CAPÍTULO III

Rony escolheu um restaurante movimentado no bairro francês, por acreditar que as pessoas se abrem com mais facilidade quando protegidas pelo barulho que vem das outras mesas. Sentira desde o início que, enquanto Gina Wright depositava toda a sua confiança em Hermione, encarava com um certo receio a presença dele num assunto tão delicado. Ele decidiu então deixar que Hermione tomasse as rédeas naqueles primeiros momentos.

Procurou, todavia, ser amigo e simpático, ouvindo atentamente cada palavra e analisando cada gesto, sempre com um sorriso de compreensão nos lábios. Afinal, aquilo não estava sendo fácil para a pobre moça e, ao que tudo indicava, a ferida não se cicatrizaria tão cedo.

Rony olhou para Hermione e sorriu. Ela já havia falado bastante, ele a deixara à vontade para interrogar Gina Wright. Agora, no entanto, era a vez dele.

— Sua irmã morreu há um mês, Gina — observou, quando as duas fizeram uma pausa. — Por que esperou tanto tempo para trazer à tona a sua versão sobre os fatos?

Ela não respondeu, limitando-se a baixar os olhos para o prato, que, naqueles vinte minutos, mal fora tocado. Hermione encontrou o olhar de Rony e então, voltando-se para Gina, tocou-lhe o braço.

— Nós só estamos querendo ajudá-la.

— Eu sei, Hermione, mas tudo isso é tão difícil para mim... — Respirou fundo e ergueu a cabeça. — Eu detesto admitir, mas a verdade é que, até agora, me mantive à parte. Desde que Anne... desde que Anne morreu, eu deixei de atender o telefone e fiquei fechada no meu apartamento, completamente isolada do mundo. Perdi o meu emprego. — Mordeu o lábio, fez cara de choro, mas foi adiante, com voz embargada: — O pior de tudo é que nem ao menos tive coragem de comparecer ao enterro. Hoje eu vejo que estava fugindo da realidade. Queria fingir que nada daquilo havia acontecido, que Anne estava bem, feliz com o casamento e cheia de planos para o futuro. — Fez uma pausa, enxugou os olhos e prosseguiu: — Há uma semana resolvi tomar uma atitude. O choque inicial havia passado e comecei a reler as cartas. Não fazia sentido, nada daquilo fazia sentido, vocês me entendem? Anne mencionou várias vezes que o pântano era o único senão daquele paraíso em que ela vivia. Deus, se vocês a conhecessem, concordariam em que ela jamais pisaria lá, principalmente à noite. O pavor que Anne sentia da escuridão chegava a ser uma fobia. — Olhou para Rony como quem pede compreensão. — Alguém a levou até o pântano, Sr. Weasley. Ela foi assassinada.

— Mas por quê? — Ele se inclinou para a frente, franzindo a testa. — Por que alguém mataria sua irmã?

— Não sei. — Cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar. — Simplesmente não sei — repetiu com voz entrecortada.

— Eu cobri o inquérito. — Ronald tirou um cigarro do maço e acendeu-o. Não pretendia ser duro com Gina, mas era preciso pôr às claras cada detalhe, se quisessem levar adiante a hipótese do assassinato. — Durante o período em que esteve casada com Victor Krum, sua irmã praticamente não teve vida social. Segundo os empregados da casa, ambos viviam muito bem, sem brigas ou discussões, nem mesmo palavras ásperas. Os motivos básicos para um assassinato, ciúme, ganância, pare cem estar descartados. Que outras informações você poderia nos fornecer, Gina?

— Você ainda tem as cartas que ela lhe escreveu? — Hermione antecipou-se.

— Tenho. Deixei-as no hotel.— Rony apagou o cigarro.

— Então vamos para lá e dar uma olhada nelas.

Quando Gina pediu licença e ausentou-se por alguns instantes, Hermione chegou mais perto de Rony.

