- Sensei!
Ele parou e me olhou.
- Sim?
Aqueles olhos... O que podia fazer diante deles?!
- Sensei, eu... Eu preciso dizer uma coisa!
- O quê? - senta-se no chão.
- É que... Eu não sei bem como falar...
- Hum... Sobre o que é?
- Sen-sentimentos - quase morrendo de vergonha.
Ele sorriu, pôs o pano sobre a mesa e recolocou os óculos.
- Você pode conversar sobre o que quiser sem problemas. Não há motivos para ter vergonha.
- É que... Você não entende... Eu...
- Está mesmo apaixonado. Não é?
Comecei a emitir sons estranhos como um completo imbecil. Minha reação não podia ser pior.
- Não precisa ficar assim. Eu já sabia - sorri.
- Sa-sabia?
A respiração agora falhava. Eu não tinha a menor idéia do que fazer, reagir, falar.
- Sim. Por que hesita em admitir? Não vejo problema nenhum nisso.
O que ele estava falando? Eu tava apaixonado por um cara! E pior... Esse cara era ele e mesmo assim não vê problema nenhum?? Afinal, o que ele sentia por mim? Estava prestes a perguntar quando ele interrompeu meus pensamentos e disse:
- É a professora Shizumi né?
- Shizumi... San? - entortando a cabeça.
- Sim, é dela que você gosta. Por isso ficou tão abalado quando nos viu juntos. Por isso não quer admitir porque um professor e um aluno não podem se relacionar dessa maneira. Não é?
Mais uma vez fui puxado pra outra dimensão. Ele achou que eu estava apaixonado por aquela mulher e eu a conheci no dia anterior!! Talvez por isso tenha se explicado pra mim, por que achou que eu estava com ciúmes DELA. Mais uma coisa me deixou desolado:
"Um professor e um aluno não podem se relacionar dessa maneira"
Akira... Seu conselho só piorou as coisas.
- Deve ser difícil lutar contra você mesmo. Você deve estar confuso e inseguro - olha-me com tristeza e preocupação.
Há! Ele não imagina o quanto!
- É, mas...
- Hikaru-kun! Você pode contar comigo!
Eu não sabia se ria ou chorava.
- E deixe-me dizer uma coisa...
Conselho não, conselho não!
- Siga seu próprio instinto. O que achar que deve fazer faça.
Okay. Agora meu instinto diz pra pular no seu pescoço e dizer "NÃO TIRE CONCLUSÕES PRECIPITADAS, IDIOTA!!"
- Isso seria um pouco inconseqüente, sensei.
- Isso seria interessante, não acha?
Melhor não dizer o que meu instinto quer fazer.
- Você não parece o tipo de pessoa que costuma seguir seus instintos, sensei - sorri desafiador.
- Isso porque preciso despertar meus instintos - sorriu.
Por um instante olhou-me sem dizer nada. Senti-me tentado a beijá-lo. Meu coração batia como nunca. Precisava sentir aqueles lábios nos meus. "Devo estar ficando louco" concluí.
- Quem sabe... Isso desperte seus instintos.
Aproximei-me tocando com as mãos em seu rosto. Deixei que minha boca tocasse a dele sem invadi-la, talvez por medo da reação, medo de uma possível rejeição. Ele ficou parado. Tinha medo de largá-lo e ter de encará-lo, pois, nem mesmo eu sabia o que estava fazendo. Mas num rápido movimento afastou-se de mim. Parecia assustado. É... Aquilo realmente despertou os instintos dele.
- Hi... Hikaru...
- DESCULPA! - abaixei a cabeça, extremamente envergonhado - Eu não tenho interesse nenhum na Shizumi-san. A pessoa de quem eu gosto é... Você, sensei!
"Não acredito que falei isso" repetia à mim mesmo.
- Eu sei que é estranho. Não espero nada com isso, eu só... Eu tentei me conter, mas...
