*Nick Wilde e os vizinhos xeretas*
Era início de noite, e Nick e seu novo e gigantesco – e chifrudo – parceiro, o oficial McHorn, davam por encerrada uma patrulha bastante tranquila no centro de Zootopia e já seguiam de volta para o DPZ quando, de repente, o celular da raposa começou a vibrar incessantemente no bolso do seu uniforme.
— Mas quem diria — Comentou Nick, sorrindo ao ver o visor do aparelho. — Os pais da Cenourinha! Aposto que ela já está chorando com saudades de mim. Aquela coelha é muito emotiva para o seu próprio bem. Mas também, não posso culpá-la por estar triste... ...eu sou um parceiro tão bom!
Ele riu antes de atender o aparelho, e McHorn grunhiu alguma coisa ao volante e bufou baixinho e impacientemente, olhando de esguelha para a convencida raposa.
— Senhor e senhora Hopps! — Exclamou ao aceitar a chamada de vídeo e ver os dois coelhos surgirem na tela do celular. — Como está a minha cara Judy? Espero que ela tenha chegado bem.
Na tela, Nick viu os dois coelhos trocarem olhares incertos e temerosos, e foi naquele momento que o policial percebeu que havia algo de errado ali.
Seu sorriso estremeceu e murchou rapidinho.
— Nicholas, querido — Bonnie Hopps falou, sua voz ligeiramente trêmula. — É por causa disso que ligamos. Judy nos disse ontem que deixaria Zootopia hoje de manhã, no primeiro horário de trem... ...e, bem, ela deveria ter chegado aqui na fazenda antes do meio-dia. Só que já é de noite e ela não chegou ainda.
— Já ligamos para ela mais de trinta vezes — Stu, o pai de Judy, começou a falar, sua voz deixando transparecer tanto nervosismo que Nick chegou a sentir o próprio coração acelerar. — Mas ela não nos atende.
— Será que você não conseguiria falar com ela? — Bonnie tornou a dizer, seu focinho ocupando quase todo o visor do celular de Nick. — Por favor, Nicholas! Se alguma coisa aconteceu e ela precisou perder o trem ou se achou melhor vir outro dia, eu imploro que a encontre e que peça a ela para nos dar notícias. Estamos muito preocupados e não gostamos de ficar no escuro.
— Eu... — Nick balbuciou assim que os pais de Judy lhe deram espaço para responder.
Para alguém que sempre costumava ter uma resposta preparadíssima na ponta da língua, a raposa, agora, não tinha ideia do que dizer aos pais de Judy, pois, para ele, a oficial já estava a quilômetros e mais quilômetros de Zootopia.
Só que, aparentemente, ela não estava.
E Nick sabia melhor do que ninguém que sumir daquele jeito, sem nem dar notícias aos próprios pais, deixando-os mortos de preocupação, não fazia nada o estilo de Judy Hopps.
Algo ali, com toda a certeza do mundo, estava muito, muito errado.
— Eu... humm... vou falar sim com aquela coelha boba — Tentou sorrir para mostrar confiança, mas o cantinho dos seus lábios oscilaram precariamente. — Podem deixar comigo. Assim que a vir vou ligar para vocês.
Na tela do celular, os dois coelhos suspiraram aliviados, alheios à aflição que o policial experimentava.
— Muito obrigada, Nicholas! — Exclamou Bonnie, mais calma. — Estaríamos perdidos se não fosse por você.
As bochechas do policial ficaram coradas. Ele podia ser uma raposa bem convencida, mas sempre se envergonhava diante de um elogio ou agradecimento sincero.
— Ei, que isso, senhora Hopps — Respondeu, bem tímido. — A gente faz o que pode, né?
Eles trocaram mais algumas palavras antes de se despedirem e, quando encerrou a chamada, percebeu que McHorn tinha parado o carro no acostamento e o encarava com olhos estreitos.
— O que foi que a Hopps aprontou? — Indagou o rinoceronte, e Nick ergueu uma pata, pedindo silêncio, e colocou o celular no ouvido ao terminar de ligar para a coelha.
O telefone chamou até cair.
— Ela já deveria ter chegado há horas nas Tocas — Murmurou, guardando o celular no bolso do uniforme. — Mas não chegou. E também não está atendendo o celular.
McHorn fez que sim, entendendo a situação.
— Quer dar uma passada na casa dela e descobrir o que está acontecendo? — Sugeriu o enorme policial, e Nick precisou se conter para não abraçá-lo.
— E se quero! Vamos lá, parceiro.
~Zootopia~
Os dois policiais chegaram ao prédio onde Judy morava quase quinze depois da ligação aflita dos pais da coelha.
Nick estava prestes a apertar o interfone, quando sentiu a pata de McHorn em seu ombro e parou abruptamente para encarar o rinoceronte.
— O portão não está trancado. Vamos subir logo e ver o que deu em Hopps — Murmurou o oficial, empurrando o portão de metal e puxando a raposa para dentro do prédio.
