CAPÍTULO 1

São Francisco era maravilhosa em julho, pensou Bella enquanto mirava o oceano à distância, sentada em um banco do parque. Uma brisa constante soprava do oeste, mantendo as temperaturas baixas e ela sentia como se estivesse acordando de um longo sono. A morte de Jacob foi tão inesperada que ela parecia enxergar tudo de trás de um nevoeiro. Mas, ultimamente, ela começara a notar as coisas de novo. Como o homem que corria agora perto dela.

Bella já havia visto aquele rapaz antes. Vinha regularmente um dia sim e outro não. Ela chegou a pensar se não parava sempre ali naquela hora só para observá-lo. Ou será que era tudo apenas coincidência?

Agora, o homem estava fazendo uma série de exercícios nas barras de ginástica do parque. Os braços dele... eram musculosos e ele parecia fazer as flexões sem esforço algum. As costas e os ombros se contraíam enquanto ele subia e descia sem parar. E o peito nu bem delineado fazia a combinação perfeita com as pernas longas e firmes.

Quando terminou de se exercitar, ele olhou para Bella. Erguendo uma mão para um cumprimento silenciosos, começou a correr novamente, logo sumindo de vista.

Ela soltou a respiração que não sabia ter prendido.

Uau! Ele podia ser modelo, com aquele corpo maravilhoso. Ela comentou sobre ele com sua amiga Alice, que queria vê-lo de perto, mas Bella foi mais esperta. Não ia dividir aquele 'gato' com ninguém.

De repente, foi tomada pela culpa. Não podia estar interessada em outro homem. Acabara de perder o marido.

Quer dizer, não estava realmente interessada. Aquilo era apenas uma observação do corpo masculino. Mas, puxa, a vida continua!

Dez minutos mais tarde, tempo suficiente para que ele estivesse bem longe dos olhos, Bella se levantou para voltar para casa. As provas finais do segundo ano da faculdade já haviam acabado e ela precisava de dar uma olhada em seu material, para jogar fora o que não fosse mais precisar. Em seguida, tinha de limpar o apartamento e decidir o que fazer sobre a moradia para o futuro. Um conjugado próximo à universidade não seria apropriado a um bebê.

No entanto, não estava interessada em se mudar para a casa de sua mãe e seu padrasto, embora eles tivessem lhe oferecido essa possibilidade. Renée e Phil se casaram logo depois do casamento de Bella e Jacob. Seria muito desagradável interferir na vida deles.

Aliás, o casal estava tão explicitamente apaixonado, que ela sentia inveja da mãe por toda atenção que recebia do novo marido. Bella não tivera isso nos poucos meses em que ficara casada com Jacob. Ele passava tempo demais no trabalho. E tempo demais sem valorizá-la.

Atravessando a rua do parque, virou na direção do seu prédio. Pensara durante o trajeto sobre quando havia começado a notar o rapaz do parque. Talvez há umas duas semanas? Será que ele também era estudante, e tirava um tempinho durante a tarde para correr? Hum, mas ele parecia mais velho do que a maioria dos estudantes que conhecia... Talvez ele tivesse um emprego noturno e se exercitasse antes de ir para o trabalho.

Não que estivesse especulando, pensou consigo mesma ao abrir a enorme porta de vidro do edifício, pois não fazia nem cindo meses que o marido havia morrido. Mas também teria de se lamentar por isso o ano inteiro?

O telefone tocava quando ela chegou ao apartamento e correu para atendê-lo.

- Isabella? – era Virgínia, sua sogra.

- Sim, Virgínia – respondeu ela, jogando-se no sofá.

Mais uma onda de culpa. Ainda não dissera a Virgínia e Billy que seriam avós perto do Natal. Ficariam muito felizes ao saber que havia um bebê de Jacob a caminho. Então, por que ainda não lhes dissera a novidade?

- Onde você estava? Tentei ligar três vezes. Billy e eu queremos que venha jantar conosco essa noite. Billy quer falar sobre desmanchar o quarto de Jacob. Eu acho que ainda é cedo. O que você acha?

- Quando chegar a hora, você vai saber – disse Bella. Virgínia fazia a mesma pergunta pelo menos uma vez na semana. Bella não precisava se preocupar com isso. Ela e Jacob praticamente não viveram juntos durante o breve casamento...

- Nós não vamos usar o quarto. Acho que deveríamos deixá-lo como está.

- Ele não vai mais voltar, Virgínia – disse ela suavemente.

- Eu sei disso! – gritou Virgínia. – Meu filho se foi... Meu filho se foi...

Bella ouviu o lamento da mãe e segurou o próprio choro. Também tinha dificuldades em acreditar que jamais o veria de novo. Durante os últimos dois anos, ela apenas o vira por algumas semanas.

Pela primeira vez, pensou se eles não haviam se casado rápido demais. Foi o que sua mãe disse antes do casamento. "Bella, só se case depois que ele servir ao Exército." Será que as coisas seriam diferentes se eles tivessem esperado?

- Não posso ir ao jantar essa noite – disse Bella. – Tenho um compromisso. Mas quanto ao quarto, sugiro que espere mais um pouco.

