Commedia

By Olg'Austen & Jodivise

Capítulo 2: A Viúva Negra e o Pirata

Por alguns momentos, Victória não saberia dizer se foram segundos ou minutos, o silêncio imperava naquele bar. Os olhos de todos aqueles marujos que ao final da tarde se concentravam ali, jaziam pregados na figura da jovem mulher, cochichando em surdina uns com os outros.

— Victória… — Otávia quase pulou o balcão, puxando a camisa da outra. — Para com isso!

— Mas que coisa… — Slaughter ergueu os braços, depois de guardar a pistola na bainha das calças. — Eu só perguntei a vocês, bravos marinheiros, se algum é o Sparrow!

— Jack Sparrow morreu, Slaughter. — um homem de meia idade, cujos cabelos grisalhos se colavam à testa, lhe exibiu os dentes maltratados. — Há anos que ninguém lhe coloca o olho em cima. Aquele cão…

— Eu não perguntei sobre Jack Sparrow. — Victória saiu do lugar, andando lentamente pelas mesas, fazendo Robert e Otávia se entreolharem ao perceberem confusão no horizonte. — Soube que o seu filho está cá. Apenas e só quero conhecer o herdeiro daquele mítico capitão! — os olhos castanhos da pirata se vidraram em dois homens que pareciam se esconder de si. — Sempre ouvi dizer que o pai era um verdadeiro cavalheiro que não recusava um agrado… — um grupo de cortesãs que se entretinham a entornar bebidas pelas bocas sedentas dos marujos sujos, soltaram risinhos. — Mas parece que o filho tem até vergonha de se mostrar.

— A razão seria… porque a conhecida viúva negra de Tortuga quer conhecer o herdeiro de tão vil pirata? — uma voz entoara alta, fazendo os clientes se virarem à porta e o mesmo aos dois atrás do balcão.

Victória fora a última a se virar, erguendo o rosto ao sujeito alto plantado na porta. Atrás deste, dois piratas com ares de perdidos cobriam a retaguarda daquele que lhe falara. Os orbes castanhos da pirata que parecia ser temida por todos, cruzaram com os quase negros daquele homem de cabelos compridos e lisos, cuja barba rasa à cara não escondia em nada o sorriso maroto e prepotente em seus lábios.

— Vil? — Victória sorriu. — Já ouvi falar de tudo sobre Jack Sparrow… mas vil? — aproximando-se, a de cabelos negros o mirou atentamente. — Só se foi porque deixou sua mãe prenha.

A constituição física daquele homem que seria um pouco mais velho que si era alvo da curiosidade da jovem, descendo os olhos por aquele que ostentava uma camisa de cor graná onde mais abaixo um cinto lhe prendia não só as calças castanhas como a espada e a pistola. Fosse lá quem fosse, era alguém que convinha não desafiar. Mas Victória Slaughter sempre fora assim, metendo-se onde não devia.

Engolindo a piada, o moreno riu num esgar, aproximando-se o bastante para a olhar de cima. — Seu génio agrada-me.

— Não é o primeiro que me diz isso. — Slaughter o fixou.

— Então porque solicita minha companhia?

— Porque todos os outros foram parar ao inferno. — a de cabelos negros o viu aproximar-se do balcão, apoiando o braço ali.

— Pois espero que não seja esse meu destino… Embora meu pai me dissesse que só pararia quando lá fosse parar. — e olhando o empregado tão alto como si, este falou em bom tom. — Uma rodada para todos por minha conta! — e voltando a fixar a moça ao seu lado, este sorriu. — E duas canecas do melhor rum que houver para mim e para esta amável senhorita.

— Amá…vel? — Robert se engasgou, levando uma cotovelada de Otávia.

— E a rodada é por conta de quem? — a dona do estabelecimento, cujo verbo fiar não cabia ali, lhe olhou de lado.

— Benjamin Lane… Sparrow. — o moreno assentiu. — Ou Capitão Ben Sparrow, se quiser.

A conversa entre os dois piratas seguia animada sob os olhares tortos de Robert, enquanto Otávia se entretinha a lavar as canecas que retornavam.

— Olha a descrição. — mandando um sopapo ao magricela muito mais alto que si, Otávia o acordara do transe. — É feio espiar a conversa dos outros.

— Eu não estou espiando nada. — Robert, ou Bob para os mais chegados, por mais que quisesse, sempre era inevitável espiar a dupla, apreciando os gestos de Benjamin. — Olha só… — chegando-se em Otávia, ele lhe pediu para que visse os dois à mesa. — Está tentando seduzir ela!

