Capítulo 3

Pendurado pelos pulsos e de braços abertos, uma figura estava pendurado. A cabeça tombada para frente. Os cabelos loiros e compridos...Escondendo o rosto por detrás do mar de fios.

Legolas ofegou e então avançou até o prisioneiro, que claramente era um elfo. Ele tentou soltá-lo mas o ferro em volta dos pulsos estavam bem fechados. Ele procurou mas não havia forma alguma de libertar o outro. Então ele tocou no queixo que tocava o peito e ergueu seu rosto. Ele não conhecia aquele elfo. Ele estava sujo e banhado pelo suor. Seus lábios, muito carnudos estavam entreabertos. Então Legolas gemeu ao perceber que se enganara. Aquele era Haldir! Ele se lembrava do chefe da guarda de Lórien. Sua aparência estava tão mal tratada que ele estava irreconhecível.

-Por Valar, Haldir! -Ele disse em súplica, mas não houve resposta. Então ele sacudiu o corpo e ouviu o outro gemer em protesto.

Pouco à pouco, Haldir despertou e à princípio seus olhos estavam desfocados, mas então a consciência foi voltando ele arregalou seus olhos azuis, reconhecendo imediatamente quem estava à sua frente.

-Majestade!

-Está tudo bem Haldir...Está tudo bem agora.

-Oh não, como vossa alteza veio parar aqui?

Legolas registrou a mudança no guarda. Haldir estava diferente, antes parecia ser mais altivo, arrogante até. Mas não deu maior atenção ao fato. É claro que qualquer um mudaria se estivesse preso todo esse tempo.

-Eles...parecem ter decidido que eu tenho alguma serventia. -Legolas disse relutante, não querendo preocupar Haldir que parecia à beira do desespero mas também não conseguia mentir.

-O que? Oh não, por Valar! -A testa se franziu e seus enormes olhos se fecharam.

-Calma Haldir...como eu disse, está tudo bem agora. -E ele se lembrou de como Faramir falara de Haldir, pareciam ser amigos. -Faramir me trouxe.

-Vossa majestade está ferida...

Só então Legolas percebeu que ele estava se apoiando em um só pé, e seu corpo estava inclinado de forma pouco natural. Novamente ele tentou acalmar o outro elfo:

-Por favor Haldir. Acalme-se. Ao menos você não está mais só...e...não precisa me chamar assim. Apenas Legolas está bem.

-Eu jamais poderia tratá-lo como um igual.

-Sim você disse isso quando nos conhecemos. Mas por favor, eu não sou um rei e você não é de Mirkwood, para os meus é difícil não se referir a mim por títulos mas você não deve. Eu lhe peço.

Haldir suspirou profundamente e parou a respiração no meio, claramente sentindo dor.

-O que é?

-Não é nada voss...digo, Legolas.

-Vamos me fale, quem sabe eu possa ajudar?

-Não há como. Não há remédios aqui. Quando eles trouxerem a água eu vou pedir sua ajuda, mas até lá, não se preocupe.

-É claro que eu me preocupo! Eu não sabia que eles também caçavam elfos Haldir. Foi um choque saber desta terrível realidade.

-Eles não caçam para captura mas sim matam, é que eu...

-Sim, eu sei da história. Faramir me contou. Precisamos descobrir uma forma de fugir daqui.

Haldir indicou um canto com a cabeça e mesmo sem entender, Legolas foi até lá. Ele só via a parede e não entendeu o que Haldir indicara, virando-se com um olhar indagador.

-Existem três pedras que estão meio soltas aí. -Disse Haldir.

Legolas demorou um pouco mas encontrou-as. Três delas balançaram mas ele deslocou somente uma. Atrás dela havia um buraco negro por onde passava um ar cheirando terra, e uma leve brisa tocou-lhe a face. Ele recolocou a pedra de volta, o coração aos saltos e retornou até Haldir, mancando.

-Aquilo é maravilhoso! Esse é seu plano Haldir? Fugir?

-Foi Faramir que me deu as ferramentas. Muitas vezes, quando não estou aqui ele desce de seus aposentos em segredo e passa a madrugada inteira cavando para mim. Já conseguimos abrir um longo túnel. Ele poderia me ajudar à escapar por outros lugares mas Minas Tirith está tão vigiada que ele teme que eu seja acertado por uma flecha.

Legolas sorriu, tentando encorajar o outro e apalpou-lhe a face.

-Eu vou continuar o trabalho então.

-Não! Voss...você está machucado.

-Eu tenho certeza que você também sempre se machuca, esses homens são impiedosos, eu vi do que são capazes. Mas mesmo assim continuou lutando. Deixe alguém cuidar de você agora Haldir, você já sofreu demais.

Lágrimas cobriram os olhos de Haldir. A escravidão o deixara nu de tudo: do orgulho, da esperança, da força que outrora fluía de seu belo olhar de cílios longos. Se não fosse por Faramir ele teria enlouquecido. Lamentava que Legolas tivesse sido capturado e temia que serventia o príncipe de Mirkwood teria para aqueles monstros, mas uma pequena parte dele – a egoísta – estava feliz por ter a companhia de um elfo.

-Eu é que preciso me soltar depressa. Você precisa fugir imediatamente Legolas.

-Não sofra mais do que você já tem sofrido Haldir. Dez anos? Ninguém nunca soube, e nem mandaria alguém para buscá-lo. Presumimos que os elfos que sumiam estavam mortos.

-E todos estão sim. Aqui só chega as...elfas.

Legolas voltou-se com um olhar carregado de tristeza, então consentiu com a cabeça.

Haldir sentiu um nó na garganta. Como avisar Legolas que talvez eles quisessem usá-lo como faziam com as elfas? E se eles não conseguissem escapar, deveria ele aumentar este fardo para o príncipe? Ele só sabia que precisava fugir de qualquer forma. Ele não deixaria que eles machucassem Legolas, pensava Haldir enquanto observava Legolas sumir pelo buraco.

