SHIP OF YOU(TUBE)
Sinopse: Lily Evans tinha pensado que, naquele ponto de sua vida, no auge de seus vinte e dois anos, já teria superado sua fase de fangirl. Só que, ao voltar para sua cidade natal, Hogsmeade, e deparar-se com o seu antigo ídolo e ex namorado, James Potter, percebe que velhos hábitos nem sempre podem ser esquecidos e que, apesar de todas as reviravoltas, alguns ships continuam sendo endgame.
[CONTINUAÇÃO DE FANGIRL-ILY]
Disclaimer: ESSA HISTÓRIA SE PASSA DOIS ANOS ANTES DO EPÍLOGO DE FANGIRL-ILY!
Ou seja: acontece depois do último capítulo de FGLY, porém ANTES dos acontecimentos do epílogo, certo?
Personagens principais pertencentes à J.K. Rowling.
Shortfic (eu espero) de, no máximo, sete capítulos.
NOTAS: Hallo!
Muitas coisas aconteceram desde que eu parei de atualizar esta fanfic. Vamos para algumas delas: minha inspiração sumiu, eu viciei em SKAM, minha vida se resumiu a Evak, Scorbus e Wolfstar desde o final de fevereiro, meu trabalho ocupou mais horas do meu dia, eu tive alguns problemas de saúde, minha vida virou um caos e se acalmou, eu fiquei um tempo meio deprimida (meio é eufemismo), sumi do twitter, voltei para o twitter, decidi começar a escrever fanfics EVAK e então decidi começar a escrever fanfics em inglês e postar no ao3 (eu postei), a preguiça veio com força e então, finalmente, abri o word a alguns dias e a inspiração voltou e, bem, cá estamos nós.
4 meses.
Eu sei, eu sei. Desculpem por isso.
Maaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaas, o capítulo está BEM GRANDINHO (hehe), então espero que possam me perdoar
Boa leitura
PS: esse capítulo contém MUITOS ex namorados (as). Só aviso mesmo :)
3. Amigos são para essas coisas
[SEXTA-FEIRA – 29 DE JUNHO, 2018]
Lily estava surtando.
O que, se ela fosse pensar logicamente, nem era assim tão surpreendente, afinal de contas James estava ali, em frente a ela, encarando-a com aqueles olhos castanho-esverdeados escurecidos pela noite, parecendo ser capaz de ler sua alma enquanto que sua expressão era totalmente ilegível.
— Será que podemos conversar? — Fora o que ele havia perguntado, aquelas malditas quatro palavras que trouxeram o inferno para fora dela, fazendo-a estremecer de forma totalmente involuntária enquanto a agitação acometia o seu cérebro.
— Ok. — Era tudo o que a mente totalmente em curto circuito de Lily foi capaz de forçar por sua boca.
Ela ainda ficou encarando-o por uns bons segundos antes de perceber que ele tinha as sobrancelhas arqueadas em uma clara indagação "você-não-vai-me-deixar-entrar?".
Sentindo as bochechas esquentarem tremendamente – o que era apenas normal quando ela estava perto dele – Lily afastou-se do portão, deixando-o entrar antes de voltar a fechá-lo.
Em silêncio, eles seguiram para dentro, Lily caminhando na frente ao mesmo tempo em que rogava à força para que não acabasse tropeçando ou fizesse qualquer coisa pior enquanto estava perto dele – o que, honestamente, era tudo o que ela não precisava para deixar a situação e o constrangimento absurdo que sentia ainda pior.
Quando finalmente estavam dentro da sala, James caminhou até estar em frente ao sofá e então voltou-se para observá-la fechar a porta, a expressão ilegível ainda estampada em seu rosto.
E, é claro, Lily corou ainda mais.
Por Vader, era simplesmente humilhante! Honestamente, tinha certeza de que poderia se candidatar a ser semáforo e faria um trabalho tão brilhante quanto. Literalmente. Seu rosto estava em chamas e ela não duvidava de que suas bochechas derretessem a qualquer instante.
Era apenas... demais. Vê-lo ali, tão malditamente perto, observando-a daquele jeito (que ela ainda não conseguia identificar, mas que trazia a merda para fora dela) logo após pedir para conversar.
Sobre o quê, pela força, ele poderia querer conversar?
— Sobre o que... sobre o que você quer falar? — Ela se forçou a perguntar, sua voz rouca por conta da garganta estupidamente seca que ostentava.
Finalmente – graças a Vader – James desviou os olhos dos dela, baixando-os para o chão enquanto franzia o cenho. Fora do foco de seu olhar, ela sentiu como se pudesse respirar novamente, inspirando e expirando uma e outra vez antes de voltar a observá-lo (o que, ela percebeu, foi um erro); ao encará-lo, uma parte totalmente animalesca de Lily rosnou dentro dela, fazendo-a precisar segurar-se para não caminhar até ele e estender a mão para desfazer o vinco entre suas sobrancelhas a mesma forma que havia feito antes... todos aqueles meses atrás.
Mas, é claro, ela não tinha qualquer direito de querer tocar nele ou de se aproximar daquele jeito.
Ou, bem, ela precisava pensar que sim. O fato de que James estava ali, na casa dos pais dela, tão ridiculamente perto e tão malditamente quente era algo que desestruturava bastante suas convicções e, bem, ela precisava se acalmar antes de acabar fazendo algo estúpido. Algo de que provavelmente se arrependeria depois. Como o beijar, por exemplo.
— Sobre nós. — Ele disse e lá estava novamente: o fôlego de Lily totalmente atirado no chão, enviado diretamente para o tártaro junto com as suas entranhas, deixando espaço dentro dela para que seu coração crescesse infinitamente, batendo contra suas costelas com força enquanto ela tentava formular pensamentos coerentes através da névoa de nervosismo que imediatamente tomou conta de sua mente.
Nós.
Sobre nós.
James disse aquilo como se, de fato, houvesse um "nós". Mas não havia, havia? Lily não podia – não devia— criar esperanças por conta daquelas malditas duas palavras. Simplesmente não.
— Nós? — A palavra escapou de seus lábios, pouco mais alto que um murmúrio, fazendo com que James finalmente erguesse o olhar para ela novamente.
— Bem, sim. — Ele disse, muito mais convicto do que ela teria esperado. Mais uma vez, James arqueou as sobrancelhas. — Nós precisamos conversar porque essa situação toda é completamente... estranha, não é? Quero dizer, temos nos evitado todo esse tempo, fugindo um do outro como se... bem, eu... isso está errado. Eu não quero que as coisas sejam assim entre nós dois. Temos de resolver isso, você não concorda?
— Uhum. — Lily assentiu, mais para clarear os pensamentos do que por concordar de fato. Por ela (a Sith bastarda que era, obviamente) estava totalmente satisfeita em continuar ignorando-o por toda a eternidade para evitar todo aquele alvoroço que somente sua presença causava. Mas, aparentemente, James não pensava assim, portanto se ele estava disposto a não a ignorar (o que era maduro, ela precisava admitir) então Lily achava que podia fazer algum esforço também (mesmo que ela não se sentisse minimamente madura naquele momento). — Certo. Ok. — Ela adicionou e então suspirou, afastando uma mecha de cabelo do rosto antes de voltar a encará-lo. — Mas nós vamos ter de fazer isso enquanto eu termino de encaixotar as coisas. Quero dizer, eu realmente preciso fazer isso. Fiquei enrolando a semana inteira. — E também porque estar fazendo outra coisa ajudaria bastante a desfocar os pensamentos da necessidade absurda que a presença de James despertava em seu organismo que parecia ter voltado no tempo, anos atrás, fazendo-a agir como uma patética adolescente hormonal. Não que ela fosse dizer aquilo em voz alta.
Sem esperar por uma resposta do garoto – que parecia mesmo prestes a falar alguma coisa – Lily desviou do sofá e começou a subir as escadas, sentindo o estômago estremecer ao ouvir os passos de James logo atrás dela.
Que estúpida, francamente.
— Oh, então era isso o que você estava fazendo? — James indagou assim que adentrou o quarto. Lily percebeu o olhar analítico que ele lançou para as paredes vazias e as caixas atiradas próximas à estante, que, junto com a cama, era o único móvel ainda montado no antigo quarto da garota. Sorrindo de forma divertida, voltou-se para ela. — Sabe, você não estava sendo exatamente silenciosa.
— Bem, então agora você sabe como eu me senti quando você mudou para a casa ao lado e passou três dias fazendo mais barulho do que Ewoks grunhindo. — Ela bufou em resposta.
Parecendo surpreso com as palavras dela, James piscou algumas vezes, algo quente cruzando seus olhos antes de ele estourar naquele sorriso que costumava fazer com que os joelhos de Lily ficassem fracos (escusado dizer que ele ainda tinha aquele maldito efeito).
Por Vader!
— Você continua sendo uma nerd. — Ele disse e parecia estranhamente apreciativo.
Lily preferiu ignorar o seu tom de voz – evitando qualquer coisa que pudesse minimamente trazer esperanças – antes de responder.
— Acho que são necessários mais do que alguns meses para que eu consiga superar Star Wars. — E você, ela completou mentalmente, mas sacudiu-se e deu de ombros, sorrindo levemente antes de se encaminhar em direção à estante, decidida a agir o mais natural possível, e retomar o trabalho de empacotar os livros que faltavam.
— Mas você parou de escrever suas fanfics. — A voz de James era cheia de algo muito parecido com acusação quando ele sentou no chão ao lado dela e puxou uma caixa para perto, esticando-se para estante e pegando alguns livros também.
Lily não sabia dizer o que sua expressão parecia naquele momento: se incrédula por ele a estar ajudando, se completamente estupefata porque ele estava tão malditamente perto ou se surpresa pelo fato de que James havia percebido que ela parara de escrever.
Provavelmente uma mistura das três, o que, francamente, era ridículo.
Fixando o olhar sobre sua edição de colecionador de As Crônicas de Gelo e Fogo, Lily respondeu:
— Bem, eu não tive muito tempo. Não era como se eu pudesse fazer algo tão trivial quanto escrever fanfics e tudo o mais... — Deu de ombros, como se não importasse, o que era simplesmente uma das maiores mentiras que ela já expelira. Mas não era como se James precisasse saber o porquê de ela ter parado de escrever. Definitivamente não.
— Hum... — Ela percebeu ele acenando pelo canto do olho (ainda muito constrangida pela mentira recente para conseguir encará-lo). — Eu imagino que sim. — James então hesitou por alguns instantes e acrescentou: — Sirius disse que você está trabalhando para o Fanction?
Ela assentiu, ainda sem se voltar para ele.
— Isso é incrível, Lily. Estou muito feliz por você. — E talvez tenha sido o tom de voz completamente genuíno (ou apenas o fato de que ela não era forte o suficiente para resistir) que a fez finalmente voltar-se para ele, deparando-se com sua expressão suave. Seus olhos brilhavam com sinceridade.
Lily sentiu a garganta apertar.
— Obrigada. Eu estou feliz. — E ela estava sendo sincera também. Afinal de contas, ela realmente estava feliz com aquela parte de sua vida.
Um sorriso suave – capaz de fazer até o mais vil dos Sith ir para o lado luminoso da força, Lily não tinha dúvidas – estampou o rosto dele.
