- Sigam-me – Disse, ferozmente. Sem hesitar, todos vieram. Seguimos para o outro lado da mansão, à esquerda do salão de festas e nos distanciando da porta por onde entramos. O cheiro ficava cada vez mais forte. Eu estava indo para o lugar certo.

Nos deparamos com um bocado de arbustos, que formavam uma espécie de labirinto. Entramos formando uma fila. Eu, Peeta, Gale, Pollux e Finnick. Andamos por entre os arbustos verdes com flores brancas, que podiam confundir qualquer um, mas não a mim ou à minha determinação. O cheio ficava cada vez mais forte, e eu sabia para onde estava indo. Atravessamos o labirinto e lá estava ela. A estufa do presidente Snow.

Adentramos por uma longa porta de vidro e sentimos o calor, tão contraditório ao frio que estava fazendo lá fora. Começamos até a suar, e só piorava o cheiro das rosas. E do sangue, que estava aumento em proporções escandalosas. Ou talvez seja só na minha mente, porque não havia nenhum cadáver aqui. Apenas rosas, lindas rosas de todas as cores. E, no centro da estufa, lá estava ele, sentado em uma cadeira de balança.

- Eu estava esperando você chegar, Tordo – Disse, ainda de costas, mas logo se virou para continuar seu discurso – queria te contar algumas coisinhas antes que você coloque uma de suas flechas em minha cabeça.

- Não quero escutar nada que venha de você – eu disse, com muita raiva na voz. Aquela serpente, sentada bem ali na minha frente, era a responsável por tanto sofrimento. E não, eu não queria escuta-la tentar fazer minha mente. Não, eu não queria ouvir quaisquer propostas. Eu não queria negociar com o diabo, por assim dizer. Agora estava sozinha com ele, pois Peeta estava tendo um ataque, tampando os ouvidos como Annie fazia quando se sentia mal. Gale está o segurando, relativamente longe de mim e Snow, que continua:

- Eu só quero me certificar de que você também não esteja tão iludida, como muitos outros. Bem, meu grande erro foi ter sido lento demais para entender o plano de Coin. Entender que o que ela queria era apenas ter o meu lugar. E o que ela fez para conseguir isso foi muito inteligente e, ao mesmo tempo, muito simples. Deixou que os distritos enfrentassem a Capital e perdessem seus homens enquanto o 13 ficava imune, sem nenhum arranhão. Afinal, não foi exatamente esse distrito que iniciou uma rebelião que levou aos Dias Escuros e depois abandonou os demais distritos? Sim... Mas eu não estava acompanhando os movimentos de Coin. Eu estava muito preocupado com os seus, com o Tordo. Acho que nós dois fomos feitos de bobos.

- Você está mentindo! – eu grito, incrédula.

- Ah, minha querida srta. Everdeen. Achei que havíamos acordado em não mentir um para o outro.

Ele está certo. Ele está falando a verdade. Suas palavras às vezes podem envenenar e convencer as pessoas a acreditarem no oposto do que elas acreditam, mas seus olhos não mentem. Eu consigo ver que aquilo é verdade. No fundo, eu sempre desconfiei. Eu nunca confiei no distrito 13. Estamos em uma guerra sem um lado bom e um lado ruim, mas com dois lados que querem o poder. Eu deveria ter percebido isso antes.

Mas agora não é hora de se virar contra ele, se não pode não restar ninguém. Eles têm minha mãe e Prim. Minha doce Prim, a pessoa que mais amo nesse mundo. Não, não posso correr o risco de perdê-la. Não vou me voltar contra o 13, não agora. Agora é hora de vencer o nosso principal inimigo nesses últimos anos. E esse inimigo é Snow, é a Capital, que levava nossas crianças para morte, que nos deixava passar fome, que nos tratava como escravos para suprir seus luxos. Apontar os defeitos do distrito 13 não diminui sua culpa, muito menos meu ódio por ele.

- Você tem razão, Snow. O 13 quer tomar o lugar da Capital, e para isso deixou os outros distritos lutarem enquanto ele saía ileso. - digo

- Fico feliz em tê-la alertado – ele responde.

- Mas você cometeu apenas um erro – ele levanta seus olhos para mim, assustado e se indagando. Que erro seria esse? – Foi ao assumir que eu fui feita de boba. Não, eu nunca confiei no 13, desde o início. E não, eu não vou deixa-los vencer – Ele levantou seu rosto, agora me olhando com tanta profundidade que dava pra sentir uma beliscada na alma. E então, abre um sorriso. Aumentando o cheiro de sangue no local. Mas sou eu quem continua falando, agora cortando sua felicidade em pedacinhos – Mas também não vou deixar você vencer. Não depois de tudo que você fez.