Várias horas se passaram até que Legolas voltasse. Ele tinha encontrado duas pás e cavara um bocado, finalmente retornando de volta para Haldir. O príncipe estava suado mais sujo do que quando saíra.

Legolas percebeu então que Haldir estava inconsciente novamente. Ele correu até o elfo e sentiu-lhe a pulsação tanto quanto a temperatura. Tudo estava normal e ele suspirou aliviado. Então voltou ao buraco e retirou uma pedra que encontrara, colocando sob os pés de Haldir. Estar pendurado assim pelos pulsos devia ser uma grande tortura.

Haldir despertou muitas horas depois e sentiu que havia algo diferente. Ele sorriu ao perceber que havia apoio em seus pés. Seu olhar correu direto para o buraco na parede mas ele estava bem fechado, então ele olhou em volta, o que era difícil agora que a tocha estava quase completamente apagada e viu um rápido brilho dourado antes da chama se extinguir, mostrando que Legolas repousava à seus pés.

Haldir estava acostumado com o tédio interminável da espera e calmamente ficou lá, no silêncio, escuro e solidão, aguardando que Legolas despertasse, embora ele não fosse fazer nenhum barulho pois aguardar no escuro era a pior coisa, fazendo um elfo sentir-se ainda mais sufocado, ou aguardaria que Faramir chegasse.

Depois do que pareceu muitas horas depois, ele ouvir o som de algo rastejar no chão.

-Haldir?

-Estou aqui.

-O que aconteceu?

-A chama se extinguiu, mas aguente firme. Assim que Faramir terminar suas tarefas ele irá vir aqui.

-Como você sabe?

-Ele sempre o faz. Eu sou...o seu escravo...

Haldir não viu o queixo de Legolas cair, mas notou a indignação em sua voz:

-O que? Como ele ousa?

-Não Legolas, é uma coisa boa. De que outra forma você acha que ele poderia me proteger?

-Mas...ele o usa...para que?

-Ele não me usa, apenas finge usar. Quando a porta é fechada somos dois amigos passando uma tarde juntos. Mas ninguém sabe e eu interpreto um papel quando os soldados estão presentes, assim como ele.

-Que horror. Tudo isso...está tudo errado.

-Eu sei, eu sinto muito.

-Errado com você Haldir. Eu estou grato por ter sido pego. Sabia que todas as elfas já foram para Valinor? E depois de uma busca que faríamos até determinadas terras, os elfos também iriam embora.

-As... elfas? -Haldir indagou ofegante.

-Isso, mas por favor não conte à Faramir. Nenhum Homem deve saber de nossa decisão.

-Mas Faramir é confiável.

-Mesmo assim Haldir.

-Eu... eu fico aliviado que elas tenham ido.

-Era a única coisa à se fazer. Percebemos tarde demais o que estava acontecendo. Elas foram sumindo e só quando uma testemunha sobreviveu é que ficamos sabendo que os gondorianos ficaram loucos.

-E...a senhora Galadriel? Ela se foi também?

-Não, -Legolas franziu a testa. -Ela ficou. E se recusa a partir. É a única elfa aqui agora.

Eles tiveram de interromper a conversa pois seus ouvidos superiores captaram os sons de passos nos corredores. Legolas se forçou à ficar em pé e no escuro tateou à procura de Haldir e seguiu tocando-o até encontrar suas costas e pousar a mão ali, em apoio.

Eles ouviram a pesada porta ranger e seu arrepiante barulho, e depois se fechar.

-Elfo? Cadê você? -Era a voz de um homem fria e arrogante.

-Estou aqui senhor. -Respondeu Haldir.

Legolas se virou em direção à Haldir mas não pode vê-lo. Mal podia acreditar na voz de submissão do antigo altivo guarda.

-Deixem-nos! -O homem gritou.

Passos atrás da porta começaram à ficar mais baixos até sumirem. Então eles viram uma faísca e então uma tocha foi acesa. Era Faramir. Ele levou o fogo e repôs no lugar da tocha que se apagara. Ele correu para a porta colando seus ouvidos nela por um longo tempo, então voltou-se para os elfos:

-Eu sinto muito. Foi muito difícil vir aqui, eu os fiz esperar demais.

-Deu tempo de fazer algum progresso com o túnel. -Disse Legolas.

Faramir olhou-o surpreso:

-Mas é claro Legolas, vocês estão aqui por dois dias já.

Legolas olhou abismado para Haldir.

-Perde-se a noção do tempo quando aqui embaixo. -Haldir lamentou. -Não se pode ver a luz do dia então não dá para saber.

Novamente Legolas pousou sua mão sobre a lateral do rosto de Haldir, que rapidamente olhou para Faramir.

-Então vocês...estão sem comer? -Faramir começou à se mexer, sem encarar Haldir.

-Estamos, -Legolas respondeu levemente irritado. Como que ele não pode vir ajudar Haldir em dois longos dias?

-Eu sinto muito, mesmo. -Faramir repetiu e colocou uma bolsa enorme no chão. -Eu vou lhes dar algo para comer e...

-Solte ele.

Faramir olhou para cima e viu que Legolas havia se aproximado e fitava-o friamente.

-É claro. -Ele terminara de colocar pães, algumas garrafas e frutas, todas embrulhadas no chão e voltou à fuçar sua bolsa. Então um molho de chaves se fez ouvir. Então ele se levantou e se apressou em destravar as fechaduras que prendiam os pulsos do guardião de Lórien. Haldir caiu inerte, sem oferecer resistência mas foi amparado por Legolas, que o abraçou com o cuidado de quem segura um bebê.

Legolas jogou-se no chão, sem se importar com a dor e colocou Haldir em seu colo, acariciando-lhe a testa. Ele viu Haldir procurar os olhos de Faramir e então encarou o homem:

-O que será de nós agora.