— E você também está se mudando. Isso é muito legal. — Ele continuou, ainda com o tom ameno, voltando a empacotar.
Lily suspirou, sentindo um pequeno risinho escapar.
— Sim. Bem, Marlene não me deu muita opção, na verdade.
— E quando ela dá? — James adicionou cheio de propriedade.
— Você tem um bom ponto. — Lily acenou em concordância. — De qualquer forma, ela meio que me ligou e disse "você está se mudando comigo assim que voltar" e, bem, aqui estou eu. — O sorriso cresceu um pouco mais no rosto dela ao pensar na amiga e no tom de voz mandão que Marlene havia utilizado durante sua ligação.
— Aqui está você. — James concordou e então o sorriso sumiu de seu rosto, o cenho franzido retornando rapidamente. — E aqui estou eu.
— Sim. Aqui estamos... nós. — Ela não pode evitar o estremecimento ao proferir a última palavra.
O silêncio que recaiu sobre eles era pesado e, por mais que, racionalmente falando, não pudesse ter durado mais do que alguns segundos, pareceu estender-se por uma eternidade.
— Eu não quero que as coisas sejam estranhas entre nós. — James disse por fim, o exemplar de As Crônicas de Nárnia na mão enquanto o encarava, fuzilante. Por um momento estúpido, Lily pensou que, se ele continuasse encarando o livro daquele jeito, o pobre exemplar acabaria entrando em combustão.
Ela suspirou, sentindo-se exausta.
— Eu também não quero. Mas- — Ela se interrompeu, limpando a garganta para afastar o desconforto (não adiantou). — Mas eu não sei como lidar com isso. — E indicou o espaço entre eles. — Eu... não sei como agir estando perto. Quero dizer, eu nunca soube. — E riu nervosamente, sentindo o rosto voltar a esquentar com força total. Pelo amor de Obi-Wan, ela não precisava passar mais vergonha na frente daquele garoto! — E agora eu sei ainda menos.
— Você é ótima, Lily. — James respondeu rapidamente, como se sequer tivesse pensado no que estava falando. Foi sua vez de corar ao perceber o olhar estranho que ela estava lançando para ele. Suspirando, James passou uma mão pelos cabelos, mordendo os lábios antes de prosseguir. — O fato é que basicamente todos os nossos amigos são os mesmos. Nossos pais agora são melhores amigos e até viajam juntos. Nós meio que somos obrigados a interagir em um momento ou outro. E, bem, eu não quero que cada vez que eu te veja seja essa... coisa... assim.
— Desconfortável. — Lily assentiu, entendendo totalmente o que ele estava falando.
Se fosse há dois anos, eles poderiam, de fato, ter se ignorado para sempre até deixarem de se importar (ou ela podia fingir que sim). Mas a verdade era que agora suas vidas estavam totalmente entrelaçadas. Sirius era o melhor amigo de James, mas também era o melhor amigo de Lily. Remus era o cara que ligava os Marauders, mas também era o cara com quem Lily passava madrugadas conversando sobre programação. Peter morava na mesma casa de James, mas também passava incontáveis horas no apartamento de Lily, afinal, seja lá o que ele e Marlene tivessem, eles tinham alguma coisa. Alice e Frank eram youtubers agora e facilmente se entrosaram com os Marauders, gravando vídeos juntos e construindo uma amizade indubitavelmente forte.
E, como se não bastasse tudo aquilo, Helena Evans e Euphemia Potter decidiram que eram melhores amigas, arrastando Edward e Fleamont para viagens, passeios, organizando jantares e excursões. Enquanto Lily estava com James, tudo aquilo parecia ser o máximo – o ápice de quão bom um relacionamento poderia ir – mas, agora que eles não mais namoravam, tudo se sentia totalmente desconfortável.
O que a levava a constatação de que não havia, racionalmente falando, qualquer modo de que eles pudessem se excluir da vida um do outro. Lily só precisava fazer com que seu coração compreendesse aquilo e parasse de se esquivar.
Sentindo-se zonza, ela deixou cair um livro dentro da caixa, suspirando logo em seguida.
— Certo. — Ela finalmente falou, interrompendo o silêncio. — Nós podemos fazer isso, não podemos?
James apenas a encarou.
— Quero dizer, não deve ser tão difícil assim, certo? Nós podemos interagir e sermos legais um com o outro. — Ela adicionou, sentindo-se nervosa ao perceber o olhar esquisito do garoto que ainda não falara nada. — Não é algo de outro mundo, é? As pessoas fazem isso o tempo todo. Quero dizer, não é como se estivéssemos enfrentando uma horda de Stormtroopers ou qualquer coisa assim. Somos nós. E eu acho que antes de- antes de tudo, nós nos dávamos bem, certo? Nós conversávamos e tudo o mais. Era legal, não era? — Lily estava tagarelando e sabia disso, mas James não estava falando nada e ela estava ficando estupidamente nervosa. — Sirius provavelmente nos comeria vivos se não tentássemos e, bem, Peter está ficando realmente insuportável toda vez que ele me pergunta se nós já conversamos e- ah meu Vader, James Potter, fale alguma coisa antes que eu me sinta ainda mais constrangida!
Isso pareceu despertar James de sua contemplação, pois um sorriso divertido se formou em seus lábios.
— Sim... sim, nós podemos fazer isso. Nós podemos ser amigos. — E Lily precisou de toda sua força de vontade para não fazer uma careta ao ouvir a palavra "amigos" saindo da boca dele. Era isso que ela queria, não era? Ser amiga dele? Então não havia motivos para se sentir estranhamente magoada ao ouvir aquilo. — Quero dizer, eu certamente posso manter uma amiga nerd e que fala pelos cotovelos para me divertir de vez em quando.
Ao ouvi-lo, Lily fingiu um ofego.
— Como se atreve? Pelo menos eu sou capaz de dar dez passos sem tropeçar ou derrubar alguma coisa por conta da minha hiperatividade. — Ela pontuou e arqueou uma sobrancelha.
Previsivelmente, James colocou uma mão sobre o coração de forma dramática e fingiu-se de ofendido.
— Como você se atreve? Eu? Hiperativo? Quem falando, Lily Evans! A menos que você tenha adquirido novos membros ou aprendido alguma técnica revolucionária na Espanha sobre caminhar-por-ambientes-lisos-sem-tropeçar-no-ar, eu não acho que você possa ter uma palavra nessa discussão.
De olhos estreitos, ela bufou.
— Você fez um curso para aprender-a-fazer-as-coisas-com-antecedência ou continua sendo o Sr. Preguiçoso Potter?
— Ahá! Te peguei! Sirius agora me chama de Sr. Workaholic, obrigado, de nada. — E era muito injusto que a expressão de presunção estampada no rosto dele o deixasse ainda mais bonito.
Que patético, por Vader.
— Workaholic? Você? — Lily encarou-o e daquela vez a incredulidade não era fingida.
James deu de ombros.
— Eu meio que tive de aprender (na marra) a não deixar tudo para a última hora. Quase não salvei algumas disciplinas no ano passado porque estava postergando. — Então sorriu. — Aprendi com os meus erros, Evans. Agora sou um novo homem.
— Realmente, Potter, estou orgulhosa. — Ela usou o tom sarcástico, mas, no fundo, estava dizendo a verdade. Lembrava de sempre ter de puxar as orelhas de James e ficar constantemente lembrando-o de fazer o que precisava ser feito antes que os prazos esgotassem.
— Obrigado. — James piscou para ela e então voltou-se para as caixas (o que ela agradeceu à força, pois, naquele instante, suas bochechas estavam entrando em combustão).
Mais silêncio se estendeu entre eles, mas, graças a Vader, daquela vez não era tenso. Eles continuaram a empacotar, organizando os livros até que, por fim, tudo estava feito. Lily ficou surpresa com a rapidez com que eles haviam terminado, portanto voltou-se para James, sorrindo para ele:
— Obrigada. — Agradeceu, simpática. — Sabe, eu provavelmente teria terminado isso muito mais tarde se você não me ajudasse.
James sorriu em resposta.
— Amigos são para essas coisas, não? — E a naturalidade com que as palavras saíram de sua boca foi como um soco no estômago de Lily.
Como ele podia se sentir tão tranquilo com aquilo? Como ele podia não estar se rasgando por dentro diante da ideia de serem apenas amigos? Como ele podia ser tão malditamente ok com toda aquela merda?
Mas, ao invés de estourar todas aquelas palavras na frente dele, Lily apenas sorriu.
Era o que ela teria de fazer dali para a frente, não era? Fingir e sorrir até que, por fim, fosse verdade.
Ou era o que ela rogava à força para que acontecesse. Ela precisava que acontecesse.
— Hm, já que "amigos são para essas coisas"... — Lily disse, após terminar de passar fita em todas as caixas para fechá-las. — Será que suas mãos amigáveis poderiam me ajudar a carregar essas caixas para o meu porta-malas? Eu queria levar tudo isso ainda hoje para o apartamento antes de voltar para cá e esperar o caminhão de mudança. Eles vêm cedo amanhã e eu não sei se confio neles para levarem meus livros.
Como se fosse a coisa mais fácil do mundo; como se ajudar a ex-namorada a empacotar e carregar caixas fosse a coisa mais natural do universo, James assentiu, parecendo mais entusiasmado do que era estritamente necessário.
— Claro. Mãos e braços amigáveis ao seu dispor, Padawan. — Ele disse e imediatamente pegou uma das caixas, indicando para que Lily abrisse a porta e liderasse o caminho.
— Sinto lhe informar, James, mas essas citações não são para você. — Ela brincou, sorrindo enquanto descia as escadas e caminhava em direção à porta da garagem.
— Não acho que você esteja em posição para julgar, dado ao fato de que eu estou muito amigavelmente te ajudando a carregar essas caixas que você, com certeza absoluta, não conseguiria carregar sozinha sem sofrer um acidente pelo caminho, Padawan. — Ele piscou novamente para ela, passando ao seu lado enquanto esperava que Lily abrisse o porta-malas.
Lily xingou-o mentalmente, sentindo-se corar (é claro que sim).
Foram precisas mais duas viagens até que todas as caixas estivessem devidamente no porta-malas (algumas delas no banco traseiro, porque ela tinha realmente muitos livros). Lily agradeceu-o mais algumas vezes, recebendo alguns rolares de olhos e "tudo bem, Lily" como resposta.
— Hm... não querendo ser indiscreto nem nada, mas... como você vai carregar essas caixas para o seu apartamento? Quero dizer, você mora em um andar no topo, não é? — A voz de James era uma mescla entre hesitação e diversão, o que fez Lily sentir-se imediatamente constrangida.
Franzindo o cenho, ela pesou suas palavras, sentindo – se era possível – o rosto esquentar ainda mais.
— Hm, bem, eu provavelmente vou chamar a Marlene para me ajudar… — Deu de ombros, não querendo deixar muito óbvio o fato de que ela não havia pensado sobre aquilo.
— Marlene saiu com o Peter. — James pontuou e então arqueou uma sobrancelha para ela, parecendo divertido demais com toda aquela situação.
— Bem, se ela ainda não estiver em casa, então terei de pedir ajuda ao porteiro ou algo assim. — Mais uma vez ela deu de ombros antes de desviar de James e retornar para a sala de estar. — Você quer tomar alguma coisa? — Ela perguntou enquanto caminhava, voltando-se para observá-lo se aproximar.