— Robert, mas você perdeu o juízo? Andou bebendo às escondidas? — levando a mão à testa, a jovem que não contava mais de vinte anos, lhe arregalou os olhos. — Até parece que não conhece Victória. Ela não é de se envolver com quem quer que seja.

— Ela matou o marido…

— E você é muito inocente. Devia ter ido para padre mesmo! — Otávia riu. — Ela não matou o marido. Tudo bem que Slaughter não conta a história toda. Mas lembra que ela foi feita prisioneira pela tripulação dele e que fosse pelo que fosse, acabou casada com ele. Agora me diz. Como uma menina que fugiu de casa e não sabia nada, foi capaz de assassinar friamente alguém? — Otávia encolheu os ombros. — Se ela está querendo enrolar aquele ali… é porque tem alguma na manga.

Robert nada disse, voltando os olhos tão cristalinos como o mar para Victória. Não tinha nem coragem de falar algo de jeito sem conseguir engasgar na frente dela, mas vendo-a ali, conversando tão animada com Ben Sparrow, lhe dava vontade de quebrar as garrafas na sua frente. Não por ela, mas por aquele cuja altivez estúpida o irritava. Só por ser filho de quem era, pensava chegar ali e já ditar as ordens? Pagar bebidas a todos e se apossar de todas as mulheres incluindo Victória.

— Pára! — Otávia lhe beliscou mais uma vez, acordando o irlandês. — Desse jeito vai acabar quebrando algum copo.

Bufando em desagrado, Robert quedou-se no sítio, tentando se abstrair de Slaughter e da conversa com o rebento do pirata mais conhecido por aquelas bandas.

— Benjamin Lane Sparrow… — Victória levou a caneca com rum aos lábios, não desviando o olhar do homem na sua frente. — Ouço muitas coisas sobre seu pai… ele era amado e odiado por muita gente aqui, sabia? Principalmente no departamento feminino.

— É… não era. — Ben retificou. — Meu pai está vivo. Mesmo que minha mãe não acredite.

— Menino da mamã? — Slaughter sorriu. — Um homem como você, está dando uma impressão muito… familiar para um pirata que tem uma tarefa tão difícil como perpetuar o nome de família.

— Qual deles? — Benjamin estreitou os olhos, aproximando-se da jovem. — Eu não intento isso, Slaughter.

— Pode chamar de Victória. — esta sorriu, permitindo aquele avanço. — Então que pretende?

— Para já? — Ben afastou-se, levando as mãos aos cabelos lisos. — Divertir-me um pouco… beber… passar uma bela noite… até chegar o dia em que eu e minha tripulação iremos partir. Atrás de meu pai.

— Você tem um navio? — Victória espichou o olhar para um dos anéis que decorava o indicador esquerdo do moreno.

— Commedia! — Ben bateu orgulhoso no peito, arregalando os olhos. — Meu amado navio. Comprei-o em Inglaterra e aqui o tornei no melhor navio pirata destas águas. — o sotaque louisiano se misturava a um inglês de Liverpool, lhe dando um ar engraçado. — Eu posso levar você a conhecê-lo!

— O que o leva a achar que eu aceitaria? — Slaughter cruzou as pernas, enfiando o tricórnio na cabeça.

— O facto de ser uma pirata que tem apenas e só uma chalupa com meia dúzia de homens que não dá sequer para saquear um navio mercante. — Sparrow desceu os olhos pelo corpo dela. — Aposto que gostaria de conhecer um navio pirata a sério.

— Eu já estive num navio pirata, Sparrow. — Vi emendou. — E que é meu por direito.

— E onde ele está?

— Digamos que… tive um acidente de percurso. — a morena sorriu.

— Onde vai? — Benjamin se surpreendeu quando a viu levantar-se.

— Recolher-me. — Victória fez uma careta. — Gostei de o conhecer… embora me emburrasse um pouco…

— Eu a fiz ficar aborrecida? — um ego brilhante como o de Ben, se quebrara com tal. — Aceite meu pedido. Vai-se deslumbrar com meu navio.

— E o que o seu navio tem de interessante? — Victória aproveitou que o moreno se levantara, aproximando-se tanto que ficaram a centímetros um do outro.

— Eu não chego? — Ben sorriu dengosamente.

— Esse seu ego nasceu com você, ou são suas calças falando?

— Você não é cortesã nem algo próximo para falar assim.

— Jura? — Victória riu, olhando nos orbes tão noturnos de Benjamin. — Eu sou mulher. Uma mulher num mundo de homens. Não fale de inocência à minha beira, Capitão… Ben Sparrow.

