iii. Negação

"Aquilo que não é conseqüência de uma escolha não pode ser considerado nem mérito nem fracasso ³".

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O restante daquele dia se arrastou para Bellatrix. O que a fazia sentir-se pior ainda, além das dúvidas e curiosidades que a torturavam, era saber que não poderia se encontrar com Rosmerta naquela noite: o atraso em seu retorno pela manhã fez com que o bedel acabasse por flagrá-la antes que pudesse chegar à sua Sala Comunal. Em conseqüência disso, o professor Slughorn – que era o diretor da Sonserina – aplicou-lhe uma detenção, por mais doloroso que isto pudesse ser para ele para ele, uma vez que era grande amigo de sua família e ela mesma fosse convidada constante nas festas e encontros que ele costumava promover.

Após o jantar, no Salão Principal, a jovem bruxa dirigiu-se à masmorra onde o bruxo lecionava Poções a fim de cumprir seu castigo. Não fosse pelo fato de impedi-la de realizar suas fugas habituais pelo túnel oculto, a companhia do professor Slughorn não era de todo má, uma vez que além dele bajulá-la constantemente, a sua disciplina era uma das que Bellatrix mais se dava bem e gostava.

— Ora, ora... O que temos aqui? – O mestre lhe perguntou curioso, ao vê-la aplicando uma mistura com um conta-gotas em uma das aranhas que serviam de cobaias em suas aulas. – É uma poção de sua própria criação?

— Sim! – Respondeu ela, enquanto observava o inseto se contorcendo de dor sobre as pernas que pareciam murchar e secar. – É uma idéia que tive há algum tempo e aproveitei para preparar após terminar de organizar o armário de ingredientes, como o senhor me ordenou.

— Sim, querida. Parabéns pela iniciativa! – Disse ele, batendo palmas pateticamente e, em seguida, olhando tristemente para a cobaia agonizante, completou: – Mas, aparentemente seu veneno não obteve o resultado desejado: sua vítima está viva, ainda!

— Na verdade – disse ela demonstrando excessiva paciência –, o resultado foi o esperado.

— Quer dizer que, sua intenção era de que apenas suas pernas apodrecessem? E a aranha permanecesse viva? Não é crueldade demais, minha querida? – Disse com uma entonação doce na voz, mas balançando a cabeça em negativa.

— Os venenos não devem ser utilizados apenas para matar, e sim para fazer sofrer, também. – Ela respondeu com decisão.

O bruxo observou-a com uma expressão de espanto e receio ao mesmo tempo, e preferiu não dar continuidade àquele breve debate.

— Pois bem! – Disse ele, demonstrando uma desnecessária felicidade. – Amanhã à mesma hora novamente, certo?

Ela apanhou a mochila que havia deixado a um canto e dirigiu-se calmamente até a porta. Então, deteve-se por um instante e se voltou para o professor, que deu um pequeno salto de susto ao ser questionado:

— Até quando pretende me prender aqui com essas detenções, professor? – O tom de voz dela era seco e ríspido, mas não havia rancor.

O homem retirou um lenço de linho verde de um dos bolsos e enxugou o suor que lhe brotara instantaneamente na testa.

— Até quando "eles" julgarem necessário, minha querida. – Respondeu-lhe, ciente de que seria uma bobagem ocultar a verdadeira razão.

Eles... – repetiu ela. – Os meus pais? – Ela insistiu, dando um passo à frente e percebendo que o mestre a imitava, porém, dando um passo para trás.

— O diretor Dumbledore também está muito preocupado com você, minha filha. – Disse, contorcendo as mãos uma na outra. – Espero que não imagine que isto é idéia minha...

Ela não lhe respondeu, apenas deu-lhe as costas e se retirou serena e silenciosamente do aposento.