Com um sorriso, James assentiu.
— Café seria incrível.
— É claro que sim. — Lily rolou os olhos para ele, mas sorriu enquanto se encaminhava para a cozinha.
—-
O grande problema, ela percebeu (tarde demais), era que agora – após vasculhar o armário onde antigamente guardava vários tipos de sua especiaria favorita e encontrar quase nada além de um sachê de café solúvel – ela precisaria enfrentar não apenas um, mas dois de seus antigos vícios. E tentar resistir a eles. Tipo arduamente. Como, quase-morrendo-de-tentar. O que era apenas muito mais merda além do que ela havia se proposto a enfrentar quando decidira ser "amiga" de James. E isso não fazia nem mesmo duas horas, por Vader!
— Desculpe, só tenho café solúvel. — Ela murmurou de forma apologética enquanto entregava a xícara para James e afastava os pensamentos nebulosos que infestavam sua mente.
— Café é café. Não desprezo nenhum tipo. — James deu de ombros, sorrindo antes de sorver um gole.
— Exceto o descafeinado. — Lily pontuou, recebendo um bufo de James como resposta enquanto ela retornava sua busca nos armários.
— Bem, você não pode chamar de café algo que não contém cafeína. Quero dizer, não há qualquer lógica. — James respondeu, assim como ele havia feito milhares de vezes antes. Lily sorriu com a familiaridade, mas rapidamente sentiu-se murchar ao finalmente encontrar a caixa de chá de sua mãe e puxá-la para si, sabendo que, embora o chá inglês fosse, de fato, muitíssimo gostoso, jamais se compararia com café. Mesmo o café solúvel que James estava tomando.
Resignada, jogou um saquinho dentro de uma xícara antes de ir até a geladeira e pegar o leite, derramando um pouco em uma leiteira para aquecer no fogão. Enquanto esperava o leite, Lily encheu a xícara até a metade com água quente, misturando para que o chá dissolvesse na água.
Nesse meio tempo, James a observava com o cenho franzido, como se não compreendesse o que, de fato, Lily estava fazendo.
— Você está fazendo chá? — Ele finalmente perguntou enquanto sua testa vincava ainda mais em confusão.
— Sim. — Lily respondeu suavemente, sentindo-se desconfortável diante da pergunta, como se tivesse sido pega fazendo algo errado. O que era simplesmente ridículo. — Eu estou fazendo chá. — Ela adicionou o óbvio.
— Por quê? — A forma como James perguntou aquilo fez parecer como se ela estivesse cometendo um crime de proporções catastróficas.
— Porque café demais faz mal para os ossos. — Lily teve a ousadia de falar, recebendo um ofego verdadeiramente ofendido como resposta. Ela sorriu. — E porque se eu tomar café agora não serei capaz de dormir até metade da madrugada (e já é quase meia noite) e eu realmente preciso acordar cedo amanhã para esperar o caminhão de mudança.
— Ok, me diga o que aconteceu com você na Espanha. Eles te prenderam? Te torturaram? Eles te drogaram? Lily, eles te fizeram algum tipo de lavagem cerebral? — E a preocupação nos olhos de James era tão verdadeira que fez com que ela risse. — Quero dizer, você nunca negou café, Lily. Você tem certeza de que está tudo bem?
— Sim, James, eu tenho. — Ela sorriu um pouco mais para ele, voltando para o chá e terminando de prepará-lo. Segurando a xícara quente entre as mãos, Lily aproveitou o silêncio amigável que recaiu sobre eles para reorganizar os pensamentos.
O fato de que James estava ali, bem na sua frente, tomando café e a observando com aquela expressão ilegível, ainda era muito para que ela processasse.
De repente, o que apenas segundos atrás fora um silêncio amigável se transformou em algo pesado e tenso. Seus ombros endureceram, suas mãos apertaram ainda mais contra sua caneca. Tudo aquilo era familiar demais ao mesmo tempo em que era totalmente desconcertante e extremamente aterrador. A presença de James era abrasadora, parecia como se ele estivesse em todos os lugares, fazendo com que respirar fosse uma tarefa mais difícil do que deveria ser (Lily tinha certeza de que Darth Vader se orgulharia de seus ofegos se estivesse ali naquele momento, honestamente).
Ela estava, sim, disposta a ser amiga dele – se isto era tudo o que eles seriam capazes de ser, então era o que ela aceitaria – mas talvez eles devessem ir um pouco mais devagar. Manter uma distância segura.
Não tão perto. E definitivamente não tão amigável.
Lily estava prestes a expressar isso em voz alta, jogar uma carta branca de honestidade e dizer a ele que ela não podia lidar com tudo aquilo ainda, quando ele interrompeu seus pensamentos:
— Ei, você disse que vai voltar depois de levar as caixas, não é?
— Sim... — Ela assentiu, estreitando minimamente os olhos, sem saber exatamente porque ele estava perguntando aquilo.
— Então eu vou com você. Quero dizer... eu posso te ajudar a subir com as caixas. Você vai voltar de qualquer jeito e, bem, como você apontou, eu estou tomando café e tenho certeza de que não conseguirei dormir até metade da madrugada, sendo assim, ao invés de ficar deitado olhando para o teto enquanto tento não morrer ao ouvir os ruídos animalescos provindos do quarto de Sirius e Remus, posso fazer algo mais útil, como ajudar uma amiga, por exemplo. — E então, como se todas aquelas palavras não fossem o suficiente para deixá-la zonza, ele sorriu. Aquele sorriso. Aquele com covinhas e olhos brilhando e dentes tão brancos e reluzentes que deixariam qualquer modelo de comercial de pasta de dente totalmente envergonhado. Aquele maldito sorriso que fazia com que as pernas de Lily ficassem fracas. Que fazia com que tudo o que ela queria se resumisse a um coro de James, James, James ecoando por seu cérebro de forma alucinante.
Para à merda com a distância segura. Para a merda com o "ir devagar".
— Seria incrível, James. Sério, obrigada. — Ela certamente se arrependeria depois, mas, francamente, como alguém no mundo poderia negar alguma coisa àquele menino sorridente?
Ela certamente não.
Pela força, ela tinha uma estranha – e absolutamente intimidante – certeza de que jamais seria capaz de negar qualquer coisa para ele.
Não que ele precisasse saber.
Ele definitivamente não precisava.
[SÁBADO – 30 DE JUNHO, 2018]
James tinha certeza de que podia ser amigo de Lily. Ele tinha total e completa certeza de que eles eram maduros o suficiente para fazer aquilo.
Ou, bem, era do que tentava se convencer ao observar Lily pelo canto do olho, dirigindo pelas ruas escuras de Hogsmeade enquanto ela os guiava para o seu apartamento.
Ela estava usando aquela camiseta de Star Wars, "Keep calm, I'm not your father", a mesma que usara no dia em que James foi almoçar em sua casa e a viu pela primeira vez. E era tão injusto que ela parecesse ainda mais bonita do que naquele dia, com seus cabelos curtos caindo, repicados sobre seu rosto, suas sardas totalmente à mostra e seus olhos verdes brilhando com milhares de coisas que ele não conseguia ler. Era tão estupidamente injusto que ele tivesse de ficar se policiando para não babar sobre ela a cada segundo.
Era quase uma hora da madrugada, mas ele se sentia totalmente acordado. Lily não parecia muito diferente, embora ela não tivesse tomado tanto café quanto ele.
Aliás, isso era outra coisa que o estava incomodando.
Certo, ela havia explicado o porquê de não ter tomado café, mas ainda assim era inquietante. Quase como se as partes da Lily que ele conhecia estivessem ausentes, longe demais para que ele pudesse alcançá-las.
Não que ele devesse querer alcançá-las, dado ao fato de que não estavam mais juntos e que agora eles eram apenas amigos. E que amigos não deveriam ter sentimentos tão insuportavelmente físicos diante da presença um do outro como James obviamente tinha. Talvez aquelas mudanças no comportamento da garota até ajudassem, na verdade. Talvez a deixassem um pouco menos interessante.
Não que ele acreditasse que houvesse qualquer coisa que Lily pudesse fazer que a tornasse desinteressante. Honestamente, até mesmo o fato de ela estar respirando fazia com que James sentisse vontade de… bem, ele certamente não deveria seguir com aquela linha de pensamentos.
Não se quisesse chegar são e salvo até o apartamento de Lily, sem acabar entrando em combustão no processo. Ou pior: acabar beijando-a e estragando a amizade que mal havia começado; fazendo com que, aí sim, eles não conseguissem conviver.
E, por mais que James odiasse a ideia de ser apenas amigo de Lily, isso era melhor do que nada. Ele havia passado sete meses longe dela. E ele sentiu falta dela a cada maldito dia.
Não apenas dos beijos e carinhos – embora isso certamente fosse uma coisa – mas também da facilidade com que conversavam, o modo como se conheciam e como as coisas simplesmente fluíam quando estavam juntos. O fato de que ambos podiam passar de assunto a assunto sem nunca deixar a conversa se tornar entediante. Ter alguém com quem compartilhar e divagar sobre qualquer coisa absurda que ele havia visto – e essa era, sem dúvidas, a pior parte: não poder falar com Lily quando, antes, ela era a primeira pessoa para quem James recorria quando alguma coisa – grande ou pequena – acontecia; discorrer sobre os mínimos detalhes de seu dia ou apenas reclamar sobre uma reunião inquietante com McGonagall. Discutir sobre contratos ou então falar sobre qualquer coisa que não fosse o trabalho porque estava estressado demais e Lily sempre deixava tudo melhor.
Certo, ele tinha Sirius, mas não era a mesma coisa.
Sirius era seu melhor amigo e confidente, mas as coisas se sentiam diferentes quando James tinha o sorriso ameno e os olhos suaves de Lily para reconfortá-lo.
Sem falar que, agora que Remus e Sirius haviam se tornado oficiais, não era como se sobrasse muito tempo para conversas entre suas sessões de engolir o rosto um do outro. E, honestamente, James faria qualquer coisa para não ter de presenciar uma daquelas. Era embaraçoso, para dizer o mínimo.
— Como está Wolfstar? — Lily perguntou e, por um momento, pânico real de que ela fosse capaz de ler sua mente pairou sobre James. Então ele sacudiu-se mentalmente, xingando-se por conta da estupidez de seus pensamentos, antes de voltar-se para ela, sorrindo de forma divertida.
— Eles estão tão bem que chega a ser nojento. — Ele disse, ganhando uma gargalhada de Lily como resposta.
— Antes de eles ficarem juntos eu nunca pensei que fossem do tipo grudento. — Lily disse e virou-se para ele assim que parou em um sinal vermelho, arqueando uma sobrancelha de forma divertida enquanto o observava. — Como eu estava enganada. — Ela estremeceu de forma adorável, sorrindo carinhosamente ao pensar no casal.
— Eles estão levando as carícias em público a um novo nível. Honestamente, não sei o que Sirius fez com o Remus, mas eu tenho certeza de que eles perderam o significado da palavra pudor.
Mais uma vez, Lily gargalhou. E, mais uma vez, James quis beijá-la.