Robert deixou a boca já grande cair, ao perceber os dois desaparecerem do bar, enveredando pela saída. — Otávia! Você viu?

— Vi o quê, homem?

— Ela foi com ele! Victória foi com aquele sujeito. — o irlandês não cabia na indignação que lhe queimava no peito.

— Vai ver… ela engraçou com ele. — Otávia encolheu os ombros, percebendo um pirata bêbado desmaiar ao balcão. — Ei! Acorda, sua coisa fedorenta!

— Ela… — Robert mordeu o próprio lábio, torcendo a toalha nos dedos conforme um sentimento negro lhe apossava o ser.

1736

O ambiente quente e confortável não condizia em nada com o inferno que Victória passara naqueles dias que se vira presa numa cela, morrendo de fome e de frio, sentindo os tremores da morte tomarem seu corpo fraco. Abrindo os olhos, a portuguesa mirou o teto em madeira, percebendo a claridade de um novo dia. Há quanto tempo ela não sentia aquilo? A simples luz solar iluminando seu ser?

Erguendo-se, Vi percebeu encontrar-se numa cama encostada à parede daquela cabine espaçosa, no meio de alguns cobertores cinzentos e apenas com uma camisola lhe cobrindo até às coxas. As grandes janelas inclinadas e o balançar sentido lhe deram a certeza de estar num navio e a mesa redonda que ao centro jazia atulhada em mapas, lhe passou a informação de estar provavelmente no aposento de qualquer oficial.

Esfregando os olhos, Victória passou em revista os parcos móveis onde velas gastas jaziam, olhando tudo em volta. Ao avistar uma garrafa pousada na mesa, a jovem caminhou até esta, retirando a rolha em cortiça, entornando seu conteúdo na boca, para logo o cuspir ao saber-lhe horrivelmente mal.

— Nunca bebeu rum? — uma voz se fizera atrás de si e num reflexo Vi se voltou, encarando com um homem desconhecido até então. A moça se encostara a uma das paredes, descendo o máximo que pode a camisa, tentando em vão cobrir as pernas.

— Quem… é você? — Vi perguntou num fio de voz.

— Slaughter. Capitão Joe Slaughter ao seu dispor. — dando um passo, o homem lhe sorrira. Era um pouco mais alto que si e também muito mais velho. Mas isso ela não saberia dizer. Os lobos-do-mar sempre aparentavam ser mais velhos do que realmente eram.

Detendo-se aos detalhes, Victória notou os cabelos castanhos-claros, quase loiros que fartos emolduravam o rosto queimado pelo sol daquele capitão. Os olhos de um azul intenso lhe pareciam sorrir, mas a portuguesa não se conseguia sentir à vontade. — É o capitão do navio que me raptou?

— Do Sea Lion? — Joe aproximou-se da mesa, pedindo para que esta se sentasse. — Me desculpe se meus homens foram indelicados com a senhorita. Não a raptamos, apenas… a acolhemos.

— Acolheram? — Victória falou devagar, tentando perceber o inglês daquele homem.

— Me desculpe. Percebi que não é inglesa… — Joe sorriu, servindo-se de um pouco de rum. — Mas se quiser eu lhe ensino minha língua.

— Eu… não quero. — Vi tentou se levantar mas uma tontura a impedira.

— Quando a fui ver, estava quase morrendo. — Joe lhe explicou, prendendo-se aos detalhes da garota. — A trouxe para aqui. Meu aposento. Dorme seguido há três dias.

— Aquele rapaz… — era a única coisa que Victória se lembrava. Do rapaz que a ajudara. — Ele me levava coisas…

— Ele já não está aqui. — Joe tragou a bebida num único gole. — Era um ninguem. Desembarquei-o há mais de uma semana.

Vi o olhou de lado, tentando perceber se desembarcar não seria o sinónimo de matar. — Me deixe… desembarcar também.

— Como se chama, menina?

— Vi… Victória.

— E seu apelido?

— Já o esqueci.

— Eu não a posso desembarcar, senhorita. — Slaughter lhe dissera. — E creio que o facto de estarmos ainda em águas portuguesas… a faz não querer desembarcar para já.

De pronto, Victória ficara branca. — Então me leve para outro lugar.

— Porque o faria? — Joe consultara o mapa, apontando um sítio. — Estou sem rumo certo. Neste momento quero apenas colocar meu navio em segurança, senhorita Victória.

— São piratas. Eu sei o que fazem a mulheres indefesas.

