Em todos os seus séculos de vida, Inglaterra não se lembrava de um dia ter dormido tão bem. Não havia tido nenhum pesadelo e, ainda por cima, se sentia tão confortável, onde quer que estivesse. Era quentinho... Mas o melhor de tudo era o cheiro, sem dúvida.
Ele conhecia aquele cheiro. Era-lhe familiar. Uma mistura de café com um pouco de pólvora e algum perfume no meio. Tão estranho e, de alguma forma, bom, que era impossível confundir. Era o cheiro de Alfred.
Alfred.
Hum...
Por que aquele lugar tinha o cheiro de Alfred?
A realização atingiu Arthur como um soco e ele se levantou depressa, os olhos arregalados de surpresa. Se alguém estivesse por perto certamente teria levado um susto. Ele olhou em volta, o ambiente já escuro começando a fazer sentido, assim como as lembranças que voltavam rapidamente.
Estava em Nova York, mais precisamente na casa de Alfred. Ele tinha ficado no sofá esperando o mais novo voltar. Estava cansado, com fome e... Tinha caído no sono.
Oh, meu Deus. Ele tinha dormido no sofá de Alfred!
Seu rosto começava a esquentar gradativamente, esperava começar a ouvir uma risada irritante ou alguma reclamação a seu respeito vinda de um americano próximo. Mas... Não aconteceu nada. Ele continuava sentado no escuro, envergonhado.
Arthur se encostou no sofá novamente, um pouco mais relaxado, e acabou por notar a única coisa pertencente à bagunça de lençóis e cobertores que não havia sido empurrada para o lado ou usada, sem querer, como assento. Um cobertor repousava em seu colo. O que era um bocado estranho, já que se não se lembrava de ter se embrenhado nas coisas de América antes de dormir.
Seus dedos agarraram o tecido ainda quente. Ele, na verdade... Tinha sentido algo em cima de seu corpo antes de sentar ou acordar totalmente. Sim, aquela coberta estava em cima de si há pouco tempo. Ele tinha sido coberto enquanto dormia.
Alfred, pensou Arthur, só pode ter sido ele. Não tem mais ninguém aqui. Mas por que? Ele tinha sido convidado e ainda por cima caiu no sono no meio de uma conversa – e em um sofá alheio! Não conseguia imaginar nenhum motivo plausível para isso, contudo um fato é um fato e ele fora coberto por Alfred.
Sentiu um calor engraçado se espalhar pelo seu rosto, mais uma vez. E dessa vez, não o do tipo que espelha receio, medo de ser feito de piada e essas coisas. Era mais como... Uma vergonha feliz, boba. O tipo de coisa que ele não queria sentir. Fuck... Tinha que ir embora o mais rápido possível antes que as coisas piorassem.
Levantou-se do sofá, sentindo-se incrivelmente bem e leve. Nenhum sinal da antiga exaustão ou estresse ainda estava presente em seu corpo. Era como se tivesse reposto uma semana inteira de sono. O que o deixou bem preocupado. Afinal, quanto tempo será que tinha dormido?
Agradeceu aos céus ao se dar conta de que seu celular continuava com bateria, e xingou baixinho ao se dar conta que já passavam das cinco da tarde. Tinha passado quase dez horas dormindo. Em um sofá! Que tipo de pessoa fazia uma coisa dessas? Duvidava até mesmo que Grécia fizesse isso na casa de outras pessoas.
Precisava se desculpar com América.
- Alfred? – chamou. No entanto, não houve resposta.
Ele tentou de novo, e de novo. Cada vez mais alto enquanto se dispunha a caminhar pela casa em busca do outro. Mas não havia nada. Tudo permanecia incomodamente quieto e vazio para o apartamento de Alfred. O que deixava óbvia a situação: O mais novo não estava ali.
- God, onde será que ele se meteu? – pensou alto.
Andando um pouco sem rumo, Arthur voltou para a sala e os novos itens na sala atraíram sua atenção. Não tinha conseguido ver antes, porém a mesa agora estava bem menos vazia desde antes de dormir.
As rosas agora jaziam dentro de uma jarra com água, assim como tinha dito para Alfred fazer – se bem que, agora, repensando o assunto já acordado, preferia que ele as tivesse deixado murchar, imediatamente Arthur se recriminou pela ideia mesquinha. Ao lado da jarra, havia uma xícara de chá, que há muito havia esfriado – a cada segundo a situação ficava mais constrangedora para o seu lado. Os itens restantes foram um bocado inesperados.
Havia também uma carteira, sua carteira. Alfred tinha, de alguma forma, a achado. Quanto tempo e trabalho será que aquilo havia lhe custado? E bem pertinho da carteira, um pedaço de papel que Arthur apanhou sem pensar duas vezes. Era um bilhete deixado por América.
