O Aniquilador
Capítulo 3

Sentimentos

Tails havia acabado de reparar os danos na asa do avião causados por Annihilator. O dano não foi grande, nada que ele não pudesse consertar com as ferramentas que sempre carregava. A lataria do avião continuava manchada e chamuscada, devido à proximidade com as chamas, mas isso ele poderia ajeitar quando retornasse à sua oficina. Ele olhava transtornado para o horizonte, preocupado com o que teria acontecido com Sonic. Não sabia se ligava o avião e procurava por ele ou se esperava que ele voltasse. Optou por esperar, afinal, não sabia se eles poderiam ter mudado de rumo, não teria como saber em que direção Sonic estaria correndo agora. Tails suspirou. Aquela não era a primeira vez em que ele ficava incapacitado de tomar algum movimento por não saber o paradeiro do amigo. De fato, aquilo era bem corriqueiro. Foi então que lhe ocorreu uma idéia.


Sonic corria preocupado. Aquele robô realmente parecia forte, Sonic tinha levado uma boa surra. Mas ele não podia desanimar por causa disso, tudo dependia das circunstâncias. Ao longe, no topo de uma pequena colina, avistou Tails e o Tornado.

- Oi, Tails, tudo bem com você? Aconteceu alguma coisa enquanto eu o perseguia? – perguntou Sonic enquanto parava.

- Não, nada de interessante, apenas consertei o Tornado. Vamos, suba logo e vamos voltar à minha oficina que eu preciso fazer uma coisa.

Sonic pulou novamente na plataforma sobre o avião enquanto Tails ligava o motor e partia. Já no ar, Tails se lembrou de perguntar:

- Então, você alcançou o robô?

- Não, ele se recusou a descer para batalhar. Estava batendo em retirada a toda a velocidade e não entendo o porquê. Acompanhei ele por um bom tempo, mas ele chegou no mar e eu tive que voltar.

- Muito estranho esse comportamento. Tem certeza que não era o Metal Sonic?

- Ele disse que não era, porque eu duvidaria? – falou Sonic, levantando os ombros com cara de desinteresse – Sendo ele ou não, continua sendo uma máquina do Eggman e devemos tomar cuidado. O Eggman é um fracassado, mas às vezes faz algo que preste.

Depois de um certo tempo voando num céu quase limpo, sem nuvem alguma, finalmente avistaram a oficina do Tails. Ele pousou cuidadosamente o avião e desceu dele. Quando Sonic saltou ao seu lado, ele falou:

- Ótimo, agora eu tenho trabalho a fazer. Me dê seus sapatos.

- Meus... Sapatos?


Bem longe dali, o ambiente em que Annihilator se encontrava era completamente diferente. O ar estava gelado e pesado em volta e o céu estava coberto de nuvens plúmbeas que encobriam quase que completamente um distante pôr do Sol. Annihilator se aproximava do continente gelado do sul, cortando o ar com um zunido em alta velocidade. Logo começou a avistar lindos fiordes e enormes desfiladeiros. Estava se aproximando das coordenadas marcadas, porém não via nada além de neve e gelo. Passou a usar seu sensor de calor para registrar alguma atividade em meio àquela imensidão gelada. Não conseguiu captar nada que não pequenos animais nativos do lugar. A base provavelmente seria isolada termicamente. Estava exatamente nas coordenadas que Robotnik enviou, sabia que a base ficaria em algum lugar abaixo dele, mas não conseguia encontrá-la. Foi então que, mais à sua frente, o que parecia ser a parede de um penhasco coberto de gelo se moveu, revelando um hangar de metal suficientemente grande para que um avião de médio porte pousasse. Annihilator seguiu em direção à entrada.


- Anh... Eu não sei. Eles parecem diferentes.

- Ah, deixe disso, Sonic. Apenas coloquei micro-rastreadores nele, assim sempre saberei onde você está e poderei ajudar mais. Além de que evitará costumeiros desencontros. – Tails parecia levemente alegre, porém uma certa decepção ainda pairava em seu rosto – Além do mais, me certifiquei de não alterar o espaço interno deles, não tem como estarem diferentes. Mas... Você tem certeza?

- Sobre o quê, Tails?

- Sobre você não querer esses outros sapatos. Eu já vinha trabalhando neles a algum tempo. – Tails segurava dois sapatos, aparentemente iguais aos que Sonic calçava no momento, com uma expressão esperançosa.

- Anh... – Sonic parecia desconcertado – Você sabe que meu negócio é terra firme. E sapatos com propulsores não me parecem tão boa idéia assim.

- Mas não tem problema! É só você aprender a controlar os propulsores para evitar incidentes como o anterior!

Mais cedo, Sonic testara os sapatos com propulsores que Tails havia desenvolvido. O resultado não foi muito satisfatório, Sonic não conseguiu que os jatos impulsionassem cooperativamente e acabou perdendo o controle do vôo, o que resultou numa dolorosa queda.

- Além de que eles evitariam situações como as de hoje, em que você não pôde completar algo por não poder sair do chão. - completou Tails.

- Talvez em outra oportunidade, Tails. Está anoitecendo e eu preciso fazer algo antes de dormir. – falando isso, virou-se de costas e mostrou que Tails poderia estar errado ao sair quase voando da oficina.

- Mas eu trabalhei tanto neles... – falou Tails em voz baixa enquanto abaixava a cabeça, desanimado, e se virava para guardar seu invento. Numa mesa próxima, a tela de um pequeno rastreador mostrava um ponto se movendo muito, muito rápido.