— Indefesa? Não está indefesa, Victória. — Joe lhe sorrira, mostrando os dentes miúdos ao fazê-lo. Era um belo homem, mas não mais que isso para a portuguesa. — Enquanto estiver sob minha proteção, nenhum homem aqui a tocará. Nenhum marujo fará sequer uma graça.

— O que quer de mim? — Victória sentiu um nó se fazer, uma vontade imensa de chorar. Não sabia o que era pior. Casar obrigada ou ser feita cortesã de um pirata.

Mas cortesã era tudo o que Victória não iria ser. Pelos dias que se seguiram, a jovem fugitiva se recompusera. Joe lhe dera roupas novas, embora masculinas e tal como prometera, quando saía para o tombadilho, nenhum homem se metia consigo, embora não conseguisse evitar os olhares sedentos destes sobre si.

E conforme o tempo avançava, Victória esquecia cada vez mais a vontade de ser livre. Na verdade, ela o compreendia agora. Livre ela já era. Joe nunca a retivera no navio. Quando fundeavam, ele lhe dava livre-trânsito. E sabia que Vi sempre voltava. A moça sabia-o agora: ser pirata era seu destino. Era tudo o que ansiava. Era a única via de poder se ver livre do jugo de alguém.

— Me ensine a lutar, Joe. — o pedido viera um dia, quando Victória já sabia as artimanhas da vida a bordo e perdera o medo de disparar uma pistola.

— Victória… não se aprende a lutar de um dia para o outro. — o escocês lhe dizia, passando a mão calejada por seu rosto. — Não quero que vire uma sanguinária e estrague seu belo rosto e carisma.

— Eu já virei pirata! — do alto dos seus dezasseis anos, a portuguesa bradava. — Me ensine a lutar como um homem, Joe. É só isso que me falta.

E ele assim fizera a vontade. Joe Slaughter não era um coração mole, mas também não se comparava aos maiores assassinos dos mares. Ele era apenas um escocês que quando criança recebera do seu pai um mapa que este dizia conduzir a um tesouro. E que quando tivera a oportunidade conseguira o comando do seu amado galeão que baptizara de Sea Lion, tornando-se um pirata temido.

Mas aquela jovem que quase morrera em seus braços assumia-se como uma tentação. A tentação de a tornar igual a si, pois ele percebia o audácia de Victória. E a tentação de tomá-la. No entanto, essa última sempre era adiada. Vi era jovem demais, ele pensava. E demasiado arisca para se apegar a si. Com paciência, ele pensava, tudo se resolveria.

— Eu preciso lhe falar. — a noite que cobria o céu do Caribe fora o cenário perfeito para Joe começar aquela conversa com Victória, chamando-a à sua cabine.

— O que se passa, Slaughter? — Vi sorriu, sentando-se à mesa. — Está planejando algum ataque?

— É sobre você. — o escocês erguera o sobrolho. — Eu quero que este navio seja seu.

Um choque tomara o semblante de Victória. O capitão temido lhe dava o seu navio, achando-a a ideal para o comandar. Mas a que custo? Vi sabia que era tudo o que mais queria e se porventura o deixasse, se viria perdida no mundo.

— Não a prenderei, mas se sair… o mais certo é acabar na forca, Victória. — Slaughter a avisara.

— Eu sei, Joe. Sei disso e não quero sair. Ganhei o seu respeito e o respeito da tripulação. Sou parte dela, aliás. — Victória tentava perceber aonde este queria chegar.

— Então se una a mim. — o custo lhe chegava como o pior de todos. — Torne-se uma Slaughter.

Victória dissera não de pronto. A idéia de casar com aquele homem, por mais que o respeitasse, era como a morte. E pelos dias que passavam ela continuava a repetir a pergunta. Porem, a desgraça nunca vinha só e quando, num ataque a uma colónia portuguesa, a jovem fora reconhecida por um oficial amigo de seu pai e quase presa, a morena não tivera solução. Talvez… talvez até não fosse tão mau. Talvez, ela pensava, pudesse começar a gostar de Joe. E no final, sempre teria seu navio.

O casamento não mudara radicalmente a sua vida. Continuava a viver no navio, fora até promovida a Imediato. Gostava de Joe e das histórias que este contava. Era um amigo, um amigo ao qual ela não conseguia ver de outra forma. Mas o nojo que se apossava da garota quando as noites cobriam o céu, a faziam desejar estar morta. Afinal, fugira de um casamento sem amor para acabar ali. A menininha de apenas dezassete anos que sentiu sua alma morrer da primeira vez que ele a possuíra.

