpo angular ganhando um pouco de graça com a emoção.
— Vá em frente, então! — ela demandou, jogando os braços para o lado. — Me mate agora. Eu não tenho nada a deixar para trás — jogou a cabeça para trás, seus olhos negros chamuscando, e seus lábios recuaram num sorriso de escárnio.
Ele nunca tinha-na achado tão bonita, tão cheia de vida. Agarrou os cabelos dela e a empurrou contra a parede.
— Seja cuidadosa com o que você deseja, Bellatrix — disse ele num sibilo ameaçador. — Eu poderia usar o Crucio tão facilmente quanto o Avada .
— Use, então — disse ela numa voz baixa. — Depois de treze anos sem magia, não há nada que você possa fazer contra mim que me assuste. Nada. Os dementadores já fizeram tudo — os olhos negros dela o desafiaram e zombaram dele e o chamaram. Ele queria protegê-la dos dementadores, beijá-la, fazê-la curvar-se diante de sua vontade. Queria muito mais do que seu corpo de cobra daria a ele.
Emaranhou as mãos mais forte nos cabelos dela e pôs os dedos contra sua garganta. Sentiu a coragem começando a se esvair dela e sorriu.
— Crucio — disse.
De seu toque, ele sentiu a fumaça quente de sua Maldição Cruciatus encher os pulmões dela e ela guinchou de dor na própria mente, mas não havia fôlego para gritar. Ela se esforçou muito por um momento para respirar, antes de habilidosamente fazer respirar magia. Ele a sentiu fazer a troca e segurou a própria respiração, sincronizado com ela, por um momento, e então inspirou bastante Ar Elemental. O corpo dela tremeu de medo da morte. Ao contrário do que tinha dito, ela estava com medo. Ele sentiu o pavor através da Legilimência. Medo, primitivo e total dentro dela, e a magia lançada com dor e medo o excitou como nada mais que ela pudesse ter feito. Apertou as mãos em torno dela enquanto ela lutava contra o medo e a dor, ambos crescendo até que ele a sentiu amolecer em seus braços e libertou-a do Crucio, enterrando o rosto nos cabelos dela, soltando para o Ar Elemental vários sopros trêmulos.
Voldemort recolocou a segurança na porta e se sentou, segurando-a na sala escura. Ele a levantou em seus braços e tirou o recipiente do ungüento de fênix da roupa. Derramou os últimos resíduos da poção do recipiente e dividiu-o entre suas palmas cicatrizadas e queimantes. Teria que dizer a Snape que precisava de mais. Seus basiliscos, confusos e alertas das emoções elevadas e do cheiro de carne queimada, moveram-se desconfortavelmente, sibilando e degustando o ar.
— Ssibilosss? Vítima? — um perguntou, confuso.
— Ssibilosss não — respondeu Voldemort. — Não essa. Ela não é minha vítima, é parte do meu poder, todavia.
Nagini se moveu próxima ao calor dele, mas não disse nada.
— Ela sabe que eu não senti a magia dela — Voldemort sussurrou suavemente para Nagini, mas Nagini continuou calada, e, finalmente, Bellatrix encheu os pulmões de ar e abriu os olhos. Pareceu surpresa de se encontrar nos braços do Lorde das Trevas e tentou se sentar. Um acesso de tosse a atacou e, olhos lacrimejando, ela olhou para ele, seus enormes olhos negros cheios de perguntas.
Ele não disse nada, somente tocou a face dela com um dedo longo. Ele o abaixou do canto da bochecha dela até o queixo com uma gentileza a que não estava acostumado, esperando os pensamentos virem, desejando que viessem. Não estava desapontado, apesar de sentir que ela estava tentando escondê-los dele.
Ele é tão vazio quanto eu , pensou ela. Não sente nada sem ser as emoções fortes; morte e medo e dor... Pena. Ela tinha pena dele. Ele cerrou os punhos. Não teria a pena dela. Preferia ter seu ódio.
— Tenho uma tarefa para você, Bellatrix — disse monotonamente. — Desde que sua falta de marido parece tê-la transformado numa vadia. — Ele sentiu a pena imediatamente desaparecer dos pensamentos dela, substituída por uma raiva fervente, e encontrou os olhos gelados dela. — Quero que você seduza Severus Snape.
Ela olhou embasbacada para ele de boca aberta, e ele traçou um dedo em volta dos lábios dela, sentindo a raiva em seus pensamentos; eram tão claros como um grito. Vá para o inferno!
Ela não iria, é claro, dizer aquelas palavras em voz alta, mas sabia que ele as sentiria.
— Já estou lá — disse ele suavemente. — A questão é, Bellatrix, se você está ou não vindo comigo...
Se lembrou dela dizendo aquilo quando recebeu a Marca Negra.
— Te seguirei até o inferno e de volta, milorde.
Foi o que ela dissera — com a Marca queimando negra em sua pele —; ela não derramara uma lágrima. Bruxos crescidos tinham sido reduzidos a berros, mas ela tinha os olhos secos, cerrando a mágica em seus pulsos, seus olhos tão negros quanto a Marca perfurando-o. Ela era magnífica. Ele a admirava acima de todos os outros Comensais da Morte, mas não podia dar a ela o que ela queria — o que ele queria — porque tinha trocado isso pela imortalidade, e nessa hora se perguntou se não era essa a sua perda.
Bellatrix se levantou para ir-se sem pedir permissão e ele segurou o ombro dela. Nagini sibilou brava pelo movimento brusco.
— E — disse ele — você pode retornar a mim amanhã. — Deu um sorriso fino. — Eu aproveitei a nossa pequena sessão, Bellatrix.
Ela desvencilhou-se do aperto dele e andou até a porta. Suas costas estavam retas e inflexíveis. Não que isso estivesse errado. Ela tinha se rendido. Sempre se rendera a ele. Ele observava enquanto ela se movia como uma predadora perigosa, sua roupa ondulando conforme andava. Mais inadmissível para ela, os olhos vermelhos dele se amaciaram conforme ele a assistia sair. Afinal, ele queria a lealdade dela. Era tudo o que conseguiria.
Silenciosamente afagou Nagini. As escamas negras da serpente não substituíam a pele quente e magia ainda mais quente de Bellatrix.