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Sozinha em sua cama no dormitório da Sonserina, o sono demorou em lhe trazer o refúgio tão desejado daquele mundo repleto de normas e regras ditadas. Mas, quando chegou, a visita a outro mundo, o dos sonhos, se deu com presteza, fazendo com que um suave sorriso lhe brotasse no rosto adormecido. Um gosto doce nasceu em sua boca.

Logo, ela se encontrava no local mais próximo do paraíso que conhecia, a luz clara e a brisa fresca a rodearam e a invadiram, e ela se sentiu enlevar por elas, vagando aqui e além à espera da companhia pela qual ansiava constantemente, mesmo em sonho. As cores se multiplicaram em tons de ouro e anil e passaram a desfilar diante de seus olhos, envolvendo-a numa aura de paz e serenidade. Os sons também eram intensos, mas agradáveis, lembrando o leve bater das asas de libélulas e beija-flores, se perdendo entre o gorjeio de pássaros multicoloridos. Era um universo utópico e irreal, mas era o local que ela sentia fazer parte de si própria e costumava freqüentar sempre que se encontrava com Rosmerta.

E lá estava ela: vinda do nada, mas presente em tudo. Mesclando seus loiros cabelos arrebatadores ao ouro que cintilava em toda a parte, destacando o azul de seus olhos fascinantes no anil que brilhava ao seu redor. Sua presença, nesses devaneios, alimentava e nutria Bellatrix, fosse pelo que representava a ela em pensamento, fosse pelo que proporcionava a ela na realidade.

E novamente ela se sentia viva, e podia tocar a amada e experimentar a realização de seus desejos mais profundos: sentir o brilho macio da sua pele e se regozijar com suas doces carícias de amor. O perfume gritante de sua companhia invadia-lhe as narinas e ia se aninhar no abismo mais profundo do seu peito. O som adorado de sua voz marcava sua carne, como se até os mais ingênuos gemidos tivessem o poder de penetrar em seu corpo e nele se entranhar pela eternidade.

O que era real e o que era sonho? Poderia ela estar junto ao seu amor mesmo à distância? Estaria sua mente novamente a lhe pregar peças ou o sentimento que nutria em seu peito lhe dava o poder e a sensação de romper as barreiras da própria realidade?

Os momentos de cumplicidade, trêmulos, intensos, que viveram juntas passaram a fazer parte dela. E ainda sentia o perfume da outra em sua pele, o gosto delicado daqueles lábios nos seus, a dormência gostosa no local onde seus dedos haviam brincado.

Doce. Sentia em sua pele o sabor doce da língua da amante a percorrer e se deliciar em seus contornos, vindo em seguida a pousar e dormir em sua boca.

Amargo. Sentiu em sua boca o sabor amargo da língua da amante a fugir-lhe repentinamente e se afastar como acordada abruptamente de um pesadelo.

Doce amargo.

As cores lhe fugiam ou nunca haviam estado lá, o ar tornara-se parado e sufocante como se jamais uma brisa houvesse sido soprada, e os sons se tornaram um zunido forte e desagradável que a atordoava.

O que acontecia? A escuridão vencia a luz e engolfava a silhueta obscurecida de sua amada, arrastando-a para longe de si. Ela estendeu sua mão em direção à dela, mas a outra se esquivou e se recolheu, desprezando seu esforço. Ela buscou os olhos de Rosmerta com os seus, pedindo uma explicação, perguntando o motivo de seus sonhos estarem se dissolvendo e se dispersando: a mulher baixou os olhos e lhe virou o rosto.

Logo, o negrume tomou conta dos arredores, o frio insuportável do vazio a dominou e seu peito arfava por sentir o ar irrespirável. Bellatrix acordou ao primeiro raio de luz da manhã: a pele banhada em suor, o corpo tremendo quase descontrolado, a dor da infelicidade rasgando seu peito. Um gosto amargo jazia em sua boca.