-Eu vim continuar o túnel por vocês. Vou ficar a noite toda aqui e vocês descansem e comam. A única esperança de fuga é esta. Vocês terão chances de escapar pois este é o lado das montanhas, se fugirem em campo aberto pela frente de Minas Tirith todos os verão. Será questão de tempo até que sejam pegos.

Faramir pegou os vários formatos amarrados em pano e trouxe para perto de Legolas.

-Por favor, comam.

Legolas olhou desconfiado para o homem e viu-o atravessar a parede para o túnel. Então voltou-se para Haldir com um novo brilho no olhar:

-Vamos ver o que temos aqui?

Haldir consentiu. Estava ali deitado, sem conseguir mover um só músculo.

-Hum! Vinho! -Legolas sorriu e com o polegar ele lançou a rolha que fechava a garrafa para longe. Então puxou Haldir para ajudá-lo à beber.

Quando o elfo mais velho bebeu o bastante, ele abriu outro pano e arrancou um pedação de pão que havia dentro e ergueu Haldir novamente. O guardião mordiscava fracamente e Legolas deitou-o novamente, percebendo que até sua mandíbula estava fraca, então arrancou vários pedacinhos e alimentou o amigo. Haldir às vezes lhe lançava um olhar embaraçado que Legolas entendia muito bem, ele se sentiria da mesma forma e nessa hora ele também pegava um pedaço de pão, fingindo-se entretido com a comida e ele sentia o corpo do guardião relaxar em seus braços.

Eles comeram rapidamente e com vontade. Logo nenhuma fruta, vinho, água e pão sobrou, nem mesmo as migalhas. Legolas então arrastou-se, puxando Haldir com ele até uma parede onde ele se apoiou e ajeitou a cabeça do outro elfo em suas coxas. Haldir murmurava coisas incoerentes, talvez querendo conversar, perguntar ou tentando fazer-lhe companhia mas ele estava por demais exausto e em breve, desmaiou.

Legolas ficou ali sentado, sem saber por quanto tempo, observando a tocha mas com seu pensamento nos sons vindos do túnel, mostrando que Faramir trabalhava com afinco, o que ele se sentia grato mas não conseguia entender porque começara à sentir aversão ao homem que os ajudava. O único homem que oferecera ajuda.

Faramir retornou, acordando Legolas que nem percebera quando ele adormecera.

-Desculpe se te acordei.

-Eu estava acordado até agora pouco.

Faramir duvidou que fosse verdade, ele cavara por horas sem fim. Ele observou Haldir deitado no colo de Legolas e percebeu que o mais novo apertou ainda mais seus braços em volta do guardião, então desviou o olhar.

-Eu preciso fingir que acordei agora, e só agora vim ver o meu...elfo. -Faramir notou o brilho de raiva nos olhos de Legolas e continuou com cuidado. -Depois volto aqui e cavarei o dia inteiro também.

-Obrigado.

-E trarei mais comida.

-Você é muito gentil.

Faramir recolhia as coisas com pressa e olhou em volta para ver se tudo estava bem. Depois voltou-se ao elfo recém-chegado:

-Você quer comer alguma coisa em especial?

-Não. Obrigado Faramir. Você já faz o bastante.

-Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, é só me falar.

Legolas procurou sorrir e fez uma reverência, mostrando seu respeito. Faramir saiu.

Desta vez Legolas não caiu de sono. Ele havia descansado um pouco enquanto acariciava os sedosos cabelos do guardião e adormecera. Seus olhos se fixaram nas chamas novamente, procurando uma saída para eles. Ele precisava libertar Haldir dali a qualquer custo. Seu coração sangrava de pena pelo guardião. Ele encontrara Haldir num estado muito pior do que ele esperava. Pela forma como ele o encontrou é claro que ele fora chicoteado e torturado e ficava indignado que Faramir não impedia isso.

Por que eles machucavam Haldir? Por diversão ou teria o elfo feito algo? Se Haldir tivesse ainda seu lado altivo e se rebelasse, então Legolas sofreria o mesmo porque ele jamais deixaria o guardião passar por isso sem lutar.

Horas depois ele sentiu Haldir mover-se e ele sorriu.

Haldir abriu os olhos, surpreso em encontrar dois lindos globos azuis fitando-o, e um rosto agradável sorrindo para ele.

-Olá, Legolas...Puxa! -Ele tentou se sentar mas soltou um gemido antes que pudesse se controlar.

-Não, deite-se Haldir! Não se esforce.

-Você já fez demais...Deixe-me.

Mas por enquanto, o arqueiro estava mais forte e forçou-o à deitar-se novamente.

Haldir estava ruborizado mas não dava para ver na fraca luz do calabouço. Não havia nada mais embaraçoso do que estar nos braços do príncipe de Mirkwood, mas ele não podia se mover direito.

-Seus braços estão doendo? -Legolas perguntou.

Haldir fez que sim e quis protestar quando Legolas começou à massageá-lo, mas acabou ficando quieto já que ele mal podia movê-los. Algo acontecera com o corrimento de sangue em seus membros. Era melhor mesmo que Legolas o ajudasse. Mas ele evitou o olhar do príncipe a todo custo.

Por quanto tempo Legolas reconfortou Haldir, ele não se lembrava, mas ele o fez até que seus próprios braços ficassem dormente, sem forças. Quando eles ouviram a porta se abrir ambos os elfos estavam dormindo. Legolas ficou tenso na mesma hora, fazendo seu ferimento doer.

Era Faramir. Ele voltava com a bolsa cheia novamente. E como da outra vez ele despejou o conteúdo delicadamente no chão.

-Escondam isso em um canto escuro, ou atrás mesmo das pedras no corredor que cavamos. Meu pai não irá permitir que Legolas coma por muito tempo.