Assim que adentrou a base, o portão atrás de si se fechou. O local estava completamente escuro, mas Annihilator conseguia enxergar mesmo com a mais ínfima luz. O lugar não só parecia, mas de fato era um hangar. No centro dele, estava pousado um avião vermelho. Annihilator percebeu que o avião possuía várias turbinas, devia se locomover a uma velocidade incrível, além de também possuir algumas armas leves pra uma possível ocasião de combate. A parte dianteira do avião tinha uma forma bastante peculiar, remetia ao nariz de seu construtor. Não era nada aerodinâmico e Annihilator não viu nenhuma explicação para aquilo senão um capricho de Robotnik.

Ao lado do avião estava uma pequena nave para uma pessoa. Tinha o formato da metade inferior de um ovo com vários comandos em seu interior. Era provavelmente o principal e mais útil meio de transporte de Robotnik, o qual ele chamava de Eggmobile. Mais à frente, no fundo do hangar, havia uma porta.

Assim que se aproximou da porta, ela se abriu. No outro lado havia um longo corredor com inúmeras portas laterais e mais uma no fim dele. A porta no fim do corredor também se abriu, indicando que era para lá que ele deveria ir. Atravessou o corredor e adentrou a sala subseqüente. Era mais um laboratório, tão grande quanto o outro. As luzes estavam apagadas, assim como a maioria dos outros dispositivos na sala. A única fonte de luz na sala era o monitor do único computador que estava ligado, em frente ao qual Robotnik descansava pesadamente em uma poltrona. Assim que Annihilator entrou no laboratório e a porta se fechou atrás dele, Robotnik falou:

- Você falhou.

- Mestre Robo...

- Diga-me qual a sua missão.

- Aniquilar máquinas inúteis que não lhe servem mais.

- Qual seu alvo principal?

- Metal Sonic.

- O que aconteceu na batalha entre vocês dois?

- Metal Sonic fugiu.

Nesse momento Robotnik parou um pouco. Estreitou os olhos, mesmo que Annihilator não pudesse ver esse gesto e mais nada além de sua silhueta na sala escura, e falou vagarosamente:

- Fugiu ou você não conseguiu vencê-lo?

- Eu sou claramente superior a ele e possuía vantagem na batalha. Mas ele fugiu. Ele possuía uma esmeralda e usou aquilo que chamam de Chaos Control.

Robotnik se levantou repentinamente e socou alguma parte do computador à sua frente. O som metálico da pancada ressoou pelo recinto ao passo que Robotnik falava, se controlando para não gritar:

- E agora ele tem duas esmeraldas. Passou por aqui depois que VOCÊ não conseguiu vencê-lo e levou a esmeralda que deveria estar em SUA posse! – ele falou, se preocupando bastante em acentuar as palavras. – Você não deveria ter sido precipitado e atacado daquele modo... – Naquele ponto ele não suportou mais e começou a gritar. – ARGH! Pensei que você fosse a solução para os problemas e você comete esses erros!

Annihilator não esboçava reação alguma àquela repreensão. Talvez porque sua face de metal não permitisse isso, mas dentro de si algo doía. Não era o fato de ter que aturar aquele sermão, mas o fato de ter falhado em sua missão quando teve chance que o fazia sentir assim. Era uma sensação nova, estranha, que ele obviamente não estava programado para conhecer, já que não a identificava. Quando retornou a falar, sua voz estava inalterada, continuava descansada, mesmo diante da explosão de Robotnik.

- Desculpe-me, mestre, na próxima vez será diferente.

- Desculpas não adiantam, o que está feito está feito. Agora deixe de perder tempo aqui e vá logo cumprir suas missões. O alvo mais próximo daqui está em Isolated Island. Vá logo e se preocupe em achar uma Chaos Emerald rapidamente. Metal Sonic detém uma grande vantagem enquanto você não tiver nenhuma.

Annihilator acenou positivamente com a cabeça, deu as costas a Robotnik e foi caminhando em direção à porta. Atravessou o corredor e quando chegou ao hangar o portão já estava aberto. Quando escutou o estampido da decolagem dele, Robotnik levou as mãos às têmporas e as massageou vagarosamente enquanto soltava um suspiro interminável. Depois de recuperar algum ar, falou em voz alta, mesmo que não houvesse ninguém ali para escutar:

- Eu preciso mesmo encontrar outra ocupação...


Annihilator voava em direção a Isolated Island, onde deveria estar Mega Metal Sonic. A imagem do grande robô vermelho com presas ameaçadoras lhe veio à memória. Atrás de si, distanciavam-se os fiordes e o gelo, as planícies brancas e sua tundra, distanciava-se o continente gelado. O mar se estendia à sua frente. Uma nova sensação estranha o invadiu, mas essa era diferente da anterior, ele gostava dessa. Annihilator sentiu vontade de descer e tocar a água. À medida que se aproximava da superfície do mar, o vácuo atrás de si abria uma grande fenda no líquido. Enormes paredes d'água se erguiam e caiam novamente como uma chuva rala que ficava bem para trás. Mal Annihilator tocou na água, seus sensores indicaram a presença de um pedaço de terra mais à frente. Um pedaço de terra e nada mais por muitos e muitos quilômetros em todas as direções. Era a única coisa dentro de uma distância inimaginável, um bom motivo para aquele pedaço de terra ser chamado de Isolated Island. Era para lá que Annihilator se dirigia.