— O choque pode ter passado — murmurou — mas ela ainda não está com os pés no chão. Ronald, eu estou com uma suspeita.

— Você vive com suspeitas, Hermione. — Ela se afastou e franziu a testa.

— Que diabos você está querendo dizer com isso?

— Que nós devemos nos ater aos fatos. Precisamos ser objetivos.

— Eu sei — murmurou, pensativa. — Mas por um momento... Ah, esqueça.

O hotel ficava numa rua escura e sinistra, daquelas que se costumava evitar à noite, ou por onde se passa rapidamente, tendo o cuidado de olhar para trás de momento a momento. O quarto era minúsculo e bastante modesto. Gina sorriu como quem pede desculpas.

Foi o mais barato que consegui arranjar. — Rony sorriu também e procurou deixá-la à vontade.

— Você deveria ter visto o apartamento onde eu cresci.— Ela lhe lançou um olhar de agradecimento e relaxou visivelmente.

— Sentem-se, por favor — disse, estendendo o braço na direção da cama. — Eu vou pegar as cartas.

— De que parte de Nova York você veio, Ronald? — Hermione perguntou, depois de sentar-se na beirada da cama.

— De uma de que você nunca ouviu falar, aposto a minha cabeça nisso — respondeu, sentando-se ao lado dela.

— Eu já estive em Nova York diversas vezes. — E, usando de mais exatidão, admitiu: — Duas vezes.

Rony escancarou um sorriso. Com expressão divertida, foi logo adivinhando.

— Claro, você deve ter conhecido tudo: o Empire State Building, o Central Park, a Broadway.. .

Ela achou graça.

— Você é um presunçoso, não? Quando é que vai perder esse ar de superioridade?

Entretidos naquele diálogo bem-humorado, não repararam que Gina abria e fechava as gavetas, cada vez mais nervosa.

— Elas não estão aqui! — Jogou todas as roupas no chão e olhou para as gavetas vazias. — Meu Deus, e agora?

— O que você está dizendo? — Rony levantou-se e foi até ela

— As cartas desapareceram!

Imediatamente, Hermione começou a revirar as roupas caída no chão.

— Não é possível. Você deve tê-las guardado em outro lugar

— Não. Eu as deixei bem aqui. Onde mais poderia guardá-las? — Já estava à beira da histeria. — Eram doze cartas, e eu tenho certeza de que as deixei nesta primeira gaveta.

— Gina — a voz de Rony era fria —, você trouxe mesmo essas cartas?

— Pelo amor de Deus, não estou louca! — gritou. — Ela estavam aqui, quando deixei o hotel hoje de manhã.

— Está bem. Fique calma. Vou ver se descubro alguma coisa na portaria.

Quando Rony fechou a porta, Gina começou a juntar as peças de roupa.

— Alguém esteve aqui — concluiu, esforçando-se para manter a cabeça fria. — Alguém interessado nas cartas de Anne.

— Você não está dando por falta de mais nada? — Hermione perguntou, enquanto dobrava uma blusa e a recolocava na gaveta.

— Não. — Com um suspiro desanimado, deixou cair a camiseta que segurava. — Não tenho nada de valor. Mas por que alguém estaria interessado naquelas cartas? Isso não faz o menor sentido.

— Calma, tudo a seu tempo. Não tire conclusões precipi tadas. Espere até que eu e Ronald iniciemos as investigações.

— De súbito, como que caindo em si, percebeu que havia ligado naturalmente o seu nome ao dele e não gostou nada disso. — Enquanto isso... — Recolheu apressadamente as roupas do chão. — Você sabe datilografar?

Sem entender o porquê de uma pergunta aparentemente tão fora de propósito, Gina franziu a testa e respondeu:

— Não tenho nenhum curso, mas me dou muito bem com uma máquina de escrever. Eu trabalho... trabalhava — corrigiu — como recepcionista num consultório médico.

— Ótimo. Onde está a sua mala? — Hermione perguntou, colo cando as peças de roupa sobre a cama.