E enfio uma flecha em sua cabeça.

Ele cai, quase que instantaneamente morto. O fim do opressor. Pelo menos de um dos opressores. O que isso representa para os distritos. Representa que sim, uma pequena garota conseguiu vencer o grande pesadelo que nos assolou durante tantos anos. Isso dá aos distritos força, isso os dá esperança. É isso o que eu sempre signifiquei. Esperança. E agora consegui uma coisa que tanto sonhei há algum tempo atrás. Ah, quem me dera se tudo fosse terminar aqui. Agora, ainda tenho que enfrentar uma provável opressão do 13, se tudo o que Snow disse foi verdade. E, sinceramente, eu acredito que de fato, foi. Eu teria que colocar o 13 nos trilhos ainda.

Olho ao meu redor. Peeta já parou de se debater, e me olha fixamente. Gale também, perplexo, apesar de não ter soltado os braços de Peeta. Pollux estava com as mãos em sua câmera, filmando tudo, e com um sorriso no rosto. Finnick, o tão forte Finnick, não sorri. Mas vejo uma lágrima descendo em seu rosto. Ele pensa que tudo acabou agora. Queria poder vivenciar essa felicidade também.

Mas outra coisa chama minha atenção. Peeta, ele volta a se debater e agora grita: - Katniss! Ela é um bestante! Ela matou Snow, e agora o próximo sou eu! Me deixe ir! Me solta, Gale!

Eu corri em direção a eles. Peeta estava cada vez mais amedrontado, e Gale com certeza pensava que o que eu estava fazendo era errado. Que não deveria me aproximar deles. Mas continuei. Quando me aproximei, Peeta já não conseguia mais gritar. Apenas me olhava, como se a morte estivesse tão próxima que seria impossível fugir. Mas é claro que não vou mata-lo. Eu pego a pérola que estava em meu bolso e em seguida a coloco em sua mão.

Há um choque. No início, ele olha aquilo sem entender. Mas depois, as lembranças vêm. Agora ele se acalmou, está olhando fixamente para a pérola, e tenho a impressão de que, talvez, possa ter o antigo Peeta de volta.

- Gale, você poderia nos deixar a sós um momento? – Ele me olha meio contrariado, mas entende.

- Se precisar de mim, é só chamar – diz, enquanto se afasta.

Volto minha atenção para Peeta, que agora levanta os olhos da pérola para mim.

- Eu dei essa pérola pra você no Massacre Quaternário. Verdadeiro ou falso? – ele pergunta.

- Verdadeiro.

- Quando a gente estava nessa arena eu queria te salvar. Verdadeiro ou falso?

- Verdadeiro

- E você, você também queria me salvar. Verdadeiro ou falso?

- Verdadeiro. Eu estava decidida a fazer isso de qualquer maneira, você quisesse ou não.

- E, uma noite, quando estávamos montando guarda... Eu disse que você tinha pessoas que se preocupavam com você, mas eu não. Por isso eu deveria morrer...

O interrompi, continuando seu raciocínio: - E eu disse que eu precisava de você.

Seus olhos ficaram úmidos nesse mesmo instante. Ele estava se lembrando. Ele estava percebendo que aquilo, aquele momento tão nosso, era real. A capital deve ter se esquecido de usar aquele momento? Não. Eu duvido disso. Eu acho que eles podem ter deturpado esse momento também. Mas se esqueceram de pérola. Eles não tinham esse objeto para lhe retirar todo o significado que estava trazendo à Peeta agora. Não, essa lembrança eles não podiam tirar. Então, ele perguntou:

- Você ainda precisa? De mim?

- Claro que sim! – falei soltando um sorrisinho choroso. Como ele não percebia, depois de tudo que eu fiz para mantê-lo vivo, que eu o queria do meu lado? Aliás, que eu precisava dele ao meu lado. Exatamente como Gale falou na noite anterior... Será que eu precisava dele para sobreviver? Acho que sim... – Eu preciso de você, Peeta. Por favor, volta pra mim?

Ele abriu um sorriso enquanto uma lágrima descia, e disse: - Estou de volta, Katniss.

Nos abraçamos. Foi o melhor abraço que eu tinha recebido nos últimos tempos. Ele estava de volta, meu aliado, meu companheiro. Ele não havia desistido. Eu precisava dele, e ele precisava de mim.

- Você não acha mais que sou uma bestante, que quero mata-lo, que tentei mata-lo? – pergunto, rindo.

- Eu sei que não – ele responde, rindo mais ainda, mas ficando sério em seguida – Parece que eu estava envenenado. Como fiquei na primeira arena quando as teleguiadas me picaram. Agora não, está tudo tranquilo. Me lembro de tudo, estou limpo. Só me lembro que Beete estava tentando eletrocutar a arena, e depois que acordei no distrito 13. O plano dele deu certo?