Subiram alguns lances de escadas e, assim que pararam na frente da porta do minúsculo apartamento onde a coelha morava, Nick a chamou.
— Cenourinha, você está aí? — Perguntou e bateu na porta algumas vezes. Quando apenas o silêncio o respondeu, chamou mais uma vez. — Judy, seus pais estão malucos atrás de você. Por que não os atende? Tá de mal com os velhos, sua coelha boba? — Novamente, esperou por uma resposta, contudo, continuou sem obter resposta alguma. — Será que ela não está? — Perguntou a McHorn, e o rinoceronte apertou os olhos ao fitar a porta.
— Oficial Hopps! — Ele bradou e socou a porta com as costas da pata, o barulho alto dos socos ecoando pelo corredor daquele andar. — Se está aí, abra logo a porta! Caso contrário, vou ter que derrubá-la!
Nick arregalou os olhos e engoliu em seco.
— Epa, chifrudão! Vamos com calma, tá? Sei que não vamos precisar chegar a tanto — Tentou amansar o nervoso rinoceronte e, sem querer, apoiou o cotovelo na maçaneta.
Que acabou girando... e a porta se abriu no mesmo instante.
— Viu? — A raposa soltou uma risada nervosa. — Eu não disse? Nada de portas arrombadas por enquanto, tá?!
McHorn lançou-lhe um olhar cheio de tédio e marchou para dentro do pequeno apartamento, que se resumia a um quarto e um banheiro.
— Estranho — Murmurou o policial enquanto observava o quarto vazio, e Nick concordou prontamente com a opinião do novo parceiro.
Tudo ali era muito estranho, a começar pela ausência de Judy.
O que quer que acontecera a ela, aconteceu no momento em que a coelha arrumava suas coisas para a viagem, Nick pensou, pois a mala ainda estava sobre a cama, assim como algumas roupas e toalhas dobradas. A carteira, com documentos e dinheiro, e a passagem de trem estavam jogadas sobre a mesa e o celular estava conectado ao carregador.
E Nick sabia que Judy não se afastava daquele celular nem mesmo para ir ao banheiro.
— Trinta e sete chamadas perdidas — Wilde murmurou ao analisar o celular da parceira. — Pelo visto o pai dela não estava exagerando quando disse que tinha ligado mais de trinta vezes para a Cenourinha. A primeira ligação foi feita logo no início da manhã, e a última há cerca de meia hora. Droga, Judy! Onde foi que você se meteu? — Ele se perguntou e se sobressaltou ao escutar, de repente, o barulho muito alto de vozes.
— O que é isso? — Indagou McHorn, e Nick apontou para a parede com o focinho.
— Não ligue. São só os vizinhos. As paredes aqui são finas feito papel — Disse a raposa e não tardou a arregalar os olhos ao ter uma súbita ideia. — Finas feito papel... mas é isso! Talvez os vizinhos tenham escutado alguma coisa. Eles podem saber o que foi que aconteceu e para onde Judy foi.
McHorn anuiu e logo saiu do quarto. Parando de frente para o apartamento vizinho, começou a esmurrar a porta.
— Ei, o que você pensa que está fazendo? — Perguntou o antílope magrelo e bastante irritado que o recebeu. — Tá doidão? Vai quebrar a porta desse jeito.
— DPZ — Foi tudo o que McHorn disse antes de esfregar o distintivo da polícia no focinho do antílope. — Temos perguntas.
— DPZ? — O mamífero perguntou, confuso, e uma fração de segundo depois, um outro antílope, igualmente magrelo e mal-encarado, surgiu à porta. — O que vocês querem com a gente? Não fizemos nada errado.
Nick suspirou fundo e ergueu a cabeça para encarar as duas possíveis testemunhas.
— Estamos aqui por causa da sua vizinha, a oficial Judy Hopps — Esclareceu a raposa. — Ela desapareceu em algum momento entre ontem a noite e hoje de manhã. Só queremos saber se vocês, por acaso, não ouviram alguma coisa que possa explicar o súbito sumiço dela. Até onde sabemos, o último lugar onde ela esteve foi aqui, no próprio apartamento.
Os antílopes se entreolharam brevemente.
— Não sabemos de nada. Vão embora!
Os dois mamíferos empurraram a porta para batê-la no focinho dos policiais, mas foram impedidos por McHorn, que usou sua pata cascuda e dura para bloquear o caminho da porta.
— Vocês podem responder as nossas perguntas aqui mesmo — Grunhiu o rinoceronte, bufando ameaçadoramente. — ou podem respondê-las na delegacia. Vocês que sabem.
— Nossa — Sussurrou Nick, impressionado — Isso é que é ser intimidador! — Depois, tornou a encarar os antílopes, que, a julgar pelas caretas de susto, estavam mesmo bem intimidados. — Então, vizinhos, como vai ser? Vocês ouviram meu parceiro chifrudo... ...podem ser bem camaradas e responderem nossas perguntas aqui, ou vamos ter que levá-los até o DPZ, e isso vai ser bem chato, não acham? Ainda mais se a dona Dharma ver dois dos seus inquilinos sendo levados pela polícia. O que será que ela vai pensar de vocês?