— No armário. Mas. ..

— Eu tenho um lugar para você ficar, e um emprego. Você vai gostar, tenho certeza.

— Um emprego? Não estou entendendo.

— Minha avó mora numa casa afastada da cidade. Desde que eu e meu irmão nos mudamos de lá, ela tem se sentido muito só. — A mentira veio tão facilmente que ela própria se espantou.

— Eu não posso me instalar na casa da sua avó sem mais nem menos — Gina protestou.

— Mas é lá que você vai trabalhar — Hermione retrucou com um sorriso. — Há algum tempo, vovó vem falando em escrever suas memórias e já me convocou para datilografá-las. Desde então eu tenho fugido com mil e uma desculpas, porque ando atarefada demais. Posso garantir que você não vai se aborrecer, ela é uma mulher fantástica. Se eu tivesse tempo, adoraria fazer esse serviço. Como vê, Gina, você estará nos prestando um imenso favor.

— Por que você está fazendo isso por mim? — perguntou a outra, um tanto desconfiada. — Nem nos conhecemos direito...

— Eu gostei de você — Hermione explicou, com a maior simplicidade. — E sei que posso ajudá-la. Você precisa de trabalho e minha avó precisa de alguém que saiba datilografia. Por que complicar as coisas? Vamos, pegue a mala — ordenou, antes que Gina abrisse a boca para retrucar. — Enquanto você arruma as coisas, eu vou até a recepção para ver o que Rony conseguiu.

Saindo do quarto, Hermione viu que ele dobrava o corredor. Fechou a porta cuidadosamente e foi ao seu encontro com ar de interrogação.

— E então? — perguntou, ansiosa.

— Nada. — Encostando-se na parede, Rony acendeu um cigarro. — Não viram ninguém passar pela portaria. Também, pudera... Eu esperei mais de cinco minutos até que aparecesse o encarregado da recepção. Qualquer um poderia ter subido, nesse meio tempo. — Deu uma longa tragada e ficou olhando para o cigarro.

— Gina ainda não relacionou uma coisa à outra — Hermione disse, encostando-se na parede oposta. — Ela não está entendendo por que alguém teria interesse pelas cartas. Antes assim, coitada.

— Cuidado, Hermione — advertiu-a. — Você está bancando a superprotetora.

— Eu? — Olhou escandalizada para Rony. — Superprotetora? Estou usando o bom senso, isso sim. É melhor que Gina nem desconfie de que estão tentando impedi-la de desenterrar um caso aparentemente já solucionado. Só ficaria mais nervosa, e isso não nos ajudaria em nada.

— Onde está ela?

— No quarto, fazendo as malas.

— É bom que saia daqui o quanto antes — concordou ele. — Mas para onde ela vai?

Antevendo a reprovação, Hermione respondeu casualmente:

— Para a casa da minha avó.

— Já vi tudo — retrucou Rony , com um sorriso de superioridade.

— Quer parar com essas insinuações? Não sou nenhuma idiota para não perceber o que você está pensando. Em primeiro lugar, isso não significa que eu seja superprotetora ou que esteja começando a me envolver emocionalmente com o caso. Em segundo lugar, minha avó precisa de uma datilógrafa e Gina está sem emprego.

— Calma, não precisa ficar nervosa. — Jogou o cigarro no chão encardido e amassou-o com a ponta do sapato. — Prometo não fazer nenhum outro comentário. Nem mesmo sobre você ficar terrivelmente atraente quando zangada. — Antes que Hermione tivesse tempo de se refazer da surpresa, ele avisou: — Vou chamar um táxi. — E desceu a escada, deixando-a desnorteada.

"Se eu não tomar cuidado", pensou ela, ouvindo os degraus de madeira estalarem, "se eu não tomar muito, muito cuidado, vou acabar me apaixonando por esse presunçoso". Depois da quela conclusão pouco animadora, entrou no quarto, decidida a tirar Gina de lá o mais rápido possível.