Fui puxado pelo braço. Me vi no chão, envolto por seus braços. Meu coração agora doía, uma dor quase insuportável.
Afastou meu corpo, olhando-me com certa tristeza. Ao perceber minha aflição, ele sorriu. Segurou-me pela cintura e então me beijou. Senti-me entorpecido. O beijo parecia anestesiar toda a ânsia de antes. Esqueci completamente de tudo o que me prendia àquele labirinto de dúvidas.
Ao fim do beijo, só pude murmurar:
- Sensei...
- Não se preocupe. Apenas confie no seu professor - sorriu.
Ele não disse que estava apaixonado por mim, nem que ficaríamos juntos. Pediu apenas pra que eu não me preocupasse e confiasse nele. Isso me bastava naquele momento.
O resto da noite foi silenciosa. Pouco me importava, ele havia me beijado. Era só no que pensava. Enquanto olhava pra ele, silenciosamente, pensava em suas qualidades.
"Vai começar a observá-la em cada simples movimento e viajar com momentos estranhos que são completamente idiotas mas que te fazem ser o idiota mais feliz do mundo"
Akira... Obrigado.
No dia seguinte acordei e o café estava pronto, mas, ele não estava mais lá. Conferi o relógio e vi que ainda era cedo. Naquele dia tive dois tempos de aula com ele. Parecia frio, distante. Não me olhou nos olhos sequer uma vez. Entreguei minha redação e fiquei diante dele aguardando algum comentário. O que recebi foi um silêncio que me obrigou a ir sentar.
Ao final da aula, lá estava ele em uma sala de 3º ano, corrigindo provas. Eu precisava saber se estava mesmo me evitando. "Ele não sabe o trabalho que deu pra falar aquilo ontem a noite e é assim que me retribui?!Maldito homem de comercial de creme dental... Seu sorriso branco só faz parte do marketing??" E lá estava eu a pensar e fazer coisas idiotas novamente...
- Sensei! - abri a porta, interrompendo-o.
Seu sorriso fraco confirmava minhas teorias.
- Hikaru-kun! Como sabia que eu estava aqui?
- Bem, er... Me disseram.
- Precisa de algo?
Precisava pensar em alguma coisa rápido.
- É que, é que... Esqueci de pôr o nome na redação!!
Detalhe: Depois de três tempos de aula vou procurá-lo por causa disso sendo que eu moro com ele. Ele deve ter notado que foi uma desculpa mas não contestou. Eu peguei minha redação e vi que seus olhos estavam direcionados para o meu nome completo escrito no topo da folha. Eu fiquei sem graça e guardei o papel junto aos outros da minha turma.
- Acho que me enganei.
- Não é esse o motivo por ter vindo aqui, é?
Corei.
- Bem, eu... Vim saber se estava tudo bem
- O que acha?
- Parece bem. Então tá, eu vou indo - ando até a porta, ela é fechada diante dos meus olhos.
- Nós dois sabemos que não.
- Eu vou deixar você terminar o seu trabalho. Agora deixa eu ir.
- Não até conversarmos - encarou-me sério.
- Foi você que me evitou o dia todo, não foi? Então por que quer conversar agora? - explodi de raiva.
- Hikaru!
- Se não se interessa por mim, por que me beijou ontem? Por que me deixou ter esperanças? Por que fez com que eu tivesse certeza dos meus sentimentos por você? Por acaso você é idiota?? - o mirei com ódio - Eu tô cansado disso.
- Lembra que disse que um professor e um aluno não podem ter esse tipo de relação? Não é que eu não esteja interessado por você, mas, sabemos o quanto isso é errado. Eu não queria te machucar, só me deixei levar pelos meus "instintos".
- O que quer que eu faça?
- O que VOCÊ quer que eu faça Hikaru-kun?
Parei por uns instantes.
- Só quero poder não me preocupar e confiar no meu professor. Pode resolver isso, sensei?
Ele sorriu.