Legolas olhou para Haldir surpreso:

-Denethor irá tentar fazer você se curvar, destruindo seu orgulho e suas defesas primeiro. -O elfo lhe explicou.

-Você passou por isso Haldir?

-Sim mas até Faramir chegar de uma caça, então ele desceu aqui e me alimentou. -E lançou um olhar grato ao homem.

Legolas não seguiu seu olhar, cada vez mais desconfortável na presença de Faramir. No lugar dele Legolas achava que faria muito mais por Haldir. Não dava para acreditar que o guardião continuava preso aqui por tanto tempo quando tinha um aliado.

Faramir pareceu notar e suspirou. Legolas ouviu então a sua voz:

-Bem, eu estou tentando fazer tudo o que eu posso Legolas.

-Acho que não é o bastante.

Finalmente o arqueiro ergueu os olhos para o homem. Eles faiscavam e Faramir sentiu-se um pouco intimidado, mesmo sabendo muito bem que Legolas estava ferido e não seria páreo para ele.

-É mesmo? E o que você faria em meu lugar?

-Haldir jamais estaria preso aqui ainda. Nem que eu desse minha vida, ele já estaria solto e eu, morto. Eu não me importaria.

Legolas nem notou Haldir apertar-lhe o braço e erguer-se de suas coxas.

-Pois eu não posso fazer o mesmo, eu lamento. -Faramir disse irritado. -Meu pai e irmão são tudo o que tenho, eu saboto as caças e faço o que posso mas sou apenas um, todos estão contra vocês mas eu não! -Sua voz se elevava. -Agora vamos tratar de nos unir pois nossos inimigos estão do outro lado desta porta, não aqui dentro!

-Meu e dele! -Legolas gritou. -Você é amigo deles Faramir.

-Eu já disse, só penso em meu pai e em Boromir.

-Quem é Boromir? -Legolas cuspiu e Haldir precisou limpar seu rosto.

Haldir apertava o braço do príncipe com mais força agora.

-Legolas...

-Meu irmão! -Faramir se aproximara e agora estava nervoso.

-E porque você e seu irmão não nos tira daqui? Porque você deixou Haldir aqui todo esse tempo?

-Eu...nunca encontrei um plano. Haldir queria fugir a qualquer custo mas pela frente...ele seria morto. A única saída que achei é se cavarmos aqui por trás.

-E você demorou dez anos para inventar esse plano? -Legolas levantou mas a coxa doía tanto que ele quase caiu, se não fosse por Haldir.

-Legolas, pare! -Haldir o abraçou, empurrando o elfo mais jovem contra a parede e prendendo-o.

-Me solta Haldir. Você está achando que Faramir está do seu lado, mas ele nunca se esforçou o bastante.

-Isso não é verdade Legolas...Ele quase foi pego várias vezes. Denethor está até desconfiado.

Legolas olhou para o homem.

Faramir consentiu, exausto.

Legolas se recompôs, suspirando profundamente mas mostrando que apenas daria uma trégua, mas que não estava convencido. Haldir o soltou e quando o fez, ele gemeu.

Legolas olhou-o atordoado.

-Faramir! -Chamou Haldir. -Você trouxe curativos?

-Ah! Claro! -Faramir deu um tapa na testa. -Eu trouxe da outra vez e esqueci de trocar.

-Trocar o que? -Legolas perguntou mal-humorado.

-Você está sangrando meu príncipe. -Haldir disse num suspiro, cheio de dor.

Legolas tentou olhar mas não alcançara. Realmente ele vinha se sentindo meio gelado durante a discussão, pensando ser por causa do jejum e pelo calor da briga. Finalmente ele quase caiu. Faramir tocou-lhe a testa:

-Ele está gelado!

Haldir deitou Legolas no chão. De repente todos se assustaram quando o príncipe empurrou os dois para longe. Então ele virou o rosto e vomitou para o outro lado.

-Legolas... -Haldir agachou ao seu lado e passou a mão em sua testa e cabelos, molhando-os de suor.

-Haldir, afaste-se... -Legolas gemeu, humilhado.

-Está tudo bem...príncipe. -Faramir disse, limpando o que Legolas despejou, fazendo o elfo se sentir um pouco mal e desconfiar que talvez tivesse exagerado com o homem.

Tudo estava ficando escuro, se isso era possível naquele calabouço sem luz mas mais ainda. Os dois de cada lado seu estava cada vez mais distante.

Legolas ouviu suas vozes bem distantes:

-Ele é um príncipe? De onde?

-De Mirkwood.

-Deuses! Eles raptaram o filho de Thranduil?

-Desta vez os gondorianos foram longe demais, -Haldir falava para si mesmo. -Ele jamais descansará enquanto não encontrar Thrandullion.

-Será que ele enviará soldados de Mirkwood para cá?

-Eu não duvido. Faramir...eu preciso de um favor seu. O que você sabe sobre ervas?

-Quase nada. Eu vivo me machucando quando estou na natureza então conheço algumas para dores.

-A que eu quero é diferente. E você não encontrará aqui, terá de viajar...

Legolas não ouviu mais nada então, pois naquele momento, ele desmaiou.

Um homem alto e loiro, assim como Legolas vinha caminhando lá de longe. Ele lhe sorria e sua presença lhe fazia tão bem que Legolas sorriu de volta e sentiu que podia confiar nele.

-Olá, -disse o estranho, mas terrivelmente familiar. Parecia ele mesmo e até um pouco, seu pai, Thranduil.

-O...olá.

-Como você está se sentindo meu filho?

-Eu não sei, confuso...protetor.

-Querendo proteger Haldir, não é mesmo?

-Como você sabe?

O elfo loiro agitou sua mão como para espantar a pergunta e continuou:

-Muitas coisas parecem não fazer sentido, mas se seguir seu destino, encontrará sua missão meu filho.