Dez minutos depois, Gina seguia num táxi para a casa de Olívia Granger. Num outro táxi, Rony dizia a Hermione que não se preocupasse.

— Olívia vai distraí-la por um bom tempo — concluiu.

— Eu sei — Hermione concordou. — Estou pensando em outra coisa.

— Em quê?

— Na possibilidade de Anne Krum não ter ido àquele pântano por iniciativa própria.

— Prossiga — pediu ele, mostrando-se interessado.

— Deve ter havido alguma razão — continuou. — A hipótese de um encontro com um amante me parece improvável, pelo testemunho dos empregados da casa e da própria Gina. Anne vivia bem com o marido.

— Voltamos à estaca zero, o que automaticamente nos remete à hipótese que Gina levantou. Mas, supondo-se que ela tenha sido assassinada... — Rony fez uma pausa e refletiu por alguns instantes. — Quais seriam os suspeitos? Quem estaria interessado na morte de Anne?

— Na minha opinião, duas pessoas estão descartadas, pelo menos a princípio: Victor Krum e Lilá Krum, a irmã dele. E, já que estamos aventando hipóteses, eu diria que alguém poderia muito bem desejar ocupar o lugar de Anne. Afinal de contas, Victor , além de muito rico, é um homem bastante atraente.

Rony olhou bem para ela. Captara qualquer coisa no modo como Hermione dissera aquelas últimas palavras. E não gostara nem um pouco.

— Você o conhece? — perguntou, tentando afetar descaso.

— Victor? — Sorriu com ar sonhador, Rony constatou, enciumado, que ela nunca, nem por uma vez sequer, olhara para ele daquela maneira. — Acho que o conheço melhor do que ninguém — Hermione continuou, sem suspeitar o que se passava dentro dele. — Victor me ensinou a andar a cavalo, quando eu ainda era uma menina. Sempre teve paciência comigo. Apesar de ser onze ou doze anos mais velho do que eu, era o meu príncipe encantado, um dos homens mais bonitos que já conheci.

Ao perceber que estava com os músculos tensos, Rony procurou relaxar e dizer qualquer coisa.

— Mas agora você já está bem crescidinha para acreditar no príncipe encantado. — Sair com ironias era o único meio com o qual ele sabia se defender.

Notando o cinismo na voz dele, Hermione se voltou com um meio sorriso nos lábios.

— Você nunca se apaixonou, Ronald?

A pergunta pegou-o de surpresa. Ficou olhando para ela, es tudando aqueles olhos bonitos, querendo sentir o calor daquele corpo tão próximo ao seu. Se estivessem sozinhos, ele não responderia, mas arrancaria dos lábios de Hermione o beijo que andava desejando há muito tempo.

— Não — respondeu, afinal. Ela meneou a cabeça.

— Uma pena. Você não imagina como o amor suaviza o coração das pessoas. — Reclinou-se no encosto e suspirou diante das lembranças que retornavam à sua mente. Ela era apenas uma criança, na época, e, embora tivesse sonhos de contos de fadas, chegara a acreditar que um dia eles se realizariam. — Victor era muito importante para mim, o homem que preenchia todas as minhas fantasias de adolescente. Mesmo percebendo tudo, ele nunca zombou dos meus sentimentos e teve sensibilidade o bastante para não me tratar como uma criança. — Nesse ponto, Hermione ergueu as mãos e as deixou cair novamente no colo.

— Quando ele se casou, o meu coração ficou aos pedaços. — E virando-se para Rony: — Você sabia que Victor já foi casado antes?

— Mais tarde você me conta, meu anjo — Rony interrompeu, quando o táxi estacionou defronte ao distrito policial.