Afastando os olhos, cerrou os punhos sobre seu colo, respirando fundo enquanto tentava pensar em qualquer coisa que não fosse a forma como a boca de Lily se curvava, a cor de seus lábios, a sensação de sua pele. Deus, ele estava sendo ridículo.
Eles eram amigos. James podia fazer isso. Pelo amor de Deus, ele não era mais um adolescente hormonal, ele só precisava fazer com que seu corpo começasse a compreender aquele fato.
Quando o sinal abriu, Lily voltou a quebrar o silêncio.
— Fico feliz em saber que o Remus aceitou tudo isso tão bem. Eles parecem estar lidando bem com o público. — O tom de voz de Lily era mais sério agora e fez com que James lembrasse dos primeiros meses, quando Remus e Sirius haviam começado a namorar (e ele e Lily também) e o modo como ela estava sempre conversando com Remus, tentando deixar toda a situação mais confortável para ele. Ele também lembrou do quanto a admirava por ser tão boa com seus amigos.
Aquele sentimento não havia desaparecido.
A quem ele estava tentando enganar? Nenhum sentimento havia desaparecido.
— Eles ainda recebem muitos comentários ruins, na verdade. Você lembra do que o Regulus fez, não é? — James comentou, irritando-se ao lembrar do que o irmão de Sirius havia feito no ano anterior e da quantidade de homofobia que encontrava nos comentários dos vídeos, tanto no canal dos Marauders quanto nos de Sirius e Remus. Era chocante e absurdamente revoltante perceber que havia tantas pessoas ignorantes no mundo e o entristecia demais saber que seus melhores amigos tinham de enfrentar aquele tipo de preconceito, embora eles insistissem que não lhes afetava. — Mas a grande maioria os apoia. Na verdade, eu acho que se eles terminassem, haveriam muitas intervenções e revoltas.
— É melhor eles não mexerem muito com o fandom. Não vão querer dar início à Terceira Guerra Mundial.
— Oh, sim. O fandom pode ser realmente assustador quando quer. — James disse. — Quero dizer, no último semestre eu tenho certeza de que fomos responsáveis por milhares de mortes. — E assim que as palavras escaparam de sua boca, ele sentiu vontade de se socar. E teria feito se o riso de Lily não tivesse preenchido o lugar tão logo ele falou.
— Elas ainda não superaram o fim de Jily? — Naquele momento James não era capaz de ler o que sua expressão demonstrava. A verdade era que ele não fazia ideia do que a própria expressão demonstrava.
— Não. Na verdade, eles estavam bastante calmos, mas então a Alice postou a foto com você e, bem…
— Ah…
E lá estava: o silêncio desconfortável pairando sobre eles novamente.
James odiava aquilo quase tanto quanto odiava estar tão perto dela e não poder fazer nada. Mas, é claro, ele precisava se acalmar. Precisava aceitar.
Ele podia fazer aquilo.
Ele podia ser amigo de Lily.
É claro que sim.
—-
James definitivamente não podia ser amigo de Lily.
Não quando, ao carregarem as caixas para o elevador com a ajuda do porteiro e finalmente apertarem o botão do andar de Lily – décimo terceiro – o som de alguém correndo e gritando "segura aí" atingiu seus ouvidos e, quando o cara loiro e alto entrou e as portas fecharam, um sorriso brilhante e totalmente desejoso explodiu em seus lábios ao olhar para a garota (ignorando completamente o fato de que James também estava ali).
— Oi, Lily! — O cara disse, o tom de voz macio demais ao pronunciar o nome dela. — Nos encontramos de novo! — E ele parecia maravilhado com aquele fato. — Destino, heim?
Sem conseguir se conter, James voltou-se para Lily, observando enquanto seu rosto foi inundado de vermelho e seus olhos arregalaram em choque e o que – muito reconfortantemente – parecia desgosto.
— Olá, Amos. — Ela murmurou em cumprimento, muito menos entusiasmada do que o garoto. Não que ele parecesse se importar, pois, ao ouvi-la, o sorriso dele cresceu ainda mais (intimamente, James rezava para que seu rosto partisse ao meio).
— O que está fazendo tão tarde aqui? Essas caixas são suas? Pensei que já tivesse terminado com a mudança! — O cara disse tudo aquilo muito rápido, franzindo o cenho logo em seguida.
— Hm, sim. Não terminei ainda, na verdade. — Lily murmurou em resposta, seus olhos vagando rapidamente para a placa digital que indicava que ainda faltavam onze andares até chegar ao dela.
James precisou conter uma risadinha ao perceber que ela não estava interessada naquele cara. Como era o nome mesmo... Amos? Ah, sim, Amos...
Amos?
Algo como um flashback pareceu atingi-lo em cheio, fazendo-o relembrar de um dia frio de inverno, mais de um ano antes, quando ele e Lily estavam embaixo dos cobertores em sua cama e ela estava lhe contando sobre um ex namorado babaca que não era capaz de parar de falar sobre si mesmo. "Não, é sério, James, Amos não seria capaz de parar de elogiar a si mesmo nem para salvar a própria vida", ela havia dito, uma gargalhada escapando de seus lábios enquanto James retrucava com "bem, sabemos que você pode me calar quando quiser" e, pegando a dica, Lily esticou as mãos para o rosto dele, puxando-o para perto antes de beijá-lo profundamente.
Mas aquele cara não podia ser aquele Amos, podia? E mesmo que fosse, isso deveria ser uma mera coincidência, não é?
Entretanto, as palavras do cara ressoavam por sua mente: "nos encontramos de novo".
Quando diabos eles teriam se encontrado antes?
James estava pensando em milhares de cenários, um pior do que o outro em sua mente, onde Lily decidia que seria uma boa ideia voltar com o ex... o outro ex (ainda era inquietante pensar em si mesmo como um ex de Lily). Decidindo que sentia falta de Amos e que ele era o amor de sua vida e então eles voltariam a namorar e ela o levaria para uma reunião junto de seus amigos e os amigos de James e o apresentaria como-
Pelo amor de Deus, James, junte sua merda.
Sacudindo-se mentalmente, sentindo as bochechas esquentarem diante da estupidez de seus devaneios, James voltou a observar os dois, percebendo que o cara continuava falando. E que Lily parecia a cada segundo mais desconfortável com a sua presença.
Agarrando-se àquele fato como se fosse uma corda salva-vidas, James decidiu intervir.
—... estava pensando que deveríamos sair? — Amos estava dizendo, mas, antes que Lily pudesse fazer qualquer outra coisa além de encará-lo totalmente incrédula, James disse:
— Hm, Lily, você ligou para a Marlene para saber se ela estava em casa? — Ele perguntou, franzindo o cenho em inocência, piscando rapidamente para o olhar cheio de confusão que Lily lhe lançou.
Graças a Deus, ela compreendeu.
— Ah, sim! Quero dizer, não, não liguei ainda. Vou fazer isso agora. — Ela murmurou, puxando o celular do bolso e digitando nele enquanto se recostava contra uma das caixas, parecendo definitivamente aliviada.
James sorriu consigo mesmo.
Amos, por outro lado, voltou-se para ele em confusão, como se somente então houvesse notado sua presença.
— Quem é você?
— James. James Potter. — Ele disse, estendendo a mão para um aperto que, definitivamente, não foi muito amigável.
Os olhos de Amos estreitaram minimamente enquanto ele analisava James de cima abaixo.
— Espere um momento... você não é aquele cara do YouTube? O do canal com vídeos de minecraft?
James não podia negar que estava surpreso ao ser reconhecido por Amos. Ele não parecia como o tipo de cara que daria mais de uma olhada em seu canal, mas isso podia ser apenas a sua parte irracional e ciumenta falando em sua mente. Com um meio sorriso, ele balançou a cabeça.
— Sim, eu sou. Mas fazem alguns anos que não gravo nada sobre minecraft. — Deu de ombros, divertido.
Amos não parecia estar no mesmo espírito, entretanto, pois seus olhos estreitaram ainda mais. No canto, Lily observava os dois com o celular pendurado no ouvido. James tinha certeza de que ela sequer havia discado para Marlene.
E então, mais uma vez, o loiro surpreendeu James, irrompendo em gargalhadas logo em seguida.
— Cara! Você tem de estar brincando! — Ele disse, ainda sorrindo. — Meu Deus, Lily, você realmente conheceu o cara! — E voltou-se para a ruiva que parecia totalmente mortificada. Sem dar tempo a ela para reagir, Amos voltou-se para James. — Há uns, o quê? Cinco anos? É, algo assim... enfim, a Lily era totalmente viciada no seu canal, sério. Nós estávamos juntos há uns dois meses e ela negava meus convites para sair porque você tinha postado um novo vídeo. Cara, eu te odiava e- — E então a expressão de Amos ficou mais séria, seus olhos arregalando levemente quando voltou a encarar a garota. — Ei! Espere aí... não era ele que- Você não...? Esse não era o cara que você estava namorando antes de viajar? Que todo mundo estava falando sobre o rompimento na internet? Eu lembro de ouvir a Hestia falar algo assim, mas-
— Nosso andar! — Lily o interrompeu, praticamente gritando quando as portas finalmente abriram no décimo terceiro andar. — Segure o elevador, James? Eu vou abrir a porta do apartamento antes de trazermos as caixas. — As palavras voavam de sua boca, desesperadas. James assentiu, um sorrisinho divertido pairando em seus lábios enquanto a observava corar e se afastar.
Infelizmente, o sorriso não durou muito porque, assim que Lily saiu, Amos também o fez, caminhando até a porta em frente à que Lily estava abrindo e puxando uma chave.
O universo só podia estar tirando uma com a cara dele, porque não era possível. Simplesmente não era.
Mas então, era sim.
Pelo amor de merda, esse cara era vizinho da Lily?
Aparentemente, sim.
E, como se já não fosse desconfortável o suficiente, quando Lily retornou até o elevador para pegar uma das caixas, Amos a seguiu, deixando a porta de seu próprio apartamento aberta enquanto se aproximava e pegava duas caixas com um sorriso presunçoso.
— O que você-? — Lily começou a perguntar para o garoto, mas ele deu de ombros.
— Eu ajudo. — Ele disse, encaminhando-se para o apartamento da garota sem sequer pedir licença.
James queria morrer enquanto observava a cena se desenrolar à sua frente.
Quando faltavam apenas duas caixas, ele finalmente soltou a porta e pegou-as, caminhando até a porta de Lily, adentrando e depositando-as ao lado de um grande sofá de aparência confortável.
Não que ele estivesse prestando muita atenção ao mobiliário enquanto Lily se remexia próxima da porta, olhando para os dois garotos ali como se preferisse estar em qualquer outro lugar no mundo naquele momento.
— Hm, obrigada, Amos. — Ela disse, dando um meio sorriso para o garoto loiro que retribuiu com outro daqueles sorrisos-extremamente-grandes-e-desnecessários.
— De nada, Lily. Sempre às ordens! — Ele disse e piscou e James precisou rogar aos céus por paciência para não ir até ele e socar sua cara (e James sempre havia se orgulhado de ser um cara anti-violência).
— Obrigada. — Lily repetiu e encaminhou-se até a porta, que ainda estava aberta, numa óbvia tentativa de fazer Amos compreender que deveria ir embora.
Graças a Deus, ele entendeu.