-Sem sentido? Tudo o que aconteceu é muito injusto, isso sim.

-Há males muito maiores rondando o mundo. Coragem meu filho.

-Meu filho...meu filho, porque você fica me chamando de filho?

-Eu o conheço. Embora você não me conheça.

-Vai fazer mistério com sua identidade? Por que não me diz quem é?

-Eu esperei que você recordasse. Afinal eu estou estampado em suas paredes...

Legolas deixou escapar um gemido de horror.

-Oropher? Eu estou morto? -Legolas gritou.

O elfo sorriu.

Legolas ofegou e sentiu braços lhe segurarem. Seu nome ecoava em algum lugar mas ele não reconheceu a voz. Então seus olhos se abriram e ele viu um sorriso calmo.

-Ah! -Legolas gritou e se desvencilhou dos braços.

-Legolas?

O príncipe ficou olhando para Haldir. Ele havia se arrastado até a parede. Seu ferimento já não doía como antes...estava pior. E era uma dor diferente. Instintivamente ele levou a mão à seu local.

-Você agora recebeu pontos. -Haldir explicou.

Legolas olhava para o nada, assustado.

-Legolas...?

-Eu sonhei com meu avô Haldir. Ou ao menos vejo que foi um sonho. Pensei que estivesse morto!

Haldir se aproximou, passando um braço por sobre seus ombros:

-Está tudo bem elfo. -Ele sorriu. -Está tudo bem agora. Você só precisa não me deixar mais ser um peso em cima de você e seu ferimento não se abrirá novamente. Você foi muito descuidado, não faça mais isso.

-Você esteve esquecido aqui por todo esse tempo, deixe alguém cuidar de você agora.

-Não meu príncipe. Você quase morreu. Você esteve perdendo sangue todo esse tempo.

Legolas não discutiu mais, mas ele pouco se importava consigo mesmo. Desde que soubera que havia um elfo vivo e escravizado em Gondor que ele parara de pensar em si.

-Onde está o… outro? -Legolas perguntou.

Parecia ser uma pergunta fácil de responder, mas Haldir suspirou e se desvencilhou de Legolas. Olhando para baixo, ele apertava uma mão na outra. Um pouco nervoso talvez?

-Haldir?

-Legolas...quando eu cheguei aqui eles só me mantiveram vivo porque eu dei muito trabalho para eles. Eles ficaram fascinados com minha fuga e...

-E você derrubou mais de cinquenta antes que eles o pegassem. -Legolas completou. -Eu devia ter adivinhado que o elfo em Gondor era você quando Faramir me contou isso. Quem é o maior guerreiro dos elfos?

Haldir, que já tinha as sobrancelhas arqueadas, levantou-as mais ainda. Então Legolas teve certeza que ele ruborizou mas na luz fraca não era possível ver. Mas em seus olhos, havia embaraço.

-Pare com isso Legolas, -ele deu uma risadinha. -Bem, como eu dizia, eles não encontraram serventia para mim e eu fui ficando aqui embaixo. Faramir ainda não voltara e eu tinha sido capturado pelo grupo de Boromir. Geralmente os dois irmãos "caçam" os elfos no mesmo grupo, e Faramir sabota eles. Ele foi responsável por muitas elfas terem escapado.

Legolas olhou Haldir desconfiado, então entendeu o que ele fazia:

-Não adianta, ele não vai cair nas minhas graças, Haldir.

Haldir suspirou e consentiu.

-Mas ele tem nos ajudado, ele tem feito o que ninguém mais faz. Pois bem, apenas quando Faramir chegou, quase dez dias depois que ele ficou sabendo de mim e trouxe-me comida. Ele descobriu que eles não queriam me matar de fome, mas destruir meu espírito para que eu entregasse a arte de luta e todos segredos dos elfos que eu fosse capaz. Foi a serventia que eles acharam para mim.

-Você está preocupado que eles me quebrem? Não se preocupe Haldir. Eu sou treinado desde a infância para isso. Como príncipe me ensinou que é meu dever ser leal à meu povo.

-Tem mais...espera um pouco, deixa eu terminar. -Haldir falou impaciente, surpreendendo o outro. -Eu...-Sua voz começou tremer e Legolas pousou sua longa mão no ombro do amigo. -Eu...eu não serviria só para isso. Boromir estava frustrado, todos eles estavam. Não haviam mais elfas e elas viraram um trato raro para eles, um vício e eles queriam mais, mas fazia muito tempo já que eles não encontrava uma. Talvez vocês já estivessem mandando elas para Valinor.

-Provavelmente.

-O jeito de se vestir...e o cabelo entre elfos e elfas...é...semelhante...

-Por Valar! Não! -Legolas gritou.

-Calma Legolas. Nada aconteceu. Boromir tentou. Foi preciso vinte homens pois eu lutei como um animal, ele me amarrava em sua cama e tentava mas dizia que sou muito masculino para seu gosto. Ele deseja Galadriel e acho que sempre pegava elfas loiras para fantasiar que eram ela.

Legolas fechou a outra mão em um punho e o bateu no chão. As elfas de Mirkwood eram todas loiras. Centenas sumiram, em tão pouco tempo que só então eles perceberam que algo estava acontecendo, só descobrindo da verdade ao entrar em contato com outro reino élfico, Lórien para ser mais exato.

Legolas apertou ainda mais sua mão ao ombro do outro elfo.

-Ele tentou me tomar por três vezes, mas nunca conseguiu. Por isso mesmo ele não está aqui. Boromir ficou obcecado, ele vive na natureza com um grupo de soldados, atrás da próxima elfa. Espero que demore para retornar, como sempre faz. A única saída foi Faramir fingir que ele sim me desejava.

-Haldir...não!