Hermione engoliu em seco e saiu do carro sem dizer nada. Como ele ousava ser tão grosso com ela? Saiu andando na frente en quanto Ronald pagava a corrida. Ele alcançou-a em seguida e segurou-lhe o braço de leve, um gesto que ela repeliu prontamente. Rony não insistiu, mas ficou sem entender o porquê daquela raiva repentina. Deu de ombros. Quem consegue entender as mulheres?

Transitando com desenvoltura por aquele local que, como repórter policial, ele conhecia tão bem, Rony conduziu Hermione para uma das salas. Olhou rapidamente em volta, sem prestar muita atenção aos que lá estavam: policiais, pessoas apresentando queixas, outras prestando declarações, enfim, o mesmo de todos os dias.

Uma mulher uniformizada acenou para ele, enquanto falava ao telefone. Rony sentou-se no canto da mesa e Hermione mante ve-se em pé, ao lado dele.

— Ronald Weasley! — exclamou a mulher, assim que desligou o telefone. — O que o trás de volta a este paraíso? — perguntou, com um sorriso alegre.

— Como vai, sargento?

— O número do meu telefone ainda é o mesmo, você sabia?— Foi a resposta que ela lhe deu, acompanhada de um olhar dos mais significativos.

— Pois é — comentou ele, sorrindo meio sem jeito. — O diabo do trabalho me toma muito tempo. Mas assim que houver oportunidade... — E, em tom mais sério, entrou no assunto: — Estou precisando da sua ajuda, sargento.

— Pode dizer. Se estiver ao meu alcance...

— Nós gostaríamos de dar uma olhada nos autos de um processo. Um caso que foi arquivado — acrescentou. — Eu, inclusive, já fiz uma reportagem a respeito.

Os olhos da mulher se estreitaram.

— Qual caso?

— Anne Krum.

— Acho que não vai ser possível, Rony. — E dirigiu o olhar para Hermione.

— Ah, perdão, esqueci de fazer as apresentações. Hermione Granger, sargento Carolyn Baker. Hermione e eu estamos trabalhando juntos — explicou. — Ela é uma velha amiga dos Krum. Por favor, sargento, o que vai lhe custar? Afinal, eu cobri esse caso desde o início...

— Por isso mesmo. Você já teve acesso aos autos.

— Nesse caso, não há mal algum em dar uma outra olhada, certo? — argumentou, abrindo um sorriso charmoso. — Você sabe que eu sou um profissional sério, Carolyn. Nunca divulguei informações que pudessem atrapalhar uma investigação.

— Eu sei, você sempre jogou limpo. — Ficou um instante refletindo e ergueu os ombros. — Pensando bem, acho que não haverá inconveniente, já que tudo o que consta nos autos desse processo chegou ao conhecimento público. — Levantou-se e saiu da sala.

— Você sempre trabalha desse modo, Ronald? — Hermione perguntou, com ar malicioso. — Não levou muito tempo para convencer o sargento.

Ele se voltou para ela e encarou-a com um sorriso divertido.

— Ciúme, querida? Não se preocupe, você sabe que o meu coração está nas suas mãos.

— Preferia que estivesse sob os meus pés.

— Malvada — murmurou, e o diálogo parou ali, pois o sargento acabava de voltar.

— Vocês podem usar a primeira sala à direita. Está vazia, por ora. — Abriu um livro e estendeu a Rony uma caneta. — Assine aqui, por favor.

— Fico lhe devendo essa gentileza, sargento.

Ela esperou que ele rabiscasse a assinatura.

— Pois esteja certo de que vou cobrar, ouviu?

Uma mulher interessante, o sargento Carolyn Baker, Rony pensou, enquanto ele e Hermione se dirigiam para a sala que lhes fora indicada. Uma morena bonita, simpática e atraente. Estranho que nunca pensasse nela. Nem em qualquer outra mulher, para ser mais exato. Somente uma lhe interessava. Alguém que há um ano se tornara o centro de seus pensamentos. Alguém muito especial.

— Sente-se. — Indicou a Hermione uma cadeira e fechou a porta, para que o barulho de fora não os perturbasse.