Caminhando lentamente, Amos parou ao lado de Lily, os olhos brilhando antes de falar:
— Sobre o meu convite: pense sobre isso. Podemos relembrar os bons tempos, sim? Não acho que foi por acaso que nos tornamos vizinhos. — E, voltando-se para James, acenou. — Tchau, cara. Nos vemos por aí.
— É... — James resmungou, rogando aos céus para que não, eles não se vissem nunca mais, enquanto sentia um gosto amargo em sua boca ao observar Lily fechar a porta rapidamente assim que Amos saiu.
O suspiro de alívio que ela soltou, entretanto, foi o suficiente para elevar o humor de James.
Ele sorriu, divertido e, quando Lily ergueu os olhos para ele, ela franziu o cenho, desconfiada.
— Não comece! — Ela disse, como se fosse capaz de saber o que estava passando por sua mente.
Deixando uma risada escapar, James deu de ombros.
— Então... há uns cinco anos, heim? — Ele brincou, sentindo-se muito mais bem humorado agora que estavam sozinhos novamente.
Ao ouvi-lo, Lily bufou, corando de forma adorável.
— Pelo amor de Vader, James! Como se você não soubesse que eu acompanhava seu canal desde o início. — A ruiva rolou os olhos para ele numa óbvia tentativa de parecer desinteressada embora ainda estivesse ruborizada.
O sorriso de James aumentou ainda mais.
— Bem, sim, mas nunca pensei que você deixaria de sair com o seu namorado para me assistir. — Provocou, deliciando-se mais do que o necessário com aquela informação.
Remexendo-se de forma inquieta, Lily afastou uma mecha de seu cabelo, se afastando da porta e encaminhando-se até uma das caixas, claramente ignorando seu olhar.
— A companhia de Amós não era muito interessante.
— E a minha era?
— Bem, James, não seja tão arrogante. Era claramente uma desculpa para não ter de sair com ele. — Ela deu de ombros, sorrindo ao perceber o olhar ferido de James.
— Você acabou de quebrar o meu coração. — James murmurou, exagerando no tom, colocando a mão sobre o peito enquanto a observava rolar os olhos pelo que deveria ser a milésima vez.
— Eu tinha esquecido do quanto você era dramático. — Lily bufou.
Dando de ombros, James não se preocupou em responder, finalmente voltando-se para o apartamento, observando a disposição dos móveis e todas as caixas da mudança que, claramente, ainda não havia terminado.
— É lindo. — Ele comentou, realmente impressionado.
— Sim. — Lily assentiu, a expressão maravilhada ao voltar-se para o lugar que agora era sua casa. — Você quer… huh, bem, você gostaria de ver o resto? Ainda não está totalmente arrumado, nem perto, na verdade, mas...
— É claro! — James concordou com entusiasmo, interrompendo-a e, assim, recebendo um sorriso caloroso em resposta, seguiu-a enquanto Lily comentava sobre cada peça e móvel que ela e Marlene haviam escolhido, onde iriam colocar e como iriam colocar.
Ele deixou-se perder no entusiasmo dela, sorrindo enquanto a ouvia divagar sobre os espaços e todas as coisas que ela queria fazer em cada sala, as ideias de Marlene, a comparação com o apartamento de Barney de How I Met Your Mother e o fato de ela querer um Stormtrooper para colocar na sala ("para tornar tudo mais real, James"); seu sorriso ao levar as caixas para o corredor, a careta que ela fez quando adentraram o quarto de Marlene e encontraram várias roupas de Peter atiradas em um canto, o modo carinhoso com que ela rolou os olhos ao falar sobre aqueles dois ("não sei porque eles não admitem logo que estão namorando, francamente"); suas colocações sobre os prós e contras do apartamento no décimo terceiro andar e ainda que, se ela estivesse muito disposta, poderia começar a usar as escadas do prédio, assim não precisaria pagar academia, mas que não tinha muitas esperanças porque ela sofria de um caso grave de preguiça ("eu tenho certeza de que neste momento da minha vida tenho a energia equivalente a de uma pessoa de noventa anos").
Quando, por fim, eles estavam de volta ao carro a caminho de casa – ou, melhor dizendo: da casa dos pais de Lily, porque agora ela não mais morava lá – James suspirou e disse:
— Eu gosto de te ver feliz. — E era a coisa mais honesta que ele havia dito naquela noite. Ele realmente estava contente por ela, orgulhoso até. Lily tinha passado de estagiária descontente em uma empresa frustrante de softwares que tentava lidar com a universidade, os trabalhos e o estágio sem enlouquecer para alguém recém contratada pela empresa dos sonhos, prestes a se mudar para um apartamento incrível e com um futuro promissor em vista. — Sério, Lily, eu estou muito feliz por você.
Sem desviar os olhos da rua, Lily sorriu, aquele sorriso que James tanto amava e que fazia com que covinhas aparecessem em suas bochechas.
— Obrigada. — E havia algo além de gratidão em sua voz que fez com que ele sentisse o corpo inteiro aquecer e seu coração bater mais lento em seu peito.
—-
Meia hora mais tarde, após entrar em seu pijama de TARDIS e recostar-se confortavelmente contra seus travesseiros, James observou o teto por um momento longo demais, um pequeno sorriso aparecendo em seus lábios ao lembrar do que acontecera nas últimas horas.
Sem conseguir se impedir (grande novidade), caçou seu celular de cima debaixo de seu travesseiro, abrindo o aplicativo de mensagens e procurando por entre todas as conversas. Finalmente – após meses de mensagens soterrando a conversação com Lily – ele a encontrou. Eles não tinham conversado por mensagens desde um pouco antes de Lily decidir ir para a Espanha, pois haviam decidido que utilizar o Fanction através dos pseudônimos DarthProngs e Fangirl-ily era muito mais divertido (isso e também porque Lily realmente odiava trocar mensagens por qualquer lugar que não fosse o Twitter ou o site de fanfics – o que não fazia o menor sentido para James, embora ele já houvesse desistido de contestar suas razões).
As últimas mensagens que ele encontrou no mensageiro fizeram seu coração apertar.
{02/11/2017}
(19:32) Lily E.: Hey, eu te amo (emoji de coração)
(19:35) James P.: Eu também te amo (emoji de coração)
Elas datavam de dez dias antes do rompimento entre eles. E, após Lily ter decidido ir para a Espanha, no final de novembro, James lembrava de abrir aquela conversa e encarar a tela por mais tempo do que poderia recordar. Lembrava de sorrir com carinho e sentir o peito apertar em dor quase na mesma intensidade toda vez que fixava aquelas letras, tanto que, depois de um tempo, tudo se tornava um borrão de pixels indistinguíveis e ele precisava travar a tela e fechar os olhos até tudo voltar ao normal – só para repetir o processo alguns minutos mais tarde.
Era estúpido, ele sabia, mas naquela época não conseguia parar de reviver o momento das mensagens: James estava na Itália para um workshop e Lily estava envolvida em suas finais e em um projeto particularmente trabalhoso no estágio – ambos estavam com saudades, mas quase não havia tempo para ligações, Skype ou qualquer outra coisa exceto mensagens (para as quais Lily teve de se render por um curto período de tempo).
Ou talvez eles simplesmente pararam de tentar-
Mas James costumava afastar tais pensamentos, sentindo-se enjoado com aquela possibilidade.
Ele continuou com aquele ritual basicamente por todas as noites em duas semanas inteiras até que, por fim, parou de olhar.
Não que houvesse parado de doer.
Definitivamente não.
Agora, entretanto, observando aquelas palavras cheias de muito significado, ele se perguntava se elas ainda seriam verdadeiras, mesmo depois de todo aquele tempo.
Entrementes, aquela definitivamente não era uma linha de pensamento que ele deveria seguir.
Suspirando, James clicou sobre a área de digitação, deixando seus dedos vagarem rapidamente sobre as letras.
{30/06/2018}
(02:47) James P.: Hey, Lily :)
(02:47) James P.: Só queria dizer que estou muito feliz que somos amigos e que passamos um tempo juntos!
E porque ele simplesmente não podia se ajudar, acrescentou:
{30:06/2018}
(02:54) James P.: Eu senti sua falta
—-
{30/06/2018}
(03:13) Lily E.: Eu também senti sua falta
[DOMINGO – 01 DE JULHO, 2018]
— Hey. — Lily sorriu ao ouvir a voz da irmã através do telefone.
— Hey, Tuney, tudo bem com você?
— Sim, tudo ótimo. Trabalhando para caramba, mas isso era o que eu queria, então não posso reclamar. — Petunia riu, fazendo com que Lily sorrisse ainda mais.
— Estou feliz em saber que está gostando, mas eu sinto sua falta. A casa não é a mesma sem os seus maneirismos e sua cara de filhote de Wookiee. — Suspirou. — Quando você vem? — Lily indagou ao puxar uma das caixas cheias de livros, sentando-se sobre ela enquanto um suspiro aliviado escapava de seus lábios.
Havia passado as últimas quatro horas pintando paredes incessantemente. Até então, com a ajuda de Peter, Marlene, Alice e Frank, quase todo o apartamento estava pronto, faltando apenas uma das paredes de seu quarto, na qual Lily decidira colocar um papel de parede personalizado que comprara pela internet, mas que só chegaria na semana seguinte.
Estava exausta e sua roupa inteira estava respingada de tinta em tons de bege, azul e branco. Mas, apesar de si mesma, sentia-se orgulhosa com todo o trabalho.
Seu apartamento estava finalmente parecendo como um lar. O seu lar.
E ela não conseguiu conter um tremor de excitação ao pensar nisso.
— Acho que no próximo final de semana. Mamãe decidiu desviar de Godric's Hollow antes de ir para Hogsmeade e passar por aqui para que pudéssemos voltar juntas. McGonagall me deu folga, portanto você vai poder matar a saudade logo, logo. — O tom de Petunia estava levemente estridente, não combinando com a notícia que ela estava dando, o que fez com que Lily franzisse o cenho.
— Está tudo bem, Tuney? — Questionou, levemente preocupada.
— Sim. Tudo está bem. — Mas a irmã respondeu rápido demais.
— Petunia? — Lily insistiu, um pouco mais incisiva.
O suspiro do outro lado da linha indicou que ela havia vencido.
— É só... eu tenho uma coisa para te contar. — O tremor na voz de Petunia era verídico ou apenas imaginação de Lily? Ela não poderia saber. — Mas precisa ser pessoalmente.
— Pelo amor de Vader, você está me assustando, Tuney. — Lily advertiu, sentindo o estômago apertar.
— Bem, você certamente não está mais assustada do que eu. — Petunia soltou um sorrisinho nervoso do outro lado da linha. — Eu preciso ir agora, Lily. Tenho de finalizar uns contratos para entregar amanhã cedo-
— É Domingo, Tuney, pelo amor de Vader!
— Eu sei, mas eu deveria ter feito isso antes. Agora não há tempo. Eu ligo para você amanhã, Lil'. Te amo. Estou com saudades.
— Ok. Também te amo.
Assim que desligou, Lily teve um mau pressentimento. Qualquer coisa que Petunia precisasse esperar para falar pessoalmente – e não simplesmente vomitar pelo telefone – certamente era algo preocupante.
—-
{01/07/2018}
(19:05) James P.: Primeira noite em praticamente um mês que o Peter veio dormir em casa
(19:06) James P.: Devo me preocupar?