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Em meio à aula de Feitiços, a primeira daquela manhã, Bellatrix foi convocada a acompanhar o professor Slughorn. Sentiu o sangue gelar, enquanto seu punho apertava ferozmente o cabo da varinha, por dentro da blusa, até os nós de seus dedos perderem a cor, imaginando tragicamente uma fatalidade e vislumbrando num relance o corpo sem vida de Rosmerta a desfilar diante de seus olhos. O pesadelo que a atormentara naquela noite, por uma fração de segundo, voltou vívido à sua mente. Ela abstivera-se, receosa, em julgar de que se tratara de um presságio ou agouro, mas o convite para se encaminhar até o gabinete do diretor da escola a fez temer por uma ligação inexplicável. Seu corpo foi tomado por uma ligeira vertigem e ela teve medo de desabar, mas se manteve firme e altiva como insinuava o sangue que corria em suas veias, afinal, ela também era uma Black.

O mestre obeso e de bigodes de leão-marinho a tranqüilizou: — Tenha calma – disse ele –, Druella quer falar-lhe com brevidade – prosseguiu, enquanto a conduzia gentilmente pelo braço. – Dumbledore cedeu seu escritório como cortesia para que tenham a devida privacidade.

O fato de ser sua mãe a procurá-la, abrandou seu ânimo. Apesar de discordar do modelo de conduta de seus pais, ela se sentia mais confortável à sua presença. Tinha sido uma criança apegada aos carinhos maternos e, apesar da pose e da pompa que sua mãe sempre demonstrara e incluíra na sua educação, a menina Bellatrix se aproveitara do tempo de infância das duas irmãs menores para prolongar o seu próprio período pueril: ela amava sua mãe, a despeito da criação rígida e dos sacrifícios sociais que sempre lhe foram exigidos.

No curto caminho que percorreu até o corredor da gárgula que vigiava a sala do diretor, ela se animou inconscientemente, julgando talvez que aquele encontro poderia reaproximá-la do convívio de sua mãe. O que as fizera se afastarem tanto assim? Porque certos fatos tão importantes de sua vida simplesmente teimavam em fugir de sua memória? E porque, incontáveis vezes, ela sentiu aquele desejo de proximidade e afeto transformar-se em ódio e decepção? Que sombra maldita era aquela que pairava sobre elas?

Na sala ampla e rica de detalhes, as paredes repletas de quadros de bruxos ilustres e os inúmeros objetos e badulaques mágicos espalhados por toda a volta não desviaram seus olhos e sentidos da presença orgulhosa e imponente de Druella Rosier Black. Em pé, postada defronte a janela localizada no lado oposto à porta que se fechara às costas de sua filha, estava a mulher que lhe causava arrepios de paixão e afeto, mas também provocava calafrios de possessão e autoridade. Esta, ciente e segura do poder natural que emanava de si própria, deixou de contemplar a fria paisagem de tons branco e cinza, desviou o olhar lentamente para a filha e, observando-a disse:

— Ah! Aí está você! – sua voz soou com arrogância, enquanto dava alguns passos em direção à mesa do diretor e sentava-se na imponente cadeira de encosto alto e braços de espaldar. A um gesto seu, a filha adiantou-se até a sua frente e aguardou silenciosamente, como um réu, prestes a ouvir a sentença do júri.

A presença da mãe sempre a inquietara, mas lhe dava confiança e segurança ao mesmo tempo. A lembrança de seus afagos, do contato com sua pele, com seus seios, o brilho dos cabelos negros que ela sempre se orgulhara de possuir à sua semelhança. Isso a reconfortava.

— A prostituta aceitou nossa oferta, não irá mais recebê-la... E você não deverá mais procurá-la! – Comunicou-lhe com um enfadonho ar de desdém.

A imagem da doçura ruiu. Não era mais a voz que ninava, e sim a que ralhava. Não era mais a mão que acariciava e sim a que ameaçava. Não era mais o sangue que lhe deu a vida, era o sangue-puro e intocável dos Black.