-Calma...Faramir e eu jamais fizemos nada. Nós fingimos ter uma relação de mestre e escravo mas ele jamais me tocou, o sequer jamais pediu para que eu dobrasse uma peça de roupa. Eu já passei inúmeras noites em seu quarto, mas durmo em outro ambiente, ele jamais me maltratou Legolas. Por isso eu sei o quanto podemos confiar em Faramir. Ele é um homem bom, completamente.

-Venha cá.

Haldir olhou para Legolas e seus grandes olhos ficaram ainda maiores.

-Você me ouviu. Venha cá.

Haldir se aproximou lentamente e Legolas o abraçou, com toda a força que possuía. Ele massageou as costas do guardião, querendo tirar toda a dor e as memórias dele. Ele sentiu Haldir soluçar algumas vezes mas achou o guardião forte, ele não se permitia deixar escapar um gemido enquanto chorava.

-Eu estou aqui agora elfo, -Legolas sorriu imitando a forma como Haldir o chamara à pouco. -Jamais irei embora sem você.

-Obrigado...

-Mas nós vamos embora.

-Se depender de Faramir, iremos sim.

-Não. Iremos depender um do outro.

-Ainda não confia em Faramir?

-Ele o deixou aqui por dez anos Haldir. Pense nisso.

Legolas ia levantar-se para guardar a comida próxima à porta mas Haldir o reteve. Ele mesmo levantou-se e foi levando os mantimentos para atrás das três pedras. Legolas observou como o guardião estava pensativo, e pensou que talvez nem mesmo ele tivesse certeza sobre a lealdade de Faramir.

Haldir sentou-se novamente depois de um tempo.

-Tenho algo ainda mais sério para lhe falar. -Ele observou Legolas com atenção antes de continuar. -Como eu disse, eu sou másculo e também feio demais para o gosto de Boromir.

-Você não é feio, nenhum elfo é, -Legolas riu.

Haldir sorriu, um sorriso frio que não chegava aos olhos.

-Sim eu sou. Eu sei de meus charmes e eles não são muitos. Ninguém nunca gostou muito de mim.

-Do que está falando? Você está um pouco deprimido, por isso se coloca para baixo mas isso não é verdade.

-Agora você... -Haldir ignorou-o. -Você possui uma beleza fora do comum Legolas...

-Aonde está querendo chegar? -Perguntou temeroso.

-Boromir irá querer tomá-lo. Faramir já tem um escravo, eu. Eles podem nos tratar como seres insignificantes mas no fundo eles sabem de nosso valor, ele não dará elfos à soldados e pessoas do povo, mas sim os lordes é que nos possuirão. Você tem imenso talento com o arco e a flecha, mas temo que seja certos talentos que você nasceu possuindo que chamarão a atenção de Boromir. Nunca vou esquecer as coisas que ele murmurava, fechando os olhos para não me ver e tentando seguir em frente para realizar seus desejos doentios. Eu sei que é alguém exatamente como você que ele quer. Ele não encontra mais elfas, eu sei que ele decidiu tomar elfos também. Se ainda não fez, só está esperando aquele que ascenda seus desejos.

A boca de Legolas se abriu ante a terrível revelação. Ele também morreria se fosse tomado à força. Embora quisesse fazer o que pudesse para reconfortar Haldir, ele agora temeu por si próprio.

Quando passos fizeram-se ouvir no corredor o coração do príncipe bateu mais forte. Em sua mente havia só um nome: Boromir.

-Não se preocupe, -Haldir pediu.

Antes que o elfo terminasse de falar a porta se abriu pesadamente e Faramir entrou, sorrindo.

-Eu não acredito! -Haldir exclamou também sorridente. -Você foi rápido!

-Eu não sei quando Boromir irá retornar e não pude ir até onde você me falou. Pensei bem e fui comprar as ervas.

-Que ervas? -Legolas indagou mais foi ignorado por um Faramir olhando profundamente para Haldir e um Haldir que pegou as ervas, um pote e começou esmagá-las.

Depois Haldir aqueceu-as em água e os dois murmuravam baixinho.

Legolas se perguntava se a companhia do homem realmente fazia bem para Haldir.

-Haldir? -Ele chamou depois de um tempo, irritado.

Haldir pegou o pote com a água e erva do fogo, que fervera e trouxe para Legolas, colocando à seus pés.

-O que é isso?

Faramir e Haldir trocaram um olhar significativo e o primeiro saiu.

-Por favor, beba isto. -Pediu Haldir.

-Por que?

-Você...-Haldir ficou embarassado. -Você é virgem não é?

-Porque você me pergunta isso? Você ouviu falar de que eu me uni a alguém? É claro que sou.

-Perdoe-me...

-Não, pare de falar assim. Me diga, por que pergunta?

-Se Boromir tentar algo...você perecerá.

Legolas tomou um gole, e depois outro e viu que não era tão ruim. Mais para se distrair do que por qualquer outro motivo ele continuou tomando.

-Se isso acontecer, eu não irei morrer antes de que você seja solto Haldir. Isso é gostoso! -Ele exclamou após mais um gole. E ofereceu para Haldir.

-Não! -Ele exclamou tão veemente que surpreendeu Legolas. -Eu não estou preocupado comigo, mas com você!

-E eu com você Haldir. Eu nãovou morrer antes de tirar você daqui.

-E eu não vou deixar ele te matar!

-Se ele me tocar irá me matar mais cedo ou mais tarde. Mas acredito que as elfas morriam rápido por não terem um alvo, eu tenho. Eu preciso colocar você em um navio antes que eu me vá para Mandos. -Legolas tomou mais um gole.

-Então Legolas...eu sei alguma coisa sobre isso e isto que você está bebendo...é um afrodisíaco.

Legolas parou a bebida no ar. O conteúdo já em sua boca foi despejado de volta para o pote.

-O que?

-Legolas perdoe-me mas eu não posso deixar que ele o mate!