(19:10) Lily E.: Acho que ele só estava com medo
(19:11) Lily E.: De que pedíssemos para ele ajudar em mais alguma coisa
(19:12) James P.: Haha, vocês estão escravizando o meu amigo?
(19:13) Lily E.: Olha, se alguém está fazendo isso
(19:13) Lily E.: É a Marlene
(19:14) Lily E.: Mas acho que ele não vai reclamar
(19:14) Lily E.: Porque, pelo que eu ouço à noite
(19:15) Lily E.: Peter está sendo muito bem recompensado
(19:16) James P.: Informação desnecessária!
(19:17) Lily E.: Sinta minha dor, Padawan
(19:18) James P.: Estou compadecido :(
—-
(23:23) James P.: Boa noite, Lily :)
(23:23) Lily E.: Boa noite, James :)
[SEGUNDA FEIRA – 02 DE JULHO, 2018]
— Eu não estou dando uma festa de inauguração no nosso apartamento, Marlene! Não há nada para ser inaugurado! — Lily resmungou, irritada, para a melhor amiga. — Nós simplesmente não estamos fazendo isso!
Deveria ser a milésima vez que Marlene estava falando sobre aquilo e também deveria ser a milésima vez que Lily estava dizendo não.
Não que qualquer uma das duas estivesse prestes a desistir, é claro.
— Lily, por favor! — Marlene pediu fazendo beicinho enquanto Lily segurava a porta da Movie-Maker para que ela adentrasse, pendurando o guarda-chuva (todo decorado com Darth Vaders em miniatura) na entrada.
— Não. — A ruiva repetiu, firme. — É sério, Marlene! Nós acabamos de nos mudar! Acabamos de desencaixotar ontem! E ainda temos de terminar de desencaixotar! Você tem noção da bagunça que uma festa em casa traria? E que teríamos de arrumar? Não, não, não, Marlene. Não!
— Boa tarde, meninas! — Emme, que observava as duas em diversão, se aproximou. — Precisam de alguma coisa ou...?
— Oi, Emme! — Lily sorriu para a mais nova contratada da Movie-Maker. — Se você tiver um PowerPoint de Cem Motivos Pelos Quais Lily Evans Tem Toda a Razão por aí, estou aceitando.
— Ou algum exemplar de Lily Evans É Uma Idiota, também aceito. — Marlene retrucou e cruzou os braços sobre o peito.
Emme lançou um olhar levemente preocupado sobre as duas, remexendo-se levemente desconfortável.
— Hm, infelizmente não temos. — Ela sorriu levemente. — Acho que vou deixa-las, hm, conversar. Tenho algumas prateleiras para organizar. — E, se afastando, acrescentou: — Mas se precisarem de um exemplar de O Ciclo da Herança ou algum CD, estou por aqui.
— Obrigada. — Lily e Marlene disseram ao mesmo tempo e então voltaram a se encarar com faíscas voando de ambos os olhos.
Marlene finalmente gemeu, desistindo e jogando os braços sobre os ombros de Lily.
— Por favor, por favor, por favor. Eu nunca te pedi nada — Lily arqueou uma sobrancelha para a afirmação, na qual Marlene apressou-se para acrescentar: — hoje.
— Não, Marlene. — Lily bufou, afastando-se da amiga.
— Uau, temos uma ruiva irritada. O que você fez, Marley? — Sirius se aproximou, um sorriso brilhante em seus lábios, indicando que estava se divertindo demais com toda aquela cena.
— O que eu fiz? — Marlene se voltou para Sirius, arqueando uma sobrancelha e colocando as mãos na cintura. — Acho que é melhor você perguntar o que a Lily não está fazendo! — E seu tom era tão mandão que Lily rolou os olhos, resmungando logo em seguida.
— Sirius, ela quer fazer uma festa de inauguração no apartamento, como se fosse uma loja ou qualquer coisa do tipo! Sabe o trabalho que deu arrumar tudo aquilo? Sabe quanto tempo eu passei varrendo e deslocando caixas enquanto a Marlene estava no quarto fazendo Vader sabe o que com Peter? — Cruzando os braços, foi a vez de Lily arquear as sobrancelhas, voltando-se para a amiga de modo acusatório. — Não.
Marlene ofegou, irritada, mas não discutiu com Lily.
Não.
Ela apenas voltou-se para Sirius, sorrindo largamente daquele modo maroto que a ruiva tanto odiava (às vezes Marlene era tão parecida com Sirius que era simplesmente aterrorizante).
— Bem, está bastante claro que eu não vou conseguir convencê-la a pensar claramente, portanto, Sirius, vou deixar essa incumbência para você.
— O quê-? — Sirius e Lily começaram a perguntar ao mesmo tempo, mas Marlene os interrompeu.
— Você lembra do nosso acordo, Sirius? — A morena perguntou, cheia de subentendidos na voz. Para o espanto de Lily, Sirius empalideceu.
Pelo amor de Vader, que diabos?
— Sim, mas- — Sirius tentou argumentar (fracamente), mas Marlene apenas ergueu a mão, fazendo-o calar-se.
— Então, Sirius, estou cobrando por isso agora. — E, com um sorriso malévolo, Marlene se afastou dos dois, encaminhando-se até onde Emme estava espanando uma das prateleiras enquanto cantarolava.
— Que merda foi essa? — Foi tudo o que Lily conseguiu indagar após observar, atordoada, sua melhor amiga gargalhar junto com Emmeline como se não houvesse acabado de dar um ultimato.
— Nada. — Sirius disse, mas seu tom de voz indicava que nada poderia significar muitas coisas. A palidez ainda era bastante visível em seu rosto.
— Sirius... — Lily chiou, estreitando os olhos em desconfiança. — Que merda é essa entre você e a Marlene? O que vocês dois estão fazendo? Que merda de acordo é esse? Sirius? Pelo amor da merda sagrada de Vader, o que você e a Marlene podem, possivelmente, ter acordado? — As palavras saíram desenfreadas da boca de Lily, a irritação de não saber o que, pela força, estava acontecendo entre seus melhores amigos fez com que ela soasse sibilante.
— Pelo amor de Deus, não há nada entre eu e Marlene, Lily! — Sirius praticamente cuspiu, encarando-a horrorizado. Pareceu bastante verídico para Lily, o que a acalmou levemente, porém ela ainda queria saber o que diabos estava acontecendo.
— Sirius!
— Lily. — Sirius retrucou no mesmo tom fazendo com que ela estreitasse ainda mais os olhos, encarando-o firmemente. Ele a encarou de volta, seus olhos acinzentados faiscando para ela.
Ela não saberia dizer por quanto tempo eles ficaram daquele jeito, mas, por fim, parecendo desinflar, Sirius suspirou.
Bem, pelo menos Lily sabia que seus olhares mortais funcionavam.
— Você quer mesmo saber? — O garoto finalmente perguntou.
— É claro que eu quero, pela força, Sirius! — Lily retrucou, rolando os olhos para a pergunta estúpida.
— Ótimo, porque eu estava morrendo para te contar. — Sirius praticamente gemeu e então indicou que seguissem até o balcão. A loja estava vazia, exceto por ele, Lily, Marlene e Emmeline. Não faziam muitos minutos desde que estava aberta e, é claro, a chuva torrencial que caía no lado de fora não era exatamente convidativa, portanto não havia nenhum cliente à vista.
Puxando uma cadeira, Lily deixou-se cair no assento, tirando a mochila dos ombros e a abrindo para puxar o notebook. Sirius havia oferecido a ela para trabalhar na Movie-Maker, pois ela tinha passado o Domingo inteiro pintando o apartamento e o cheiro de tinta fazia com que espirrasse de segundo em segundo.
É claro que ela aceitou, tanto porque sua rinite alérgica agradeceria, quanto porque queria passar mais tempo com Sirius. Ele era uma de suas pessoas favoritas e ela não iria negar para si mesma que sentira falta dele por todo o tempo em que esteve fora (embora ela jamais fosse admitir isso para ele conscientemente – honestamente, Sirius provavelmente jogaria isso em sua cara todos os dias se ele a ouvisse).
— Ok, eu vou te falar, mas você vai ter de me prometer duas coisas em troca. — Sirius disse por fim, após vários segundos de um silêncio contemplativo.
Lily desviou os olhos da tela inicial de seu computador para encará-lo acusadoramente.
— Você está me chantageando, Sirius?
O garoto deu de ombros.
— Encare como quiser, mas você vai ter que fazer se quiser saber.
A boca de Lily abriu completamente, chocada com o garoto.
— Você acabou de dizer que estava morrendo para me contar!
Ele deu de ombros mais uma vez.
— Quero dizer, eu passo malditos sete meses longe de você e, quando volto, ao invés de você despejar toda a força de fofocas para cima de mim, você me chantageia? O quê? Você e Marlene são confidentes agora, Sirius Black? — Ela cruzou os braços, sentindo o rosto corar em irritação.
Um sorrisinho mínimo apareceu no canto dos lábios de Sirius.
— Você é minha favorita, Lily, não precisa ficar com ciúmes.
— Então que diabos você acordou com a Marlene? — Bufou.
Suspirando, Sirius afastou algumas mexas de cabelos escuros para longe de seu rosto, mordendo os lábios levemente antes de prosseguir.
— Prometa que você vai fazer a festa de inauguração. — Ele pediu e talvez fosse por conta de seu tom de voz extremamente vulnerável ou ainda porque seus olhos tinham escurecido de repente, fazendo-a querer abraçá-lo-
Lily simplesmente não era capaz de resistir aquela maldita cara de cachorro de Sirius.
Bufando, ela ergueu os olhos, varrendo a loja até encontrar onde Marlene e Emme estavam, agora sentadas em um dos sofás no canto esquerdo.
— Marley! — Ela chamou, sentindo que preferia morrer do que fazer aquilo. Marlene ergueu os olhos, uma sobrancelha arqueada em indagação. — Sexta-feira. Às oito horas começa essa porcaria de festa. Você limpa. — O sorriso que ela recebeu em resposta parecia capaz de cegá-la, mas só fez com que Lily se sentisse ainda mais irritada. Suspirando, voltou os olhos novamente para Emme. — Você está convidada, Emme. A Guga já vai ter chegado de Oxford, não é?
A garota loira assentiu, entusiasmada.
— Estaremos lá. — Sorriu.
Lily retribuiu fracamente antes de retornar o olhar para Sirius.
— Ok. Feito. Agora me conte.
O garoto ergueu um dedo, mordendo os lábios em um comportamento nervoso totalmente atípico. Fez com que ela se sentisse enervar (e se preocupar com o que, pela força, Sirius poderia estar mantendo).
— Você... você não pode contar para Remus sobre isso, Lily. Por favor. Prometa que não vai contar. — E sua voz era quase desesperada, seu tom quase sussurrante e seus olhos totalmente toldados com ansiedade.
Lily sentiu o coração apertar.
— Sirius... que diabos?
Ele soltou um suspiro trêmulo.
— Eu- bem, hm. Duas semanas antes de você voltar, aconteceu- aconteceu uma coisa.
— Que coisa, Sirius? — Lily indagou, mas o garoto não parecia querer responder. — Pela força, Sirius! Que coisa?