O início estava rabiscado, como se o loiro tivesse repensado no que iria escrever. E então o resto seguia bem direto:
Espero que tenha dormido bem. Vamos jantar?
Você me deve, graças ao chá ):
Estou te esperando no restaurante às 19:00
O endereço está no verso
Se arrume!
- The Hero ;D
A palavra restaurante estava grifada, como se para dar a entender ao britânico de que não, não estavam falando de um bar, ou uma lanchonete, mas sim de umrestaurante. Isso só serviu para aumentar o maldito rubor que havia retornado ao rosto de Arthur. Ele releu o bilhete várias vezes, cada uma mais incrédulo do que antes. Jantar? Ele tinha que voltar para a Inglaterra! Okay, ele não tinha exatamente que voltar, tinha ganhado uma semana de férias para se recuperar do estresse e fora despachado para a América... Contudo, também não podia simplesmente continuar na casa de Alfred! Se bem que... Ele não pareceu muito incomodado com aquilo no bilhete ou de manhã.
Arthur sentiu uma ansiedade conhecida tomar conta de seu corpo. O que, a seu ver, era bem idiota. No final das contas, era óbvio que seria algo de amigos, e o restaurante nem deveria ser aquelas coisas. Um exagero comum vindo do americano. E, pensando bem, se era assim tão simples... Não haveria mal algum em ir e passar um tempo com Alfred, como seu chefe havia sugerido. Como uma despedida, já que no dia seguinte voltaria para a Inglaterra, claro. Além do mais, podia ter se recuperado da fadiga, mas continuava faminto.
Concordando com a própria ideia, virou o bilhete e leu o endereço sem pressa antes de guarda-lo novamente no bolso. Tinha tempo de sobra para se arrumar – será que Alfred ficaria chateado se usasse o chuveiro?
(...)
Arthur e Alfred já haviam saído juntos muitas vezes. Era, para dizer a verdade, bastante normal. Ocorria principalmente após as reuniões mundiais ou durante as férias. Iam ao cinema, tomavam algumas bebidas no bar – que o americano preferia evitar, graças à fama do britânico -, jantavam, almoçavam, caminhavam pela cidade... América até mesmo já havia convencido Inglaterra a ir a uma boate!
De qualquer forma, iam sempre a lugares casuais, sem nada de especial.
Todas essas vezes era Arthur quem sempre chegava no horário combinado – a famosa pontualidade inglesa, afinal. Claro, não se podia dizer o mesmo de Alfred. Ele tinha a péssima reputação de chegar sempre, no mínimo, dez minutos atrasado.
Então, graças a esses fatos, pode-se dizer que Inglaterra estava um bocado surpreso. Ele olhou do papel em suas mãos até o prédio visível através da janela do carro, estupefato.
- Tem certeza de que é o lugar certo? – arriscou.
O taxista afirmou pela terceira vez, perdendo a paciência. E Arthur, resignado, pagou pela viagem e desceu do veículo.
O britânico passou alguns bons segundos admirando, abobado, a construção que se erguia à sua frente. Aquilo era um maldito restaurante três estrelas. Não era um McDonalds, um Starbucks ou uma das lanchonetes baratas que os dois costumavam ir quando estavam no Estados Unidos. Não, claro que não era. O dia de Arthur tinha que ficar mais estranho, óbvio. Não poderia terminar calma e normalmente.
Pelo menos tinha a sorte de andar bem arrumado.
Suspirando e tendo completa certeza de que estava no lugar errado, Arthur entrou. Ainda um pouco atordoado pela surpresa, foi em direção a um homem impecavelmente vestido que se encontrava atrás de um balcão na entrada do restaurante. O maître.
- Boa noite, senhor. Em que posso ajuda-lo? – cumprimentou o homem.
- Ah... Eu vim encontrar alguém. Acho que tem uma reserva no nome do meu acompanhante. – Claro que Alfred chegaria atrasado fazendo sabe-se lá o que, já que nem em casa estava. Porém ele não deveria ser idiota a ponto de deixar Arthur plantado em um restaurante três estrelas sem nem ao menos ter uma reserva. Isso, obviamente, levando em conta o fato de que Inglaterra deveria estar no local certo. – Tente Alfred Jones ou Alfred F. Jones.
O maître ergueu elegantemente uma sobrancelha diante do 'acho' e folheou o livro de registros à sua frente depressa. Seus olhos buscando com rapidez por entre os nomes até parar e acenar positivamente.
- Sim, temos uma reserva com esse nome. Vou pedir para um garçom leva-lo até a mesa.
Então aquele era mesmo o lugar certo...