-Como você pode fazer isso comigo? Eu pensei que isso era algum tônico, ou anti-inflamatório! Quer dizer que eu VOU QUERER que Boromir me tome?

-Não! Embora se ele quiser lhe tomar seja melhor tomar de novo e...

Legolas estava bufando, unindo toda sua força para não socar Haldir. Ele se lembrava que o outro elfo ainda estava muito fraco, e seu rosto já estava roxo pois ele já apanhara.

-Sua amizade com Faramir o deixou louco! Boromir nunca me tomará! Eu lutarei até o fim.

-Não Boromir...mas se você perdesse a virgindade antes...de uma forma que você quisesse...então se acontecer com Boromir, o que eu não vou deixar que aconteça pois farei de tudo para que este túnel esteja aberto no máximo em uma semana. Faramir já começou à cavar para cima. Não importa se estará muito próximo de Minas Tirith, nós já tentaremos sair o quanto antes.

-Haldir...eu não acredito que você insinua...

-Eu ou Faramir...-Haldir parecia mortificado com a proposta mas Legolas achou que ele estava fingindo.

-Tem certeza que você e Faramir não são amantes? Como você pode pensar nisso?

-Confie em mim Legolas...

-Como confiar se você já me deu isso? Então é isso que você quer?

-Eu não quero, não assim!

-Você quer que eu me deite com você? -Legolas gritou.

-Eu quero que você não pereça se Boromir o tomar antes que o túnel esteja aberto! Eu sei o que eles vão querer com você! Eu não deixarei que isso aconteça!

Legolas se surpreendeu com a paixão com que Haldir falava e silenciou. Havia agora uma dúvida razoável de que Haldir apenas quisesse seu bem.

-Não.

-Por que sou eu? E se for Faramir?

-Está louco? Vocês são homens. Isso é errado! Eu deveria me entregar com amor, para uma elfa que seria minha alma gêmea, eu não a encontrei e vou me guardar até achá-la.

-Eu sei que tudo isto está errado. Acredite... -E então para a surpresa de Legolas, Haldir começou à chorar. Legolas não se moveu mas ficou comovido. -Eu não vou deixar você morrer!

Depois de muito tempo, embora comovido com Haldir, Legolas deu novamente sua resposta:

-A resposta é não. Se ele me violentar então eu farei de tudo para não perecer. Esta é a única opção.

O calabouço estava ficando quente. Legolas ofegou.

Haldir levantou-se, retirou as três pedras com cuidado e saiu pelo corredor. Legolas queria lhe perguntar o que ele fora fazer, que ele estava fraco, ferido e devia voltar mas sua voz não saía.

-Haldir...-seus lábios fizeram em silêncio.

Legolas passou à ver Haldir com diferentes olhos. Algo estranho estava acontecendo e ele não compreendia. Era tudo novo para ele mas Legolas preferiu ignorara.

Os dias passaram lentamente, mas Legolas podia apenas imaginar como a vida era melhor para Haldir agora, mesmo que eles estavam presos no calabouço à mais de um mês. Ao menos Haldir não estava mais só.

A preocupação com o bem-estar do guardião dobrara e seu carinho, ou seja lá o que for também. Legolas se pegou pensando no dia em que conhecera Lórien, e os primeiros a ele ver foram Haldir e seus irmãos. Ele se lembrava de ter admirado Haldir, havia algo no elfo de Lórien que o fazia querer ser como ele.

Haldir insistia ainda que Legolas não se esforçasse, mas o príncipe era teimoso e o ajudava à cavar o túnel. Mas Legolas tinha de parar, mesmo sem querer, depois de um tempo pois sua coxa estava latejando e era nessa hora que Haldir dizia:

-Está vendo? Enão lhe avisei?

E os dois riam.

Basicamente eles só tinham o calabouço para ficar mas mesmo assim Legolas o seguia como se fosse um cachorrinho. Se Haldir sentava-se em um canto, Legolas também ali estava, bem à seu lado.

-Você é muito fiel, Legolas. -Haldir disse de repente, enquanto comiam um pouco da comida deixada por Faramir. Eles tentavam não comer demais porque às vezes o homem era mandado para muito longe e ficava longe por um bom tempo.

Depois de quase duas semanas, a comida finalmente chegara para Legolas. Um prato de sopa fria e de validade duvidosa mais um pão mofado. Legolas olhara feio para o soldado e levara um safanão em troca. Mas estava tudo bem, eles pensaram já que assim os gondorianos nem desconfiaram que eles tinham da melhor comida escondida ali, do tipo que só Denethor e seus filhos comiam. Legolas não se rebelaria contra a comida se estivesse comendo bem.

-Não tem muito lugar para se ir aqui. -Legolas explicou o porque ficava ao lado de Haldir. Mas nem ele sabia se isso era verdade.

-Em breve sairemos daqui...em breve.

-Você acha que Boromir está para voltar?

-Faz quase seis meses que ele sumiu. Quando você chegou eu temi que ele quisesse voltar logo, sabendo...de sua beleza e personalidade. Mas um mês passou – segundo Faramir – e tenho certeza que ele tem algo para fazer longe daqui. De outra forma já teria voltado.

Haldir então abriu o braço, vendo o olhar envergonhado de Legolas, mas o príncipe não negou o conforto e colocou sua cabeça dourada por sobre seu ombro.

Haldir então descansou sua própria cabeça por sobre a de Legolas e os dois ficaram ali, em silêncio.

Quando despertaram foi com um susto que o fizeram. A porta já estava se abrindo e eles sempre ouviam os passos chegando antes. Deviam estar cansados para acordar em cima da hora.

Legolas notou que ele e Haldir estavam emaranhados no chão, ele no peito de Haldir e ambos estiveram deitados. Ele se afastou depressa. Haldir franziu a testa. O que estava acontecendo com ele? Pensou Legolas.

O príncipe olhou para a porta atordoado mas novamente, achando que era Faramir, Haldir o acalmou:

-Está tudo bem elfo...