— Você está mentindo! – Rebelou-se a garota, deixando fluir sua insatisfação e cuspindo as palavras em alto e bom tom.

— Cale-se! – Ordenou-lhe a mãe, impaciente. E, num tom que mesclava asco e decepção, completou: – Francamente, Bella, esperava um pouco mais de você... Aliar-se a alguém dessa laia... Além de vadia, uma sangue-ruim...

As palavras não foram totalmente absorvidas pela jovem, ela ainda relutava em acreditar que Rosmerta realmente tivesse aceitado a proposta de seus pais, mas contestou mesmo se sentindo atordoada:

— Vocês não sabem de nada! O pai abusava dela... O imundo! Ela está melhor entre prostitutas e tarados do que com a sua própria família! – Não conseguiu conter as grossas lágrimas que rolaram por seu rosto.

Druella levantou-se com a leveza e imponência naturais dos nobres e aristocratas, contornou a mesa majestosamente e parou diante da filha – seu rosto era inexpressivo. Teria ela compreendido suas palavras e se enternecido com elas? Iria, agora, tomá-la em seus braços e decifrar o pedido de socorro criptografado nas entrelinhas dos seus atos? Talvez essa fosse a única paga que Bellatrix aceitaria para se privar da presença de Rosmerta: ter sua mãe novamente ao seu lado, como sua protetora, sua confidente, sua amiga.

O movimento foi rápido e preciso: a mão ágil e certeira esbofeteou-lhe a face emitindo um ruído seco, mas que ficou zunindo nos ouvidos de Bellatrix por um tempo indefinido.

— Nunca mais toque nesse assunto! – Ameaçou-lhe a mãe. Seus olhos faiscaram perigosamente e seus lábios se crisparam. – Guarde seus desvarios e as fantasias de sua mente doentia para si mesma. Essas nojeiras foram colocadas em sua cabeça por aquela vagabunda, esqueça tudo, porque ela já te esqueceu!

Bellatrix mordeu o lábio inferior até sentir uma gota de sangue tocar a sua língua, então engoliu os soluços do choro que insistiam em vir à tona: não ia lhe dar mais um motivo para demonstrar o escárnio com seus sentimentos. A mulher doce e compreensiva que ela desejava e necessitava não era aquela. O abraço amigo e a palavra de entendimento não partiriam dela, jamais. A pessoa que a ouviria e nortearia não era a sua mãe, pois ela já era órfã há muito tempo, sem o saber.

— Se vocês fizeram algum mal a ela, vão se ver comigo! – Ela ainda conseguiu dizer e, dando-lhe as costas, retirou-se da sala.

Ela não retornou às aulas, tampouco se recolheu aos seus aposentos. Sabia que a passagem oculta pelo bambuzal seria inatingível àquela hora do dia, mas tinha que saber de Rosmerta o que acontecera. A mais ligeira idéia de que seus pais pudessem tê-la ferido ou forçado a alguma coisa a enchia de ódio e uma intensa sensação de vingança.

Vagou num estado de quase transe pelo gramado coberto de neve até chegar à beira do lago semicongelado, então, um pio agudo e a sombra de uma ave lhe chamaram a atenção: a coruja pousou num galho saliente de um arbusto e lhe esticou a pata com a mensagem atada. O coração de Bellatrix queria saltar de seu peito, enquanto ela liberava o animal do pedaço de pergaminho para vê-lo partir rapidamente, logo em seguida.

Reconheceu o perfume de Rosmerta enquanto desenrolava o bilhete, aliviada por saber que nenhum mal lhe acontecera, mas apreensiva de que a mensagem lhe ferisse o coração, com o desfecho que seu sonho prenunciara:

"Seus pais foram generosos e não tive como recusar. Agora posso abandonar a vida e abrir meu próprio negócio. Não me odeie. Rosmerta".

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³Milan Kundera