Ela não queria ficar no meio de uma discussão entre Billy e Virgínia. Na maioria das vezes, ela ficava do lado do sogro, o que deixava Virgínia furiosa. Ele tinha uma visão muito mais prática das coisas.

- Que compromisso? – perguntou a sogra.

Bella suspirou. Ultimamente, Virgínia se tornara muito mais exigente. Queria ficar falando horas sobre Jacob e ficava ressentida de Bella precisar de tempo para estudar e ir às aulas. Quando as aulas terminavam, Virgínia queria ainda mais tempo com Bella.

A sogra parecia ter parado no tempo, desde a morte de Jacob. E esperava que Bella fizesse o mesmo. Saber sobre o bebê ajudaria ou pioraria as coisas?

- Gostaria de jantar com vocês no sábado. Está bom para você e Billy?

Ela lhes diria tudo no dia. Guardara segredo por tempo demais. Tinha uma consulta marcada com o obstetra na sexta-feira, e então poderia contar as últimas notícias sobre o bebê. Talvez um neto ajudasse Virgínia a seguir a vida em frente.

- Está ótimo. Esperamos você às seis no sábado.

Bella desligou o telefone e olhou para a foto de Jacob sobre a mesa.

- Sua mãe está me deixando louca! – disse ela.

Não houve resposta.

A culpa era uma companhia constante. Bella deveria estar sentindo uma dor tão grande quanto a de Virgínia, mas a verdade era que não estava. Sentia falta de Jimmy, é claro, mas as coisas mudaram muito desde os tempos do colégio. Bella tinha sua própria vida e ele não se encaixava nela. Jacob estava no Exército e ela certamente não tentou se encaixar por lá.

Tocou a barriga, desejando que o filho tivesse tido a chance de conhecer o pai. O próprio pai de Bella a deixara quando tinha apenas três meses de idade. Sabia bem o que era não ter pai. Mas não havia nada que pudesse fazer. Pelo menos, o neném teria Phil e Billy. Bella nem se dera ao luxo de ter avós.

Ela teria de se apoiar em amigos e no seu padrasto para dar ao bebê uma presença masculina. Até porque não pensava em se casar tão cedo. Se chegasse a se casar, seria com um homem com seguro, como um contador ou mecânico, não alguém de uma ares tão perigoso quanto as Forças Armadas!

Edward Cullen usava de toda a sua força para terminar o percurso. No final da pista, aonde fazia exercícios nas barras, um bela morena descansava em um banco. Ele a notara pela primeira vez há algumas semanas. A moça parecia visitar o parque todas as tardes à mesma hora. E ele sempre tentava ir no mesmo horário.

Edward se lembrou de quando ela sorrira da primeira vez que lhe acenara. Estava tentando descobrir uma maneira de conhecê-la melhor, mas não quando estivesse usando um short surrado e suando em excesso. Por duas vezes, ele retornara lá para ver se a encontrava, mas ela já tinha ido embora.

Ela deve morar perto do parque para vir com tanta freqüência. Edward mesmo tinha um apartamento em um prédio antigo a apenas alguns quarteirões dali. Era próximo ao quartel do corpo de bombeiros, e à universidade. Podia ir caminhando para os dois e economizava em transporte para o trabalho. Vários dos outros inquilinos eram estudantes. Ele era um dos moradores mais recentes. Acabara de se mudar há poucas semanas, quando fora transferido do quartel Hunter's Point.

Ele caminhou, notando o banco vazio. Talvez sexta-feira ele deixasse os exercícios de lado e fosse falar com ela.

Na sexta-feira , Bella pegou o ônibus até o novo apartamento da mãe no distrito de Marina. Após um rápido toque de campainha, Phil atendeu à porta, cumprimentando-a com um abraço.

- Como você está? – perguntou ele.

- Bem. E mamãe?

- Está ótima. Agora que entrou no quarto mês, está com mais energia!

Bella sorriu. Phil estava animado com o filho por chegar. Ele as acompanharia até o médico. Bella e a mãe escolheram o mesmo obstetra e organizaram suas consultas para que pudessem ser vistas ao mesmo tempo. Phil sempre acompanhava Renée, o que fazia com que Bella sentisse um tanto quanto abandonada. Mesmo assim, ela gostava de ir com eles.

- Olá, querida – disse a mãe, dando-lhe um beijo no rosto. – Espero não tê-los feito esperar muito – completou Renée, sorrindo para o marido de modo especial.

Bella desviou os olhos. Era evidente o que eles estavam fazendo antes de sua chegada. Mais uma vez foi tomada pela inveja. Na verdade, estava muito feliz pela mãe. Já havia passado da hora de encontrar a felicidade com alguém. Bella apenas desejava ter a mesma sorte. A curta lua-de-mel e as poucas semanas de Jacob passou em serviço no país não contavam

- Queremos ir almoçar depois da consulta, vamos? – perguntou Renée.

- Vou para casa , se você não se importar. Meu tempo está um pouco apertado.

O almoço a atrasaria para seu "encontro" com o corredor. E, se ele mantivesse a mesma agenda, ela só poderia vê-lo de novo no domingo.