Mas não estava.

Quem apareceu à porta era justamente aquele que eles não esperavam ver.

Boromir olhou primeiro para Haldir e seu olhar continha desprezo. Era sempre o filho mais velho de Denethor que mandava Haldir ser chicoteado e passar um mês no calabouço por desobediência. O elfo sempre deixava escapar algum desaforo e Boromir estava cansado do elfo jamais quebrar, jamais ceder. Em dez anos ele não ficara nem um pouco submisso como era de se esperar. Mas Haldir não eraseu elfo, então ele não podia matá-lo.

Então seus olhos profundos caíram por sobre Legolas. Seus lábios se entreabriram e ele os lambeu.

-Pelos Deuses...vocês tem razão. -Falou ele com os guardas atrás dele.

-Ele é uma fruta rara não é senhor? -Disse um deles.

Boromir quebrou a distância entre eles e agarrou Legolas pelo braço. Haldir já estava em pé e para horror de Legolas, ele esmurrou o rosto de Boromir, que caiu para trás com um gemido abafado.

-Haldir! Não! -Legolas gritou.

Os soldados não perderam tempo e nem parecia que havia tantos ali, pelos sons de seus passos. Doze deles entraram e parecia haver mais à porta.

Boromir sorriu malignamente para Haldir:

-Eu sabia que você estaria ainda mais desobediente e eu trouxe reforço. -Ele olhou para Legolas com admiração, então voltou-se para Haldir. -Deixe -no quase morto.

-Não! -Legolas se desvencilhou de um soldado mas outros dois o agarraram. Rápido ele girou e escapou de novo e desta vez quatro o pegaram.

-Legolas! Legolas pare! -Haldir pedia, desesperado.

Os dois elfos tentavam se enxergar em meio ao mar de homens, suas cabeças e ombros tampando a visão.

-Haldir!

-Legolas!

Legolas ouviu o som de socos e chutes e ele sentiu que não conseguia mais respirar. Ele lutava com todas as suas forças, sua coxa doendo mais do que nunca enquanto ele era arrastado para fora.

-Haldiiiiiiiiir! -Ele gritou.

O guardião não soltou um gemido sequer. Ele aguentou firme até que Legolas fosse arrastado e a porta fosse fechada. Então ele gemeu e chorou.

Boromir o levara...

Nos aposentos do filho mais velho de Denethor, Legolas foi arremessado contra o chão. Ele recebeu vários chutes na barriga, peito e um ou outro escaparam acertando-lhe o rosto.

Boromir caminhou calmamente até seu criado mudo, tirando luvas, cotoveleiras e caneleiras. Uma criada ajudou-o à tirar o manto e saiu. Ela lançou um breve olhar de pena para Legolas antes de partir.

-Cuidado com a coxa direita. -Disse Boromir. Pelo jeito, a par da história sobre o elfo.

Legolas pensou que ele o levara ali para matá-lo à pancadas. Depois do que pareceu uma eternidade, Boromir ordenou que parassem.

Legolas tentara reagir, mas não era páreo para vinte homens.

Houve uma batida na porta e Boromir se virou:

-Entre?

Denethor, o odioso homem que começara tudo isso entrou. Pai e filho se abraçaram. O olhar diabólico de um refletido igualmente nos olhos do outro. Ainda meio abraçados, os dois olharam para o elfo no chão:

-Gostou? Meu filho?

-É um grande presente de aniversário, meu pai. Obrigado.

-Meu mensageiro demorou para encontrá-lo. Parece que Faramir largou-o com o outro e tentou ficar quietinho. Mas os fiéis soldados finalmente me procuraram para dizer que haviam pego outro. Eu o visitei enquanto dormia. Na verdade eu o quis para mim, -Denethor riu alto. Uma risada fria. -Mas ele é bem o seu tipo. Já que não podemos ter fêmeas, vamos caçar os machos. Eles estão fáceis até, vindo atrás das fêmeas e se perdendo por aí.

Os dois riram. Legolas sentiu seu estômago dar reviravoltas.

Denethor se foi e deixou apenas quatro soldados de guarda com o filho.

-Vamos! Deem privacidade a ele! Há quanto tempo Boromir não se diverte?

Rindo, a maior parte que estava ali se foi. Legolas tentou se levantar mas não conseguiu. Ele achou que quebrou alguma costela. Tudo doía muito. Mas seu pensamento se voltou à Haldir. E se eles estivessem matando seu amigo naquele instante?

-Por favor...

-Ora, ele já está implorando! -Boromir riu.

-Não machuque Haldir...e eu...eu...e eu farei o que você quiser.

Boromir ficou abismado com aquilo. A visão perante ele era estonteante. Ele ouvira dizer que o escravo não havia se tornado submisso mas se para conseguir isso fosse preciso machucar o outro, então ele ficaria contente.

-Mandem parar o castigo e traga o outro aqui. -Ele ordenou e os guardas saíram.

Foi um grande erro de Boromir.

Embora estivesse sem forças e a dor fosse insuportável, Legolas reuniu toda sua coragem para levantar. Boromir mal se moveu e Legolas havia alcançado uma espada que estava pendurada na parede.

Quase caindo e mancando, Legolas lutou com Boromir que havia sacado sua própria espada.

Com facilidade, o gondoriano segurava os golpes de Legolas e o derrubava no chão. Legolas tentou em vão uma, duas, dezenas de vezes mas ele estava fraco demais.

Apenas usando o cabo da espada, Boromir deu-lhe um golpe na cabeça de Legolas e ele caiu, finalmente mergulhando na escuridão profunda.

N.A.

Espero que tenham gostado. Fresquinho, acabei de escrever.

Por favor, deixe comentários e opiniões. São vocês que fazem a história continuar.

Muito, mas muito obrigada por todos os feedbacks!