- A história é um pouco mais complexa – respondo, sorrindo – mas vou te explicar tudo assim que os rebeldes assumirem completamente a Capital. Prometo. Agora precisamos ir. Nos esconder, talvez. Antes que os Pacificadores nos encontrem, com Snow morto ao lado.

Me levantei. Mas Peeta segurou meu pulso.

- Katniss? – ele perguntou, enquanto eu olhei para saber do que se tratava aquilo – Você tem sentimentos por mim. Verdadeiro ou falso?

- Verdadeiro - respondi enquanto sorria e estendia uma mão para ajuda-lo a levantar-se. Ele também sorriu, genuinamente. Fomos até Gale, Finnick e Pollux, que estavam conversando sobre o que fazer agora que Snow estava morto.

Finnick disse que deveríamos ficar ali mesmo. Se aparecesse um ou outro pacificador, atiraríamos neles. Mas não compensava sair de lá, já que provavelmente os rebeldes já deveriam estar quase dentro da mansão e logo nos achariam.

Foi o que aconteceu. Não passaram nem cerca de 20 minutos da conversa e rebeldes entraram pela estufa. Quando nos encontraram, vieram diversos gritos de alegria. Havíamos vencido a Capital. Os distritos, tão maltratados durante tantos anos, conseguiram dar a volta por cima.

Logo já havia muitos rebeldes, e estávamos em uma sala dentro da mansão com muitas outras pessoas comemorando, enquanto Pollux provavelmente tinha ido ajudar o pessoal com as filmagens. Mais tarde, quando estivesse tudo pronto, todas as televisões de toda Panem mostrariam imagens dos rebeldes invadindo a Capital, da minha flechada em Snow e, enfim, das comemorações. Era dia de festa. Estava tão animada que nem conseguia pensar no meu próximo possível inimigo, o distrito 13. Eu havia me permitido esquecer isso, pelo menos nessa noite.

Estávamos todos ali, em festa, na mansão do presidente. Comida, risos, alegria. Prim e minha mãe chegaram, e agora eu tinha a convicção de que estávamos todos salvos. Até Gale, que sempre achei ousado demais para conseguir sobreviver a isso tudo. E até Peeta, que agora havia voltado. Sem mais fome, sem mais torturas, sem mais Jogos Vorazes. A septuagésima sexta edição dos Jogos havia terminado com mais vencedores do que eu sempre sonhara.

E o melhor de tudo é que não era uma daquelas festas fúteis da Capital, como a que fui com Peeta depois de ter nosso casamento anunciado. Era uma festa simples, todos se vestiam simples. Eu ainda estava com aquelas roupas ridículas da Capital, mas pouco importava. Eu estava feliz. Feliz de verdade, como me senti pouquíssimas vezes na vida.

Gale estava conversando com alguns colegas de guerra que deve ter conhecido no 13. Peeta e eu estávamos com Annie e Finnick, dançando como se não existisse mais nenhum problema no mundo. Vez ou outra nos abraçávamos e deixávamos escapar uma lágrima. Mas agora as lágrimas eram de alegria. A essa altura, imagino que as imagens já tenham passado na TV. Mas eu não estava me preocupando com isso. Estava tudo muito bom.

Reencontrei Madge! Fiquei muito feliz em revê-la depois de tanto tempo sem saber o que havia acontecido com ela. Ela ficou o tempo todo aqui na Capital, na casa de um amigo do seu pai. Está imune, sem ferimentos, e feliz com o final da guerra. Ficamos um bom tempo juntas, até que Gale se aproximou. Ele veio agradecer os analgésicos de sua mãe, que ela gentilmente ofereceu quando ele havia levado aquela surra de um dos pacificadores. Ela sorriu e proferiu um agradecimento abafado. Nunca soube que ela simpatizava com ele. Achei que entre eles sempre existiu uma rixa. Mas talvez seja exatamente o mesmo tipo de inimizade que eu tinha com Peeta antes dos primeiros Jogos. A inimizade de saber que a gente não daria certo, porque a nossa situação não permitia. Uma inimizade de quem busca enxotar o outro, querendo na verdade é que ele fique por perto. Será?

E a festa seguiu até o dia amanhecer. Assistimos ao nascer do sol pela janela do salão de festas, a mesma que Peeta havia comentado mais cedo, que dava para o jardim. Enquanto assistíamos àquela bela visão, que estava ainda mais bela nas dadas circunstâncias, Peeta pegou minha mãe e sorriu. Eu sorri de volta. E foi apenas isso. Depois, estávamos todos muito cansados, e fomos dirigidos a belíssimos aposentos na mansão. Caí e dormi feito um anjo.