— Regulus-
— Ah, mas pelo amor da merda! O que ele fez dessa vez? — Lily amaldiçoou, sentindo o desgosto que sempre aparecia quando Regulus estava na conversa a atingir. Sirius pareceu se encolher com o tom de voz acusador de Lily, mas adicionou:
— Ele- — Sirius interrompeu-se, respirando profundamente antes de continuar, finalmente erguendo os olhos para ela. — Ele saiu de casa.
Bem, Lily certamente não estava esperando por aquilo. Portanto é claro que sua expressão estava demonstrando toda a surpresa que ela sentia.
Sirius pareceu tomar aquilo como passe livre para continuar, pois prosseguiu:
— Ele apareceu aqui na loja e- bem, ele estava péssimo, Lily. Orion passou da conta, quase o quebrou. Foi pior- foi muito pior do que aquela vez, quando você me buscou. — Lily e Sirius estremeceram ao lembrar da vez em que ela foi buscar o garoto à Godric's Hollow e o encontrara totalmente machucado. Felizmente, nenhum deles havia voltado àquela cidade desde então.
— E então ele veio aqui e pediu ajuda? — Lily indagou no que Sirius assentiu, confirmando. — Mas o que Marlene tem a ver com isso?
— Regulus precisava de um lugar para ficar... — A voz de Sirius era tão cheia de culpa que o fazia parecer diminuir a cada silaba. — E Marlene havia comentado sobre o apartamento de vocês...
— O quê? — As palavras escaparam um pouco mais alto do que o necessário de seus lábios, mas ela simplesmente não conseguiu se conter. Marlene e Emmeline estavam encarando-a cheias de confusão, mas Lily não podia se importar menos.
Pela força, o quê?
Sirius passou uma mão nervosamente por seus cabelos.
— Shiu. — Pediu e olhou rapidamente para a entrada da loja que continuava totalmente vazia. — Eu falei com ela e ela deixou que Regulus ficasse lá por alguns dias até- até eu descobrir o que fazer.
Lily deixou que as palavras afundassem em sua mente, as informações assentassem.
— Foi por isso que você não me ligou. — Disse, por fim, lembrando-se dos dias em que Sirius desaparecera subitamente das redes sociais e parara de responder as suas chamadas. — Você quase não respondia minhas mensagens.
— Sim. Foi. — O garoto assentiu, apologético.
— Remus falou que você estava em um projeto em seu curso de Mídia quando eu perguntei se você estava bem. — Lily pontuou, sem conseguir evitar soar acusadora.
Sirius apenas assentiu, mordendo os lábios.
— Por que você não contou para o Remus? — Ela questionou após alguns instantes de silêncio, encarando-o com seriedade.
— Você lembra da briga deles no ano passado, não lembra? — Sirius perguntou e é claro que Lily lembrava. O olho roxo de Remus e o horror de Lily ao vê-lo completamente exaltado (como jamais pensara que ele pudesse chegar a ser) fez com que tudo sobre aquela cena se tornasse inesquecível. — Bem, Remus ainda não superou...
— E com razão, Sirius. Pelo amor de Vader, Regulus falou um monte de merda sobre vocês dois na internet! Seu irmão! Falando todas aquelas bostas sobre você! Honestamente, eu ainda não sei como ele não foi pego com todo o escândalo envolvendo o Voldemort. — E Lily não pode esconder a chateação em sua voz por não ter acontecido. Francamente, Sirius estaria muito melhor em um mundo onde Regulus Black estivesse preso e fora de problemas por um tempo.
Mas então, Sirius estaria triste.
E Lily sabia que preferia ter de encarar Regulus pessoalmente a conviver com a tristeza de Sirius.
— Eu sei, Lily. Eu sei que ele é um merda, é só que-
— Ele é seu irmão. Eu sei. Entendi. — Ela suspirou, sentindo-se exausta. O fato é que ela entendia mesmo. Se estivesse na situação de Sirius e sua irmã fosse uma idiota estúpida, ainda assim a amaria. E provavelmente faria muita merda por ela. As coisas são como são, afinal de contas. — Onde ele está agora?
Parecendo levemente surpreso com a recepção muito calma diante da notícia, Sirius demorou alguns instantes para responder.
— Eu encontrei um apartamento para ele. Estou ajudando com o aluguel até ele achar alguma coisa para fazer. Ele não vai voltar para casa. — E seu tom era final, como se ele estivesse se certificando de que Regulus não faria algo estúpido como aquilo.
— Você sabe que não pode esconder isso de Remus por muito tempo, não é? — Ela adicionou, muito mais suave do que antes. Seu tom de voz fez com que Sirius encolhesse novamente.
— Eu sei. — E o garoto parecia realmente culpado.
— Sirius. É sério. Você não pode esconder isso dele. Ele vai ficar furioso se descobrir sozinho. — Ela adicionou, frisando bastante suas palavras para que ele compreendesse a gravidade da situação.
— Sim. — Sirius suspirou, deixando a cabeça cair contra o balcão de mármore, olhos fechados enquanto uma respiração trêmula escapava de seus lábios. — Eu vou contar para ele... em breve.
— Ok. — Lily suspirou e então esticou uma mão para acariciar os cabelos macios do garoto, odiando-se por não ter percebido as olheiras profundas abaixo de seus olhos e as linhas de preocupação em sua testa antes. — Vai ficar tudo bem, Sirius. Você só precisa juntar essa merda e falar para ele. Ele vai entender, ele te ama.
— Remus vai ficar furioso, Lily. Ele não vai falar comigo por uma semana... Deus, é provável que ele não fale comigo nunca mais! — Sirius soltou uma risada muito parecida com um choro, o que fez com que ela puxasse seu banco para mais perto dele, jogando seus braços em volta de suas costas e recostando-se contra o balcão, grudando suas testas enquanto o abraçava.
— Ei. Ele vai ficar um pouco louco, mas tudo vai ficar bem, Sirius. Ele sabe que Regulus é importante para você. Honestamente, acho que Remus não esperaria qualquer outro comportamento de você além do que você fez. Ele te conhece, Sirius. Ele te ama. — Lily se esticou para beijar sua testa. — Apenas conte para ele, ok? Antes que ele descubra sozinho e jogue a merda no ventilador. Vader sabe que não precisamos de mais drama wolfstar, certo?
Sirius assentiu, fechando os olhos por alguns instantes antes de se desencostar do balcão, erguendo-se e fazendo com que as mãos de Lily deslizassem de cima dele.
Sorrindo, ele inclinou-se para beijar sua bochecha.
— Que merda, ruiva. Eu estava com muita saudade de você. — Sirius disse suavemente, fazendo com que ela sorrisse em resposta.
[QUARTA-FEIRA – 04 DE JULHO, 2018]
{04/07/2018}
(13:01) James P.: Hey
(13:04) Lily E.: Hey!
(13:07) James P.: Estava pensando...
(13:08) Lily E.: Sério? Você faz isso?
(13:08) James P.: Haha
(13:08) James P.: Mas é sério
(13:08) James P.: Estava pensando que, como somos amigos agora
(13:09) James P.: Podíamos sair para tomar café?
(13:09) James P.: Quero dizer, se não for estranho para você?
(13:11) Lily E.: Não, tudo bem
(13:11) Lily E.: Acho ótimo, na verdade. Quando?
(13:12) James P.: O que acha de amanhã, às seis?
(13:13) James P.: Hoje eu tenho reunião com a McGonagall, portanto há a possibilidade de que eu não sobreviva até lá, mas, se tudo correr bem, o que você acha?
(13:13) Lily E.: Ugh, boa sorte
(13:14) Lily E.: Por mim tudo bem. Amanhã às seis!
(13:15) James P: Nos encontramos no seu?
(13:15) Lily E.: Hm, na verdade eu tenho de ir na casa dos meus pais dar comida para o Padfoot, então acho que nos encontramos na sua casa :)
(13:17) James P.: Oh, uau, Lily Evans escreveu uma frase completa num aplicativo que não é o Twitter ou o Fanction? Sério? Estou ficando assustado, Lily. Francamente, o que fizeram com você na Espanha?
(13:18) Lily E.: Haha
(13:18) Lily E.: Estou fazendo uma exceção, porque é isso o que os amigos fazem, Potter
(13:19) Lily E.: Mas não se mal acostume, eu realmente odeio aplicativos de texto
(13:20) James P.: Você sabe que isso não faz o menor sentido, não sabe?
(13:20) James P: Aliás, por que você não entra mais no Twitter?
(13:22) Lily E.: Eu entro no Twitter!
(13:23) James P.: Seu último tweet foi no início de maio!
(13:23) Lily E.: Você está me stalkeando?
(13:24) James P.: É isso o que os amigos fazem!
(13:24) James P.: Mas, sério, por que você não usa mais o Twitter? Por que você não escreve mais fanfics? Por que você cortou o cabelo? Por que você estava tomando chá ao invés de café? Por que você (insira aqui mais mil motivos totalmente pertinentes)
(13:27) Lily E.: Uau, você está realmente investido nisso, não é?
(13:27) James P.: Não vou negar que estou curioso
(13:27) Lily E.: 1) Eu TOTALMENTE USO O TWITTER. Apenas não tuito mais, mas é mais por preguiça do que falta de tempo, embora meu estoque de memes continue totalmente atualizado. 2) Eu já falei porque não escrevo mais! 3) Meus cabelos caíam no rosto toda a maldita hora, então eu cortei. Não deu certo: eles continuam caindo nos meus olhos, mas agora não posso mais prendê-los direito. 4) Café faz mal para os ossos! :))))
(13:30) James P.: Ok, desculpe moça, foi engano. Tenho certeza de que mandei mensagens para a Lily Evans errada.
(13:31) Lily E.: Cale a boca
(13:32) James P.: Ok, então talvez seja a certa, já que agora está xingando.
(13:33) James P.: Eu preciso ir falar com a McGonagall agora, mas nós não terminamos essa conversa!
(13:34) Lily E.: Tchau, James
(13:35) James P.: Uau, que rude. Vai me dar tchau assim? Tão seca? Que tipo de amiga você é?
(13:35) Lily E.: Tchau, James (emoji de gotas)
(13:36) James P.: Estou realmente ferido
(13:37) James P.: Se eu sobreviver à McGonagall, vou te mandar uma mensagem de vários carácteres demonstrando o quanto você me magoou
(:13:37) James P.: Tchau, Lily (emoji de coração amarelo)
(13:37) James P.: Nos vemos amanhã. Vamos tomar CAFÉ!
(13:38) Lily E.: Você vai. Eu estarei bebendo Chai.
(13:39) James P.: Como OUSA?
(13:39) Lily E.: McGonagall vai arrancar seu celular se continuar digitando, James.
(13:40) Lily E.: Até amanhã (emoji de gotas)
(13:41) James P.: Até amanhã, Lily!
(13:41) James P.: PS: se eu não sobreviver, diga à Odette que eu a amo e que todos os meus bens ficam para ela.
(13:42) Lily E.: Você não deveria me dizer isso. Agora estarei sequestrando sua cadela para obter tudo dela quando você morrer.
(13:42) James P.: Você não ousaria.
(13:43) Lily E.: Odette me ama. Ela com certeza vai ficar do meu lado.