Não houvera cerimónia, apenas um pedido e um anel roubado enfiado no seu dedo. Mas mais que qualquer sim, dito na festa que se seguira, Joe ansiava poder tê-la em seus braços. E a tivera. Victória se deixara ser abraçada e beijada, correspondendo sem paixão, percebendo que a partir dali, ela seria incapaz de voltar a gostar da raça do homem. Cada toque das mãos calejadas do escocês, lhe travavam a garganta. Cada sugar da sua pele que adquirira um tom moreno, lhe umedeciam os olhos, desejando que tudo acabasse depressa.

E embora tivesse sido rápido, para Victória tudo fora insuportavelmente lento. A dor da virgindade perdida daquela forma lhe doera por dias e no momento ela cerrou os olhos lacrimosos, apenas desejando que alguém lhe pegasse a mão, que a mesma energia que um dia um desconhecido lhe passara, tocando-lhe os dedos, lhe atenuasse a alma revoltada.

Com o tempo, aqueles momentos se tornaram rotina, embora sempre como um suplício. Mas Victória pensava. Era o seu calvário pessoal. Era a sua passagem pelo inferno e afinal, Deus tinha-lhe sido misericordioso. Fugira do casamento obrigado. Não fora morta naquele ataque e Joe a tornara uma pirata. E fora a vida conjugal íntima, ele continuava sendo alvo da sua simpatia. Era o que ela tentava. Fora o que ela tentara pelos dois anos que estivera casada com ele: vê-lo através de dois prismas. O capitão que lhe ensinava e o marido que a fazia infeliz.

Mas tudo acabara abruptamente. A sua liberdade chegara cedo quando, ao acordar, Victória percebera a cama vazia. Já não era novidade, mas o rastro de sangue que se seguia espalhado pela cabine a deixara em pânico. Uma das janelas encontrava-se aberta e, debruçando-se, Victória acabara sujando a própria camisa de sangue. Uma busca intensa se seguira, com a tripulação a procurar o seu líder por toda a embarcação. Mas no final, a conclusão era óbvia: Joe Slaughter havia desaparecido e estaria provavelmente morto.

O seu calvário terminara e como era de direito, Victória, agora Slaughter, tornara-se a capitã do Sea Lion, tomando as rédeas da tripulação pirata. Mas cedo ela percebera que o destino não seria esse. Apenas um dia depois de assumir o comando, um motim instalara no navio, liderado pelo mestre. Victória era acusada de matar Joe para se apossar do navio, algo que a jovem sabia não ter feito. Por mais que odiasse aquele casamento, ela nunca tentaria matar Joe.

Mas para um bando de homens cujo cérebro havia sido virado por Peter Walls, o homem encorpado que vira seu posto de Imediato ser-lhe retirado quando Joe casara, aquela vadia merecia a morte. Nunca gostara dela. Por ele, Victória teria sido servida à tripulação e morta, mas Slaughter a salvara. Agora, ele pensava, era a hora da vingança.

— Vocês não me podem fazer isso! — da prancha, Victória bradava, tentando chamar a atenção daqueles homens estúpidos. — Sabem que eu não matei o Joe. E que ele quereria que eu fosse a capitã!

— Você não me engana. — Walls apontara a espada à garganta de Vi. — Uma mocinha se fazendo de pura… conseguiu a confiança do Slaughter mal se deitou com ele.

— Eu nunca… — Vi sentiu a lâmina se enterrar ainda mais na sua garganta.

— Cala a boca que muita sorte você tem de eu não rodar você pela tripulação e cortar sua garganta depois. — Walls a agarrara pelos cabelos, aproximando o rosto de si. — Vai parar naquela ilha deserta e vai morrer ali. E como um dia um capitão bravo que eu ouvi dizer, fez… eu vou dar uma pistola a você… uma única bala…

— Aquela ilha não tem nada a não ser cocos. — Victória olhara o pedaço de terra a algumas milhas.

— Então pegue nela e estoure seus miolos, linda. — o desplante chegara quando Walls a puxara e lhe lambera o rosto, fazendo Vi querer ardentemente cortá-lo ao meio.

No segundo seguinte, Victória fora atirada da prancha, caindo à água e emergindo a tempo de ver a tripulação chamá-la dos piores nomes à face da terra. Aos dezanove anos, a portuguesa se via ali, numa língua de areia com algumas palmeiras, tostando ao sol e rezando para que algo aparecesse. E um dia depois, o seu anjo da guarda a ouvira, mandando um navio mercante que a acolhera, deixando-a numa colónia do Caribe. Aí, ela sabia, sua aventura estava apenas começando…

***Continua***

Saudações Piratas!

Jodivise & Olg'Austen