— Nós não ouvimos nada — Respondeu um dos antílopes. — Eu juro. Não sabemos nada sobre a coelha.
— Err... Na verdade, — Murmurou o outro, um pouco acanhado, mal saindo de trás da porta. — o meu irmão pode não ter ouvido nada, mas... acho que eu ouvi alguma coisa sim. Só não sei se isso vai ajudá-los. É uma bobeira. Sério.
McHorn e Wilde deram de ombros e pediram que o antílope prosseguisse. Para quem não tinha informação alguma sobre o que tinha acontecido com Judy Hopps, qualquer informação, por mais vaga que fosse, poderia ajudá-los a começar a entender o que tinha se passado com a coelha.
— O que você ouviu? — Pediu a raposa, apertando o botão da caneta-gravador em formato de cenoura que tinha pegado no apartamento de Judy.
O mamífero hesitou um pouco antes de começar a falar.
— Eu acordei no meio da noite ao ouvir alguém bater à porta... ...achei que tinha sido aqui, mas depois percebi que tinha sido no apê vizinho. O da coelha ali.
— E quem era? — Apressou McHorn, e o antílope ficou na defensiva.
— E como é eu vou saber? Não saí pra ver quem era que estava batendo na porta dela. Só escutei quando ela o atendeu. Ficaram um tempão de conversa fiada, aqueles dois. Pelo que entendi, era um morador novo, um cara chamado Sam, que tinha se mudado há pouco tempo aqui para o prédio. Parece que a lâmpada do apê dele tinha pifado, e ele queria saber se a vizinha não tinha uma lanterna ou outra coisa pra emprestar. Acho que foi isso.
— E o que aconteceu depois? — Perguntou Nick.
— Ela disse que poderia ajudá-lo, e eu acho que deve ter entrado para pegar a lanterna. E pronto. Acabou.
As orelhas da raposa caíram.
— Acabou? Mas é só isso? Não ouviu nada mais? — Pediu ele, ávido por mais informações. — Você tem certeza de que acabou por aí? Eles não falaram mais nada? E esse Sam? Qual o apartamento dele?
O antílope coçou o chifre.
— Eu não sei não qual é o apê do bicho. Não sabia sem que tinha apê disponível pra alugar. E... é, é, foi só isso mesmo o que eu ouvi. Mas sabe de uma coisa? Agora que estou pensando melhor no assunto, tô achando bem estranho...
— Por que diz isso? — O oficial McHorn indagou.
— Porque eles estavam conversando bastante, sabe? Aquela coelha é bem tagarela. Ela fala até dar nó na língua — Nick assentiu e abafou uma risadinha ao ouvir as palavras do antílope, porque Judy era mesmo muito tagarela e adorava conversar.
Sobre tudo.
E com qualquer um.
— E aí, do nada, eles ficaram quietos — Prosseguiu a testemunha. — Não ouvi nenhum agradecimento, nenhuma despedida. Eu só ouvi a coelha falar alguma coisa sobre ele não precisar soar tão formal com ela e, de repente, não ouvi mais nada. Nem um barulho sequer. Vocês também não acham isso estranho, oficiais?
Nem Nick e nem McHorn o responderam. Assim que terminaram de tomar notas sobre o que o antílope tinha falado, liberaram os dois mamíferos, que bateram a porta com tudo no focinho dos oficiais, e trocaram olhares entendedores e muito preocupados.
— Hein, McHorn — Nick falou baixinho e já sentindo algo muito, muito ruim contorcer-se em seu peito.
Pensou no apartamento vazio de Judy, na mala por fazer, na carteira e na passagem jogadas sobre a mesa, no celular ainda plugado ao carregador e na porta sem trancar. E Judy não era o tipo de mamífero que deixava as coisas assim; ela era meticulosa, obsessiva compulsiva e cheia de manias. Não, não, alguma coisa tinha acontecido a ela. Alguma coisa ruim, Nick desconfiava, bem como desconfiava de que esse tal de Sam estava, de alguma forma, ligado ao desaparecimento da sua parceira.
— O que acha da gente ir trocar uma ideia com a dona Dharma, a tatu dona do prédio? Ela deve saber mais sobre esse "novo vizinho".
McHorn anuiu enquanto levava o seu comunicador da polícia próximo à boca.
— Boa ideia. Esse cara está me cheirando a encrenca. Mas antes, vou ligar para o chefe.
A raposa arregalou os olhos verdes.
— Para o chefe? Por quê?
O rinoceronte o fitou com algo que se assemelhava a pena, e Nick sentiu no mesmo instante aquele algo ruim que se contorcia em seu peito triplicar de tamanho e de peso, aumentando tanto, mas tanto que a raposa não sabia como não acabou sufocando.
— Sinto muito, Nick. Mas algo me diz que a sua parceira acabou de entrar para a lista das coelhas desaparecidas. Assim como algo me diz que achamos a nossa primeira pista sobre o suspeito.