(13:44) James P.: Você provavelmente tem razão
(13:44) James P.: Tchau, Lily (emoji de coração verde)
(13:45) Lily E.: Tchau, James (emoji de coração azul)
(13:46) James P.: VOCÊ MANDOU UM CORAÇÃO!
(13:47) Lily E.: Meu dedo escorregou, obviamente. Tchau, James
(13:47) James P.: Você pode continuar mentindo para si mesma, mas eu sei melhor. Tchau, Lily :)
[ALGUMAS HORAS MAIS TARDE]
Lily estava mentindo para James quando disse a ele que ainda usava o Twitter (não que ela achasse que ele acreditava, de fato, mas pelo menos podia fingir que sim). A verdade era que, assim como as fanfics, aquela rede social acabou se tornando dolorosa demais para que ela continuasse a utilizando. E, por conta disso, Lily simplesmente se desligou.
Ela sabia que era estúpido, mas, honestamente, estava cansada de ver as edits e as perguntas dos seguidores, todas aquelas fanfics e fanarts e merdas sobre Jily e a tristeza do fandom por não saber que diabos havia acontecido entre eles dois.
Nas últimas vezes que entrara em sua conta, tudo o que vira a fizera chorar. Não era algo de que se orgulhasse. E, definitivamente, não era algo que ela queria repetir.
Exceto que, naquele momento, ela estava deitada em sua cama em seu novo quarto, o notebook em seu colo enquanto observava a tela inicial do Twitter com resignação.
Não sabia dizer por quanto tempo estivera ali. Desde que chegara da Movie-Maker, talvez? E aquilo já fazia quase uma hora.
Emmeline, que estava se saindo muito bem, obrigada, como vendedora da loja, passara o dia inteiro conversando com Lily e servindo chá – que, honestamente, era realmente muito bom. A garota dissera que havia aprendido a fazer alguma coisa com folhas de hortelã e canela com a sua avó, mas Lily não prestara muita atenção enquanto ela falava, pois estivera muito ocupada tentando resolver um código que insistia em dar erro no novo sistema. Quando, por fim, o turno acabou, Emme decidiu acompanhar Lily até em casa, o que se saiu muito melhor do que a ruiva teria esperado.
A verdade era que, apesar de se dar bem com Guga e de Emmeline não ter guardado rancor de Lily após toda sua história, elas não haviam conversado muito desde então. Lily achava que a responsabilidade por aquilo era um pouco dela, pois ainda se sentia culpada por ter praticamente usado Emmeline, mas, como a garota parecia disposta a ser amigável, ela decidira que podia fazer aquilo também.
Ser amiga dos ex-namorados (as) parecia estar sendo a coisa do momento para a Lily, francamente. O que era reconfortante em alguns aspectos e totalmente aterrorizante em outros.
Não que ela fosse pensar muito sobre aquilo.
O que a levava novamente ao fato de que estava encarando a tela de seu computador basicamente desde que Emme deixara seu apartamento – Lily acabara insistindo para que ela visse a casa antes de sexta-feira, querendo mostrar sua coleção de discos para uma Emme muito interessada (fora uma coisa boa, a conversa entre elas era realmente fácil e divertida. Talvez elas pudessem ser boas amigas. Lily esperava que sim).
Com um suspiro de desistência, Lily finalmente digitou "fangirl-ily" na área de login e sua senha em seguida. Clicando em "enter" esperou enquanto a página carregava.
A coisa era que, embora ela estivesse esperando, ainda assim os números exorbitantes de novos seguidores, menções, citações e mensagens a deixou totalmente abismada.
Era óbvio que ela nunca conseguiria ver tudo aquilo antes de morrer. Na verdade, desde que ela e James haviam começado a namorar publicamente e o fandom dos Marauders decidiu que ela era digna de ser seguida, Lily não conseguira ter dedos o suficiente para responder todo mundo – embora tentasse arduamente. Agora então, ela sequer sonhava com algo tão improvável.
Ainda assim, ela se deixou vagar pelas notificações, rolando a página até as mais antigas, voltando até o mês de maio e então rolando para cima novamente, tentando notar alguma coisa nova por lá.
Era o mesmo de sempre, ela percebeu. Edits, fanfics, fanarts. Pessoa gritando e querendo saber o que aconteceu com Jily. Fã clubes falando que estavam morrendo de saudades. Pessoas usando capslock desnecessariamente apenas para falar que o otp estava morto-
— Por Vader! — Ela murmurou consigo mesma, sem conseguir parar de ficar surpresa com o fato de que, apesar de tantos meses terem passado, algumas pessoas continuavam com esperanças no ship. — Eu sou tão desesperada desse jeito? — Indagou para si mesma ao clicar num link de um blog de fofocas onde havia uma teoria que afirmava que ela havia engravidado e que por conta disso havia sumido de todas as redes. Alguns tweets haviam dito coisas parecidas ou então que ela traíra James com Sirius (e era realmente impressionante a quantidade de pessoas que shippava Sily – tudo o que Lily conseguia fazer era se perguntar se alguma daquelas pessoas havia visto uma foto de wolfstar, porque, honestamente, aqueles dois eram o maior OTP existente e qualquer um que os visse juntos não seriam capazes de shippá-los com qualquer outra pessoa), ou que ela traíra James com Peter (por isso ele vivia tirando fotos com a amiga de Lily – essas pessoas certamente não faziam a menor ideia dos gemidos entre Peter e Marlene que ela era obrigada a aturar durante a noite). Haviam também os céticos (e sábios) que diziam para os outros calarem a boca e aceitarem que Jily havia acabado.
Ela não podia negar que doía ver tudo aquilo. Que fazia com que ela quisesse respondê-los, dizer-lhes que estavam errados.
Mas eles não estavam, ela percebeu.
Jily realmente não existia mais.
Como a jilyisdead dissera com muita propriedade: Jily estava morto.
E por mais que doesse e por mais que odiasse, Lily precisava admitir que era a verdade.
Sentindo o estômago revirar, terminou de rolar a página, sem se aprofundar muito nos tweets, com medo do que mais poderia encontrar. Quando, por fim, deu-se por vencida – sentindo-se mais exausta do que se sentia em tempos (o que era realmente algo preocupante, levando em consideração que passara o domingo pintando e ficara esgotada) – Lily correu com o mouse com intensão de fechar a janela e desligar o notebook... mas então, ela viu.
amndspotter: PAREM DE SER IDIOTAS, JILY ESTÁ MORTO! fangirl-ily e JamesPotter terminaram! O NEGÓCIO AGORA É DORMES!
suckjily: amndspotter DORMES NADINHA, JILY RAINHA!
DOMRNRES: suckjily amndspotter DORMES É O ÚNICO SHIP REAL DO MOMENTO, DESCULPA SE NÃO SHIPPO CADÁVER
E uma sucessão de outros tweets com Jily shippers e Dormes shippers (seja lá o que diabos isso fosse) xingando uns aos outros se seguiram, fazendo uma confusão nas notificações de modo que Lily não mais conseguisse compreender o que, pela força, eles estavam falando.
Com o coração batendo com força contra suas costelas, Lily mordeu os lábios, sentindo o estômago revirar ainda mais dentro de si enquanto digitava "dormes" na área de pesquisa do Twitter e esperava carregar.
— Que diabos-? — Ela ofegou quando a página finalmente carregou, deixando à mostra algumas fotos, prints de vídeos e gifs em que duas pessoas posavam, sorridentes em sua grande maioria, olhos brilhando enquanto conversavam ou apenas piscavam para as câmeras.
Lily realmente achou que iria vomitar ao reconhecer não apenas James nas mídias, mas, ao seu lado, uma loira muitíssimo conhecida: Dorcas. Dorcas Meadowes.
Dorcas e James.
Dormes.
Sem pensar no que estava fazendo, Lily jogou o notebook sobre os travesseiros, pulando da cama e correndo para fora do quarto, invadindo a sala onde encontrou Marlene e Peter aos amassos sobre o sofá.
Ela não conseguiu achar culpa dentro de si por interrompê-los.
— Marlene! — Lily chamou, sua voz saindo esganiçada. Marlene afastou-se de Peter, ofegante, encarando-a em confusão.
— O que-?
— Por que, em nome de Vader, você não me contou? POR QUE VOCÊ NÃO ME CONTOU?
— Lily, o que você-?
— Dorcas! Estou falando de Dorcas! — E então a compreensão se espalhou pelo rosto de Marlene, sendo substituída por constrangimento logo em seguida.
Antes, porém, que Marlene pudesse falar qualquer coisa a respeito, Peter – que estava tão desgrenhado quanto sua amiga – ergueu-se ao seu lado, franzindo o cenho ao olhar para Lily.
— Dorcas? Você está falando da ex-namorada do James?
O modo como Lily engasgou diante das palavras do garoto não foi nada bonito. Marlene não estava muito diferente.
— O quê? — Ambas perguntaram, confusas.
— Do que está falando, Peter? Eu pensei que James e Dorcas tivessem se conhecido naquela conferência no final de maio? — A voz de Marlene era cheia de julgamento enquanto ela se erguia do sofá, afastando-se do garoto como se ele tivesse algo contagioso.
Peter rolou os olhos para ela.
— Não. Eles já se conheciam. Eles namoraram em 2013 ou algo assim. Dorcas morava em Londres. Foi o relacionamento mais longo de James antes da Lily. — E então ele finalmente se voltou para a ruiva, encarando-a como se somente então houvesse se dado conta da dimensão de caos que suas palavras causaram. — Ele nunca te falou sobre ela? Eu podia jurar que ouvi ele te contando sobre a briga de Sirius em Londres, quando James ainda namorava a-
— Doe. — Lily completou, um pouco mais alto que um sussurro. — Quando ele me contou, ele disse que ela se chamava Doe.
— Oh. — Foi tudo o que Marlene conseguiu proferir, parecendo tão chocada quanto Lily.
Peter obviamente percebeu o comportamento esquisito de ambas, porque as encarou com as sobrancelhas franzidas, confusão estampada em sua face.
— Por que vocês estão assim? Vocês a conhecem?
— Ela era uma das nossas melhores amigas. Foi nossa colega até o início do primeiro ano, mas então ela se mudou para Londres... — Lily disse, sentindo-se zonza.
— Eu não sabia, Lily. Me desculpe, eu... não mencionei porque eu achei que você tinha visto os vídeos de Tag dos dois e não queria falar sobre isso. Eu- desculpe. — A voz de Marlene era quase inaudível enquanto ela observava a expressão no rosto da amiga.
Lily demorou alguns instantes para absorver suas palavras – e mais alguns para conseguir fazer-se reagir.
— Tudo bem, Marley. — Ela disse com a voz um pouco mais firme, embora totalmente vazia. — Está tudo bem.
Embora todos soubessem que aquilo era uma mentira.
NOTAS: Hey, amores! O que acharam do capítulo?
Não esqueçam de me contar, sim? Fico sempre muito feliz em vê-los por aqui!
Dúvidas, sugestões, para xingar a autora, estou sempre no twitter (wolfistar) e no tumblr (milleoneprongs) :)))
Beijinhos e até breve :*
Obrigada a Guest, Stra. Dark Nat, MRavenclaw, Maria Emilia, Liel, Juliete Chiarelli, fenix, laisevero e Dafny pelos comentários incríveis! :)
