Era um instrumento robusto e antigo, em excelente estado de conservação. Ele ganhara de presente de sua mãe ao mudar-se de casa. Antes disso, o piano pertencera à sua avó materna, que lhes legara o amor pela música clássica.

Quando tinha um dia difícil, quando as coisas não saíam como planejado, Mycroft trancava-se em seu estúdio e deixava a tensão sair pela ponta de seus dedos, em forma de música. Fora ele quem ensinara Sherlock a lidar com os caprichos e dificuldades de sua mente através da música.

Ele curvava-se sobre o instrumento, imerso em concentração, tocando apaixonadamente, com um sorriso sereno nos lábios, achando que não era observado. Tão mergulhado estava no universo da melodia que não notou a aproximação de Gregory, que o ouvia, fascinado, da porta do escritório.

Mycroft tocou as notas finais da sonata com os olhos fechados, deixando o fantasma da canção pairar no estúdio, sem ter coragem de voltar daquele universo pacífico em que a música o colocava. Ele respirou fundo, e sobressaltou-se ao sentir um par de braços fortes enlaçar-lhe o peito e um beijo delicado ser depositado em sua nuca.

- Isso foi lindo, My. – Mycroft fez um gesto de falso desdém com a mão, e foi interrompido por um beijo de tirar o fôlego. – Que música é essa?

- Appassionata, de Beethoven.