- Obrigado.
Arthur sequer teve de esperar. Em poucos segundos outro homem já estava ao seu lado, pedindo para acompanha-lo até a mesa reservada. O resto do restaurante era tão elegante quanto a recepção. Lustres, paredes claras, mesas bem organizadas e quadros faziam jus às estrelas do local. E apesar de todo aquele toque francês irritante que o lembrava constantemente de Francis, Arthur admitiu que era um lugar bastante agradável e funcional. E isso só o fazia estranhar a situação ainda mais. Pois nunca, em toda a sua vida, poderia imaginar que Alfred o levaria a um lugar desses.
Inglaterra teve seus breves devaneios interrompidos assim que chegou a mesa indicada pelo garçom. Ela estava encostada a uma das paredes e era pequena, só o suficiente para duas pessoas. Na parede atrás dela, um grande relógio acabava de marcar sete e cinco. O loiro ignorou tudo isso já que o mais importante, com certeza, era o americano sorridente sentado.
Alfred havia chegado antes de Arthur. Alfred. Porém, ao invés de se sentir ofendido, o britânico se aliviou, pois não estava nada empolgado com ter que esperar o outro por meia hora em um restaurante tão refinado e cheio - porque, Deus, o lugar estava entupido!
Agradecendo o garçom, Arthur puxou uma cadeira e sentou-se de frente para seu acompanhante.
- Você está atrasado. – Alfred foi o primeiro a iniciar a conversa. – Estranho.
- E você, adiantado. O que é ainda mais estranho.
Por algum motivo, os dois riram baixinho.
- Então, como você está depois de dormir o dia inteiro no meu sofá? - América tinha um sorriso malicioso estampado no rosto, como quem diz "Você realmente achou que eu não ia tocar no assunto?".
Arthur franziu as sobrancelhas e tentou camuflar o constrangimento.
- Horrível, seu sofá é duro e cheio de calombos. Eu preferiria ter ficado no chão. – mentiu.
- Ahhh? Você não parecia tão incomodado enquanto babava nas minhas cobertas.
- What? N-não diga besteiras! Eu não babei em nada, idiota. – gaguejou.
Eles tiveram a pequena discussão interrompida pelo garçom de antes, que agora estendia os cardápios – que foram muito bem aceitos pelos loiros. Arthur passou os olhos por todos aqueles pratos e se sentiu salivar, a fome cada vez mais presente dentro de si. Ele escolheu qualquer coisa sem pensar muito e, tentando não parecer apressado, deixou o cardápio de lado e voltou a sua conversa com o americano.
- Achei que iríamos a uma lanchonete. – comentou o britânico. – Não me parece a sua cara vir a lugares como esse.
Em resposta, Alfred deu de ombros.
- Meu chefe que reservou pra mim. Acho que era pra ser como algum tipo de recompensa pelo trabalho. Mas... Eu não queria ficar aqui sozinho. Seria muito bizarro. – riu. – Então você brotou em Nova York e eu decidi te trazer. Uma boa oportunidade.
- Eu não "brotei" na sua cidade. – revirou os olhos. – Eu fui convidado, pelo meu chefe. Uma recompensa também. O problema é que as coisas não saíram como eu ou ele esperávamos. – Arthur confessou. Ele não precisava contar o resto. Sobre como tentou evitar encontrá-lo a todo custo, ou como se perdeu e estava esgotado... – Aliás, como você soube? Da carteira no avião. – explicou.
- Liguei pro seu chefe. Ele disse que você tinha levado a carteira, aparentemente. E você não estaria parado no meio da rua se tivesse dinheiro pra um táxi. E nem tinha como pegar o voo sem os documentos. Só tive que juntar os pontos e falar com algumas pessoas. – Muitos poderiam não perceber, mas debaixo daquela capa de criança hiperativa egocêntrica, América era assustadoramente inteligente. Não só naquelas pequenas coisas, também em ciências e matemáticas em geral. Nenhum outro país chegaria tão longe sendo um idiota, no final das contas. E Inglaterra sabia disso muito bem. O único problema era que a nação mais nova era incrivelmente preguiçosa na maior parte do tempo.
- Hum... Eu... Obrigado, de qualquer forma. E... Obrigado também por não se chatear pelo incidente do sofá.
Por alguns segundos, Arthur observou incomodado os olhos azuis de Alfred se abrirem em espanto. Era impossível saber o que passava na cabeça do homem naquelas horas. Todavia, a resposta que recebeu foi bastante previsível:
- Há! Não precisa agradecer. É isso que um hero faz! Ele acolhe e ajuda os necessitados. – E foi seguido por mais uma daquelas risadas hiperativas tão características.
- Eu não sou um necessitado, git. – bufou.