— Lugar acolhedor — comentou ela, ironicamente, enquanto corria o olhar pelas paredes brancas, um tanto encardidas e sem um único quadro a enfeitá-las. A mesa que ocupavam era grande e já bastante gasta pelo uso.

— O que você esperava? Um escritório acarpetado? Isto aqui é um distrito policial, minha cara. — Abrindo os autos, Rony correu os olhos apressadamente pelos diversos relatórios.

Ele até que se ajustava àquele ambiente, Hermione constatou, tomada por um certo respeito. Sob a superfície de homem espirituoso e de fácil convívio, existia uma certa rudeza, que ela tivera oportunidade de vislumbrar momentos antes no elevador.

Tentou esquivar-se daquele pensamento. Sentia-se mais segura ignorando as facetas que compunham a personalidade de Rony. Preferia continuar a vê-lo como um homem vazio e inconseqüente, insuportável sob todos os pontos de vista.

— Nada de novo por aqui — Rony murmurou, folheando os papéis. — O laudo médico atribui a causa mortais a envenenamento por picada de cobra, agravado pela ausência de socorro imediato. Não foram constatadas lesões no corpo nem evidências de abuso sexual. Hora provável da morte: entre duas e quatro. — Estendeu a folha de papel a Hermione, antes de passar para o relatório policial.

— Krum trabalhou até tarde no escritório — Hermione prosseguiu, resumindo os dados que tinha diante dos olhos. — Segundo ele, a esposa deveria estar dormindo no quarto do casal que ficava no segundo andar da casa. Por volta das duas horas da manhã, ao se recolher, descobriu que a cama estava vazia. Depois de procurar em vão por toda a casa, acordou a irmã e os empregados e todos se espalharam numa busca pelas imediações. — Distraidamente, Rony procurou por um cigarro e encontrou o invólucro vazio. Contrariado, amassou-o e deixou-o no cinzeiro.

— Não deram por falta de nenhuma peça de roupa nos armários — continuou. — Os carros estavam todos na garagem O telefonema ao distrito policial foi dado às duas e cinqüenta e sete. — Olhou para Hermione. — Quase uma hora depois de ele ter dado pela falta da mulher.

Ela ainda segurava o relatório da perícia médica e sentia as mãos ligeiramente úmidas.

— A casa é muito grande — explicou a Rony. — Eles só chamaram a polícia depois de terem revirado tudo. Ê um pro cedimento normal, concorda?

Ele pensou um pouco e afinal cedeu.

— É, acho que você tem razão. As pessoas só chamam a polícia quando têm certeza de que precisam dela. — Voltou a atenção para a folha e prosseguiu na leitura. — A polícia chegou às três e quinze. Depois de uma busca completa na casa, e tendo interrogado os empregados... — passou os olhos rapidamente por aquele pedaço e foi direto ao último parágrafo:

— ... o corpo de Anne Krum foi encontrado, por volta das seis horas, no lado sul do pântano. — Rony havia estado lá e lembrava-se perfeitamente do cenário escuro e sombrio e da sensação desagradável que experimentara ao andar pelo local

— Ninguém poderia supor que ela estivesse no pântano. De acordo com Lilá Krum, a cunhada tinha verdadeiro pavor daquele lugar. Isso bate com o que Gina nos disse — murmurou ele. — Victor Krum insistiu na história de ter trabalhada até tarde e recusou-se a dar mais explicações.

— Você alguma vez já encontrou a sua mulher morta? — Hermione reagiu, tirando-lhe a folha das mãos. — Victor não quis restar declarações porque ficou arrasado. Não vejo nada de anormal nesse procedimento.

Rony não deu atenção àquelas palavras e prosseguiu normalmente, meditando nas próprias palavras.

— A conclusão é a de que Anne se sentiu compelida a ir até o pântano, talvez para enfrentar o próprio medo, e acabou se perdendo. Foi picada por uma cobra venenosa, continuou andando, sem encontrar o caminho de volta, e desmaiou, morrendo em conseqüência da falta de socorro imediato. — Olhou para Hermione, que, com a testa franzida, lia o relatório policial.