- Vamos ver se aprendeu a lição. Quando seus instintos dizem pra fazer algo... - dizia enquanto se aproximava
- Você... Deve fazer?
Aproximava-se de mim até me deixar sem saída. Enquanto uma das mãos prendia a porta, a outra se ocupava tocando meu rosto.
- Correto.
Por fim pôs seus lábios junto aos meus. Invadiu-me com paixão e eu correspondi. As palavras de Akira, vieram como um turbilhão de sensações que faziam parte da minha "nova vida". Mas mal podia esperar que o beijo dele não seria a única sensação que eu sentiria.
Com a insuficiência de ar, nos separamos. Ele então segurou meu braço e repousou a cabeça em meu pescoço, beijando-o, chupando-o. Eu não precisava pensar em como reagir, pois meu corpo agia naturalmente. Minha cabeça encostou-se à porta e lembrei-me de onde estávamos
- Sensei, estamos na escola.
Mesmo falando aquilo, pouco me importava as coisas ao meu redor.
- Não tem mais ninguém aqui. Não se preocupe.
O afastei para beijá-lo novamente. Tirou a mão que prendia a porta para acariciar meu corpo, percorrendo-o delicadamente, me causando arrepios. Colocou então as mãos por dentro do meu uniforme. Desesperei.
- Sensei, o que está fazendo? - tentando conter as emoções.
Ele respondeu com um sorriso malicioso. Sorri de volta, involuntariamente.
- Irei até onde desejares.
No começo entendi como uma declaração, mas, ao vê-lo abrindo minha calça vi suas verdadeiras intenções com aquela frase.
- SENSEI!
- Não se preocupe. Não causaria nenhuma dor à você. A não ser que me peça - sorri de novo.
Antes que eu dissesse algo, um gemido foi inevitável. Ele havia tocado ali, naquele lugar onde um homem é mais sensível.
- Não, o que está...? - antes que pudesse terminar a fala, senti sua mão apertando-me.
- Sensei!
- Está tudo bem...
"Apenas confie no seu professor" ele diria, como sempre diz. E continuou apertando até que não agüentei.
- Pare!
Aquela sensação dentro de mim era uma coisa inquietante. Precisava acabar com aquilo.
- Já chega, pare!
- Você procurou por isso, não? Quer que eu te dê atenção? Minha atenção é toda sua neste momento - sorriu.
Aquilo me assustou. O que diabos ele sentia por mim?! Aquela gentileza que me incomodava, surgindo em seu rosto com palavras desafiadoras. Definitivamente não gostava daquilo.
- Não! Não foi por isso! Pare!
Ele o fez, as mãos livres apoiaram-se nos meus ombros.
- O que quer de mim, Hikaru?
Baixei a cabeça.
- Eu, eu não sei...
Suspirou longamente.
- Vamos pra casa.
Ele era mesmo imprevisível, assim como eu. Fujimoto Hiroki, quanto mais convivemos, mais sinto a distância entre nós e é aí que minhas dúvidas me invadem.
Na volta pra casa permaneci de cabeça baixa, pensativo até que ele parou.
- Hikaru-kun?
Parei também.
- Gosta de sorvete?
Levantei a cabeça e vi um quiosque. Ele sorriu.
- Vamos! - segurou minha mão e levou-me até lá.
- Espere, eu...
- Ah vamos! Todo mundo gosta de sorvete, né?
- Mas...
- Se o problema é dinheiro, não se preocupe, eu pago um pra você - disse aproximando-se do meu rosto que logo enrubesceu.
Enquanto voltávamos, ele colocou a mão sobre a minha cabeça:
- Considere como um pedido de desculpas pelo dia de hoje. Espero que não sinta raiva de mim.
- Sensei...
Ele sorriu gentilmente. Sim, aquele era o professor de quem eu gostava. Droga, eu disse isso mesmo?!
- Obrigado.
- Não tem problema.