Todo o jantar percorreu mais ou menos daquela forma. Conversas a parte sobre uma coisa ou outra, pequenas e idiotas discussões, implicâncias, risos... E, foi somente após os pratos chegarem que Arthur finalmente se deu conta do que estava acontecendo. Ele estava jantando com Alfred em uma mesa bastante privada de um restaurante três estrelas. E olhando bem, só haviam casais ali! Era quase como um... encontro.
A palavra pinicou a mente do loiro por vários minutos, deixando-o desconfortável. Pois ele sabia que não era bem assim. Alfred só não queria desperdiçar as reservar de seu chefe e, ainda por cima, deveria ter uma namorada – o maldito buque novamente. Estavam ali como amigos e só. Por mais que Arthur quisesse, não havia chance de Alfred levá-lo ali – ou a outro lugar - com qualquer interesse romântico. Então, engolindo a dura verdade junto com uma garfada de sua comida, continuou seguindo a noite como se nada tivesse acontecido.
Depois de mais algum tempo de conversa fiada, eles pediram a sobremesa. Muitas pessoas já haviam partido e outras, poucas, chegado. O relógio há muito tempo marcava algo em torno de dez e meia. E mesmo assim nenhum dos dois tinha pressa. Afinal, para que tê-la? Estavam em Nova York- de noite ainda por cima -, eram humanamente jovens e, como nações, tinham todo o tempo do mundo.
- Por quanto tempo você vai ficar, Artie? – perguntou Alfred mudando de assunto.
- Não me chame assim, git. – reclamou Arthur. – Pelo que meu chefe disse... Eu tenho uma semana de férias, mais ou menos. Mas pretendo voltar para o Reino Unido amanhã de manhã.
- What? Why? – surpreendeu-se. – A minha cidade não é boa o suficiente pra você? – ironizou, enquanto emburrava como uma criança.
Arthur deixou um riso escapar. Alfred era tão mimado.
O inglês só não percebeu que aquela pequena risada amenizou consideravelmente a carranca de seu acompanhante.
- Eu só... Quero voltar, sabe. Não tem sentido eu passar uma semana aqui em um hotel, quando poderia estar descansado na minha casa.
- Por isso você pode ficar na minha casa. – respondeu América como se fosse a coisa mais óbvia no universo.
- Não seja idiota. Por que ficaria na sua casa?
- Porque eu estou pedindo.
Diante daquela frase dita com tanta certeza e sem o costumeiro tom infantil, Arthur vacilou. Alfred estava falando sério. Inglaterra encarou os olhos azuis claros que cintilavam firmemente por detrás dos óculos e realmente, realmente ponderou o pedido. Era sempre assim. Sempre pensava nas coisas mais absurdas quando se tratava do americano.
- Eu... – Porém se calou. O que Arthur diria? Que não, aquilo estava fora de questão, que estava com medo de ter mais uma maldita recaída graças à sua paixão por Alfred durante aquele tempo? Ou que sim, claro, uma parte sua não estava a fim de ficar trancada sozinha quando podia estar com o outro loiro? Alfred era, acima de seu "amor secreto", seu amigo, não é?
- É um sim, certo? Porque nenhuma daquelas suas palhaçadas de gentleman vão servir como desculpa. Você já dormiu no meu sofá, mais alguns dias no quarto de hóspedes não vão fazer diferença! – insistiu. – Vamos lá, Artie. Daqui a pouco é Halloween e você vai ter que voltar pra festa de qualquer forma. Se ficar vai ter a honra de poder ajudar o hero!
Enquanto falava, Alfred escorregava sua mão por cima da mesa ate alcançar a de Arthur – que descasava sobre o guardanapo -, ele entrelaçou seus dedos e se inclinou um pouco, olhando mais intensamente para seu acompanhante. Parecia até fazer de propósito.
Pura covardia, pensou Inglaterra, se diz um herói e me dá um golpe baixo desses.
Com a mão livre, Arthur apanhou o copo de água e tomou um grande gole, tentando parecer controlado. Sua boca tinha ficado tão seca de repente. Sabia que seu rosto se coloria de vermelho - uma linha larga que ia das bochechas as orelhas. E, para coroar, seu coração tinha decidido se sacudir com força em uma tentativa de escapar de seu peito – ou fazer o americano ouvir de tão alto que batia. Segurava-se com todas as forças para não retribuir o aperto ou retirar a mão.
Ele não podia com aquilo.
- O que me diz, Arthur? - Os dedos quentes e longos apertaram ainda mais os do britânico. E o mesmo, vendo todas as suas barreiras sendo violentamente destruídas, deu o veredito final:
- Certo, eu fico.
Como desejava ter dado outra resposta.