- Levaremos você para casa depois – disse Phil. – Vai economizar o tempo que passaria no ônibus.

- Tudo bem.

Ela ficaria de olho no relógio para se assegurar que chegaria a tempo.

Por um momento, achou tolice fazer planos sobre um estranho que veria à distância por apenas dez minutos. Mas era tão bom ver aquele homem atlético correndo! Torcia que isso fosse um bom sinal.

Ia perguntar a Alice. Não tinha certeza de que queria que a mãe soubesse sobre ela andar por aí observando homens desconhecidos.

- Estou planejando contar a Virgínia e a Billy sobre o bebê amanhã à noite – disse Bella, já no banco traseiro da van que Phil dera de presente a Renée. Um carro esporte não seria apropriado para a família.

- Eles ficarão muito felizes – respondeu Renée, olhando para trás, em direção da filha. – É claro que Virgínia vai querer saber a razão de você não ter contado antes. Mas Billy ficará imensamente feliz com a notícia.

- Espero que isso faça Virgínia pensar em algo além de Jacob. É muito difícil lidar com ela, mamãe. Ela só fica olhando as fotos antigas e falando sobre ele.

- É muito difícil para ela, Bella. Está tentando se segurar da melhor maneira possível. O tempo e as notícias sobre o bebê vão ajudar – tranqüilizou Renée.

- Quer ir às compras com a gente amanhã? – perguntou Phil. = Vamos olhar berços, trocadores de fraudas, cercadinho e outro apetrechos que sua mãe me convenceu ser necessário para recém-nascidos.

Bella riu, balançando a cabeça.

- Eu vou comprar minhas coisas em uma loja de segunda mão. Mas não ainda. Não tenho onde guardar no meu apartamento. Tenho de me mudar. Agora que estou de férias na faculdade, preciso encontrar outro lugar para morar. Graças a Deus, o seguro de Jacob sobre as despesas por um tempo. Como estou grávida, não seu se vou conseguir emprego.

- Você não vai comprar nada de segunda mão, menina – disse Phil, sorrindo – É para isso que servem os avós! Vamos comprar o que for preciso para o seu bebê.

- Não precisa, Phil...

-Claro que precisa, querida – respondeu a mãe, esticando a mão para tocar a de Phil. – Não fique envergonhada. Somos seus pais.

Bella ficou surpresa com a bondade deles. Ela conteve as lágrimas.

- Deixe-me conseguir um apartamento primeiro.

- Tem aquele onde morávamos. Você pode se mudar para lá – sugeriu Renée.

- Mamãe, já faz uns dois meses que você se mudou de lá. Por que ainda está segurando aquele apartamento?

Renée ficou em silêncio por um instante, olhando em seguida para Bella.

- Por causa do preço do aluguel e da quantidade de tempo que vivemos lá. Pelo o que a gente vê por aí, é super barato. Além do mais, achei que você pudesse se mudar para lá depois da morte de Jacob. Eu não quero pressionar você de jeito nenhum, mas é um apartamento de dois quartos, com ônibus na porta, comércio, a vizinhança é boa...

- Vou pensar a respeito.

Ela engoliu o nó na garganta. A mãe sempre cuidou bem dela. Mas será que Bella também seria capaz de cuidar tão bem de seu bebê? A mãe foi deixada sozinha com ela recém-nascida, pelo marido. Seus pais nunca lhe ajudaram. Bella estava muito melhor, com a ajuda de Phil e da mãe. E também sabia que Virgília e Billy ajudariam.

Bella fez o possível para chegar cedo ao parque. A consulta com o médico e a bateria de exames lhe garantiram que tudo progredia normalmente. Marcara outra ultra-sonografia para poucas semanas, mas, até agora preferia não saber o sexo do bebê. A barriga já estava visível, porém nem tanto. Ainda podia vestir algumas de suas roupas de grávida.

Sentada no bando do parque, Bella se recostou, deixando o sol quente bater no rosto. Era a primeira vez que se sentia feliz, depois da morte de Jacob. Dentro de poucos meses, teria um bebezinho para amar e criar, e um novo irmãozinho ou irmãzinha para conhecer. E, se seu filho nascesse primeiro, seria mais velho do que o tio, ou tia. Isso não parecia estranho?

Ela esperou e esperou. O tempo passava lentamente. Olhou para a pista de corrida. Nada de corredor.

Uma jovem mãe empurrava o bebê em um carrinho. Pássaros cantavam nas árvores. Não havia brisa, estava mais quente do que no início da semana.

Mesmo assim, Bella ainda esperava. Olhou para o relógio. Será que ele veio mais cedo? Mas, dez minutos depois, ela percebeu que não veria o homem naquele dia.

A decepção foi uma surpresa. Nem sabia o nome dele. Aliás, não sabia nada sobre ele. Mesmo assim, esperava cada vez mais ansiosa para vê-lo.

Passados 30 minutos, ela desistiu. Será que ele viria amanhã? Sábado era o dia do jantar com os Black, mas teria tempo antes de conferir se ele estaria lá no parque.