—Você acha que tem suficiente intimidade com a família para que possamos ir até lá e fazer algumas perguntas?

— Hein? Ah, sim, tenho certeza de que não haverá problemas. Eles me receberão. E a você também — acrescentou —, se espalhar um pouco do seu charme. O que, aliás, você parece ter prazer em fazer.

Ele curvou os lábios num sorriso malicioso.

— Não pensei que você fosse tão observadora.

— Como não posso notar algo tão acintoso?

— Por favor, Hermione, elogios me deixam embaraçado. — Com ar de pouco-caso, ela deixou o relatório de lado.

— Victor deve ter passado por maus bocados. Ele nunca foi de muitas palavras e se tornou ainda mais fechado depois do fracasso do primeiro casamento. Entretanto, acho que comigo ele vai se abrir. Sempre tivemos um bom relacionamento.

— Ouvi dizer que a primeira mulher fugiu com o irmão dele — Rony comentou vagamente.

— Pobre Victor. Ele sofreu muito. — Continuou a folhear os autos, enquanto Rony olhava para o teto, imerso em pensamentos.

De súbito, Hermione perdeu a cor. Deus, o que era aquilo?perguntou-se, sem poder desviar os olhos da foto, anexada aos autos do processo. Anne Krum... A imagem apavorante da morte.

— Há quanto tempo você... — Rony parou de falar, quando viu a fisionomia de Hermione. Estava lívida, os olhos cheios de horror. Compreendendo o que se passava, tirou-lhe rapidamente a foto das mãos. — Hermione, você está bem?

— A... acho que sim. — Mas não estava tão certa disso. Respirou fundo, esforçando-se para fazer a vertigem passar. Quando os braços de Rony a envolveram, ela deixou a cabeça descansar nos ombros dele. — Sinto muito. Acho que estou sendo ridícula.

— Claro que não. — Com movimentos lentos e suaves, ele começou a afagar-lhe os cabelos. — Está melhor agora?

Ela fez que sim. Sentia-se segura ali. Aos poucos, os músculos tensos foram se relaxando. Rony continuava a acariciá-la suavemente, procurando oferecer-lhe conforto. Como era bom... Hermione fechou os olhos e murmurou, aninhada nos braços dele:

— Ronald.

— Hum?

— Não seja tão bonzinho comigo.

— Por que não? — perguntou, sorrindo.

— Porque eu não quero. — Afastou-se um pouco e ergueu os olhos para ele.

— Você é linda, Hermione— Rony confessou, num sussurro, segurando-lhe o rosto com ambas as mãos. — Já lhe disse isso antes?

Delicadamente, ela fugiu daquele contato e se pôs de pé.

— Não — respondeu. — Eu geralmente tomo nota dessas coisas — acrescentou, em tom de brincadeira.

— Linda — repetiu ele — ainda que o queixo seja um pouco pronunciado.

— Não é, não. — Automaticamente virou o rosto de lado.

— Especialmente desse ângulo.

— Eu tenho traços muito delicados — afirmou, enquanto apanhava a bolsa. Droga, por que os dedos tremiam? Era melhor sair de lá o quanto antes. Precisava de ar puro.

Rony se levantou também.

— Você é linda, com exceção do queixo — continuou, ainda a provocá-la. E, sorrindo, passou-lhe o braço pela cintura.

Estavam a um passo da porta quando Hermione parou e olhou fixamente para ele, uma nuvem obscurecendo-lhe o semblante.

— Ronald... Ninguém merece uma morte como aquela.

Ele não disse nada, apenas aumentou a pressão dos dedos sobre a cintura dela.


Mais um capítulo.É realmente um mistério se formou... Quem matou Anne Krum?

Espero que tenham ários me deixam muito feliz.